Danielle carvalho ramos


De Narciso, a primordial tendência suicida



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4.1.1 De Narciso, a primordial tendência suicida
Qual a função do narcisismo na construção de um mundo objetal? Qual a sua função para o estabelecimento das relações com o objeto? É para essas questões que Lacan (1956-1957/1995) nos chama atenção. É mister reconhecer essa função que nos ajuda a refletir sobre o que concerne à relação de objeto na discussão do aleitamento materno exclusivo.

Então, ao texto À guisa de introdução ao narcisismo. Nele, Freud (1914/2004) fala do autoerotismo como um estado inicial da libido, sendo o narcisismo uma fase intermediária entre o autoerotismo e o amor objetal. O narcisismo trata-se, portanto, de um modo de escolha objetal que sucede o autoerotismo. Sobre isso, Freud nos diz:


É uma suposição necessária a de que uma unidade comparável ao Eu não esteja presente no indivíduo desde o início; o Eu precisa antes ser desenvolvido. Todavia, as pulsões auto-eróticas estão presentes desde o início, e é necessário supor que algo tem de ser acrescentado ao auto-erotismo, uma nova ação psíquica, para que se constitua o narcisismo (FREUD, 1914/2004, p. 99).
Antes do narcisismo não há relação de objeto, visto que, somente a partir dele, se constitui uma primeira ideia de objeto fora de si e de objeto igual a si. Antes, só há uma desorganização original, sendo apenas mediante processos identificatórios que o eu se constitui, os quais conferem, em uma operação de síntese, alguma unidade, alguma organização a um corpo anteriormente caótico e diverso. Como nos diz Freud (1914/2004, p. 99), “somente quando passa a ocorrer um investimento nos objetos é que se torna possível distinguir uma energia sexual, a libido, de uma energia das pulsões do Eu”.

Sobre o estádio (ou fase) do espelho, que ao narcisismo equivale, em Formulações sobre a causalidade psíquica, Lacan (1946/1998, p. 186) diz que seu objetivo “foi evidenciar a conexão de um certo número de relações imaginárias fundamentais num comportamento exemplar de uma certa fase do desenvolvimento”, no comportamento da criança diante de sua imagem no espelho.

Trata-se do instante que concerne ao reconhecimento do bebê de sua própria imagem – acontecimento que se dá a partir dos seus 6 meses –, o qual não se manifesta sem uma expressiva assunção jubilatória do bebê ante a imagem refletida. Implica, conforme Lacan (1949/1998, p. 97), no resgate de “um aspecto instantâneo da imagem” pela criança, sendo, portanto, o estádio do espelho, uma identificação por ele definida como “[...] a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”.



É então como um caso particular da função da imago que, a nós, a função do estádio do espelho se revela, a saber: “[...] estabelecer uma relação do organismo com sua realidade – ou, como se costuma dizer, do Innenwelt com o Umwelt” (LACAN, 1949/1998, p. 100). Quanto a isso, Lacan (1946/1998, p. 182) ainda afirma que “[...] o primeiro efeito que aparece da imago no ser humano é um efeito de alienação do sujeito. É no outro que o sujeito se identifica e até se experimenta a princípio”. É diante do espelho que há o apelo da criança pelo reconhecimento da imagem, quando, ao se voltar para quem a segura, recorre, com o olhar, a esse testemunho (LACAN, 1960a/1998, p. 685).

A função do estádio do espelho é, portanto, uma função de imagem que, no entanto, carece de um outro olhar que a testifique. A busca por esse testemunho denuncia o modo pelo qual a imago, a imagem, produz um efeito de alienação, que, como vimos, prefigura a dependência do ser humano ao campo do Outro. Isto porque, como afirma Lacan (1954-1955/1985, p. 313), o eu tem um “caráter fundamentalmente especular, alienado”.

Aí se impõe como essencial ao fenômeno de constituição do eu o que Lacan (1954-1955/1985, p. 70) chamou de “fascinação”, uma vez que nessa qualidade – de fascinada – “[...] a diversidade descoordenada, incoerente, da despedaçagem primitiva adquire sua unidade”. No entanto, trata-se de uma unidade ideal que lhe escapa a todo instante, que não pode ser atingida, o que demarca o quão inauguralmente lesada é a relação do homem com o mundo (LACAN, 1954-1955/1985).

É nesse sentido que a função do estádio do espelho implica uma relação que, no homem, é alterada “[...] por uma discórdia primordial que é traída pelos sinais de mal-estar e falta de coordenação motora dos meses neonatais. [...] uma verdadeira prematuração específica do nascimento no homem” (LACAN, 1949/1998, p. 100, grifo do autor). Assim, essa fase é reveladora de um problemático dinamismo libidinal, na medida em que há no homem “uma insuficiência orgânica de sua realidade”, a qual, na captação espacial, pode ser então reconhecida (LACAN, 1949/1998, p. 99).

O que Lacan (1938/2002) destaca é que esses seis primeiros meses do homem são dominados por um tom penoso, por primordiais mal-estares cuja causa é uma adaptação insuficiente à interrupção do parasitário equilíbrio da vida intra-uterina em suas peculiares condições de ambiente e de nutrição. Tais mal-estares simplesmente coadunam-se com o já mencionado trauma do nascimento, que, vimos, é nada menos do que a aspiração de um meio Outro, é tão somente a própria alienação.

