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partidos se alteram, os discursos se sucedem,  mas o dèja vu se mantém



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partidos se alteram, os discursos se sucedem,  mas o dèja vu se mantém. 
Ao  longo  de  suas  muitas  crônicas,  Lima  Barreto  conseguiu  abranger  com  seu 
olhar  as  transformações  da  cidade,  as  questões  político-sociais  de  se  tempo;  deu  ao 
subúrbio visibilidade, colocando em evidência a classe desfavorecida, e as injustiças de 
que eram vítimas. Apesar de terminar uma de suas crônicas afirmando que “o Brasil é 
feito  para  desanimar”  e  que  o  melhor  é  não  tratar  desses  assuntos,  os  quais  tanto 
provocam desgosto, escrevia para lutar contra essa desilusão; porque sempre acreditou 


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que o papel do escritor, antes de qualquer coisa, é o de ser um militante em prol de seu 
país e de seu povo, o que cumpriu até final de sua curta e produtiva vida literária. 
Lima  Barreto  foi  um  cronista  independente,  o  que  lhe  possibilitou  apresentar 
uma  visão  contundentemente  crítica  da  realidade.  Por  ter  inicialmente  se 
incompatibilizado  com  a  imprensa  carioca,  em  decorrência  de  seu  romance 
Recordações do escrivão Isaías Caminha, no qual expôs os bastidores do jornalismo da 
época, especificamente do mais famoso jornal do seu tempo, o Correio da Manhã, de 
Edmundo  Bittencourt,  que  no  romance  se  chama  O  Globo,  de  forma  satírica, 
desmoralizando os detentores do poder midiático e suas influências sociais, angariou a 
antipatia  dos  poderosos  e  teve  várias  portas  de  jornais  fechadas.  Por  isso,  passou  a 
contribuir  em  pequenos  periódicos,  nos  quais  tinha  liberdade  de  expressão.  Quando 
volta a ter posto de trabalho na grande imprensa, ela só se fazia possível se lhe fosse 
garantida independência de pensamento e expressão.  
A partir daí, apresentamos a proposta de leitura bimestral, do romance de Lima 
Barreto  cujo  conteúdo  se  mostra  absolutamente  contemporâneo:  Recordações  do 
escrivão Isaías Caminha.  
O  romance  em  questão  foi,  por  opção  de  Lima  Barreto,  aquele  que, 
polemicamente,  o  lançou  ao  mundo  das  letras  (embora  ele  tivesse  outro  praticamente 
pronto,  bem  menos  polêmico,  Vida  e  morte  de  M.  J.  Gonzaga  de  Sá),  mexendo  no 
vespeiro da imprensa carioca que se solidificava e se estruturava como um quarto poder 
na organização social pós-republicana.  
Antes de mais nada, discutimos o conceito de romance, daquilo que identificaria 
e caracterizaria o gênero a partir da narrativa em estudo especificamente. Como gênero 
em evolução, o romance reflete e registra a transformação da própria realidade, e, assim, 
quase  sempre  mergulha  no  tempo  enquanto  este  se  realiza;  não  há  um  afastamento 
temporal, há uma inserção no tempo presente, nos fatos contemporâneos, enquanto se 
concretizam:  “O  romance  é  o  único  gênero  em  evolução,  por  isso  ele  reflete  mais 
profundamente,  mais  substancialmente,  mais  sensivelmente  e  mais  rapidamente  a 
evolução da própria realidade.” (BAKHTIN, 1998:400). E, se a realidade se altera, há a 
necessidade  da  “produção  de  um  novo  tipo  de  objetividade”,  de  acordo  com  a 
“transformação das atitudes subjetivas do leitor” (JAMESON, 1992:155). 
Lima  Barreto,  ao  fazer  representações  de seu  tempo,  de  um  real  inacabado,  se 
aproveita dessa liberdade de atuação do romancista. No entanto, independentemente dos 
dados da realidade do eu do autor ali presentes, o romance termina por ser o retrato de 


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um tempo em processo de profundas modificações, especialmente no que diz respeito 
ao papel do escritor e da recepção do objeto literário. 
Um  personagem  como  Isaías  Caminha  é  filho  de  seu  tempo;  só  pode  existir  e 
justificar-se em sua individualidade em consequência do tempo, histórico e social, em 
que vive e do espaço em que se insere. Como figura de um tempo de modernidade, tem 
na experiência diária a prática de sua  existência, uma vez que o cotidiano passa a ser 
“objeto merecedor de atenção representacional” (COHEN, 2004:260-1). 
A  proposta  de  leitura  do  romance  se  deu  a  partir  de  três  eixos:  o  processo  de 
desilusão do personagem Isaías Caminha, interiorano que projeta seus sonhos de futuro 
na capital, para onde se dirige repleto de pretensões; as transformações promovidas pelo 
Bota-Abaixo de Pereira Passos, com o centro da cidade se remodelando, expropriando 
de seu espaço os que não se encaixavam no perfil de cidade higienizada; a influência da 
imprensa na constituição político-social pós-República.  
O  ano  de  2013  foi  propício  para  a  leitura  do  romance  (feliz  ou  infelizmente), 
uma  vez  que  a  cidade  do  Rio  de  Janeiro,  e  todo  o  Brasil,  passava  (passa)  por  um 
processo  semelhante  de  transformação  do  espaço  físico-geográfico  empreendido  por 
Pereira  Passos  em  virtude  de  uma  série  de  eventos  que  o  país  e  a  cidade  receberam 
(receberiam), como a Jornada Mundial da Juventude, a Copa do Mundo, as Olimpíadas 
etc.  
O  início  do  século  XX  no  Rio  de  Janeiro  é  de  transformações  no  espaço 
geográfico que implicam modificações de ordem social, de modificações na estrutura de 
poder, com a imprensa passando a desempenhar um enorme poder.  
[...] Está tudo mudado: Abolição, República... Como isso mudou! Então, de 
uns  tempos  para  cá,  parece  que  essa  gente  está  doida;  botam  abaixo, 
derrubam  casas,  levantam  outras,  tapam  umas  ruas,  abrem  outras...  Estão 
doidos!!! (BARRETO, 1983:56, cap. II) 
É  o  Bota-Abaixo  de  Pereira  Passos,  é  a  cidade  se  remodelando,  se  espraiando 
para  os  subúrbios,  sendo  saneada,  modernizada,  adequada  ao  gosto  e  aos  valores 
europeus, modelo de civilização no qual nos espelhávamos. Para uma nova cidade, um 
novo  olhar,  uma  nova  apreensão  do  real,  uma  nova  dinâmica  de  percepção,  de 
apreensão  e  de  registro  do  olhar.  Coletamos,  como  forma  de  inserir  o  romance  no 
contexto atual, matérias jornalísticas a respeito das modificações na cidade (e  no país), 
de  modo  a  efetuar  uma  reflexão  crítica  sobre  os  processos  de  reformas  do  espaço 


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geográfico que ocorrerem no país ao longo da história. Os alunos fizeram um material 
comparativo, cotejando os elementos do romance com os da atualidade. 
A  imprensa,  por  sua  vez,  pode  ser  avaliada,  em  seu  processo  de  formação  e 
consolidação,  como  um  produto  do  próprio  sistema  de  desenvolvimento  do  mundo 
capitalista  burguês.  Nela,  encontram-se  solidificados  os  valores  da  burguesia, 
contribuindo em muito para a uniformização do pensamento e do comportamento dos 
indivíduos. O controle dos meios de difusão das ideias é uma das formas de transmissão 
de uma unidade de valores éticos, morais, sociais, culturais, políticos. Nesse sentido, a 
liberdade  de  informar  e  de  opinar  se  desenvolveu  de  acordo  com  os  interesses  do 
momento.  A  relação  entre desenvolvimento  da  imprensa  e capitalismo  torna-se,  desse 
modo,  evidente.  A  concentração  urbana,  o  surto  demográfico,  a  necessidade  de 
circulação de informações, de um mundo de produção de massa levaram a imprensa a 
revolucionar suas técnicas de produção, de modo a atender à demanda de um mundo em 
que relações mercadológicas passam a ser a regra:  
[...]  a  produção  ascensional  [de  massa]  provocou  a  abertura  de  novos 
mercados, a necessidade de conquistá-los conferiu importância à propaganda, 
e o anúncio apareceu como traço ostensivo das ligações entre a imprensa e as 
demais formas de produção de mercadorias. (SODRÉ, 1966:3) 
É  fácil  avaliar  a  terrível  força  da  engrenagem  que  se  compõe  de  agências  de 
notícias, agências de publicidade e cadeias de jornais e revistas, sua influência política, 
sua capacidade de modificar a opinião, de criar e manter mitos ou de destruir esperanças 
e  combater  aspirações.  Quando  se  verifica  que  essa  gigantesca  engrenagem  é  simples 
parafuso de engrenagem maior, a que pertence, do capitalismo monopolista, ainda mais 
fácil é estimar o seu alcance e poder. (SODRÉ, 1966:6) 
A força da imprensa se  mostra evidente no  romance em estudo, especialmente 
no aspecto manipulador, associado à destruição de esperanças e aspirações. A imprensa 
também  passava,  coincidentemente,  no  contexto  do  ano  de  2013,    por  um  processo 
semelhante  ao  vivenciado  no  romance,  modificando  suas  tendências  ao  sabor  das 
circunstâncias.  A  Rede  Globo,  em  um  erro  de  avaliação,  posicionou-se  contrária  às 
manifestações que se espalhavam pelo Brasil, no movimento que ficou conhecido como 
"Não são só 20 centavos" (Movimento Passe Livre). Inicialmente contrária, retificou sua 
posição,  inclusive  com  um  de  seus  articulistas,  Arnaldo  Jabor,    se  retratando 
publicamente  pelas  críticas  contundentes  feitas  em  rede  nacional.  [ver  matéria  em 
apêndice] 


