Cultura e Sociedade, identidade cultural na sociedade atual: multiculturalismo e o tribalismo urbano



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Texto 06 HS- Cultura e Sociedade, identidade cultural na sociedade atual: multiculturalismo e o tribalismo urbano.

Disciplina Homem & Sociedade 2015/1

UNIP/ Paraíso, Cursos: DIR./ PSI

Profª. Neusa Meirelles Costa
1. A cultura na sociedade atual: nacionalidade, cultura popular e erudita

Neste texto um primeiro elemento a ser observado reside na palavra sociedade, e na sua relação com a outra palavra: cultura. Ambas as palavras são conceitos fundamentais de duas ciências: Sociologia e Antropologia, portanto deve-se começar por entender o sentido desses conceitos, e como de um (cultura) já foram tecidos comentários, começa-se pelo segundo: sociedade.

Em primeiro lugar: sociedade NÃO é a soma ou conjunto de indivíduos, ou de grupos, ou organizações. Por sociedade entendem-se as relações travadas (estabelecidas) entre indivíduos, grupos, segmentos e classes sociais. Essas relações refletem modelos, padrões e valores que as orientam, de modo a preservar e reproduzir a sociedade, contudo esses padrões e valores se alteram ao longo da história e cultura, porque também se alteram (transformam) as condições concretas da existência, por exemplo: antes da internet as pessoas só se comunicavam por cartas ou telefone; hoje o número de cartas diminuiu sensivelmente, e os e-mails são bem menos formais que as cartas e ofícios (estes continuam sendo utilizados na área jurídica); apesar de todas as transformações as relações sociais permanecem, formando o que se chama “ordem social”. Por exemplo:

As relações de trabalho produtivo persistem, apesar das mudanças introduzidas com a informática, apesar das mudanças introduzidas com a globalização. Mesmo considerando as transformações do capitalismo, as relações sociais entre trabalho e capital permanecem estabelecendo padrões ou modelos de reciprocidade: no capitalismo, quem trabalha espera receber seu salário, quem detém o capital espera que o trabalho seja realizado. Entre quem trabalha e quem detém o capital (ou sua gestão técnica, como administradores e executivos em geral) persiste um vínculo de poder, e devido a essa persistência, as ordens são dadas e obedecidas (ou não, mas nesse caso há consequências, nem sempre agradáveis). É importante notar que o acolhimento às novas rotinas não se dá por obediência às pessoas, mas em conformidade com os papéis sociais assumidos dentro de uma dada organização, e em conformidade com a ordem social, ou sociedade (em um dado momento da história).

Enfim, a vida cotidiana é dividida em dois segmentos principais: trabalho/ não trabalho, sendo que o primeiro segmento determina o segundo...

Na Psicologia, a preservação da ordem social em face das condições concretas de existência é um processo que marca decididamente o “espaço de vida” das pessoas, e muitos casos clínicos aparecem, devido ao confronto vivenciado entre o sujeito que se constrói (eventualmente na transgressão de papéis impostos pela “ordem”) e as expectativas dessa mesma ordem. Um exemplo clássico está nos problemas e conflitos enfrentados e vividos por quem assume uma sexualidade, em desacordo com o sexo biológico. Hoje há mais tolerância em relação a essa questão, mesmo assim se pode falar de “tolerância”, não de aceitação plena: o preconceito continua.

Em contrapartida, desde os anos 80 que as crianças brasileiras são consideradas consumidores de fácil convencimento. Isto significa que elas “devem” consumir toda sorte de produtos, e mais recentemente, também a moda (especialmente para meninas) batom, joias, salto alto, etc. Realmente as meninas estão em processo de sexualização rápida, com efeitos danosos. Mas os pais não têm controle direto sobre as modalidades de consumo, podem proibir, mas não podem evitar que o consumo seja realizado às escondidas.

