Correspondencia incompleta



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Ana Cristina Cesar Correspondência Incompleta

organização



AEROPI.ANO EDITORA

INSTITUTO MOREIRA SALLBS



Armando Freitas Filho e Heloisa Buarquc dc Hollanda



Copyright © 1999 herdeiros de Ana Cristina Ccsar e as destinatárias Clara Alvim, l/cloisa fíuartjne de Hollanda, Cecília Londres e Ana Candida

Cesar, Ana Cristina, 1952-1983

Correspondência incompleta / Ana C. : organi­zação Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda.-Rio de Janeiro : Acroplano, 1999- 314 p. ; 14 X 21cm.

ISBN 85-86579-06-8

1. Ccsar, Ana Cristina, 1952-1983 - Correspon­dência. 2. Poetisas brasileiras - Correspondência.


  1. Freitas Filho, Armando. 1940- .11. Hollanda,

  2. Ileloi.sa ltuar<|uc de, 1939- .111. Titulo.

CI>I)-IW69.6

Capa e Projeto Gráfico Cecília Leal



Editoração Cecília Leal e Daniela Knorr

Coorclenaçüo Editorial Lite ia Lambcrt



Revisão Andréia do Espírito Santo ShahiraMahmudA. Daoud

Assistentes de Pesquisa Andreia do Espírito Santo Shahira Mahm ud A. Daoud

Direitos Reservados Acroplano Editora e Consultoria Lida. Travessa do Ouvidor 11/A Centro - Rio de Janeiro - RJ CEP: 200-10-040 Telefax: (021) 529 6974 e-mail: aero0ceniroin.com.bt



Apoio:

CNPq




Jogo de cartas * 7

Armando Freitas Filho

Nota dos organizadores ° 9 Para Clara de Andrade Alvim ® 13 Para Heloisa Buarque de Hollanda ®

Para Maria Cecilia Londres Fonseca Para Ana Candida Perez ® 195 Sobre a correspondência • 295 Cronologia • 307



A idéia de reunir algumas cartas e cartões-postais cie Ana Cristina Cesar para publicação, me veio de uma certeza: a de que seria interessante mostrar em estado original uma das principais matrizes de sua criação literária, além de revelar, pura e simples­mente, a exímia missivista. A escolha de Clara Andrade Alvim, Maria Cecilia Londres e Heloisa Buarque de Hollanda foi intencional: todas foram suas professoras. A primeira, a descobriu, na PUC; a segunda, na mesma universidade, a colocou como monitora de turma; a terceira a publicou na antologia 26poetas hoje, em 1976. Posteriormente, foi a orientadora de sua tese de mestrado na UERJ.

As relações das professoras com a aluna singular logo evoluíram para uma grande amizade. Amizade parecida à que Ana dedicava, desde sempre, a Ana Candida Perez, com quem traduziu, do inglês, poemas de autores contemporâneos. Ao fazer, portanto, essa seleção privilegiamos, seguramente, o aspecto mais exigente da escrita epistolar de Ana Cristina, devido à importância de suas interlocutoras, tanto no plano intelectual quanto afetivo.

\ Ela se confessa, sim,] mas faz (fala de) literatura o tempo todo. Em muitos e~extêinsõs momentos dessa correspondência', ouvimos trechos de sua dicção poética de teor tão peculiar. Verdadeiros exercícios prévios do que mais tarde ela iria transportar para os seus textos literários. Em certas cartas e cartões temos a sensação de ou/, se suprimíssemos o destinatário e o rcmctc-nic.j W/; estaríamos lendo alguns dos seus poemas, se não acabados, pelo menos ensaiados, que mais tarde vamos encontrar em seus livros, como em Correspondência completa, de 1979, constituído por uma carta única. Era como se primeiro ela escrevesse para alguém e depois o que tinha endereço ou destino torna-se, através de uma estratégia dissimulatória, errante, sem referente claro,

\


mensagem na garrafa, atirada ao oceano de todos para ser aberto por Ninguém ou por qualquer um, ao acaso.

