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partir do momento que são pluralizados



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partir do momento que são pluralizados.  
Ullmann  (1987)  também  aborda  em  seus  estudos  semânticos  a  passagem  de 
nomes  próprios  a  nomes  comuns  e  vice-versa.  Diferentemente  de  muitos  gramáticos, 
Ullmann afirma que “a fronteira entre as duas categorias não é de modo algum decisiva” 
(Ullmann,  1987:160),  como  bem  exemplificam  os  sobrenomes  portugueses  —  Leitão, 
Fidalgo,  Monteiro,  Cardim,  entre  outros  —  que  marcam  qualidade,  profissão,  região 
geográfica  etc.,  embora  muitos  falantes  de  língua  portuguesa  não  saibam  que, 
etimologicamente, esses sobrenomes têm sua origem em nomes comuns.  
Sobre  a  passagem  de  nomes  próprios  a  nomes  comuns,  Ullmann  (1987) 
enquadra-a  em  dois  grupos:  o  metafórico  e  o  metonímico.  O  primeiro  grupo,  o 
metafórico,  criou-se  em  virtude  de “qualquer  tipo  de  semelhança ou  aspecto  comum” 
(Ullmann,  1987:161),  sendo  o  caso  de  cicerone,  palavra  de  origem  italiana,  que,  por 
etimologia, segundo o Houaiss (2009), estabeleceu-se na língua devido à comparação da 
fala  expansiva  dos  guias  turísticos  de  Roma  com  a  eloquência  efusiva  de  Cícero.  O 
segundo, o metonímico, de acordo com Ullmann, baseia-se “em qualquer relação, que 
não a semelhança: a que há entre o inventor e a invenção, entre o produto e o lugar de 
origem  etc..”  (Ullmann,  1997:162).  São  casos  típicos  de  metonímia:  “Roubaram  um 
Portinari” (o autor pela obra), “Compre uma gilete para mim” em vez de “Compre uma 
lâmina  de  barbear  para  mim”  (o  inventor  pela  invenção),  “Adoro  leite  moça  com 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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morango” (o  nome  de  fantasia  pelo  produto,  que,  no  caso,  é  o  leite  condensado).  Em 
alguns casos a opacidade, ou apagamento, já é tão forte que, muitas vezes, o falante já 
não  faz  mais  a  associação  metonímica,  como  é  o  caso  do  verbete  sanduíche,  que, 
segundo Houaiss (2009), foi um tipo de pão com carnes fatiadas criado pelo Conde de 
Sandwich durante um longo jogo de cartas do qual ele não poderia se ausentar. 
 
Operações  de  lexicalização,  gramaticalização  e  semantização  na  construção  de 
antonomásias do nome próprio no processamento discursivo, ou discursivização. 
 
De  acordo  com  a  gramática  tradicional,  denomina-se  derivação  imprópria  ou 
conversão  o  fenômeno  de  passagem  de  nome  próprio  a  comum  e  vice-versa.  Muitos 
estudiosos  da  linguagem  preferem  chamar  essa  passagem  de  conversão  subcategorial 
ou transubcategorização, a fim de marcar que a relação se dá entre duas subcategorias, 
ou subclasses, que pertencem  a uma classe maior, a dos substantivos. Nas gramáticas 
tradicionais e pedagógicas, observamos que os exemplos citados, na maioria das vezes, 
não  evidenciam  os  traços  formais  que  possibilitam  essa  passagem,  pois  já  aparecem 
com a mudança de subclasse, como damasco e quixote (Cunha; Cintra, 2008:118), isto 
é, não apresentam o processo sintático. Diante desse quadro, é necessário explicitar os 
elementos  que  formam  a  estrutura  interna  e  funcional  da  antonomásia  discursiva  do 
nome  próprio,  isto  é,  os  determinantes  e  os  modificadores,  periféricos  que  ficam  ao 
redor  do  núcleo  referencial  do  sintagma  nominal.  Chamaremos  de  determinantes  os 
“ocupantes da porção do SN que precede o seu  núcleo” (Azeredo, 2000:  189), isto é, 
ocorrem  à  esquerda  do  núcleo  nominal,  como  os  artigos  definidos  e  indefinidos,  os 
pronomes adjetivos, os quantificadores definidos (os numerais) e indefinidos (pronomes 
indefinidos)  e  de  modificadores  os  periféricos  que  ocorrem  geralmente
20
  à  direita,  a 
posição canônica, ou não marcada. Os principais modificadores do núcleo nominal na 
língua portuguesa são os adjetivos, as locuções adjetivas e as sentenças relativas.  
Seguem os principais tipos de periféricos ativadores de antonomásias discursivas 
do  nome  próprio  que  encontramos  nos  exemplos  retirados  do  corpus,  composto  por 
textos publicados em livros, jornais e revistas brasileiros: 
 
