Coordenadores


Partindo desse aspecto estrutural e temático, posso sugerir que haja, entre esse



Baixar 5.01 Kb.
Pdf preview
Página6/12
Encontro23.05.2020
Tamanho5.01 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12

Partindo desse aspecto estrutural e temático, posso sugerir que haja, entre esse 
romance de 1996, A varanda do frangipani, e seu antecessor de 1992, Terra sonâmbula, 
uma  proximidade nas  estratégias  de  composição  de seus  mundos  possíveis  ficcionais. 
Tal  sugestão  se  deve,  particular  e  especialmente,  à  importância  que  a  categoria 
personagem  parece  assumir  nos  relatos  de  esses  romances  que  se  compõem,  com  o 
encadeamento  dos  seus  casos  a  modo  de  contação.  Nesse  procedimento,  verificam-se 
permutas explícitas ou implícitas da voz narrativa – um exercício dialógico de polifonia 
(BAKHTIN, 2008) –, atualizando-se tempos e espaços do narrado no nível da narração. 
Trata-se  de  diegeses  encaixadas,  dialogando  entre  si,  seja  pela  presença  das  mesmas 
personagens  em  mais  de  uma  estória,  seja  pela  retomada,  em  um  jogo  de  causas  e 
consequências, de ações que se interligam. 
Sobre esse aspecto, Leite assinalou que: 
[...] a particularidade das personagens de Mia Couto reside na sua narrativa, 
história  e  invenção;  as  personagens  são  mundos  narrativos  e  mediadores, 
“traduzem”  uma  experiência  de  vida  pessoal,  mas  exemplar,  didáctica  e 
crítica, para a comunidade. 
Não  parecem  desenvolver  grande  psicologia,  ou  mundo  interior  reflexivo, 
uma vez que existem mediante acções e, aparentemente tipificadas, como nas 
narrativas  orais  ou  de  origem  oral,  complexificam-se  de  acordo  com  outra 
lógica [...].(LEITE, 2013: 172) 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3357 
Para  ela,  observando,  ainda,  outros  romances  posteriores  do  escritor 
moçambicano, como, por exemplo, O último voo do flamingo, publicado em 2000: 
A  personagem  é  uma  história  virtual,  que  é  a  história  da  sua  vida.  Existe 
mediante  a  sua  capacidade  fabular,  o  seu  testemunho;  mais  do  que  um  ser, 
com  psicologia,  é  potencialmente  lugar  narrativo  de  encaixe.  As  muitas 
narrativas  encaixadas,  das  diversas  personagens,  servem  de  “argumentos”  à 
narrativa englobante. (LEITE, 2013: 176) 
Detendo-se nesses mesmos aspectos da obra de Mia Couto, Petrov registrou que: 
As  personagens  das  histórias  contribuem  igualmente  para  a  construção  do 
código  temático  porque  surgem  como  tipos,  ilustrando  mentalidades  e 
comportamentos precisos. No seu conjunto, todos eles delineiam o universo 
semântico de uma comunidade problemática em dificuldade de se adaptar às 
mudanças operadas. (2014: 85) 
O pesquisador ainda identificou que: 
nos  [...]  romances  que  [...]  [Mia  Couto]  publicou  [...],  as  identidades  da 
maioria  de  seus  protagonistas  apresentam-se  fragmentadas  e  plurais, 
contraditórias  e  não  resolvidas.  Isso  por  duas  razões:  por  estes  serem 
resultado de mestiçagens raciais e por estarem sujeitos a pressões de ordem 
conjuntural.  No  primeiro  caso,  merece  referência  o  campo  semântico  das 
personagens  assimiladas,  de  origem  africana  mas  algumas  com  sangue  de 
outras raças, divididas entre a cultura nativa e a imposta pelo colonizador, e 
cuja conduta sublinha a sua mestiçagem identitária. É o que se verifica com 
Izidine Naíta, Ermelindo Mucanga, Vasto Excelêncio e Marta Gimo, em [A 
varanda do frangipani] [...]. (2014: 79) 
Mas,  conforme  ele,  nesse  romance,  ainda  “há  outros  casos  de  identidades 
ambivalentes dignos de referência: o português  Domingos Mourão, um  eterno exilado 
que  não  consegue  romper  com  o  texto  africano  no  qual  se  sente  estranho  mas  que  o 
fascina [...]” (2014: 79), e que é “sistematicamente perseguido devido à sua cor da pele 
pelo director mestiço do asilo” (2014: 82). 
Petrov avançou, um pouco mais em sua leitura, chegando a afirmar que: 
A  identidade  ambivalente  revela-se  também  na  actuação  de  muitas 
personagens,  quando  confrontadas  com  as  profundas  mudanças  num 
Moçambique  pós-colonial.  Trata-se  de  processos  relacionados  com  a 
construção  de  uma  sociedade  nova,  na  qual  os  figurantes  se  afirmam  com 
perfomance  múltipla,  oscilando  entre  a  tradição  e  a  modernidade. 
Representam  identidades  em  certa  medida  incoerentes,  em  processo  de 
evolução, observando as normas de conduta trazidas pelas novas realidades e 
impostas  pelas  tradições  de  origem  autóctone.  São  identidades  de  fronteira, 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3358 
desempenhando  papéis  vários  e  as  perspectivas  mudam  conforme  as 
circunstâncias que se enfrentam. (2014: 79) 
As ponderações de Leite e de Petrov, com as quais concordo plenamente – em 
muitos  de  meus  ensaios  e  em  trabalhos  finais  que  orientei  sobre  A  varanda  do 
frangipani,  assumi  posições  muito  próximas,  senão  que,  na  maioria  das  vezes, 
absolutamente coincidente com as deles – permitem-me trazer à tona o que defendi, em 
certa ocasião, ao escrever sobre a “Apropriação de estratégias de construção narrativa 
real-maravilhosas  em  A  varanda  do  frangipani  e  Vinte  e  zinco”  (2013:  45-65).  Nesse 
ensaio,  parti  do  pressuposto  de  que  as  estratégias  de  construção  narrativa  do  real-
maravilhoso,  conforme  circunscritas  pela  crítica  literária  latino-americana,  que  se 
deteve,  com  maior  cuidado,  sobre  a  ficção  da América Hispânica,  poderiam  servir  de 
paradigma  para  a  leitura  dos  protocolos  ficcionais  apropriados  pelo  escritor 
moçambicano na composição dos mundos possíveis narrativos de suas obras. 
Na  leitura  que  então  fiz,  procurei  destacar  traços  de  proximidade  entre  aquilo 
que  a  crítica  então  apontava  na  narrativa  dos  países  americanos,  ex-colônias  ibéricas, 
com  o  que  eu  então  identifica  na  literatura  de  Mia  Couto:  representação  de  mundos 
possíveis  ficcionais,  em  que  modelos  comprometidos  com  a  realidade  empírica  – 
comuns à arquitetura semionarrativo-literária real-naturalista – convivem harmoniosa e 
complementarmente,  sem  se  enublarem  um  ao  outro,  com  modelos  assumidamente 
incongruentes  com  aquela  mesma  realidade  –  modelos  de  mundo  possível  ficcional 
adequados à literatura fantástica, lato sensu –, que espelhavam um real metaempírico, 
destoante dos paradigmas de modelo de mundo possível real-naturalista. 
Petrov  seguiu  o  mesmo  percurso  que  eu  seguira  naquele  meu  referido  ensaio, 
chamando, para corroborar com o ponto de vista que então defendeu, outro reconhecido 
estudioso  do  tema,  o  professor  universitário,  pesquisador  e  crítico  Pires  Laranjeira 