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Assim um dos  personagens do romance, Leiva, avalia o poder do jornal à época:  
– Você exagera, objetou Leiva. O jornal já prestou serviços. 
– Decerto... não nego... mas, quando era manifestação individual, quando não 
era cousa que desse lucro; hoje, é a mais tirânica manifestação do capitalismo 
e a mais terrível também... É um poder vago, sutil, impessoal, que só poucas 
inteligências  podem  colher-lhe  a  força  e  a  essencial  ausência  da  mais 
elementar  moralidade,  dos  mais  rudimentares  sentimentos  de  justiça  e 
honestidade!  São  grandes  empresas,  propriedade  de  venturosos  donos, 
destinada a lhes dar o domínio sobre as massas, em cuja linguagem falam, e a 
cuja  inferioridade  mental  vão  ao  encontro,  conduzindo  os  governos,  os 
caracteres  para  os  seus  desejos  inferiores,  para  os  seus  atrozes  lucros 
burgueses...  Não  é  fácil  a  um  indivíduo  qualquer,  pobre,  cheio  de  grandes 
ideias,  fundar  um  que  os  combata...  Há  a  necessidade  de  dinheiro;  são 
precisos,  portanto,  capitalistas  que  determinem  e  imponham  o  que  se  deve 
fazer num jornal... [...] (BARRETO, 1983:96, cap. VII)   
O  prestígio  do  jornal  era  medido  pela  sua  ascendência  e  pela  quantidade  de 
anúncios que publicava, o que determinava, em certa medida, o seu grau de sucesso e de 
alcance: “[...] [Lobertant] forjava anúncios, ‘calhaus’, calhaus de ‘precisa-se’, de ‘aluga-
se’, de pequenos anúncios que, em abundância parecem ser o índice da prosperidade de 
um jornal” (BARRETO, 1983:125, cap.IX). O poder da imprensa se intensifica por ser 
o  veículo  de maior  consumo  da população  em  geral,  e,  consequentemente,  cresce  seu 
poder de manipulação: ´[pular a citação] 
Loberant  sabia  o  segredo  do  seu  sucesso  e  velava  pela  folha  com  cuidados 
especiais.  [...]  Tinha  uma  imaginação  doentia;  forjava  coisas  terríveis, 
inventava,  criava  crimes.  Eram  cárceres  privados,  enterramentos 
clandestinos, incestos, tutores dolosos, etc. (BARRETO, 1983:127, cap. IX) 
O jornal de Loberant nada mais é do que uma resposta às necessidades daquele 
momento histórico, e o narrador traça um quadro exemplar do processo de solidificação 
da República, dos interesses que se colocavam naquele momento e das consequências 
disso no êxito de um periódico como O Globo:  
A República saltou de dentro das nossas almas todas uma grande pressão de 
apetites  de  luxo,  de  fêmeas,  de  brilho  social.  O  nosso  império  decorativo 
tinha  virtudes  de  torneira.  O  encilhamento,  com  aquelas  fortunas  de  mil  e 
uma  noites,  deu-nos  o  gosto  pelo  esplendor,  pelo  milhão,  pela  elegância,  e 
nós  atiramo-nos  à  indústria  das  indenizações.  Depois,  esgotado,  vieram  os 
arranjos,  as  gordas  negociatas  sob  todos  os  disfarces,  os  desfalques, 
sobretudo a indústria política, a mais segura e a mais honesta. Sem a grande 
agricultura,  com  o  grosso  comércio  nas  mãos  dos  estrangeiros,  cada  um  de 


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nós,  sentindo-nos  solicitado  por  um  ferver  de  desejos  caros  e  satisfações 
opulentas, começou a imaginar meios de fazer dinheiro à margem do código 
e a detestar os detentores do poder que tinham a feérica vara legal de fornecê-
lo a rodo. Daí a receptividade do público por aquela espécie de jornal, com 
descomposturas diárias, pondo abaixo um grande por dia, abrindo caminho, 
dando esperanças diárias aos desejosos, aos descontentes, aos aborrecidos. E 
os outros jornais? Nos outros o suborno era patente; a proteção às negociatas 
da  gente  do  governo  não  sofria  ataques;  não  demoliam,  conservavam, 
escoravam os que dominavam. (BARRETO, 1983:127, cap. IX)  
As  grandes  negociatas  e  o  dinheiro  esbanjado  vinham,  em  grande  parte,  do 
processo  de  remodelação  da  cidade;  o  “Bota-abaixo”  de  Pereira  Passos  promoveu 
ganhos  sobre  as  desapropriações,  possibilitou  desvios  de  verba  e,  consequentemente, 
enriquecimentos  súbitos  e  ilícitos.  À  necessidade  real  de  saneamento  somou-se  a  de 
fazer  do  Rio  uma  Paris  tropical.  Havia  uma  “crise  de  elegância”  e  por  ela  pagava-se 
qualquer preço:  
E  os  da  frente,  os  cinco  mil  de  cima,  esforçavam-se  por  obter  as  medidas 
legislativas  favoráveis  à  transformação  da  cidade  e  ao  enriquecimento  dos 
patrimônios  respectivos  com  indenizações  fabulosas  e  especulações  sobre 
terrenos.  Os  Haussmanns  pululavam.  Projetavam-se  avenidas;  abriam-se 
plantas  squares,  delineavam-se  palácios,  e,  como  complemento,  queriam 
também uma população catita, limpinha, elegante e branca; [...] (BARRETO, 
1983:136, cap. X) 
Essa necessidade de ter uma “população catita e limpinha” casava-se aos anseios 
próprios ao período da  Restauração, de destruição da velha cidade e da  montagem da 
estrutura urbana:  
Quatro princípios fundamentais regeram o transcurso dessa metamorfose [...]: 
a  condenação  dos  hábitos  e  costumes  ligados  pela  memória  à  sociedade 
tradicional;  a  negação  de  todo  e  qualquer  elemento  da  cultura  popular  que 
pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante; uma política 
rigorosa de expulsão dos grupos populares da área central da cidade, que será 
praticamente isolada para o desfrute exclusivo das camadas aburguesadas; e 
um  cosmopolitismo  agressivo,  profundamente  identificado  com  a  vida 
parisiense. (SEVCENKO, 1989:30) 
Desse processo, como já mencionado, todos tentaram buscar algum lucro, tanto 
os  políticos  quanto  a  imprensa,  com  seu  poder  de  fazer  e  desfazer  imagens.  As 
campanhas  para  tornar  mais  civilizada  a  população  carioca  de  baixa  renda  foram 
comuns  à  época,  chegando  a  situações  que  beiravam  o  absurdo,  como  a  tentativa  da 
criação da lei de obrigatoriedade do uso de paletó e sapatos para todas as pessoas, sem 


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exceção,  que  quase  foi  levada  a  termo,  sendo  seriamente  (?)  discutida  pelo  Conselho 
Municipal  (SEVCENKO,  1989:33).  O  projeto  de  lei  não  vingou  na  realidade,  mas 
vingou como ficção.  
Loberant  e  seu  jornal  atacam  ferozmente  a  lei  da  obrigatoriedade  dos  sapatos, 
em  busca  de  afirmar-se  politicamente  e mostrar  seu  poder,  ampliando  ainda  mais  sua 
possibilidade  de  influenciar  os  rumos  do  país:  “todos  os  transeuntes  da  cidade,  todos 
que saíssem à rua seriam obrigados a vir calçados” (BARRETO, 1983:136, cap. X). A 
obrigatoriedade cria especulações várias, inclusive a de que quem tivesse pés  grandes 
teria de operar para diminuí-los, como na China, o que ficou conhecido como “operação 
chinesa”. A citada lei estava em discussão pelas ruas da cidade, mas ninguém lhe dera 
real  atenção,  pois  o  crime  de  Santa  Cruz  mobilizara  o  jornal  e  a  opinião  pública. 
Solucionado o mistério, a lei ecoa no ambiente de O Globo e o diretor vê nesse fato um 
elemento  importante  de  projeção  e  avaliação  da  capacidade  de  influir  no  curso  dos 
eventos.  O  jornal,  com  seus  artigos,  insufla  a  população  a  colocar-se  contra  a  lei  e 
termina  por  ser,  indiretamente,  responsável  por  uma  rebelião  que  custou  a  vida  de 
alguns cidadãos. 
A discussão, ao chegar ao ambiente jornalístico, também gera controvérsias, e o 
absurdo  da  proposta  é  destacado  justamente  pelo  olhar  do  estrangeiro,  Gregoróvitch, 
que  critica  o  descompasso  existente  entre  nossa  realidade  e  nosso  desejo  de  sermos 
franceses nos trópicos:  
Entrava  no  momento  Leiva,  que  fazia  polícia  e  “Vida  Operária”.  Sentindo 
que se falava na questão dos sapatos, interveio na palestra: 
–  Vocês  não  imaginam...  As  coisas  estão  feias!  Estive  na  Gamboa  e  na 
Saúde... Os estivadores dizem que não se calçam nem a ponta de espada. Não 
falam  noutra  cousa.  Vi  um  carroceiro  dizer  para  outro  que  lhe  ia  na  frente 
guiando pachorrentamente: Olá He! Estás bom para andares calçado que nem 
um doutor! Por aí vocês avaliam... Creio que há “turumbamba”! 
–  Agora,  aqui  para  nós,  aduzia  Floc,  a  cousa  é  necessária...  Causa  má 
impressão ver essa gente descalça... Isso só nos países atrasados! Eu nunca vi 
isso na Europa... 
– Ora, deixa-te disso Floc! Observou Gregoróvitch que entrara. No Norte, é 
justo, o clima, o gelo; mas no Sul, em Nápoles, na Grécia, vê-se muito... 
– Isso não é Europa. 
– Engraçado! Com que liberdade modificas a geografia... E em Londres? 
– Que tem Londres? 
 