                                                 
20 Muitas vezes os modificadores podem vir em uma posição não habitual, ou marcada, para dar ênfase a 
um valor semântico diferente. Ex.: “Um advogado velho/ Um velho advogado”. 


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(1)-  Antonomásias  discursivas  do  nome  próprio  ativadas  por  artigos  definidos  e 
indefinidos, seguidas ou não de adjetivos, ou de termos com sentido de posse: 
 
 
(1.1) “Você tem que entender, Mauro, que hoje você é um formador de opinião, 
 
atingiu o mesmo patamar de um Gugu, de uma Xuxa, de uma Mara Maravilha.

  
 
 
(1.2)  “Como  o  Twitter  é,  para  Sara  Carbonero,  a  nova  Inquisição,  alguns 
blogueiros  
espanhóis já se perguntam, irônicos, se a namorada de Casillas não seria, 
então, a  
Joana d’Arc moderna.
” 
 
 
(1.3) – Enéas perdeu o charme (charme???). E o eleitorado também. Hoje, o Le 
Pen   tupiniquim  chama-se  Garotinho.  De  modo  que  se  existe  ou  não  uma  madame 
Enéas  pouca ou nenhuma diferença fará. E não adianta gritar.
” 
 
 
(1.4) “O Lula ia ser o Kerensky dele. Ele, naturalmente, seria o Lenin. Porque ele 
só  
brinca se for o Lenin... Pena não haver um Eisenstein pra filmar esse revival da 
 
revolução russa em forma de chanchada.
” 
 
  
(1.5) “O Jenuíno seria o articulador político do  governo, seria o Luiz Eduardo 
 
Magalhães  deles.  Seria  engolido  também.  Mas  teria  fair  play  como  sempre.
” 
(sic) 
 
 
(1.6) “Passei pelo Copacabana Palace e estava um auê. Era o Mercosul assolado 
 
pelo fantasma do Pinochet. O processo pode demorar anos. Ele podia ir logo pra 
 
Torre de Londres em vez de ficar pagando 40 mil dólares por mês de aluguel.  
 
– É a Mary Stuart chilena...”  
 
(1.7)  “Naquela  época  não  havia  televisão,  de  modo  que  vivíamos  numa 
Hollywood   radiofônica.” 
 
(2) Antonomásias discursivas do nome próprio ativadas por pronome adjetivo, seguidas 
ou não de adjetivos: 
 


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(2.1) “Como a que vi estampadas no rosto de Carla Perez e Xandy, no programa 
de  
quem? Da Hebe, claro. Não passo uma segunda-feira sem dar uma espiadinha no 
 
que a nossa Ivana Trump está aprontando.” 
 
 
(2.2)  “Estou  vivendo  a  minha  Yugoslávia  particular.  Meus  gatos  se  deixaram 
 
contagiar e estão em pé de guerra.” 
 
 
(2.3)  “Fazendo  um  tour  via  controle  remoto  dei  com  Arlete  Salles  no  Você 
Decide  
da  semana  passada.  Mesmo  com  as  limitações  televisivas,  o  talento  de 
Arlete  explode. A telinha é pequena para contê-la. Que atriz! Que comediante! 
 