(1995). Petrov assim se expressou: 
A  influência  da  oratura  nas  estórias  do  escritor  moçambicano  [Mia  Couto] 
está  presente  também  no  recurso  ao  imaginário  ancestral,  que  recorre  às 
tradicionais raízes do mito assumido como algo de verdadeiramente vital. É 
sabido  que  o  substrato  cultural  das  literaturas  africanas  é  de  ordem 
profundamente  mítica  e  a  sua  actualização  remete  para  a  necessidade 
premente  de  o  homem  encontrar  alicerces  estabilizadores  para  qualquer 
estado de desequilíbrio. Assiste-se, assim, à intromissão da dimensão  meta-
empírica,  que,  segundo  Pires  Laranjeira,  consegue  transformar  o  “realismo 
quase social num imprevisto realismo animista” [(1995: 316)]. (2014: 89) 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3359 
Acerca desse fenômeno literário, Petrov ainda comentou que 
Em  A  varanda  do  frangipani,  um  falecido,  insatisfeito  com  o  seu  funeral, 
emigra  para  ocupar  o  corpo  de  um  inspector  de  polícia;  um  velho  sofre 
doença da idade antecipada; o corpo de uma personagem feminina converte-
se todas as noites em água; personagens descem à terra e nela se incorporam 
como forma de recusa de um mundo intolerável. (2014: 91) 
Mas  há  outros  traços,  além  desses  que  Petrov  recolheu  d’A  varanda  do 
frangipani, que permitem correlacionar o romance de Mia Couto à proposta conceitual 
que Pepetela, em seu romance Lueji: o nascimento de um império, publicado em 1989, 
insinuou devesse ser assumida pela crítica. A respeito da propriedade de se empregar, 
na  leitura  da  obra  de  Mia  Couto,  o  conceito  que  despontou  no  discurso  ficcional  de 
Pepetela, Fonseca se posicionou da seguinte maneira: 
O projecto de mestiçagem contido no conceito de “realismo animista” não é 
exclusivo da obra de Pepetela e, nas suas características fundamentais, define 
igualmente  o  projecto  autoral  de  Mia  Couto  [...].  [...]  os  processos 
discursivos,  bem  como  a  escolha  de  temas  e  ambientes,  são  diversos,  mas 
uma mesma preocupação e um mesmo compromisso com o real – ou os reais 
– fora do texto se encontram presentes. Entre o “realismo animista” (proposta 
de  Pepetela  para  uma  literatura  nacional  de  Angola),  o  “realismo  mágico” 
(modelo sul-americano), ou outros conceitos que se queiram acrescentar [...], 
uma mesma atitude: a impossível indiferença perante o real empírico – o dos 
autores e o das suas gentes. O dialogismo textual nasce dessa inquietação, do 
respeito pela dignidade que nenhuma visão totalitária pode garantir, para se 
traduzir  numa  diversidade  de  modelos  de  mundo  onde  a  palavra  se  faz 
reflexão, por vezes denúncia, sempre testemunho. (2002: 202-203) 
A  pesquisadora  orientou-se,  bem  antes  de  mim,  por  caminhos  que  eu,  sem 
conhecer  sua  pesquisa,  também  viria,  anos  depois  dela,  a  me  orientar  nas  abordagens 
que fiz da obra de Mia  Couto. A estudiosa discutiu, comparativamente,  estratégias de 
modelos  de  composição  de  mundos  possíveis  ficcionais,  nos  cenários  das  literaturas 
latino-americanas e africanas de língua portuguesa, com ênfase em obras do angolano 
Pepetela e dos moçambicanos  Ungulani Ba Ka  Khosa e Mia Couto. Em seu trabalho, 
ela  levou  em  conta  os  planos  sintagmático,  semântico  e  estilístico-pragmático 
perceptíveis nos modelos de mundo possíveis de narrativas que a crítica  vinculava ao 
realismo  mágico  ou  maravilhoso  da  América  Latina,  e  o  que  ela  percebia  no  recorte 
estudado em sua pesquisa de mestrado. 
Assim,  considerando  o  caráter  de  Novo  Mundo  tanto  para  a  América,  quanto 
para a África, e o fato de, em ambos os continentes, a expressão literária ter, por pano 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3360 
de  fundo,  uma  condição  sociocultural  de  ex-colônias,  Fonseca  deu  início  às  suas 
proposições, partindo da premissa de que: 
[...]  o  realismo  mágico  nas  literaturas  sul-americanas  vem  dar  corpo  a  um 
confronto  igualmente  observado  nos  textos  africanos:  a  complexa 
convivência  do  pensamento  racional  europeu  com  o  pensamento 
mitocosmogónico  popular  e  as  crenças  animistas  das  culturas  pré-coloniais, 
de que resulta, em última análise, um real fragmentado ou, sob outro ponto de 
vista, um real sincrético. (2002: 184) 
Tendo  em  conta  as  peculiaridades  culturais  e  sociopolíticas  de  África,  onde  a 
questão da identidade nacional, da soberania territorial e dos consequentes conceitos de 
real(idade) se sobrepunham à arte, Fonseca realçou que: 
A  apresentação  de  projectos  realistas  que  fundem  a  realidade  objectiva  e  a 
realidade maravilhosa tem sido relacionada [...] essencialmente com funções 
de  valorização  da  tradição  e  afirmação  de  modelos  culturais  irredutíveis  ao 
racionalismo  europeu.  De  facto,  estes  são  aspectos  fundamentais  em  obras 
que  se  procuram  aproximar  da  realidade  vivida  pelo  povo  africano  sob 
circunstâncias  diversas  –  a  realidade  entendida  no  sentido  “totalizador”  e 
“autêntico”  [...];  uma  realidade  tanto  material  como  espiritual,  tão  atenta  à 
permanência da memória colectiva como às mudanças que contribuam para a 
promoção do humano. (2002: 185-186) 
Uma  vez  definidos  seus  pontos  de  partida,  ela  se  deteve  em  seus  objetos  de 
estudo,  dedicando-se,  em  grande  parte,  à  obra  de  Mia  Couto.  Seu  olhar  focalizou  a 
estrutura  composicional,  em  desfavor  da  temática,  que,  quando  apareceu  referida, 
sempre o foi como produto da construção narrativa, resultante dos protocolos ficcionais 
empregados pelo autor. Para Fonseca: 
[Em  muitos]  textos  de  Mia  Couto,  a  solidariedade  do  narrador  com  as 
personagens e a preferência por focalizações internas naturaliza o específico 
modo  como  aquelas  estruturam  a  realidade,  evitando  a  dicotomização  de 
modelos de mundo, apesar de não anular o confronto que efetivamente existe 
entre eles e se traduz na percepção diversa dos acontecimentos. (2002: 188) 
Sua  orientação  implicava  a  admissão,  apenas  em  parte  irrestrita  –  há  um 
momento,  em  seu  trabalho,  no  qual  Fonseca  não  poupa  críticas  a  essa  postura 
equivocada  (2002:  157-169,  especialmente  nas  páginas  163-164),  do  que  a  grande 
maioria dos estudiosos das culturas e literaturas africanas – de língua portuguesa ou não 
–  costumam  defender,  apoiados  em  argumentos  nem  sempre  atinentes  às  práticas 
artísticas, à poética literária, à produção ficcional. Essas correntes impõem que se aceite, 
a  priori,  que  a  realidade  em  África  é  –  valendo-me,  aqui,  do  termo-conceito  que 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3361 
costumo  empregar  –  insólita,  sendo,  portanto,  sob  a  ótica desses  mesmos  pensadores, 
