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Humildade

Aquele que reivindica a posse da verdade demonstra total ausência de inteligência emocional. É um completo analfabeto na arte de viver, pois o bem viver implica em tolerância para com as visões de mundo que diferem das nossas.

A sabedoria de que as nossas visões do mundo são personalíssimas nos leva à necessidade de sermos humildes em nossas apreciações. Afinal de contas, elas são relativas a um mundo que só existe dentro de nossa mente e que pode ou não corresponder à realidade.

Quem pensa ter encontrado a verdade, diz Bandler, está apertando a mão do diabo. Realmente, não existe pior inimigo para o nosso equilíbrio neurológico do que uma postura de auto-suficiência intelectual. Pessoas que assumem tais comportamentos tornam-se arrogantes, pedantes, desagradáveis, incapazes de manter um relacionamento seguro, maduro e estável, pois sempre estarão reivindicando o comando da situação, como se os relacionamentos humanos comportassem algum nível de hierarquia.

Registre-se que nem Jesus Cristo reivindicou a posse de uma verdade absoluta, ainda que pelo menos um evangelista tenha escrito que ele proclamava ser a “verdade e a vida”. Eu creio que ele queria dizer com isso que seus ensinamentos seriam um excelente roteiro para a vida, mas não que ele fosse “ a verdade”. Tanto que quando Pilatos lhe perguntou o que era a verdade, ele não respondeu, ou se respondeu a resposta não foi registrada.

Pessoas intolerantes são do tipo que costuma dizer: “ Eu sou assim mesmo. Quem quiser gostar de mim, goste do jeito que eu sou porque eu não mudo para agradar ninguém”. Fuja dessas pessoas, pois elas só concordarão em viver no seu mundo se você concordar com elas em tudo.

Eu conheci um sujeito assim. Com 20 anos casou-se com uma boa moça, operária, que conheceu em uma fábrica onde trabalhava. Durante os primeiros anos da vida do casal, ela trabalhou e ajudou-o a adquirir patrimônio e cuidou muito bem dos três filhos que tiveram.

A moça trabalhava muito, no emprego que tinha na fábrica e em casa. Cuidava das finanças do casal como se fosse o melhor dos administradores. Ajudou-o de todas as maneiras, inclusive a estudar e melhorar de vida. Graças a isso, ele conseguiu se formar em direito e passar em um concurso público, tornando-se procurador de justiça.

Mas assim que foi adquirindo um melhor nível de informação ele começou a desprezar a mulher que o ajudara tanto. Como ele começou a freqüentar outros ambientes e ela continuava a ser operária e dona de casa, seus interesses começaram a se afastar. Vivia comparando-a com as garotas com as quais convivia na faculdade, e depois, na repartição.

Logo começou a se envolver com outras moças e a negligenciar a família. Depois de algum tempo arrumou uma amante fixa, com quem começou a fazer despesas. Teve, inclusive, filhos com ela. Logo, sua renda, apesar de consideravelmente aumentada, já não era suficiente para sustentar duas famílias.

Não demorou muito e o relacionamento com a esposa, que tanto o ajudara, chegou a um impasse que terminou em divórcio. E à medida que as coisas iam saindo do seu controle, ele se tornava cada vez mais arrogante.

Aposentou-se no serviço público e passou a advogar. Para ele, ninguém tinha qualquer competência, quer profissional ou emocional, para fazer as coisas certas. Achava que apenas ele sabia fazer tudo bem feito. Considerava-se o único dono da verdade. Não conseguia fazer amigos, pois todos se afastavam dele em razão da sua arrogância. Aos poucos, acabou perdendo o amor dos próprios filhos. Um dos meninos, logo após o divórcio dos pais, começou a demonstrar sinais de desequilíbrio nervoso. Depois da morte da mãe, o desequilíbrio degenerou em uma completa alienação mental. Outro dos seus filhos tornou-se um inveterado alcoólatra e hoje dorme, praticamente, nas ruas. Quanto ao casamento, pelo que sei, foram mais de quatro.

Mesmo com todos esses maus resultados na vida, esse indivíduo jamais fez uma reflexão madura sobre o seu comportamento. Na última vez que conversamos, ele fez violentas críticas a um juiz que não havia acatado seus argumentos em um processo.

Ele morreu há alguns meses atrás. Se o enterro tivesse que ser realizado à maneira antiga, teria sido difícil encontrar braços para carregá-lo até o cemitério, tão pequeno era o número de pessoas que compareceram ao seu funeral.

Um pouco de humildade não faz mal a ninguém. Mas é bom não confundirmos humildade com timidez, covardia ou ausência de auto-estima. Aliás, a auto-estima é filha do justo orgulho que alguém pode ter de si mesmo e quando esse orgulho está fundamentado no mérito, trata-se de um sentimento que deve ser cultivado com muito carinho.

Na verdade, é preciso uma grande dose de coragem, de amor próprio e de firmeza de caráter para assumir uma postura de verdadeira humildade, pois isso implica em reconhecer que pouco sabemos e mesmo esse pouco pode não ser verdadeiro.

Humildade não é fraqueza, nem pressupõe ausência de recursos psicológicos para enfrentar os confrontos a que somos submetidos todos os dias. Ao contrário, para sermos humildes de verdade precisamos ser muito fortes, pois a cada momento, somos obrigados a nos confrontar com o maior de nossos adversários: nós mesmos.





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