– É a nossa Mary Tyller-Moore.” 
 
 
(2.4) “– Raul é insubstituível! Ele que fosse pra Record! – Já o prefeito de São 
 
Paulo,  Celso  Pitta,  revelou,  no  Globo,  seu  sonho  de  ser  bailarino,  dançar 
Copélia,  
a Morte do Cisne. Teria sido a nossa dame Margot Fonteyn.”  
 
 
 
(2.5) “– Porque, verdade seja dita, o Cid tem uma voz belíssima! De fato, é uma 
 
manifestação divina. É o próprio Verbo. Cid é o nosso Charlton Heston vocal.” 
 
(3) Antonomásias discursivas do nome próprio ativadas por locuções adjetivas: 
 
 
(3.1) “Eles viveram uma wonderful life. Eram o James Stewart e a Donna Reed 
 
do noroeste paulista.”  
 
 
(3.2)  “Na  época  do  twist,  em  Bauru,  só  andava  com  gente  in,  era  amigo  da 
garota  mais   popular, bonita e gostosa da cidade; líder da torcida de basquete, baliza 
da  
banda do colégio, uma cópia dessas american girl’s que a gente vê no cinema, a 
 
Olívia Newton-John de Bauru.”  
 
 
(3.3) “Tia  Hilda diz que consegue muito bem imaginar o constrangimento que 
deve   ter  sido  quando  o  Racine (e  o  Goethe!)  disseram  que Shakespeare  era  a  Janet 
Clair   de  Stratford  on  Avon,  que  Romeu  e  Julieta  era  Os  ossos  do  barão  do  século 
 
XVI.”  
 


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(3.4)  “Outra  que  não  perde  a  animação  é  a  Regina  Duarte  da  nossa  política, 
FHC.”  
 
 
(3.5)  “Quem  anda  animadíssima  também,  com  seu  programa  no  Shoptime  da 
Net, é  a neo-evangélica Monique Evans, a Darlene Glória dos anos 90.” 
 
(4)  Antonomásias  discursivas  do  nome  próprio  ativadas  por  anguladores,  ou 
delimitadores: 
 
 
(4.1) “Falando nisso, é comovente a lealdade da Betty Szafir e o marido com o 
casal   Collor e Rosane. Aonde vão são vaiados – juntos.  
 
– Betty é uma espécie de Madame du Barry paulistana. Para os que não sabem, 
 
durante  a  revolução  francesa  de  1779,  du  Barry  estava  na  Inglaterra,  em 
segurança,  
mas  voltou  para  ficar  perto  de  seus  amigos  aristocratas  e  enfrentar  o 
mesmo destino,  
ou seja, a guilhotina. Até parece a Hebe com o Maluf.

  
 
 
(4.2) “Rosinha é a mulher ideal, porque junta todas as qualidades. É uma espécie 
de  
Lucille Ball comportada e crente.”  
 
 
(4.6)  “Dizem  que  a  família  que  transformou  o  Palácio  Guanabara  num 
playground   gospel  é  abençoada  e  tem  uma  missão  a  cumprir:  espalhar  a  felicidade 
por todos os   lares brasileiros. É mole? Tudo começou em Campos, logo transformada 
numa   espécie  de  Belém  fluminense.  Trouxe  a  palavra  do  Senhor  para  o  Rio  e  agora 
 
pretende espalhá-la Brasil (ou mundo) afora.” 
 
Muito raramente, o modificador é uma sentença relativa, como no exemplo que 
segue: 
 
 
(4.7)  “O  GNT  está  produzindo  “Socorro,  meu  filho  come  mal”,  uma  série 
 
comandada  por  uma  espécie  de  Supernanny  que  fiscaliza  unicamente  a 
 
alimentação.  A  apresentadora  e  especialista,  a  nutricionista  Gabriela  Kapim, 
passa   dias  na casa de  uma  família para ajudar os  pais  a  reparar os  maus  hábitos  das 
 
crianças à mesa.”  
 


