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Partindo das reflexões apresentadas sobre a leitura, percebemos a necessidade de



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Partindo das reflexões apresentadas sobre a leitura, percebemos a necessidade de 
criar  situações  de  leitura  que  superem  a  ideia  do  incentivo  e  transcendam  o  desafio. 
Somente ao  ser desafiado  em  sua  capacidade de  mobilizar  os  mais  diversos  níveis  de 
conhecimento, cotextuais e contextuais, é que o leitor poderá estabelecer suas próprias 
hipóteses, testá-las, refutá-las, comprová-las e desenvolver habilidades que, mais tarde, 
serão novamente utilizadas em outras situações de leitura.   
 A partir da necessidade de promover situações de aprendizagem que configurem 
verdadeiros  desafios  para  o  crescimento  do  leitor,  cabe-nos  retomar  um  fenômeno 
linguístico, altamente produtivo: a ambiguidade.  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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Cabe-nos esclarecer que a ambiguidade não constitui sozinha a indeterminação 
dos  sentidos.  Outros  fenômenos  estão  agregados  a  este  grupo,  ou  seja,  além  da 
ambiguidade,  também  são  geradores  de  indeterminação  a  polissemia,  a  vagueza  e  a 
homonímia. No entanto, é foco deste trabalho a ambiguidade.  
Para  Cançado  (2012:  70),  “a  ambiguidade  é,  geralmente,  um  fenômeno 
semântico  que  aparece  quando  uma  simples  palavra  ou  um  grupo  de  palavras  é 
associado a mais de um significado”. Trata-se de um fenômeno muito significativo que 
ressalta  a  complexidade  da  língua  que,  ao  partir  de  um  princípio  de  economia, 
possibilita que um mesmo elemento linguístico gere sentidos diferentes, de acordo com 
as situações de uso no texto. 
Quanto aos aspectos que geram a ambiguidade no texto, Ferrarezi Jr. (2008: 180) 
explica  que  o  fenômeno  pode  ser  causado  pela  polissemia  de  uma  palavra,  pela 
ocorrência de anáforas ou catáforas de múltiplas interpretações, ou pela possibilidade de 
múltipla interpretação estrutural.  
Henriques  (2011:  87)  explica  que  a  ambiguidade  pode  ocorrer  no  nível  do 
léxico, mas também da estrutura sintática. Retomando Ullmann (1964) apud Henriques 
(2011), evidencia-se que a ambiguidade consiste em uma situação linguística que pode 
se  manifestar  de  diferentes  formas,  seja  por  razões  fonéticas,  gramaticais  ou  lexicais, 
mas em situações de uso da língua, “no ambiente pragmático-discursivo e sempre pela 
exploração da massa sonora (e sua representação gráfica)”.  
Pelas  observações  apresentadas,  percebe-se  que  a  ambiguidade  dá  ao  leitor 
situações  em  que  um  mesmo  material  linguístico  gera  diferentes  interpretações,  cujos 
direcionamentos são estabelecidos pela capacidade do próprio leitor perceber os demais 
elementos  engajados  no  processo  da  leitura,  representando  os  desafios  e,  diante  dos 
sentidos,  o  leitor  criará  hipóteses  interpretativas  que  atenderão,  ou  não,  ao  contexto 
linguístico,  em  situações  de  uso  específicas,  demonstrando  que  os  sentidos  não  são 
estanques.  
Essa  dinamicidade  de  situações  geradoras  de  sentidos  representa  importante 
ferramenta  que,  mobilizadas  em  processos  de  leitura,  contribuição  para  o 
desenvolvimento  de  habilidades  conscientes  e  inconscientes,  ou  seja,  cognitivas  e 
metacognitivas.  
Não se trata de uma tarefa fácil, visto que falamos e vivenciamos situações de 
comunicação permitidas por uma língua que não é totalmente regular, mas caracterizada 
pela existência de fenômenos que são responsáveis pela indeterminação dos sentidos. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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Por oportunizar a criança de sentidos diversos, o humor vale-se da ambiguidade 
para  a  sua  construção.  Discutir  humor  e  significação  é  fundamental,  visto  que  a 
compreensão  dos  fenômenos  constitutivos  do  humor  é  condição  para  analisar  a 
relevância destes, no ensino de leitura, pressuposto norteador deste estudo. 
Muitos são os estudos que enfatizam a importância do humor e sua função por 
considerar,  segundo  Travaglia  (1989:  670),  que  “O  humor  tem  sido  visto  como  uma 
atividade ou faculdade humana universal, cuja função vai muito além do simples fazer 
rir” e, por tal, um campo de estudo transdisciplinar. 
Quanto à caracterização do humor, este trabalho fundamenta-se em duas teorias, 
visto  que  estabelecem  o  suporte  teórico  para  a  compreensão  do  humor  na  atualidade. 
Trata-se da Semantic Script Theory of Verbal Humor”, Teoria Semântica dos Scripts do 
Humor Verbal
61
,  de Victor Raskin (1985),  e a Theory of Humor, Teoria do Humor, de 
Thomas Veacht (1998).  
Na Semantic Script Theory of Verbal Humor, ou seja, “Teoria dos dois Scripts”,  
Victor Raskin (1985) constitui uma teoria de base semântica na qual o texto humorístico 
é  construído  a  partir  da  existência  de  dois  scripts  que,  embora  distintos,  tornam-se 
compatíveis.  Para  a  compreensão  da  teoria,  faz-se  necessário  entender  que  um  script 
condiz a:  
...feixe  de  informações  sobre  um  determinado  assunto  ou  situação,  como 
rotinas  consagradas  e  modos  difundidos  de  realizar  atividades,  consistindo 
numa  estrutura  cognitiva  internalizada  pelo  falante  que  lhe  permite  saber 
como o  mundo se organiza  e funciona. Tais informações  apresentam-se em 
sequências  tipicamente  estereotipadas,  predeterminadas,  e,  como  tais,  além 
de serem objetos cognitivos, os scripts estão intimamente relacionados a itens 
lexicais e podem ser por eles evocados.  (Rosas, 2003: 140) 
Pelo exposto, compreende-se que o humor é construído pela oposição de scripts 
que, por sua vez, são roteiros cuja sobreposição gera certa incongruência ou oposição. 
Raskin (1985) defende, ainda, a existência de scripts que dependem, fundamentalmente, 
dos  aspectos  linguísticos  ativados  através  do  conhecimento  lexical  e,  como  também 
daqueles  que  dependem  do  conhecimento  de  mundo,  ou  seja,  das  informações 
enciclopédicas partilhadas entre os falantes. A leitura proporcionada por eles gera uma 
série de interpretações possíveis, cuja percepção daquela pretendida pelo texto consiste 
na identificação do gatilho semântico.  
Vejamos como ocorre na tira abaixo:  
                                                 
