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partículas de conexão lógica e de dependência sintática



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partículas de conexão lógica e de dependência sintática. 
Vários fatores determinantes intervêm no encurtamento da frase. De um lado 
o desejo estético de libertar-se da servidão às medidas rítmicas e musicais da 
frase tradicional — buscando um novo sistema melódico. Em segundo lugar, 
o desejo de aproximar o mais possível a língua literária da língua falada; não 
somente naquelas formas que reproduzem a expressão oral, como o diálogo, 
o monólogo, ou o estilo indireto livre, mas também no corpo da narrativa, na 
própria linguagem do autor. (Guerra da Cal, 1981, p.262). 
Cressot (1980, p.260) acrescenta ainda: 
Uma  sequência  de  frases  curtas  pode  corresponder  a  uma  visão  e  uma 
intenção  de  um  relato  fragmentário;  o  pensamento  vai  se  formando, 
progressivamente, os fatos desfilam, pela ordem cronológica em que chegam 
à consciência. Cabe ao leitor o cuidado de fazer a síntese. Determinada frase 
exprimirá  a  acuidade  de  uma  observação,  a  instantaneidade  de  uma  reação, 
uma  conclusão  peremptória,  um  episódio.  A  sua  secura  traduzirá  de  modo 
excelente a nitidez do fato isolado do seu contexto, uma notação sumária ou 
típica. 
A  frase,  para  Lygia  Bojunga,  não  é  somente  um  agrupamento  verbal 
significativo,  mas  também  uma  estrutura  rítmica  e  sonora,  diferente  do  modelo 


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tradicional,  que  só  é  possível  pela  sucessão  das  várias  frases  curtas,  expressando  um 
maior vigor e dinamismo entoativos. 
Em todos os exemplos que se seguem, observamos que tanto a linha lógica da 
frase  como  o  arcabouço  sintático  que  lhes  dá  forma  são  de  grande  simplicidade.  A 
acumulação de expressões variantes de uma mesma ideia e o desenvolvimento gradativo 
da cena nos dá a sensação de que a frase se elabora diante de nós, de que a expressão 
completa  a  ideia,  atribuindo-lhe  força  afetiva.  Isto  imprime  a  ilusão  de  que  as  coisas 
estão sendo ditas e não escritas. 
Os fragmentos a seguir ratificam a nossa posição: 
Fiquei olhando pra casa dele. E ele acabou dizendo que tava brincando. Não 
adiantou: a velha egoísta já tinha me caído mal. Fechei a porta de novo e não 
ia dar pra escutar mais nada. 
O meu filho foi embora. 
O chuveiro me refrescou. 
A bolsa foi arrumada. Ana, 24 
Peguei  o  lápis;  voltei  pra  Ana  Paz-  velha.  Fiz  acordando  lá  na  cadeira  de 
palhinha  da  cozinha.  O  dia  estava  nascendo;  o  fogão  agora  tinha  só  cinza, 
tava  frio.  Ana  Paz  ficou  escutando.  A  casa  ainda  não  tinha  acordado.  Deu 
vontade de ver a Casa assim, tão quieta. Se levantou, atravessou o corredor e 
abriu a porta que dava pro pátio. 
Limo,  folha  seca  e  poeira  na  pedra  do  chão.  Limo,  folha  seca  e  poeira  no 
banco  da  pedra.  E  no  chafariz  também,  só  limo  e  pó.  Ela  ficou  parada, 
pensando há quanto tempo não saía água da bica, há quanto tempo ninguém 
conversava com o pátio. Olhou pro telhado. Ana, 29 
Tem uma toalha xadrez na mesa. O pano é azul e branco. Tem a tábua do pão 
e tem o pão. tem o queijo num prato. (...) 
A mão de Mariana fica alisando de leve o cabo da faca. A mão gosta de sentir 
ele; puxa ele mais pra dentro dela. 
A Rafaela está lá no quarto dormindo. O vento é que não  descansa. Nem a 
onda do mar. Ah, que dois. Nós, 49 
Quando  pulou  de  novo  pro  quarto  sentiu  a  perna  bamba,  a  pele  suada,  o 
coração  adoidado.  Sentou.  Respirou  fundo.  Lembrou  do  Quico,  virou  num 
susto. Ele dormia a sono solto. Lembrou das janelas dos apartamentos, olhou 
em volta. Tudo quieto; o sol já estava de fora mas ainda não se via ninguém. 
Olhou pro céu. Não tinha mais andorinha. Corda, 47 
A mãe pegou a mala. Rebeca não largou. A mãe puxou a mala. Rebeca puxou 
também. A mãe puxou mais forte. Rebeca ficou agarrada na mala. 
O  táxi  buzinou  de  novo.  As  duas  se  olharam.  O  olho  da  mãe  pedindo  por 
favor. O olho da Rebeca também: por favor! Tchau, 20 


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Percebemos ainda que as frases curtas apresentam, por vezes, uma diferença de 
extensão  entre  umas  e  outras.  Isso  possibilita  uma  variação  rítmica  das  frases  que  é 
também explorada. 
 
- A coordenação 
Othon Moacyr Garcia (2002, p.42) afirma que:
 
Na coordenação (...) que é um  paralelismo de  funções ou valores  sintáticos 
idênticos,  as  orações  se  dizem  da  mesma  natureza  (ou  categoria)  e  função, 
devem  ter  a  mesma  estrutura  sintático-gramatical  (estrutura  interna)  e  se 
interligam  por  meio  de  conectivos  chamados  conjunções  coordenativas.  É, 
em essência, um processo de encadeamento de ideias.  
A coordenação possibilita maior dinamismo de ideias. Segundo Martins (1989, 
p.137),
  “
A  construção  assindética  é  mais  comum  na  língua  oral,  tem  um  tom  mais 
espontâneo,  menor  rigor  lógico;  é  mais  ágil,  sugere  a  simultaneidade  ou  a  rápida 
sequência dos fatos”.  
O predomínio da justaposição e da coordenação sobre a dependência é um fator 
de liberação. Os fatos, em vez de se articularem entre si, sucedem-se ou se encadeiam. 
Este tipo de construção sintática provoca uma mudança de visão na Literatura, que não 
é  só  do  ângulo  perceptivo,  mas  também  da  rapidez  e  da  acuidade.  Uma  posição 
contrária  à  sintaxe  tradicional,  segundo  Guerra  da  Cal  (1981,  p.  259),  "tem  como 
finalidade dar à expressão um 'tom' especial que a situe no plano 'artístico'. Às vezes, 
um ou dois desses desvios são suficientes para 'estetizar' a frase mais banal."  
Lygia  Bojunga  se  utiliza  desse  procedimento  extremamente  atual  de  várias 
formas em sua obra: 
Períodos com frases virguladas ou pontuadas sem conectivos: 
Ela foi indo pro fundo da sala. Parou junto da janela. Ficou espiando pra fora. 
Gozado: o meu amigo também pensava assim de pé, com jeito de quem está 
só olhando pra rua. Amigo 45 
Dona Eunice fez psiu. O cachorro deitou. A aula continuou. Corda, 52 
Você voltou pra Londres. A Renata foi pra Índia. O Monstrinho pra 
Paisagem. O João pro Clarinete. Não tem mais ninguém. Paisagem, 58 
Poderíamos  propor  uma  outra  ordem  das  frases  dos  exemplos  citados, 
perfeitamente possível, mostrando que têm o mesmo valor sintático e não apresentando 
nenhuma dependência. 
Períodos com frases virguladas ou pontuadas com conectivo no final: 
Ficou frio no Rio. Pouca gente na praia. Alexandre ia do Leme ao Posto Seis, 


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do  Arpoador  ao  Leblon  com  caixa  de  sorvete  pendurada  no  ombro.  Não 
vendia quase nada. Sentava pra descansar olhando o mar. 
E pensava na casa da madrinha. Casa, 51 
Arregaçaram  as  mangas  da  camisa,  se  despediram  de  Cara-de-pau  e 
enfileirados, meteram as caras no túnel. Colegas, 66 
A diferença entre esses exemplos e os anteriores é a noção de adição explicitada 
pelo conectivo "e". 
Períodos com polissíndeto: 
O  polissíndeto  é  "uma  construção'  essencialmente  enfática,  visto  que  destaca 
cada uma das orações”, para Martins (1989, p.138). Sua força expressiva é plenamente 
explorada por Lygia Bojunga. 
Mas ele puxou. E tirou do bolso uma caneta vermelha e foi mudando toda a 
cor  do  meu  coração.  E  fez  ele  embaixo  bem  pontudo.  E  ainda  por  cima 
lembrou... (...). Amigo 31 
E o pavão dançou. Gingando pra cá, pra lá. E ao mesmo tempo que gingava, 
abria as penas do lado de lá, e de cá, e de lá outra vez (...) Casa, 11 
 
- Feição estilística da frase 
Mostraremos  a  seguir  alguns  tipos  de  frase  já  devidamente  denominadas  com 
uma nomenclatura específica. Isto se deve ao trabalho de Garcia que em Comunicação 
em prosa moderna (2002) estabeleceu os conceitos das classificações quanto ao estilo 
da frase. 
Assim, temos: 
a) Frase de arrastão 
O autor (p. 124) assim descreve esse tipo frásico: 
Esse  processo  de  estruturação  da  frase,  que  exige  pouco  esforço  mental  no 
que diz respeito à inter-relação entre as ideias, satisfaz plenamente quando se 
trata de situações muito simples. Por isso é mais comum na língua falada, em 
que a situação concreta, isto é, o ambiente físico e social, supre ou compensa 
as falhas dos enlaces linguísticos.  
Tal  emprego  é  bastante  encontrado  na  linguagem  infantil,  assim  como  na  da 
adolescência  ou  na  de  indivíduos  incultos.  Ocorre  pela  excessiva  utilização  de 
conectivos em frases curtas e independentes. 
Na obra em questão encontramos muitas ocorrências: 
Enquanto  o  garoto  falava  o  Rodrigo  ia  olhando  pro  barraco:  dois  cômodos 
pequenos, um puxado lá fora pro fogão e pro tanque, e a tal porta fechada que 
o  garoto  tinha  mostrado  e  que  devia  ser  um  outro  quarto;  ou  quem  sabe  o 


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banheiro? Juntando tudo o tamanho era menor que a cozinha da casa dele; e 
eram onze morando ali! e mais a mãe?! Tchau, 39 
Ele morava num galinheiro com quinze galinhas, mas ele era um cara muito 
igual  e  então  achava  que  era  galinha  demais  pra  um  galo  só.  Pra  contar  a 
verdade, ele vivia até um bocado sem jeito de ser chefe de uma família tão 
esquisita  assim.  Então  ele  resolve  fugir  do  galinheiro.  Mas  aí  dá  medo  de 
todo  mundo  ficar  contra  ele.  E  então  ele  passa  o  romance  inteiro  naquela 
aflição de foge, não foge (...) E aí ele foge! Bolsa,20 
Ao utilizar o procedimento, privilegia em sua obra o falar cotidiano infantil, já 
que  boa  parte  de  suas  personagens  são  crianças.  Dessa  forma,  confere  o  caráter 
verossímil (coerência entre discurso e contexto) às suas obras. 
Frase entrecortada 
O  que  distingue  o  estilo  moderno  é  a  brevidade  da  frase,  predominantemente 
coordenada, originando-se daí a frase entrecortada. 
Assim Garcia (1981, p.97) se refere a ela: É um estilo entrecortado ou soluçante. 
É a "phrase coupée" dos franceses, que José Oiticica chamava com certa indignação, de 
"estilo picadinho" ou "frase picadinha”. 
Nessa  frase  há  apreensão  imediata  do  sentido  a  cada  pausa.  Não  é  necessário 
ligar as orações com conectivos; trata-se de uma construção comum à autora. 
Já tinha ficado de noite, a festa estava animada, todo o mundo dançando, até 
meu  pai  tão  sério  sempre.  Corri  pro  quarto.  Me  tranquei.  Queria  matar  a 
vontade chorar, de gritar, de morrer. Nem acendi a luz (...) Tchau, 55 
A Mariana se levanta: a cara, o vestido a mão, tá tudo sujo de sangue. Dá um 
ou dois passos feito coisa que tá tonta; se agarra na mesa. Fica assim um 
tempo. Depois olha pra janela; meio que se apruma. Abre a porta dos fundos 
e sai. Nós, 51 
Frase fragmentária 
É  a  frase  utilizada  com  habilidade,  aplicando  uma  pontuação  pouco  ortodoxa 
com fins expressivos, não permitindo que haja confusão de sentido. Dessa forma, a au-
tora isola termos que se poderiam relacionar em frases diferentes. O recurso possibilita 
maior expressividade, pois traz uma nova troca  melódica, aumentando os modos para 
descrever na língua escrita a falada. 
Na obra de Lygia Bojunga, percebemos a utilização do procedimento:  
O Pavão obedecia, é claro. Ficava ali quietinho. Encolhido. Junto do baú das 
fantasias. Casa, 62 
Correu na ponta do pé pra espiar, ah! a mala. Já fechada. No chão. Junto da 
porta. Pronta pra sair. Tchau, 19 


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É a Mariana e o Davi. Abraçados na rede. Pra cá e pra lá. Nós, 38 
Nesses exemplos, ao optar por frases fragmentárias, realça o significado de cada 
uma delas. Há uma diferença entre este tipo frásico e os demais. Se propusermos: "É a 
Mariana  e  o  Davi  abraçados  na  rede  pra  cá  e  pra  lá.",  observaremos  que  perde  em 
expressividade. 
Frase caótica: monólogo 
Com  o  modernismo  surgiu  um  tipo  de  frase  bastante  peculiar,  com  diferenças 
essenciais quanto à estrutura e aos padrões rítmicos. 
Garcia (2002, p.34) assim se pronuncia: "(...) denominação que não tem nenhum 
sentido depreciativo. Trata-se de uma frase que muito nos lembra o "depoimento" feito 
em sofá de psiquiatra, como expressão livre, desinibida, desenfreada, de pensamentos e 
emoções sem o crivo da razão.” 
O  monólogo  interior  é  sua  feição  mais  comum.  Por  meio  dele  a  personagem 
manifesta  livre  e  espontaneamente  seus  pensamentos.  Por  isso,  apresentam  uma  certa 
incoerência,  traduzida  ou  por  elos  sintáticos  que  não  se  combinam  ou  por  ideias  sem 
sentido à primeira vista: 
Só  que  sempre  que  eu  penso  nisso  o  meu  coração  sai  disparado  e  a  minha 
mão fica meio suada. É que quando minha mãe disse a hora que eu nasci o 
meu pai chegou nervoso dizendo eu tenho que sumir, eu tenho que sumir! e 
puxou a minha mãe pro quarto, e bateu a porta com força, e desatou a falar 
cochichado,  e  eu  fui  chegando  pra  porta,  mas  não  dava  pra  escutar  direito, 
ouvi Rio Grande do Sul, ouvi militar, ouvi sindicato, e ouvi dizendo de novo 
tenho que sumir, eu tenho que sumir, e a minha mãe abriu a porta, e passou 
por mim sem  me ver, e correu pro telefone, e o meu pai abriu o armário, e 
pegou  uma  sacola,  e  foi  jogando  lá  pra  dentro  camisa  meia  e  pijama,  e 
quando eu cheguei perto dele ele me pegou num abraço e disse Ana Paz me 
promete uma coisa, que é, pai, que é? promete que tu nunca vais te esquecer 
da Carranca, mas pai o que que tá acontecendo? ele me sacudiu e pediu de 
novo, promete que tu não vais te esquecer da Carranca, Ana Paz! eu prometi 
e não deu pra dizer mais nada, a campainha tava tocando, e tinha gente dando 
soco na porta, e a minha mãe veio dizer apavorada eles tão aí! eles tão aí! e o 
meu pai saiu correndo, e a sacola ficou pra lá, e a minha mãe gritou não sai 
por aí que eles já cercaram a casa! e tome pancada na porta, e voz de homem 
gritando,  e  aí  eu  comecei  a  ouvir  tiro  tiro  tiro  e  a  minha  mãe  gemendo 
chorado. Ana,14 
 
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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-O parágrafo 
Verificamos que praticamente só existe teoria, dentro da Estilística Sintática, até 
a frase. O parágrafo, visto como estrutura macro da sintaxe, é bastante desconsiderado. 
Não  pretendemos  fazer  um  estudo  de  vários  tipos  de  parágrafos;  abordaremos 
um tipo de paragrafação utilizado que se torna produtivo e particular. 
O  parágrafo,  para  Garcia  (2002,  p.219),  é  “uma  unidade  de  composição 
constituída  por  um  ou  mais  de  um  período,  em  que  se  desenvolve  determinada  ideia 
central, ou nuclear, a que se agregam outras, secundárias, intimamente relacionadas pelo 
sentido e logicamente decorrentes dela”. [grifos do autor] 
Há,  para  Elisa  Guimarães  (1993,  p.53),  uma  relação  entre  o  parágrafo  e  o 
esquema de raciocínio sustentado por aquele que constrói o texto. 
Lygia apresenta algumas estruturas paragráficas bastante peculiares: 
Eu fico pensando. 
Todo mundo foi embora. 
Você voltou pra Londres. A Renata foi pra Índia. O Monstrinho pra 
Paisagem. O João pro clarinete. Não tem mais ninguém. 
Mais nada. 
Nem compensação. 
Que coisa. 
Lourenço. Paisagem, 58 
 
Foi só entrar que eu senti uma coisa lá dentro querendo acordar. 
Mas o quarto tava vazio, sem coisa nenhuma dentro. 
Só que tinha uma coisa lá dentro querendo acordar. 
Resolvi esperar. Ana,31 
 
Me ajoelhei na areia, querendo riscar de novo o pedaço que a água tinha 
desmanchado. 
Mas a onda veio de novo e apagou. 
Meu dedo riscou outra vez. 
A onda desmanchou. 
O mar apagou. Tchau, 62 
Os  parágrafos  transcritos  se  relacionam  uns  com  os  outros,  completando  o 
sentido.  As  estruturas  poderiam  ser  realizadas  por  meio  de  um  único  parágrafo. 
Bojunga, porém, os concebeu de forma fragmentária. 
Nos três casos, trata-se de discurso de narrador - personagem. Na obra, em geral, 
não  há  descrição  dos  narradores-personagens;  são  caracterizados  pelo  discurso.  Dessa 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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forma, o discurso forma o sujeito. Fragmentar ideias que se relacionam em parágrafos 
diferentes é também, a nosso ver, fragmentar o próprio sujeito. É preciso enfatizar com 
que força isto é feito: na primeira ocorrência, "Lourenço" é um parágrafo e também um 
vocativo que se deveria integrar a uma mensagem, a um apelo. 
 
- A repetição 
A  repetição  é  frequentemente  considerada  como  um  problema-erro  pelos 
manuais de produção de texto. É indicado a quem queira escrever bem afastar-se desse 
procedimento. 
Lygia  Bojunga,  no  entanto,  não  evita  a  repetição,  vai  ao  seu  encontro, 
transforma o erro em possibilidades estilísticas bastante férteis. Bem elaborada permite 
"desdobramentos sucessivos de uma mesma ideia, variações sucessivas de um mesmo 
conceito, reiterações sucessivas de uma mesma imagem ou repetições consecutivas de 
uma mesma palavra.” (Pereira, 1990, p.212) 
Ocorrem: 
a) Com efeito superlativo: 
Consiste na repetição de verbos ou advérbios que objetiva uma intensificação da 
ideia,  trazendo  um  sentido  paralelo  ao  fornecido  pelo  superlativo  analítico,  mas  com 
uma  grande  diferença  de  expressividade,  já  que  esta  forma  superlativa  é  bastante 
utilizada na Língua Portuguesa e, por isso, desgastada na sua prática expressiva. 
Duvido, duvido, duvido. Colegas, 58 
Ela falou, falou, falou e no fim chorou. Bolsa,95 
Rebeca  esperando!  Esperando  uma  coisa  que  nunca!  nunca  eu  tinha  (...). 
Tchau, 13 
 
b) Com a conjunção "e": 
Por vezes, se utiliza da conjunção coordenativa aditiva "e" entre a repetição dos 
verbos.  Essa  noção  de  adição,  em  vez  de  vírgulas,  é  uma  intensificação  a  mais  na 
construção do significado. 
Mas  Alexandre  estava  apavorado,  e  então  pensava  e  pensava,  mas  não  saía 
mais invenção nenhuma. Casa, 78 
(...) Não soltou mais o olho da mala, só vendo chegando e chegando.  Sofá, 
103 
 
c) Como reforçador de uma noção: 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3313 
Consiste na  repetição  de  palavras  ou  expressões  que  vem  reforçar atributos  de 
uma personagem ou evidenciam uma imagem. 
(...) ela toca flauta com tanta certeza, olha com tanta certeza, tem cara de tan-
ta certeza. Angélica,28 
(...) implicava com orelha grande. Eu implico tanto com pata grande. (...) se 
tem  coisa  que  eu  implico  é  com  suspiro  grande.  (...)  e  se tem  coisa  que  eu 
implico é com bicho grande. Angélica,22 
Agora era só ele e o Barco, ele e o Barco , ele e o Barco lá na praia. Tchau, 
77 
 
d) Por meio de palavras cognatas: 
Com a utilização de palavras diferentes, mas de radical comum, vai intensificar 
noções  de  forma  bastante  sutil.  A  sua  construção  conta  ainda  com  advérbios  de 
intensidade, além dos elementos cognatos, que são pleonásticos. 
(...) No dia em que o Pavão ganhou nota sete, de noite ele sonhou. Um sonho 
muito bem sonhado (...). Casa, 25 
(...) Com chuva não dá pra ver direito, fica tudo tão ... tão chuvoso. Colegas, 
l6 
A Rafaela estava sonhando que o elefante-que-fazia-ginástica tinha sonhado 
que  ele  ia  sonhar  um  sonho  que  ela  já  tinha  sonhado.  Mas  como  já  era  de 
manhã  o  elefante  deixou  pra  sonhar  depois  e  foi  no  banheiro  escovar  os 
dentes. Nós, 50 
 
- As gradações 
Ao  construirmos  enunciados,  fazêmo-los,  muitas  vezes,  dispondo  palavras, 
expressões  e,  até  mesmo,  frases  em  uma  ordem  lógica,  que  seguem  uma  disposição 
interna  (subjetiva)  do  enunciador,  envolvendo  grande  afetividade.  A  escolha  e  a 
disposição de cada termo são bastante significativas. 
A gradação pode ocorrer em uma disposição sintática em que os termos têm por 
finalidade uma explicação ou visar ao próprio estilo da autora. 
Não sei; quer dizer, eu sei; eu sei mais ou menos, essas coisas a gente nunca 
sabe direito, mas eu sei que fui me sentindo sozinha... vazia... vazia de amor. 
Tchau, 13 
 
O nevoeiro rodeou Alexandre, sumiu mato, sumiu estrada, até toco sumiu, 
Alexandre levantou, quis fugir, tropeçou, parou, desistiu; e o nevoeiro crente 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3314 
que Alexandre estava morrendo de medo foi em frente foi s'embora, e aonde 
ele ia indo ia tudo sumindo. Casa, 18 
 
(...) Contou coisa à beça. Contou coisa gozada, contou coisa de arrepiar. 
Casa, 21 
 
Tinha que escapar de ser atropelado, tinha que escapar de ser empurrado, 
tinha que escapar de tanta coisa, que chegava em casa de língua de fora. 
Casa, 52 
 
(...) o Vítor tão nervoso de enfrentar câmeras, luzes, diretor, maquilador, gen-
te por todo o lado (...), que teve um daqueles engasgos de deixar a cara dele 
cor-de-rosa, vermelha e roxa. Foi de arrepiar.  Sofá, 93 
 
(...) ficou tanto tempo debaixo daquele secador que os cabeleireiros usam, 
que secou a peruca, a cabeça, Mimi toda secou, morreu. Angélica,93 
 
E fiquei seguindo o jeito do temporal lá fora; ele ainda roncou muita 
trovoada; mas aos poucos foi roncando espaçado e cada vez mais fraquinho; 
isso foi indo, foi indo, até o ronco vira suspiro! Paisagem, 24 
 
Que massa mal feita. 
Que tanto óleo. 
Que mistura sem jeito de queijo e de anchova. 
Que horror. Ana,20
  
Como se percebe, a ordem sintática reflete a ordem lógica do funcionamento do 
pensamento,  mostrando  como  o  enunciador  entende  a  evolução  significativa  da 
mensagem. 
Abordar  a  sintaxe  dessa  maneira,  sem  dúvida,  permite  ao  aluno  observar  a 
estruturação  do  texto  com  mais  facilidade.  Os  recursos  sintáticos  saltam  aos  olhos, 
vivos que estão, responsáveis pela interação plena entre autor e leitor. Assim se aprende, 
com criatividade no conteúdo e na forma. 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Câmara Jr., J. Mattoso. 1978. Contribuição à Estilística Portuguesa. Rio de Janeiro: Ao 
Livro Técnico. 
 
Cressot, Marcel. 1980. O estilo e suas técnicas. Lisboa: Edições 70. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3315 
Garcia, Othon Moacir. 2002. Comunicação em prosa moderna. Rio de Janeiro: 
Fundação Getúlio Vargas. 
 
Guerra da Cal, Ernesto. 1981. Língua e estilo da Eça Queiroz. Rio de Janeiro: Tempo 
Brasileiro. 
 
Guimarães, Elisa. 1993. A articulação do texto. 3 ed. São Paulo: Ática. 
 
Guiraud, Pierre. 1972. A semântica. São Paulo: Difusão Europeia do Livro. 
 
Ilari, Rodolfo & Geraldi, João Wanderley. 1985. Semântica. São Paulo: Ática. 
 
Marques, Maria Helena D. 1990. Iniciação à semântica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 
 
Martins, Nilce Sant'Anna. 1989. Introdução à Estilística. São Paulo: EDUSP. 
 
Pereira, Maria Teresa Gonçalves. 1990. Recursos linguístico expressivos da obra 
infanto-juvenil de Ana Maria Machado. Tese de doutorado: PUC/RJ. 
 
Rocha Lima, Carlos Henrique da. 1994. Gramática normativa de Língua Portuguesa. 
32 ed. Rio de Janeiro: José Olympio. 
 
 
CORPUS: 
Bojunga, Lygia. 1991. Angélica, 16 ed. Rio de Janeiro: Agir. 
 
______. 1976. A bolsa amarela. Rio de Janeiro: Agir. 
 
______. 1992. A casa da madrinha. 12 ed. Rio de Janeiro: Agir. 
 
______. 1992. Corda bamba. 14 ed. Rio de Janeiro: Agir. 
 
______. 1993. Os colegas. 31 ed. Rio de Janeiro: José Olympio. 
 
______. 1993. Fazendo Ana Paz. 2 ed. Rio de Janeiro: Agir. 
 
______. 1990. Livro: um encontro com Lygia Bojunga Nunes. Rio de Janeiro: Agir. 
 
______. 1993. O meu amigo pintor. 9 ed. Rio de Janeiro: José Olympio. 
 
______. 1987. Nós três. Rio de Janeiro: Agir. 
 
______. 1993. O sofá estampado. 16 ed. Rio de Janeiro: José Olympio. 
 
______. 1993. Paisagem. Rio de Janeiro: Agir. 
 
______. 1993. Tchau. 7 ed. Rio de Janeiro: Agir. 
 



De volta ao futuro da língua portuguesa.  
Simpósio 22 - Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa, 3317-3332 
ISBN 978-88-8305-127-2 
DOI 10.1285/i9788883051272p3317 
http://siba-ese.unisalento.it, © 2017 Università del Salento 
 
 
 
3317 
CONCORDÂCIA NOMINAL DE NÚMERO COM NOMES PRÓPRIOS 
COMPOSTOS 
 
 
Edson Domingos FAGUNDES
35
 
 
 
RESUMO 
A  regra de  concordância  nominal  (CN)  de número  constitui  um  caso  de mudança  em 
curso  no  português  do  Brasil  (PB):  conforme  os  trabalhos  que  seguem  os  estudos 
pioneiros de Scherre (1978, 1988), a marca -s de concordância aparece nos elementos 
do  SN  (sintagma  nominal)  que  se  encontram  mais  à  esquerda  do  núcleo  (as  menina 
bonita).  No  entanto,  levantamento  de  dados  da  CN  nos  dados  do  VARSUL-Paraná 
evidenciaram ocorrências que, aparentemente, contradizem essa regra: essas academia 
militares; moradores de conjunto habitacionais. A partir desses dados verificamos que 
há  situações  em  que  aparece  outro  tipo  de  CN:  trata-se  dos  nomes  fantasia de  alguns 
estabelecimentos  comerciais,  como  Casas  Pernambucanas,  Casas  Bahia,  Móveis 
Capão  Raso,  Móveis  Danúbio.  Na  publicidade  apresentada  por  essas  instituições, 
flagramos  o  seguinte:  "Não  adianta  bater,  eu  não  deixo  você  entrar,  é  lá  na 
Pernambucanas que eu vou comprar"; "Estamos aqui na Casas Bahia"; "Por isso que a 
Danúbio  faz  tudo";  "As  condições  do  Móveis  Capão  Raso  do  Pinheirinho  estão 
realmente de arrasar". Vai-se discutir em que medida essa aparente não concordância (i) 
transgride ou não a regra geral de CN, (ii) ou instaura um caso de exceção a essa mesma 
regra. 
 
 
PALAVRAS-CHAVE:  Concordância  nominal;  VARSUL;  Linguagem  da  publicidade; 
Variação e mudança no PB. 
 
 
Introdução 
 
O  trabalho  de  análise  da  Concordância  Nominal  (CN)  do  grupo  de  pesquisa 
VARSUL-Paraná  (Variação  Linguística  Urbana  na  Região  Sul)  possibilitou  que  fosse 
feita a descrição das ocorrências desse fenômeno nas quatro cidades do banco de dados 
desse estado, isto é, Curitiba, Irati, Londrina e Pato Branco. 
                                                 
35 UTFPR, Curso de Letras, Departamento Acadêmico de Línguas Estrangeiras Modernas, Avenida Sete 
de Setembro, 3165. CEP: 80.230-010 - Curitiba, Paraná, Brasil, edsondfagundes@utfpr.edu.br 
Atas do 
96,0(/36Lmpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3318 
A descrição da CN no Paraná teve como ponto de partida o trabalho pioneiro de 
Scherre  (1978,  1988),  considerado  como  grande  marco  no  estudo  da  concordância 
nominal do Português do Brasil (PB). Nele, a autora realiza um minucioso levantamento 
dos  trabalhos  anteriores  sobre  esse  tema  e  das  variáveis  até  então  trabalhadas.  Além 
disso, a pesquisadora trata das influências de fatores linguísticos e extralinguísticos no 
estudo  da  concordância  nominal,  postulando  a  existência  de  um  sistema  que  gerencia 
essa variação. Nesse sistema seria possível prever em quais estruturas linguísticas e sob 
que condições sociais o informante estaria mais propenso a manifestar marcas de plural 
(-s)  no  SN.  Podemos  sintetizar  o  modelo  de  Scherre  desta  forma:  quanto  mais  à 
esquerda  do  núcleo,  maior  probabilidade  de  aparecer  a  marca  morfológica  de  plural, 
como em as casa grande. 
Assim,  o  levantamento  dos  dados  de  CN  —  cujos  principais  resultados  se 
encontram  publicados  em  Menon,  Fagundes  e  Loregian-Penkal  (2010);  Penkal, 
Fagundes e Menon (2011), Menon, Loregian-Penkal e Fagundes (2013) — discutiram e 
exemplificaram as ocorrências de CN encontradas nos informantes das quatro cidades 
do  VARSUL  no  Paraná,  à  luz  dos  conceitos  apresentados  por  Scherre,  e  comparando 
com estudos que se orientaram a partir do trabalho dessa autora. 
Contudo, alguns dos dados encontrados no corpus pesquisado, como academia 
militares  e  conjunto  habitacionais,  aparentemente  contrariavam  a  regra  proposta  por 
Scherre. A partir dessa constatação, verificamos haver outra situação no PB, em que a 
CN também não se encaixa na regra proposta. É desses dois conjuntos de dados que nos 
ocuparemos no presente trabalho. 
 
 
Regra ou exceção? 
 
Ao  realizarmos  o  levantamento  e  a  codificação  dos  dados  da cidade de  Irati  – 
que,  nas  análises  preliminares,  se  revelou  a  mais  conservadora  no  que  se  refere  ao 
menor índice de apagamento do pronome SE, sobretudo o reflexivo (Bandeira, 2007), e 
é a cidade que mais apresentou usos de subjuntivo na alternância subjuntivo/indicativo 
(Fagundes,  2007)  –  nos  deparamos  com  duas  ocorrências  que  não  se  encaixavam  nas 
regras  com  as  quais  analisávamos  os  dados  de  apagamento  da  CN.  Vejamos  os  dois 
casos, apresentados nos exemplos (1) e (2). 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3319 
 
(1) 
Assim é o exército e essas- essas academia militares lá (IRT 23M B 
SEG 401)
36
 
 
(2) 
Esto  na  reunião,  em  reuniões  com-  com  jovens,  com  moradores  de-  de 
conjunto habitacionais  onde- uma veyz que eu  trabalhei na habitação, 
por trêys anos eu trabalhei (IRT 15 M AGIN 20). 
 
A  expectativa  de  encontrarmos  a  marca  de  plural  (s)  “mais  a  esquerda  do 
núcleo”  do  SN,  exceto  quando  há  o  preenchimento  de  todos  os  elementos  (essas 
academias militares) no primeiro exemplo, nos levou a refletir qual seria a razão para o 
falante  não  estar  aplicando  a  regra  proposta  por  Scherre  (essas  academia  militar  ou 
essas academias militar). 
Assim, na busca de uma explicação plausível, levantamos a seguinte questão: em 
que medida essa aparente não concordância por parte do falante (i) transgride ou não a 
regra geral de CN, (ii) ou instaura um caso de exceção a essa mesma regra? 
Tradicionalmente,  os  sintagmas  negritados  em  (1)  e  (2)  poderiam  ser 
considerados como verdadeiras palavras compostas, daquele tipo que recebe a marca de 
plural nos dois constituintes: conjuntos habitacionais, academias militares. Porém, (i) 
esses sintagmas passaram a designar entidades específicas; (ii) constituíram verdadeiros 
títulos, “rótulos”, (iii) diferenciam-se, assim, dos “conjuntos” e “academias” comuns. 
A hipótese de que o falante estivesse aplicando nesses dois casos a mesma regra 
que  é  aplicada  a  substantivos  compostos  como  guarda-roupa  /  guarda-roupas;  alto-
falante / alto-falantes, por exemplo, nos ajudaria a aceitar a perspectiva de que não há 
transgressão da regra geral, mas sim, que se trata de um caso especial de sua aplicação, 
isto é, para “academia-militar” teríamos o plural formado com “academia-militares”. No 
segundo  exemplo  teríamos  então  “conjunto-habitacional”  no  singular  e  “conjunto-
habitacionais” no plural. 
Assim,  ao  considerarmos  o  bloco,  como  constituindo  um  vocábulo  fonológico 
(conforme  Menon,  Fagundes  e  Loregian-Penkal,  2014),  o  falante  não  estaria 
invalidando  a  regra  proposta  por  Scherre  com  essa  escolha,  como  possibilidade 
alternativa à utilização da CN padrão. 
                                                 
36 A codificação das ocorrências do VARSUL apresentada contém as seguintes informações, pela ordem: 
código  da localidade (Irati: IRT), número da entrevista (23), sexo do informante (masculino: M), faixa 
etária do informante (25 a 50 anos: A, acima de 50 anos: B), escolaridade do informante (primário: PRl. 
ginásio: GIN, segundo grau: SEG) e linha em que se encontra a ocorrência na entrevista. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3320 
Uma  vez  que  no  conjunto  dos  dados  da  cidade  de  Irati  havia  somente  os  dois 
exemplos  mencionados,  fomos  à  busca  de  outros  exemplos,  com  o  intuito  de  testar  a 
regra  ainda  mais  uma  vez.  Deparamo-nos,  então,  com  outra  ocorrência  em  que, 
novamente, o mesmo questionamento vem à tona. Esse é o caso que parece ocorrer com 
o uso de nomes fantasia de estabelecimentos comerciais, como na Pernambucanas, por 
exemplo, como veremos a seguir. 
 
 
Uma coisa leva à outra 
 
Questionar o fato de o falante não estar se valendo de nenhuma das duas regras 
aqui levantadas, a CN canônica e a descoberta por Scherre, com que trabalhávamos, fez 
com que outros exemplos de exceção à regra surgissem a partir da constatação do uso 
que é feito no PB, por exemplo, em alguns comerciais de televisão. 
Assim,  constatamos  que  há  situações  em  que  aparece  um  “outro  tipo”  de  CN: 
trata-se  dos  nomes  fantasia
37
  de  alguns  estabelecimentos  comerciais,  como  Casas 
Pernambucanas,  Casas  Bahia,  Móveis  Capão  Raso,  Móveis  Danúbio.  Na  publicidade 
apresentada por essas instituições, flagramos o seguinte: 

Não adianta bater, eu não deixo você entrar, é lá na Pernambucanas que eu vou 
comprar”.
 
“Estamos aqui na Casas Bahia”. 
“Por isso que a Danúbio faz tudo”. 
“As  condições  do  Móveis  Capão  Raso  do  Pinheirinho  estão  realmente  de 
arrasar”. 
Vamos discutir nesse segundo caso, também, em que medida essa aparente não 
concordância  (i)  transgride  ou  não  a  regra  geral  de  CN,  (ii)  ou  instaura  um  caso  de 
exceção a essa mesma regra; ou ainda, (iii) nem uma coisa, nem outra. 
 
 
                                                 
37 O nome fantasia pode ou não coincidir com a razão social, que é o nome como a empresa é registrada 
na Junta Comercial dos estados, no cartório ou na Receita Federal. Por exemplo, Casas Pernambucanas é 
o  nome  fantasia,  nome  de  fachada  ou  marca  popular;  a  razão  social  da  empresa  é  Artuhr  Lundgren 
Tecidos S.A. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3321 
Os exemplos 
 
Os  exemplos  apresentados  e  discutidos  a  seguir  foram  retirados  de  textos  de 
anúncios  e  filmes  comerciais  da  televisão.  A  grande  maioria  desses  anúncios, 
veiculados  pelas  emissoras  de  rádio  e  de  televisão  do  país  têm,  como  é  sabido,  o 
acompanhamento  de  uma  equipe  de  produção  que  inclui  uma  quantidade  grande  de 
pessoas,  desde  o  desenvolvimento  de  uma  campanha  publicitária  até  sua  execução  e, 
posteriormente,  da  repercussão  junto  ao  público-alvo  interessado.  Para  a  produção  da 
peça  publicitária  são  convocados  diversos  profissionais,  dentre  os  quais  roteiristas  e 
revisores,  contando  ainda  com  o  olhar  crítico  de  quem  dirige  todo  o  trabalho  e  do 
cliente, que aprova ou não o resultado final que vai chegar até o rádio e a televisão. 
Portanto,  é  de  se  esperar  que  haja  o  cuidado  com  a  correção  gramatical
38
  dos 
textos  e  com  a  escolha  de  termos  e  mesmo  da  marcação,  ou  não,  do  sotaque  das 
personagens envolvidas. Por esta razão, não é de estranhar algumas das escolhas feitas, 
pois certamente vêm corroborar as intenções do produtor do comercial e do cliente. Isto 
é, há vários “filtros” que são utilizados na composição das peças publicitárias antes da 
sua  veiculação  pelos  meios  de  comunicação:  produção,  roteiro,  textos,  questões  de 
língua portuguesa, adequadas às necessidades e aos interesses do cliente. 
Nosso primeiro exemplo é um comercial de rádio e de televisão dos anos 1960, 
das  Casas  Pernambucanas:  o  nome  da  empresa  é  mencionado  como  “as  casas 
Pernambucanas” e há a presença de marca formal de plural em todos os elementos do 
SN.  Esse  comercial  para  a  televisão,  um  jingle,  isto  é,  uma  mensagem  publicitária 
musicada,  com  um  texto  simples  e  de  curta  duração,  em  preto  e  branco,  hoje  é 
facilmente encontrado em qualquer página de busca na internet a partir da inserção das 
seguintes palavras “Quem bate? Pernambucanas”. Eis o texto: 
 
(3)  (Um Fantasminha bate três vezes à porta) 
−Quem bate? 
−É o Frio! 
(Musica ao fundo, cantado): 
Não adianta bater, eu não deixo você entrar. 
As
39
 Casas Pernambucanas é que vão aquecer o meu lar. 
Vou comprar flanelas, lãs e cobertores. Eu vou comprar 
nas Casas Pernambucanas e nem vou sentir 
                                                 
38Conforme  Souza  (2012)  demonstrou,  a  linguagem  de  publicidade  é  altamente  conservadora,  embora 
queira transmitir uma imagem inovadora da língua. 
39 Negritos acrescentados. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3322 
o inverno passar. 
(Locutor) 
Casas Pernambucanas, onde todos compram: 
lãs, flanelas e cobertores. 
(Casas Pernambucanas, Linxfim, 1962. 
Disponível em:  
Acesso em 12 set. 2014) 
 
Na versão  de  2013  desse  jingle,  é  feita uma  releitura  do  comercial  anterior.  A 
empresa  é  nomeada  agora  como  “a  Pernambucanas”,  em  que  o  SN  tem  seu  primeiro 
elemento “a” sem marca de plural. 
 
(4) 
(O Fantasminha bate três vezes à porta) 
−Quem bate? 
(Musica ao fundo, cantado) 
Não adianta bater, eu não deixo você entrar. 
É lá na Pernambucanas que eu vou 
Aquecer o meu lar. 
Comprar cobertores, mantas e edredons
40

Eu vou comprar 
Na Pernambucanas eu não vou sentir 
O inverno passar. 
(Locutora) 
Pernambucanas, por que eu quero sempre mais. 
 
(Plugcitários, Inverno Pernambucanas 2013 – Quem bate? 
Disponível em: bate-e-o-frio-das-casas-pernambucanas/> 
Acesso em 12 set. 2014) 
 
Essas duas peças publicitárias das Casas Pernambucanas nos permitem flagrar, 
primeiramente,  dois  momentos  diferentes  na  história  da  publicidade  no  país  e,  em 
segundo lugar, o modo como os profissionais da área produzem esse tipo de mídia. 
A releitura do comercial dos anos sessenta também inclui uma releitura de como 
o nome fantasia é tratado pelo público consumidor e pelos publicitários, que se valem 
dum  apelo  à  linguagem  “menos  formal”,  digamos  assim,  tentando  aproximar  o  seu 
filme e o seu texto da linguagem usada pelo seu público-alvo. 
                                                 
40 Veja-se que os tempos mudaram: hoje, ninguém mais faz pijamas com tecido de algodão felpudinho 
que se chamava flanela. Atualmente, nem os cueiros dos bebês são feitos de flanela, porque simplesmente 
não  se  usa  mais  cueiros,  substituídos  pelos  práticos  “tops”  agora  comprados  prontos,  feitos  de  tecidos 
mais  modernos:  plush,  malha  de  algodão  ou  moletons,  ou  o  moderno  polar  (fleece).  Os  modernos 
edredons substituíram os antigos acolchoados, feitos com recheio de algodão ou lã de carneiro... 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3323 
À primeira vista, podemos entender que há a omissão da palavra “loja” em “na 
[loja da rede Casas] Pernambucanas”. Algo semelhante acontece  com  o exemplo (5) 
abaixo, de outra grande rede de lojas no Brasil: 
 
(5) 
“EXCLUSIVO! Estamos aqui na Casas Bahia, e a loja tá lotada. 
[...] Preço baixo deixa a loja lotada mesmo! Corra pra Casas Bahia!” 
 
(Comercial das Casas Bahia. 
Disponível em:  
Acesso em 29 ago. 2014) 
 
Contudo,  quando  o  núcleo  do  nome  fantasia  está  no  singular,  não  há 
estranhamento, como vem a ser o caso dos comercias das redes de lojas Colombo (6) e 
Renner (7): 
 
(6)   “Cada um tem seu jeito de dizer por que é bom demais comprar na 
Colombo.” 
 
(Comercial das Lojas Colombo 
- É bom demais comprar aqui – 2008. 
Disponível em:  
Acesso em 12 set. 2014) 
 
(7)  “É por isso que na Renner tem novidade sempre. E você, já foi na Renner 
hoje?” 
 
(Primavera Renner. 
Disponível em:  
Acesso em 25 ago. 2015) 
 
Além dos exemplos mencionados, cujos nomes fantasia são femininos, o que nos 
deixou  especialmente  intrigados,  à  primeira  vista,  foram  os  casos  em  que  o  nome 
fantasia se referia a SNs masculinos, com marca de plural, como no caso do exemplo 
(8), dos “Móveis Capão Raso” (lojas em Curitiba, PR): 
 
(8)  “As condições do Móveis Capão Raso do Pinheirinho estão realmente de 
arrasar...” “... gente, é uma loja completa, que com certeza vai te dar um 
excelente atendimento...” “... Móveis Capão Raso em dois endereços...”. 
 
(Shoptour CTB – Móveis Capão Raso. 
Disponível em:  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3324 
Acesso em 12 set. 2014) 
 
Assim, como explicar o exemplo (8)? Poderíamos inferir que se trata de uma loja, 
no  bairro  Capão  Raso,  em  Curitiba,  pois  a  loja  leva  o  nome  do  bairro.  Mas,  como 
justificar  a  alteração  do  gênero  do  SN,  uma  vez  que  se  trata  de  uma  loja  de  móveis 
(masculino plural), visto que não é mencionado inicialmente que se trata de “uma loja”? 
Porém,  na  sequência,  vem  a  informação  de  que  se  trata  de  duas  lojas,  e  que  há  dois 
endereços na cidade com esse nome e que não estão no mesmo bairro. 
 
 
A explicação 
 
Ao examinarmos outro exemplo, dentre os levantados para ilustrar a questão, se 
vislumbrou  uma  possível  solução.  Naturalmente,  na  solução  do  nosso  problema  está 
envolvida a imagem que o falante tem da “loja” ou do “estabelecimento comercial” em 
questão. Assim, “as casas” podem ser nomeadas por uma dentre as tantas que existem; 
afinal,  em  muitas  cidades,  não  dispomos  de  mais  de  uma  loja  ou  “casa”  da  referida 
empresa.  Por  sua  vez,  “os  móveis”,  como  “estabelecimento”,  “negócio”  ou  “ponto 
comercial de venda” podem merecer referência a um só deles. 
Para o caso de alguém estranhar a mudança de gênero, soluções que exaltem as 
qualidades  da  loja  podem  ser  chamadas  para  esclarecer  o  ouvinte,  leitor  ou  possível 
cliente: 
 
(9) 
“O Aliança é o verdadeiro shopping dos móveis”. 
 
(Novo Comercial Aliança. 
Disponível em:  
Acesso em 12 set. 2014) 
 
Em  (9),  dos  Móveis  Aliança,  o  locutor  anuncia  que  “o  Aliança  é  o  verdadeiro 
shopping”. Podemos inferir do texto que a loja dos Móveis Aliança é comparada a um 
“verdadeiro”  shopping,  dada  a  quantidade  de  ofertas  e  tamanho  da  loja.  Talvez  ao 
subentendermos  a  palavra  ‘shopping’  junto  à  marca  Aliança  justifique  o  fato  de  o 
primeiro  elemento  do  SN  estar  sendo  usado  no  masculino,  isto  é,  “o  shopping  de 
Móveis Aliança”. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3325 
Assim, tendo em mente o conhecimento comum prévio, necessário para se saber, 
afinal,  qual  é  o  ramo  de  atividade  em  que  a  casa,  loja  ou  estabelecimento  comercial 
atua,  é  preciso  que  o  falante  e  o  ouvinte  partilhem  esta  informação  previamente,  ou 
então, pode-se inferir na fala do outro que se trata de uma informação que é comum. 
Por isso, quando o falante se refere a um supermercado, por exemplo, cujo nome 
é feminino, não se estranha que se use o masculino diante dele: o Renata, o Esperança, 
o  Estrela.  Subentende-se  que  se  trata,  portanto,  de:  o  (supermercado)  Renata,  o 
(supermercado)  Esperança,  o  (supermercado)  Estrela.  Assim,  temos  também,  o 
(colégio)  Santa  Maria,  o  (colégio)  Medianeira,  o  (colégio)  Assunção.  Todos  com  um 
referente feminino subjacente: Nossa Senhora. 
O mesmo ocorre quando nos referimos a um ramo de atividade qualificado por 
um nome masculino, assim temos: 
 
(10)  “Por isso que a Danúbio faz tudo.” 
 
(Danúbio Móveis. 
Disponível em:  
Acesso em 12 set. 2014) 
 
O  anúncio  refere-se  a  (móveis)  Danúbio  que,  naturalmente,  pode  estar  se 
referindo à loja dos Móveis Danúbio, como ocorre e está mais explícito em (11), outro 
caso semelhante: 
 
(11)  “Acabei de decorar a casa na Móveis Campo Largo” ... “Você também 
devia deixar a Móveis Campo Largo entrar na sua casa.” 
 
(Móveis Campo Largo. 
Disponível em: 
 
Acesso em 12 set. 2014) 
 
Esse uso, em que se subentende o ramo comercial a partir da menção do nome 
fantasia,  aparece  em  outros  momentos  e  é  documentado,  por  exemplo,  em  uma 
marchinha de carnaval dos anos 1950: 
 
(12)  Sassassaricando 
Todo mundo leva a vida no arame 
Sassassaricando 
A viúva, o brotinho e a madame 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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O velho na porta da Colombo 
É um assombro 
Sassaricando 
 
(Sassaricando. 
Disponível em:  
Acesso em 12 set. 2014) 
 
A  “Colombo”  mencionada  na  canção  é  a  Confeitaria  Colombo  (fundada  em 
1894),  que  é  um  “ponto  comercial”  e  turístico  muito  conhecido  e  famoso  no  Rio  de 
Janeiro, antigamente só  frequentado pela elite e  pelos artistas. A canção  não faz mais 
que incorporar ao seu texto o modo pelo qual as pessoas se referiam à confeitaria nos 
anos de 1950. 
Então, vamos tentar dar conta dos fatos. 
 
 
A metonímia 
 
Em  sua  “Introdução  à  gramaticalização,  Gonçalves  et  al.  (2007:46),  nos 
apresentam a descrição  dos “mecanismos de  gramaticalização”. O texto é composto a 
partir  da  reunião  dos  apontamentos  de  vários  autores  que  remetem  para  a  função 
referencial  do  tradicional  conceito  de  metonímia,  “que  permite  usar  uma  entidade  em 
substituição a outra”, funcionando como mecanismo de entendimento, isto é, apontando 
“mais aspectos do que está sendo referido”. 
O  texto  chama  a  atenção  para  o  fato  de  os  conceitos  envolvendo  a  metonímia 
não serem arbitrários, mas sistematizados, pois 
fazem  parte  do  pensamento,  ações  e  fala,  e  podem  ser  exemplificados, 
principalmente, através de relações de substituição “da parte pelo todo”, “do 
produtor pelo produto”, “do objeto usado pelo usuário”, “do controlador pelo 
controlado”,  “da  instituição  pela  pessoa  responsável”,  e  assim  por  diante. 
(Gonçalves et al., 2007:46) 
Assim, a metonímia funciona através da contiguidade, em que há um conjunto 
de  crenças  e  conhecimentos  envolvidos  em  uma  dada  estrutura  conceitual  (conforme 
Taylor, 1989, apud Gonçalves et al., 2007:47), estendendo e associando o significado. 
Os  autores  observam  que  a  gramaticalização  remete  ainda  a  um  “tipo  de 
inferência pragmática”: 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3327 
A  mudança  de  significado  por  associação  metonímica  resulta  de  um 
raciocínio  “abdutivo”,  por  meio  do  qual  o  falante  observa  determinado 
resultado no discurso, invoca uma lei (da linguagem) e infere que, a um uso 
posterior, pode ser aplicada essa mesma lei. (Gonçalves et al., 2007:46) 
Esse tipo de metonímia, em que se faz uso da parte a fim de designar o todo e, 
em especial, em que se infere a partir de um exemplo já conhecido, no que se refere a 
nomes  próprios  e  apelidos,  a título  de ilustração,  é um  mecanismo  bastante  comum  e 
recorrente. Assim, a perna, a barriga, a cabeça, a orelha, a bochecha, por exemplo, são 
SN  femininos;  contudo  podem  vir  a  designar  qualidades  a  serem  destacadas  em  uma 
determinada  pessoa  do  sexo  masculino,  passando  então  a  denominá-la  a  partir  da 
“parte” destacada. Dessa maneira, não é incomum encontrarmos pessoas com apelidos 
indicando  partes  do  corpo  e,  quando  a  eles  nos  referimos,  passamos  a  chamar  essas 
pessoas como “o Perna”, “o Barriga”, “o Cabeça”, “o Orelha”, “o Bochecha”. 
Logo,  não  é de  se estranhar que  ao  ouvirmos  alguém  ser  “apelidado",  tendo  o 
novo  nome  origem  em  uma  parte  do  corpo,  como  “Pezão”,  “Zoinho”  ou  “Joelho”, 
podermos  nos  valer  deste  princípio  e  deduzir  que  se  trata  da  aplicação  do  mesmo 
recurso, isto é, a pessoa está sendo nomeada a partir de uma parte, de uma “qualidade” 
que a caracteriza. 
Isto é, o falante reanalisa o contexto em que a informação nova é apresentada e 
infere, a partir do conhecimento de que já dispõe de usos semelhantes, que é possível 
aplicar a esse novo contexto o mesmo raciocínio dado aos outros. 
Ainda a título de ilustração, é bem conhecido o fato de muitos lugares na cidade 
de  Curitiba  historicamente  terem  sido  denominados  como  “vilas”.  Por  exemplo,  Vila 
Hauer, Vila Lindóia são dois desses lugares que parte da população entende como sendo 
SN femininos. Acontece que o status no local pode ser modificado, passando de vila a 
bairro,  pelo  fato  de  ser  bairro  a  denominação  mais  corrente  e  numerosa.  Com  isso, 
altera-se  também  o  gênero  do  SN  em  questão.  Em  vez  de  a  (vila)  Hauer,  a  (vila) 
Lindóia;  passamos  a  ter  o  (bairro)  Hauer,  o  (bairro)  Lindóia.  Naturalmente,  questões 
envolvendo  o  prestígio,  ou  não,  decorrente  da  especulação  imobiliária,  desempenham 
aqui seu papel, fazendo com que não haja unanimidade quanto ao uso do SN masculino 
ou feminino. 
Outro  exemplo,  nesse  mesmo  sentido,  é a  denominação  do  Sindicato  Nacional 
dos  Docentes  de  Ensino  Superior  do  Brasil.  Quando  de  sua  fundação,  em  1981, 
aproveitou-se a designação que havia naquele momento da história do país, em que os 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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sindicatos ainda estavam proibidos. Sendo assim, para burlar a vigilância do “Estado”, 
os docentes usaram as associações dos docentes, cujos fins deveriam ser tão somente de 
cunho  social  e  não  político.  Assim  nasceu  a  Associação  Nacional  dos  Docentes  de 
Ensino Superior (a ANDES). Com o passar dos anos e a mudança da legislação, a partir 
da  promulgação  da  Constituição  Federal  em  1988,  para  resumir,  surgiu  o  sindicato 
Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, que, para não apagar a sua 
história,  manteve  em  seu  novo  nome  parte  do  antigo,  passando  a  se  chamar  ANDES 
Sindicato  Nacional,  ou  ANDES-SN,  isto  é,  o  ANDES-SN.  A  polêmica  em  torno  do 
gênero do SN continua até hoje. 
Embora  a  metonímia  seja  sempre  abordada  pelo  lado  semântico,  podemos 
constatar  que,  do  ponto  de  vista  morfossintático,  ocorre  a  elipse  (em  negrito  nos 
exemplos) do termo de origem que justificava a pretensa não concordância nominal: 
 
A loja das Casas Pernambucanas > a Pernambucanas 
O ponto de venda dos Móveis Capão Raso > o Móveis Capão Raso 
 
O  fato,  portanto,  de  a  publicidade  passar  a  utilizar  a  marcação  do  SN  em  a 
Pernambucanas  e  o  Móveis  Capão  Raso,  nada mais  é  do  que  o  desdobramento  desse 
mecanismo presente na língua. Assim o falante infere que se trata somente da aplicação 
de uma regra presente na língua, permitindo que, ao referir-se à marca,  esteja de fato 
indicando  uma  loja  ou  um  estabelecimento  da  rede  de  lojas  ou  estabelecimentos 
comerciais denominados pelo nome fantasia. 
 
 
Conclusão 
 
Este  texto  foi  ancorado  na  hipótese  de  que  certas  ocorrências  de  CN  no  PB 
poderiam estar em consonância com uma concordância canônica, isto é, aquela em que 
há  concordância  entre  todos  os  elementos  envolvidos  no  SN,  como  em  as  casas 
grandes. Como possibilidade alternativa, adotamos o modelo desenvolvido por Scherre 
(1988),  ou  seja,  quanto  mais  à  esquerda  do  núcleo  da  estrutura  do  SN  estiver 
posicionado  um  determinado  item,  maior  é  a  probabilidade  de  que  ele  apareça 
carregando a marca morfofonológica de plural, como em as casa grande, por exemplo. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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Apresentada esta premissa, a partir da qual levantamos, tratamos e analisamos os 
dados  de CN  das  cidades  do  banco  VARSUL  para  o  estado  do  Paraná,  apresentamos 
exemplos retirados do corpus com que trabalhamos, que não se encaixavam, à primeira 
vista, em nenhum dos dois “filtros” que vínhamos utilizando. Restou-nos, então, avaliar 
mais detalhadamente as nossas “exceções” à regra, a fim de compreendermos qual era, 
afinal, a estratégia utilizada pelo falante. Aceitar que o falante estivesse se valendo de 
uma CN possível e aplicável a determinados substantivos compostos nos deu a certeza 
de  que  a  regra  proposta  por  Scherre  não  estaria  sendo  refutada,  mas,  ao  contrário, 
confirmada, uma vez que a marca de plural estaria no “bloco” que compõe o SN, como 
é o caso de “academia-militares” e “conjunto-habitacionais”. 
Na busca de uma solução que resolvesse o dilema segundo o qual uma aparente 
não concordância (i) transgride ou não a regra geral de CN, (ii) ou instaura um caso de 
exceção  a  essa  mesma  regra;  testamos  diferentes  ocorrências  e  SNs  em  anúncios 
publicitários.  Esses  anúncios  nos  fizeram  compreender  a  funcionalidade  da  regra  de 
Scherre e sua aplicação a contextos que, aparentemente, causaram estranhamento e nos 
levaram a questionar se, de fato, a regra poderia ser aplicada. 
Então,  na  busca  de  ocorrências  que  confirmassem  ou  refutassem  a  regra,  nos 
deparamos  com  esses  contextos,  cujo  exame  mais  cuidadoso  nos  mostrou  que  não  se 
tratava nem de uma coisa, nem de outra. Assim, a CN presente nos nomes fantasia de 
empresas e de estabelecimentos comerciais mostrou ser um recurso já presente no PB, 
envolvendo  o  apagamento  do  ramo  de  atividade  ou  da  palavra  que  especifica  um 
estabelecimento  ou  loja,  em  especial.  Para  tanto,  basta  que  o  conhecimento  seja 
compartilhado;  e  que  o  ouvinte  infira  que  se  trata  de  informação  que  deveria  ser 
conhecida, subentendendo que há uma elipse no contexto. 
Com isso, buscamos demonstrar que somente uma análise minuciosa dos dados 
pode  chegar  a  nos  dar  os  argumentos  para  aceitar  ou  refutar  os  pressupostos  teóricos 
com que trabalhamos. No caso específico da regra proposta por Scherre, a compreensão 
dos  dados  mostrou  que  é  ela  uma  ferramenta  capaz  de  dar  conta  de  todos  os  casos 
envolvendo a CN e, aparentemente, que não se encaixam na CN canônica. À exceção, é 
claro,  dos  casos  em  que  não  se  trata  de  nem  de  uma  coisa,  nem  de  outra,  como 
procuramos demonstrar com o recurso do uso da metonímia. 
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Bandeira,  Grace.  A.  F.  2007.  O  apagamento  de  se  nas  funções  sujeito  e  objeto:  um 
estudo variacionista com dados do VARSUL do Paraná. Tese de doutorado. Curitiba, 
Universidade Federal do Paraná. 
 
Casas 
Pernambucanas, 
Linxfim. 
1962. 
Disponível 
em: 
 Acesso em 12.09.2014. 
 
Comercial das Casas Bahia 
Disponível em:   
Acesso em 29.08.2014 
 
Comercial das Lojas Colombo 
- É bom demais comprar aqui – 2008. 
Disponível em:   
Acesso em 12.09.2014 
 
Fagundes,  Edson  D.  2007.  As  ocorrências  do  modo  subjuntivo  nas  entrevistas  do 
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Menon, Odete P.S.; Fagundes, Edson D.; Loregian-Penkal, Loremi. 2010. O que fazer 
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Gragoatá, Niterói, 29: 147-160. 
 
_______.2014.  “O  meus  filho”:  vocábulo  fonológico?  Comunicação  apresentada  no 
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Menon, Odete P.S., Loregian-Penkal, Loremi, Fagundes, Edson D. 2013. 
O que é que se 
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Letrônica, Porto Alegre, v. 6, n. 1, p. 319-337, 
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Móveis Campo Largo. 
Disponível em:  
Acesso em 12.09.2014 
 
Novo Comercial Aliança. 
Disponível em:  
Acesso em 12.09.2014 
 
Plugcitários, Inverno Pernambucanas 2013 – Quem bate? 
Disponível  em:  das-casas-pernambucanas/> Acesso em 12.09.2014 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3331 
 
Primavera Renner. 
Disponível em:  
Acesso em 25.08.2015 
 
Sassaricando. 
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Acesso em 12.09.2014 
 
Scherre, Maria M. P. 1976. A regra de concordância de número no sintagma nominal 
em  português.  Dissertação  de  Mestrado.  Rio  de  Janeiro,  Pontifícia  Universidade 
Católica do Rio de Janeiro. 
 
_______.  1988.  Reanálise  da  concordância  nominal  em  português.  554  f.  Tese  de 
Doutorado. Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
Shoptour CTB – Móveis Capão Raso. 
 
Disponível em:  
Acesso em 12.09.2014 
 
Souza,  Maurini.  2012.  A  trajetória  do  tratamento  de  segunda  pessoa  em  textos 
publicitários durante o século XX: um comparativo entre Brasil e Alemanha. Tese de 
Doutorado. Universidade Federal do Paraná. 



De volta ao futuro da língua portuguesa.  
Simpósio 22 - Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa, 3333-3348 
ISBN 978-88-8305-127-2 
DOI 10.1285/i9788883051272p3333 
http://siba-ese.unisalento.it, © 2017 Università del Salento 
 
 
 
3333 
SELEÇÃO LEXICAL NEOLÓGICA NAS REDES SOCIAIS: UMA PROPOSTA 
PARA O ENSINO DA LÍNGUA  
 
 
Maria de Fátima Fernandes BISPO
41
 
 
RESUMO 
Sabendo-se  que  o  discurso  é  um  objeto  histórico-social;  uma  produção  social 
propagadora  de  sentidos  entre interlocutores,  de  relações  de  força e  poder,  este  artigo 
visa a analisar aspectos  morfossintáticos, semânticos e discursivos presentes em redes 
sociais, através de criações neológicas postadas pelos seus usuários. Ressaltar-se-á que a 
neologia  configura um evento natural de que dispõe a língua para  a entrada de novos 
itens, através de três mecanismos distintos: a construção de novas palavras, (recorrendo-
se a regras da própria língua); a atribuição de novos significados a palavras já existentes 
e a importação de palavras de outras línguas. Partindo-se da premissa de que o primeiro 
mecanismo  apresenta  variações  ainda  pouco  estudadas  no  cotidiano  escolar,  em  que, 
geralmente,  são  privilegiados  os  processos  de  prefixação,  sufixação  e  composição, 
objetiva-se, mostrar que os usuários das redes sociais revelam, em seus discursos, uma 
competência linguística ao criarem palavras. Considerando-se que as redes sociais são 
um  espaço  inegavelmente  atraente  para  os  jovens,  propõe-se  que  tais  criações 
neológicas  sejam  levadas  para  a  sala  de  aula,  na  abordagem  do  tema  “processos  de 
formação  de  palavras”,  no  ensino  médio.    Dessa  forma,  acredita-se  que  tal  corpus  de 
estudo  provocará  nos  educandos  uma  identificação  imediata,  já  que  possibilitará  que 
esses se coloquem como sujeitos da língua que falam e estudam. A metodologia deste 
trabalho  consistirá  na  recolha  dos  neologismos  de  um  site  de  relacionamento  muito 
difundido  na  atualidade,  o www.faceboook.com,  o  qual  será  definido  através  de  um 
“corpus  de  exclusão”  constituído  por  um  conjunto  de  dicionários  gerais  recentes  da 
língua portuguesa. 
 
 
PALAVRAS-CHAVE: léxico; neologismo; redes sociais; ensino 
 
 
Estudos sobre neologismos 
 
A criação lexical, denominada pela gramática como neologismo, significa ‘nova 
palavra’, composto híbrido do latim neo (novo) e do grego logos (palavra). Neologismo 
é  o  elemento  resultante  de  criação  lexical  chamado  neologia;  é  “a  palavra  nova, 
                                                 
41  CEFET/RJ,  Coordenação  de  Língua  Portuguesa  e  Literatura,  Rua  Correa  Dutra  15/902,  Flamengo, 
CEP: 22210-050, Rio de Janeiro, Brasil,  E-MAIL: fatimabis@gmail.com  
Atas do 
96,0(/36Lmpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3334 
inventada,  não  dicionarizada,  uma  novidade  no  léxico”  (Valente,  2001).  Chama-se 
léxico de um idioma, portanto, o conjunto de palavras de que ele dispõe. 
A  língua,  como  já  ressaltava,  no  século  passado,  a  pesquisadora  Nelly  de 
Carvalho  (1987),  é  o  “espelho  da  sociedade”,  cuja  evolução,  sobretudo  depois  do 
advento  da  internet,  tem  sido  frenética.  Os  neologismos  estão  ligados  a  todas  as 
inovações nos diversos ramos de atividade humana, seja arte técnica, ciência, política ou 
economia.  É  nesse  sentido  que  a  autora  considera  a  criação  neológica  um  ato  e  fato 
social:  “criar  uma  palavra  é  impor  um  conceito  por  intermédio  de  sua  representação 
escrita  ou  falada”,  sendo,  destarte,  “mais  que  um  ato  linguístico,  um  ato  social,  uma 
tentativa  de  impor  uma  visão  de  mundo  a  uma  comunidade”  (1987:10).  Ieda  Maria 
Alves  também  já  afirmava  que,  “sendo  a  língua  um  patrimônio  de  toda  uma 
comunidade  linguística,  a  todos  os  membros  dessa  sociedade  é  facultado  o  direito  de 
criatividade léxica” (1994:6).  
Entretanto,  gramáticos  e  estudiosos  do  passado,  em  várias  oportunidades, 
apresentaram  muitos  protestos  contra  o  emprego  de  neologismos.  Edith  Pimentel 
(1992), em seu estudo sobre o tema, lembra que os neologismos eram considerados por 
Júlio Ribeiro “vícios de linguagem” ou “deturpadores da língua”, e “novidades ociosas 
e  viciosas”  por  Rui  Barbosa,  que  condenava  os  “vocábulos  inventados,  os  vocábulos 
artificiais [porque] destroem o tecido de uma língua”. Além desse, a autora cita ainda: 
João Ribeiro, que, apesar de não condenar explicitamente os neologismos, considerava-
os  admissíveis  somente  se  houvesse  necessidade  e  não  denunciassem  “pobreza  de 
vocabulário”;  Eduardo  Carlos  Pereira,  que  os  incluía,  em  sua  Gramática  Expositiva, 
entre os vícios de linguagem; e autores de formação tradicional, como Rui Barbosa, que 
condenava as ditas “novidades ociosas e viciosas”, apoiado, claramente, em gramáticos 
brasileiros  e  portugueses  (Júlio  Ribeiro,  Lameira  e  Pacheco,  Ribeiro  de  Vasconcelos, 
Cândido de Figueiredo).  
Ressalta ainda Terezinha Bittencourt, a respeito de Eduardo Carlos Pereira, que 
foi um gramático de significativa influência durante a primeira metade do século XX, o 
seguinte: 
[o  gramático]  admitia  o  emprego  de  neologismos  impondo,  para  tanto,  as 
condições de serem indispensáveis para a expressão de ideias novas e serem 
bem formados, isto é, de acordo com o gênio da língua (o que denominamos 
de  sistema),  como  se  verifica  nos  vocábulos:  ferroviário,  ferrovia,  bisar, 
audaciosos,  bandido,  boné,  crachá,  conduta,  comportamento,  degelar, 
emoção,  envelope,  felicitação,  garantir,  garantia,  isolado,  imbecil,  jornal, 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3335 
pretensioso,  ponto  de  vista,  rotina,  regressar,  susceptível,  recentemente 
incorporados  ao  falar  comum,  mas  rejeitava  vigorosamente  outros  tantos 
como  avançar,  comitê,  constar,  deboche,  departamento,  detalhe,  fuzil, 
fuzilar,  governante,  interdito,  sucesso,  toalete,  por  tê-los  na  conta  dos 
francesismos. (2003:45) 
Como  podemos  observar,  tais  palavras  enumeradas  –  neologismos  quando 
começaram a circular - , atualmente, não causariam estranheza ao falante, haja vista a 
sua  perfeita  incorporação  ao  saber  linguístico  da  comunidade.  Tal  fato,  certamente, 
contrariaria  muitos  gramáticos  conservadores,  os  quais  discriminavam  a  participação 
criativa do falante na evolução lexical da língua.  
Vale lembrar também Guimarães Rosa – escritor de criatividade ímpar na arte de 
inventar palavras -, em resposta às críticas que recebera pela estranheza que causara nos 
meios  literários,  no  glossário  do  prefácio  Hipotrélico  (narrativa  composta  por  oito 
estórias, na qual Rosa faz uma defesa à inovação vocabular), explicando ironicamente o 
significado do termo: 
À  neologia  (...)  chamava  Cícero  “verborum  insolentia”.  Originalmente, 
insolentia designaria apenas: singularidade, coisa ou atitude desacostumada, 
insólita:  mas,  como  a  novidade  sempre  agride,  daí  sua  evolução  semântica, 
para:  arrogância,  atrevimento,  atitude  desaforada,  petulância  grosseira. 
(Tutaméia, 1975). 
Maria Emília B. da Silva defende, em seu ensaio O Dinamismo Lexical: o dizer 
nosso de cada dia, que o destino dos idiomas e os papéis que a eles estão reservados no 
mundo moderno relacionam-se diretamente à riqueza dos indivíduos que os falam e os 
praticam (in: Azeredo, 2000:146). A autora conclui seu texto afirmando: 
A verdade é que a legitimação do que se diz ou do que se deve dizer depende 
fundamentalmente  da  chamada  comunidade,  do  povo  –  povo  que  constrói 
nações,  fortalece  impérios,  escreve  e  reescreve  a  sua  história,  vitaliza 
idiomas:  povo  que,  por  direito,  é  o  único,  legítimo  e  verdadeiro  “dono  da 
língua”. 
 
 
A gênese do neologismo 
 
Só se pode renovar o mundo renovando a língua (Guimarães Rosa) 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3336 
De  acordo  com  Maria  Aparecida  Barbosa  (1989),  a  dinâmica  de  renovação 
lexical pode ser abordada de diferentes ângulos,  que ultrapassam os limites do estudo 
dos mecanismos de criação de novas palavras. Para a autora, é importante considerar a 
dimensão semântica e pragmática do neologismo e a própria definição de neologia, que 
nos remete, por sua vez, às questões da aceitabilidade e da desneologização, enfim, ao 
provável percurso do neologismo. 
Na gênese do neologismo, serão levados em conta o papel dos contextos intra e 
extralinguísticos e as circunstâncias espaço-temporais em que se dá. Assim, além de se 
analisar a palavra, situando o processo de formação pela qual ela passou, é necessário 
que se proponham questões como: quem criou a palavra, em que universo de discurso 
foi  produzida,  em  que  tempo  e  lugar  geográfico  e  semântico  surgiu,  para  quem  foi 
criada, como foi criada (Barbosa, in Azeredo, 2000:179).  
Quanto  à gênese  neológica,  às  circunstâncias  espaciais  e  temporais  da  criação, 
vale  dizer  que  não  é  o  ineditismo  de  uma  palavra  que  confere  a  ela  o  estatuto  de 
neológica.  Barbosa  adverte-nos  que  há  momentos  relevantes  na  criação  de  um 
neologismo, quais sejam: 
a)  o instante mesmo da criação; 
b)  o momento pós-criação, no que se refere à recepção, ou ao julgamento de sua 
aceitabilidade  por  parte  dos  destinatários,  bem  como  a  sua  inserção  no 
vocabulário e no léxico de um grupo linguístico cultural; 
c)  o momento em que se começa a acontecer a sua desneologização. 
Dessa  forma,  na  criação  lexical,  devem  distinguir-se  dois  momentos:  o  que 
considera o neologismo no instante em que é produzido no quadro enunciativo e o que é 
apreendido  e  registrado  pelos  falantes-ouvintes  do  grupo.  Como  afiram  Barbosa,  o 
primeiro  momento  do  neologismo  é  a  sua  criação,  e  o  segundo  é  a  sua  recepção  e 
aceitabilidade  pelos  destinatários,  assim  como  sua  inserção  no  conjunto  de  unidades 
léxicas memorizadas. Se o seu uso se generalizar a ponto de ser um vocábulo disponível 
de pelo menos um grupo de pessoas, a criação passará ao estatuto de neologismo. 
As condições de aceitabilidade apresentadas pela autora são: o seu emprego por 
vários  locutores  e  o  sentimento  de  que  é  compatível  com  a  língua.  Se  elas  forem 
satisfeitas,  acabam  por  impor  o  neologismo.  Dessa  maneira,  o  seu  percurso  pode 
completar-se com a perda da consciência da neologicidade. Diacronicamente falando, o 
percurso do neologismo já indica que: 
Um neologismo, criado em determinada etapa da língua, se não desaparece, 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3337 
se desneologiza, ou seja, integra-se uma norma, torna-se lexia memorizada de 
um  grupo  de  falantes,  efetiva,  disponível  para  a  atualização;  por  vezes 
integra-se  à  norma  geral,  do  conjunto  dos  sujeitos  falantes-ouvintes  do 
idioma.  Assim,  na  análise  de  um  discurso,  se  quisermos  detectar  os 
neologismos característicos de uma época, temos de tomar como parâmetro a 
documentação relativa a essa época – jornais, cartas e até mesmo dicionários. 
(Barbosa, 2000) 
Por  isso,  os  neologismos  só  podem  ser  entendidos  e  definidos  na  situação  de 
produção discursiva em que aparecem articulados os contextos intra e extralinguístico. 
Ou seja: o neologismo tem de ser considerado no contexto da enunciação.  
 
 
O contexto de enunciação dos neologismos 
 
Neste artigo, o corpus analisado originou-se de um contexto virtual, que são as 
redes  sociais,  particularmente,  de um  site  de relacionamento,  o  Facebook.  Tal  recorte 
deve-se  à  constatação  de  que  a  presença  deste  fenômeno  lexical,  que  são  os 
neologismos, é muito recorrente nesse site, no qual se verifica um número significativo 
de usuários realizando postagens de forma autoral, valendo-se, não apenas da linguagem 
não verbal (através de fotos e imagens), mas da verbal, através de criações neológicas.  
É fundamental salientar  a relevância de se estudar esse espaço virtual, que é o 
Facebook,  dada  a  sua  presença  frequente,  no  cotidiano  de  milhões  de  pessoas, 
sobretudo, dos estudantes. Vale lembrar que, diferentemente de épocas não tão remotas 
assim,  em  que  esses  jovens  comunicavam-se  basicamente  através  da  linguagem  oral, 
hoje, eles se comunicam através da escrita (digitada). E isso, logicamente, não pode ser 
ignorado  pelos  professores  e  pesquisadores  da  linguagem.  Luiz  Antônio  Marcuschi, 
que, no mesmo ano da criação do facebook (2004), participou de uma conferência na 
USP,  discorrendo  sobre  os  gêneros  textuais  emergentes,  no  contexto  da  tecnologia 
digital,  já  afirmava  que  “a  internet  é  uma  espécie  de  protótipo  de  novas  formas  de 
comportamento comunicativo;  se bem  aproveitada, ela pode tornar-se um meio eficaz 
de lidar com as práticas pluralistas sem sufocá-las” (2004:13). 
A  eleição  do  Facebook,  como  espaço  de  enunciação,  desta  pesquisa,  teve, 
portanto, como motivação, os seguintes aspectos: 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3338 
a)  A língua é dinâmica e heterogênea, manifestando-se de diferentes formas, de 
acordo com a situação comunicativa em que se insere.  
b)  A internet é um ciberespaço representativo dessa dinamicidade. 
c)  Os gêneros orais devem ser incluídos no cotidiano escolar. 
d)  O internauta, ao interagir, com os seus interlocutores, desenvolve uma escrita 
(prática social) com características que a aproxima da oralidade. 
É importante se destacar que essa escrita torna a interação mais próxima de uma 
conversação  face  a  face,  fazendo  com  que  os  integrantes  sintam-se  mais  à  vontade  e 
sejam, inclusive, capazes de ousarem, criando, por exemplo, neologismos.  Usualmente, 
tal  habilidade  é  mais  valorizada  quando  se  refere  a  escritores,  ou  até  mesmo  a 
profissionais de comunicação; no entanto, nesse espaço virtual, verifica-se que a criação 
lexical é uma capacidade e um direito linguístico de qualquer usuário da língua. Este, 
respaldado  pela  informalidade  da  situação  discursiva  em  que  se  encontra  -  além  da 
cumplicidade de sua rede de amigos com os quais interage -, torna-se uma espécie de 
“cronista”,  arriscando,  por  vezes,  inventar  palavras  que  traduzam  uma  situação  ou 
pensamento original.  
 
 
Neologismos: uma abordagem sincrônica 
 
Antônio  Sandmann,  em  seu  trabalho  sobre  morfologia  lexical,  faz  um 
interessante  estudo  investigativo  a  respeito  da  competência lexical  do  usuário  de uma 
língua, preocupando-se como o “falante-ouvinte” ou o “escrevente-leitor” entendem as 
palavras,  sua  estrutura  ou  constituição  e  seu  relacionamento  semântico-formal  com 
outras  unidades  lexicais  que  integram  o  estoque  ou  o  léxico  da  língua.  Também 
interessa  ao autor, na análise da  competência lexical, saber  como o  falante/escrevente 
forma  “unidades  lexicais  novas  consideradas  boas  ou  aceitáveis,  evita  a  formação  de 
unidades  inaceitáveis  e  como  ele  as  entende  e  julga  boas  e  inaceitáveis,  enquanto 
ouvinte/leitor” (1992:12). 
Ao  se  identificar  o  estudo  da  formação  de  novas  palavras  como  objeto  da 
morfologia,  é  importante  se  definir  sob  que  enfoque  será  feita  a  nossa  abordagem: 
diacrônico  ou  sincrônico?  Uma  vez  que  este  estudo  refere-se  à  criação  de  unidades 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3339 
lexicais formadas por “falantes/escreventes” cuja competência não é, necessariamente, a 
de um filólogo ou gramático, julgo que o enfoque mais coerente é o sincrônico.   
De  acordo  com  Sandmann,  existem  três  recursos  de  que  uma  língua  pode  se 
servir para ampliar o seu vocabulário: 
1)  A “criação do nada” (a partir de fonemas ou sílabas de palavras ou morfemas já 
existentes na língua); 
2)  Os empréstimos de outras línguas; 
3)  Formação de palavras/morfemas preexistentes. 
O primeiro recurso, a que o autor chama de “criação do nada”, é extremamente 
raro.  Como  exemplo  o  autor  cita  “tititi”,  que,  atualmente,  já  é  bastante  conhecido  e 
usado pelos falantes, construído pela repetição de uma sílaba vazia “ti”, formando um 
vocábulo onomatopaico que possui motivação ou fundamento fatores fônicos, o que não 
é regra em formações a partir de palavras ou morfemas preexistentes (1992:22).  
O  segundo  recurso  de  enriquecimento  vocabular  são  os  empréstimos, 
considerados pelo pesquisador como secundários, porque, embora bastante numerosos 
na  língua,  eles  são  menos  produtivos  que  os  neologismos  com  prefixos,  sufixos, 
compostos e cruzamentos vocabulares. 
O  terceiro  recurso  é,  portanto,  o  principal.  O  ponto  de  partida  do  processo  de 
formação  de  palavras  é  a  “base”,  sendo  que,  se  forem  utilizados  uma  base  e  afixos 
(prefixos e sufixos), termos o processo de derivação (prefixação e sufixação) e, se for 
utilizada mais de uma base, termos a composição.  
Carlos  Alexandre  Gonçalves,  em  seu  texto  acadêmico  intitulado  “Usos 
morfológicos: os processos marginais de formação de palavras em português”, defende 
que  existem  processos  que,  mesmo  sendo  considerados  marginais,  mostram  que  o 
português,  sobretudo  o  brasileiro,  utilizam-se  de  expedientes  morfoprosódicos  para 
formar uma nova palavra ou para externar o ponto de vista do falante a respeito de algo 
ou  alguém,  tais  como:  afixação  não  linear  (Ex:  “Fafá”,  para  designar  Fátima,  “Fifi”, 
para  Josefina);  encurtamento  (Ex:  “Mar”,  para  Marimar,  “delega”,  para  delegado)  e 
fusão (Ex: “matel” para mato + hotel; “patrichorra” para patricinha + cachorra).  
Esses  processos  a  que  Gonçalves  se  refere,  também  conhecidos  como  mal 
comportados,  mesclagens  lexicais,  palavras-valise  ou  cruzamentos  vocabulares,  são 
bastante recorrentes nas redes sociais, o que evidencia que os seus enunciadores, além 
de  realizarem  um  ato  de  linguagem  criativo,  revelam  o  seu  ponto  de  vista  através  de 
suas criações lexicais, como observaremos nos exemplos de nosso corpus. Neste artigo, 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3340 
optou-se por usar o termo “mesclagem lexical”, por isso, é oportuno que se apresentem 
as definições de léxico e vocabulário: 
Léxico  é  o  conjunto  virtual  de  todas  as  palavras  de  uma  língua,  isto  é,  o 
conjunto  de  todas  as  palavras  da  língua,  as  neológicas  e  as  que  caíram  em 
desuso,  as  atestadas  e  aquelas  que  são  possíveis,  tendo  em  conta,  os 
processos  de construção de palavras disponíveis na  língua. Vocabulário é o 
conjunto  factual  de  todos  os  vocábulos  atestados  em  determinado  registro 
linguístico, isto é, o conjunto fechado de todas as palavras que ocorreram de 
fato  nesse  discurso  (Margarida  Correia  &  Gladis  M.  de  B.  Almeida,  2012: 
15). 
 
 
Tipos de neologismos 
 
Diante  de  uma  unidade  lexical  que  é  sentida  como  nova,  é  importante  que  se 
levante a seguinte questão: em que essa unidade é nova, no sentido ou na forma? Assim, 
os neologismos podem apresentar dois tipos de novidade: formal ou semântica. Têm-se, 
portanto, dois tipos de neologismo: 
De sentido (semântico): novas significações para significantes já existentes. 
De forma (lexicais): novos significantes que se criam na língua. 
 
 
Neologismos das redes sociais: uma estratégia para o ensino 
 
Atualmente,  para  se  estudar  esse  fenômeno  tão  importante  de  renovação  do 
léxico,  já  se  pode  contar  com  uma  significativa  literatura  composta  de  muito  bons 
autores.  Embora  esse  tema  ainda  seja  tratado  de  maneira  superficial  pelos  livros 
didáticos dos ensinos fundamental e médio, sendo, frequentemente, citado no final do 
capítulo  destinado  ao  assunto,  com  a  errônea  indicação  de  “outros  processos  de 
formação  de  palavras”,  já  se  podem  encontrar  muitos  trabalhos  acadêmicos  para 
consulta. É sempre importante sublinhar que neologismos não constituem um processo 
de  formação  de  palavras,  afinal,  eles  são  palavras  formadas  através  de  diferentes 
processos disponibilizados pelo sistema da língua.  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3341 
Propõe-se, neste artigo, que o estudo de criações neológicas funcione como uma 
valiosa  estratégia  motivadora,  na  sala  de  aula,  propiciando  ao  aprendiz  explorar  os 
aspectos criativo, expressivo, semântico, morfossintático, discursivo e até humorístico, 
que  caracterizam  a  criação  de  neologismos.  Certamente,  o  estudo  dos  tradicionais 
“processos  de  formação  de  palavras”  será  revestido  de  uma  roupagem  bem  mais 
atraente,  sobretudo,  porque  a  seleção  dessas  novidades  originou-se  de  um  contexto 
muito íntimo desses alunos: as redes sociais.  
 
 
Neologismos do Facebook: alguns exemplos do corpus
42
 
 
Neologismo semântico 
 
Ainda que neste estudo tenham sido privilegiados os neologismos formais, são 
frequentes  os  semânticos,  também  chamados  de  conceituais.  Esses  neologismos  são 
palavras  preexistentes  que adquirem  um  novo  significado,  apresentando,  dessa  forma, 
uma novidade semântica. Para ilustrar, observemos, na postagem a seguir, o neologismo 
semântico “sexy-feira”. Trata-se de uma composição por justaposição, criada a partir de 
dois significantes preexistentes - o primeiro, um empréstimo da língua inglesa, “sexy” 
(decalque) – e o segundo, uma palavra língua portuguesa, “feira” – formando um novo 
significado  para  “sexta-feira”,  que,  de  acordo  com  a  sua  criadora,  deveria  ser  um  dia 
“sexy”. A imagem compartilhada com esse neologismo mostra uma praia da cidade do 
Rio  de  Janeiro,  ambiente  que,  possivelmente,  motivou  a  saudação  matinal  com 
conotação sensual por parte da autora da postagem, afinal, esse é um espaço em que há, 
inegavelmente, muita sensualidade, por parte de seus frequentadores. 
                                                 
42  A autoria dos exemplos selecionados foi omitida, tendo-se, por vezes, que se realizarem cortes, em 
algumas fotografias e textos, a fim de se preservar a imagem de usuários do Facebook. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3342 
 
Figura 1- sexy-feira 
Os próximos exemplos representam os neologismos formais. Vale lembrar que 
eles se formam, porque as línguas se renovam a fim de acompanharem a evolução da 
sociedade:  novos  significados  pedem  novos  significantes.  O  neologismo  formal  (ou 
lexical), geralmente, é criado pelos falantes comuns - denominativo - e por literatos – 
estilístico. O primeiro nasce de uma necessidade de nomeação de uma nova experiência, 
o segundo, ainda que fugaz, deriva de imposições comunicativas inusitadas. 
 
 
Neologismo lexical 
 
Para  se  criarem  novas  palavras,  parte-se  de  elementos  preexistentes  (unidades 
lexicais e infralexicais) e, com base num conjunto de regras interiorizadas e partilhadas 
pelos  falantes,  juntam-se  esses  elementos.  Os  processos  canônicos  de  formação  são  a 
derivação  e  a  composição,  que  são,  indubitavelmente,  muito  produtivos.  Como  se 
verifica nos próximos exemplos. 
1)  “área de cãovivência” – neologismo criado, por um usuário do Facebook, em seu 
comentário,  motivado  pela  imagem  compartilhada  (abaixo  reproduzida),  que 
mostra  um  cachorro  em  frente  a  um  painel  onde  se  lê  “área  de  convivência”. 
Certamente,  influenciado  pela  semelhança  sonora  (convivência  X 
“cãovivência”), ele criou um substantivo composto por justaposição, com muita 
propriedade e expressividade. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3343 
 
Figura 2 – cãovivência 
 
2)  “ensaio gatográfico” – outra composição por justaposição, formada pela junção 
dos  vocábulos  “gato”  mais  “gráfico”,  motivada  pela  expressão  “ensaio 
fotográfico”, com a qual realiza um jogo intertextual. Observa-se que as poses 
da  gatinha  fotografada,  de  fato,  sugerem  um  ensaio  em  que,  normalmente, 
fotografam-se mulheres sensuais. 
 
Figura 3 – gatográfico 
 
3)  “mochilando” e “turistando” – derivações por sufixação. Esse tipo de processo é 
muito  produtivo,  pois  está  previsto  no  sistema  linguístico,  a  partir  da  matriz 
morfológica  para  os  verbos  (substantivo  +  sufixo  =  verbo):  mochila  +  ar  = 
“mochilar” e turista + ar = “turistar”. Esses neologismos verbais são recorrentes 
nas redes sociais, postados, frequentemente, no gerúndio, acompanhados de uma 
imagem, que complementa a informação, como se observa nas postagens abaixo. 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3344 
 
 
Figura 4 – mochilando 
Figura 5 - turistando 
 
 
4)  “roubartilhar”  –  exemplo  de  um  processo  dito  ‘marginal’,  resultante  de  uma 
mesclagem lexical, dos vocábulos “roubar” mais “compartilhar”, criado para se 
expressar a ideia de que se está compartilhando um ‘post’ que foi copiado – ou, 
no dizer do usuário, ‘roubado’ de um internauta, no caso o filho dele. 
“Roubartilhando do meu filho. 
Será que o calor dobra? Tô fora...” 
 
 
 
 
Figura 6 – roubartilhar 
 
 
5)  “cachorrólatra”  –  outra  mesclagem  lexical,  formada  a  partir  da  união  de 
‘cachorro’ mais ‘idólatra’ – significando “adoradores de cahorros” 
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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Figura 7 – cachorrólatra 
 
 
6)  “paeslhaçada”  –  mesclagem  oriunda  da  combinação  do  substantivo  ‘Paes’ 
(representando o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, conhecido 
pela sua paixão pelo carnaval carioca) e o substantivo “palhaçada”. Expressa-se, 
nessa postagem, uma crítica às atitudes do prefeito, em sua gestão, ao aplicar o 
dinheiro público em fins que não são considerados prioridades na cidade. 
 
 
Figura 8 – paeslhaçada 
 
 
7)  O  exemplo  a  seguir  foi  postado  pelo  professor  Claudio  Cesar  Henriques,  da 
UERJ,  realizando  uma  brincadeira  com  os  seus  amigos  do  Facebook, 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3346 
denominada “teste de neologismo”. Interessante observar que vários internautas 
arriscaram  criar  os  seus  neologismos  e  o  fizeram,  em  sua  maioria,  a  partir  de 
mesclagens,  como:  “fuscicleta”,  “fuscotoca”,  “lambrefusca”,  “motofusqueta” 
etc. 
 
 
Figura 9 – teste de neologismo 
 
Considerações finais 
 
Neste  breve  artigo,  buscou-se  promover  algumas  reflexões  relacionadas  à 
pesquisa  e  ao  ensino  da  língua,  no  que  diz  respeito  aos  estudos  sobre  o  léxico, 
particularmente, sobre as criações neológicas. Ressaltou-se, também, a importância de 
se levar para a sala de aula esse tema tão motivador, que, em última análise, pode ser 
uma  verdadeira  estratégia  para  se  motivar  os  aprendizes  a  se  interessarem  por  temas 
como morfologia, por exemplo.  
Outro aspecto relevante neste estudo foi analisar a competência linguística dos 
usuários  das  redes  sociais,  ao  criarem  e  postarem  palavras  no  ambiente  virtual, 
revelando a sua força e o seu poder de transformar a língua, mostrando que o falante de 
um idioma é o legítimo e verdadeiro “dono da língua”. 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Alves, Ieda Maria. 1994. Neologismo: criação lexical. São Paulo: Ática. 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3347 
Barbosa, Maria Aparecida. 1996. Léxico, produção e criatividade. São Paulo: Plêiade. 
 
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Bittencourt, Terezinha. 2003. A criação lexical no Brasil. Rio de Janeiro: In: Cadernos 
da Academia Brasileira de Filologia. 
 
Carvalho, Nelly 1987. O que é neologismo. São Paulo: Contexto 
 
_____. 1996. Publicidade: a linguagem da sedução. São Paulo: Ática. 
 
Correia,  Margarida  &  ALMEIDA,  Gladis  Maria  de  Barcellos.  2012.  Neologia  em 
português. São Paulo: Parábola. 
 
Marcuschi  Luiz  Antônio  &  Xavier,  Antônio  Carlos.  2004.  Hipertexto  e  Gêneros 
Digitais. Rio de Janeiro: Lucerna. 
 
Rosa,  João  Guimarães.  1975.  Tutaméia  (Terceiras  Estórias).  Rio  de  Janeiro:  Nova 
Fronteira. 
 
Sandmann, Antônio. 1992. Morfologia Lexical. São Paulo: Contexto. 
 
______.1993. Morfologia Geral. São Paulo: Contexto. 
 
Silva, Maria Emília Barcellos da. 2000. O dinamismo lexical: o dizer nosso de cada dia. 
In: Azeredo, José Carlos de (org.). Língua Portuguesa em debate. Petrópolis RJ: Vozes. 
 
Valente, André Crim. 2012. Neologismo na mídia e na literatura: percursos linguístico-
discursivos. Rio de Janeiro: Quartet. 



De volta ao futuro da língua portuguesa.  
Simpósio 22 - Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa, 3349-3372 
ISBN 978-88-8305-127-2 
DOI 10.1285/i9788883051272p3349 
http://siba-ese.unisalento.it, © 2017 Università del Salento 
 
 
 
3349 
DISCURSOS CONTRA-HEGEMÔNICOS EM A VARANDA DO FRANGIPANI, 
DE MIA COUTO: APROPRIAÇÕES DE ESTRATÉGIAS DE CONSTRUÇÃO 
NARRATIVA EM FAVOR DO REAL ANIMISMO AFRICANO
*
 
 
 
Flavio GARCÍA
43
 
 
 
RESUMO 
Mia Couto, em A varanda do frangipani, apresenta, como mundo possível narrativo, a 
velha fortaleza de São Nicolau, importante entreposto no período colonial que, com o 
declínio  do  imperialismo  ultramarino  português,  após  as  independências  das  colônias 
em  África,  acabou  desprovida  de  suas  funções.  Passada  a  Guerra  Colonial  em 
Moçambique,  a  fortaleza  foi  transformada  em  asilo  para  idosos.  Durante  os  embates 
civis que assolaram o país, no período da Guerra de Desestabilização (1977 – 1992[1]), 
o  espaço  serviu,  clandestinamente,  de  depósito  de  armas  para  grupos  rivais  que 
duelavam entre si em luta inter(i)na pela hegemonia do poder. É nesse cenário que se 
desenrola a história. Ermelindo Mucanca – indivíduo sem distinção na vida, sepultado 
sem receber os rituais necessários à cultura local –, revive, na condição de xipoco, no 
corpo  do  inspetor  Izidine  Naíta  –  nativo,  retornado  depois  anos,  que  vem  ao  asilo 
investigar a morte do diretor Vasto Excelêncio, misteriosamente assassinado. Mucanga 
é  trazido  de  volta  à vida  pela  ação  do  halakavuma (ou  pangolim),  ser mágico-mítico-
místico, habitante das profundezas da terra, mensageiro entre mundos, que lhe dá sete 
dias (tempo simbólico da criação) para expiar (em sentido ambíguo) e tornar a morrer, 
vindo a receber as honrarias apropriadas a um herói (que ele nunca fora). Recorrendo a 
estratégias  de  construção  narrativa  (protocolos  da  ficção)  comuns  a  literaturas  da 
América  Latina  –  Novo  Mundo,  igualmente  à  África  –,  o  autor  constrói  um  discurso 
contra-hegemônico  inscrevível  no  que,  apropriadamente,  se  pode  chamar  de  Real 
Animismo Africano, em comparação com o Real(ismo) Maravilhoso ou Mágico Latino-
americano. 
 
 
PALAVRAS-CHAVE:  Mundos  Possíveis;  Protocolos  da  Ficção;  Discurso  Contra-
Hegemônico; Real Animismo Africano; Mia Couto. 
 
 
                                                 
* Produto parcial de projeto de pesquisa em desenvolvimento na Faculdade de Letras da Universidade de 
Coimbra,  Portugal,  sob  supervisão  do  Prof.  Doutor  Carlos  Reis,  com  bolsa  BEX  CAPES  (abril/2015 a 
março/2016). 
43 UERJ, Instituto de Letras, Departamento de Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa e Filologia.
 
Rua  Soldado  Wandel  Sarmento,  341,  CEP  21.920-095.  Rio  de  Janeiro-RJ-Brasil.  E-mail: 
flavgarc@gmail.com 
 
Atas do 
96,0(/36Lmpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3350 
Petar Petrov destacou, em seu conjunto de ensaios sobre O projecto literário de 
Mia Couto (2014), que, “no processo de evolução da ficção narrativa em Moçambique, 
o  projecto  literário  de  Mia  Couto  apresenta-se  particularmente inovador  pelo  facto  de 
evidenciar  mudanças  significativas  no  modo  de  representação  da  realidade  nacional” 
(2014: 7), uma vez que, depois da estreia, em 1983, com o volume de poesias Raiz do 
orvalho, “a notoriedade da escrita de Mia Couto virá na sequência da publicação de sua 
ficção, que se inicia com um livro de contos, Vozes Anoitecidas, cuja edição, em 1986, 
abalou o instituído nos meios literários moçambicanos” (2014: 7). 
As  interinvenções  do  ficcionista  incidiram  tanto  sobre as  temáticas  centrais  da 
literatura  moçambicana,  naquele  momento  da  pós-independência,  em  meio  à  guerra 
civil,  quando  se  esperava do  intelectual  e  artista  compromissos  políticos  e  sociais,  de 
teor  realista,  em  relação  à  afirmação  da  identidade  nacional,  e  ele  contrariara  as 
expectativas, visitando, sem pudores, as tradições do imaginário autóctone e dialogando 
com as crenças e os mitos telúricos; quanto sobre a estrutura formal do texto, que, para 
responder  às  premissas  do  momento,  vinculavam-se  aos  padrões  do  sistema 
semionarrativo-literário  real-naturalista,  cuja  supremacia  na  cultura  ocidental  havia  se 
consumado  no  correr  do  Século  XIX,  não  por  acaso,  no  período  em  que  a  escola 
romântica  da  primeira  geração  se  ocupou,  em  diferentes  espaços,  da  assunção  e 
afirmação  das  identidades  nacionais  locais,  mas  ele,  porém,  enveredava  pelo  sistema 
semionarrativo-literário não realista, em sentido lato. 
Logo,  diante da  inesperada inovação  que veio  a  público  com  o  lançamento  de 
Vozes anoitecidas, duas atitudes paradoxalmente opostas se verificaram nos meios das 
Letras  moçambicanas  de  então.  Por  um  lado,  algumas  personalidades  “enfatizaram  a 
originalidade,  relacionada  com  a  invenção  de  enredos  e  de  personagens,  e  o  feliz 
casamento  entre  a  língua  portuguesa  e  a  oralidade  das  línguas  nacionais”  (PETROV, 
2014:  21),  no  entanto,  por  outro  lado,  o  autor  não  ficou  inume  a  críticas 
contundentemente negativas que lhe foram direcionadas. 
As críticas sofridas pelo autor foram motivadas pelos princípios de uma estética 
do  realismo  social,  de  forte  vigência  na  época,  que  sobrevalorizava  a  ideologia  do 
sujeito  (artista)  em  detrimento  da  qualidade  artística  do  objeto  (obra  de  arte), 
importando mais as posições sociopolíticas expressas no nível da história – no sentido 
que as escolas formalista e estruturalista, sequencialmente, deram ao termo-conceito – 
do que a expressividade técnica do enredo – também definido pelas mesmas escolas em 
distinção ao conceito de história.  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3351 
Vigia,  como  bem  observou  Ana  Margarida  Fonseca,  em  sua  dissertação  de 
mestrado (Faculdade de Letras de Lisboa, 1996), posteriormente publicada em livro sob 
o  título  Projectos  de  encostar  mundos  (2002),  “sobretudo  nos  anos  a  seguir  a 
independência, a exigência de um comprometimento político – às vezes mesmo maior 
do que cultural – do intelectual e escritor” (2002: 96). Em consequência disso, as obras 
de ficção eram “avaliadas não pela sua qualidade estética ou capacidade de inovação, 
mas  pela  sua  filiação  (ou  não)  a  um  projecto  nacionalista  de  sentido  revolucionário” 
(2002: 96-97), daí que “uma obra como Vozes anoitecidas [...] suscitou críticas que a 
acusaram de ‘abstencionismo’, por supostamente não servir a causa revolucionária nem 
se comprometer com as ideologias dominantes” (2002: 97). 
Naquele seu trabalho, Fonseca resumiu “o projecto do autor”: 
um realismo que nasce das cores do mundo – traduzidas narratologicamente 
nas  vozes  das  personagens  e  nas  frequentes  focalizações  internas  –  por 
processos  que  têm  que  ver  com  o  próprio  modo  como  o  povo  estrutura  e 
representa  o  real;  e  [...]  a  interpretação  da  realidade  de  acordo  com  os 
modelos  da  tradição  e  da  crença,  a  subversão  da  língua  portuguesa.  (2002: 
198-199) 
Ainda segundo ela, seriam: 
duas [as principais] características da obra de Mia Couto [...]: por um lado, o 
cruzamento  entre  as  vozes  das  personagens  e  voz  do  narrador  (agente  de 
enunciação  investido  pelo  autor),  já  que  interessa  “misturar”  as 
representações  diversas  do  real;  e  por outro  lado,  o relativo  apagamento  da 
instância autoral [...] – o autor quer-se testemunha, mas não é o detentor de 
uma única modelização do real autorizada pela escrita. (2002, p.199) 
Petrov,  seguindo  os  mesmos  pressupostos  de  Fonseca,  observou  que  “a 
originalidade  do  projecto  ficcional  de  Mia  Couto  tem  a  ver  com  a  sua  criatividade 
linguística,  associada  também  à  activação  do  subgénero  da  chamada  ‘estória’,  cujas 
modalidades  representativas  conciliam  temáticas  do  mundo  empírico  e  do  imaginário 
cultural africano” (2014: 25). 
Na  sequência  de  sua  exitosa  carreira  –  coroada,  em  2013,  com  o  25º  Prêmio 
Camões, depois de já haver sido laureado com tantos outros importantes prêmios – Mia 
Couto manteve-se fiel ao conto, subgênero narrativo de maior vitalidade – ainda hoje, 
mesmo já passadas mais de quatro décadas da fixação de uma literatura assumidamente 
pós-colonial  e  nacional  –  na  ficção  moçambicana,  e,  dando  prosseguimento  à  poética 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3352 
inaugurada com Vozes anoitecidas, publicou, em 1990, Cada homem é uma raça, nova 
reunião de contos; em 1991, Cronicando, um conjunto de crônicas, cuja maioria delas 
apresenta estrutura genológica híbrida, aproximando-se do conto; e, em 1994, Estórias 
abensonhadas, outra compilação de contos, cujo título anuncia, por si, o adentramento 
do autor na densidade daquele seu projeto originário: contar casos – estórias –, fazendo-
o pelas sendas da subversão, tanto do modelo linguístico – a língua portuguesa, antes 
arma trazida pelo colonizador, mas agora apropriada pelos indivíduos da terra –, quanto 
do modelo de mundo narrativo – miscigenando,  hibridizando, mesclando, imiscuindo, 
amalgamando,  mesticizando  (se  assim  também  posso  incorrer  em  interinvenções)  os 
realia com os mirabilia do quotidiano local. O autor exercitava, em sua prosa de ficção, 
“as condições de modelização do real em literaturas que se encontra[va]m nas margens 
dos espaços culturalmente hegemônicos” (FONSECA, 2002, p.14), configurando, dessa 
maneira, uma via discursiva contra-hegemônica frente aos modelos do cânone europeu, 
do qual se valia para combatê-lo à sua margem. 
Os críticos que maldiziam as opções estéticas assumidas por Mia Couto, faziam-
no desprezando sua inventividade – naquele momento, o que sua obra apresentava de 
maior valia –, e deixavam de perceber em que medida. demonstrando domínio exemplar 
do sistema linguístico lusófono – escrevia e publicava em português – e das estratégias 
de  construção  narrativa,  o  moçambicano  punha  em  prática,  no  nível  do  discurso 
ficcional, o que seu contemporâneo, o também escritor angolano Manuel Rui, há pouco 
pregara  como  projeto  de  reação  do  artista  da  palavra  à  cultura  opressora  do  antigo 
colonizador português, conforme se pode depreender do excerto que segue: 
[Eu]  viria  a  constatar  que  [tu]  detinhas  mais  outra  arma  poderosa  além  do 
canhão: a escrita. E que também sistematicamente no texto que fazias escrito 
inventavas destruir o meu texto ouvido e visto. [...] 
Mas agora sinto vontade de me apoderar do teu canhão, desmontá-lo peça a 
peça, refazê-lo e disparar não contra o teu texto não na intenção de o liquidar, 
mas para exterminar dele a parte que me agride. Afinal assim identificando-
me sempre eu, até posso ajudar-te à busca de uma identidade em que sejas tu 
quando eu te olho, em vez de seres o outro. 
Mas  para  fazer  isto  eu  tenho  que  transformar  e  transformo-me.  Assim  na 
minha  oratura  para  além  das  estórias  antigas  na  memória  do  tempo  eu  vou 
passar a incluir-te. Vou inventar novas estórias. [...] 
E agora o meu texto se ele trouxe a escrita? O meu texto tem que se manter 
assim oraturizado e oraturizante. Se eu perco a cosmicidade do rito perco a 
luta. [...] 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3353 
Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do 
outro  com  todos  os  elementos  possíveis  do  meu  texto.  Invento  outro  texto. 
Interfiro, desescrevo para que conquiste a partir do instrumento de escrita um 
texto escrito meu, da minha identidade. Os personagens do meu texto têm de 
se movimentar como no outro texto inicial. Têm de cantar. Dançar. Em suma 
temos  de  ser  nós.  “Nós  mesmos”.  Assim  reforço  a  identidade  com  a 
literatura. (1985) 
O  próprio  Mia  Couto,  em  um  de  seus  textos  de  opinião,  publicado  em 
Pensatempos  (2005),  reflete  sobre  o  papel  do  escritor  –  como  cidadão  e  artista  –, 
posicionando-se da seguinte maneira: 
O  escritor  é  um  ser  que  deve  estar  aberto  a  viajar  por  outras  experiências, 
outras culturas, outras vidas. Deve estar disponível para se negar a si mesmo. 
Porque só assim ele viaja entre identidades. E é isso que um escritor é – um 
viajante de identidades, um contrabandista de almas. Não há escritor que não 
partilhe  dessa  condição:  uma  criação  de  fronteira,  alguém  que  vive  junto  à 
janela, essa janela que se abre para os territórios da interioridade. 
O  nosso  papel  é  o  de  criarmos  os  pressupostos  de  um  pensamento  mais 
nosso,  para  que  a  avaliação  do  nosso  lugar  e  do  nosso  tempo  deixe  de  ser 
feita  a  partir  de  categorias  criadas  pelos  outros.  [...]  Essa  “africanidade” 
erguida  como  uma  identidade  tem  sido  objeto  de  sucessivas  mistificações. 
(2005, p. 59-60) 
Em outro de seus textos de opinião, publicado em E se Obama fosse africano? E 
outras  interinvenções  (2009),  pergunta-se,  retoricamente,  se  “o  facto  de  vivermos  em 
cidades, no meio de computadores e da internet de banda larga, será que tudo isso nos 
isenta  de  termos  um  pé  na  explicação  mágica  do  mundo?”  (2009:  90),  ao  que  (se) 
responde, dizendo que: 
As  práticas  de  feitiçaria  são  profundamente  modernas,  estão  nascendo  e 
sendo refeitas na actualidade dos nossos centros urbanos. Um bom exemplo 
dessa  habilidade  de  incorporação  do  moderno  é  o  de  um  anúncio  que  eu 
recortei  da  nossa  imprensa  em  que  um  destes  curandeiros  anunciava 
textualmente:  “Curamos  asma,  diabetes  e  borbulhas;  tratamos  doenças 
sexuais e dores de cabeça; afastamos má sorte e... tiramos fotocópias”. (2009: 
91) 
Registre-se que há, ainda, outra reunião de textos de opinião do autor, publicada 
sob o título Pensageiro frequente (2010). 
Em 1992, entremeando sua produção de narrativas curtas (contos e crônicas), o 
ficcionista  publicou  seu  primeiro  romance,  Terra  sonâmbula,  vencedor,  em  1995,  do 
Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos. Apesar de se 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3354 
tratar de um romance, sua estrutura composicional remete à contação de casos – estórias 
–  e  pode  ser  lido,  capítulos  à  parte,  um  a  um,  como  uma  espécie  de  encadeamento 
orgânico  de contos.  Ana  Mafalda  Leite,  em  seus  Ensaios  sobre  Literaturas  Africanas 
(2013),  salientou  que  “o  texto  se  organiza  a  partir  de  uma  sucessão  de  episódios, 
baseados em dois  tipos de géneros, de origem oral, o conto, como macroestrutura e o 
provérbio,  como  microestrutura”  (2013:  153).  A  pesquisadora  completa,  destacando 
que: 
A  narrativa  está  organizada  em  duas  histórias,  narradas  alternadamente.  A 
primeira, de um velho e de uma criança, Tuhair e Muindinga, que, fugidos da 
guerra  civil,  se  alojam  num  carro  incendiado  no  meio  da  estrada.  Aí 
encontram os cadernos de uma das vítimas, que constitui a segunda história e 
passam  a  lê-los  diariamente,  episódio  por  episódio,  refazendo, 
parodicamente, a postura do contador de histórias. (2013: 153-154) 
Em outro capítulo desse mesmo volume de ensaios, a estudiosa condensou, da 
seguinte maneira, a fábula representada em Terra sonâmbula: 
[...]  um  machimbombo  incendiado,  um  velho  e  uma  criança  –  Tuhair  e 
Muindinga  –  refazem  o  seu  quotidiano  através  da  leitura  dos  cadernos  de 
Kindzu,  encontrados  junto  ao  autocarro  [em  que  se  refugiavam].  As  noites 
são iluminadas pela leitura dos relatos. O velho escuta, não sabe ler, a criança 
lê  e,  nesse  cenário,  se  refaz  a  antiga  postura  da  tradição  oral.  À  volta  da 
fogueira, à noite, ouvem-se estórias. 
[...] O narrador propõe uma nova adequação dos tempos antigos aos actuais, a 
leitura como uma forma de reposição da fala, da encenação dramatizada oral 
[...]. 
Em Terra sonâmbula, o acto de contar passa pela leitura, pela devolução do 
silêncio  à  voz.  Essa  ironia  dos  tempos  novos  é,  no  entanto,  readaptada  à 
função  didática  da  oratura,  pelo  modo  como  ela  responde,  simulando,  os 
tempos antigos. Os cadernos trazem a história escrita da voz de Kindzu [...], 
agora recuperada, de novo em fala, por Muindinga, que conta as viagens de 
Kindzu por mar e, com esses relatos, o velho reaprende a sonhar, e a criança 
a imaginar. [...] 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3355 
Todos  ouvimos,  o  leitor,  Tuhair,  a  lua,  a  estrada.  A  primeira  pessoa  que 
inaugura  o  relato  imprime  essa  força  comunicativa  que  encena  a 
proximidade, a partilha da estória. (2013: 60) 
Enfim,  conforme  Leite,  “em  Terra  sonâmbula;  as  personagens  que  aparecem 
[nos casos dos cadernos de Kindzu,] contam a sua história, [...] e o processo ganha uma 
dimensão  paratática;  somam-se  episódios  numa  sequência  que  poderia  prolongar-se 
mais ou menos indefinidamente” (2013: 154). 
Trata-se  de  uma  estrutura  de  histórias  encaixadas,  tão  própria  ao  conto  da 
tradição oral, quanto, como bem observaram variados estudiosos, à narrativa fantástica 
–  vertente  ficcional,  que,  dependendo  da corrente  teórica,  corresponde  a  gênero,  tipo, 
modo, discurso ou categoria; mas, nesse caso, estou me referindo a modelo de mundo 
ficcional  fantástico,  em  oposição  a  modelo  de  mundo  ficcional  realista,  conforme 
sugerido do Javier Rodríguez Pequeño, em Géneros literarios y mundos posibles (2008: 
113-143)  –,  no  qual  um  narrador,  geralmente  em  função  homodiegética  –  narrador-
personagem, que relata um episódio do qual participou, mas não como protagonista –, 
conta, a demais personagens, os quais se encontram em função de narratário – o que faz 
com que a história chegue ao leitor –, o que leu ou ouviu, a partir da focalização de um 
outro  narrador,  que  também  pode  desempenhar,  na  narrativa  encaixada,  função 
homodiegética  ou,  dependendo  do  emolduramento  sequencial  dos  encaixes,  função 
autodiegética  –  narrador-personagem  que  relata  um  caso  no  qual  atuou  como 
protagonista.  
Em 1996, Mia Couto publicou um novo romance, A varanda do frangipani, de 
que já me ocupei em outras oportunidades – fosse diretamente envolvido na redação de 
ensaios acerca dele (GARCÍA, 2013, por exemplo), fosse como orientador de pesquisa 
de pós-graduação stricto sensu que o tiveram por corpus (SILVA, 2013, por exemplo). 
Leite,  naqueles  seus  mesmos  ensaios,  procurou  sintetizar  o  romance,  tanto  em  seus 
aspectos temáticos, quanto em sua composição narrativa, apontando que: 
[Em A varanda do frangipani,] A acção situa-se num antigo forte português, 
o Forte de S. Nicolau, transformado em asilo de velhos, isolado do resto do 
país  e  situado  junto  ao  mar,  mas  defendido  o  seu  acesso  pelas  rochas 
inacessíveis. O asilo tem estatuto de ilha, o acesso por terra é impossível por 
causa das minas e os barcos não podem ancorar por causa das rochas. 
O motivo da história baseia-se num crime: nesse asilo foi morto um homem, 
o  director  e  veio  da  capital  um  policial  para,  em  sete  dias,  deslindar  o 
acontecido. Sete dias e sete noites que instauram uma espécie de novo ciclo 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3356 
da criação, em que, através de sucessivas histórias e testemunhos, os velhos 
iniciam Izidine, o policial, no seu “renascimento”. A enfermeira Marta Gimo 
[...] mediatiza essa iniciação [...]. 
[...] 
O  forte,  último  reduto,  asilo  de  velhos,  em  que  uma  parte  do  país 
simbolicamente sobrevive, enraizado numa cultura, em fase morrente, é uma 
ilha inacessível, em que o mar e uma árvore de frangipani imperam. (2013: 
54) 
Para  essa  estudiosa  das  culturas  e  literaturas  de  África,  especialmente  das 
expressões  moçambicanas  –  conforme  se  pode  depreender  de  sua  variada  produção 
acadêmica –, tem-se, “em ‘A varanda do frangipani’, a representação de uma ilha que 
resguarda  os  valores  do  tempo  dos  mais  velhos,  cercada  pela  ignorância  do  tempo 
presente, marcadamente urbano” (LEITE, 2013: 169), onde “as personagens vivem das 
histórias que contam, existem porque têm uma narrativa a partilhar, uma experiência de 
vida, um ensinamento, figurado ou não. A personagem é uma história virtual, que é a 
história da sua vida” (LEITE, 2013: 176). 
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