Outro exemplo: na sociedade as relações familiares se alteraram profundamente nas últimas cinco ou seis décadas, mas isso não significa que as relações entre pais e filhos deixaram de ser o que são: relações sociais mediadas (atravessadas) pelo vínculo de descendência. Hoje a família pode ser muito diferente da forma como se constituía nos anos 50, mas não deixa de ser a família. E a ausência de padrão “societário” familiar, aquele que envolve pais e filhos, dá origem a problemas psicológicos afetivos e conflitos para crianças e jovens. Embora pais ou avós sejam responsabilizados criminalmente pela ausência da pensão familiar, esse fato não impede os conflitos. Além disso, nem todos têm acesso aos consultórios e clínicas psicológicas.

As relações entre homens e mulheres sofreram mudanças profundas, alteraram-se os padrões das relações sociais entre gêneros, o que não significa que essas alterações estejam plenamente aceitas, porque ainda há resistências, que vêm dos setores sociais mais conservadores “da ordem”, como religião e direito.

Quando se pensa em “sociedade atual”, como se encontra no título, o pensamento é dirigido para a vida social contemporânea, para o cotidiano, para a experiência de viver o “hoje”. A referência é a um tempo (o presente), mas o que realmente significa esse “presente”? Significa a referência a uma temporalidade, ou simplificando, à vivência de um tempo que flui, mas as horas passam depressa ou demoram a passar, portanto essa vivência da temporalidade NÃO é a vivência do tempo cronológico (aquele marcado pelo relógio), mas a vivência de um tempo que combina passado, presente e futuro na mesma situação temporal. Difícil? Não:

Vocês já devem ter ouvido algum chefe dizer: “Precisamos modernizar!”; em casa alguém já falou: ”No meu tempo, as coisas não eram assim!” Ao ouvir uma música, ou passar em algum lugar, vocês já se emocionaram lembrando-se de alguém, ou de uma relação que não mais existe, mas que ainda está gravada na memória. Por último, vocês estão cursando Psicologia visando um futuro, que não será amanhã, mas um “amanhã”, daqui a quatro anos e meio, na melhor das hipóteses. Viram? Vocês e todos nós vivemos uma temporalidade, e para vivê-la é preciso se atualizar (cursos, formação), mas também conhecer o passado (da vida pessoal, familiar) e da própria construção desse futuro (erros e acertos das provas anteriores afetam o sucesso do projeto de futuro).

A atualidade na sociedade contemporânea também é assim: compreende passado, um presente em mudança, e um futuro, em geral incerto. Mas o que integra essa temporalidade da ordem social, como passado, presente e futuro? Em duas palavras: a História. Simples? Não, complexo, se não, vejam:

A história NÃO é aquela lista de situações, cada uma com seu antecedente e consequente, como um colar de pérolas. A história é um processo que abrange mudanças culturais, políticas, sociais, econômicas, tecnológicas, as quais preservam sociedades, alteram padrões societários, e em alguns casos faz desaparecer sociedades que apenas deixaram rastros (alguns grupos da sociedade inca, por exemplo, construíram Machu Pichu no Peru. Quais e porquê abandonaram a cidade, não se sabe ao certo).

Nesse sentido que a sociedade atual é histórica, e por decorrência, a cultura atual também é histórica: nela estão rastros do passado (a feijoada, por exemplo, era refeição para os escravos; a festa de casamento e o “trote” dos calouros eram rituais medievais); mas o presente é atravessado por alterações significativas, as quais preparam o caminho para o futuro, por isso mesmo incerto.

A sociedade atual é marcada por processos que começaram tímidos, ainda no Renascimento: a imprensa e a “descoberta do mundo” com suas diferenças; posteriormente do modelo de relações econômicas emergiu outro processo, a industrialização. E desde então a comunicação ampliada, e em tempo cada vez mais curto, se tornou fundamental para a preservação e reprodução da sociedade e ordem.

Todas as formas e modalidades de saber sofreram o impacto dessas mudanças, que se deram nas artes (música, pintura, literatura), na técnica (da contabilidade escritural aos sistemas de controle contemporâneos), no entretenimento (dos bailes, festas e saraus antigos aos mega shows de hoje), na vida cotidiana (os mercadores antigos, os caixeiros viajantes foram substituídos pelas compras online). Dessas mudanças decorreram alguns conceitos “novos” (na verdade, eles aparecem nos anos 20-30 do século XX). São eles: meios de comunicação de massa, sociedade e cultura de massas, cultura popular e cultura erudita. A estes se pode acrescentar o mais recente “redes sociais de comunicação” (as redes na internet, que estão no cotidiano privado e na empresas).

