Copa do mundo de 1958: tensões sociais na tentativa de modernizaçÃo do futebol brasileiro



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COPA DO MUNDO DE 1958: TENSÕES SOCIAIS NA TENTATIVA DE MODERNIZAÇÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO
Miguel Archanjo de Freitas Junior

Alfredo Cesar Antunes

Bruno José Gabriel







O estado psicossocial do nosso povo ainda enverdece e os atletas saídos do meio do povo não podem improvisar condições e instrumentos de superação, ante aquelas provas desportivas que exigem a mobilização de maiores recursos e reservas orgânicas (JOÃO LYRA FILHO1, 1954, p. 52).


Esta observação realizada logo após o fracasso na Copa do Mundo de 1954, indica a visão que parte da elite local estabelecia sobre os jogadores do selecionado nacional, mostrando que pessoas vindas das camadas mais simples da sociedade normalmente agem com base nos seus instintos, ou seja, não se manifestam da forma com que as pessoas mais cultas da sociedade desejavam que eles fizessem, o que permite a Lyra Filho indicar que estes indivíduos apresentam-se em estágios civilizacionais inferiores.

Destarte, este tipo de afirmativa não pode ser naturalizada, pois trata-se de uma visão ideológica e de relações sociais estabelecidas pelo e para os homens de uma determinada conjuntura histórica. O Brasil da década de 1950, sofreu a influência do pensamento desenvolvido por organizações como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB)2 e pela Comissão de Estudos para a América Latina (CEPAL), as quais mostravam que a prioridade nacional deveria ser a superação do subdesenvolvimento, mas para que isto ocorresse era primordial que o homem conseguisse vencer a natureza em todos os seus aspectos.

Seguindo esta filosofia a Confederação Brasileira de Futebol (CBD) acreditava que não seria possível vencer uma Copa do Mundo sem modificar as atitudes dos jogadores brasileiros. Para resolver este problema a entidade máxima do futebol nacional propôs o Plano Paulo Machado de Carvalho3 (PPMC). Um projeto intervencionista de cunho civilizatório, composto por 96 artigos, dos quais os primeiros 63 eram relativos aos procedimentos administrativos que envolviam a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), o Conselho Nacional de Desportos (CND), o Conselho Técnico de Futebol (CTF), bem como detalhava as atribuições de cada membro da comissão técnica, detalhes das convocações, obrigações das equipes que tivessem jogadores convocados e as funções do capitão da equipe.

Neste artigo, optou-se em trabalhar com o Regulamento destinado aos Atletas, pois como indicou Paulo Machado de Carvalho (1957), no preâmbulo do próprio documento “Aos atletas convocados para o treinamento, concentração, viagens e jogos da seleção nacional é estabelecido o presente regulamento, cuja obediência deverá ser absoluta”. Estas instruções estão contidas nos artigos 64 ao 95 do PPMC, os quais foram condensados em quatro categorias articuladas e não dicotômicas. Sendo: 1) Condutas pessoais; 2) Controle do tempo; 3) Necessidade de educação formal mínima; 4) Relacionamento com os outros. Por limitações espaço-temporal, a nossa análise ficou centrada somente nas exigências voltadas para a conduta pessoal dos atletas.




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