61 Também conhecida como Teoria dos Scripts ou teoria dos Esquemas Incompatíveis. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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 Fonte: Acervo pessoal do desenhista Kennedy Carvalho
62
 – 2015 
Na  tira  é  introduzido  um  script  que  gera  uma  esfera  de  normalidade,  marcada 
pelo  diálogo  dos  dois  personagens.  Com  a  expressão  “Não  se  prenda  a  coisas 
pequenas”, o leitor retoma conhecimentos de mundo e percebe que a ideia de prender, 
neste contexto, representa o desejo do locutor para que o amigo não mantenha a ideia 
fixa diante de um objeto, objetivo ou situação vivida. 
No entanto, no segundo quadrinho, o leitor estabelece a leitura do material não-
verbal  e  começa  a  perceber  que  ocorre  uma  violação  ou  mudança  de  script, 
proporcionado  pela  ambiguidade  do  verbo  “prender”.  Ao  assumir  outro  sentido  do 
referido  verbo,  o  interlocutor  da  tirinha  é  guiado  por  outro  script  que  rompe  com  o 
primeiro, gerando humor.  
A partir deste momento, o humor passa a ser construído pela expressão “ficando 
preso ao que importa”, no qual o personagem assume o sentido de “prender” como ficar 
amarrado a algo.  
 O  gatilho  humorístico  encontra-se  na  ambiguidade  lexical  gerada  pelo  termo 
“prender”,  compreendido  sob  dois  aspectos:  prender  como  deixar  preso,  ou  prender 
direcionar a atenção a algo.  
Pelo  exposto,  é  notório  que,  neste  estudo,  o  fenômeno  da  ambiguidade  é 
compreendido  como  uma  riqueza  constitutiva  da  língua,  capaz  de  gerar  situações 
diversas e desafiadoras e, por tal, relevantes para a formação do leitor.  
Ao  analisarmos  tirinhas  como  a  apresentada,  podermos  afirmar  que  a 
compreensão  do  humor  ocorre  pela  capacidade  do  leitor  em  estabelecer  as  relações 
necessárias entre os constituintes textuais e discursivos mobilizados, valendo-se de suas 
habilidades cognitivas e de atitudes inferenciais.  
                                                 