Os meios de comunicação abrangem: telefone, telégrafo, imprensa (livros), e são considerados de massa também a imprensa (jornais, revistas, fascículos), o rádio, cinema, TV, Internet. Por que são “de massa”? Porque atingem com o mesmo sinal, a mesma mensagem escrita, ou falada a um grande público, e não apenas um leitor, como os livros. É claro que há imprecisões nesse conceito, uma vez que o leitor de jornal pode escolher a matéria a ser lida, o telespectador muda de canal, assim como aquele que ouve o rádio, e finalmente, pode-se deletar o e-mail sem o ter lido, só sabendo quem o mandou ou seu “assunto”. Todavia e-mails corporativos podem ser “rastreados” no servidor, e podem ser tomados como prova em determinados processos.

Contudo, a ideia central é a de que todos são atingidos pela mesma mensagem, tida como verdadeira, e que foi “preparada” dentro de um princípio industrial de produção, atendendo a critérios de benefício/ custo, tempo e eficiência, do mesmo modo que os “fordecos” do Henri Ford. Por tudo isso se denomina ao conjunto desses meios de comunicação “indústria cultural”. Por que “industrial cultural”? Simplificando, porque são esses meios os responsáveis pela divulgação da chamada “cultura contemporânea” e principalmente pela divulgação e mesmo elaboração de parte dessa cultura, exatamente aquela considerada típica de massas: o consumo de produtos, de ideias, valores, estilos e de atitudes. Será?

É assim, mas também há tendências contraditórias, aquelas responsáveis pela “customização” de produtos, pelo “underground” da cultura (o rock foi underground), pelo estilo “clean” na decoração, pela “contra moda”, pelos “blogs”, canais de TV alternativos, etc. Enfim, pelos nichos de mercado.

De qualquer modo, foi em meio às discussões sobre cultura e sociedade de massas que se situou a discussão sobre dois segmentos diferenciados da cultura na sociedade atual: a popular e a erudita.

Isto significa admitir que na temporalidade da sociedade contemporânea, marcada pela suposta cultura de massas (melhor dizer cultura dos meios de comunicação de massa) permaneciam dois segmentos culturais diferenciados: o popular e o erudito. O primeiro mais simples, rústico, singelo, constituído pelo senso comum, não racional, tradicional; o segundo constituído pelas elaborações mais elevadas da cultura humana, as artes, humanidades, filosofia, música. Ambos os segmentos diferenciados em relação à cultura de massa; essa constituída pelo “produto cultural” descartável, simplificado, para “informação” destina a um público que, supostamente não pensa, não analisa, um público ávido pela “novidade”.

Como se pode perceber, a caracterização desses segmentos implica vários adjetivos, e isto quer dizer que se faz uma apreciação de elementos culturais, e não uma caracterização deles. Em outras palavras: se faz uma apreciação preconceituosa do que seja “popular” na cultura, e uma apreciação igualmente preconceituosa, mas valorizando, do que seja “erudito” na cultura. Quanto à cultura “de massa”, também a apreciação é preconceituosa, porque nem tudo que é produzido pela TV (e nem todas as televisões) têm uma programação com aquelas características, assim como blogs, estações e programas de rádio, e isso para não falar do cinema. Então, como se fica?

Na verdade, a cultura popular é aquela elaborada pelo povo (habitantes) de um lugar, um país (Estado) ou região ao longo de sua história. Isto quer dizer que a cultura popular incorpora influências, ideias, relatos, mitos de outras procedências, atribui a eles outros sentidos, construindo algo que lhe é próprio, que serve a esse povo como elemento de identificação, ou de identidade. A cultura popular é histórica ao seu modo, combina mito e relato documental, combina tradição e inovação, resultando um conjunto cultural ao qual se associa uma nacionalidade, portanto uma dimensão política, e ainda diferenciada pela dimensão regional.