Também é curioso observarmos a oscilação por que passa ! sua assinatura: das previsíveis Ana e Ana Cristina, à ficcionalizada Ana C., chegando às sumárias Eu e A., até o desaparecimento total em várias cartas. E, em pelo menos dois cartões, emerge, surpre- | endente, o pseudônimo Júlio, possivelmente a porção masculina j dejtilia, que é quem escreve e assina a já aludida carta solitária de í Correspondência completa, dirigida para alguém que não é nomeado (“My dear”), e onde nem sequer se distingue, no corpo do texto, o gênero da sua identidade. Oscilação que perdurou na capa das edições princeps dos seus livros: Ana Cristina Cesar e Ana Cristina C. Não se trata aqui de uma heteronímia incipiente, i mas sim da tentativa, creio, na correspondência e na obra, de criar '• uma persona que protegesse ou mascarasse, parcialmente, sua ! figura, como é comum nos diários pessoais (outra fonte primária 1 de sua literatura).

Para quem conheceu Ana Cristina de perto, esta atitude não é surpreendente. Só um autor de máscara ou de óculos escuros pode dialogar, “eticamente”, de igual para igual, com um leitor sem rosto ou disfarçado. Combina com quem sofreu da premência, quase teatral, de ser íntima, e da fatalidade, sempre questionada, de ser pública.


NOTA DOS ORGANIZADORES

As cartas selecionadas para esta edição foram escritas entre 1976 e 1980. A maioria delas quando Ana Cristina Cesar fazia, na Universidade de Essex, o seu mestrado em Theory andPractice of Literary Translation. O critério usado para a fixação dos textos foi o do bom senso. Foram cortados apenas os trechos que, segundo o ponto de vista das destinatárias e o nosso, pudessem causar cons­trangimento para as pessoas citadas e respectivas famílias. O sinal [...] foi usado para indicar as supressões, as palavras ininteligíveis, e certos nomes, em alguns casos, foram reduzidos às respectivas iniciais. Tenta­mos preservar a ênfase do texto manuscrito mantendo, como no original, os grifos e as aspas. Os termos em língua estrangeira aparecem grafados em itálico. Sempre que necessário atualizamos a ortografia e introduzimos pontuação, uma vez que as cartas foram escritas ao correr da pena. Em poucas ocasiões, empregamos o sic quando ficou evidente que a forma usada era um recurso de estilo.

Como bem observou Lucia Lambert que preparou os originais, é interessante notar que, escrevendo, no mesmo dia para duas interlocutoras, assuntos idênticos ganham versões que levam em conta, com astúcia, a expectativa de cada uma.

A presença de pessoas intimamente ligadas a Ana Cristina marcou a produção de Correspondência incompleta: seu pai, Waldo Cesar, foi quem elaborou a cronologia e o traçado de suas viagens; Cecília Leal, sua cx-cunhada_^_ç amiga para sempre —, além de assinar o projeto gráfico deste livro, a fotografou muitas vezes, sendo dela a foto mais divulgada de Ana C., encarando a câmara sob a proteção dos óculos escuros. Por fim, nós, os organizadores, fomos seus personagens: no livro Correspondência completa, de 1979, Maiy e Gil são os que agora, 20 anos depois, reúnem, pela primeira vez em livro, parte de sua epistolografia.



5 de Abril de 76

Coração,


Já tentei começar carta pra você algumas vezes — no imagi­nário, na máquina e na presença iluminada da I-lelô. Fico vacilante e boba todas as vezes: ora muda, ora prolixa. Acho sempre que tenho que produzir something witty and brilliant, no teu tom “certo”— mas pra escrever carta preciso renunciar pelo menos pela metade à literatura [ou à pose ou ao fetiche — sem querer ainda identifico os três e, é claro, não consigo mais “fazer literatura”], o que é particular­mente difícil na tua frente. E além do mais reluto em abrir mais uma frente de correspondência, em assumir que saudades vão também pro Planalto Central. Sei de ti por Helô, que conta coisas ótimas. [...]

