Danielle carvalho ramos



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3.3.2 Saboreando a ausência
Em O seminário, livro 4, Lacan (1956-1957/1995, p. 188) nos lembra que a criança encontra-se na presença da onipotência materna, na medida em que a mãe, como um ser real, “pode literalmente tudo”. Nesse ponto, interessante atentarmos para o que ele fala acerca da chamada “anorexia mental”:
[...] a anorexia mental não é um não comer, mas um comer nada. Insisto: isso quer dizer comer nada. Nada, isso é justamente algo que existe no plano simbólico [...]. O que está em questão neste detalhe é que a criança come nada, o que é diferente de uma negação da atividade. Esta ausência saboreada como tal, ela a emprega diante daquilo que tem à sua frente, a saber, a mãe de quem depende. Graças a esse nada, ela faz a mãe depender dela (1956-1957/1995, p. 188).
Ainda sobre a anorexia mental, em outro momento, ele diz:
É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa sua recusa como um desejo (anorexia mental). Limites em que se apreende, como em nenhum outro lugar, que o ódio retribui a moeda do amor, mas onde a ignorância não é perdoada. Afinal de contas, a criança, ao se recusar a satisfazer a demanda da mãe, não exige que a mãe tenha um desejo fora dela, porquanto é essa a via que lhe falta rumo ao desejo? (LACAN, 1958b/1998, p. 634).
Suponho que se atenue a aparente contradição entre o comer nada (enquanto algo que difere do não comer, da negação da atividade) e a recusa na anorexia mental, se considerarmos que, na recusa, naquilo que a criança nega fazer, ela introduz algo: a falta (e, portanto, a via para o desejo). É dessa falta por ela própria introduzida, é desse nada que então se alimenta, saboreando a ausência.

Portanto, na recusa em satisfazer a demanda materna, a anorexia mental surge como uma exigência de um outro desejo da mãe; um desejo para além da criança. Logo, é possível entender que, ao introduzir uma falta forçosa diante de um excesso de amor, a recusa opera como um desejo, como um desejo de nada, como um desejo de falta o qual denunciado é na anorexia mental.



Nas palavras de Lacan (1958b/1998), chama-me ainda atenção a sua menção a uma ignorância que não é perdoada, que parece ser justamente a desse pretensioso amor em demasia, desse desejo que converge totalmente sobre a criança. Em última instância, estamos, mais uma vez, no âmbito da alienação. Portanto, ante a alienação ao Outro, a qual implica um assentimento a sua demanda (mortal), a anorexia mental, em contrapartida, impõe-se como um então radical modo de recusar satisfazê-la. Sobre a resistência à onipotência materna nessa relação de dependência, Lacan nos diz que ela é elaborada:
[...] no nível do objeto que nos apareceu sob o signo do nada. É no nível do objeto anulado como simbólico que a criança põe em xeque a sua dependência, e precisamente alimentando-se de nada. É aí que ela inverte sua relação de dependência, fazendo-se, por esse meio, o mestre da onipotência ávida de fazê-la viver, ela que depende da onipotência. A partir daí, é ela quem depende por seu desejo, é ela quem está à sua mercê, à mercê das manifestações de seu capricho, à mercê da onipotência de si mesma (LACAN, 1956-1957/1995, p. 190).
A anorexia mental viria então como uma resposta, como uma solução extremada à onipotência materna e ao consequente sentimento de impotência da criança. Ao anular o objeto como simbólico, ao alimentar-se do nada, a criança põe em xeque sua dependência. Ela, a criança, é quem se torna mestre da onipotência, estando à mercê, agora, da onipotência de si mesma. Não é propriamente pela negação da atividade que a criança resiste à onipotência materna, mas pela anulação do objeto, alimentando-se deste nada.

O que se destaca, portanto, é a indicação de que, com esse ato, desde tal ausência saboreada pela criança, a relação de dependência se inverte: a criança faz a mãe depender dela. Assim, vemos como a onipotência materna pode ser fator de favorecimento da anorexia mental na criança, esta surgindo como um modo radical de inverter a original e mortífera relação de dependência.

Mas, à mãe, o que pode causar a angústia embebida pelo filho quando, no excesso por ele experimentado (e por ela própria favorecido), este, obstinadamente, se empenha na anulação do seio precioso? Do tudo ao nada, que efeitos para ela os lábios cerrados da anorexia do bebê? Na angústia materna, o sintoma-amamentar novamente parece ser a resposta, a via privilegiada, uma vez que, agarrando-se à ainda relutante onipotência, faz-se a insistência: beba, mame. Ou nas palavras de Carla: “eu só dou o peito, mesmo que ela não queira, eu insisto...”.




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