Dados internacionais de Catalogação na Publicação (cip)



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O ambiente

As crenças que adotamos podem ser formadas a partir de várias fontes. As mais comuns são o ambiente, os acontecimentos, a educação e os resultados dos nossos atos. Em criança tive a boa sorte de cair numa escola de orientação espírita, onde um homem, em particular, moldou minha crença de que seria possível a alguém, fosse qual fosse sua condição de nascimento, atingir uma condição melhor de vida através da educação.34 Não sei até hoje o que fez um garoto de oito anos acreditar naquilo, mas a partir de então, sempre estive tentando aprender alguma coisa.

Aprendi que deveria estabelecer um padrão acima daquele em que eu vivia, pois se assim não fosse, minha mente jamais encontraria as respostas que eu precisava, pois estas dificilmente se encontram no mesmo nível em que vivemos. Todavia, meu ambiente era terrivelmente limitador em todos os sentidos, mas principalmente termos de crenças. Minha mãe, analfabeta, lavava montes e montes de roupa para conseguir um mínimo de comida para os cinco filhos.

Meu pai morreu quando eu tinha oito anos, de hanseníase. Ela vivia dizendo que aquilo era doença do sangue e que nós iríamos contraí-la mais cedo ou mais tarde, pois era hereditária. Não se podia culpá-la por acreditar nisso, até por que ela não tinha educação suficiente para entender qualquer informação técnica a respeito. E depois é preciso lembrar que naquela época não se popularizavam informações sobre esse tipo de moléstia, dado o estigma que a acompanhava.


Por outro lado, naquele tempo, eu não tinha também quaisquer modelos de sucesso no ambiente onde vivia, no qual eu pudesse me espelhar. Todos os parentes, vizinhos, amigos e conhecidos estavam praticamente na mesma situação. Os rapazes em condição de entrar para o mercado de trabalho pensavam que um emprego de operário, numa fábrica, ou no comércio, era o máximo que podiam obter.

As garotas ( e os pais delas) pareciam pensar que um operário de fábrica, ainda que não especializado, ou um funcionário público, ou ainda um empregado de banco, ou talvez um soldado da antiga Força Pública, hoje Polícia Militar, era o que de melhor se poderia conseguir para marido, pois eles, pelo menos, tinham um emprego fixo, e assim podiam garantir o pão de cada dia.

Como era difícil, naqueles tempos, arranjar uma namorada!

Quando comecei a trabalhar, estabeleci para mim mesmo uma regra: se em dois anos eu não conseguisse progredir na empresa onde estivesse trabalhando, então eu sairia e iria procurar outro lugar para trabalhar.A conseqüência dessa regra, num mercado de trabalho altamente competitivo e mutável, como se pode imaginar, me trouxe muitas dificuldades. Passei boa parte da minha adolescência e juventude fazendo “bicos”, e vendendo bugigangas nas ruas e nos trens da antiga Central do Brasil.

Hoje vejo que essas experiências me foram benéficas, pois não deixaram que eu instalasse em meu sistema neurológico aqueles programas geradores de conformismo, preguiça, descrença e pessimismo, que parecia ser o mapa orientador das pessoas que viviam naquele ambiente.

Ainda vejo as conseqüências daquelas crenças quando ando pelas ruas da cidade. De vez em quando reconheço alguns dos meus amigos de infância. Boa parte deles não conseguiu superar as condições adversas do ambiente, e quando converso com eles acabo descobrindo a causa: eles jamais acreditaram que podiam fazer melhor do que aquilo que viam seus pais, parentes, vizinhos e conhecidos fazerem. Instalaram em seus sistemas neurológicos o “programa” contido naquele infeliz ditado, muito popular nos anos cinqüenta, que dizia: “Quem nasceu para centavo jamais chegou a cruzeiro”.






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