um  grave  equívoco  a  distinção  racionalista  aristotélica  que  aponta  para  as  nuances 
distintivas  entre  o  modelo  de  mundo  empírico  e  o  metaempírico.  Mas  nisso, 
considerando-se o projeto político daqueles que assumiram o poder em Moçambique – 
ou mesmo em Angola –, reside um grave – realmente grave, nesse caso – equivoco. 
Cingindo-se especificamente ao construto ficcional e tendo por referência a obra 
de Mia Couto, Fonseca defendeu que: 
A  crença  não  é  uma  alienação  da  realidade  –  a  crença  estrutura  (constitui, 
enquanto fenómeno de percepção e comunicação) uma realidade outra, onde 
as  personagens  encontram  a  dignidade  e  um  sentido  possível  para  as  suas 
existências, desumanas segundo a lógica comum. Ergue-se, assim, a ideia da 
resistência: resistência da cultura, das tradições, mas também da própria vida, 
ainda que tudo em redor a pareça recusar. (2002: 188) 
Desse modo, a atitude autoral de Mia Couto não corresponderia – nem na visão 
de Fonseca e, muito menos, nem na minha – à alienação ou fuga do real, senão que à 
assunção  de  um  outro  real,  no  qual  as  tradições  telúricas  –  mitos,  lendas,  crenças, 
folclore – se faziam presentes, deixando de estarem silenciadas pela lógica racionalista, 
mas, ao  contrário, tratava-se,  no caso bem particular da obra de Mia Couto – que até 
pode  ser  extensivo  à  obra  de  outros  escritores  do  mesmo  cronótopo  em  África  –  da 
“afirmação  pelo  discurso  literário  da  diversidade  e  pluralidade  do  real”  (FONSECA, 
2002: 190). 
No caso bastante peculiar da ficção de Mia Couto, pode-se falar claramente em 
“projectos de mestiçagem, ao cruzarem tradições, vozes, discursos, modos e espaços no 
interior  de  mundos  possíveis  narrativos  que  assumem  de  forma  intencional  a 
fragmentação e diversidade de modelos de mundo empírico” (FONSECA, 2002: 192). 
Na quase totalidade de sua ficção, como percebeu Fonseca
[...]  as  histórias  são  narradas,  prioritariamente,  por  alguém  que  as 
testemunhou  –  viu,  ouviu,  viveu  –  e  as  conta,  ou  seja,  representa  para  um 
outro: o autor. Neste sentido, o “vivido” é já o “representado”, o que coincide 
com a defesa da impossibilidade de um real acessível ao conhecimento sem a 
mediação  de  uma  subjectividade  que  será  sempre,  em  si  mesma,  já 
intersubjectividade. (2002: 198) 
Volto à ideia das apropriações, antecipada pelo título deste ensaio e tangenciada 
durante  a  exposição  até  aqui  desenvolvida.  Assim,  se,  em  Grande  sertão:  veredas, 
romance emblemático de João Guimarães Rosa, publicado em 1956 e aproximado, por 
grande  parcela  da  tradição  crítica  ocidental  –  ocidental,  sim,  sem  exageros,  devido  à 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3362 
dimensão  conquistada  por  Rosa  e  sua  obra  –,  das  vertentes  do  realismo-maravilhoso 
latino-americano, as memórias de Riobaldo e as aventuras de Diadorim – personagem-
narrador, cambiante entre função auto e homodiegética, cedendo, por vezes, posição de 
protagonista ao outro – são os núcleos da estória, e é entorno delas que a narrativa se 
desenovela, como notou Leite, de modo semelhante, na obra do escritor moçambicano 
Mia Couto: 
a personagem representa, [...] fundamentalmente, uma narrativa, ou  melhor, 
narrador e narrativa em simultâneo e logo que deixa de ser necessária a sua 
palavra,  pode  morrer,  desparecer.  Ou  ainda,  encarada  de  outro  modo,  a 
personagem  é  apenas  um  encaixe,  cuja  argumentação  deve  ser  substituída, 
complementada, acrescentada por outras [...]. (2013: 177) 
Esse  é  o  filão  que,  neste  momento,  tomo  para  reatar  os  fios  desenovelados  ao 
longo da explanação, Juntando suas pontas, busco justificar a assertiva que constitui o 
título deste trabalho, no qual proponho que Mia Couto, em A varanda do frangipani – 
eu  poderia,  ainda,  ampliar  o  corpus  e  incluir,  nele,  muito  mais  títulos  do  escritor  –, 
apropriou-se  de  estratégias  de  construção  narrativa  comuns  às  expressões  real-
maravilhosa ou mágica da América Latina. Como resultado, produziu discursos contra-
hegemônicos  em  favor  do  real-anismismo  africano,  atualizando,  cronotopicamente, 
protolocolos  da  ficção  que  ele  –  e  outros  mais  ficcionistas  africanos  que  escrevem  e 
publicam em língua portuguesa – foram buscar na literatura do Brasil – outra ex-colônia 
portuguesa, só que em outro continente – e, mesmo, da América Latina como um todo. 
Assim, seguindo os passos trilhados por Fonseca: 
se aceitamos que os modelos de mundo válidos em determinada comunidade 
se formam na dependência de consensos culturais, a tensão entre o “mesmo” 
e  o  “outro”  nas  sociedades  africanas[,  bem  como  nas  ameríndias,]  poderá 
implicar uma fragmentação do que é entendido, numa comunidade, como o 
“real”. (2002: 206) 
Portanto,  seja  em  África,  seja  nas  Américas,  o  modelo  de  mundo  possível 
ficcional de signficativa parcela da literatura que se vem produzindo na última centúria 
tem  tomado  por  referente  de  composição  um  real  exterior  que  engloba  experiências 
empíricas  e  metaempíricas,  em  que  convivem  nem  sempre  pacífica,  mas  sempre 
harmoniosa,  esses  extratos  da  realidade,  cuja  interdependência  entre  eles  é 
natural(izada), esperada e, mesmo, inevitável. 
Na sequência desse reatar fios, puxo umas pontas do novelo do último livro de 
Bella Jozef – pesquisadora, crítica e Professora Titular de Literatura Hispanoamericana 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3363 
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasil –, intitulado A máscara e o 
enigma.  Problematizando  questões  acerca  do  real-maravilhoso,  realismo-mágico  ou 
fantástico – lato sensu – na literatura latino-americana, Jozef enveredou pelas sendas da 
linguagem literária, atestando que: 
no  interior  da  metalinguagem  se  encontrará  um  mundo  inversamente 
homólogo  àquele  recusado.  Assim,  quando  tudo  ainda  está  por  ser  dito  na 
América  hispânica,  o  escritor  manifesta  uma  linguagem  que  deseja  criar 
personagens e, através destes, o mundo. 
A  evidência  da  falta  de  linguagem  própria  faz  com  que  haja  uma 
desestruturação  da  linguagem,  uma  exploração  e  descoberta  de  suas 
possibilidades [...]. 
Assim é que, ao desestruturarem a linguagem, os escritores transformam uma 
época e sua mentalidade, propondo a linguagem como fator de renovação e 
reelaboração  da  vida  e  de  uma  comunidade;  haverá  a  procura  de  uma 
linguagem que possa conter toda a realidade do homem. (2007: 191) 
Depois de fazer um amplo passeio pela literatura fantástica – lato sensu –, em 
suas expressões contemporâneas, indo a obras de diferentes escritores latino-americanos 