A cultura brasileira fornece um exemplo perfeito do que se entende por cultura popular: a música brasileira popular abrange ritmos diferenciados, nacionais e não-nacionais, os reconstrói em modalidades distintas, utiliza palavras estrangeiras para cantar o samba (Samba do approach, de Zeca Baleiro), fala da identidade brasileira ao longo do século de sua existência; ela entra pelos meios de comunicação de massa, é exportada, importa instrumentos, passos, gingas, mas não deixa de ser brasileira, apesar de tudo isso. Ouvindo um samba, em qualquer lugar do mundo, você que é brasileiro, sabe que aquela é a música de seu país, de sua nacionalidade, mesmo que você não goste de samba.

Na cultura popular são preservados (com alteração) elementos, objetos e relatos, considerados pertencentes ao âmbito da cultura erudita, embora em sua origem fossem populares. Por exemplo, contos medievais europeus que remetem aos tempos feudais, continuam presentes nas histórias de fadas, nos cordéis nordestinos, e mesmo os torneios dos cavalheiros medievais continuam nas cavalhadas do interior, de São Paulo e Goiás, e em Sienna, na Itália, com mais pompa e circunstância. O modo como esses eventos são desenvolvidos, relatados e interpretados pela população local integra o que se denominou folclore, palavra que tem uma origem alemã, mas que em inglês (folk lore) designa “contos e saberes do povo”. O folclore é um dos itens da cultura popular, não toda ela.

Quanto à cultura erudita, ela é a que historicamente foi desenvolvida pelas elites intelectuais, mantida pelos ricos (mecenas) e governos, serviu (e serve) como “diferencial” entre segmentos sociais. Ela abrange às artes plásticas e música, ciências, à filosofia, às línguas vivas na pauta culta, e algumas das línguas mortas (grego antigo, latim, dentre outras). É a cultura acadêmica, universitária, necessária nos meios corporativos, imprescindível para circular entre as elites, que são mais conservadoras. Em parte, é dessa cultura erudita que vem a “necessidade” de fazer um MBA, por exemplo, em alguma das “cotadas” universidades americanas e europeias. Viajar também é importante, mas não apenas para Orlando: importante mesmo são os “centros de cultura”, e estes estão na Europa, em New York, ou San Francisco.

Quanto mais vocês psicólogos pretenderem “subir” na carreira, mais essa modalidade de cultura será necessária, isso porque ela representa um “poder simbólico”, que os distingue na cultura e sociedade. Vocês serão temidos (as) porque na sociedade e cultura permanece a ideia de problema psicológico ser indicativo de “doença da cabeça” ou loucura. Apresentadoras de programas na TV fazem uso de termos e observações específicos da profissão, além de os “consultores” fornecerem verdadeiras “consultas” para o público, mas tudo isso acontece entre dois comerciais. Psicanalistas se posicionam como críticos de arte, de cinema, autores de livros, e quanto mais distinguidos são, maior a dependência da cultura erudita, mesmo que seja simplesmente como referência. De resto, um erudito foi Freud, o outro, Jung e mais recente, Lacan.

Enfim, as duas distinções, popular e erudito, além da falsa generalização “massa” são enraizadas em preconceitos e em diferenças de classe, às quais têm origem em outra temporalidade, mas continuam presentes na sociedade atual, como resquício de uma ordem social que muda para permanecer a “mesma”.

2.Identidade cultural, poder e meios de comunicação

Estudos mais contemporâneos sobre poder, desenvolvidos por Bourdieu, Foucault e Baudrillard focalizam poder como práticas sociais e culturais em sociedade, e dentre essas, aquelas que são sutis, às quais, Foucault denomina “micro-poderes”. Essas práticas atuam em parte como formas discursivas e imagéticas (de imagens) que buscam o convencimento do Outro, ou que se apresentam como “verdades” para serem adotadas, copiadas, ou ainda incorporadas ao modo de pensar das pessoas, sendo este aspecto, de poder simbólico1, muito importante.