Um outro dado importante é que o estádio do espelho, a despeito de referir-se a um determinado momento, extrapola o próprio instante a que concerne, sendo ainda paradigmático de um mais além. É o que Lacan, aqui, nos apresenta na definição:
O que é o estádio do espelho? É o momento em que a criança reconhece sua própria imagem. Mas o estádio do espelho está bem longe de apenas conotar um fenômeno que se apresenta no desenvolvimento da criança. Ele ilustra o caráter de conflito da relação dual. Tudo o que a criança aprende nessa cativação por sua própria imagem é, precisamente, a distância que há de suas tensões internas, aquelas mesmas que são evocadas nessa relação, à identificação com essa imagem (LACAN, 1956-1957/1995, p. 15-16, grifo nosso).
Por revelar esse conflito, depreende-se que o estádio do espelho não é somente um momento de júbilo, nem apenas um fenômeno de uma fase. O que fundamentalmente insinua no dado instante em que se apresenta, na imagem outra da imagem própria, no não-eu de si mesmo que ali emerge, é esse caráter próprio ao que é do imaginário.

A forma total do corpo, pela qual, numa miragem, o sujeito antecipa “a maturação de sua potência”, e que só lhe é dada numa exterioridade – porém, em uma imagem modificada, disforme, ambígua, uma vez que implica uma turbulência de movimentos sobre a qual o sujeito não tem controle –, tal imagem total, ortopédica, mediada pelo Outro, antecipadamente simboliza, portanto, na identificação, o destino da alienação ao Outro (LACAN, 1949/1998, p. 98). Trata-se de uma espécie de armadura da “identidade alienante” com a qual, rigidamente, será marcado todo o desenvolvimento psíquico; essa é a cifra do destino mortal do sujeito (LACAN, 1949/1998, p. 100)40.

Acerca dessas considerações, Lacan (1957-1958/1999) fala-nos que a prematuração específica do nascimento do homem abre uma hiância no imaginário que, em sua própria imagem, o aliena; uma fragilidade constitutiva que faz o homem vislumbrar sua mortalidade. E ao apontar para o caráter oral da relação de objeto imaginária, destaca que, se nesta relação há identificação, há, portanto, em sua conclusão, fantasia de incorporação. Lacan pontua que o que a psicanálise denominou de narcisismo é o nó imaginário que é absolutamente essencial, porquanto
É nesse nó que reside, com efeito, a relação da imagem com a tendência suicida que o mito de Narciso exprime essencialmente. Essa tendência suicida, que representa em nossa opinião o que Freud procurou situar em sua metapsicologia com o nome de instinto de morte, ou ainda de masoquismo primordial, decorre, para nós, do fato de que a morte do homem, muito antes de se refletir, aliás de maneira sempre ambígua, no pensamento, é por ele experimentada na fase de miséria original que ele vive [...] (LACAN, 1946/1998, p. 187-188, grifo do autor).
Há, portanto, uma estreita relação entre o narcisismo (o estádio do espelho) e a pulsão de morte, o masoquismo originário. É no nó imaginário – ao qual Lacan (1949/1998, p. 103) se refere como o “nó de servidão imaginária” – que reside a relação da imagem com a tendência suicida. Há, pois, um mortífero no narcisismo e isso, de fato, o próprio mito já nos revela; no cerne do amor por si, a mensagem codificada é a dessa tendência suicida de uma fase de miséria original do homem, tão bem demarcada por Lacan que a situa inclusive nos termos freudianos. Fala, ainda, de uma intrusão:
[...] enquanto sofre essa sugestão emocional ou motora, o sujeito não se distingue da própria imagem. Mais do que isso, na discordância característica dessa fase, a imagem só faz acrescentar a intrusão temporária de uma tendência estrangeira. Chamemo-la intrusão narcísica: a unidade que ela introduz nas tendências contribuirá, entretanto, para a formação do eu. Mas, antes que o eu afirme sua identidade, ele se confunde com essa imagem que o forma, mas o aliena primordialmente (LACAN, 1938/2002, p. 38).
A formação do eu está condicionada à intrusão desta tendência estrangeira que o sujeito está traumaticamente destinado a aspirar e que, na unidade, faz com que ele se confunda com a imagem. Com isso, Lacan (1946/1998, p. 188) nos diz que o Eu primordial (alienado) e o sacrifício primitivo (suicida) estão ligados no início do desenvolvimento psíquico; neste, habitando então “a estrutura fundamental da loucura”41. Afirma, ainda, que “toda resolução dessa discordância por uma coincidência ilusória da realidade com o ideal repercutiria até às profundezas do nó imaginário da agressão suicida narcísica” (LACAN, 1946/1998, p. 188).

Diante de tal discordância primordial, como uma resolução, há essa ilusória coincidência que implica no que há de mortífero no narcisismo. Ou seja, no início do desenvolvimento psíquico, mais uma vez, o que temos é a incidência sonora da pulsão de morte imiscuída na alienação.



Nesse ponto, vale lembrar uma importante indicação de Freud (1914/2004): há um narcisismo renascido dos pais, por meio do qual se pretende que, em favor dos filhos, as leis da natureza e da sociedade sejam ab-rogadas para que sejam eles, os filhos, o centro da criação. Todavia, manter-se nessa tão privilegiada condição, é nada menos do que assentir à (mortal) destinação alienante. Eis o sujeito mítico, de um narcisismo primordial, para o qual se busca retornar; para esse estado ideal onde se supunha ter havido apenas satisfação.

E se remetido estamos à pulsão de morte, não esqueçamos que o gozo é nada menos que a satisfação dessa pulsão. Se ela é satisfeita, como já vimos, é justamente nesse campo ruinoso que entramos.




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