–  brasileiros  e  hispânicos  –,  a  propósito  de  conclusão,  Jozef  retomou  a  questão  do 
realismo-mágico e rematou, dizendo que: 
O mito e a magia introduzem-se na realidade cotidiana das obras [...]; o texto 
não tem de traduzir a verdade do autor, mas sua própria verdade. A obra “é 
produção de verdade e processo de conhecimento”. Quer recriar a realidade 
palpitante  do  homem  americano,  recobrando-a  como  verdade  e  existência. 
Recria uma realidade mágica, redescobre um mundo mágico oculto. Tanto as 
tradições,  os  mitos  e  as  lendas  como  a  indagação  da  realidade  profunda  do 
homem  americano  universalizam  a  problemática  da  ficção  atual:  destruição 
da barreira entre real e fantástico. Tenta fornecer nova imagem do homem e 
do mundo, enfatizando a expressão dessas novas relações. [...] Necessita da 
integração entre narrador-mundo-leitor e implica numa atitude subjetivista do 
narrador.  O  novo  romance  hispano-americano  recorre  à  fantasia  como 
integradora de elementos, com o propósito de alterar a ordem do real e captar 
suas essências com um sentido absoluto. (2007: 215) 
Dou,  agora,  um  ponto  de  arremate  entre  dois  fios,  e  voltou  aos  Ensaios  sobre 
Literaturas  Africanas,  onde,  em  um  de  seus  capítulos  dedicados  a  leituras  da obra  de 
Mia Couto, Leite destacou: 
Verificamos que nos contos de Mia Couto [– ou, mesmo, em seus romances, 
como  em  A  varanda  do  frangipani  –]  esse  efeito  de  naturalização  da 
linguagem  mítica  sobressai,  não  essencialmente  como  efeito  voluntário 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3364 
(“contar”/“inventar”), 
mas 
como 
causa 
primeira 
involuntária 
(“ouvir”/“escutar”)  e  tal  efeito  corresponde,  em  grande  parte,  ao  trabalho 
feita na e pela língua. Mediador, o contista [– diríamos, melhor, o ficcionista 
–] repõe na língua a “alma” necessária à vivificação dessa linguagem vivida. 
[...] 
A sobreposição de discursos, de vozes, espaços e tempos permite conferir à 
língua  a  sua  dinâmica  de  teia  e  tessitura,  num  trabalho  de  figuração,  cujos 
princípios  se  orientam,  como  os  do  pensamento  mítico,  pela  ligação  e  pela 
analogia. (2013: 32) 
Justificar  o  arremate  dessa liga de  fios  –  literaturas  de África e  de  América  –, 
recorrendo  a  palavras  do  próprio  Mia  Couto  sobre  a  busca  de  padrões  de  modelos 
possíveis de mundos ficcionais nas literaturas latino-americanas, encontra fácil e farto 
amparo  nos  textos  de  opinião  do  autor.  No  capítulo  “O  sertão  brasileiro  na  savana 
moçambicana”,  integrante  de  Pensatempos  (2005:  103-112),  aproximando,  em  seus 
traços  telúricos  mais  peculiares,  os  cenários  nacionais  brasileiro  e  moçambicano,  o 
escritor alude a “uma história verdadeira”, do “deambular do século XIX”, para ilustrar 
uma possível gênese da poesia de seu país. Mia Couto relatou o seguinte episódio: 
uma moçambicana chamada Juliana vivia no sossego da sua pequena ilha, na 
serena contemplação das águas do oceano índico. A pacatez de sua vida seria 
alterada,  uma  certa  tarde  em  que  o  seu  pai,  um  próspero  comerciante 
chamado Sousa Mascarenhas, trouxe para casa um homem doente. O hóspede 
ardia em febre e para assegurar tratamento ele ficou alojado num quarto do 
casarão.  Juliana  foi  a  enfermeira  de  serviço,  responsável  pela  lenta 
recuperação do intruso. 
Durante a convalescença, Juliana e o homem se apaixonaram.  A ternura de 
Juliana era devolvida por via de versos rabiscados em folhas dispersas. Pouco 
tempo depois, os dois se casavam. Nos demorados serões da casa colonial se 
juntava  a  gente  culta  da  ilha  e  o  homem  declamava  poesia.  Esses  serões 
faziam  nascer  o  primeiro  núcleo  de  poetas  e  escritores  na  Ilha  de 
Moçambique, a primeira capital da colónia de Moçambique. Esse homem era 
um brasileiro e chamava-se António Gonzaga. Anos depois ele e a sua amada 
Juliana faleceram e foram enterrados no pequeno cemitério da Ilha. 
O  nascimento  da  poesia  moçambicana  está  marcado  por  um  encontro  que 
seria  bem  mais  do  que  um  casamento  entre  duas  pessoas.  Havia  ali  uma 
espécie  de  presságio  daquilo  que  seria  um  entrosamento  maior  que  iria 
prevalecer. (2005: 103-104) 
Nesse mesmo capítulo, parágrafos pouco adiante, mas avançando, contudo, mais 
de  um  século  na  história  e  chegando  aos  momentos  da  Guerra  de  Descolonização  e, 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3365 
consequentemente,  ao  período  pós-colonial,  Mia  Couto  reafirma  a  partilha  de  traços 
identitários  entre  a  literatura  nacional  moçambicana  e  sua  parente  transatlântica  na 
América Latina, dizendo que: 
Mais  de  um  século  depois,  nascia  em  Moçambique  uma  corrente  de 
intelectuais ocupados em procurar a moçambicanidade. Já era, então, clara a 
necessidade de rupturas com Portugal e os modelos europeus. [...]. 
Necessitava-se de uma literatura que ajudasse a descoberta e a revelação da 
terra. Uma vez mais, a poesia brasileira veio em socorro dos moçambicanos. 
Manuel  Bandeira  foi  talvez  o  mais  importante  personagem  nesta  segunda 
viagem. Mas Manuel Bandeira não era único. Com ele vinham outros como 
Mário de Andrade, partilhando uma pátria despatriada, mas todos tinham em 
comum  a  procura  daquilo  a  que  chamavam  o  “abrasileiramento  da 
linguagem”.  Os  moçambicanos  descobriram  nesses  escritores  e  poetas  a 
possibilidade  de  escrever  de  um  outro  modo,  mais  próximo  do  sotaque  da 
terra, sem cair na tentação do exotismo. (2005: 104) 
Na sequência do raciocínio em curso, explicando as subversões linguísticas que 
se verificavam, especialmente, na sua obra – e, mesmo, na de alguns outros escritores 
africanos,  sejam  de  Moçambique,  sejam  de  qualquer  outra  ex-colônia  portuguesa  em 
África –, o autor contou que: 
Mário  de  Andrade  escrevia  “pouco  me  importa  que  esteja  escrevendo 
igualzinho  ou  não  com  Portugal;  o  que  escrevo  é  língua  brasileira:  pelo 
simples facto de ser a língua minha, a língua do meu país, o Brasil”. Bandeira 
não  reagia  contra  Portugal,  ele  queria  simplesmente  esquecer  Portugal.  Os 
brasileiros já se davam ao luxo do esquecimento. Mas essa desmemoria não 
era possível no caso moçambicano. Moçambique era ainda uma colónia. Era 
preciso ser-se “contra”. Como encontrar na arte da escrita uma arma grávida 
de  futuro?  Pedia-se  um  novo  encontro,  um  alimento  para  ganhar  força  e 
esperança para mover a História. 
Desta feita, foram autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Raquel de 
Queiroz e poetas como Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto 
que serviram de inspiração. Moçambique bebia da alma de outro continente. 
Dois  oceanos  não  separavam  aquilo  que  a  cultura  e  a  História  faziam 