Notícias daqui: depois de umas férias péssimas, cheias de doenças e depressões, me descubro de repente numa estabilidade há muito tempo desconhecida. Estranho, desconfio, acho vagamente que não sou bem eu. Consegui meu primeiro emprego como professora de português no Souza Leão — estou dividindo com a Patrícia (Birman) e perco o sono imaginando aulas mirabolantes (é para 2° grau, turmas irrequietas, loucas); saí de quatro depois da primeira manhã. É só uma vez por semana mas me animou muito, e está sendo ótimo trabalhar com a Patrícia, que estou curtindo depois de vários grilos. Agora falta pintar outra coisa, quem sabe uma faculdade no fim do mundo pra eu bater com a cabeça logo. Enquanto isso biscateio doidamente: resenhas pro Opinião, traduções, enciclopédias, datilografias. Estou iniciando no inglês Marilda & Bráulio Pedroso, que parecem ótimos e pagam bem, e querendo sair da Cultura. Brocharam for tbe time being meus intrincados planos de pós-graduação. De repente meti Campinas na cabeça, onde ainda não existe curso de literatura realmente. Adrian, o inglês que você não conheceu, sumiu também de repente, depoi.s da minha reação sufocada quando ele disse “I like you but l’m not in love with you" simplesmente. E nunca mais nada aconteceu, para nosso pasmo & pasmaceira. Mas isso foi antes do carnaval. Enquanto tudo acontecia chegavam cartas incríveis de Candide e de Cecil (já ouviste dela? Está ÓTIMA!), vão chegando, planejo um baú (ou um arquivo, pra ser moderna) com bolinhos de envelopes amarrados com fitas azuis e vermelhas. Já deves saber (ou nilo?) que estamos estudando Antonio Cândido - eu, Sônia (acho que você viu uma vez no Casa Grande, naquele debate dos neo-realistas russos), Cacaso e Ilelô [...). Fechando os parênteses — o estudo começa a funcionar; suspendemos os excessos de barato.

Acabei de fazer um resumo da minha (atual) vida??!

Saudades.



Beijos (e mande notícias & retrato & outras figuras e palavras) cm ti. E no Chico, no Pedro, na Joana (notícias, retratos...),



5 de maio de 76

Clara, minha querida,

Acabo de falar contigo e estou muito emocionada. Vou até a cozinha, tomo um anridistônico, ouço a empregada narrar o último capítulo de Anjo mau com brilhante expressão (adoro esses fuxicos de cozinha, papos de empregada, bastidores chi TV Globo — mas só de vez em quando) e pego tua carta pra reler, 'lenho ímpetos de começar a ladainha interpretativa, mas imagino que as alusões são mais elegantes. Acabo de ler o capítulo CXV1II de Quincas Borba, que devoro, e me sinto posta nos joelhos de d. Fernanda, que me devora. Mas tenho enjôo das minhas toituosidades blasôs, e não quero repetir uma fase de correspondência com meninas na América do Noite (interpretações mútuas, análises debruadas - aliás minto, de Washington não vem nunca esse tipo de consumação, ou dissipaçào). Lembro frase de I-Ielô hoje. Tua carta me despertou por via indireta carinho por ITelô, que eu agredi comicamente (?) na última sessão do grupo de estudo, insensível à baratinaçâo em que ela se encontrava semana passada. Telefonei pra dizer isso, sbe dismissed me louingly, “você é louca mesmo”, riu, passou, falamosde você. Sem querer desfiar o rosário interpretativo, realmente mamãe Clara e filhinha Ana Cristina... Ainda mais se você me pega pelò pé do meu “brilhantismo”, que foi o primeiro e mais grave caminho que a minha sedução tomou. Me lembro agora de coisa fundamental que você me disse, naquela sexta-feira entre paredes & serragem & carregadores de piano (Gávea): não importa o que esteja na cabeça dos outros, é preciso circunscrever a neurose, deixar de reparti-la. Eu sei agorá que desfiar interpretações, insistir sempre na mutualidade das obscuras transas, é querer repartir as boladas. O que importa é que eu ine sinto posta nos joelhos. Estou percebendo que sou briguenta, faço birras, apostas, leilões... Percebo


e continuo a querer brigar: minha mãe (e meu pai também) foram crianças/jovens extremamente brilhantes (minha mãe foi 1* aluna de neolatinas, ganhou bolsa pra França; meu pai era fodidíssimo, passava fome, mas já aos 6 anos ganhava bolsa no primário, tendo aprendido a ler sozinho, na Bíblia, acompanhando as leituras diárias dos cultos da família protestante, pai pastor, do Gênesis ao Apocalipse e de volta). Foram, mas hoje são classe média arrochada, trabalhando demais. Criaram pelo menos dois em três filhos para gênio, pensaram (pensam?): “você vai continuar e conseguir o que eu tive vontade, mas não capacidade..." Os três filhos precisam de muita análise, só dois estão fazendo (não exatamente os dois de cima).