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(5) Antonomásias discursivas do nome próprio ativadas por quantificadores indefinidos, 
expressando especialmente a modalidade negativa: 
 
 
(5.1) “Eu  acho super exagerado comparar ele com o Cigano  Igor (esse título é 
 
eternamente  do  Rafael  Almeida  na  minha  modesta  opinião).  O  Márcio  tem 
carisma  
e talento, eu acho que o problema é o personagem, é difícil para qualquer 
um que  
viva na nossa época imaginar um cara instruído e viajado, rico ainda por 
cima, ser  
tratado  como  uma  m...  só  na  Índia  fake  da  Glória  Perez  mesmo!  E  o 
Lombardi não é  
nenhum Brando também não!” 
 
 
(5.2) “Na minha modesta  opinião,  de quem  não  é  nenhuma  Ana  Wintour,  mas 
 
gosta   de  dar  pitacos  na  moda  alheia,  os  estilistas  Yu Amatsu  e Fabiola  Arias 
foram  os mais criativos do dia.” 
 
No  corpus,  há  uma  antonomásia  discursiva  do  nome  próprio  que,  além  de  ser 
ativada  por  um  elemento  periférico,  que,  no  exemplo,  é  o  artigo  definido,  também  é 
ativada  pela  situação,  ou  contexto,  devido  à  omissão  de  um  termo  anterior  que  ficou 
subentendido. Segundo  Cunha e Cintra (2008) e Bechara (2009), temos, neste caso, o 
fenômeno denominado elipse. Vejamos o exemplo: 
 
 
(5.3) “O mensalão não é só para deputados. Há também o mensalão da imprensa. 
No  
último  número  da  revista  Carta  Capital,  quase  70%  dos  anúncios  eram  do 
governo  
federal. Lula sempre soube remunerar direito seus aliados. Carta Capital 
é o João  
Paulo Cunha dos semanários. O José Janene. O Valdemar Costa Neto.” 
 
Considerando  esse  levantamento  das  formas  da  língua  que  ativam  as 
antonomásias  discursivas  do  nome  próprio  no  discurso,  cabe  perguntar:  como  os 
especificadores  e  os  modificadores  influenciam  a  semantização  dessas  antonomásias 
discursivas,  ou  melhor,  conferem  o  processo  de  referenciação  desejado  pelo 
enunciador? A esse respeito, analisemos o exemplo: 
 
 
(6) Fui pesquisar e descobri que o tronco brasileiro da família Adams é imenso. 
 
Tem o Inocêncio, o Paes de Andrade, a Rosane, o Stédile, o João Havelange... 


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Falar   nisso,  Havelange,  que  já  foi  o  belo  Brummel
21
  dos  cartolas,  hoje  é  a  nossa 
múmia- 
mor, o nosso Boris Karloff
22
.  
 
No  exemplo  (6),  a  primeira  antonomásia  discursiva  do  nome  próprio-  o  belo 
Brummel  dos  cartolas-  tem  como  referente-índice  o  nome  próprio  Brummel,  cujo 
sentido  ativado  no  discurso  é  a  beleza  masculina.  Esse  referente-índice  tem  como 
referente  índice-alvo  o  nome  próprio  Havelange,  ex-dirigente  da  FIFA,  por  meio  de 
uma comparação implícita, ou seja, Havelange era considerado o belo Brummel entre os 
cartolas.  O  papel  do  modificador  —  dos  cartolas  —  é  restringir  o  domínio  de 
compreensão do processo de referenciação, isto é, somente no universo dos cartolas que 
a  comparação  entre  Havelange  e  Brummel  se  caracteriza.  A  segunda  antonomásia-  o 
nosso  Boris  Karloff-  também  tem  como  referente  índice-alvo  o  nome  próprio 
Havelange,  comparado  a  uma  múmia-mor,  um  dos  sentidos  do  referente-índice  Boris 
Karloff. Nesta, o especificador (periférico à esquerda do núcleo do SN da antonomásia 
discursiva) tem como função indicar, além de um valor de posse, um valor afetivo em 
relação ao referente índice-alvo.  
Ao que parece, o papel dos periféricos, estejam eles à direita ou à esquerda do 
núcleo do SN da antonomásia discursiva do nome próprio, é direcionar o processo de 
referenciação entre o referente-índice e o referente índice-alvo, a fim de indicar em que 
domínios os sentidos da antonomásia discursiva do nome próprio devem ser ancorados. 
E por que denominar o nome próprio de referente-índice? Segundo a semiótica 
de extração peirceana, na tríade ícone- índice- símbolo, o nome próprio é um índice. O 
índice estabelece uma relação diádica entre o representâmen e o objeto, devido a fatores 
de contiguidade, como a causalidade, a espacialidade e a temporalidade. Assim, Peirce 
(2005) define o índice: 
Um  signo  que  se  refere  ao  Objeto  que  denota  em  virtude  de  ser  realmente 
afetado por esse Objeto. Portanto, não pode ser um Qualissigno, uma vez que 
as qualidades são o que são independentemente de qualquer outra coisa. Na 
medida  em  que  o  Índice  é  afetado  pelo  Objeto,  tem  ele  necessariamente 
alguma  Qualidade  em  comum  com  o  Objeto,  e  é  com  respeito  a  estas 
qualidades  que  ele  se  refere  ao  Objeto.  Portanto,  o  Índice  envolve  uma 
espécie de Ícone, um Ícone de tipo especial; e não é a mera semelhança com 
                                                 
21 Nome do personagem-protagonista do filme Beau Brummel (EUA, 1955), o qual fazia sucesso entre as 
mulheres devido a sua bela aparência e à sedução. 
22 Ator britânico (1887-1969) que atuava principalmente em filmes de terror.  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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seu Objeto, mesmo que sob estes aspectos que o torna um signo, mas sim sua 
eletiva modificação pelo objeto. (Peirce, 2005:52) 
Conforme Nöth (2008), Peirce (2005) nos dá inúmeros exemplos de índice em 
seus escritos, tais como os cata-ventos, a fita métrica, um barômetro, a fotografia, um 
grito  de  socorro,  a Estrela Polar,  porque  indica  o  Norte,  um  dedo  em  riste  apontando 
uma direção etc. Na linguagem verbal, são exemplos de índices os nomes próprios e os 
pronomes  pessoais,  porque  designam  particulares,  os  pronomes,  os  artigos  e  as 
preposições,  visto  que instauram  relações  sintagmáticas  com  outras  palavras  no  texto. 
Ao  comparar  os  índices  com  os  ícones  e  os  símbolos,  Peirce  destaca dos  índices  três 
características: 
Os índices podem distinguir-se de outros signos, ou representações, por três 
traços  característicos:  primeiro,  não  têm  nenhuma  semelhança  significante 
com  seus  objetos;  segundo,  referem-se  a  individuais,  unidades  singulares, 
coleções singulares de unidades ou a contínuos singulares; terceiro, dirigem a 
atenção para seus objetos através de uma compulsão cega. Mas seria difícil, 
senão  impossível,  citar  como  exemplo  um  índice  absolutamente  puro,  ou 
encontrar um signo qualquer absolutamente desprovido da qualidade indicial. 
Psicologicamente,  a  ação  dos  índices  depende  de  uma  associação  por 
contiguidade,  e  não  de  uma  associação  por  semelhança  ou  de  operações 
intelectuais. (Peirce, 2005:75-76) 
A relação de  contiguidade e de  continuidade entre o representâmen  e o  objeto 
denotado aproxima o índice da metonímia, como nas pegadas de um animal, na palidez 
de uma pessoa, nos restos de cinza de uma churrasqueira, uma batida na porta etc.. Essa 
característica  possibilita  Peirce  a  pensar  que  no  índice  o  corte  semiótico,  isto  é,  a 
diferença do signo e do objeto, não é totalmente estabelecido ou estabilizado, pois, no 
índice,  o  objeto  remete  e  refere-se  a  si  próprio,  numa  relação  de  circularidade.  Desse 
modo, é que podemos pensar que, no caso dos substantivos próprios, que se apresentam 
como um índice
23
 em grande parte da obra de Peirce, o nome próprio é a  pessoa, e a 
pessoa é o nome próprio, em um processo de autorreferenciação.  
Dessa maneira, pretendemos nos afastar da visão da Lógica clássica que não vê 
um sentido no nome próprio, ou seja, ele apenas denota e nada conota (Mill, 1973), e, 
em parte, da visão da linguística cognitiva, para a qual o nome próprio é um valor que 
                                                 