vizinhos.  Jorge  Amado  era  interdito  em  Portugal.  Mas  as  autoridades 
coloniais  portuguesas  acreditavam  que  em  Moçambique  ninguém  lia.  Para 
eles  o  livro  era  semente  sem  chão.  Calcularam  mal.  Porque  a  semente 
germinou,  deu  fruto.  José  Craveirinha  (o  nosso  maior  poeta,  falecido 
recentemente),  Rui  Knopfly,  Luís  Carlos  Patraquim  e  tantos  outros,  todos 
eles confessam as suas influências e o modo marcante como o Brasil ajudou a 
encontrar os nossos caminhos próprios. (2005: 104-105) 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3366 
Ao que completou, defendendo que: 
Os  povos  moçambicano  e  brasileiro  não  apenas  partilhavam  uma  mesma 
língua  mas  partilhavam  aquilo  que  nessa  língua  surgia  como  elemento 
distintivo do português de Portugal. A realização da língua nos dois casos era 
marcada  pela  influência  das  línguas  de  matriz  bantu  que  introduziam 
afinidades entre a nossa variante e a brasileira. (2005: 105) 
No  capítulo  “Encontros  e  encantos  –  Guimarães  Rosa”,  integrante  de  E  se 
Obama fosse africano? E outras interinvenções (2009: 113-125), Mia Couto falou sobre 
a  “modernidade  estilística”,  e,  referindo-se  aos  modelos  de  composição  narrativa, 
apontou que: 
Com  Mário  de  Andrade,  João  Guimarães  Rosa  é  um  dos  fundadores  da 
identidade  territorial  e  cultural  da  nação  brasileira.  Ao  contrariar  uma  certa 
ideia  de  modernização,  Rosa  acabou  criando  os  pilares  de  uma  outra 
modernidade estilística no Brasil. Ele fez isso numa altura em que a literatura 
brasileira estava prisioneira de modelos provincianos, demasiado próxima do 
padrão de literatura portuguesa, espanhola e francesa. De uma similar prisão 
ansiávamos, também nós, por nos libertar. 
O que Rosa instaura é o narrador como mediador de mundos. (2009: 119) 
No  mundo  da  realidade  sociopoliticocultural  experienciada pelos  africanos  das 
ex-colônias portuguesas em África, havia fortes razões históricas que justificavam esse 
recurso  aos  modelos  narrativos  brasileiros,  especialmente  aos  padrões  rosianos,  cuja 
linguagem  –  sistema  linguístico  e de  construção  de  mundos  possíveis  ficcionais  –  era 
apropriada às necessidades vivenciadas em Moçambique e Angola, por exemplo, como 
explicitou Mia Couto: 
Vivíamos  em  Moçambique  e  em  Angola  a  aplicação  esforçada  do  modelo 
estético  e  literário  do  realismo  socialista.  Nós  mesmos  fomos  autores 
militantes, a nossa alma tomou partido e tudo isso nos parecia historicamente 
necessário.  Mas  nós  entendíamos  que  havia  uma  outra  lógica  que  nos 
escapava e que a literatura tinha razões que escapavam à razão política. 
A leitura de Rosa sugeria que era preciso sair para fora da razão para se poder 
olhar por dentro a alma dos brasileiros. Como se para tocar a realidade fosse 
necessário  uma  certa  alucinação,  uma  certa  loucura  capaz  de  resgatar  o 
invisível. A escrita não é um veículo para se chegar a uma essência, a uma 
verdade. A escrita é a viagem interminável. A escrita é a descoberta de outras 
dimensões, o desvendar de  mistérios que estão para além  das aparências. É 
Rosa quem escreve: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos 
vendo.” (2009: 120) 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3367 
Essa opção pelos modelos de expressividade ficcional brasileiros – tenha-se em 
conta  a  referência  explícita  à  obra  de  Guimarães  Rosa  –,  como  admitiu  Mia  Couto, 
implicava “um posicionamento político nunca enunciado mas inscrito no tratamento da 
linguagem”  (2009:  120),  porque,  como  ele  disse,  naquela  ocasião,  “nós  vivemos  em 
Angola e Moçambique uma certa saturação de um discurso literário funcional. Mais que 
funcional: funcionário” (2009: 121). 
A inspiração encontrada por Mia Couto na obra rosiana devia-se, igualmente, à 
sua  singular  expressão  linguística,  que  se  manifestava,  nomeadamente,  na  fala  das 
personagens,  e  à  sua  particular  composição  de  mundos  possíveis  ficcionais,  ancorada 
nas tradições do sertão mítico-místico-mágico brasileiro. Rosa inovava tanto no plano 
da  linguagem,  quanto  na  construção  narrativa,  rompendo  padrões  consolidados  e 
abrindo novas veredas a serem seguidas pelas expressão literária nacional. Mia Couto 
avaliou a atitude artística rosiana da seguinte maneira: 
Para  João  Guimarães  Rosa,  a  língua  necessitava  “fugir  da  esclerose  dos 
lugares-comuns, escapar à viscosidade, à sonolência”. Não era uma simples 
questão  estética  mas  era,  para  ele,  o  próprio  sentido  da  escrita.  Explorar  as 
potencialidades  do  idioma,  desafiando  os  processos  convencionais  da 
narração, deixando que a escrita fosse penetrada pelo mítico e pela oralidade. 
[...] 
Guimarães  Rosa  [...]  trabalha  fora  do  senso-comum  (ele  cria  um  senso-
incomum),  elabora  no  mistério  denso  das  coisas  simples,  entrega-nos  a 
transcendência da coisa banal. (2009: 121-122) 
Assim,  dessa  maneira,  apropriando-se  da  poética  rosiana,  Mia  Couto,  como 
admitiu,  “insurge-se  contra  a  hegemonia  da  lógica  racionalista  como  modo  único  e 
exclusivo de nos apropriarmos do real. A realidade é tão múltipla e dinâmica que pede o 
concurso de inúmeras visões” (2009: 122) 
Com  a  emergência,  na  obra  de  Rosa,  do  sertão  brasileiro  povoado  por  suas 
complexas personagens, em meio às estórias quotidianas em que se viam envolvidas, o 
leitor  estava  diante  do  novo,  do  inaudito,  do  inusitado,  do  inesperado  –  conforme  o 
paradigma  do  sistema  semionarrativo-literário  então  predominante,  marcado  por  uma 
arquitetura  de  referencialidade  real-naturalista  –,  mas,  também,  do  maravilhoso  – 
extraordinário,  admirável,  sobrenatural;  que  espanta,  maravilha,  encanta  –,  porque, 
como detectou Mia Couto: 
João Guimarães  Rosa criou  este lugar fantástico, e fez dele uma espécie de 
lugar de todos  os lugares. O  sertão e as veredas de que ele fala  não  são  da 
ordem  da  geografia.  O  sertão  é  um  mundo  construído  na  linguagem.  “O 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3368 
sertão”,  diz  ele,  “está  dentro  de  nós.”  Rosa  não  escreve  sobre  o  sertão.  Ele 
escreve como se ele fosse o sertão. 
Em  Moçambique  nós  vivíamos  e  vivemos  ainda  o  momento  épico  de  criar 
um  espaço  que  seja  nosso,  não  por  tomada  de  posse,  mas  porque  nele 
podemos encenar a ficção de nós  mesmos, enquanto criaturas portadoras de 
História e fazedoras de futuro. (2009: 116) 
Do  mesmo  modo  como  Mia  Couto,  em  sua  ficção,  configurava  lugares  – 
cronotopicamente falando – nos quais as tradições telúricas compareciam ao lado dos 
fatos de uma realidade dura e cruel – as minas, as explorações, as mutilações, as mortes; 
