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CAPÍTULO 11


O PLANO ESPIRITUAL
Muitas vezes, nada é tão difícil de perceber do que aquilo que “deveria saltar-nos aos olhos”. Não necessita uma criança de educação para separar as imagens que assediam sua retina recém aberta? Ao homem também, para descobrir o Homem até o fim, foi necessária toda uma série de “sentidos”, cuja gradual aquisição, conforme veremos, abrange e escande a própria história das lutas do Espírito”.

Teilhard de Chardin- O Fenômeno Humano, pg. 27


Personalidade
Uma pessoa não é otimista simplesmente porque nasce com essa característica. Nem é generosa, afetuosa, confiante, paciente, tolerante, porque esses sejam traços inerentes à sua personalidade. Se as pessoas são como são, elas aprenderam a ser assim. E o que alguém foi capaz de aprender, todo mundo pode, para o bem ou para o mal. Mas se acreditarmos que as pessoas eficientes são assim porque têm dons especiais, então jamais nos motivaremos para aprender o que elas sabem. Essa, realmente, não é uma boa crença.

Aprendemos a ser otimistas ou pessimistas da mesma forma que aprendemos uma profissão. Essa é mais uma das escolhas que fazemos na vida, e geralmente, ela é feita inconscientemente.

Isso quer dizer que existe um processo de aprendizagem por trás de uma personalidade otimista ou pessimista. Nós escolhemos ser uma coisa ou outra, da mesma forma como escolhemos uma carreira, um parceiro para formar uma família, um sócio para os negócios, uma escola para nossos filhos, etc. Essa é mais uma das escolhas que fazemos na vida e como muitas delas, geralmente a fazemos inconscientemente.

Como temos livre arbítrio, podemos escolher o que nos convém. Olhar o lado ruim de uma experiência e ficar se orientando pelos influxos dos maus resultados obtidos com ela, certamente não é uma atitude que fará com que uma pessoa se torne otimista. Da mesma forma, pautar nossa conduta pelos prejuízos que uma pessoa generosa teve, em razão da sua generosidade também não ajudará ninguém a adquirir essa qualidade. Carinho, amor, confiança, paciência, tolerância, etc. são características de personalidade que não se adquirem tratando as pessoas com desconfiança, brutalidade, agressividade, intolerância e desprezo.

Nossos atributos de personalidade constituem o conjunto que chamamos de caráter. São informações codificadas que correspondem à noção neurológica que temos do significado que associamos ao referido comportamento. Nós os chamamos de valores, critérios, pontos de vista, etc.

De uma forma geral, os povos anglo-saxões associam ao comportamento denominado “pontualidade” uma noção de respeito para com os compromissos assumidos. Comparecer pontualmente aos encontros marcados, para eles, equivale a respeitar o tempo das pessoas neles envolvidas. E respeitar o tempo das pessoas é o mesmo que respeitá-las.

Há pessoas que associam ao cumprimento da palavra dada uma noção de responsabilidade ainda maior que aquela que atribuem aos contratos formais. Confiar e ser confiável para os outros lhes parece mais importante que qualquer garantia formal que alguém possa oferecer. Outras há, entretanto, que parecem não estimar muito essas características. Consideram-nas meras formalidades que podem ser descumpridas sem maiores conseqüências.

Nossos comportamentos têm uma dupla face. Externamente eles se manifestam em nossa fisiologia e nos nossos atos cotidianos. São as coisas que fazemos, como dormir, comer, sorrir, fazer amor, jogar futebol, tomar uma cerveja, falar, cantar, agredir, acariciar, arrumar a casa, correr, etc. Internamente, eles se manifestam nos sentimentos que temos em relação às coisas. São emoções e pensamentos que constituem um processo neurológico interior, desenvolvido segundo padrões desconhecidos da nossa consciência.

A maioria dos nossos processos internos, embora inconscientes, reflete exteriormente. Nem sempre sabemos por que estamos aborrecidos, temerosos, confiantes ou curiosos. Todavia, algo ocorreu, internamente, para que nós nos sentíssemos assim.

Concluir que a vida vale a pena ser vivida, ou que é um fardo pesado que precisa ser arriado, também é resultado de encadeamentos semelhantes.

Assim, da mesma forma que aprendemos a fazer tais encadeamentos mentais, é possível também ter controle sobre o processo que gera os nossos estados internos. Destarte, uma pessoa pode aprender a ser alegre ou triste, agitada ou tranqüila, confiante ou insegura, corajoso ou medrosa, etc., pois cada um desses estados são traços de personalidade, adquiridos através de um aprendizado, muitas vezes inconsciente, mas, em suas características básicas, semelhante a qualquer processo pedagógico.

