Copa do mundo de 1958: tensões sociais na tentativa de modernizaçÃo do futebol brasileiro



Baixar 59,98 Kb.
Página3/9
Encontro29.11.2019
Tamanho59,98 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9
3. Apresentação e conduta pessoal

Como já foi visto anteriormente a CBD tinha uma preocupação com a questão do comportamento dos jogadores que representariam o Brasil na Suécia, por conta disto, estabeleceu que: “Quando em viagem, nos locais de concentração, hotéis, visitas, observar a mais absoluta correção de atitudes, comportamento e de trajar” (PPMC, artigo 74). A dúvida que se levanta aqui é: o que se entende por absoluta correção de atitudes e comportamento?

A leitura de Mário Filho pode fornecer pistas sobre as preocupações que estariam presentes no imaginário do Conselho Técnico de Futebol (CTF).6 Em seu livro clássico “O Negro no Futebol Brasileiro”, este autor vai mostrar que um dos maiores vexames envolvendo os jogadores brasileiros durante a excursão realizada na Europa em 1956, ocorreu fora de campo:
Em Londres, depois de um treino, Sabará entrou no salão de chá do Lane Park Hotel de chinelo, toalha, macacão, camisa e gorrinho de marinheiro, transformado, por alguns, num turbante. Eis a hora sagrada dos ingleses, ou melhor, das inglesas, sobretudo das velhas inglesas. Vendo, de repente, surgir, emoldurado na porta aberta do salão de chá, aquele preto de macacão e chinelos, as velhas inglesas deixaram cair as xícaras que seguravam, religiosamente, nas pontas dos dedos encolhidos, enquanto levavam à boca escancarada a outra mão, livre, para sufocar o grito bem inglês de suprema repulsa.

- Shocking! (Chocante). Aquele shocking ecoou no Brasil. Como é que o Brasil mandava para Londres, numa representação esportiva, um Sabará? Que é que os ingleses pensariam de nós? (RODRIGUES FILHO, 2003, p. 320).


Este tipo de narrativa demonstra a forma com que os jogadores brasileiros eram vistos no exterior, a questão do negro provavelmente foi algo utilizado por Mario Filho para poder trabalhar e valorizar o tema principal do seu livro clássico7. No entanto, a sua representação resistiu o tempo e foi reproduzida em vários estudos que tratam desta temática, inclusive na biografia de Paulo Machado de Carvalho, o que permite identificar que mesmo os dirigentes do selecionado sofreram influências dos escritos da família Rodrigues:

De novo, o fantasma do racismo rondou a seleção. O culpado de tudo, acusavam os cartolas, era o “escurinho” ponta do Vasco, Sabará. Ele não tinha nada de aparecer de chinelos durante uma improvisada recepção à grã-finagem britânica. Para os dirigentes da CBD, o vexame não era tático, e sim diplomático (CARDOSO e ROCKMANN, op cit. p. 146).


Para tentar evitar situações como a narrada por Mário Filho, o CTF estabeleceu que “Nas viagens – ônibus, trens, aviões, automóveis, nos hotéis, concentração, homenagens, banquetes, recepções, etc., os atletas só poderão tomar posse de lugares, de mesa ou alojamento, depois de designados pelos responsáveis” (PPMC, artigo 81). Esta descrição indica a necessidade de alguém definir para os atletas o que seria o comportamento adequado para cada situação, isto fornece indícios de que eles apresentavam dificuldades em compreender o que estava estabelecido no planejamento, algo que era decorrente da falta de experiência dos atletas em conviver em ambientes diferentes (muitas vezes refinados), os quais “exigem” comportamentos diferenciados, que variam de acordo com cada ocasião.

Neste aspecto o planejamento coaduna com o posicionamento apresentado anteriormente por Lyra Filho, ao mostrar que

Nenhum atleta ou jogador, saído do seio do povo, tem poder miraculoso para improvisar atributos culturalmente cristalizados [...] Não são muitos dentre os jogadores de futebol, aqueles que sabem ler e escrever corretamente (LYRA FILHO, 1973, p. 102).
O PPMC pode ser considerado uma atitude coercitiva na mudança do padrão social a que o indivíduo é submetido, através de restrição externa estabelecida pelos dirigentes da CBD, que se auto consideravam civilizadas e detentoras de boas maneiras e por isso, buscam levar os jogadores a apresentar-se dentro de um padrão considerado aceitável para alguém que irá representar um país que persegue o ideal de modernidade. Neste sentido, a CBD buscou padronizar também as vestimentas, exigindo que:

Quando em viagem pelo exterior, os atletas deverão usar obrigatoriamente a indumentária que lhes for determinada, a qual será fornecida pela CBD, e que se constitui de dois tipos: a) Uniforme de viagem, visitas e recepções, de uso obrigatório nessas oportunidades( 2 pares de ternos, sapatos) ; b) Uniforme para permanência no interior de hotéis ou locais de concentração (2 agasalhos, tênis, 2 camisetas, 2 shorts, meias curtas) (PPMC, artigo 75).