23 Antes de afirmar que os nomes próprios eram índices, Peirce (CP 329, 2005:88) havia dito que eles 
eram subíndices ou hipossemas (CP 284, 2005: 67), que “são signos que se tornam tais principalmente 
através da conexão real com seus objetos. Assim, um substantivo próprio, um demonstrativo pessoal, um 
pronome relativo ou a letra que se aplica a um diagrama, denota o que denota em virtude de uma conexão 
real com o seu objeto, mas nenhum desses elementos é um Índice, dado que não são individuais”.  


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3267 
assume  funções.  Neste  artigo,  partimos  da  premissa  que  o  nome  próprio  tem  um  ou 
vários sentidos, que são dependentes da trajetória do seu referente no mundo. 
 
 
Conclusão 
 
O objetivo geral deste artigo foi demonstrar que a antonomásia é uma figura de 
linguagem que se situa em dois polos distintos: o da língua e o do discurso. Na língua, 
na  qual  predomina  o  emprego  das  formas,  a  antonomásia,  no  plano  morfológico,  se 
constitui  por  meio  da  passagem  de  nome  próprio  a  nome  comum  e  vice-versa;  na 
gramática,  se  situa  entre  os  casos  de  derivação  imprópria  ou  conversão.  Incluem-se, 
neste caso, as antonomásias lexicalizadas, já consagradas pelos falantes da língua, como 
judas,  tartufo,  mecenas,  dom-juan  etc..  Essas  antonomásias,  já  dicionarizadas  em  sua 
grande  maioria,  refletem  bem  a  passagem  de  nome  próprio  a  nome  comum,  porque 
estão  associadas  a  uma  definição  lexical  precisa:  judas=  traidor,  dom-juan=  sedutor, 
tartufo= hipócrita, mecenas= patrocinador de artistas, entre outras.  
Por  outro  lado,  temos,  no  âmbito  discursivo,  uma  quantidade  de  antonomásias 
que,  a  nosso  ver,  não  podem  ser  explicadas  por  meio  da  derivação  imprópria  ou 
conversão, pois, em sua maioria, são dependentes do contexto geral da enunciação, ou, 
segundo os critérios de textualidade, da situacionalidade, para que obtenham o sentido 
desejado pelo enunciador. Esse é o caso das antonomásias discursivas do nome próprio. 
Para  nós,  essas  antonomásias  dificilmente  terão  seus  sentidos  estabilizados  na  língua, 
pois elas são emergentes e dependentes de uma ou várias conjunturas. Além do mais, 
grande parte desses nomes próprios ainda tem os seus referentes a flanar pelo mundo, o 
que impossibilita pensar de imediato em estabilidade lexical. 
Sendo  assim,  buscamos  compreender  as  antonomásias  discursivas  do  nome 
próprio  no  processamento  discursivo,  ou  discursivização,  segundo  os  preceitos  de 
Castilho (2010) e Nascimento e Oliveira (2004), porque defendemos que somente no/ 
pelo  texto,  isto  é,  numa  relação  enunciativa,  pode-se  observar  a  complexa  relação 
estabelecida entre a antonomásia discursiva do nome próprio e o mundo discursivo no 
qual  ela  se  insere.  Nessa  perspectiva,  adotamos  a  ideia  de  que  um  nome  próprio  não 
precisa  ser  visto  como  nome  comum,  para que  ocorra  a  semantização.  Para  nós,  uma 
antonomásia discursiva é, antes de tudo, uma figura de linguagem que carrega crenças e 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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valores, ora objetivos, isto é, pertencentes a uma comunidade, ora subjetivos, vindos de 
um  ponto  de  vista  estritamente  pessoal.  No  primeiro  caso,  é  imprescindível  o  uso  de 
conhecimentos  prévios,  a  fim  de  que  se  possa  compreender  o  sentido  a  ser  revelado; 
caso  contrário,  o  jogo  de  linguagem  e,  por  consequência,  o  de  significação,  serão 
ininteligíveis,  porque  não  saberemos  a  quem  o  nome  próprio  que  faz  parte  da 
antonomásia se referirá e, assim, o efeito de sentido da antonomásia discursiva do nome 
próprio  não  será  processado.  Em  suma,  o  estudo  da  antonomásia  discursiva  do  nome 
próprio repensa a relação da linguagem com o mundo e com o sujeito. 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Azeredo, José Carlos. 2000. Fundamentos de gramática do português. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar Editora. 
 