Os melhores modeladores que conhecemos são as crianças. Observar como elas duplicam o comportamento dos adultos é uma verdadeira aula de como se aprende a aprender. Rir para um bebê e ver como ele, espontaneamente, retribui o sorriso; pular e sapatear diante de um grupo de crianças pequenas e ver como elas acompanham os movimentos automaticamente; ensaiar um coro que elas repetem sem dificuldade, tudo isso prova que temos uma tendência inata para aprender qualquer coisa, desde que queiramos e tenhamos disposição para isso. Depois que ficamos adultos e desenvolvemos uma série de filtros mentais é que substituímos essa maravilhosa capacidade de modelagem por outra forma de aprendizado que, muitas vezes, não compensa a perda.

Personalidade, portanto, não é destino, não é herança, nem qualidade inata, presente no gabarito biológico de uma pessoa, sem que ela possa exercer qualquer controle sobre esses atributos. É aprendizado, e como tal, pode ser adquirido, modificado, transmitido.

Missão
De todas as espécies criadas pela grande mãe natureza, a família humana é aquela que alcançou o maior nível de complexidade em sua organização biológica. Sendo um complexo físico e psíquico, ela age no ambiente modificando-o e se modifica na mesma proporção em que o ambiente em que vive é modificado.

Produtos do ambiente, nós também o produzimos. Como agentes de produção da realidade universal, nós nos tornamos centros de uma esfera, cujos raios constituem, em cada ponto, outros centros irradiantes.

Refletimos. E pelo fato de poder refletir, nós nos distinguimos das outras espécies. Todavia, a capacidade de pensar e refletir o que pensamos nos coloca uma imensa responsabilidade sobre os ombros, pois para o bem ou para o mal, a natureza nos fez co-autores do universo ao nos dar uma tal faculdade.

O pensamento humano viaja por todos os cantos do universo, levando a cada grão de matéria a notícia da nossa existência. E, de cada grão de matéria universal, recebemos a informação de suas propriedades. Diante disso, nos damos conta que, em cada momento de luz capturado pela órbita dos nossos sentidos, se desenvolve um ato de conhecimento, proporcionado pela interação sujeito-objeto, que a ambos modifica e conforma.

Como centro da perspectiva universal, o ser humano olha a si mesmo no espelho de uma realidade que ele próprio orienta e vê, que na escala evolutiva das espécies, a natureza lhe concedeu a primazia entre todos os seres. Isso lhe confere um orgulhoso sentimento de grandeza, mas ao mesmo tempo, quando se compara às imensidões do universo

É quando começamos a nos perguntar sobre os motivos que nos levam a fazer isso ou aquilo, a querer isto e não aquilo; é quando começamos a questionar os porquês da vida, e a própria razão de viver, o nosso lugar no mundo e o que o mundo requer de nós, que atingimos o vértice do cone neurológico.È nesse momento mágico da atividade do seu aparelho psíquico, que o ser humano transcende da condição de mero produto de uma evolução biológica natural, para uma esfera mais alta, transcendente, que é o nível da espiritualidade.

Sartre dizia que a vida pode ser vista como uma jornada entre o ser e o nada. Para ele, o homem buscava a realização de um “ser” para justificar uma existência, que sem valores a realizar, sem metas a cumprir, sem objetivos a alcançar, seria um grande vazio, tedioso e cansativo, que só produziria o estresse e a náusea.

Estresse, náusea de viver, cansaço psíquico, desconfiança, desconsolo e desequilíbrio psicológico, são todos sinônimos para o sentimento que nos domina quando não conseguimos nos dar um motivo para viver, uma razão para tantos desejos e para tanta labuta. Esse é o estado interno que vivemos quando não encontramos a melhor resposta para os desafios que a vida nos apresenta.

Tudo isso ocorre porque nós não somos apenas acontecimentos fortuitos, produzidos pelo acaso. No amplo sistema, que é o universo, temos uma missão a cumprir, um lugar a ocupar, uma função a executar. O sentimento de que não estamos conseguindo esse resultado é que nos faz mergulhar no precipício psicológico da depressão.

Mas quando, finalmente, começamos a processar a informação no nível mais elevado da nossa estrutura neurológica, nós identificamos a nossa missão. É a partir desse ponto que ocorre a transição do ser biológico para a esfera mais sutil que pode ser alcançada pelo ser humano na sua procura pela melhor resposta: o nível do espírito.






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