– Que tem! Não há cidade do mundo em que a multidão seja mais andrajosa, 


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mais repugnante...   
– Andam de casaco e sapatos! Gritou triunfantemente Floc. 
–  Que  casaco!  Que  sapatos!  Naturalmente  que  hão  de  procurar  coberturas 
para o frio, mas onde vão buscá-las? Ao lixo e é um disparate! Se queres uma 
multidão  catita,  arranja  meios  de  serem  todos  remediados.  Vocês  querem 
fazer  disto  uma  Paris  em  que  se  chegue  sem  gastar  a  importância  da 
passagem ao mesmo tempo ganhando dinheiro, e esquecem de que o deserto 
cerca  a  cidade,  não  há  lavoura,  não  há  trabalho  enfim...  (BARRETO, 
1983:163-4, cap. XII)  
No  discurso  de  Gregoróvitch  se  destaca  a  dissonância  entre  a  realidade  social 
brasileira  e  o  desejo  de  uma  cidade  remodelada,  tanto  do  ponto  de  vista  geográfico 
quanto no de usos, costumes, do ambiente. No centro, uma cidade parisiense, ao redor 
um  deserto  de  desvalidos,  a  periferia  destituída,  retrato  de  uma  cidade  que  se 
reestruturou urbanisticamente sem se preocupar em fazer o mesmo com os  subúrbios, 
para  onde  se  dirigiu  boa  parte  da população  que  ocupava  as  ruas  centrais,  ou  com  os 
morros. Ao mesmo tempo, traça também um retrato do país, preocupado quase sempre 
com as aparências, com um desenvolvimento de fachada, com políticas pouco voltadas 
para  questões  de  ordem  estrutural,  que  propiciariam  um  desenvolvimento  mais 
igualitário e consistente.  
Insistindo  que  o  ato  do  governo  era  um  atentado  contra  a  população,  o  jornal 
incute  no  povo  a  semente  da  revolta,  que  eclode  em  um  motim  que  toma  as  ruas  da 
cidade.  A  insistência  com  que tematiza o  assunto  e  a reiteração  da oposição  à  lei  são 
destacadas  pelo  narrador  como  elementos  que  favoreceram  o  recrudescimento  do 
sentimento  de  revolta.  A  agitação  mantém-se  por  três  dias,  com  barricadas,  lutas  e 
trocas de tiros entre populares e a polícia. Não havia chefes ou ordem naquela rebelião, 
que  se  manifestava  aqui  e  ali,  formada  pelos  mais  díspares  tipos  sociais:  garotos  e 
moleques;  vagabundos;  desordeiros  profissionais;  pequenos  burgueses,  empregados, 
caixeiros, estudantes; emissários de políticos descontentes (BARRETO, 1983:167, cap. 
XII).  O  jornal  estimula  o  conflito,  exaltando  os  atos  dos  populares,  sem  expor,  no 
entanto,  os  prejuízos  causados,  especialmente  os  humanos,  com  as  mortes  sendo 
escamoteadas, ocultas nas páginas. A manipulação da informação, os fatos abordados ao 
sabor  da  ocasião  e  dos  interesses  da  imprensa  se  evidenciam  no  episódio  de  maneira 
exemplar: 
No jornal exultava-se. As vitórias do povo tinham hinos de vitórias da pátria. 
Exagerava-se, mentia-se para se exaltar a população. Em tal lugar, a polícia 
foi repelida; em tal outro, recusou-se a atirar sobre o povo. Eu não fui para 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3472 
casa,  dormi  pelos  cantos  da  redação  e  assisti  à  tiragem  do  jornal:  tinha 
aumentado cinco mil exemplares. [...]  
[...] Houvera  muitas  mortes assim [por bala perdida], mas os  jornais não as 
noticiavam.  Todos  eles  procuravam  lisonjear  a  multidão,  mantê-la  naquelas 
refregas  sangrentas,  que  lhes  aumentava  a  venda.  Não  queriam  abater  a 
coragem do povo com a imagem aterradora da morte. A polícia atirava e não 
matava; os populares atiravam e não matavam. [...] (BARRETO, 1983:167-8, 
cap. XII, grifos nossos) 
O capítulo XII termina com uma cena plasticamente construída para destacar e 
exemplificar esse poder de manipulação e o desinteresse da imprensa pelo lado humano 
do  motim,  casando-se  magistralmente  com  o  início  do  capítulo  subsequente.  Isaías 
afirma  ter  visto  uma  morte,  logo  em  frente  ao  jornal,  e  o  narrador  passa  a  narrar  o 
evento como se fosse um observador, como de fato foi o papel desempenhado por ele. 
Após  informar  o  leitor  a  respeito  da  morte,  introduz  a  figura  de  um  italianinho, 
encarregado  de  apregoar  os  jornais  e  seus  assuntos,  vendendo  os  periódicos  da  tarde. 
Paralela a essa ação, o narrador costura a imagem da cidade já retomando a sua rotina, 
quando, subitamente, instala-se, da forma como geralmente transcorreram os episódios 
do  conflito,  um  clima  de  confronto  entre  a  polícia  e  populares,  e  o  italianinho, 
personagem  secundário,  no  centro  da  ação  somente  por  ser  porta-voz  daqueles  que 
fazem a notícia, é atropelado por cavalos e “atirado de um lado para outro como se fosse 
um bocado de lama” (BARRETO, 1983:168, cap. XII). Da mesma forma descuidada, o 
corpo é levado à redação do jornal.  
O capítulo seguinte se inicia da seguinte forma: “O homem que acaba de morrer 
não  era  um  homem  vulgar”  (1983:169,  cap.  XIII).  Ainda  sob  o  impacto  da  cena  que 
fecha o capítulo precedente, o leitor é induzido a acreditar que ali se noticia a morte do 
vendedor  de  jornais.  No  entanto,  o  leitor  se  surpreende,  no  decorrer  da  leitura,  ao 
constatar  que  se  trata  do  obituário  do  cozinheiro  particular  de  Loberant,  tal  qual 
publicado  no  jornal,  o  qual  ainda  apresentava  uma  tarja  preta,  em  sinal  de  luto.  A 
construção  do  texto,  em  que o  término  de um  capítulo  e o  início  do  outro  enfocam  o 
mesmo  assunto  —  a  morte  de  uma  pessoa  —  em  abordagens  tão  diferentes,  é 
extremamente irônico. O narrador, ao se manter no mesmo tema, nos induzindo a uma 
leitura  preliminar  equivocada,  demonstra  a  futilidade  de  que  se  reveste  a  prática 
jornalística, que dá destaque a um fato sem importância – ou que só teria importância 
para os familiares e para o diretor do jornal – e ignora os eventos relevantes. Ou seja, a 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3473 
relevância de um assunto é particular, diz respeito ao universo de quem detém o poder 
de produzir a notícia.   
Todas  essas  questões,  vinculadas  aos  eventos  cotidianos  do  mundo 
contemporâneo,  levaram  a  discussões  intensas  em  sala  de  aula,  promovendo  uma 
reflexão  acerca  dos  processos  histórico-sociais  pelos  quais  passou  e  passa  o  país.  O 
produto  final  foram  debates  em  torno  de  temas  como  urbanização,  ética  e  imprensa, 
sonhos X realidade, papel do intelectual no mundo capitalista, com produções textuais 
dos  alunos  refletindo  as  discussões.  Quase  um  século  depois,  o  romance  de  Lima 
Barreto propiciou um olhar sobre a realidade brasileira, mostrando a atualidade de sua 
produção, e fazendo o que o autor sempre considerou ser um dos aspectos fundamentais 
da boa literatura: levar à reflexão. 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
BAKHTIN,  Mikhail.  1993.  Epos  e  romance:  sobre  a  metodologia  do  estudo  do 
romance.  In:  ______.Questões  de  literatura  e  de  estética:  a  teoria  do  romance.  São 
Paulo: Hucitec, Editora da UNESP.
  
 
BARBOSA,  Jacqueline.  (2007).  A  Mediação  na  Tutoria  Online:  o  Entrelace  que 
Confere Significado à Aprendizagem. http://www.teses.ufc.br.
 
 
BARRETO,  Lima.  1983.  Recordações  do  escrivão  Isaías  Caminha.  São  Paulo: 
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BENJAMIN, Walter. 1989. Paris, capital do século XIX. São Paulo: Brasiliense. 
 
CÂNDIDO, Antonio. 1959. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Itatiaia. 
 
COHEN, Margaret. 2004. A literatura panorâmica e a invenção dos gêneros cotidianos. 
In: ______. O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naif. 
 
DALVI, Maria Amélia. 2013. Leitura e literatura na escola. São Paulo, SP: Parábola. 
 
JAVIER-FALEIROS. 2013. Leitura e literatura na escola. São Paulo, SP: Parábola. 
 