62 Uso com prévia autorização.  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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Realizar  inferências,  nesta  percepção,  representa  a  condição  do  leitor  de 
mobilizar  os  elementos  envolvidos  na  construção  da  tirinha,  relacionar  os  que  são 
importantes para a sua compreensão, ou seja, demonstrando habilidades metacognitivas.  
A contribuição do humor, neste movimento, reside na existência do movimento 
necessário  à  sua  compreensão,  que  ocorre  através  da  interação  entre  leitor  e  autor 
através  do  texto,  ou  seja,  ao  deparar-se  com  sentidos  possíveis,  o  leitor  estabelece  as 
relações necessárias, faz uso de estratégias para perceber a relação possível ou não dos 
sentidos  possíveis  para  eleger  aquele  que  melhor  se  adequa  a  situação  comunicativa. 
Neste  contexto,  além  da  percepção  dos  implícitos,  dos  atos  de  fala  inacabados  e  da 
capacidade do leitor perceber os sentidos pretendidos pelo autor dentre os possíveis de 
serem  construídos  inferencialmente,  no  texto,  ele  também  necessitou  estabelecer  a 
leitura do texto não-verbal.   
Devido  as  muitas  permissões  para  refletir  sobre  a  construção  dos  sentidos, 
proporcionadas  pelos  fenômenos  ora  estudados,  Oliveira  (2008:  165)  defende  a 
importância da inserção de atividades que envolvam a ambiguidade, seja lexical ou pela 
estrutura sintática, na sala de aula, sob a fundamentação de que  “um  fator importante 
para  o  sucesso  na  produção  e  na  compreensão  de  textos  é  estar  o  mais  consciente 
possível a respeito das estratégias utilizadas nesses dois processos textuais”. 
Pelo  exposto,  ratificamos  a  produtividade  da  relação  humor  e  ambiguidade  na 
construção de mediações para o desenvolvimento de estratégias de leitura.  
 
 
2 Ambiguidade e humor mobilizados para a aprendizagem da leitura  
 
Para  a  construção  de  propostas  didáticas  que  envolvessem  os  fenômenos  do 
humor  e  da  ambiguidade,  ancoramo-nos  nos  aspectos  teóricos  ora  enfatizados  e  na 
percepção de que: 
Ler/escrever  é  uma  atividade  de  resolução  de  problemas,  isto  é,  de 
tratamento, através da inteligência, de um conjunto complexo de informações 
(índices) que devem ser recolhidas (pelo leitor) ou emitidas (pelo produtor). 
Para  construir  o  sentido  do  texto,  o  leitor  e  o  escrito  devem  ligar  entre  si 
todos os tipos de índices percebidos (contexto, tipo de texto, léxico, atributos 
gramaticais significativos,  palavras,  letras, etc.) e elaborar a partir deles  um 
conjunto  coerente,  que  tenha  sentido  e  que  responda  à  finalidade  de  seu 
projeto e ao que nele está em jogo. (Jolibert; Seaiki, 2011: 54) 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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A complexidade gerada pelo jogo humorístico, sobretudo aquele que faz uso da 
ambiguidade constitutiva da língua, oferece ao ensino de leitura a oportunidade de levar 
o aluno a perceber estas relações de sentido, de ver-se desafiado pela própria língua e, a 
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