Crack – da pedra ao tratamento


Neurobiologia da cocaína e crack



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Neurobiologia da cocaína e crack
Atualmente, sabe-se que todas as drogas de abuso atuam sobre a neurotransmissão dopaminérgica, mais especificamente sobre a via mesocorticolímbica, que se projeta da área tegmetar ventral (ATV) do mesencéfalo para o núcleo accumbens (NAcc) e o córtex pré-frontal (CPF), que compõe o chamado sistema de recompensa cerebral. Esta ação pode ocorrer de forma direta, sobre os neurônios dopaminérgicos, ou indireta, sobre neurônios de outros sistemas que modulam a atividade dopaminérgica (glutamato, GABA, noradrenalina, serotonina, opióides) (19).

A estimulação do NAcc a partir da ativação da via mesolímbica também é responsável pela sensação de prazer obtida com o uso da droga e tem um papel central no reforço dos comportamentos de busca. Já o córtex pré-frontal está envolvido nos processos de tomada de decisões, sendo responsável pelo controle inibitório, e costuma estar hipofuncionante nos dependentes químicos ou indivíduos com outras comorbidades psiquiátricas, principalmente aqueles com sintomas de impulsividade (19,20,21).

Está bastante claro na literatura que a cocaína inibe a recaptação também através do bloqueio de transportadores de outros neurotransmissores, como noradrenalina e serotonina, mas suas ações no sistema dopaminérgico são consideradas as mais importantes. A hipótese biológica mais aceita na atualidade pressupõe neuroadaptações no sistema de aprendizado e memória no sistema dopaminérgico e no circuito glutamatérgico nos quais as projeções dos neurônios dopaminérgicos estão inseridas (22).

Um dos avanços nas pesquisas neurobiológicas sobre os mecanismos de ação das drogas de abuso foi a identificação dos alvos moleculares das principais drogas, incluindo aqueles relacionados com a cocaína. Isto se tornou possível com o advento das técnicas de “binding” (ligação a radioligantes que podem mostrar e identificar regiões moleculares), a caracterização bioquímica dos sítios de ação das drogas e a aplicação de técnicas de biologia molecular para clonar e isolar estes sítios. Dessa forma, estudos de neuroimagem já podem quantificar e demonstrar alguns danos causados pelas drogas (20).

O incremento na disponibilidade de dopamina cerebral ocorre através do bloqueio do transportador pré-sináptico de dopamina (DAT) pelo uso agudo de cocaína. Isto causa aumento significativo da dopamina na fenda sináptica, lum dos principais motivos que tendem a desencadear o comportamento repetitivo de busca da droga. Já o uso continuado de cocaína associa-se a uma “down-regulation”, qual seja, a depleção de receptores pós-sinápticos de dopamina, de forma que haverá necessidade de maiores níveis de dopamina para manter o impulso sináptico e proporcionar o efeito clínico desejado (23,24).

Os dependentes químicos apresentam alterações em extensas áreas corticais, em especial na área frontal e temporal, além de estruturas subcorticais e gânglios da base. Tais alterações estão associadas com padrões alterados de ativação durante tarefas cognitivas, inibição e tomada de decisões. Os usuários de cocaína parecem possuir as maiores alterações dentre os usuários de drogas estudados (25).

Não há estudos específicos para o crack no que se refere aos aspectos genéticos ligados aos sistemas dopaminérgicos e serotoninérgicos, embora existam diferenças entre esta droga e a cocaína, especialmente no que se refere à farmacocinética. O crack possui maior e muito mais rápida absorção pela via pulmonar. Seu início de ação ocorre entre 8 a 10 segundos e a duração dos seus efeitos também é efêmero (entre 5 a 10 min), o que também aumenta o desejo (fissura) pela droga. Além disso, atinge picos plasmáticos maiores que o uso de cocaína endovascular, características que podem explicar seu alto poder dependógeno (26).

A antiga e popular noção de que nossos genes não se modificam já não está mais correta. Sabe-se que estímulos químicos e outras influências ambientais podem alterar a expressão de uma parcela de seus genes. A cocaína, por exemplo, modifica a expressão de numerosos genes no NAcc, incluindo alguns dos sistemas glutamato e opióide endógenos.

Estudos epidemiológicos têm demonstrado que cerca de 50% do risco para consumo de cocaína ou outra droga tem caráter genético. Isso é maior do que o encontrado em condições médicas consideradas de alto grau de herdabilidade, como diabetes tipo 2, câncer de mama e hipertensão. Os genes específicos que possam conferir tal herdabilidade permanecem desconhecidos, no caso da cocaína. Uma das possibilidades teóricas é de que pelo menos alguns deles sejam os mesmos genes afetados pela exposição à cocaína (27).



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