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d- Os acontecimentos
Citei uma pequena parte da minha história de vida apenas para ilustrar a importância de um ambiente e da educação no processo que forja as nossas crenças. Quando o mundo que vemos, ouvimos e tocamos é interpretado como um rotundo fracasso, os nossos olhos são toldados por imensos escotomas 35 que nos impedem de ver as oportunidades de sucesso que nele existem. As agruras do ambiente e os modelos desencorajadores toldam nossa visão de tal forma, que tudo que vemos é um imenso mar de dificuldades.

Mas mesmo em um ambiente desses é possível encontrar modelos encorajadores, como eu encontrei. Só temos que procurá-los. Há pessoas humildes realizando grandes feitos, derrubando barreiras, conquistando magníficas vitórias. São pessoas que se tornam médicos, engenheiros, jornalistas, escritores, advogados, professores, empresários, ou mesmo operários especializados ou não; e outros trabalhadores que, a despeito da ocupação humilde, são capazes de ganhar a vida com honestidade e eficiência e conseguem fazer uma diferença em seus ambientes.

Pessoas felizes, equilibradas, serenas, honestas, são pessoas altamente eficientes. São elas que devem ser destacadas como modelos de excelência na arte de viver, pois são os verdadeiros heróis, os verdadeiros pilares da sociedade. São homens e mulheres anônimos que enfrentam os duros em

bates cotidianos em busca da sobrevivência e encontram a grande maioria das respostas certas para os problemas que a existência nos apresenta.

Conta-se, que certa vez, um rei muito preocupado com a felicidade de seu povo e desejando governar com sabedoria, mandou reunir em seu palácio todos os grandes sábios da época e pediu-lhes que resumissem a melhor sabedoria do mundo em uma única frase, para que ele pudesse colocá-la sobre o trono. Depois de muito estudo e acalorados debates, os sábios chegaram para o monarca com uma frase que dizia apenas isso: seja o que for que aconteça, isso também passará.

Realmente, nada é definitivo, nada é tão importante que mereça o sacrifício da nossa tranqüilidade e da nossa saúde, para colocarmos em um único resultado, toda a esperança da nossa vida. É importante lembrar que sempre haverá uma segunda chance, enquanto estivermos vivos.

É preciso não confundir o verdadeiro significado da palavra seriedade com inflexibilidade, fazendo com que uma qualidade de caráter se torne um vício de comportamento. Pessoas sérias não precisam ser necessariamente obstinadas, inflexíveis e intolerantes. Quanto à obstinação, ela é útil quando a utilizamos na perseguição inclemente dos nossos objetivos, mas quando ela nos impede de adotar posturas flexíveis perante as necessidades de mudança que a vida nos exige, ela acaba sendo prejudicial.

Tudo que nos acontece são experiências que nos trazem resultados bons ou ruins. Não precisamos tomar os nossos acertos ou os nossos erros como modelos de decisão, mas sim como oportunidades de aprendizagem. Uma boa sabedoria é se concentrar nos resultados e analisar o que eles podem nos ensinar. Se forem bons, eles nos ensinam como fazer; se forem ruins, nos ensinam como não fazer. Se, no entanto, ficarmos “vivendo” várias vezes uma experiência que não deu certo, ao invés de procurarmos analisar o motivo do mau resultado, a tendência é que a nossa mente resista em repetir a experiência. Isso é que se chama bloqueio, aquela travada que às vezes acontece em nossa mente e nos impede de encontrar as respostas que necessitamos para resolver os nossos problemas.

Na verdade, o que foi feito está feito e se foi feito errado não podemos voltar no tempo para consertar. Assim, como diz a sabedoria popular, o que não tem remédio, remediado está. Não adianta ficar ruminando o que passou nem se desgastar tentando achar culpados. Se não quisermos que os acontecimentos, quando trazem maus resultados, sejam instalados como “programas” limitadores da nossa eficiência, é preciso saber processar adequadamente as informações que eles nos trazem, transformando-as em aprendizagem.
Para o bem ou para o mal, acontecem coisas em nossas vidas que impregnam a nossa mente para sempre. Eu me recordo especialmente de duas delas, que infelizmente, não foram agradáveis. Envergonho-me hoje do ódio que experimentei naquela ocasião das pessoas que me proporcionaram aquelas experiências, pois na verdade, a humilhação que me fizeram sentir acabou servindo de estimulante para que eu lutasse com mais força para escapar da minha incômoda condição.

A primeira dessas experiências aconteceu quando eu estava com oito anos de idade. Eu não tinha um único par de sapatos para usar. O único calçado que eu conhecera até então era um velho par de Alpargatas- Roda, aquele chinelo feito de lona com solado de fibra de sisal, que recebera na escola do Centro Espírita Santo Antonio de Pádua. Estava tão velhinho, tão gasto, tão cheio de orelhas, que um dia eu entrei numa loja de calçados que havia no centro da cidade, e fiquei namorando um belo par de tênis “Conga” que estava exposto na vitrine. O dono da loja era um grego nervoso que veio logo me perguntando o que eu estava fazendo ali.