a miséria, o alijamento, o abandono –, conforme ele percebeu e registrou: 
Na realidade, o sertão de Rosa é erguido em mito para contrariar uma certa 
ideia  uniformizante  e  modernizante  de  um  Brasil  em  ascensão.  O  lugar 
distante  e  marginal,  que  é  o  planalto  interior  do  Brasil,  converte-se  num 
labirinto artificialmente desordenado e desordenador. 
Também  Moçambique  vive  a  lógica  de  um  Estado  centralizador,  de 
processos  de  uniformização  linguística  e  cultural.  A  negação  dessa 
globalização doméstica é, muitas vezes, feita por via da sacralização daquilo 
que se chama tradição. África tradicional, África profunda e outras entidades 
folclorizadas surgem como espaço privilegiado da tradição, lugar congelado 
no tempo, uma espécie de nação que só vive estando morta. 
O que a escrita de Rosa sugeria era uma espécie de inversão deste processo 
de  recusa.  Tratava-se  não  de  erguer  uma  nação  mistificada,  mas  da 
construção do mito como nação. (2009: 118) 
Leite  observou  que  “a  sobreposição  de  discursos,  de  vozes,  espaços  e  tempos 
permite conferir à língua a sua dinâmica de teia e tessitura, num trabalho de figuração, 
cujos  princípios  se  orientam,  como  os  do  pensamento  mítico,  pela  ligação  e  pela 
analogia” (2013: 32), que, no caso dessas duas literaturas – brasileira e moçambicana – 
tem nas obras de Guimarães Rosa e Mia Couto duas pontas de fio atáveis em ponto de 
costura  firme  e  acabado.  Tanto  na  ficção  de  um,  quanto  na  de  outro,  “a  personagem 
representa  [...],  fundamentalmente,  uma  narrativa,  ou  melhor,  narrador  e  narrativa  em 
simultâneo e logo que deixa de ser necessária a sua palavra, pode morrer, desaparecer” 
(LEITE,  2013:  177).  É  por  isso  que,  em  A  varanda  do  frangipani,  um  a  um,  nos 
depoimentos que dá a Izidine Naíta, contam a sua história, iniciada e terminada in media 
res,  como  se  fossem  estórias  das  Mil  e  uma  noites.  São,  praticamente  todos,  casos 
insólitos, como o da criança velha Navaia Caetano, que relatou ao inspetor: 
A  maldição  pesa  sobre  mim,  Navaia  Caetano:  sofro  a  doença  da  idade 
antecipada. Sou um menino que envelheceu logo à nascença. Dizem que, por 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3369 
isso, me é proibido contar minha própria história. Quando terminar o relato 
eu  estarei  morto.  Ou,  quem  sabe,  não?  Será  mesmo  verdadeira  esta 
condenação?  Mesmo  assim  me  intento,  faço  na  palavra  o  esconderijo  do 
tempo. À medida que vou contando me sinto cansado e mais velho. Está a ver 
estas  rugas  nos  meus  braços?  São  novas,  antes  de  falar  consigo  eu  não  as 
tinha. Mas eu sigo adiante, não encontrando atalho nem alívio. Sou como a 
dor que não tivesse carne onde sofrer, sou a unha que teima em nascer num 
pé que foi cortado. Me dê suas paciências, doutor. (2007: 26-27) 
“Ou  ainda[,  como  advertiu  Leite],  encarada  de  outro  modo,  a  personagem  é 
apenas  um  encaixe,  cuja  argumentação  deve  ser  substituída,  complementada, 
acrescentada  por  outras”  (2013:  177),  conforme  se  pode  depreender  dos  títulos  dos 
capítulos  em  se  têm  –  com  a  presença  de  diálogos  entre  os  depoentes  e  o  inspetor  e 
permutas  de  assunção  da  voz  narrativa,  em  atitude  dialógica  e  polifônica  –  os 
depoimentos – contação das estórias – de cada uma das personagens: “A confissão de 
Navaia” (2007: 25-37); “A confissão do velho português” (2007: 45-53); “A confissão 
de Nhonhoso” (2007: 61-70); “A confissão de Nãozinha” (2007: 77-91 ); “A carta de 
Ernestina” (2007: 101-112). 
Para  dar  arremate  a  esta  costura,  aproprio-me  –  eu  também  –,  a  título  de 
conclusão, do que, em sua dissertação de mestrado (Universidade do Estado do Rio de 
Janeiro, 2012), posteriormente publicada em livro sob o título Novas insólitas veredas: 
leitura  de  A  varanda  do  frangipani,  de  Mia  Couto,  pelas  sendas  do  fantástico  (2013), 
disse Luciana Morais da Silva: 
A  narrativa  miacoutiana  apresenta  uma  diversidade  de  traços  convergentes 
em  relação  à  irrupção  do  insólito  ficcional  no  cenário  marcado  por  traços 
advindos da realidade referencial – velha fortaleza colonial, asilo de idosos, 
minas  abandonadas,  espólios  da  guerra  etc.  [...].  A  varanda  do  frangipani 
apresenta,  concomitantemente,  o  plano  dos  realia  e  dos  mirabilia,  mas,  ao 
contrário  da  expectativa  existente  acerca  das  narrativas  do  realismo 
maravilhoso,  nela,  verifica-se  a tendência para a exacerbação  da  maravilha, 
focalizando  o  espaço  do  frangipani  sem  deixar  de  dar  visibilidade  à 
naturalização do insólito, com privilégio para a aceitação do metaempírico. 
Mia  Couto  constrói  uma  narrativa  híbrida,  em  que  as  personagens 
transformam-se  em  irmãos  de  almas,  dividindo  o  espaço  do  asilo,  sem 
esquecer a existência da insólita frangipaneira, capaz de renascer das cinzas. 
Homens e mulheres da fortaleza praticam rituais, produzem a crença na força 
da terra, tendo a árvore como guardiã de seus sonhos” (SILVA, 2013, p.114-
115) 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3370 
Por  fim,  tecido  pronto,  último  ponto  de  cosimento,  com  fio  buscado  em  “O 
‘neologismo’ na escrita de Mia Couto: despudor, ignorância ou continuada hegemonia 
colonial?”, de Elena Brugioni: 
será importante salientar que o elevado grau de aceitabilidade que caracteriza 
as  inovações  da  escrita  de  Mia  Couto  representa  um  aspecto  de  grande 
relevo;  trata-se  de  ressalvar  uma  dimensão  linguística  que  não  poderá  ser 
observada  na  perspectiva  –  crítica  e  teórica  –  da  invenção.  Com  efeito, 
segundo  Couto,  a  língua  é,  em  primeiro  lugar,  um  achado  e  não  uma 
invenção. (2007: 247, nota de rodapé – grifos da autora) 
Pode-se,  conclusivamente,  afirmar,  sem  risco  de  incorrer  em  impropriedades 
teóricas, conceituais ou críticas, que, de fato, se verificam, em A varanda do frangipani, 
do escritor moçambicano Mia Couto, discursos contra-hegemônicos – expressos na voz 
de suas personagens, ao  contarem suas estórias ou comentarem  o acontecido –, como 
produto  de  apropriações  de  estratégias  de  construção  narrativa  das  literaturas  latino-
americanas,  inscrevíveis  no  sistema  semionarrativo-literário  dos  mundos  possíveis 
ficcionais do fantástico – lato sensu –, em favor do real animismo africano, atualizando, 
assim, em África, protocolos ficcionais próprios da América Latina – Novos Mundos –, 
em  dois  continentes  distintos,  mas  aproximáveis  –  cenários  de  ex-colônias  do 
imperialismo ibérico. 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Bakhtin, Mikhail.  2008. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense 
Universitária. 
 
