Curso arte e suas linguagens


O ENSINO DA DANÇA NA ESCOLA



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O ENSINO DA DANÇA NA ESCOLA
“A dança é a mãe das artes. Música e poesia se faz no tempo; pintura e escultura ocupam espaço. Só a dança se faz no tempo ocupando espaço simultaneamente. Criador e intérprete se mesclam na magia da dança.”

(Milena Morozowicz) 

      A questão conceitual que permeia a dança é bastante ampla e complexa e isso se deve à intenção de quem conceitua. Existem correntes que abordam a dança com aspectos emocionais, relacionados à psicologia, outras elaboram uma visão funcional, mas mecânica. Existem ainda, aqueles que a relacionam a aspectos educativos. 

(...) a dança possui definições a vários enfoques, envolvendo sempre o movimento, como: relação com os deuses; relação consigo, com os outros, e com a natureza; transcendência; emoção, expressão, sentimentos; símbolos, linguagem e comunicação; interação entre aspectos fisiológicos, psicológicos, intelectual e emocional; tempo, espaço, ritmo; arte; educação (RANGEL, 1996, p. 5). 

      A autora acima, na realidade, não define a dança, porém propõe relações e interações a um trabalho com dança. Acreditamos que se torna possível desvelar a visão de mundo que se tem e expressá-la através da dança.

      Gallardo (2002), ao se referir à dança, considera-a como uma forma de comunicação que se utiliza-se da linguagem corporal, podendo expressar idéias, sentimentos e emoções através de seus gestos.

      Considera-se a dança como uma das artes mais antigas, e também a única que despensa materiais e ferramentas, dependendo somente do corpo e da vitalidade humana para cumprir sua função, enquanto instrumento de afirmação dos sentimentos e experiências subjetivas do homem.

Segundo Marques (1999), a dança é uma forma de conhecimento, de experiência estética e de expressão do ser humano que pode ser elemento de educação social do indivíduo.

       Kunz (1998) explica que a dança possibilita a compreensão/apresentação das práticas culturais de movimento dos povos, tendo em vista uma forma de auto-afirmação de quem fomos e do que somos; ela proporciona o encontro do homem com a sua história, seu presente, passado e futuro e através dela o homem resgata o sentido e atribui sentidos novos à sua vida “.

      Registros rupestres (pinturas em cavernas) demonstram o homem caçando e lutando, sendo que com o passar do tempo as pinturas passaram a apresentar o que poderia ser chamado de “dança”. A partir daí o homem deixou de desenhar nas paredes para desenhar em seu próprio corpo, contando suas histórias e feitos.

      Marques (1999), afirma que a dança era, desde o período paleolítico, forma de comunicação e expressão. Através dela, os homens acreditavam atrair suas presas para se alimentarem, além de cultuar seus ritos de nascimento e morte. As emoções eram expressas pela  dança que podia estar acompanhada ou não de música ou canto. Era por meio dessa expressividade que o primitivo revelava sua íntima união com a natureza.

      A dança surgiu como forma de comunicar-se, num tempo no qual o homem ainda não articulava os sons da fala, comunicava-se utilizando os gestos do próprio corpo numa mímica que de início tinha função “verbal’ e posteriormente adquiriu significados ritualísticos, festivos e de cura. Verdeli (2007) afirmava que o homem primitivo dançava por inúmeros significados: caça, colheita, alegria, tristeza, exorcizar um demônio, casamento, homenagem aos deuses, à natureza, etc. O homem dançava para tudo que tinha um significado, sempre em forma de um ritual.

       Na Grécia, o caráter educativo da dança também se fazia presente. A harmonia entre corpo e espírito associado à beleza das formas físicas era requisito primordial da educação grega e estes requisitos eram conseguidos através dos esportes, das danças e outras artes.

O homem bem educado, para os padrões gregos, era aquele que além de política e filosofia, soubesse tocar, cantar e dançar. A dança recomendada para atingir os objetivos gregos era aquela que cultivava a disciplina e a harmonia das formas, sendo oferecida desde a infância até a idade adulta.

      Na Idade Média, o cristianismo, inicialmente vinculou a dança ao pecado e logo após utilizou-a em festas comemorativas dos santos. A partir do século XII, período Renascentista, iniciou-se a realização das danças nos castelos da nobreza, as chamadas Danças da Corte, tendo como características marcantes os passos realizados em pares, lentos e solenes.

Rudolf Laban foi um teórico do movimento corporal. Considerou que o comportamento das pessoas depende principalmente do envolvimento com outros indivíduos e com elementos que participam de sua vida. Com isso o movimento na dança se manifesta na riqueza dos gestos e nos passos utilizados no dia-a-dia: em qualquer ação o homem faz uso de movimentos leves ou fortes diretos ou flexíveis, lentos ou súbitos, controlados ou livres.

       Surge então em meados dos anos sessenta, a dança contemporânea, tendo como características o acaso e a improvisação, sendo esta uma estratégia de criação e não “qualquer coisa”, buscando identificar no corpo e no movimento marcas sociais e ideológicas. Marques (2007) complementa dizendo que a dança contemporânea, entre suas múltiplas características, se propõe a trabalhar o movimento e o corpo humano como eixos coreográficos com perspectivas diferentes de tempo, espaço e peso das propostas pela dança moderna”.