LIMA 
BARRETO,  Afonso  H.  1983.  Recordações  do  escrivão  Isaías  Caminha.  São 
Paulo: Brasiliense.  
 
LIMA BARRETO, Afonso H. 2004. Toda crônica: Lima Barreto. Rio de Janeiro: Agir. 
 
SEVCENKO, Nicolau. 1989. Inserção Compulsória do Brasil na Belle Époque. In: 
Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São 
Paulo: Brasiliense. p. 28. 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3474 
SODRÉ,  Nelson  Werneck.  1966.  A  história  da  imprensa  no  Brasil.  Rio  de  Janeiro: 
Civilização Brasileira,  
 
 
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 
BARBOSA, Francisco de Assis. 1989. Prefácio. In: SEVCENKO, Nicolau. Literatura 
como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: 
Brasiliense. p.15 
 
CANDIDO,  Antônio  (et  al.).  1992.  A  crônica:  o  gênero,  sua  fixação  e  suas 
transformações  no  Brasil.  Campinas,  SP:  Editora  da  UNICAMP;  Rio  de  Janeiro: 
Fundação Casa Rui Barbosa. 
 
LIMA 
BARRETO, 
Afonso 
H. 
Marginália. 
Disponível 
em: 
.  Acesso em maio de 2015. p.5. 
 
LIMA BARRETO, Afonso H. 1956. “Botafogo e os Pró-Homens”. Careta, Rio, 6-8-
1921. In: 
Vida Urbana. São Paulo: Ed. Brasiliense, p. 259 – Obras de Lima Barreto, vol. 
XI. 
 
LIMA BARRETO, Afonso H. 1961. Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, p.96.
 
 
 
Apêndices 
 
JABOR, QUE ATACOU MANIFESTAÇÕES, ADMITE QUE ERROU 
 
Comentarista  da  Globo  faz  autocrítica  depois  de  ter  chamado  os  integrantes  do 
Movimento Passe Livre de "revoltosos de classe média" que não tinham nem uma 
causa  pela  qual  lutar,  como  há  hoje  na  Turquia;  à  CBN,  ele  diz  que  aquele 
movimento  que "tinha  toda  a  cara  de anarquismo  inútil"  expandiu-se como  "uma 
força política original, até mais rica do que os caras pintadas”. 
 
 
17 DE JUNHO DE 2013 ÀS 14:44 
 
O  comentarista  da  Rede  Globo  Arnaldo  Jabor  fez,  nesta  segunda-feira,  uma 
"autocrítica", como ele próprio definiu, em relação aos ataques que desferiu contra 
os  integrantes  do  Movimento  Passe  Livre na  semana  passada  durante  o Jornal  da 
Globo.  Segundo  ele,  que  admitiu  à  rádio  CBN  ter  errado  na  avaliação  após  o 
primeiro protesto, aquele movimento que "tinha toda a cara de anarquismo inútil" 
expandiu-se  como  "uma  força  política  original,  até  mais  rica  do  que  os  caras 
pintadas", jovens que "derrubaram um presidente", lembra. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3475 
 
Depois de outras manifestações contra o aumento da passagem em São Paulo, Jabor 
diz que "ficou claro, com a violência maior da polícia", que a causa não era apenas 
o  protesto  contra  20  centavos  a  mais  na  tarifa  de  ônibus.  O  comentarista  diz  ter 
criticado o movimento porque temia que  "tanta energia fosse  gasta em bobagens, 
quando há graves problemas a enfrentar no Brasil”. "Mas a partir de quinta-feira, 
com  a  violência  maior  da  Polícia,  ficou  claro  que  o  Movimento  Passe  Livre 
expressava uma inquietação que tardara muito no País", disse. 
 
Desde 92, diz ele, faltava algo como os "caras pintadas". E o MPL se mostra "mais 
rico"  que  o  antigo  movimento,  em  sua  opinião,  "justamente  porque  não  tem  um 
rumo,  um  objetivo  certo,  a  priori".  Jabor  conclui,  em  seu  comentário,  que  "essa 
energia do Passe Livre tem que ser canalizada para melhorar as condições de vida 
do Brasil". "Tudo está parado e essa oportunidade não pode ser perdida. De um fato 
pequeno  pode  sair  muita  coisa,  muito  crime  pode  estar  escondido  atrás  de  uma 
bobagem", diz ele. 
 
No comentário ao Jornal da Globo, o comentarista criticou a causa dos protestos, 
citando  os  20  centavos  e  chamando  os  manifestantes  de  "revoltosos  de  classe 
média".  "Ali  não  havia  pobres  que  precisassem  daqueles  vinténs  não,  os  mais 
pobres  ali  eram  os  policias  apedrejados,  ameaçados  com  coquetéis  molotov,  que 
ganham muito mal", disse Jabor, na última quarta-feira 12. Ele acrescentou que a 
luta  na  Turquia  é  justa,  contra  um  islamismo  fanático,  mas  aqui,  "se  vingam  de 
quê?",  questionou.  "Justamente  a  causa  deve  ser  a  ausência  de  causas.  Ninguém 
sabe mais por que lutar", concluiu. 
http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/105579/Jabor-que-atacou-manifestações-
admite-que-errou.htm  



De volta ao futuro da língua portuguesa.  
Simpósio 22 - Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa, 3477-3492 
ISBN 978-88-8305-127-2 
DOI 10.1285/i9788883051272p3477 
http://siba-ese.unisalento.it, © 2017 Università del Salento 
 
 
 
3477 
ASPETOS SOBRE O CONJUNTIVO NO PORTUGUÊS DE ANGOLA 
 
 
Maria João MARÇALO
74
  
João Muteteca NAUEGE
75
 
 
 
RESUMO 
A reflexão sobre o uso do conjuntivo em Angola apresenta algumas particularidades que 
o  português  de/em  Angola  vai  tomando,  o  artigo  foca  aspetos  em  que  o  uso  do 
conjuntivo  se  distancia  cada  vez  mais  do  consagrado  no  Português  padrão  europeu, 
havendo assim uma tendência crescente de as formas tidas como desviantes se tornarem 
mais recorrentes, sendo usadas quer por pessoas menos escolarizadas quer por pessoas 
com aceitáveis níveis de escolaridade. 
 
 
PALAVRAS-CHAVE: Modo; Conjuntivo; Indicativo; Português em Angola 
 
 
1.Breve excurso sobre o português em Angola  
 
O Português chega a Angola com a colonização do território que é hoje Angola, 
nos finais do século XV, 1482. Com o desembarque dos primeiros navegadores a foz do 
rio  Congo,  começaria,  assim,  a  ser  construído  um  cenário  político  da  colonização  do 
atual território angolano, que por sinal, veio a prolongar-se até meados do século XX, 
portanto, 1975.     
Tendo  sido  o  Português  a  língua  de  colonização,  assistiram-se  a  políticas 
impositivas  no  seu  ensino  e  consequente  expansão,  dando  lugar  ao  processo  de 
regressão das línguas africanas angolanas, com vista à assimilação cultural e linguística 
de  tudo  que  era  português  (língua,  política  e  cultura)  e  desassimilação  de  língua  e 
culturas  africanas  de  Angola,  criando-se  o  estatuto  de  “assimilado”  para  quem  assim 
procedesse,  ou  seja,  quem  aderisse  à  língua  e  a  cultural  portuguesas  e  negasse  a  sua 
identidade  africana  de  forma  radical,  passava  a  ter  o  estatuto  de  assimilado, 
consequentemente usufruía de algumas benesses com o seu novo estatuto.   
                                                 
74 
Universidade  de  Évora,  Departamento  de  Linguística  e  Literaturas.  Largo  dos  Colegiais,  2,  7000. 
Évora, Portugal. E-mail: 
marcalomaria@gmail.com                                                          
75 Contato: nauegejoaonauege@yahoo.com.br 
Atas do 
96,0(/36Lmpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3478 
As medidas coercivas passaram a ter um respaldo legal, com o então Governador 
de Angola, Norton de Matos, em 1921, tendo decretado a proibição da fala das línguas 
africanas de Angola, ou línguas indígenas, como também eram chamadas, em todos os 
atos,  salvo  raras  exceções,  se  o  seu  uso  fosse  para  a  disseminação  do  ensino  do 
Português, diploma legislativo
76
 do qual recuperamos alguns excertos: 
(…)  Art.2º  Não  é  permitido  ensinar  nas  escolas  das  missões  línguas 
indígenas.   
Art.3º  O  uso  da  língua  indígena  só  é  permitido  em  linguagem  falada  na 
catequese e, como auxiliar, no período do ensino da língua portuguesa. 
 1º  §  É  vedado  na  catequese  das  missões,  nas  suas  escolas  e  em  quaisquer 
relações com os indígenas o emprego das línguas indígenas por escrito ou de 
outra língua que não seja a portuguesa por meio de folhetos, jornais, folhas 
avulsas e quaisquer manuscritos.  
 2º § Os livros de ensino religioso não são permitidos noutra língua que não 
seja  a  portuguesa,  podendo  ser  acompanhado  o  texto  português  de  uma 
versão paralela em língua indígena.  
 3º § O emprego da linguagem falada a que se refere o corpo deste artigo e o 
da  versão  em  língua  indígena,  nos  termos  do  parágrafo  antecedente,  só  são 
permitidos transitoriamente e enquanto se não generalize entre os indígenas o 
conhecimento  da  língua  portuguesa,  cumprindo  aos  missionários  substituir 
sucessivamente e o mais possível em todas as suas relações com os indígenas 
e na catequese as línguas indígenas pela língua portuguesa. 
O fardo herdado da colonização (assimilação do português e desassimilação das 
línguas  africanas  de  Angola,  maioritariamente  bantu),  ainda  é  visível,  fruto  de  o 
Português  mesmo  com  a  independência  de  Angola,  ter  visto  o  seu  estatuto  de  língua 
oficial
77
 reconhecido, por um lado; devido ao multilinguismo e a diversidade cultural de 
Angola,  por  outro;  por  ser  a  língua  que  fora  durante  séculos  adotada  como  de 
escolarização e de contacto com o exterior. 
                                                 
