Crack – da pedra ao tratamento



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Epidemiologia

Estudos brasileiros sobre o consumo de substâncias psicoativas têm sido realizados (8), com diferentes amostragens, que contemplam estudantes de níveis fundamental e médio, universitários, crianças de rua, institucionalizados, população, e hoje dispomos de evidências suficientes para considerar o consumo de drogas no Brasil, um problema de saúde que deve preocupar e mobilizar a todos os profissionais e à sociedade em geral.

Com os estudantes dos níveis fundamental e médio de escolas públicas das redes municipal e estadual, foram realizados cinco levantamentos nacionais pelo CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), sendo o primeiro em 1987 com amostras randomizadas de 10 capitais brasileiras e o último, em 2004, realizado em 27 capitais (8).

Neste último, o maior número de usuários encontrava-se na faixa etária dos 16 anos em diante, embora 12,7% das crianças de 10 a 12 anos, relatassem ter consumido drogas, pelo menos uma vez na vida. As drogas lícitas, álcool (65,2%) e tabaco (25%), foram as mais consumidas, com 22,6% dos estudantes tendo consumido drogas ilícitas, em algum momento da vida. Os solventes (15,5%) e a maconha (5,9%) lideraram este uso, com 2% dos estudantes referindo já ter consumido cocaína e 0,7% ter consumido crack.

Porto Alegre apresentou o maior uso na vida de cocaína e crack, 2,3% e 1,5%, entre as três capitais da região sul. Os meninos, 2,6%, relataram maior uso na vida de cocaína que as meninas, 1,8%. O mesmo ocorre com o crack, 2,3% e 0,7% respectivamente. A comparação entre os cinco levantamentos realizados em Porto Alegre, para uso de drogas na vida, mostra uma tendência de redução do uso na faixa etária dos 10 a 12 anos, em ambos os sexos. Nas demais permanece estável. Para o álcool, há tendência de redução para todas as faixas etárias em ambos os sexos.

Dois levantamentos sobre o consumo de substâncias psicoativas, pela população brasileira, foram realizados também pelo CEBRID em parceria com a SENAD – Secretaria Nacional Antidrogas (9,10). O primeiro, em 2001, envolveu as 107 maiores cidades do país e o segundo, realizado em 2005, com as 108 maiores cidades.

O I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil (9) entrevistou 8 589 habitantes com idades entre 12 e 65 anos. Encontrou prevalências de 2,3%, de uso na vida, para cocaína e 0,4% para o crack, sendo que 12,2% dos homens entre 18 e 34 anos relataram já ter usado cocaína, pelo menos uma vez na vida. A maioria deles, 7,2% na faixa etária de 25 a 34 anos. A região sul apresentou a maior prevalência de uso de cocaína com 3,6% dos sujeitos, relatando uso na vida. O uso de crack, na vida, foi relatado por 0,5%.

O II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil (10) entrevistou 7 939 habitantes encontrando uma prevalência de 2,9% para uso na vida, de cocaína, e 0,7% para o crack. Novamente o maior uso de cocaína, na vida, 9,4%, é relatado por homens na faixa etária dos 25 aos 34 anos. O maior uso de crack, na vida, também ocorre nesta faixa etária com 3,2% dos homens relatando seu consumo.

A região sul tem o maior uso na vida de crack, com uma prevalência de 1,1%. A comparação entre os dois levantamentos mostrou o aumento de uso na vida, para o crack, que juntamente com a maconha e opiáceos apresentaram o maior crescimento na região. Enquanto no I Levantamento, em 2001, 99,2% dos entrevistados consideravam risco grave à saúde o uso diário de cocaína/crack, em 2005 este índice caiu para 96,9%.