Então vou te contar uma notícia de primeira mão, que não quero nem pensar direito nela: meu pai há uma semana recebeu telefonema de Genebra convidando ele para um cargo lã no World Council of Churches por seis meses. Não diga nada! Ainda não se sabe qual o $$ e eu tenho medo de imaginar, me vejo com sêis meses, imagino poemas á beira do cais... sempre o cais, não há despedidas no aeroporto.

Você continua extremamente engraçada! (& carinhosa!!) (Querida!)

Quando li dos teus medos de receber telefonema contando notícia pavorosa, me identifiquei e mais uma vez me perdi em consi­derações de que isso se cura, não é verdade? Li uma conferência do Freud, “L’angoisse et la vie instictuelle”, e coleciono citações. “On peut écbapper par la fuite au péril extérieur, mais c‘est une entetprise malaisée que de chercber à fuir un danger intérieuf, e ainda “L’angoisse est, en tant qidétat affectif, la réproduction d’un événement passé et périlleuxT, e ainda “a aventura começa / no coração dos navios” (lembra?), porque o Milton cantou nessa hora. Mas não consegui tenninar a conferência, comecei a não entender direito.

Minha mãe me mostrou uma revistinha que você ia gostar de ver: chama HerContos, era (é?) publicada em Itaúna com direção de

Jeferson Ribeiro cie Andrade e Jurema Dias de Andrade. Capa: Guimarães montado num cavalo no meio dos sertões, de chapéu de safari e gordurinhas e ar bonachão. Conteúdo: “Investigação sobre a presença de Itaúna na obra de J.G.R.”, de David de Carvalho, que pretende “identificar pessoas que conviveram com o autor, c que, no Sagarana (sic), passaram ao desempenho de personagens, ainda que elas se encontrem disfarçadas, desbocadas ... e finalmente concluir que no Sagarana não há o inverossímil ”. Não é fantástico? Seguem- se 25 páginas de nomes, mapas, cartas do Rosa, fotos, fac-símiles, relatos de crimes...

Essa preciosidade foi uma aluna da minha mãe que emprestou, nela que é do dr. Lima Coutinho, correspondente de Rosa.

Fofocas de cozinha?

Já que você falou em caixão, quer lazer o favor de abrir a pág. 118 da Estrela da vida inteira e reler “A virgem Maria”? Sabe que eu não sabia naquela época, mas não há mesmo como o Bandeira? (F.u só sabia na infância, depois perdi pro chato do Carlos, que me cravou unhas, não dentes.) Mas vai lá, lê lá o poema que é pra ti, com minhas dedicatórias, que eu espero até amanhã.

Vilma está bem, Fausto indo sem grandes gravidades. Nossos encontros, raros, difíceis.

A barriga, bela.

Na Semana Santa fui só com o;s dois inuãos para nosso sítio em Pedra Sonora. Fui só e ressentida de ir só. Culpa minha, que ando reclusa, fugida, trancada. Lembra da Sônia, que você viu uma vez saindo do Casa Grande, aluna da I lélô? F.la e Patrícia, boas amigas.

As outras, longe.

Passei fevereiro de 7á em Brasília, traduzindo Greimas & passeando pelos céus. Se um dia você encontrar os seguintes casais: Miriam & Adalberto Telles e Mara


Estou transando uma ótima com as fiihinhas da Patrícia. Gosto •muito de crianças. Saudades da Joana. Como vai ela com análise? Olha que a homeopatia é jóia. Hoje eu estava fazendo xixi de cinco em cinco minutos e soube que meu bom médico homeopata (disse isso como se diz: o bom Deus) um dia me disse que quando o cérebro dispara a bexiga acompanha. Ou compensa, sei lá.

De resto: aulas no Souza Leão (hoje quase arranquei os cabelos porque os alunos ficaram histéricos com as notas), outras aulas, a máquina de escrever. Dispersa, dispersada. Queria “ser” uma coisa (o que é que você vai SER quando crescer?).

As rasuras no papel correspondem a atos falhos?

Vê então se me escreve, gostei tanto de te ler e te ouvir. Beijos muitos, e saudades, e venha cá, e até Ana

Estou fazendo yoga. Na minha turma tem a maioria de velhas de mais de 60 anos, e a Maria Frias, pondo-se de cabeça pra baixo.

Mando um poema que queria dar para os alunos, mas ainda não tive coragem.

Agora vire a xxx página e Beijos,

querida.


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