Perguntei-lhe quanto custava aquele par de “Conga” e ele quis saber quanto dinheiro eu tinha. Mostrei-lhe toda a minha fortuna, que consistia de alguns cruzeiros36 e ele respondeu que aquilo não dava para pagar um pedaço da sola. Em seguida me empurrou para fora da loja com desprezo, dizendo que eu estava atrapalhando a entrada dos fregueses.

Senti-me tão humilhado que jurei a mim mesmo que um dia ficaria rico o suficiente para comprar aquela loja inteira. Coisas de menino, mas de qualquer modo, a partir daquele dia comecei a economizar o dinheiro do cinema, deixei de comprar doces, comecei a guardar toda e qualquer moedinha que ganhava para fins de um dia poder cumprir aquela promessa.

Claro que nunca comprei a loja, até porque meus interesses me fizeram aportar em outras ilhas mais interessantes e eu acabei me esquecendo daquilo. O grego, a propósito, não fez carreira longa no comércio da cidade. Faliu algum tempo depois, deixando uma enorme dívida na praça.

A outra experiência ocorreu no velho Cine Parque.37 Uma noite, eu ia entrando na sala de projeção quando dois garotos que estavam na minha frente gritaram alguma coisa parecida com “samango filho da.....” para um policial que estava lá de plantão. Eu nem conhecia os dois garotos. Entretanto, o policial pegou os três e nos levou para o saguão. Não disse nada, mas olhou demoradamente para as nossas roupas. Por fim, liberou os dois garotos e me deu um belo safanão. Quando perguntei o porquê de tudo aquilo, ele não respondeu , mas pelo olhar que nos dera, percebi que ele deduzira que os dois garotos, pelo fato de estarem bem vestidos, não poderiam ser tão mal educados quanto eu.

Claro que essa foi uma leitura mental que eu fiz e que poderia estar equivocada. Mas confesso que durante muitos anos a injustiça sofrida me amargurou bastante. Não podia ver aquele policial sem pensar nas piores vinganças. Algumas vezes eu o escalpelava como faziam os índios, outras vezes fervia-o em um caldeirão, como vira um bando de canibais fazer em um filme, e cheguei mesmo a imaginá-lo amarrado aos trilhos de uma estrada de ferro, com uma locomotiva se aproximando. Adivinhem quem era o maquinista.

Todavia, a partir daquele dia, resolvi que ia fazer todo o possível para me vestir decentemente e adquirir alguma educação. Percebi que as pessoas respondem fundamentalmente em função do que vêem, escutam e sentem, e que esses estímulos, muitas vezes, são interpretados sem qualquer apelo a um mínimo de racionalidade.

Foram lições que jamais esqueci. Esses dois acontecimentos poderiam ter terríveis conseqüências para a minha aprendizagem. Eu poderia, por exemplo, interpretá-los como um sinal de rejeição social e a partir daí, desenvolver uma reação de vingança contra o meio que me rejeitava. É assim que se criam muitos bandidos.

Isso acontece com muitas crianças, muitos jovens, que são diariamente humilhados por pessoas, cuja inteligência emocional é tão limitada que não lhes deixa ver mais nada além do próprio reflexo no espelho. O olhar de desdém, o gesto de desprezo, a postura empertigada toda vez que alguém de aspecto humilde se aproxima delas é um sinal dessa rejeição.Uma criança, um adolescente, instala esses “programas” com mais facilidade que um adulto, pois seus filtros mentais ainda não estão suficientemente preparados para processar adequadamente essa informação.

Porteiros de fábrica, recepcionistas mal humoradas, servidores públicos arrogantes, mal educados agentes de segurança em condomínios e bancos, policiais, vendedores de lojas mal preparados para lidar com pessoas, etc., não sabem o mal que fazem, quando tratam com arrogância e desprezo as pessoas humildes que os procuram.

Nós mesmos, pelo medo que o atual estado de violência nas grandes cidades provoca, quando fechamos o vidro do carro à simples aproximação de uma criança maltrapilha, acabamos, muitas vezes, nos tornando “programadores desse “soft” letal, que é rejeição social. E depois nos espantamos com a facilidade com que o Quarto Setor – o crime organizado – consegue cooptar essas crianças e jovens para suas finalidades criminosas.

Mas, graças a Deus, houve outros acontecimentos na minha vida que me ensinaram que nem todas as pessoas eram tão emocionalmente analfabetas quanto aquele comerciante e aquele policial. Havia gente bem sucedida, que progredira adotando um padrão de excelência, ética, justiça, e com todo o sucesso obtido continuavam acessíveis, humildes, comunicativos, simples em suas maneiras de ser e agradáveis em seus relacionamentos, com quem quer que fosse. Escolhi que gostaria de ser como estes últimos e durante toda a minha vida, tenho procurado fazer deles meus modelos.




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