76 Decreto nº 77, de 9 de Dezembro de 1921: Boletim Oficial de Angola, nº 50, 1ª série 
77 Outra situação que concorreu para o aumento do número de falantes de Português foi a massificação 
do ensino. No período que se seguiu à proclamação da independência (…), o ensino tornou-se gratuito, 
facto que terá motivado uma grande afluência às escolas e, por esta razão, um aumento considerável dos 
falantes de Português. (Cf. Cabral, 2005:1. Dissertação de Mestrado em Linguística, FLUL, Universidade 
de Lisboa). 
(…)  Embora  o  Português  goze  de  um  estatuto  de  supremacia,  tendo  em  conta  que  se  assume  como  a 
língua  oficial  do  País,  relegando  para  segundo  plano  as  demais  que  com  ele  coabita.  Seja  qual  for  o 
estatuto que se possa atribuir a estas línguas vulgarmente conhecidas como “línguas nacionais”, elas são 
funcionais e desempenham um papel fundamental para a comunicação dos povos, ajudando também na 
manutenção e preservação do património e da identidade cultural das comunidades bantu e não bantu do 
País.  (Cf.  Nauege,  2015:7.  Dissertação  de  Mestrado  em  Linguística,  FCSH,  Universidade  Nova  de 
Lisboa).  
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3479 
Atualmente, o prestígio que o Português ganhou, por razões acima expostas, não 
coíbe as autoridades angolanas de adotarem uma política, mais ou menos, protecionista, 
em  relação  às  línguas  africanas  de  Angola,  com  a  sua  inserção  no  sistema  de  ensino, 
mesmo  que  se  verifique  de  modo  incipiente,  mas  é  um  facto  assinalável  por  vir  a 
contribuir para a promoção das línguas africanas de Angola. 
Assim, dada a diversidade linguística, numa primeira fase, foram escolhidas as 
línguas  africanas  (bantu)  maioritárias,  também  designadas  de  línguas  nacionais: 
Kikongo, Kimbundu, Umbundu, Cokwe, Kwanyama, Nganguela/mbunda,etc.   
Já nos parece ser consensual por parte de diversos linguistas angolanos, e não só, 
nos  seus  estudos  considerarem  ou  reconhecerem  um  rumo  diferente  que  o  português 
falado em Angola vai tomando, que, aos poucos se vai distanciando da norma padrão-
europeia, fruto de uma dinâmica sociolinguística, quer no léxico, na morfossintaxe, na 
fonética e na semântica. 
Cunha  e  Cintra  (1984:24)  já  se  pronunciaram  a  respeito  da  variedade  do 
português falado em Angola:  
(…) Trata-se de um português com base na variedade europeia, mas mais ou 
menos  modificado,  sobretudo  pelo  emprego  de  um  vocabulário  proveniente 
das  línguas  nativas,  e  a  que  não  faltam  algumas  caraterísticas  próprias  no 
aspeto  fonológico  e  gramatical.  (…)  Caraterísticas  (…)  divergem  de  região 
para região, ainda não foram suficientemente observadas e descritas, embora 
muitas delas transpareçam  na  obra de alguns dos  modernos escritores deste 
país.  
De  entre  os  angolanos  podemos  nos  referir  a  Mingas  (1998),  do  contubérnio 
havido  entre  o  português  e  diversas  línguas  de  Angola  “(…)  resultou  ou  mais 
precisamente,  está  a  resultar  desse  contacto,  mais  concretamente,  o  português  de 
Angola”,  p.114;  Cabral  (2005)  “Nos  últimos  30  anos  provavelmente  porque  mais 
angolanos falam Português do que até à data da independência, (…) parece acentuar-se 
o  distanciamento  da  variedade  angolana  do  Português  relativamente  à  variedade 
europeia”, p.2; e Costa (2006) “centrando-se tal variante na respeitabilidade do regime 
lógico-gramatical  vigente,  no  domínio  da  língua  portuguesa,  caracteriza-se,  (…),  por 
incorporação na sua estrutura de marcas lexicais originárias das línguas bantu”, p.49; e 
tantos outros reconhecem, nestes termos, os contornos que o Português tem ganhado em 
Angola fruto de interferências linguísticas das línguas bantu.   
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3480 
2. Descrição sobre o Conjuntivo 
 