      Marques (2007) considera que muitos nomes precursores de processos e movimentos artísticos inovadores, com o passar dos anos sofrem pela tendência de ter seu saber sistematizado, tornando-se assim escolas. A autora acredita que aqueles que ousaram transformar seu processo criativo em escola, muitas vezes acabaram por desenvolver práticas pedagógicas que não correspondem às propostas estéticas de seus trabalhos artísticos iniciais.

      O que se sabe de fato, é que a dança já se fazia presente na Idade da Pedra, representando o amor, a luta, a morte, ou como modo de pedir algo ou de agradecer aos deuses. Pode-se dizer que a dança acompanhou o pensamento do ser humano e sofreu influências das instituições sociais. Das cavernas à era dos minúsculos computadores de bolso, a dança fez e faz parte da vida do homem. 
       Ao longo da história, a dança assumiu várias formas e tem se transformado, assim como a sociedade. A dança tem favorecido os educadores, com um universo de possibilidades  a serem trabalhadas, em especial no contexto escolar.

A criatividade e a expressividade tendem a se perder diante do excesso de técnicas provocado pela busca do desempenho físico e do virtuosismo da dança. Desta forma, ficam à margem os pensamentos, as necessidades e os sentimentos das pessoas, podendo ocasionar-lhes uma falta de sentido para continuar dançando

      Transformados os conceitos de corpo, de tempo, de espaço e até de arte, o ensino de dança também deveria ter se transformado. Porém segundo (Marques, 2007), não é isto que encontramos ao observarmos aulas de dança em escolas formais. O que podemos visualizar é uma verdadeira aversão às transformações ocorridas na dança a partir das décadas de 60 e 70 e uma reprodução do tradicional ensino formal que resulta na utilização de metodologias antigas e na ignorância das experiências que os alunos vivenciam fora das salas de aula.

O ensino de dança tem ocorrido em uma atmosfera reprodutivista e autoritária. Principalmente as aulas de exercícios técnicos de dança refletem bem esse contexto: o ensino é centrado na reprodução de modelos fornecidos pelo professor, sem contestação, sem crítica, sem interação entre os alunos (e muitas vezes, sem interação com o próprio professor), com hierarquias rígidas a serem seguidas, em relação ao uso do espaço, por exemplo. O silêncio e a passividade são atitudes esperadas e estimuladas nos alunos, a competição e a insatisfação em relação ao próprio corpo e performance também. Sentimentos e emoções devem ser reprimidos, assim como sensações físicas dolorosas devem ser ignoradas.

      Além de todas estas “regras” ditadas pelo próprio meio da dança, existe ainda pôr parte dos professores uma grande identificação com as regras e metodologias utilizadas pela escola formal. Apesar da ausência de aulas de dança no currículo escolar brasileiro, a reprodução de posturas e hierarquias presentes no ensino formal são facilmente identificadas em escolas de dança.     Desta forma, o ensino de dança vem perpetuando conceitos e metodologias ultrapassadas. A dança é rebaixada à simples reprodução de movimentos perfeitos e o professor de dança passa a ser aquele que distingue o movimento certo do errado.

Alunos correm atrás de ideais que nem sempre são apropriados a seus corpos, na esperança de um olhar acolhedor de seus professores. E estes, inúmeras vezes, resumem seus atos em separar quem tem talento de quem não tem, quem tem o corpo privilegiado das “mais gordinhas”, quem “leva jeito” de quem “é esforçado mas não tem futuro”. A desqualificação profissional dos professores de dança vem deixando sérias conseqüências artísticas, sociais, educacionais e psicológicas.

      Para Marques (2007) os alunos do mundo contemporâneo vivem em teias de relações multifacetadas entre seus corpos, movimentos, danças, família e sociedade, que podem ser explicitamente trabalhadas em sala de aula através dos conteúdos específicos de dança. O professor de dança não pode mais pedir para que seu aluno “pendure os problemas do lado de fora da sala” antes de entrar, como por tantas vezes ouvi em minha história de vida. A realidade vivida, percebida e imaginada do aluno tem que fazer parte da aula de dança.

       Com essa afirmação, podemos perceber que o universo educativo presente na dança justifica sua presença na escola como agente transformador de práticas corporais a serem vivenciadas e refletidas no cotidiano.

     Segundo Laban ,a dança na educação tem por objetivo ajudar o ser humano a encontrar a relação corporal com a totalidade da existência. Por isso, na escola, não se deve procurar a perfeição ou a execução de danças sensacionais, mas a possibilidade de conhecimento que a atividade criativa da dança traz ao aluno.

      Ao pensarmos na dança no contexto escolar, devemos ter como prioridade os processos pedagógicos, em que o processo e o produto são fundamentais para se compreender a importância de uma prática que respeite o corpo e a liberdade de expressão dos alunos. Não podemos perder de vista a humanização, a inclusão, a ludicidade, os princípios artísticos e as diferentes estéticas. 





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