Sabendo-se que identidade é o que se chama “reconhecimento de si”, portanto, uma percepção do Sujeito de si mesmo de seus gostos, preferências, atitudes, valores, corpo etc, dois aspectos se tornam importantes: a) como o Sujeito se percebe em meio dos outros, dos que lhe são próximos, amigos, pais, família; b) como ele se situa, e quer ser percebido, em meio da sociedade em geral, no cotidiano, nas ruas, ou fora delas, nas ocasiões e momentos especiais, nos lugares desconhecidos e situações não experimentadas anteriormente.

Em outras palavras, os meios de comunicação fornecem conteúdos (ideias, imagens, sentidos) que são incorporados pelos sujeitos, não somente para se construírem, mas também para se apresentarem aos outros. No cotidiano há expressões para designar esses dois aspectos, por exemplo: “você precisa se modernizar!” indicando ideias “mais atuais” a serem incorporadas; “dei um trato na figura”, indicando alterações na aparência, visando aceitação mais favorável pelos outros; “dei uma repaginada”, também indicando alteração na aparência. Todavia, ninguém pode garantir que uma “repaginada” signifique a “modernização” do modo como o sujeito se pensa, muito menos de sua identidade cultural.

É nessas duas dimensões que o poder difuso dos meios de comunicação atua, estabelecendo “modelos” para o sujeito ser a si mesmo, modelos do que pensar, dizer, vestir, sentir etc. Também os meios de comunicação constroem imagens supostamente típicas (estereótipos) para segmentos sociais, profissionais, para comportamentos em sociedade, etc. Essas imagens e textos são carregados de generalidades, mas são considerados “verdadeiros” pelo público desavisado, resultando em preconceito (pré-concepções) nos contatos cotidianos. Por exemplo, uma senhora, intelectual, avó, “não combina” com a preferência musical pelo rap...

A construção da identidade cultural é processo sócio-psicológico e uma experiência comum na adolescência, período em que todos se sentem ‘senhores da verdade’, tentados a experimentar de tudo, percebendo-se muito diferentes dos pais, professores e adultos em geral e dos irmãos mais novos; mas em compensação, sentem-se muito próximos dos amigos, jovens também, conhecidos ou não, porque também podem ser os amigos ‘virtuais’, todos formam a galera, a crew, a turma, ‘os cara’, ‘os mano’, ‘a gente fina’, ‘os sangue bom’.

Esse reconhecimento de si (identidade) encontra receptividade ou ‘repercussão’ nos outros, dando origem a um sentimento de ‘pertencimento’, de acolhimento, reforçado pelas semelhanças entre indivíduos do mesmo grupo. Algumas instituições sociais reforçam esse processo ‘inclusivo’, dentre elas a família, escola, religião, e vivências sociais como hobbies, esportes, bairro de moradia, clubes etc.

A outra faceta da identidade social e cultural, especialmente para os jovens, aquela que se instaura de fora, consiste em identificar grupos a partir de vivências particulares, preferências específicas ou mesmo condições sociais específicas. Em parte esse processo dá origem às tribos urbanas, conforme discutido em páginas seguintes. A mídia é um agente poderoso dessa nomeação ou etiquetagem, na construção e divulgação das tribos, especialmente porque elas em geral se posicionam na dessemelhança em relação ao padrão geral instituído na cultura, seja pela moda ou outros meios que instauram a semelhança.

Nesse sentido, a construção de identidades culturais e sociais pelos meios de comunicação implica estabelecer diferenciações sociais, sob a forma de imagens sociais das diferenças culturais e sociais, que são conhecidas e reiteradas nas modalidades de discurso da indústria cultural: texto, imagem, som, e nas duas ou três modalidades articuladas, como no rádio, cinema, TV e Internet. Por exemplo, leia a frase: “Uai, sô, us mininim tava tudo bonzin”...

Leu? Então, qual imagem mental de brasileiro que você formou? A imagem de um paulista, nordestino, gaúcho ou mineiro? Mineiro? Acertou, mas de Belô ou do interior de Minas, gente simples ou sofisticada? Observe que a construção “us mininim tava” apresenta um erro de concordância verbal (sujeito no plural, verbo no singular); este recurso é utilizado pelo rádio, ou no texto literário, para situar a personagem em determinado lugar social, um dos segmentos populares da sociedade brasileira, (de qualquer região, tanto rural quanto urbana), tal como em “Os mano, os bró” (o mesmo erro de concordância, mas agora referido a duas populações de jovens urbanos: paulistas e cariocas).

Expressões regionais (o pãozinho francês paulista tem outra designação no Rio Grande do Sul) e metáforas correntes em alguns segmentos sociais, como “Passar o rodo”, são elementos de construção textual de uma cena de novela ou filme, de uma personagem e de um ambiente. Embora o texto não descreva as personagens, “sabe-se” que são personagens típicas, das quais se forma uma “imagem mental”. Esse é o processo que se observa na construção da realidade social, e respectivas diferenças sociais nos meios de comunicação. Ele implica a modalidade de poder difuso, quase imperceptível, mas que é uma generalização.

O processo evidentemente implica certa aproximação com a cultura de referência das imagens (ou do texto), mas é possível empregar recursos que reforçam traços típicos, e consequentemente facilitam a imagem mental. Esses são artifícios utilizados na Propaganda, cinema e TV, eles envolvem ambiente e corpo das personagens, gestos, modo de falar, posturas, suores, lágrimas, olhos, boca e sangue. O corpo do ator produzido desse modo remete a personagem que ele encarna para um determinado “lugar”, demarcado socialmente, e como tal, reconhecido na cultura (e pelo espectador, é claro). O corpo da personagem torna-se um “corpo social”, um significante da cultura para a visualidade do espectador, que o decodifica, estabelecendo um significado, pensando: “Ah! esse deve ser”.

Nas imagens em movimento (TV, cinema) a tomada de perto e o “close” permitem acentuar traços fisionômicos, mostrar emoções, mostrar ao público o suor na pele do ator, especialmente se a pele for negra ou mulata. Para maior efeito, às vezes os atores são besuntados de óleo para que brilhem sob a luz dos refletores. O suor é um traço associado ao esforço, e se faz presente no trabalhador, no favelado, nas cenas de tensão (discretamente nas têmporas do galã), nas de tesão (no corpo feminino), mas jamais em uma cena de jantar formal, ou de reunião entre empresários, exceto em raras comédias.

As construções das identidades culturais e sociais (e diferenças sociais) em imagem e texto constituem mediações da sensibilidade. Nas dobras desta comunicação estão presentes modelos culturais e estereótipos diversos, dentre eles de etnocentrismo. Um dos mais frequentes está na imagem de Cristo: será que seus olhos eram azuis? Tudo indica que não, mas a cor de seus olhos e os cabelos loiros são conteúdos e sentidos assumidos para produzir a imagem como produto cultural, refletindo concepções ideológicas e opções estéticas de seus realizadores. Desse modo, arquivos de imagem e texto refletem construções de identidades por diferenças sociais, abrangendo aspectos políticos, econômicos, culturais e religiosos, além de serem atravessados pela história, que aparece em detalhes do vestuário.

O cinema nacional em vários momentos trouxe para as telas a “democracia à brasileira”, incomodando os “politicamente corretos” de todas as décadas, desde os anos 60. As câmeras dirigidas para os morros expuseram ao público de classe média as condições de vida de segmentos sociais, sobretudo favelados e negros; em outros filmes os prisioneiros. A exposição foi considerada por muitos como desagradável, desnecessária, e mesmo irrelevante, mas na verdade, sempre foi um tema incômodo para a classe média desde os anos 60 aos atuais. De qualquer forma, as favelas continuam, a pobreza permanece, e as prisões não sofreram grandes alterações, apenas foi implementado o sistema de segurança máxima.