O conjuntivo em Latim língua da qual o português proveio e herdou inúmeros 
paradigmas gramaticais está suficientemente documentado, a ponto de ter sido definida 
a sua taxinomia e usos específicos em: 
Potencial  ou  de  possibilidade,  no  qual  se  apresenta  a  ação  como  possível; 
equivale a uma afirmação atenuada. 
               (74) Forsitan quis dixĕrit. 
               Talvez alguém diga.  
Optativo, com o qual se exprime o desejo, podendo ser realizável ou irrealizável. 
                (75) Ad quam (senectūtem) utinam perveniātis. 
                Oxalá chegueis a ela.                                                                  
                (76) Velim Mihi ignoscas 
               Queria que me pudesses perdoar (podes fazê-lo). 
               (77) Utinam Sulpicius vivĕret! 
               Oxalá Sulpício vivesse ainda! (mas não vive). 
               (78) Vallem Socrătes adesset. 
               Queria que Sócrates estivesse presente (mas não é possível). 
Dubitativo  ou  deliberativo,  com  o  qual  se  indica  a  incerteza  sobre  o  que  deve 
fazer-se. 
              (79) Na ego non provideam meis civĭbus. 
             Não hei-de eu olhar pelos meus concidadãos? 
             (80) Quid facĕrem? 
             Que havia eu de fazer? 
 Exortativo, com este suprem-se as formas que faltam ao imperativo, indicando 
ordem e proibição. 
                (81) Amēmus patriam  
                Amemos a pátria. 
                (82) Ne dixĕris. Ne faciat 
                Não digas. Não faça (ele). 
Por  oposição  ao  indicativo,  o  conjuntivo  em  Latim  é  associado  ao  irreal,  ao 
potencial,  ao  desejável,  à  ordem  e  ao  eventual,  semelhantemente  valores  que  o 
conjuntivo em língua Portuguesa também herdou. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3481 
Figueiredo e Almendra (1977:216) dão-nos conta de que o conjuntivo é o modo 
que traduz o desejo, a dúvida, o conhecimento que temos por ouvir dizer, tudo o que é 
hipotético. 
Na  passagem  evolutiva  do  Latim  para  o  Português,  convenhamos  recordar,  do 
Latim  clássico  para  Latim  vulgar  e  deste  para  o  Português,  houve  mudanças 
substanciais nalguns paradigmas gramaticais. Se no Latim o conjuntivo veiculava, ou, 
simplesmente  traduzia  o  desejo,  o  hipotético  e  o  irreal;  em  Português  o  conjuntivo 
também  traduz  o  desejo,  o  hipotético,  o  irreal  e  o  real  (valores  de  verdade),  nalguns 
casos,  por  exemplo,  com  verbo  factivo  (lamentar)  e  em  construções  concessivas 
(embora). 
             (83) Lamento que estejas doente. 
             (84) Embora seja domingo, o Paulo está a trabalhar.         
Com  o  verbo  factivo  (lamentar)  e  a  conjunção  concessiva  (embora),  era 
expetável que o predicado e a conjunção pedissem o indicativo e não o conjuntivo, por 
se tratar de factos reais que são asseridos nas construções, sendo [+asserção] nas duas 
construções e não [-asserção].  
Ressalte-se  que  as  frases  (83)  e  (84)  são  casos  do  português  que  não  se 
coadunam com o paradigma da seleção modal do Latim, ou seja, no Latim seleciona-se 
o  indicativo  quando  a  proposição  é  [+  real,  +assertiva,  +verdadeira]  e  seleciona-se  o 
conjuntivo quando a proposição [-real, -assertiva, -verdade].    
Parece-nos  ser  uma  hipótese  a  considerar,  que,  a  variação  na  seleção  do 
conjuntivo  em  Português  em  contexto  em  que  em  Latim  apenas  se  selecionaria  o 
indicativo,  pode  explicar-se  como  resultado  da  lenta  transformação  do  latim  clássico 
para  Latim  vulgar  e deste para Português, processo do qual resultaram  muitas línguas 
novilatinas  com  caraterísticas  próprias,  cujos  alguns  paradigmas  foram  suprimidos  e 
outros tendo-se mantido intactos. 
 A respeito dos tempos verbais Matoso Camara Jr. (1979:132) observa que: “o 
sistema  do  subjuntivo  latino  apresentava  quatro  tempos,  dois  imperfeitos  e  dois 
perfeitos, na passagem para Português, conservaram-se alguns tempos, outros tomaram 
novas funções e alguns deixaram de existir”.        
Matoso  Camara  Jr.  (1985)  afirma  também  que  há  “uma  forte  e  acentuada 
tendência  para  a  redução  da  área  de  emprego  do  subjuntivo”,  isto  por  haver  uma 
variação livre, nalguns casos. 
             (85) Espero que venhas. [conjuntivo] 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3482 
             (86) Espero que virás. [indicativo] 
             (87) Esperava que viesses. [conjuntivo] 
             (88) Esperava que virias. [condicional] 
De acordo com o autor, há uma diferenciação que se pode considerar de base em 
termos  funcionais  entre  o  conjuntivo  em  Latim  e  em  Português,  neste  último,  são 
reconhecidas  as  formas  de  conjuntivo  como  não  sendo  autónomas,  estando  sempre 
subordinadas às formas  de orações matriz;  embora reconheça o uso do conjuntivo em 
orações independentes, Matoso Camara Jr. afirma também que ao se expressar o desejo, 
a dúvida, a hipótese ou a possibilidade, tal facto ocorre “no âmbito de uma comunicação 
dependente de outra nela contida” (p.133).     
O posicionamento de Matoso Camara Jr. decorre do facto de  considerar que o 
uso  do  conjuntivo  em  Português,  particularmente,  já  se  terá  tornado  numa  “servidão 
gramatical”  (1968),  pois  não  marca  quaisquer  valores  semânticos,  considerando  que 
também  se  podem  veicular  as  caraterísticas  modais  do  conjuntivo  com  o  uso  do 
indicativo: 
            (89) Suponho que seja verdade. [conjuntivo] 
            (90) Suponho que é verdade. [indicativo] 
Fonseca (1970) 
A  autora  no  seu  estudo  procura  algumas  particularidades  que  o  conjuntivo 
apresenta no panorama modal do português, particularidades estas que o distinguem dos 
demais  modos.  Fonseca  põe  em  causa  a  existência  autónoma do  conjuntivo,  surgindo 
apenas  para  preencher  uma  função  sintática  em  que  as  subordinadas  dependem  das 
subordinantes,  neste  caso,  o  conjuntivo  é  obrigatório,  ideia  que  defende  com  as 
seguintes construções: 
               (91) É bom que estejas aqui. 
              (92) Estás aqui, é bom. 
Na  visão  da  Fonseca  (1970:165),  os  exemplos  supra  são  equivalentes,  ou 
melhor, o significado é igual, quer dizer, o modo conjuntivo expresso na primeira frase 
(91) representa apenas a dependência sintática, subordinada-subordinante, não passa de 
uma forma vazia.  
No  seguimento  das  suas  considerações,  a  autora  afirma  que  nas  orações 
subordinadas  completivas,  onde  o  conjuntivo  ocorre  com  valor  modal,  o  seu  valor  é 
mesmo  virtual,  pois  em  muitas  dessas  construções  (completivas  de  verbos)  significa 
ordem, proibição, exortação, permissão e desejo. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3483 
No seu estudo, Fonseca observa a possibilidade de muitos dos valores do modo 
conjuntivo estarem associados a um valor que pode considerar-se comum, nestes termos 
(1970:164,165): 
O  conjuntivo  começou  por  estar  vinculado,  pelo  seu  significado  modal,  à 
expressão de situações reais de dependência; depois generalizou-se o seu uso 
como expressão da dependência linguística, que pode ou não corresponder a 
uma  dependência  lógica,  nos  casos  em  que  corresponde,  conserva-se  em 
maior  ou  menor  grau,  o  seu  valor  modal  tendo  portanto  o  conjuntivo  o 
conteúdo significativo; nos casos em que não corresponde, é uma mera forma 
esvaziada de conteúdo, que exprime uma relação sintáctica de dependência.    
Recorrendo  a  outras  construções  infra,  a  autora  sugere  que  a  ocorrência  do 
conjuntivo em orações simples deve ser interpretada como uma ocorrência de orações 
subordinadas a um verbo que expresse as ideias precedentes, mesmo que esse verbo não 
apareça realizado.  
                    (93) Ele procura um livro que trata disso. 
                    (94) Ele procura um livro que trate disso. 
É  clara  a  associação  do  conjuntivo  à  virtualidade,  distinguindo-se  de  outros 
modos verbais do Português. É relevante lembrar, a autora explica que o uso obrigatório 
do  conjuntivo  em  subordinação  sintática  se  deve  ao  facto  de  o  verbo  no  conjuntivo 
veicular meramente um valor de virtualidade.  
Nas duas frases (subordinação), podemos ter duas interpretações diferentes, à luz 
do exposto anteriormente quanto aos valores do conjuntivo e do indicativo. Na primeira 
frase (93) trata-se de um livro que realmente existe, factual, e no segundo exemplo (94) 
o valor é virtual, potencial ou hipotético por se desconhecer se realmente “o livro que 
trate disso” existe ou não. 
Cunha e Cintra (1984) 
O  nome  conjuntivo  provém  do  latim  “conjunctivus”  que  serve  para  ligar, 
denotando uma ação ainda não realizada, que se concebe como ligada a outra, expressa 
ou que se subentende (Cunha e Cintra,1984: 464). 
Cunha  e  Cintra  (ibidem.)  assumem  que  “o  conjuntivo  é  o  modo  exigido  nas 
orações  que  dependem  de  verbos  cujo  sentido  está  ligado  à  ideia  de  ordem,  de 
proibição, de desejo, de vontade, de súplica, de condição e outras correlatas”. A título 
de  exemplo,  temos  os  verbos  desejar,  duvidar,  implorar,  lamentar,  negar,  ordenar, 
pedir, proibir, querer, rogar, e suplicar”. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3484 
O  conjuntivo  independente  emprega-se  em  orações  absolutas,  em  orações 
coordenadas ou em orações principais, o conjuntivo pode exprimir:  
(96) Um desejo (queira Deus que dê certo). 
     (97) Uma ordem (paguem tudo que foi consumido). 
     (98)  Uma  dúvida,  geralmente  precedido  do  advérbio  talvez  (Talvez  viva  em 
Luanda por muito tempo). 
(99) Uma proibição (não acendam o fogareiro).   
O  conjuntivo  subordinado  é  por  excelência  o  modo  da  oração  subordinada.  É 
empregue tanto nas subordinadas substantivas, como nas adjetivas e nas adverbiais. 
 
 
3. Fronteiras entre indicativo e conjuntivo 
 
Estabelece-se  uma  relação  na  seleção  do  modo  conjuntivo  e  modo  indicativo 
com o  grau de crença, isto é, com o  grau de crença veiculado pelo enunciado, assim, 
associa-se o indicativo a um grau elevado de crença na verdade da proposição (frases 
declarativas), porquanto a seleção do conjuntivo acontece quando o grau de crença for 
dado como nulo ou fraco (cf. Rui Marques, 2006). 
           (243) É possível que ele chegue a tempo. 
           (244) Ele chegou a tempo. 
 Para  Cunha  e  Cintra  (op.cit)  “ao  empregarmos  o  modo  conjuntivo,  (…) 
encaramos a existência do facto como uma coisa incerta, duvidosa, eventual ou mesmo 
irreal”. 
 Atentemos,  então,  aos  exemplos  que  se  seguem  adaptados  de  Maria  Marques 
(2001:8):  
            (245) O José quer uma camisola que tem gola azul. 
      (246) O José quer uma camisola que tenha gola azul. 
Em (245) quando usamos o indicativo, fazemos uma leitura específica, clara em 
que o locutor já conhece a camisola, ou melhor, ela existe. Ao contrário em (246), com 
o conjuntivo fazemos uma leitura de que o locutor não sabe se existe uma camisola com 
as caraterísticas que deseja, sendo possível ou não sendo possível.   
Outro dado a reter ao estabelecermos as balizas nas ocorrências de conjuntivo e 
do  indicativo  é  ver  que  o  conjuntivo  ocorre,  obrigatoriamente  em  construções  de 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3485 
subordinação, isto é, por estar a sua interpretação associada a uma oração subordinante, 
distinguindo-se o conjuntivo do indicativo.     
Para  Bosque  e  Demonte  (1999:3215)  é  comum  ouvir-se  que  existe  uma 
diferença  de  significado  entre  os  modos  indicativo  e  conjuntivo.  Contudo,  não  existe 
correspondência unívoca entre as duas classes de variação morfológica que constituem 
os modos indicativo e conjuntivo e dois conteúdos bem definidos de modalidade. Por 
exemplo, uma forma do conjuntivo como cantasse pode utilizar-se tanto na expressão 
de desejo como na de probabilidade. É preciso  estabelecer se só há uma diferença de 
significado  modal  entre  indicativo  e  conjuntivo  ou  se,  pelo  contrário,  tal  como 
defendem  (cf.  Alarcos  Llorca  1970,  Mariner  1971,1972,  Veiga  1988)  existem  outras 
oposições  que  possamos  considerar  que  funcionam  com  independência  da  oposição 
entre indicativo e conjuntivo. 
De  acordo  com  Bosque  e  Demonte  (1999:3216)  em  termos  gerais,  a  distinção 
existente entre as formas do indicativo canto, cantava e conjuntivo cante, cantasse num 
modo e noutro é de caráter temporal. 
Os autores chamam a atenção para que o significado da oposição indicativo vs 
conjuntivo não se possa deduzir do exame de um conjunto restrito de construções em 
que apareça, se não de todos os seus empregos.  
Da  mesma  forma,  o  significado  transmitido  mediante  a  distinção  indicativo  vs 
conjuntivo  é  precisado  em  cada  construção  que  o  conjuntivo  passa  a  representar  a 
eventualidade,  a  irrealidade  ou  simplesmente  a  ausência  da  asserção  independente 
(1999:3218).  
Bosque e Demonte (1999:3219) reiteram que “provavelmente a explicação mais 
geral sobre a oposição entre indicativo e conjuntivo é a que sustenta que o indicativo se 
utiliza quando há asserção, ao passo que o conjuntivo é o modo que se emprega quando 
não há asserção ou esta não é suficientemente independente” 
Esta  explicação  provável  dada  por  Bosque  e  Demonte  (op.cit),  não  é  de  todo 
funcional para o estabelecimento da distinção cabal das fronteiras entre o indicativo e o 
conjuntivo. Porque casos há em que se  esperaria a ocorrência de  conjuntivo, ocorre o 
indicativo e noutros se esperaria o indicativo, ocorre o conjuntivo:   
                  (249) Penso que os peixes têm asas. 
                  (250) Lamento que a Josefina tenha ficado. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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De acordo com Klein (1974 e 1990), Hooper (1975), Bybee e Terrell (1990) o 
conjuntivo  é  selecionado  em  enunciados  não  assertivos;  o  indicativo  ocorre  em 
enunciados assertivos.
  
 
 
4.Análise de corpus  
 
Para  este  trabalho,  consideramos  o  corpus  escrito,  inquérito  sociolinguístico 
dirigido  aos  estudantes  universitários  angolanos  (Universidade  Lueji  A’nkonde  IV 
região  académica-Angola)  e  as  entrevistas,  corpus  oral  de  Português  de  Angola 
(Chavagne 2005). 
 Selecionamos  três  tempos  verbais  do  conjuntivo  com  duas  frases  para  cada 
caso: presente do conjuntivo, imperfeito do conjuntivo, futuro do conjuntivo. O teste foi 
aplicado a 32 estudantes universitários, conforme a produção induzida abaixo: 
1.Espero  que  ele_________________________________(ir)  às  manifestações  do 
Fenacult. 
1.1.Vai (PLM= 42,8%; PLS=53,8%); Vá (PLM=57,1%; PLS=46,1%) 
2.O  povo  espera  do  governo  boas  ações  que________________(estar)  à  altura  das 
exigências. 
2.1.Estão (PLM=28,5%; PLS=38,4%); Estejam (PLM=71,4%; PLS=61,5%) 
3.De acordo  com  as  notícias,  nada  está  perdido,  se  eu_______(ver)  o  menino  não  me 
aguentaria. 
3.1 Vesse (PLM=85,7%; PLS=76,9%); Visse (PLM=14,2%; PLS=23%) 
4.O povo queria que a filha da rainha__________________(manter) a fortuna no Banco 
privado. 
4.1.Mantesse (PLM=28,5%; PLS=69,2%); Mantivesse (PLM=71,4%; PLS=30,7%) 
5.Olha mana! Diga ao seu filho que se_____________(pôr) a lapiseira na fogueira ela 
derrete. 
5.1.Pôr (PLM=51,1%; PLS=61,5%); Puser (PLM=42,8%; PLS=38,4%) 
6.Os  novos  regulamentos  preveem  que  quem_________________(ser)  apanhado  a 
cabular fique em casa durante dois anos.    
6.1.Ser (PLM=85,7%;  PLS=76,9%);   For (PLM=14,2%; PLS=23%) 
Os  dados  percentuais  ilustram  e  atestam  o  uso  do  indicativo  em  contextos  em 
que  se  esperaria,  obrigatoriamente,  o  uso  do  conjuntivo,  referimo-nos  aos  inquérito 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3487 
sociolinguístico escrito de produção induzida e à entrevista que constitui o corpus oral 
de Português de Angola, cujo autor é Chavagne.  
Nas construções (3, 5 e 7) era expetável o uso obrigatório do conjuntivo ao invés 
do indicativo, pelo facto de as mesmas indicarem uma possibilidade ou condição que, 
realmente, depende de uma outra.  
7. (…) Estou assim parado, e espero que as condições melhoram a fim de poder dar 
continuidade da minha modalidade (Ba01-Chavagne, p.11).  
Em  construções  subordinadas  finitas  completivas  introduzidas  pela  integrante 
que e pela locução conjuncional desde que (1, 2 e 8) verificamos o uso do indicativo em 
contextos que rigorosamente pedem o conjuntivo.  
8.Não concordo com isso, quer dizer, é difícil viver, sim senhor desde que se trabalha 
pelo estado (…) (Ju44-Chavagne, p.145).  
É notável também a ocorrência do imperfeito do conjuntivo desviante em formas 
verbais  supletivas,  sobretudo  com  verbos  ser,  manter,  pôr  e  ver  (cf.4  e  10)  e  do 
infinitivo em contexto de uso obrigatório do futuro do conjuntivo (cf.6). 
10.Ah, tá tudo bem inclusive lá o homem da dina portanto dos bombeiros para ver se 
ele vesse o caso (L097-Chavagne, p.206). 
 
 
Considerações finais  
 
Há vários critérios semânticos a considerar para a distinção do uso do conjuntivo 
e do indicativo, destes critérios, nesta análise, tivemos em conta os de grau de crença: 
maior ou menor grau, assertividade: asserção ou não asserção, hipotético ou real. 
 Com base nos exemplos analisados dos corpora, notámos que há uma tendência 
de  não  haver  uma  distinção  nítida  no  uso  do  indicativo  em  vez  do  conjuntivo,  pelos 
falantes  do  Português  em  Angola,  seja  qual  for  o  seu  estatuto  de  falante  (Português 
Língua  Materna/  Português  Língua  Segunda),  e  nalguns  casos,  esta  dificuldade  em 
estabelecer a distinção afeta também falantes com níveis altos de escolaridade, a julgar 
pelos dados analisados que ilustram que quer os que têm português como LM, quer os 
que o têm como LS apresentam as mesmas dificuldades no uso do conjuntivo de acordo 
com a norma padrão europeia. 
Pensamos também que a substituição do uso do conjuntivo pelo indicativo pode 
ser  explicada  pelo  efeito  de  “produtividade”,  ou  seja,  o  conjuntivo  é  quase  sempre 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3488 
substituído  por  indicativo  pelo  facto  de  os  falantes  acharem  ser  mais  produtivo  e 
veicular  a  informação  que  pretendem  sem  que  se  use  o  conjuntivo  em  contextos 
obrigatórios. 
Apesar de alguns falantes terem o português como LM, mas não fazerem o uso 
do conjuntivo em contextos em que é obrigatório, substituindo-o pelo indicativo, fatores 
sociolinguísticos  e  de  uma  irregular  aquisição/aprendizagem  podem  estar  subjacentes 
nestes  usos,  destacando-se  também  a  forma  típica  do  português  de  Angola  estar  a 
contactar com estruturas sintático-semânticas que são diferentes das línguas locais.  
 
 
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De volta ao futuro da língua portuguesa.  
Simpósio 22 - Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa, 3491-3505 
ISBN 978-88-8305-127-2 
 
DOI 10.1285/i9788883051272p3491 
http://siba-ese.unisalento.it, © 2017 Università del Salento 
 
 
 
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MAS ERA ISSO QUE EU QUERIA DIZER! 
 
 
Darcilia SIMÕES
78
 
 
 
RESUMO 
É frequente o descontentamento discente quando da avaliação de sua produção textual, 
ora  por  expressar-se  numa  variedade  inadequada  ao  gênero  do  texto,  ora  por  não 
conseguir  desenvolver  uma  ideia.  Essa  dificuldade  manifesta,  em  princípio,  dois 
problemas: (1) não domínio dos fatores lexicogramaticais que orientam a produção dos 
enunciados;  (2)  domínio  lexical  restrito.  Na  perspectiva  da  linguística  sistêmico-
funcional (LSF), discutem-se os enunciados segundo sua organização lexicogramatical, 
indicando inadequações de base sintático-semântica. Na ótica da teoria da iconicidade 
verbal  (TIV),  busca-se  identificar  nos  enunciados  signos  que  gerem  ambiguidade, 
contradição,  entre  outros  fenômenos  que  prejudiquem  a  interpretabilidade  dos  textos. 
Ambas  as  teorias  eleitas  consideram  a  potencialidade  do  sistema  linguístico  e  as 
escolhas dos enunciadores como objetos semióticos, ou seja, fatores com que se realiza 
a  semiose  (produção  de  significação).  Portanto,  a  elaboração  de  enunciados  deve 
considerar:  (1)  no  âmbito  da  LSF,  a  articulação  entre  tema,  recorte  sócio-histórico  e 
seleção lexical e (2) na perspectiva da TIV, o potencial orientador ou desorientador dos 
signos em relação à manutenção temática e à progressão textual. 
 
 
PALAVRAS-CHAVE: Seleção Lexical. Lexicogramática. Iconicidade.  
 