As investigações sobre o uso de drogas por universitários, assim como com os profissionais da saúde, têm sido mais freqüentes entre os da área médica, e o estresse da profissão tem se mostrado como fator de alto risco para este consumo. Um estudo de revisão sobre o consumo de substâncias psicoativas entre estudantes de sete universidades brasileiras (11), comparou pesquisas realizadas com estudantes da Universidade de São Paulo (USP) em 1996 e 2001. Houve um aumento significativo para o uso, na vida, de álcool (88,5% X 92%), tabaco (42,8% X 50,5%), maconha (31,3% X 35,3%) e alucinógenos (6,1% X 11,4%).

Para o curso de medicina três universidades, das sete pesquisadas, revelaram resultados semelhantes. O álcool e o tabaco foram as drogas mais consumidas pelos estudantes, com relatos de insatisfação com o desempenho acadêmico associado ao uso de substâncias psicoativas e aumento considerável de benzodiazepínicos e anfetaminas, nos últimos anos do curso (11).

O usuário de cocaína das universidades brasileiras é, em sua maioria, homen, jovem, com idades entre 20 e 24 anos, solteiro, mora sozinho ou com amigos e sem religião (4). Entre os comportamentos de risco encontram-se a violência, sexo sem proteção e direção perigosa (11).

As internações por cocaína aumentaram desde a década de 90, e sua forma fumada, o crack, tem sido, em anos recentes, a principal causa de internação. Ferreira Filho et. al (2003), investigaram as internações ocorridas em seis hospitais psiquiátricos da grande São Paulo e encontraram que 29,8% dos pacientes usavam cocaína cheirada, 38,4% consumiam crack e 31,8% consumiam cocaína em pó e crack, com um total de 70% de usuários de crack (12).

Pesquisa recente com usuários de crack internados na Unidade de Desintoxicação do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, revelou que 70% faziam uso diário, com uma média de onze pedras ao dia (13). Amostra jovem, com idades entre 16 e 24 anos. Oitenta por cento dos pacientes relataram já ter feito alguma tentativa para interromper o consumo de crack, e 43,3% referiu internação anterior. Com antecedentes criminais, 40%, que se mostrou associado a sintomas de depressão, ansiedade e fissura.

Mas, não foi somente no Brasil que o uso de crack tornou-se um problema de saúde pública. Em países como Estados Unidos, México, Canadá, Austrália, e na Europa, alcançou as mesmas proporções (14,15). Na Europa, as estimativas de prevalência baseiam-se nas médias ponderadas encontradas para os países que enviam informações.

Em um estudo multicêntrico europeu (16) as mais altas prevalências do uso de cocaína entre 2001/2, ao longo da vida, são encontradas para o Reino Unido (5,2%%) e Espanha (4,9% em 2001). Segundo os dados do relatório anual de 2009 do uso de drogas na Europa, o Reino Unido notificou a existência de 0,5% de consumidores “problemáticos” de crack em 2006/2007 (17).

No Canadá, pesquisas recentes têm mostrado o aumento do uso do crack, e um estudo com moradores de rua encontrou que 52,2% deles tinham consumido crack nos últimos seis meses. Em Toronto, 78,8% dos entrevistados relataram ter fumado crack nos últimos seis meses (15).

O usuário de crack, brasileiro, não difere daqueles encontrados em outros países. Ele caracteriza-se por ser homen, jovem, poliusuário, baixo nível socioeconômico e educacional, sem trabalho ou vivendo “de bicos”, marginalizado, com piores índices sociais e de saúde que os demais, embora nos últimos anos o uso de crack tenha se expandido a outras camadas sociais. Trocam sexo por droga e têm maior envolvimento com a criminalidade (4,18). A imensa maioria inicia o consumo de drogas com o álcool e tabaco, precocemente e com uso pesado, passando à maconha como primeira droga ilícita e seguindo para as demais (18).

Uma diferença importante entre os usuários de crack brasileiros e os de alguns países desenvolvidos, está na principal causa de morte. Enquanto nestes países as mortes ocorrem por complicações cardiovasculares e cardiopatias causadas pela cocaína, e overdose, no Brasil a principal causa de morte é por homicídio (2,6).



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