O reconhecimento público de que preconceitos são inadequados em uma sociedade como a brasileira, não elimina posturas individuais e sociais que reafirmam as diferenças sociais, e os preconceitos em que se fundamentam. Essa duplicidade baseia um conceito corrente na chamada “pós-modernidade”, a postura cultural denominada politicamente correta. Ela traduz a distância entre prática e discurso, mais precisamente ainda, a distância entre práticas individuais e sociais e o discurso individual sobre as mesmas práticas, algo como: “Yo no creo em brujerias, pero que las hay, las hay”. Na propaganda, cinema e na TV o humor incorpora essa duplicidade da cultura fazendo rir, exatamente porque reafirma a prática cotidiana.

Enfim, a construção das diferenças sociais nos meios de comunicação reproduz a cultura em suas contradições, e assim seguidamente reproduz os preconceitos, e até acolhe a duplicidade ética. Esse é um aspecto importante do poder difuso que exercem esses meios de comunicação em relação à identidade cultural.

Construir o Outro é relativamente simples, se ele for concebido como o “algo” distante de quem olha, e de quem tenta reproduzir esse “objeto” em detalhes, sobretudo naqueles que interessam. Mas a produção se torna complexa quando esse Outro for concebido como Sujeito de Si na vida social e com quem se mantém vínculos cotidianos, seja de comunicação, identidade ou de proximidade. Como se vive no cotidiano, essa construção torna-se difícil, porque implica a produção de uma realidade vivida, não exatamente como ela é, mas como deveria ser para que seja reconhecida pelo público.

Na atualidade o cotidiano aparece dividido em trabalho e não-trabalho, sendo que o primeiro termo determina o segundo. Essa partilha, comum a todos, é uma referência frequente nos meios de comunicação, resultando a verossimilhança dos comerciais. Quando uma empresa de comunicações anuncia um equipamento que traz a possibilidade de alguém ser encontrado sempre, é ao cotidiano partido que esses comerciais se referem, é sobre o tempo de não-trabalho que a empresa avança. A construção do Sujeito e do Outro nesse cotidiano implica o estabelecimento de uma relação intersubjetiva, uma relação entre pessoas que se posicionam como sujeitos.

Todavia, é preciso deixar claro que em qualquer circunstância nas modalidades de discurso, a imagem não “diz” o texto, nem o texto “discursa” a imagem, o mesmo princípio vale para o sonoro (musical ou não). São três modalidades de discurso que são articuladas produzindo o sentido que repercute da cultura, e que ressoa no repertório do público. Por isso a construção é complexa, e pode levar a enganos lamentáveis. Além do mais, uma das modalidades pode ser sobreposta à outra, criando efeitos brilhantes: quem nunca ouviu o fundo (trilha) musical para a cena das facadas em Psicose, de Alfred Hitchcock, 1960?

Um caso especial de construção do Outro (e de sua suposta identidade cultural) que deve ser comentada é a relativa à população negra. Nos meios de comunicação, o Brasil não aparece com sua verdadeira cara, apesar de a publicidade sempre inserir uma criança negra entre loirinhos e orientais que festejam o Dia da Criança. Embora sempre se louve a presença da cultura africana na composição da brasileira, pouco, muito pouco se sabe da cultura africana que veio para o Brasil, e um sinal disso é o preconceito que envolve as manifestações religiosas originárias da África, sempre tomadas como “folclóricas” e exóticas. Outro preconceito, este mais recente, é em relação à cultura hip hop, ao rap e ao funk.

De qualquer forma, a cor da pele parece ser um recurso utilizado para produzir personagens associadas a dois conteúdos culturais significativos: de um lado ao corpo, desempenho esportivo e sensualidade; de outro lado, à marginalidade e malandragem.

Como expressão da sensualidade, a cor da pele é associada a um corpo feminino de origem negra ou ao corpo de mulher branca, queimado de sol; se aparece como dimensão de marginalidade e malandragem, em geral o foco recai sobre um corpo masculino, do morador da favela, do morro, da periferia do social hegemônico. Contudo, os filmes que focalizam a relação entre homem negro e criminalidade também constroem um homem branco marginal (mas na posição de mando). Tais associações por si já são preconceituosas, aspecto que é evidenciado em documentários como Negação do Brasil, Joel Zito Araújo, 2000, dentre outros, e vem sendo sistematicamente discutido no programa Espelho do Canal Brasil, dirigido por Lázaro Ramos.