Bechara, Evanildo. 2009. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova 
Fronteira. 
 
Castilho,  Ataliba  Teixeira  de.  2010.  Nova  gramática  do  português  brasileiro.  São 
Paulo: Editora Contexto. 
 
Cunha, Celso; Cintra, Lindley. 2008. Nova gramática do português contemporâneo. Rio 
de Janeiro: Lexikon. 
 
Houaiss,  Antônio;  Villar,  Mauro  de  Salles.  2011.  Dicionário  Houaiss  da  língua 
portuguesa. Versão 1.0, CD-ROM. Rio de Janeiro: Objetiva. 
 
Mill,  John  Stuart.  1973.  Sistema  de  Lógica  dedutiva  e  indutiva.  São  Paulo:  Abril 
Cultural.  
 
Nascimento,  Milton  do;  Oliveira,  Marco  Antônio  de.  Texto  e  hipertexto:  referência  e 
rede  no  processamento  discursivo.  In:  Negri,  Lígia;  Foltran,  Maria  José;  Oliveira, 
Roberta Pires de. 2004. Sentido e significação- em torno da obra de Rodolfo Ilari. São 
Paulo: Editora Contexto. 
 
Nöth,  Winfried.  2008.  Panorama  da  Semiótica:  de  Platão  a  Peirce.  São  Paulo: 
AnnaBlume. 
 
Peirce, Charles S. 2005. Semiótica. São Paulo: Editora Perspectiva. 
 
Ullmann, Stephen. 1987. Semântica- uma introdução à ciência do significado. Lisboa: 
Fundação Calouste Gulbenkian. 


De volta ao futuro da língua portuguesa.  
Simpósio 22 - Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa, 3269-3286 
ISBN 978-88-8305-127-2 
DOI 10.1285/i9788883051272p3269 
http://siba-ese.unisalento.it, © 2017 Università del Salento 
 
 
 
3269 
NOMINALIZAÇÕES EM TEXTOS ACADÊMICOS DE PORTUGUÊS 
BRASILEIRO (PB): ALGUNS ASPECTOS COGNITIVO-FUNCIONAIS DA 
ESTRUTURA ARGUMENTAL DOS DEVERBAIS E POSSÍVEIS 
IMPLICAÇÕES PARA O ENSINO DE PB
24
 
 
  
Ana Larissa Adorno Marciotto OLIVEIRA
25
  
Bárbara Malveira ORFANÓ
26
  
Monique Vieira MIRANDA
27
  
 
 
RESUMO 
O objetivo deste estudo foi identificar os deverbais do tipo X-ÇÃO mais frequentes em 
textos acadêmicos escritos em português brasileiro (PB) e examinou até  que ponto os 
elementos da valência do verbo input ficam expressos ou não expressos. Os resultados 
confirmaram  que  a  expressão  (ou  não)  desses  argumentos  é  pragmaticamente  e 
discursivamente  motivada  e  está  ligada  ao  grau  de  importância  associado  aos 
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