Brugioni, Elena.  2007. “O ‘neologismo’ na escrita de Mia Couto: despudor, ignorância 
ou continuada hegemonia colonial?”. In: MACEDO, Ana Gabriela; KEATING, Maria 
Eduarda.    Org..  Colóquios  de  Outubro  2005-2006  –  O  poder  das  narrativas.  As 
narrativas do poder. Braga: Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho. 
pp. 241-255. 
 
Couto, Mia. 2005. Pensatempos – textos de opinião. 2. ed. Lisboa: Caminho. 
 
______.  2007. A varanda do frangipani. São Paulo: Companhia das Letras. 
 
______.  2009. E se Obama fosse africano? E outras interinvenções. Lisboa: Caminho. 
 
______.  2010.  Pensageiro frequente. 2. ed. Lisboa: Caminho. 
 
Fonseca, Ana Margarida.  2002. Projetos de encostar mundos. Miraflores: Difel. 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3371 
García, Flavio.  2013. Discurso fantásticos de Mia Couto – mergulhos em narrativas de 
curta  e  média  extensão  em  que  se  manifesta  o  insólito  ficcional.  Rio  de  Janeiro: 
Dialogarts. 
 
Rodríguez  Pequeño,  Javier.    2008.  Géneros  literarios  y  mundos  posibles.  Madrid: 
Eneida. 
 
Józef, Bella.  2006. A máscara e o enigma. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 
 
Laranjeira,  Pires.    1995.  Literaturas  Africanas  de  Expressão  Portuguesa.  Lisboa: 
Universidade Aberta. 
 
Leite, Ana Mafalda.  2013. Ensaios sobre Literaturas Africanas. Maputo: Alcance. 
 
Petrov, Petar.  2014. O projecto literário de Mia Couto. Lisboa: CLEPUL. 
 
Rui, Manuel.  1985. “Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de 
pensar o texto”. Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São 
Paulo, Brasil, em 23/05/1985. Texto fotocopiado. 
 
Silva,  Luciana  Morais  da.    2013.  Novas  insólitas  veredas:  leitura  de  A  varanda  do 
frangipani, de Mia Couto, pelas sendas do fantástico. Rio de Janeiro: Dialogarts. 



De volta ao futuro da língua portuguesa.  
Simpósio 22 - Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa, 3373-3392 
ISBN 978-88-8305-127-2 
DOI 10.1285/i9788883051272p3373 
http://siba-ese.unisalento.it, © 2017 Università del Salento 
 
 
 
3373 
ADVÉRBIOS EM -MENTE NA LÍNGUA PORTUGUESA: ANÁLISE DE 
PROPRIEDADES SINTÁTICO-SEMÂNTICAS 
 
 
Gessilene Silveira KANTHACK
44
 
 
 
RESUMO 
No intuito de ampliar os estudos de descrição que contemplam a categoria advérbios da 
língua  portuguesa,  objetivamos,  com  este  trabalho,  analisar  propriedades  sintático-
semânticas  que  envolvem,  particularmente,  aqueles  terminados  em  -mente, 
classificados, em sua maioria, pelas gramáticas de orientação normativa como advérbios 
de  modo.  Para  tanto,  utilizamos,  como  corpus,  textos  veiculados  pela  Revista  VEJA 
(entrevistas  das  páginas  amarelas  e  reportagens  de  Capa-ano  de  2015),  de  onde 
coletamos  estruturas  sintáticas  contendo  esse  tipo  de  advérbio.  Na  investigação, 
analisamos  seus  valores  semânticos  e  seus  posicionamentos,  procurando  mostrar  se  o 
advérbio figura num  âmbito inferior à sentença  ou se num âmbito igual ou superior à 
sentença, tendo como referências autores como Ilari et al., (1991), Castilho e Castilho 
(1993),  Neves  (2000),  Castilho  (2010),  que  já  apresentaram  importantes  descrições 
sobre  os  advérbios  da  língua  portuguesa.  Comprovamos  que  o  advérbio  em  -mente 
apresenta comportamento diversificado, tanto em termos sintáticos quanto semânticos, 
evidenciando, assim, a necessidade de se revisar e ampliar o tratamento dado a esse tipo 
de advérbio no contexto escolar. 
 
 
PALAVRAS-CHAVE: advérbios em -mente; usos; sintaxe; semântica. 
 
 
Introdução 
 
Na  perspectiva  das  gramáticas  de  orientação  normativa,  o  advérbio  pertence  a 
uma classe de comportamento sintático-semântico aparentemente homogêneo, tendo em 
vista  as  propriedades  destacadas  em  suas  descrições:  o  advérbio  é,  basicamente,  um 
elemento modificador de verbo, adjetivo e de advérbio (e de sentenças, como já pregam 
alguns gramáticos) e é classificado em função das circunstâncias que expressa. Dentre 
as  classificações,  está  o  advérbio  terminado  com  o  sufixo  -mente,  apontado,  em  sua 
maioria,  como  sendo  de  modo.  No  uso  prático  da  língua,  entretanto,  esse  tipo  de 
                                                 
44Profa.  Dra.  Titular  da  UESC,  Departamento  de  Letras  e  Artes.  Avenida  José  Luiz  da  Fonseca,  381, 
Bairro Jardim Savoia, CEP: 45658-260, Ilhéus, BA, Brasil. gskanthack@yahoo.com.br 
Atas do 
96,0(/36Lmpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3374 
advérbio  apresenta  propriedades  sintático-semânticas  que  colocam  em  xeque  o 
pressuposto básico tradicional.  
Com o objetivo de refletir sobre essa problemática, organizamos o artigo assim: 
primeiro,  apresentamos  algumas  considerações  sobre  o  tratamento  dado  ao  advérbio 
pelas gramáticas normativas, procurando ressaltar que os critérios adotados por elas não 
se aplicam a todos os advérbios; segundo, para ampliar a discussão, pontuamos como os 
advérbios são descritos na perspectiva de alguns estudos linguísticos, que elegem níveis 
como  o  da  sintaxe  e  da  semântica  para  dar  conta  de  especificidades  funcionais  de 
advérbios;  terceiro,  tratamos  especificamente  do  advérbio  terminado  em  -mente,  no 
intuito de destacar que, quando acionado pelo falante em suas práticas comunicativas, 
além  de  poder  ser  usado  para  qualificar  uma  ação,  um  processo  ou  estado,  pode 
desempenhar a função de modalizador, um recurso linguístico que veicula a avaliação 
do  falante  sobre  o  conteúdo  proposicional;  quarto,  descrevemos  algumas 
particularidades  sintático-semânticas  de  dois  modalizadores,  os  epistêmicos  e  os 
delimitadores, a partir de situações concretas de uso. Por fim, as considerações finais e 
as referências encerram o artigo. 
 
 
Advérbios  na  perspectiva  das  gramáticas  normativas:  o  ponto  de  partida  para 
algumas reflexões  
 
Inicialmente  denominado  de  epirrhéma  pelos  gregos,  e,  depois,  de  adverbium, 
pelos  latinos,  o  advérbio  tem  sido  tratado,  ao  longo  tempo,  nas  chamadas  gramáticas 
normativas,  como  um  elemento  de  natureza  bastante  regular,  dada  a  sua  propriedade 
básica  de  se  vincular  diretamente  ao  verbo,  um  comportamento  que  é  refletido  na 
própria  etimologia  da  palavra:  ad  verbium  –  junto  do  verbo.  Além  de  modificar  essa 
categoria sintática, pode também modificar o adjetivo e o próprio advérbio. 
Trata-se  da  definição  básica  que  encontramos  comumente  nas  gramáticas 
normativas: “é o vocábulo determinativo do verbo, do adjetivo ou de outro advérbio” 
(Said  Ali,  1964:183);  “é,  fundamentalmente,  um  modificador  do  verbo”  com  o 
acréscimo de que “a essa função básica, geral, certos advérbios acrescentam outras que 
lhe  são  privativas  [...]  podem  reforçar  o  sentido  de  um  adjetivo  e  de  um  advérbio” 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3375 
(Cunha; Cintra, 1985:529); “é uma palavra que modifica o sentido do verbo, do adjetivo 
e do próprio advérbio” (Cegalla, 2005:259).  
Também encontramos, nesse tipo de gramática, a ideia de que o advérbio serve 
“para  expressar  as  várias  circunstâncias  que  cercam  a  significação  verbal”  (Lima, 
1996:164), que “é a expressão modificadora que por si só denota uma circunstância (de 
lugar,  tempo,  modo,  intensidade,  condição,  causa,  companhia,  dúvida etc.)” (Bechara, 
2009:287).  
Considerando essas propriedades básicas, temos o pressuposto de que o advérbio 
compõe  uma  classe  aparentemente  homogênea.  Todavia,  em  se  tratando  de  usos 
efetivos da língua portuguesa, os critérios usados para identificação de um advérbio se 
aplicam a apenas alguns casos. Nem todos os advérbios se comportam como elementos 
modificadores,  nem  tem  sua  atuação  limitada  a  verbo,  adjetivo  ou  advérbio,  e  nem 
sempre  indica  circunstância.  Inclusive,  há  gramáticos  que  reconhecem  essa 
problemática e se arriscam a tecer alguns comentários. 
Por  exemplo,  Cunha  e  Cintra  (1985:530),  numa  nota,  destacam:  “sob  a 
denominação  de  Advérbios  reúnem-se,  tradicionalmente,  numa  classe  heterogênea, 
palavras de natureza nominal e pronominal com distribuição e funções às vezes muito 
diversas”. A circunstância é outra propriedade que é colocada em xeque, por exemplo, 
por  gramáticos  como  Lima  (2006)  e  Bechara  (2009),  que  afirmam  que  determinados 
advérbios,  como  aqueles  que  recebem  a  denominação  de  afirmação  e  negação,  por 
exemplo,  não  expressam  circunstâncias.  Há  também  as  chamadas  “palavras 
denotativas”, que denotam inclusão, exclusão, designação, realce, retificação e situação, 
que,  segundo  Cunha  e  Cintra  (2007:540-541),  são  “por  vezes  enquadradas 
impropriamente  entre  os  advérbios”,  pois  são  palavras  que  “não  modificam  o  verbo, 
nem  o  adjetivo,  nem  outro  advérbio.  São  por  vezes  de  classificação  extremamente 
difícil”.  
Esse  tipo  de  reconhecimento  é  uma  prova  de  que  advérbios  ostentam 
especificidades que precisam ser consideradas em outro tipo de descrição, por exemplo, 
as de natureza linguística. No âmbito do português brasileiro, há vários trabalhos que já 
descreveram o comportamento dos advérbios numa perspectiva mais ampla, levando em 
conta propriedades que vão além daquelas habitualmente conhecidas. Um dos primeiros 
foi  desenvolvido  por  Ilari  et  al.,  (1991),  que  reconhecem  os  limites  imprecisos  que 
envolvem os critérios tradicionais, alertando que, na prática, 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3376 
o  gramático  defronta-se  com  inúmeros  exemplos  em  que  aqueles  levam  a 
classificações  conflitantes;  e  às  dificuldades  de  aplicação  dos  próprios 
critérios  a  gramática  tradicional  tem  acrescentado  as  de  um  tratamento  até 
certo  ponto  inconseqüente,  decorrente  em  grande  parte  da  tentativa  de 
associar  de  maneira  constante  à  palavra  certas  propriedades  que  se 
confirmam  apenas  para  algumas  de  suas  ocorrências.  Seja  como  for,  as 
gramáticas enquadram atualmente entre os advérbios uma quantidade enorme 
de palavras que seria mais correto dizer que, apenas em algumas ocorrências 
Baixar 5.01 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino fundamental
ensino médio
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
Curriculum vitae
oficial prefeitura
Boletim oficial
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
Poder judiciário
educaçÃo física
saúde conselho
assistência social
santa maria
Excelentíssimo senhor
Conselho regional
Atividade estruturada
ciências humanas
políticas públicas
outras providências
catarina prefeitura
ensino aprendizagem
secretaria municipal
Dispõe sobre
Conselho municipal
recursos humanos
Colégio estadual
consentimento livre
ResoluçÃo consepe
psicologia programa
ministério público
língua portuguesa
público federal
Corte interamericana