Os meios de comunicação também constroem consensos culturais em torno de idéias, posturas, valores, opções políticas, conteúdos que são, de um lado, relacionados aos jogos de poder (Consenso planejado), e de outro, relacionados aos interesses do sistema de consumo (moda, inovação, “modernidade tecnológica”).

O consenso planejado responde por boa parte dos apelos de MKT e PP, sendo um deles a idéia de que o consumo conspícuo preenche os espaços construídos pelas diferenças de classe, porque é aquele consumo do que é desnecessário, mas que é realizado para o consumidor “se mostrar”. O consenso planejado também constitui a base de campanhas políticas, como por exemplo, a argumentação em torno: do “milagre brasileiro”, na ditadura militar, da privatização, nos anos 90 no Brasil, ou em torno da importância da guerra do Vietnã para a democracia e para a liberdade no mundo, isso nos USA dos anos 60-70. Os três “consensos” se mostraram falaciosos posteriormente.

A formação de uma opinião pública corresponde desse modo à formação de um conjunto articulado de idéias, valorações e informações que podem ser contraditórios, superficiais, mas que se apresenta aparentemente hegemônico em um dado momento em uma sociedade e cultura. As persistentes pesquisas de opinião, pesquisas de mercado, pesquisas de tendências visam devassar as “opiniões” de um público, supostamente majoritário (maior que 50%), ou de um nicho desse público.

No Brasil, e especialmente nas grandes metrópoles, a “opinião pública” reage com suas respostas às informações que correm nos meios de comunicação, assim uma pesquisa sobre a pena de morte receberá maior votação quanto mais simples seja a pergunta, e quanto mais próxima estiver de um ato de violência comentado na mídia.

O processo é tão sutil e insidioso que jovens pobres, sem emprego, se sentem mais pobres ainda, sem identidade, se não vestirem roupas “de marca”, não ostentarem o “celular top de linha”, ou o tênis mais “fashion” possível; todos esses itens devem ser “importados”, ainda que sejam da Praça da Sé. Isso para não falar da luta inglória das mulheres contra a lei da gravidade, contra os cabelos crespos, os cabelos brancos. Todos devem ser jovens, e se possível, “sarados”. Esses são os “felizes”, ensina a mídia, além de apontar os endereços onde adquirir tanta “felicidade” pelo cartão de crédito. Na cultura atual essa “felicidade”, que constitui a aparência de uma identidade, é importante e até favorece na seleção por vaga de emprego.

Em contrapartida a esse poder que empresta ao corpo uma “embalagem” identitária, é também possível, na sociedade virtual (internet) assumir tantas identidades quantas a imaginação possa criar. Trata-se aqui de participar de uma cultura global (em geral falada ou escrita em inglês), de ser um “membro” de alguma comunidade que pode estar do outro lado do mundo, de participar de uma rede de relações virtuais, de “conhecer” pessoas, e conversar, discutir temas profissionais, arte etc. Nas empresas as “redes” cumprem funções específicas, elevam a produtividade com rapidez nas comunicações; na vida privada elas ampliam, diversificando, e tornando superficial um campo de contatos “pessoais”, que vão da troca de receitas, opiniões esportivas, religião, filosofia, ao sexo (virtual).

Todavia, identidade cultural não é a ampliada, mas a específica, não é a das redes globais, mas de nacionalidades, não é do grupo, mas do sujeito que se constrói, e somente dessa forma é possível percorrer o caminho inverso, aquele que torna o sujeito um participante com identidade na rede social virtual da cultura contemporânea.
3. Agora, uma perguntinha de bolso: o que é mesmo Identidade cultural?

Lembrando que identidade é o que se chama “reconhecimento de si”, portanto, uma percepção do Sujeito de si mesmo de seus gostos, preferências, atitudes, valores, corpo etc, e ao mesmo tempo, como esse Sujeito partilha com os outros essas preferências, gostos, linguagem, etc tem-se dois aspectos importantes:




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