Este tipo de padronização faria com que os atletas não corressem riscos de estarem inadequadamente trajados, pois para situações formais estava previsto vestimentas clássicas e para as situações informais roupas esportivas. Contudo, cabe aqui destacar, que mesmo estando previsto no PPMC a vestimenta os atletas deveriam utilizar aquilo que lhes fosse determinado.

Gilberto Freyre (1986) ao estudar o hábito do vestuário brasileiro, mostra que para o homem ser considerado moderno e elegante é necessário acompanhar a moda que é produzida na Inglaterra, independente das diferenças climáticas e culturais e foi isto que os dirigentes da CBD fizeram, encontraram uma vestimenta que fosse esteticamente agradável para quem olhava, sem preocupar-se que aquele tipo de roupa era fora do padrão da grande maioria dos jogadores brasileiros de futebol da década de 1950 (p. 106-107).

Exceções existiam, como Zagallo, por exemplo, para o qual o vestuário indicado era algo importante: “Você não pode representar um país sem todo mundo estar dignamente com um terno e uma gravata, mostrando que existe organização. Isso é um princípio básico de tudo na vida” (RODRIGUES, 2007, p. 65). É importante destacar que este jogador teve uma vida diferenciada da grande maioria dos seus companheiros de equipe. Foi criado em uma família de bom poder aquisitivo, seus pais estudaram na Europa e Zagalo estudou no Colégio Militar do Rio de Janeiro e no Externato São José, ambos os colégios estavam entre os melhores do Rio de Janeiro, pela qualidade de ensino oferecida e pelo alto padrão de exigência comportamental que era exigido (ERTHAL e BORGES, 1996, p. 11-13).

Por outro lado, havia jogadores que assim como Garrincha praticamente não freqüentaram a escola e nem tiveram informações básicas, que eram necessárias para o convívio social. Ao tratar do Processo Civilizador, Norbert Elias vai mostrar que as primeiras experiências civilizatórias são fundamentais na criação do habitus (DUNNING & MENNEL, 1997, p. 9). Neste aspecto é importante salientar que Garrincha teve uma vida de total liberdade, sem imposição de limites e sem muitas cobranças por parte dos seus pais (FREITAS JUNIOR, 2005, p. 206). Este jogador viveu um dilema, decorrente do contraste entre a sua habilidade para o campo específico e a sua dificuldade de adaptação para o modelo de homem desejado.

Neste sentido, Garrincha aparece como contradição, criando situações que subvertiam ao PPMC, que deveria ser seguido por todos os atletas. Ele representa uma parte da realidade popular, através das suas atitudes simples, mas por outro lado ele não se entregou as exigências impostas pelos dirigentes, atitude feita de forma inconsciente e por isso não podendo ser considerada revolucionária, pois este atleta não adquiriu a desejada consciência nacional, mas também não desejava mudar as situações, ele só queria continuar sendo quem ele era, podendo ser classificado como o que DaMatta (1984) vai chamar de malandro, que para este autor é um personagem nacional. “É um papel social que está a nossa disposição para ser vivido no momento em que acharmos que a lei pode ser esquecida ou até mesmo burlada com certa classe e jeito” (p. 103).

Muitos cronistas criticaram este planejamento, mostrando que ele era muito detalhista e de um nível de exigência muito acentuado. Contudo, os seus idealizadores acreditavam que para conseguir uma modificação no comportamento dos jogadores era necessário um alto nível coercitivo. A preocupação estava voltada para a ausência de autorregulação dos jogadores, o que leva a um comportamento vulnerável semelhante ao de uma criança. Neste sentido, acreditou-se que eram necessários muitos esforços preventivos para que se tornasse possível uma convivência social exemplar. Ou seja, buscou-se através do PPMC trabalhar com a relação entre processos sociais e ações individuais civilizadas.





Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal