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participantes.  Quando  um  ‘processo’  é  realizado  como  um  ‘nome’  (caso  das



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participantes.  Quando  um  ‘processo’  é  realizado  como  um  ‘nome’  (caso  das 
nominalizações deverbais) ele passa a ser interpretado pelo falante como se fosse uma 
‘coisa’ (thing). A essa extensão de sentido Halliday e Matthiessen (2004) denominam 
‘metáfora  gramatical  ideacional’,  já  que  o  fenômeno  está  ligado  à  transitividade, 
classificada pelos autores como um dos componentes da meta-função ideacional.   


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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Naturalmente,  como  a  maioria  dos  fenômenos  linguísticos,  a  distinção  entre 
formas mais ‘congruentes’ e menos ‘congruentes’ de expressão de sentidos não é nítida. 
Por  exemplo,  se  o  falante  escolhe  usar  ‘comparação  de  preços’  em  vez  do  usar  sua 
forma  mais  congruente  (‘pessoas  comparam  preços’),  esse  uso  mais  gramaticalmente 
metaforizado implica a construção de um mundo mais objetivo, por exemplo, em que os 
fatos podem emergir independentemente da consciência humana.  
As  metáforas  gramaticais  representam,  por  isso,  um  recurso  importante  para  a 
criação  de  um  novo  sentido  por  meio  de  formas  léxico-gramaticais  modificadas 
(Thompson,  2013).  Elas  representam,  também,  uma  possibilidade  de  redefinição  das 
relações  entre  ‘sentido’  e  ‘codificação’,  operadas  na  própria  gramática  da  língua.  Por 
isso,  quando  uma  metáfora  gramatical  é  utilizada,  um  nome  passa,  por  exemplo,  a 
codificar  um  acontecimento,  o  que,  em  geral,  envolve  uma  relação  lógica  de  causa  e 
efeito, ligada, por exemplo, ao agente e à meta do processo verbal em foco (Halliday e 
Matthiessen,  2004).  Desse  modo,  nas  nominalizações,  que  são  um  tipo  importante  de 
metáfora  gramatical,  o  ‘empacotamento’  menos  congruente  e  mais  ‘econômico’  da 
expressão  linguística  fundamenta-se  em  aspectos  relações  pragmáticas,  ligados  ao 
conhecimento  de  curto  prazo  dos  interlocutores  e  também  a  seu  conhecimento  de 
mundo e/ou disciplinar, diferentes daquele contido no sentido mais congruente, como se 
pode observar em: 
A  empresa  contratou  um  novo  funcionário  x  A  contratação  de  um  novo 
funcionário. 
Pessoas  comparam  antes  de  comprar  x  A  comparação  de  preços  antes  da 
compra  
Nas  metáforas  gramaticais,  as  nominalizações  são  apontadas  por  Halliday  e 
Matthiessen  (2004)  como  construções  próprias  do  texto  acadêmico;  não  somente  pelo 
efeito de objetividade causado, mas também porque a omissão de argumentos (comum 
em nominalizações) pode ser recuperada pelo leitor mais competente, com base em seu 
conhecimento de mundo em geral, em seu conhecimento sobre o assunto tratado, ou em 
elementos anteriormente manipulados no fluxo textual. 
Nessa  perspectiva,  os  deverbais  podem  apresentar  propriedades  expressas, 
ligadas  à  natureza  predicativa  de  suas  bases,  ou  podem  apresentar  argumentos  não-
expressos, recuperáveis por meio de processos semânticos e/ou pragmático-textuais. A 
seguir,  uma  discussão  sobre  a  complexidade  categorial  dos  nomes  e  dos  verbos  será 


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procedida, tendo em vista a natureza das nominalizações e seu significado no continuum 
categorial. 
 
 
Complexidade categorial gramatical: a visão de continuum  
 
No conhecimento semântico que os falantes têm sobre sua língua, as categorias 
gramaticais nem sempre ficam armazenadas em compartimentos nitidamente distintos. 
Acerca  disso,  a  linguística  cognitiva,  por  exemplo,  tem  demonstrado  como  a 
categorização  gramatical  é  realizada  da  mesma  maneira  por  meio  da  qual  os  seres 
humanos  categorizam  outros  elementos  do  mundo  em  geral  (Hopper,  1985;  Taylor, 
1995).  Dessa  forma,  quando  se  deparam  com  um  novo  verbo,  como  deletar  em  “Eu 
deletei minha página no Facebook”, os falantes tendem a tratá-lo de maneira semelhante 
ao  membro  prototípico de uma  determinada  classe  de verbos,  por exemplo,  como  um 
verbo  que  requer  dois  argumentos.    Esse  processo  de  seleção  e  uso  indica  que  a 
estrutura  da  argumental  de  um  verbo  é  formada  por  um  processo  contínuo  de 
classificação,  reclassificação  e  refinamento,  tendo  como  base  o  uso  diário  da  língua 
(Neves, 1996; Givón, 2001; Furtado da Cunha, 2013). 
Há  muitas  dificuldades  relacionadas  à  classificação  de  verbos,  especialmente 
porque frequentemente baseia-se em características pertencentes à estrutura gramatical 
de línguas como o grego e o latim, dada a tradição dos estudos gramaticais conforme 
esta foi desenvolvida no ocidente. A dificuldade na classificação gramatical, resultante 
dessa tradição, fica evidente, por exemplo, na análise dos critérios nocionais ligados à 
classe dos verbos, quase sempre associados a uma classe de palavra sugestiva de ação, 
bem como à classe de substantivo, em geral associada à nomeação de ‘entidades’ ou de 
‘coisas’.  (Lyons 1977, Camacho, 2009). Diante disso, termos como  verdade e beleza, 
identificados  como  substantivos,  e  verbos  em  sua  forma  nominal,  por  exemplo,  são 
indicativos da instabilidade dos critérios classificatórios de base puramente nocional.  
Quanto à classificação dos substantivos, a distinção proposta por Lyons (1977) 
entre  entidades  de  diferentes  ordens  fornece  uma  solução  plausível  para  as 
inconsistências  na  classificação  nocional.  Substantivos  comuns,  que  têm  um  referente 
concreto,  representam  entidades  de  primeira  ordem,  enquanto  os  que  se  referem  a 
estados de coisas e proposições representam, respectivamente, entidades  de segunda e 


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de  terceira  ordem.  Muito  raramente  substantivos  deverbais  se  referem  a  entidades  de 
primeira ordem, especialmente quando representarem nominais de ação.  
Com  relação  à  escala  proposta  por  Lyons  (1977),  Camacho  (2009)  argumenta 
que  ela  está  ‘plenamente  de  acordo  com  o  papel  fundamental  dos  substantivos 
concretos’,  pois,  segundo  Camacho  (2009),  em  crianças  em  fase  de  aquisição  da 
linguagem,  por  exemplo,  é  observada  a  tendência  em  associar  substantivos  com 
entidades  físicas  e  verbos  com  ações  concretas.  De  modo  semelhante,  tomando  como 
base a Teoria da Prototipicidade (Rosch, 1973),  os substantivos concretos e contáveis 
são  os  exemplos  mais  representativos  dessa  categoria,  assim  como  substantivos 
abstratos e incontáveis ocupam um espaço mais periférico, ou seja, menos prototípico.  
Ainda acerca da distinção entre categorias verbais e nominais, fundamentado no 
critério da ‘estabilidade temporal contínua dos referentes’, Givón (2001) identifica, em 
um polo desse continuum, a existência de elementos que apresentam grau superior de 
estabilidade temporal  e  que, por isso, não  alteram sua identidade com o tempo. Esses 
elementos  são,  por  isso,  considerados  fortes  candidatos  a  membros  prototípicos  da 
categoria  de  substantivo.  Por  outro  lado,  membros  prototípicos  da  classe  dos  verbos, 
associam-se, em geral, a entidades sem grande estabilidade temporal, ou seja, passíveis 
de  sequenciamento  ao  longo  do  tempo.  Na  região  média  do  continuum  categorial, 
situam-se as duas outras principais categorias predicadoras, o adjetivo e o advérbio, este 
último tomado normalmente no escopo verbal e/ou adjetival e o primeiro, mais ligado às 
restrições da denotação dos substantivos. 
Diante do aspecto complexo das categorias gramaticais, podemos observar que, 
quando  ‘beleza’  ou  ‘verdade’  são  entendidas  como  substantivos,  ocorre  uma  projeção 
do  esquema  de  ‘coisa’,  que  é tridimensional,  para  outros  domínios  (Langacker  1987). 
Essa relação metafórica mapeia substâncias concretas em propriedades abstratas, e nos 
possibilita identificar também a natureza substantiva de termos como ‘amor’ e ‘ódio’, 
por exemplo. Nessa perspectiva cognitiva, Langacker (1987) também argumenta que o 
substantivo e o verbo constroem o evento a partir de imagens contrastivas. Essas duas 
categorias  não  representam  o  mesmo  estado  de  coisas,  mas  dois  estados  de  coisas 
semanticamente  distintos.  Particularmente  no  que  se  refere  ao  uso  de  termos 
nominalizados,  foco  deste  estudo,  há  uma  extensão  de  sentidos,  por  meio  do  qual  o 
falante interpreta um verbo como se fosse uma coisa (thing).  
Com respeito ao critério discursivo para a categorização de termos gramaticais, 
os  substantivos  introduzem  participantes  no  discurso,  posteriormente  desenvolvidos  e 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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manipulados  ao  longo  do  texto.  A  esse  respeito,  o  Princípio  da  Iconicidade  das 
Categorias Lexicais (Givón 2001) prediz que, na medida em que uma forma linguística 
cumpre  essa  função,  ela  será  identificada  como  substantivo  e  manifestará,  também,  o 
conjunto determinações e modificações que um substantivo poderá apresentar em uma 
determinada língua. O critério discursivo para a identificação de categorias gramaticais 
permite que a codificação dos participantes no discurso seja analisada do ponto de vista 
informacional (Givón 2001; Chafe 1994).  Dessa forma, a codificação de  participantes 
do evento verbal está ligada à intenção comunicativa do falante, bem como ao grau de 
importância de um determinado elemento para a continuidade do discurso, que pode ser 
tomado, por exemplo, como referente específico, ou genérico, da entidade em foco no 
discurso.  
Dada essa variação nas possibilidades de análise dos termos que acompanham os 
deverbais, o estudo do comportamento das nominalizações proposto neste trabalho tem 
por objetivo principal verificar como ocorrem as combinações requeridas pelos termos 
deverbais  do  tipo  X-ÇÃO  em  textos  acadêmicos  do  PB,  para  examinar  que  fatores 
interferem na expressão (ou na não expressão) desses elementos no fluxo textual. Nossa 
hipótese  (assim  como  Santana,  2005  e  Camacho  2007  e  2009)  é  a  de  que  o  contexto 
discursivo  pode  determinar  o  preenchimento  (ou  não)  desses  espaços  sintáticos  e,  por 
essa  razão,  os  argumentos  dos  deverbais  podem  se  comportar  como  constituintes 
argumentais.  
Para este estudo, trabalhamos com amostras de um corpus de textos acadêmicos 
cujas características principais são descritas abaixo. 
 
 
Metodologia de coleta e de análise de dados linguísticos  
 
Neste  trabalho,  analisamos  unidades  lexicais  conhecidas  como  “nomes 
deverbais”. Essas unidades se originam do processo de nominalização, pela adição do 
sufixo  -ÇÃO.  Para  isso,  foram  identificados  os  deverbais  do  tipo  X-ÇÃO  mais 
frequentes, encontrados em textos acadêmicos escritos em Português Brasileiro, com a 
finalidade de examinar até que ponto os elementos da estrutura argumental do verbo de 
origem ficam expressos e, no caso de não o serem, procurou-se verificar quais processos 
contribuem para a recuperação desses termos no fluxo discursivo escrito.  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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O  corpus  destinado  a  este  estudo  contabilizou  4,92  milhões  de palavras  foram 
coletadas e analisadas por meio de instrumentos de corpora, tais como listas de palavras 
mais frequentes e lista de colocados. Foram utilizados artigos científicos, coletados de 
diferentes  periódicos  eletrônicos,  disponíveis  do  Portal  de  Periódicos  da  CAPES.  Os 
artigos  foram  selecionados  semialeatoriamente,  com  base  em  diferentes  critérios  tais 
como o tema, as palavras-chave, área e a classificação do periódico. Com base nesses 
critérios,  foram  formados  subcorpora  de  acordo  com  as  diferentes  áreas  de  avaliação 
determinadas  pela  CAPES
29
.  Cada  subcorpus  é  constituído  por  aproximadamente 
100.000  palavras,  com  número  variável  de  artigos,  em  função  da  extensão  de  cada 
artigo.  
Primeiramente, para determinação dos nomes deverbais terminados em X–ÇÃO, 
uma lista das palavras mais frequentes do corpus foi elaborada com auxílio do software 
Kitconc© (MOREIRA FILHO, 2008). Dessa lista, foram identificados os 20 lemas mais 
frequentes terminados em X–ÇÃO. Posteriormente, foram selecionadas aleatoriamente 
100 ocorrências de cada um dos cinco lemas mais frequentes (“relação”, “informação”, 
“ação”,  “avaliação”  e  “concentração”),  para  serem  analisadas.  A  confirmação  desses 
itens como nomes deverbais foi feita por meio de consulta a um dicionário online 
30
. O 
Quadro 1, a seguir, ilustra esses dados. Ele registra, na coluna posição, a ordem em que 
o substantivo aparece na lista de palavras mais frequentes no corpus. 
 
Quadro 1 - Deverbais mais frequentes no corpus analisado 
Feito o levantamento quantitativo, passou-se à análise manual do corpus, com o 
intuito de verificar como/se os elementos da valência do verbo de origem (verbo input) 
estavam expressos nos deverbais analisados. Para a análise da valência dos deverbais, 
foi  utilizado  o  método  introspectivo  e  também  nos  serviram  de  base  os  exemplos 
contidos  em  (Santana,  2005;  Perini,  2008;  Camacho  2007  e  2009;  e  De  Bona,  2014), 
                                                 
29 Disponível em: http:// www.capes.gov.br/.  
30 Disponível em: http://www.portaldalinguaportuguesa.org/. 


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Quando  os  argumentos  não  estavam  expressos,  buscou-se  analisar  quais  processos 
cognitivo-funcionais contribuíam para a recuperação desses termos no fluxo discursivo 
escrito.  É  importante  salientar  que  consideramos  a  presença  de  alterações  (elementos 
não  expressos)  na  estrutura  argumental  somente  quando  os  argumentos  dos  nomes 
deverbais  não  foram  passíveis  de  recuperação  na  oração  matriz,  o  que  consideramos 
uma  motivação  pragmática  para  o  apagamento,  e  não  semântica,  de  acordo  com 
Camacho (2007); já que a recuperação se faz com base no conhecimento de mundo ou 
disciplinar dos interlocutores, bem como no conhecimento de curto prazo construído ao 
longo da interação verbal, ou da leitura do texto. A seguir, a análise dos dados obtidos 
será apresentada com a discussão de alguns fragmentos retirados no corpus examinado. 
 
 
Análise da estrutura argumental dos deverbais mais frequentes no corpus 
 
Por  meio  da  análise  dos  dados,  foi  possível  perceber,  já  de  início,  que  os 
argumentos  que  compõem  a  estrutura  de  um  nome  deverbal  são  de  difícil 
enquadramento  em  uma  expressão  formalizada,  do  tipo  avaliação  [de  algo]  [por 
alguém]. Não obstante, os nomes deverbais podem ter seus argumentos expressos por 
anáfora zero, ou podem apresentar modificações em seus argumentos por meio do uso 
de pronomes possessivos e de adjetivos. 
O Quadro a seguir ilustra a distribuição dos argumentos dos 05 deverbais mais 
frequentes nos textos analisados, conforme sua expressão sintática: A1 (sujeito do verbo 
input), A2 (objeto direto do verbo input) e A3 (objeto indireto do verbo input). 
 
Quadro 2 - Distribuição 5 dos deverbais mais frequentes no corpus e seus  
argumentos sintaticamente expressos 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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A análise do Quadro 1 confirma que argumentos A2 (correspondentes ao objeto 
direto  do  verbo  input)  apresentaram-se  como  os  mais  frequentemente  expressos  nos 
deverbais  dos  textos  analisados.  Esse  resultado  pode  estar  associado  à  tendência  dos 
objetos  de  representarem,  em  geral,  informação  nova  e,  portanto,  sintaticamente  mais 
complexa e manipulável. Adicionalmente, no texto acadêmico escrito, a necessidade de 
manipulação  e  explicitação  de  informação  é  maior.  Os  excertos  1  e  2,  a  seguir, 
demonstram essa tendência à explicitação da informação manipulável. 
Excerto 1 
A  fabricação  de  cimento  responde  por  cerca  de  2%  do  consumo  global  de 
energia  e  por  cerca  de  5%  do  consumo  global  industrial  de  energia, 
principalmente porque a reação CaCO3 CaO + CO2, presente na formação de 
sua principal matéria-prima, o clínquer, é altamente endotérmica. 
(Fragmento de texto retirado da área de Engenharia) 
 
Excerto 2 
Na  organização  dos  dados  utilizam-se  três  figuras  metodológicas  do 
Discurso do Sujeito Coletivo: a Expressão-chave (ECH), a Ideia Central (IC) 
e o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC).  
(Fragmento de texto da área de Saúde) 
É importante notar que, nos Excertos 1 e 2, o artigo definido também retoma a 
base do  deverbal,  que  vem  acompanhado  de  outro  complemento,  Apothéloz  e  Chanet 
(2013), sistematizam esse processo da seguinte forma: 
Artigo  +  deverbal  +  complemento  nominal,  especificando  a  identidade  de  um 
complemento: A publicação desta obra. 
No Excerto 3, o A2 (de pacientes) é recuperável por se constituir em informação 
dada,  anteriormente  apresentada  no  fluxo  textual.  Além  disso,  a  presença  de  um 
pronome demonstrativo, nesse caso ‘essas’, como apontam Apothéloz e Chanet (2013), 
determina  um  substantivo  predicador  que  designa  um  processo.  Nesses  casos,  esses 
pronomes tendem a ser sobreinterpretados e a absorver os valores dos complementos do 
nome deverbal, sendo capazes de saturar seus lugares sintáticos no processo designado. 
Os  autores  também  observam  que  os  artigos  definidos,  presentes  nos  deverbais 
geralmente  retomam  a  base  do  verbo  e  podem  vir  acompanhados  de  outros 
complementos. A sistematização desse processo seria essa: 
Esse + substantivo predicador (essa publicação) 
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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Excerto 3 
Para  um  desmame  ventilatório  os  pacientes  são  avaliados  sobre  suas 
capacidades  para  respirar  espontaneamente.  Em  muitas  unidades  de  terapia 
intensiva  essas  avaliações  são  consideradas  na  decisão  sobre  o  sucesso  e 
insucesso das tentativas.  
(Fragmento de texto da área de Saúde) 
Nos casos em que o A2 do verbo input não estava expresso, a recuperação desse 
elemento  informacional  pode  ser  feita  por  meio  do  fluxo  textual,  especialmente  por 
processos de inferência, como ocorre nos excertos 3 e 4, em que a informação inferida 
pode ser contextualmente. 
Houve maior índice de não expressão do argumento do tipo A1 (sujeito do verbo 
input),  que  podia  ser  facilmente  recuperado  pelo  contexto  textual  e  extralinguístico, 
como ocorre com o A1 do verbo input de avaliação (pelos pesquisadores) e construção 
(pelos músicos), nos excertos 4 e 5. 
Excerto 4 
Quanto aos testes de campo sem a utilização de instrumentação eletrônica, a 
quantidade  de  área  demandada  para  a  sua  realização  e  avaliação  de 
desempenho dos equipamentos é muito grande, o que dificulta a obtenção 
dos dados e exige a necessidade de realização de muitas repetições.  
(Trecho retirado de artigo da área de Ciências Agrárias) 
 
Excerto 5    
Para  que  haja  uma  representação  precisa,  são  necessários  aparatos  técnicos 
específicos.  Ptolomeu  propõe  a  construção  de  alguns  deles.  Na  sua 
Harmônica,  seis  são  os  capítulos  dedicados  a  descrições  detalhadas  de  suas 
elaborações,  tanto  do  ponto  de  vista  de  suas  propriedades  quanto  de 
seu design.  (Trecho  de  texto  retirado  da  área  de  Música)
Como 
normalmente um dos argumentos das nominalizações não está expresso – no caso deste 
estudo,  o  A1  –  sua recuperação  exige  o  acionamento  do  conhecimento  linguístico,  de 
mundo e específico/disciplinar por parte do leitor. Isso pode ser observado no Excerto 4, 
em que o A1 do verbo input de ‘avaliação’ não está expresso. 
Ainda, a presença do artigo, conforme Apothéloz e Chanet (2013) indica que o 
verbo-base já foi mencionado previamente no texto, ou tem seu sentido compartilhado 
com o leitor de alguma forma, como ocorre nos excertos, 4 e 5, por exemplo 
No  Excerto  6,  o  termo  relações  não  apresenta  A2/  A3,  que  são  igualmente 
recuperáveis  por  meio  do  fluxo  informacional  do  texto  (parcerias  entre  organizações 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3281 
público-privadas,  colaborações  interorganizacionais  e  alianças  entre  empresas  e 
organizações não governamentais). 
Excerto 6 
Os  temas  ambientais  passam  também  a  influenciar  os  modelos  de 
administração  empresarial,  levando  os  movimentos  ambientalistas  e  outros 
movimentos sociais a optar por posturas cooperativas com o setor privado e 
com  o  Estado,  impulsionando,  assim,  as  políticas  de  parcerias  entre 
organizações  público-privadas,  colaborações  interorganizacionais  e  alianças 
entre empresas e organizações não governamentais. Essas novas práticas são 
entendidas como novas relações, baseadas na negociação, na contratualidade 
e na gestão conjunta de programas e atividades.  
(Fragmento de texto da área de Ciências Sociais) 
Nos  textos  acadêmicos  aqui  analisados  houve  uma  maior  expressão  dos 
argumentos  normalmente  vinculados  a  elementos  manipuláveis  do  fluxo  pragmático-
discursivo, e frequentemente ligados à função de A2 (objeto direto do verbo input). Na 
posição de A1 (sujeito d verbo input) o grau de expressão argumental foi bastante baixo. 
Além  disso,  as  nominalizações  deverbais  foram  utilizadas  como  um  tipo  de 
‘empacotamento  sintático’,  selecionado  para  reinterpretar  o  estado  de  coisas,  como 
tende  a  ocorrer  no  texto  acadêmico,  resultando  em  maior  complexidade  cognitiva  ou 
conceptual,  já  que  a  predicação  parte  de  um  estado  de  coisas  existente.  A  seguir, 
passaremos  à  discussão  dos  resultados  desse  estudo,  baseados  na  visão  cognitivo-
funcional da linguagem. 
Camacho  (2007)  considera  que  os  nomes  deverbais  não  são  nem  nomes,  nem 
verbos  prototípicos,  defendendo  a  hipótese  de  que,  quanto  mais  eles  preservarem  a 
estrutura argumental, mais próximos eles estarão da referência a um estado de coisas e, 
portanto,  mais  distantes  da  nominalidade  prototípica.  Juntamente  com  esse  autor, 
defendemos  neste  trabalho  a  ideia  de  que  os  nomes  deverbais  preservam  a  estrutura 
verbal do predicado correspondente, pois, em determinados contextos de ocorrência, há 
razões funcionais para considerar que os argumentos podem estar expressos por anáfora 
zero,  retomando  termos  presentes  ou  não  na  oração  matriz,  os  quais  se  configuram 
como argumentos do nome. 
Neste  estudo,  assim  como  em  De  Bona  (2014),  quando  a  manutenção  de 
argumentos  não  parece  se  efetivar,  geralmente  temos  presente  um  pronome 
demonstrativo que é desencadeador de um complexo processo anafórico na língua, pois 
ele absorve e satura os complementos (APOTHÉLOZ e , 2013). Por fim, assim como 


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3282 
em De Bona (2014) é importante salientarmos que esse processo variado de manutenção 
dos argumentos é motivado de modo discursivo/pragmático, levando em consideração a 
eficiência  comunicativa  em  termos  de  relevância  e  economia,  gerando  um  novo 
‘empacotamento’  morfossintático,  menos  congruente,  que  Halliday  e  Matthiessen 
(2004) reconhecem como um recurso importante na criação de ‘metáforas gramaticais’. 
 
 
Possíveis implicações para o ensino 
 
Recentemente, no Brasil, os pesquisadores da LFCU também se têm preocupado 
com  a  aplicação  de  suas  reflexões  teóricas  para  o  contexto  educacional  (Oliveira  e 
Cezário,  2007;  Furtado  da  Cunha  e  Tavares,  20137),  este  fator,  aliado  à  constante 
expansão  do  ensino  de  português  para  fins  acadêmicos,  também  motiva  algumas 
reflexões acerca do ensino.  
Com  respeito  às  nominalizações  deverbais  em  textos  acadêmicos  do  tipo  X-
ÇÃO,  aqui  analisadas,  parece-nos  importante  chamar a  atenção  dos  aprendizes  para a 
utilização desse recurso, como forma de aumentar sua consciência linguística, tornando-
os  mais  responsivos  às  demandas  do  texto  acadêmico.  Sugere-se,  por  exemplo, 
contrastar  expressões  mais  congruentes  com  outras  mais  metafóricas.  Esse  contraste 
pode  ser  feito,  por  exemplo,  solicitando  ao  aluno  que  reelabore  uma  expressão 
metafórica em termos mais congruentes, como em:
  
A distância de frenagem aumenta em altas velocidades x  
Ao acelerar muito o carro, os freios demoram mais para serem acionados e o 
carro anda uma distância maior antes de parar.  
(tentativa de um aluno universitário, falante nativo de português) 
Pode-se  também  incentivar  a  elaboração  de  formas  nominalizadas  diante  de 
oração congruentes, simples ou complexas:
 
 Aposentados percebem as mudanças na previdência negativamente x.  
 A percepção negativa da previdência social brasileira  
  (tentativa  feita  por  um  aluno  universitário  brasileiro,  falante  nativo  de 
português).
 
Além  dessa  sensibilização  inicial,  as  nominalizações  podem  ser  analisadas  em 
sala de aula do ponto de vista do fluxo informacional no texto, em especial com respeito 
ao  processo  anafórico.  Desse  modo,  os  alunos  podem  ser  incentivados  a  indicar  as 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3283 
relações  anafóricas  presentes  nesse  processo,  com  vista  a  uma  melhor  recepção  e 
produção textual no domínio acadêmico. 
Alternativamente,  propomos  também  uma  abordagem  para  as  nominalizações 
voltada para o ensino movido por dados (data driven teaching, Johns, 1991), que poderá 
contribuir  para  um  melhor  entendimento  dos  deverbais  mais  frequentes,  uma  vez  que 
uma  das  principais  características  do  aprendizado  movido  por  dados  é  propiciar  aos 
alunos  a  manipulação  de  amostras  reais  da  língua  em  uso.  Além  disso,  outro  fator 
comumente  associado  ao  aprendizado  movido  por  dados  é  o  desenvolvimento  da 
autonomia do aprendiz. O contato deste com exemplos linguísticos reais desenvolve a 
capacidade do aluno de refletir sobre conceitos já estudados. 
Atividades com de linhas de concordância, contendo nominalizações, podem ser 
utilizadas em sala de aula como exercícios de cunho prático. Tomemos como exemplo a 
palavra relação, bastante frequente no corpus aqui analisado. 

 Concordance 

a correlação de Pearson para verificar a relação do estágio de mudança de compor 

a reta ajustada pelo modelo indica que a relação entre o indicador e o tempo é d 

empo é decrescente; em caso contrário, a relação é crescente. O valor do coefici 

abalho publicado no Brasil que explora a relação entre o aspecto étnico-racial e 

 ganhar peso. São desordens que afetam a relação dos indivíduos com o alimento,  

o desenvolvimento desses transtornos é a relação com o corpo e a preocupação com 

ade importante. Vários estudos relatam a relação entre comportamentos depressivo 

ça/cor são necessárias para avaliar essa relação. A frequência de 34,0% de preoc 
po-brasileiras11. O que parece claro é a relação entre insatisfação corporal e d 
 
A análise dessas linhas de concordância, conduzida em uma aula no laboratório 
de  informática,  pode  ser  procedida  solicitando-se  ao  aluno  que  procure,  no  corpus,  o 
contexto ampliado das linhas de concordância selecionadas. Após isso, ele pode indicar 
os  elementos  que  compõem  a  estrutura  argumental  do  verbo  input,  nesse  caso, 
‘relacionar’.  Na  primeira  linha  de  concordância,  por  exemplo,  teríamos  o  seguinte 
contexto ampliado: 
Os  critérios  propostos  por  Landis  &  Koch  25  foram  adotados  para  a 
interpretação do grau de concordância: (a) quase perfeita: 0,80 a 1,00; (b) substancial: 
0,60 a 0,80; (c) moderada:  
0,40  a  0,60;  d)  regular:  0,20  a  0,40;  (d)  discreta:  zero  a  0,20.  Por  fim,  foi 
utilizada  a  correlação  de  Pearson  para  verificar  a  relação  do  estágio  de 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3284 
mudança  de  comportamento  com  os  construtos,  adotando  um  valor  de  p  < 
0,05. 
(Texto da Área de Saúde) 
Ao  analisar  o  contexto  ampliado  da  primeira  linha  de  concordância,  o  aluno 
pode ser motivado a reescrever o trecho, determinando os argumentos não explícitos do 
verbo ‘input’ (relacionar). Ele produziria, então, algo como: o estágio de mudança de 
comportamento  se  relaciona  com  os  construtos.  Os  pesquisadores  verificaram  como 
isso  ocorre,  usando  a  correlação  de Pearson.    Da forma  aqui  proposta,  a  abordagem 
DDL é mais eficaz quando o mesmo conteúdo disciplinar é compartilhado por todo o 
grupo de alunos, pois o conhecimento do tema é importante para o entendimento pleno 
das nominalizações em foco. 
Finalmente,  os  resultados  encontrados  neste  estudo  podem  ser  refinados  por 
outros  pesquisadores  para  melhorar  o  entendimento  sobre  as  relações  sintático-
semânticas dos deverbais em textos acadêmicos, bem como para chamara atenção para a 
necessidade de criar uma nova centralidade no ensino de português acadêmico, baseada 
na observação de dados de língua em uso.  
 
 
 
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De volta ao futuro da língua portuguesa.  
Simpósio 22 - Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa, 3287-3300 
ISBN 978-88-8305-127-2 
DOI 10.1285/i9788883051272p3287 
http://siba-ese.unisalento.it, © 2017 Università del Salento 
 
 
 
3287 
A REVISÃO DE TEXTOS COMO MEDIADORA DO PROCESSO DE 
CONSTRUÇÃO DO SENTIDO 
 
 
Maria Aparecida Cardoso SANTOS
31
 
 
 
RESUMO 
O  presente  trabalho  tem  por  escopo  apresentar  o  trabalho  do  revisor  de  textos 
acadêmico-científicos  à  luz  de  alguns  pressupostos  da  Teoria  da  Comunicação  e  da 
Linguística  Textual.  Partindo  de  conceitos  como  emissor,  receptor,  canal,  mensagem, 
código,  ruído,  texto,  textualidade,  contexto,  intencionalidade  e  aceitabilidade, 
apresentamos  o  trabalho  de  revisão  de  texto  como  um  trabalho  de  mediação  entre  o 
autor e o leitor visando à produção do sentido que consiste na elaboração de um texto 
claro  e  eficiente  do  ponto  de  vista  da  comunicação  no  processo  de  interação  que  se 
estabelece entre aquele que escreve o texto e aquele que vai lê-lo. 
 
 
PALAVRAS-CHAVE: Teoria da Comunicação. Linguística Textual. Sentido. Revisão 
Textual. 
 
 
Introdução 
 
Propomos,  no  presente  trabalho,  uma  breve  reflexão  sobre  a  importância  e  as 
atribuições  do  revisor  de  textos  no  que  concerne  à  construção  do  sentido  pretendido 
pelo autor.  
Convém,  todavia,  anunciar  desde  já  que  ao  falar  de  revisor  e  de  autor,  nos 
referimos ao revisor e ao autor de textos acadêmicos, isto é, fazemos referência àquele 
texto  cuja  circulação  encontra-se  circunscrita  ao  âmbito  da  universidade  e  cuja 
especificidade é a divulgação de todos os processos que envolvem a pesquisa acadêmica 
em qualquer área do conhecimento. 
                                                 
31 UERJ – Instituto de Letras – Departamento de Letras Neolatinas/ FSB-RJ – Faculdade de Filosofia. 
Membro do Grupo de Pesquisa Semiótica, Leitura e Produção de Textos - SELEPROT (CNPq). Membro 
do Grupo de Pesquisa Italianística (CNPq). Revisora de Textos. Editora-chefe da Revista Italiano UERJ. 
Endereço para correspondência: Rua Garcia Redondo, 84 Bloco 2 aptº 702 -  Cachambi – Cep:20.775-170 
– Rio de Janeiro / RJ -  Brasil. E-mail: aparecida.cardoso@yahoo.it 
Atas do 
96,0(/36Lmpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3288 
Nossa escolha parte da observação de que, muito embora hoje em dia exista já 
uma certa quantidade de trabalhos voltados para a revisão de textos, de um modo geral, 
esses  trabalhos  ainda  se  concentram  nos  textos  produzidos  em  sala  de  aula  e  na 
interação  que  o  processo  de  revisão  pode  estabelecer  entre  o  professor  e  o  aluno
32

Alguns  outros  trabalhos  questionam  o  fato  de  a  legislação  permitir  o  monopólio  do 
jornalismo no trabalho de revisão de texto (ROCHA, 2012) ou a relação entre a leitura e 
a  revisão  de  textos  no  que  concerne  à  detecção  de  erros  (MAGALHÃES  e  LEITE, 
2014). Poucos tratam desse processo aplicado ao texto acadêmico, também chamado de 
científico, e quando o fazem abordam o processo pelo viés específico da revisão aberta 
em  processo  de  editoração  colaborativa  tendo  como  base  o  surgimento  da  web  2.0 
(TEIXEIRA e OLIVEIRA, 2011) ou da importância da revisão cega por pares (COTÉ, 
2014).  
Convém ainda esclarecer que nosso embasamento teórico se assenta em parte na 
linguística textual e em parte na teoria da comunicação (doravante indicadas pelas siglas 
LT  e  TC)  pelo  fato  de  que  essas  duas  áreas  do  conhecimento  estão  diretamente 
vinculadas  a  dois  processos  relacionados  à  produção  acadêmica,  a  saber:  a  escrita  de 
uma mensagem (nesse caso o texto acadêmico) e a comunicação dessa mensagem a um 
determinado público. 
Por fim, ao abordarmos  aquilo que chamamos de o papel do revisor de textos, 
pretendemos tecer algumas considerações de natureza prática a respeito da atividade de 
revisão textual e apontar características que julgamos fundamental destacar, qual seja: o 
fato  de  o  revisor  de  textos  atuar  como  uma  espécie  de  mediador  entre  o  autor  (ou 
emissor, ou enunciador), e o seu público leitor, o receptor do texto acadêmico. 
 
 
Teoria da comunicação, linguística textual e revisão de textos  
 
1. Teoria da comunicação: princípios essenciais 
 
O  objetivo  de  toda  comunicação  é  a  transmissão  de  uma  mensagem.  Para  que 
essa transmissão ocorra, é necessária a presença de alguns elementos, a saber:  
                                                 
32 Uma rápida pesquisa no portal de periódicos da CAPES corrobora essa afirmação.  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3289 
 
Emissor:  também  chamado  de  destinador,  é  aquele  que  emite  a 
mensagem,  aquele  do  qual  parte  a  comunicação.  No  caso  específico  da  produção 
textual, é o autor do texto. 
 
Receptor:  também  chamado  de  destinatário,  é  aquele  que  recebe  a 
mensagem, podendo ou não compreendê-la. No contexto em tela do presente trabalho, o 
receptor é o leitor. 
 
Mensagem:  é  o  conteúdo  do  texto,  ou  de  qualquer  outro  tipo  de 
informação. 
 
Canal: o meio através do qual a mensagem circula. No caso específico 
do  assunto  abordado  aqui,  assumimos  como  canal  o  livro  ou  revista  –  meio  gráfico, 
virtual ou impresso – em que o texto é publicado.                                        
 
Código: “é um conjunto de signos e regras de combinação destes signos; 
o  destinador  lança  mão  dele  para  elaborar  sua  mensagem  (esta  é  a  operação  de 
codificação).  O  destinatário  identificará  este  sistema  de  signos  (operação  de 
decodificação)  se  seu  repertório  for  comum  ao  do  emissor”  (Vanoye,  1983,  p.  16). 
Cumpre lembrar que o código possui uma função ordenadora que consiste em limitar a 
possibilidade  de  escolhas  dentro  de  um  repertório,  diminuindo,  consequentemente,  o 
grau  de  entropia  de  um  sistema  comunicacional.  Em  outras  palavras,  quanto  maior  o 
número  de  possibilidades  de  escolha  para  informar  alguma  coisa  a  alguém,  maior  a 
probabilidade  de  ocorrer  um  certo  tipo  de  caos  ou  entropia,  no  que  concerne  ao 
ordenamento  das  ideias  e,  assim,  maior  a  dificuldade  de  comunicação.  Enquanto 
elemento  limitador,  o  código  atua  no  sentido  de  ordenar  os  paradigmas  de  escolha 
fazendo  com  que  a  comunicação  aconteça  de  modo  eficaz.  De  uma  maneira  simples, 
pode-se dizer o seguinte: o autor tem a possibilidade de escrever em várias línguas, mas 
deve  fazê-lo  utilizando-se  do  mesmo  código  linguístico  do  seu  leitor,  pois  de  nada 
adianta escrever em francês para um público ledor do italiano, por exemplo. Além disso, 
é preciso ter em mente que o seu discurso deve estar adequado ao público-alvo inclusive 
no que concerne ao conhecimento e ao uso dos jargões. 
  Referente: é o contexto e a situação aos quais a mensagem faz referência. 
Ainda segundo Vanoye (1983, p.18), existem dois tipos de referentes, a saber: 
–  o  referente  situacional,  constituído  pelos  elementos  da  situação  do 
emissor e do receptor e pelas circunstâncias de transmissão da mensagem. 
Assim  é  que  quando  uma  professora  dá  a  seguinte  ordem  a  seus  alunos: 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3290 
‘coloquem o lápis sobre a carteira’, sua mensagem remete a uma situação 
espacial, temporal e a objetos reais. 
–  o referente textual, constituído pelos elementos do contexto linguístico.  
No  caso  do  texto  técnico-científico,  é  possível  afirmar  que  este  tipo  de  texto 
tanto  possui  um  referente  textual,  isto  é,  centrado  no  texto  em  si,  sem  nenhuma 
referência explícita à situação na qual se encontram o emissor/autor e o receptor/leitor, 
quanto um referencial situacional. 
Como  todo  esse  esquema  voltado  à  explicação  do  processo  de  comunicação 
envolve o conceito de informação, é preciso que se diga que a informação “é a medida 
de uma possibilidade de escolha na seleção de uma mensagem (...). [Ela] representa a 
liberdade de escolha que se tem ao construir uma mensagem” (ECO, 1976, p. 13).   
Essa  liberdade  de  escolha  relaciona-se,  de  algum  modo,  à  intenção  de 
convencimento do destinatário presente também neste tipo de produção textual uma vez 
que,  partindo  do  que  postula  Berlo  (1999),  existe  uma  intenção  persuasiva  em  todo 
processo comunicativo. Em outras palavras, assim como o objetivo da comunicação é 
persuadir, convencer, convocando alguém a compartilhar, ou no mínimo, aceitar nosso 
ponto de vista a respeito de algo, também o autor de textos acadêmicos pretende, por 
meio  de  seus  textos,  obter  a  aceitação  de  seus  pares  a  respeito  da  pertinência  e  da 
validade de seus argumentos. 
Com efeito, todo autor que aceita enviar artigos a uma revista especializada está 
convicto da relevância de suas ideias e as expõe, a fim de que outros venham a partilhar 
do seu ponto de vista. Isto ocorre porque todos “nós nos comunicamos para influenciar 
– para influenciar com intenção” (BERLO, 1999, p. 12). Tal intencionalidade é a um só 
tempo  o  objetivo  e  o  mecanismo  que  engendra  o  ato  comunicativo.  Desse  modo,  a 
questão  de  que  a  comunicação  possui  um  objetivo,  uma  intenção  fica  claramente 
estabelecida. 
O mecanismo que envolve tanto o interesse de divulgação quanto a necessidade 
de persuasão se estrutura a partir de esquemas comunicativos amplamente analisados e 
discutidos  por  pesquisadores  e  autores  como  Claude  Shannon,  William  Weaver, 
Umberto Eco e Eduardo Neiva.  
Neiva (1991) destaca em seus estudos o modelo comunicacional de Shannon e 
Weaver: dois engenheiros de telecomunicações e pesquisadores cujos trabalhos tinham 
por  escopo  elaborar  um  modelo  intelectual  que  fosse  capaz  de  explicar  a  transmissão 
correta e precisa das mensagens. É ainda Neiva que aponta para o modelo proposto por 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3291 
Eco,  cuja  formulação  seria  mais  adequada  à  comunicação  humana,  por  levar  em 
consideração alguns aspectos que não podem e não devem ser deixados de lado quando 
se trata desse tipo de comunicação. Tais aspectos, afirma Neiva (1991, p. 89), permitem 
a  percepção  de  que  “a  transmissão  e  a  recepção  de  mensagens  tornam-se  mais 
complexas,  especialmente  porque  a  ambiguidade,  a  imprecisão,  as  pressuposições,  a 
qualidade de ser vago não estão ausentes do processo: podem ser até conscientemente 
usados para propósito de engano, manipulação e encobrimento”.  
No modelo Shannon-Weaver, considera-se a existência dos seguintes elementos: 
fonte de informação, transmissão, canal, receptor, destino. No canal, estaria a fonte do 
ruído que perturba a comunicação. Já o modelo proposto por Eco organiza-se em torno 
dos  seguintes  itens:  emitente,  mensagem  codificada,  canal,  mensagem  como  fonte  de 
informação  e/ou  de  expressão,  destinatário,  texto  interpretado.  Mesclando-se  os  dois 
esquemas,  é  possível  estabelecer  o  seguinte  plano  de  equivalência  centrado  em  um 
modelo mais genérico: a fonte de informação e o emitente correspondem ao emissor ou 
codificador;  o  canal  –  presente  nos  dois  esquemas  -  é  o  meio  pelo  se  transmite  a 
mensagem; o receptor equivale ao destinatário, que é aquele que recebe a mensagem e 
desempenha a função de decodificá-la.  
A  distinção  entre  os  dois  esquemas  em  foco  se  estabelece  da  seguinte  forma: 
enquanto  Shannon  e  Weaver  incluem  os  conceitos  de  transmissão  e  destino  que 
representam,  respectivamente,  o  início  da  atividade  comunicativa  e  o  local  aonde  a 
mensagem  deverá  chegar  e  que  não  se  confunde  necessariamente  com  o  ser  humano, 
Eco  acrescenta  os  conceitos  de  mensagem  codificada,  mensagem  como  fonte  de 
informação  ou  interpretação  e  texto  interpretado,  o  que  torna  seu  esquema  mais 
adaptado à comunicação humana que contêm as ideias de contexto, de circunstância e 
de  conteúdo.  Ambos  os  esquemas,  entretanto,  consideram  o  pressuposto  básico  da 
codificação,  do  canal  e  da  decodificação  como  elementos  primordiais  ao  propósito 
comunicativo.  
A respeito do canal, sabe-se, conforme dito anteriormente, que ele também pode 
ser  fonte  de  ruído.  Desse  modo,  convém  ressaltar  que  ruído  é  tudo  o  que  dificulta  a 
comunicação  eficaz  de  uma  mensagem.  No  caso  de  uma  transmissão  radiofônica,  o 
ruído pode ser um chiado oriundo da má sintonia que dificulta a audição e, portanto, a 
compreensão da mensagem. No caso do texto escrito, esse ruído pode ser provocado por 
diversos fatores como: a escolha inadequada dos itens léxicos, a existência de períodos 
muito longos, de concordâncias inadequadas, de traduções mal feitas, ou, ainda, da falta 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3292 
de conhecimento – por parte do receptor ou destinatário – dos códigos e do contexto que 
perpassam  a  composição  da  mensagem.  Como  exemplo  desse  ruído  textual  podemos 
imaginar  um  contexto  em  que  um  leitor  brasileiro,  que  não  leia  em  nenhuma  outra 
língua  além  do  português,  veja-se  diante  de  uma  citação  em  língua  diferente  do 
português.  Nesse  caso,  o  desconhecimento  da  língua  estrangeira  pode  dificultar  a 
compreensão da mensagem impedindo que a comunicação se complete.  Outro tipo de 
ruído  textual  pode  ser  verificado  quando  o  leitor  desconhece  o  contexto  e  a 
circunstância em que o texto foi produzido.  
A  esse  respeito,  Eco  (1991,  p.  127)  observa  que  contexto  e  circunstância 
dinamizam  a  compreensão  do  papel  desempenhado  pelo  código  na  comunicação  uma 
vez que  
o  cruzamento  das  circunstâncias  e  das  pressuposições  entrelaça-se  com  o 
cruzamento  dos  códigos  e  dos  subcódigos,  fazendo  de  cada  mensagem  ou 
texto  uma forma vazia a que se podem atribuir vários  sentidos possíveis. A 
mesma  multiplicidade dos códigos e a indefinida variedade dos contextos e 
das circunstâncias faz com que a mesma mensagem possa ser decodificada de 
diversos pontos de vista e com referência a diversos sistemas de convenções. 
A  denotação  de  base  pode  ser  entendida  como  o  emitente  queria  que  fosse 
entendida,  mas  as  conotações  mudam  simplesmente  porque  o  destinatário 
segue percursos de leitura diversos dos previstos pelo emitente.  
Em outras palavras, a mensagem é o que o seu autor quer dizer mais o que o seu 
receptor  compreender.  Desta  forma,  desconsiderar  a  atuação  do  contexto  implica 
ignorar o uso tentando situar a dinâmica comunicativa em um espaço de regras estáticas.  
Cumpre  ainda  destacar  que,  embora  não  estando  presente  nos  dois  esquemas 
apresentados  anteriormente,  é  necessário  que  se  inclua  no  processo  comunicativo  o 
conceito de  código que,  por sua vez, evoca a ideia de sistema. De  acordo com Neiva 
(1991, p. 86 ss), o código é 
um sistema de regras que discrimina os elementos do sistema, estabelece as 
correspondências  formadoras  dos  significados  dos  termos  e  prevê  que 
respostas  prováveis  teremos  quando  da  emissão  da  mensagem  (...).  As 
mensagens,  regidas  por  códigos,  comunicam  informações.  O  código  é 
condição  de qualquer ato  comunicativo que,  sempre, pressupõe dois termos 
(...).  De  um  lado,  aquele  que  quer  transmitir  a  mensagem  coloca-a  num 
código, enquanto quem a recebe decodifica-a. 
Sabatini (1994, p.28) apresenta o código como sendo 
O  acordo  em  cuja  base  se  estabelecem  os  significados  dos  diversos  sinais 
(...); essa palavra significa exatamente ‘acordo, convenção, regra estabelecida 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3293 
por  alguém’.  Estas  regras,  estabelecidas  pelos  homens  a  fim  de 
compreenderem-se,  são  respeitadas;  podem,  certamente,  ser  modificadas, 
mas,  nesse  caso,  serão  necessárias  novas  regras  a  fim  de  que  não  se 
comprometa  a  compreensão.  Toda  linguagem  que  realmente  funcione  deve 
estar fundamentada sobre um código, isto é, um conjunto de regras (...)
33

No  que  concerne  especificamente  ao  uso  da  linguagem,  que  é  um  código, 
convém  observar que,  não  obstante  tenhamos,  por  exemplo,  a  gramática  para  orientar 
quanto  a  certos  aspectos  estruturais  de  uma  língua,  o  uso  pode  determinar  e  até 
consagrar uma variação ao que preconiza a norma, ou seja, norma e possibilidades de 
uso  devem  ser  consideradas  não  apenas  durante  a  produção  de  um  texto,  bem  como 
durante a revisão. Assim, o revisor deve estar atento aos objetivos do autor, ao uso do 
código e à presença de possíveis ruídos. 
Interessa-nos, portanto, a partir desse momento, abordar alguns princípios da LT 
a fim de, posteriormente, apresentar algumas considerações sobre o processo de revisão 
textual, destacando a atenção que o revisor deve ter com algumas questões com as quais 
irá  se  deparar,  a  saber,  a  intenção  comunicativa,  o  contexto  e  as  circunstâncias  da 
produção do texto a ser revisado.  Em outras palavras, ao se encontrar diante do texto 
que  lhe  cai  em  mãos  para  revisar,  o  revisor  lidará  não  apenas  com  letras,  palavras  e 
frases, mas com problemas relevantes que o conduzirão a indagações-chave como: que 
texto é aquele, a quem se destina, qual o seu objetivo, de que estruturas o autor lança 
mão para apresentar seus argumentos, e se, do ponto de vista de alguns pressupostos da 
LT, ele está aceitável, coerente, coeso e claro. 
 
 
2. Linguística textual: identificando alguns conceitos fundamentais 
 
Como toda ciência que cuida da comunicação humana e dos meios pelos quais 
ela se estabelece, a LT está em constante diálogo com a TC e também com a análise do 
discurso  (AD)  e  cada  uma  delas  tem  contribuições  muito  importantes  no  que  diz 
respeito  ao  trabalho  com  o  texto  em  quaisquer  das  formas  como  ele  se  apresente. 
                                                 
33 l’accordo in base al quale si stabiliscono i significati dei diversi segnali (...); questa parola significa 
proprio  ‘accordo,  convenzione,  regola  stabilita  da  qualcuno’.  Queste  regole,  stabilite  dagli  uomini  per 
capirsi, vanno rispettate; si possono certamente cambiare, ma allora, bisogna stabilire delle nuove [regole] 
altrimenti viene a mancare la comprensione. Ogni linguaggio che veramente funzione deve essere fondato 
su un codice, cioè una serie di regole (...).  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3294 
Todavia, aquilo que mais nos interessa nesse momento é partir dos conceitos mais caros 
à  LT  naquilo  que  concerne  ao  texto  e  à  textualidade,  a  saber,  de  coesão,  coerência, 
fatores pragmáticos e sentido. 
No  presente  trabalho,  entretanto,  limitaremos  nossas  considerações  apenas  aos 
conceitos de texto, textualidade, contexto, intencionalidade e aceitabilidade, visando a 
demonstrar sua importância para o revisor. O trabalho de revisão não se limita apenas a 
buscar  problemas  que  podem  ser  resolvidos  com  uma  rápida  consulta  à  gramática 
normativa, ao dicionário ou ao vocabulário ortográfico, mas se estende à necessidade de 
identificar e tentar reelaborar trechos do texto que dificultam a compreensão. 
Gostaríamos  de  deixar  claro  desde  já  que  não  temos  a  intenção  de  contrapor 
teorias,  porque  nosso  interesse  consiste  em  apresentar  um  cabedal  teórico  importante 
que  seja  útil  ao  revisor  de  textos.  A  atividade  de  revisão  tem  sido  realizado  por 
“curiosos” que partem de uma premissa falsa de que basta conhecer uns poucos pontos 
de gramática  para que se possa proceder à revisão de textos. Tampouco intencionamos 
fazer críticas à gramática cujo conhecimento não pode ser dispensado. Queremos, antes, 
estabelecer que o trabalho de revisar textos implica compreender que o texto é um meio 
de  comunicação  que  envolve  os  processos  de  emissão,  recepção,  codificação  e 
decodificação,  cujo  resultado  é  a  compreensão.  Sem  estes,  a  concepção  de  texto  não 
ultrapassa  o  limite  da  frase,  portanto  não  atinge  o  que  Val  (1997,  p.3)  chama  de 
textualidade  e  define  como  “conjunto  de características  que  fazem  com  que  um  texto 
seja  um  texto,  e  não  apenas  uma  sequência  de  frases”.  A  concepção  de  texto  e  de 
textualidade  apresentada  por  Val  encontra  eco  em  outros  autores  que  tomam  o  texto 
como seu objeto de análise ou de definição. 
Para  Matthews  (1997,  p.  376),  por  exemplo,  o  sentido  de  texto  foi  ampliado 
pelos linguistas no sentido de cobrir uma extensão coerente da fala e da escrita.  
Barros (1994) apresenta o texto como o elemento que estabelece a comunicação 
entre  dois  sujeitos  e  identifica  o  seu  lugar  como  sendo  aquele  dos  objetos  culturais 
presentes em uma sociedade de classes  com formações ideológicas  específicas.  Nesse 
sentido, o texto não pode ser dissociado de certo contexto sociohistórico que o envolve 
e que é fundamental para a compreensão do seu sentido. 
Fávero e Koch (1988) também destacam o papel do contexto situacional para a 
compreensão do texto de modo que se torna possível compreender que o contexto, é um 
dos fatores preponderantes no estabelecimento da coerência e, portanto, do sentido do 
texto.  


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Outros  autores  como  Lyons  (1995)  e  Carter  (1996)  também  tratam  da 
importância  do  contexto  na  produção  do  texto  cujo  conteúdo  será  compreendido  de 
maneira  mais  eficiente  se  o  autor  e  o  leitor  compartilharem  visões  e  experiências  de 
mundo minimamente próximas.  
Fica  claro,  pois,  que  textualidade  e  contexto  são  elementos  fundamentais  para 
que o texto, além de ser produzido, possa circular e cumprir sua proposta comunicativa.  
Conhecer o contexto de produção e circulação de um texto é, portanto, um dado 
essencial  para  a  sua  aceitação  dentro  daquilo  que  Beaugrande  e  Dressler  (1994) 
chamaram de aceitabilidade ao discutirem os fatores pragmáticos do texto. 
Ao analisarem as condições de textualidade, Beaugrande  e Dressler enumeram 
cinco  fatores  com  sendo  importantes  partícipes  no  processo  de  construção  textual,  a 
saber: 
intencionalidade, 
aceitabilidade, 
situacionalidade, 
informatividade 

intertextualidade. Todos esses elementos estão relacionados entre si e não se pode dizer 
que haja um que seja mais importante do que o outro. Todavia, conforme anunciamos 
anteriormente, tomaremos apenas os dois primeiros – intencionalidade e aceitabilidade 
–  e  sua  importância  na  elaboração  dos  textos  acadêmico-científicos  para,  finalmente, 
abordarmos o papel do revisor de textos.  
A  intencionalidade  se  relaciona  ao  interesse  que  o  autor  tem  em  produzir  um 
texto coeso, coerente e capaz de atingir seus objetivos comunicativos na veiculação de 
uma determinada mensagem. O objetivo varia conforme o texto que se produz. No caso 
do  texto  acadêmico-científico,  o  objetivo  é  aquele  de  produzir  e  fazer  circular  o 
conhecimento em uma determinada área de conhecimento por meio da apresentação de 
resultados parciais ou finais de pesquisas, por exemplo.  
A  aceitabilidade,  por  sua  vez,  diz  respeito  à  postura  que  o  recebedor  do  texto 
tem considerando-se suas expectativas em relação à clareza e a coerência da mensagem. 
Em  outras  palavras,  o  leitor  do  texto  acadêmico-científico  busca,  segundo  seus 
interesses, ampliar ou aprimorar seus conhecimentos em uma determinada área com o 
objetivo de embasar sua prática profissional ou de desenvolver sua pesquisa. 
Postulamos  que  intencionalidade  e  aceitabilidade  são  duas  faces  da  mesma 
moeda uma vez que entre o autor e o leitor será estabelecida uma espécie de acordo de 
cooperação  por  meio  do  qual  a  intenção  do  autor  será  sancionada  pela  aceitação  do 
leitor.  No  momento  em  que esse  acordo  se estabelece,  o  leitor  passa  a  dar  crédito  ao 
texto do autor cooperando com ele na atribuição de sentido por meio de justificativas de 
intencionalidade.  Compreender  essa  dinâmica  é  fundamental  para  o  revisor  de  texto 


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uma vez que esse tipo de cumplicidade estabelecido entre o autor e o leitor faz com que 
seja necessário ter cuidado para evitar afirmações categóricas sobre falta de sentido. 
O  revisor  deve  ter  sensibilidade  para  realizar  seu  trabalho  sem  interferir  na 
intenção  que  o  autor  supostamente  teve  visando  a  um  público-alvo  específico.  Essa 
sensibilidade deverá conduzi-lo ao discernimento não sobre o que fazer, mas, sobretudo 
o que não fazer, quando não fazer e por que motivo não fazer, visando a certo grau de 
excelência como medida para o seu trabalho. 
 
 
3. O Revisor de textos: do autor ao leitor, um trabalho de mediação 
 
No seu trabalho com textos, é preciso que se diga que o revisor não é um crítico, 
um analista, um censor ou um guardião do “bem escrever”. Ele é, antes, um facilitador 
da comunicação entre o emissor e o receptor da mensagem que passa, necessariamente, 
por  um  canal  ou  veículo  que,  no  caso  particular  deste  trabalho,  são  as  revistas  de 
produção acadêmica. Sua função consiste em anotar e apontar os problemas que possam 
comprometer  a  comunicação.  Cabe  ao  revisor,  esse  profissional  dos  bastidores,  ser 
suficientemente equilibrado e sensato para saber reconhecer as variadas modalidades de 
texto  e  o  rigor  que  deve  utilizar  ao  revisar  cada  uma  delas.  Entretanto,  que  esse 
equilíbrio e essa sensatez não se transformem em sinônimo de falta de critério, visto que 
há sempre um mínimo de norma a ser observada. O texto é comunicação e, como tal, 
deve estar o mais que possível livre de elementos “poluidores” que possam provocar a 
entropia  e  o  consequente  ruído  que  dificulta,  ou  mesmo  impede,  a  comunicação.  Ao 
revisor de textos cabe, de acordo com as premissas da teoria da comunicação, eliminar, 
ou ao menos reduzir, a entropia no sentido de evitar um congestionamento do canal que 
seja prejudicial à comunicação que um emissor pretende estabelecer com um receptor. 
O revisor é um sinalizador que aponta sem interferir, sobretudo quando o assunto sai do 
plano linguístico para o campo do conteúdo. Nesse sentido, pode-se dizer que o revisor 
atua como um desobstruidor do canal, liberando-o daquilo que pode provocar entropia 
ou ruído.  
No plano da LT o revisor de textos deverá orientar seu trabalho com cautela para 
a observação dos fatores pragmáticos – especialmente, no caso específico do presente 
trabalho, a intencionalidade e a aceitabilidade - que, ao lado da coesão e da coerência, 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3297 
garantem  legibilidade  ao  texto.  No  que  concerne  mais  especificamente  às  normas 
gramaticais, é preciso que o revisor saiba usá-las em favor do texto e da textualidade. 
Nesse sentido, torna-se importante explicitar que o revisor não possui liberdade 
irrestrita para modificar o texto, uma vez que, independentemente do seu conhecimento 
linguístico  e  da  sua  experiência  profissional,  existe  o  acordo  de  cooperação  de  que 
falamos anteriormente. Revisor e autor devem trabalhar cooperativamente para garantir 
(ou minimizar as dificuldades) de compreensão do texto. Nesse sentido, é fundamental 
que o revisor não caia na tentação de se considerar um especialista em tal ou qual área 
mesmo que o seu trabalho lhe possa facultar o desenvolvimento de ampla cultura. 
Convém ao revisor observar que o texto é um todo que envolve, a um só tempo, 
contexto, intencionalidade e aceitabilidade, além de outros mecanismos garantidores de 
clareza, de legibilidade, de sentido. Cabe, pois, ao revisor atuar auxiliar o autor a atingir 
sua meta de fundamentar/demonstrar uma teoria, um princípio, uma experiência. 
Nesse  sentido,  cabe  a  ele  estar  atento  às  orientações  da  LT  que  visam  a 
identificar  um  texto  como  um  texto;  especialmente  porque  o  texto  científico  deve  ser 
preciso, conciso, objetivo e claro, a fim de comunicar com eficácia desde o andamento 
ou o resultado de uma pesquisa até a criação ou revisão de conceitos teóricos pertinentes 
à área à qual pertence. 
Unindo  a  TC  à  LT,  o  revisor  deverá  fazer  movimentos  constantes,  ora 
colocando-se  no  lugar  do  autor-emissor,  ora  no  lugar  do  leitor-receptor,  cuidando  de 
evitar  excessos  que  prejudiquem  a  comunicação,  burilando  elementos  que 
comprometam a clareza, a coerência e a coesão do texto, e apontando para o excesso de 
informação que quase sempre prejudica a comunicação. Em outras palavras, ao revisor 
caberá  atuar  no  sentido  de  evitar  o  ruído  na  comunicação,  sempre  levando  em 
consideração  o  contexto  da  produção  textual  e  fazendo  com  que  a comunicação  entre 
autor e público-alvo seja eficiente.  
É  nesse  movimento  que  se  encontra  o  seu  trabalho  de  mediação  cujo  objetivo 
último é manter o equilíbrio da tríade autor-contexto-leitor. 
Como  exemplo  do  trabalho  de  mediação,  apresentamos  três  pequenos 
fragmentos em sua forma original. Em cada um dos originais destacamos as partes que 
comprometiam,  de  algum  modo,  a  mensagem  a  ser  comunicada.  Logo  a  seguir 
fornecemos  as  sugestões  de  alteração  oferecidas  aos  autores  e  que,  no  momento  da 
revisão,  foram  as  que  nos  pareceram  mais  adequadas.  Evidentemente,  cada  revisor 
poderia  dar  uma  resposta  diferente  à  questão,  indicando  opções  distintas  de 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3298 
reestruturação.  Contudo,  nosso  objetivo  não  é  discutir  as  inúmeras  possibilidades 
organizacionais existentes, mas tão somente exemplificar concretamente a importância 
da revisão como um trabalho de mediação. Senão vejamos: 
 
Fragmento 1  
Texto sugerido 
Desde tempos imemoriais as montanhas tem sido 
consideradas  o  trono  dos  deuses,  cercadas  em 
mistério  -  especialmente  dos  deuses  e  poderes 
brilhantes  e  celestiais,  a  quem  os  homens 
observavam de abaixo, que miravam aos homens, 
abençoando-os. 
Desde  tempos  imemoriais,  as  montanhas,  cercadas 
de  mistério,  têm  sido  consideradas  o  trono  dos 
deuses,  especialmente  dos  deuses  de  poderes 
brilhantes  e  celestiais,  a  quem  os  homens 
observavam de baixo.Tais  divindades olhavam para 
os homens, abençoando-os. 
 
Fragmento 2  
Texto sugerido 
A  caracterização  dos  mesmos  chega  mesmo  ao 
requinte,  de  identificá-los  em  seus  diferentes 
graus  de  periculosidade,  preço,  características 
físicas dos prostitutos (...). Além disso, o turismo 
oficial  atua  através  de  agências  de  viagens, 
especificamente, 
para 
atender 

grupos 
minoritários,  caso  dos  homossexuais,  que 
procuram  tais  serviços  até  mesmo  no  caso  da 
prostituição, no sentido de obter informações, fato 
já encontrado nas cidades do Rio de Janeiro e São 
Paulo,  sem  falar  nas  revistas  especializadas  que 
apresentam  matérias  e  pequenos  guias  de 
informações. 
Além disso, o turismo oficial, especialmente em São 
Paulo  e    Rio  de  Janeiro,  conta  com  a  atuação  de 
agências  de  viagens  cuja  clientela  é  constituída  por 
grupos  minoritários  (neste  caso  os  homossexuais) 
que, às vezes, buscam informações sobre serviços de 
prostituição  apresentados  em  revistas  ou  pequenos 
guias especializados. 
 
 
Fragmento 3  
Texto sugerido  
Esta  pescaria  inicia  com  um  ritual  mágico,  para 
atrair os peixes, onde pescam com varas na beira 
do  rio  matando  os  que  foram  fisgados.  Em 
seguida  são  assados  na  brasa.  Em  seguida, 
homens  colhem  galhos  para  trançar  um  arrastão. 
Os  peixes  são  forçados  a  cair  na  rede  e  fora  da 
água  são  mortos  com  machados,  tendo  sua  pele 
retirada  na  areia  e  a  carne  cortada  para  ser 
transportado. 
Esta  pescaria  é  iniciada  com  um  ritual  mágico,  no 
qual  os  homens  colhem  galhos  para  trançar  um 
arrastão e pescar os peixes.   Em  seguida, os  peixes 
capturados são mortos com machados e descamados 
ainda na areia. Por fim sua carne é cortada para ser 
transportada. 
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3299 
Conclusão 
 
Buscamos nesse trabalho apresentar o trabalho do revisor de textos acadêmico-
científicos. A meta é aperfeiçoar a estruturação textual para favorecer a construção do 
sentido. Buscou-se a orientação de alguns pressupostos da TC e da LT, centrando-nos 
no fato de que a relação estabelecida entre o revisor e o texto acadêmico é um campo 
ainda pouco explorado. Com efeito, em breves pesquisas feitas no portal de periódicos 
da CAPES ou no site do Banco de Dissertações e Teses, deparamo-nos muito mais com 
estudos voltados para a análise de textos escolares dos ensinos Fundamental e Médio.  
Do  ponto  de  vista  da  TC,  trabalhamos  com  os  conceitos  de  emissor,  receptor, 
mensagem,  canal,  ruído  e  código  para  identificar  problemas  que  comprometem  a 
transmissão  de  uma  mensagem  clara.  Do  ponto  de  vista  da  LT,  centramo-nos  nos 
conceitos de texto, textualidade, contexto, intencionalidade e aceitabilidade para indicar 
alguns dos elementos primordiais ao ato comunicativo.   
Do ponto de vista do revisor, partimos do fato de que a produção textual envolve 
conceitos  que  devem  estar  presentes  tanto  no  ato  de  produção  quanto  no  de  revisão. 
Nesse  sentido,  buscamos  demonstrar  que  o  revisor  não  é  apenas  um  leitor,  mas  o 
mediador  que  busca  adequar  o  pensamento  do  autor  ao  conhecimento  do  mundo  do 
leitor, ora colocando-se no lugar deste, ora no lugar daquele. Tal mediação deverá ser 
realizada com base em conhecimentos teóricos de ordem gramatical e extragramatical a 
fim de unir, quando o autor não o faz, os conceitos mais caros tanto à TC quanto à LT 
viando sempre à construção do sentido que é a finalidade de toda produção textual.  
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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3300 
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Universidade de Brasília, Instituto de Letras, Departamento de Linguística, Português e 
Línguas  Clássicas.  Programa  de  Pós-Graduação  em  Linguística,  Doutorado  em 
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De volta ao futuro da língua portuguesa.  
Simpósio 22 - Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa, 3301-3316 
ISBN 978-88-8305-127-2 
DOI 10.1285/i9788883051272p3301 
http://siba-ese.unisalento.it, © 2017 Università del Salento 
 
 
 
3301 
AS RELAÇÕES SINTÁTICAS NA OBRA DE LYGIA BOJUNGA: 
O FATO LINGUÍSTICO-EXPRESSIVO COMO MOTIVAÇÃO  
PARA O ENSINO DE LÍNGUA MATERNA 
 
 
Maria Teresa Gonçalves PEREIRA
34
 
Darcilia SIMÕES 
 
 
RESUMO 
A presente comunicação baseia-se em pesquisa filiada à linha de pesquisa “Ensino de 
língua  portuguesa:  história,  políticas,  sentido  social,  metodologia  e  pesquisa”.  A meta 
da investigação é aperfeiçoar a prática de ensino dessa língua com a exploração do texto 
literário,  considerado  exemplo  significativo  da  concretização  dos  fenômenos 
linguístico-expressivos que o constituem, atribuindo-lhe os sentidos que o singularizam. 
Elegemos  obras  de  Lygia  Bojunga,  escritora  conceituada  internacionalmente, 
como corpus para tais demonstrações. Objetivamos recortar fatos de ordem sintática que 
contribuem para a expressividade que emana dos textos, conferindo-lhe vigor, sutileza, 
humor e capturando o leitor com os elementos criativos da narrativa. A metodologia é a 
mediação adequada do professor conduzindo o aluno ao ritual iniciático da percepção de 
que, no caso, a sintaxe extrapola conceitos e regras em favor da expressividade. A base 
teórica é a estilística, com ideias de CRESSOT (1980); GUIRAUD (1970); MARTINS 
(1989);  CÂMARA  JR  (1978);  GARCIA  (2002);  etc.  Orientamos  a  discussão  dos 
recursos que moldam, estruturam, articulam e transformam a língua em objeto artístico. 
A  utilização  competente  das  relações  sintáticas  por  Lygia  Bojunga  resulta  em  texto 
literário  de  qualidade, com  um  sabor  que  atende  aos  paladares  mais  exigentes,  sem 
perder  a  coloquialidade  que  o  caracteriza.  O  projeto  visa  a  demonstrar  que  a  língua 
literária reflete a cultura de um país, inserindo o indivíduo na sociedade a que pertence e 
construindo o percurso sócio-histórico e cultural indispensável à plena cidadania. Como 
se trata de um projeto em andamento, os resultados preliminares serão demonstrados no 
exemplário levado à comunicação. 
 
 
PALAVRAS-CHAVE: Língua literária; Relações Sintáticas; Expressividade; Ensino. 
 
 
A  literariedade  de  uma  obra  consiste  na  perícia  do  escritor  em  se  desviar  das 
normas e usos consensuais de uma língua, estabelecendo, assim, novos significados, por 
um novo tratamento do acervo existente ou pela criação de novas formas de expressão. 
                                                 
34 UERJ, Instituto de Letras, Departamento de Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa e Filologia.
 
Rua 
São  Francisco  Xavier,  nº  524,  Pavilhão  João  Lyra  Filho,  11º  andar,  Bloco  F,  sala  11.144,  Bairro 
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Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3302 
Como  pretendemos  focalizar  os  recursos  linguísticos  utilizados  por  Lygia 
Bojunga em seu processo de escritura literária, optamos pelo método estilístico que, a 
nosso ver, é o mais eficaz para abordar o fenômeno linguístico-expressivo. A descrição 
puramente gramatical abrange os aspectos afetivos, responsáveis por frequentes rupturas 
ou  desvios  dos  padrões  da  língua,  que  são  indicados  como  erros  gramaticais,  quando 
representam  o  exercício  criativo  da  linguagem,  prova  de  conhecimento  e  domínio  da 
expressão. 
Para Mattoso Câmara Jr. (1978, p.29): 
Os  traços  estilísticos  (...)  revelam  estados  d’alma  e  impulsos  da  vontade, 
latentes  na enunciação de palavras, e, nesta base, distinguem como duas ou 
mais enunciações o que é uma palavra única pelo prisma representativo. 
A Estilística pode estudar o estilo de um escritor ou de um grupo, de hoje ou de 
uma época passada, de diferentes escolas literárias, etc. 
Convém  ressaltar  que  aqui  falamos  de  um  estilo  particular.  A  maioria  destes 
procedimentos, entretanto, já conhecidos e utilizados, resultam de uma gama extensa de 
fatores  ou  condicionamentos  culturais,  como  as  influências  do  meio,  da  época  e  da 
estrutura linguística. 
Procedemos a um levantamento dos traços linguístico-expressivos que julgamos 
mais importantes de acordo com o grau de força e de sensibilidade que a escritora dá ao 
seu  estilo  por  meio  de  determinada  escolha.  Em  seguida,  separamo-los,  reunindo  no 
mesmo item/tópico ocorrências cujas características sejam semelhantes, colocando cada 
uma  delas  no  lugar  a  que  pertencem,  segundo  a  divisão  estilística:  fônica  (do  som), 
lexical  (da  palavra),  sintática  (da  estrutura)  e  da  enunciação.  Para  este  trabalho,  nos 
ateremos  aos  recursos  sintáticos  e  recorreremos  à  Semântica  para  atribuição  dos 
sentidos. 
A  Semântica  como  objeto  de  estudo  traz  consigo  a  dificuldade  de  abordagem 
devido à amplitude e à complexidade inerentes aos fenômenos relativos ao significado. 
Os estudos linguísticos no século passado sofreram, sem dúvida, uma aceleração 
e grande avanço. Isto se deu principalmente com as fases estruturalista e gerativista, que 
propiciaram amplo conhecimento da  gramática  (fonologia, morfologia e sintaxe), mas 
não  conseguiram  dar  conta,  com  igual  rigor  e  coerência,  da  Semântica,  segundo 
Marques (1990). 
Existem  conceitos  que  procuram  esclarecer  o  termo.  Conceituar,  porém,  nem 
sempre  esclarece.  Por  exemplo:  semântica  é  a  ciência  que  estuda  o  significado  (ou  o 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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sentido,  ou  a  significação).  Cabe  aqui  a  pergunta:  o  que  é  significado,  sentido  ou 
significação?  Estes  termos  são  tomados  de  formas  diversas  ou  como  sinônimos  por 
vários autores e os conceitos estão longe de serem firmados de forma inequívoca. 
Ilari e Geraldi (1985, p.6) apresentam a questão da seguinte forma: 
A  palavra  ciência  evoca  domínios  de  investigação  claramente  definidos,  a 
respeito  dos  quais  os  cientistas  aperfeiçoaram  métodos  de  análise 
unanimemente  aceitos,  e  elaboraram  conhecimentos  coerentemente 
articulados e fiéis aos fatos. Ao contrário disso, a semântica é um domínio de 
investigação  de  limites  movediços;  semanticistas  de  diferentes  escolas 
utilizam  conceitos  e  jargões  sem  medida  comum,  explorando  em  suas 
análises  fenômenos  cujas  relações  não  são  sempre  claras:  em  oposição  à 
imagem  integrada  que  a  palavra  ciência  evoca,  a  semântica  aparece,  em 
suma,  não  como  um  corpo  de  doutrina,  mas  como  o  terreno  em  que  se 
debatem problemas cujas conexões não são sempre óbvias. 
Diante desse problema, começamos por admitir a simplicidade da observação de 
que  "as  línguas  são  mecanismos  de  veiculação  de  informações,  porque  as  formas 
linguísticas  são  sinais  portadores  de  sentido"  (Marques,  1990,  p.10).  Isso  mostra  a 
Semântica  como  o  plano  fundamental  da  linguagem,  permitindo  a  veiculação  de 
conteúdos simbólicos referentes à representação das ideias e dos sentimentos. 
Como ciência do significado, a Semântica é abordada sempre com certo grau de 
subjetividade, já que se trata de um fenômeno a ser interpretado. Espera-se, no entanto, 
uma abordagem mais "científica” (objetiva): 
Maria Helena Marques (1990, p.12) critica: 
Em  nome  da  ciência,  deixa-se  à  margem  no  estudo  da  linguagem  o  que 
constitui  a  essência  da  linguagem:  a  troca  de  conteúdos  ou  valores 
semânticos,  a  organização  da  experiência  e  a  veiculação  de  informações, 
objetivas e subjetivas, entre indivíduos. 
O  nosso  estudo  busca  reafirmar  o  aspecto  semântico  como  fundamental  para 
uma  abordagem  linguística,  apresentando  também  uma  especificidade  de  objeto  da 
mesma maneira que os planos fonológico, sintático e morfológico apresentam. 
Abordaremos o fenômeno linguístico apreendendo o sentido, principalmente de 
expressões e estruturas que se fazem mais particulares dentro do uso corrente da língua. 
Para Câmara Jr. (1978, p.66): 
O  sistema  de  ordenação  dos  elementos  linguísticos,  ou  sintaxe,  é  muito 
menos  rígido  e  estrito  do  que  o  das  formas  ou  o  dos  sons,  pelo  menos  em 
uma  língua  como  a  nossa.  As  possibilidades  de  escolha  são  aí  numerosas, 
pois  o  princípio  intelectivo  diretor  só  se  fixa  realmente  em  poucos  pontos 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3304 
essenciais.  
A  sintaxe  é  uma  atividade  extremamente  criadora,  estando  dentro  do  domínio 
gramatical,  como  também  do  estilístico.  A  seleção  dos  termos  frásicos  e  a  sua 
combinação  possibilitam  ao  falante  um  grande  número  de  frases  novas  e 
compreensíveis. Na maioria das vezes, a escolha não corresponderá necessariamente a 
um  fenômeno  estilístico,  mas  à  variação  sintática.  O  fenômeno  estilístico  deverá 
pressupor um valor expressivo em potencial, que o distinguirá dos demais por adquirir o 
seu tom particular-neutro ou afetivo. 
O  estilo  do  escritor  faz-se  pelo  desvio  da  norma  que,  muitas  vezes,  pode  ser 
visto pelo "olho normativo" do gramático como erro. A gramática normativa estabelece 
um  número  determinado  de  possibilidades;  o  que  passa  dessa  medida  é  erro.  Assim, 
esta suprime variantes que a língua abriga,  e se furta das considerações  estilísticas. A 
língua  é  dinâmica  e  abarca  as  necessidades  expressivas  de  seus  falantes,  tornando-se 
mais rica pelas permanentes contribuições. 
A sintaxe é profundamente explorada por Lygia Bojunga, desde a ordenação das 
palavras até a utilização do parágrafo, passando pela pontuação que, aqui, deixa de ser 
mera  separação  de  elementos  sintáticos  e  necessidade  rítmica  de  entoação  para  atuar 
como elemento enfatizante. 
Antes  de iniciar  a  exploração  dos  textos,  cumpre  esclarecer  que  os  nomes  dos 
livros aparecerão por meio de seus respectivos códigos, seguidos do número da página 
onde foi encontrada a ocorrência linguística em questão. 
TÍTULOS
 
QUE
 
COMPÕEM
 
O
 
CORPUS
 
DE
 
ANÁLISE 
CÓDIGO
 
 
Angélica 
Angélica 
A Bolsa Amarela 
Bolsa 
A Casa da Madrinha 
Casa 
Os Colegas 
Colegas 
Corda Bamba 
Corda 
Fazendo Ana Paz 
Ana 
Livro: um encontro com Lygia Bojunga Nunes 
Livro 
O Meu Amigo Pintor 
Pintor 
Nós Três 
Nós 
O Sofá Estampado 
Sofá 
Paisagem 
Paisagem 
Tchau 
Tchau 
Tabela 1 – títulos do corpus 
 
Examinemos, então: 
 
- A frase 
Definir  o  conceito  de  frase  não  é  uma  tarefa  tão  simples  como,  a  princípio, 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3305 
parece: 
Uma frase é o enunciador de uma ação ou de um juízo. (Cressot, 1980, p.199) 
Frase  é  uma  unidade  verbal  com  sentido  completo  e  caracterizada  por 
entoação  típica:  um  todo  significativo,  por  intermédio  do  qual  o  homem 
exprime seu pensamento e/ou sentimento. Pode ser brevíssima, constituída às 
vezes  por  uma  só  palavra,  ou  longa  e  acidentada,  englobando  vários  e 
complexos elementos. (Rocha Lima, 1994, p.232) 
Frase  é  todo  enunciado  suficiente  por  si  mesmo  para  estabelecer 
comunicação.  Pode  expressar  um  juízo,  indicar  uma  ação,  estado  ou 
fenômeno, transmitir um apelo, uma ordem ou exteriorizar emoções. (Garcia, 
2002, p.32) 
Como  se  percebe,  nas  três  conceituações  citadas,  não  há  unanimidade.  Pelo 
exposto, não chegamos a uma única definição. Acreditamos que se complementam. Para 
nós, a frase é medida pela entoação que marca o início e o final, podendo tratar-se de 
uma interjeição vagamente articulada ou de uma formulação extensa e complexa. 
Acerca  da  frase,  uma  das  características  mais  marcantes  da  autora  é  o  seu 
encurtamento. Para isso, há uma profusão de cortes, paradas, dissonâncias, procurando 
cuidadosamente  estabelecer  uma  ordem  de  palavras,  chegando-se  até  a  eliminação  de 
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