Dados internacionais de Catalogação na Publicação (cip)



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Habilidade e Hábito
Segundo George Miller, ( O Número Mágico 7 Mais ou Menos 2), a nossa consciência só consegue processar de sete a mais ou menos nove segmentos de informação de cada vez, o que torna nosso cérebro uma máquina muito limitada para absorver a quantidade absurda de mensagens que nos são enviadas a cada instante. Faça um teste: verifique a diferença entre decorar o número do seu RG, que deve ter sete números (sem o dígito) e o número do seu CPF, que deve ter nove números (também sem os dígitos). Você deve ter achado fácil a primeira proposta e difícil a segunda.

Mas se a capacidade de processamento da nossa CPU tem suas limitações, a do nosso inconsciente, para armazenar informações, não. Podemos verificar que todas as mensagens que os nossos sentidos captam no mundo exterior, de algum modo são recepcionadas pelos nossos sentidos externos. Teste isso agora mesmo: deixe de focar a atenção no que está fazendo (lendo este livro, por exemplo) e fique atento à quantidade de informação que está chegando aos seus sentidos. Repare na cor dos objetos no cômodo em que você está, as dimensões dele, a luminosidade, os sons que penetram pela janela, a temperatura ambiente, a textura da superfície da cadeira ou poltrona onde você está sentado etc. Tudo são informações que estão aí à sua disposição, mas que você, conscientemente, não se deu conta até agora. Mas o seu inconsciente está registrando tudo isso. Se, um dia, você precisar dessas informações, elas poderão ser recuperadas e você não saberá dizer como é que elas foram parar lá.

O mundo em que vivemos é mesma coisa. Um manancial inesgotável de informações diárias. E a nossa mente recepciona todas, ainda que não preste atenção nelas. Sabemos disso porque essas informações estão lá e de vez em quando, acionadas por algum tipo de gatilho, elas são ativadas. Isso talvez possa explicar uma série de atividades ainda mal compreendidas do nosso cérebro, tais como insights, premonições, adivinhações, profecias, etc. É possível que todas essas manifestações psíquicas nada mais sejam que produtos neurológicos gerados pela atividade inconsciente do nosso cérebro, da mesma forma que grandes obras artísticas e outros atos que fogem á normalidade venham ao mundo por semelhante processo de parto.

A diferença é que o inconsciente não organiza as informações. Ele só as recepciona e arquiva sem ordenar nem julgar. Essa tarefa quem faz é a consciência, através de seus filtros de referência. Ela é quem decide que parte da informação é importante para fazer parte do nosso mapa de mundo e de que forma deve ser organizada.

Você já imaginou se um músico profissional tivesse que pensar em cada nota musical e em cada escala do instrumento que vai tocar, toda vez que fosse executar uma música? Ou se um motorista tivesse que pensar em cada operação que tem de fazer para dirigir um automóvel? Não sobraria muita coisa na frente dele. Assim, nossos hábitos, nossos vícios, bem como nossas habilidades mais desenvolvidas, são coisas que fazemos sem pensar. Da mesma forma que andamos de bicicleta, nadamos, caminhamos, falamos, etc., sem atentar aos passos que temos que seguir para praticar essas atividades, também não pensamos para pegar um cigarro, acendê-lo e tragar a fumaça. Fazemos isso automaticamente. Aliás, se pensássemos, não fumaríamos. Pensamos quando pegamos um copo de bebida alcoólica e a ingerimos, ou quando injetamos em nossa corrente sangüínea algum tipo de droga alucinógena? Certamente que não. Tudo isso é feito inconscientemente, obedecendo a um impulso que é mais forte do que qualquer censura moral que a consciência possa opor a esse comportamento.

Vícios também são competências inconscientes, da mesma forma que habilidades. Ambos são comportamentos que foram adquiridos por força da contínua repetição. São informações que foram segmentadas e reorganizadas em blocos em nossa mente, para que ela as possa acessar automaticamente e transformá-las em comandos para o organismo. São como “softs” que foram instalados em nossa CPU para nos proporcionar capacidade de resposta rápida e eficiente aos desafios da vida. Uma vez lá instalados, o nosso sistema neurológico não necessita mais repetir os passos exigidos para a execução do “programa”, pois ele está ancorado no sistema e basta acionar uma “senha”, que funciona como se fosse um gatilho, para que o sistema nervoso execute imediatamente o comportamento. A partir daí tudo funciona mecanicamente, como se cada membro, cada órgão, tivesse vida própria e pensasse por si mesmo. E a máxima excelência, em qualquer habilidade, é proporcional ao nível de automação que atingimos na execução da ação.

Assim, os processos que resultam em nossas habilidades são organizados pelo sistema neurológico da mesma forma que os vícios. São comportamentos obtidos por condicionamento neuro-associativo. Por isso é que às vezes uma atividade que antes era identificada como habilidade, de repente, passa a ser considerada um vício. O viciado em algum tipo de jogo é um bom exemplo desse processo. Em princípio, para ele, o comportamento “jogar” era uma habilidade que o levava ao estado desejado. Dava-lhe prazer. Depois passou a ser uma compulsão. Esse é um caso típico em que a pessoa perdeu os padrões de referência do seu processo de verificação de procedimentos. Não sabe mais qual é o nível de satisfação buscado em relação àquele desejo ou necessidade e não consegue sair para nova aprendizagem.




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