 
A expressão escrita como problema 
 
As dificuldades em torno da expressão escrita constituem problema permanente 
no  ensino  de  línguas.  Diferentemente  do  que  se  almeja,  após  a  aquisição  da  escrita 
(letramento em sentido restrito), nem todos os falantes descobrem a necessidade desse 
tipo  de  comunicação;  por  isso,  a  produção  de  textos  se  torna  constante  para  uns  e 
episódica para outros. Os que escrevem com frequência tendem a aperfeiçoar-se nessa 
prática; enquanto os que só o fazem muito eventualmente experimentam momentos de 
grande dificuldade e mesmo sofrimento durante uma produção escrita por mais simples 
                                                 
78  Profª  Associada  da  UERJ,  Instituto  de  Letras,  Departamento  de  Língua  Portuguesa,  Literatura 
Portuguesa  e  Filologia.    Rua  Euzébio  de  Queiroz,  5  –  casa.  Venda  da  Cruz  –  São  Gonçalo,  RJ-Brasil. 
URL: www.darciliasimoes.pro.br - E-mail: darcilia.simoes@pq.cnpq.br  
Atas do 
96,0(/36Lmpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3492 
que  seja.  Contrariamente,  o  exercício  da  escrita  na  escola  não  corresponde  ao 
suprimento  da  necessidade  de  domínio  da  expressão  escrita,  mesmo  considerada  a 
ênfase no trabalho com os gêneros textuais. 
Esse quadro decorre, em princípio, dos equívocos metodológicos. Privilegiar os 
gêneros mais concisos nos quais predominam os códigos não verbais (imagens, cores, 
posições etc.) associa-se às práticas de comunicação digital que raramente se preocupam 
com estilo, adequação, detalhamento etc. Em outras palavras, a escola tem praticado um 
ensino  pautado  em  textos  curtos,  em  que  se  destacam  as  histórias  em  quadrinhos,  as 
charges,  manchetes,  lides  etc.  Elegem-se  em  especial  textos  sincréticos  em  que  haja 
uma cooperação entre signos verbais e não verbais. Ademais a exploração de textos da 
internet  (chats,  blogs,  redes  sociais  em  geral)  não  promove a  aprendizagem  da  norma 
culta (ou padrão), uma vez que nesses exemplos predominam as variedades não padrão. 
Embora  o  advento  da  internet  (rede  mundial  de  computadores  –  www)  venha 
estimulando a prática da comunicação escrita em larga escala (nunca tantos escreveram 
tanto quanto hoje), isso não resultou em ampliação do domínio dos recursos verbais, em 
acesso popular aos usos formais da língua, nem em produção de gêneros textuais com 
monitoramento.  
Considerando  que  “Dentre  as  diferentes  atividades  humanas,  a  atividade  de 
linguagem  funciona  como  uma  interface  entre  o  sujeito  e  o  meio  e  responde  a  um 
motivo geral de representação-comunicação” (Schneuwly e Dolz, 2001: 63), conclui-se 
que quanto mais ampla for a competência expressional maior será a mobilidade social 
dos sujeitos. 
A  importância  da  comunicação  digital  é  inegável  para  o  desenvolvimento  do 
hábito de escrita, mas é caracterizada pela cifração, pela compactação das formas, em 
função do tempo em que se realizam as trocas  de mensagens (online ou  on time). No 
entanto,  contrariando  hipóteses  correntes,  a  escrita  nas  redes  sociais  (Facebook, 
Instagram,  Twitter,  WhatsApp  etc.)  se  realiza  nas  variedades  linguísticas  disponíveis 
(geográficas,  sociais,  históricas,  profissionais,  em  usos  formais  e  informais)  sem  que 
construa uma variedade específica para os ambientes digitais. O chamado internetês se 
resume  às  formas  gráficas  reduzidas  utilizadas,  pois  o  vocabulário  e  a  estruturação 
sintática são os mesmos de uma ou outra variedade. A diferença entre a comunicação 
tradicional  e  a  que  se  realiza  nas  redes  sociais  (ademais  do  truncamento  das  formas 
vocabulares)  é  o  baixo  ou  nenhum  monitoramento  textual;  por  isso,  a  comunicação 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3493 
escrita digital não constitui um espaço de aquisição de domínio de nenhuma variedade 
específica, tampouco dos usos formais da língua. 
Enfatizando que o objetivo das aulas de língua é instrumentalizar os sujeitos para 
uma comunicação linguística eficiente, “Cabe à escola propiciar que o aluno participe 
de diversas situações de discurso, na fala ou na escrita, para que tenha oportunidade de 
avaliar  a  adequação  das  variedades  linguísticas  às  circunstâncias  comunicativas” 
(PCN+, 2002: 75). 
A  adequação  da  variedade  linguística  à  cena  comunicativa  implica  o  que  se 
costuma chamar de monitoramento da fala; este consiste na escolha consciente da forma 
de  expressão  mais  apropriada  ao  ato  interlocutório.  Para  o  desenvolvimento  dessa 
competência, o estudante deve ser exposto, gradativamente, às diversas  possibilidades 
que  a  língua  oferece,  tanto  em  estilos  mais  monitorados  como  em  estilos  menos 
monitorados, observando e refletindo sobre por que ocorre essa variação. Veja-se o que 
dizem os PCN: 
No  ensino-aprendizagem  de  diferentes  padrões  de  fala  e  escrita,  o  que  se 
almeja  não  é  levar  os  alunos  a  falar  certo,  mas  permitir-lhes  a  escolha  da 
forma  de  fala  a  utilizar,  considerando  as  características  e  condições  do 
contexto  de  produção,  ou  seja,  é  saber  adequar  os  recursos  expressivos,  a 
variedade  de  língua  e  o  estilo  às  diferentes  situações  comunicativas:  saber 
coordenar satisfatoriamente o que fala ou escreve e como fazê-lo; saber que 
modo de expressão é pertinente em função de sua intenção enunciativa, dado 
o contexto e os interlocutores a quem o texto se dirige. A  questão não é de 
erro, mas  de adequação  às circunstâncias de uso, de utilização adequada da 
linguagem. (PCN – Língua Portuguesa, 1998: 31). 
Levantamos  então  algumas  questões  que  nortearão  o  desenvolvimento  deste 
artigo: (a) Como aproveitar esse momento tão favorável à expressão escrita em prol da 
aquisição de domínio dos usos formais da língua? (b) Como calibrar a expressão para 
que  utilize  a  variedade  adequada  ao  gênero  do  texto?  (c)  Como  ajudar  o  aluno  a 
assimilar recursos linguísticos que lhe permitam desenvolver uma ideia? 
A comunicação escrita na internet pode ser utilizada como meio para observação 
e análise dos recursos da língua; e, dessa forma, ampliar o domínio verbal dos sujeitos, 
para  que  reconheçam  os  fatores  lexicogramaticais  que  orientam  a  produção  dos 
enunciados  e  ampliem  seu  repertório.  Estudiosos  do  Seleprot  (Grupo  de  Pesquisa 
Semiótica,  Leitura  e  Produção  de  Textos  –  Base  CNPq)  vêm  desenvolvendo  projetos 
pedagógicos  relativos  ao  desenvolvimento  da  expressão  escrita  de  gêneros  de  alto 


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monitoramento  —  dissertação,  argumentação,  relatório  etc.  Com  essa  prática  já  foi 
possível concluir que a exploração dos textos que circulam nas redes sociais digitais não 
só  dinamiza  o  trabalho  em  classe,  como  favorece  a  transição  de  um  estilo  textual 
descontraído  para  um  estilo  formal,  buscando  considerar  os  fatores  que  caracterizam 
cada  interlocução:  assunto,  meta comunicativa,  relação  entre os  interlocutores,  gênero 
textual.  
 
 
O modelo teórico 
 
As premissas semiótico-funcionais que orientam os projetos são: (a) semiótica: a 
comunicação  se realiza  por  meio  de  signos  e  estes  devem  possibilitar  o entendimento 
entre  os  interlocutores;  (b)  funcional:  a  expressão  deve  atender  às  metafunções 
ideacional, interpessoal e textual, por meio das quais os códigos ativados, a escolha e a 
estruturação das formas representam iconicamente como pensa e sente o enunciador; (c) 
semiótico-funcional:  os  construtos  sígnicos  que  materializam  a  interlocução  deverão 
propiciar  o  entendimento  entre  os  interlocutores,  para  tanto,  devem  organizar-se  de 
modo que possam orientar a compreensão do texto pelo intérprete.  
Segundo a teoria do interpretante de Peirce, parte-se da indeterminação do signo 
em si mesmo e destaca-se a atuação do intérprete como o agente que desvela/revela os 
interpretantes  dinâmicos  possíveis  para  tal  signo.  Portanto,  a  interpretação  é  um 
processo que se desenvolve na tensão entre um objeto, um intérprete e um interpretante 
— conjunto de valores  possíveis para um signo em seu contexto sociocultural. Assim 
sendo, o desenvolvimento de competências expressionais implica o reconhecimento de 
que a mensagem é transmitida por um texto, que este tem um objeto (o referente), o qual 
será  interpretado  por  uma  mente  (o  intérprete)  segundo  as  regras  oriundas  de  um 
contexto sociodiscursivo em que se inserem o tema, o gênero textual e os interlocutores.
 
Considerando-se  a  retórica  universal  (ou  metodêutica)  elaborada  por  Peirce, 
devem-se  estudar  os  efeitos  do  signo  sobre  seus  intérpretes,  isto  é,  deve-se  analisar 
como  se  dá  a  passagem  do  objeto  ao  interpretante,  tendo  o  signo  como  veículo.  A 
perspectiva  retórica  determina  a  semiose  como  comunicação  orientada  para  um 
propósito.  Fidalgo  define  a  metodêutica  peirceana  como  “estudo  dos  métodos  para 
chegar à verdade
”. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
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Cada  texto  como  signo  representa  uma  verdade  particular,  e  a  interpretação 
desse signo poderá gerar ou verdade coincidente com o projeto original do enunciador, 
ou nova verdade, desde que apoiada nos elementos constitutivos da trama textual, uma 
vez que o texto é um signo. 
Santaella  (2001:  340)  ensina  que,  de  acordo  com  o  aspecto  persuasivo  da 
oratória, considerando-se que um discurso é intencionalmente proferido por alguém, em 
tempo e espaço determinados, e dirigido a outrem, “o arranjo discursivo é uma medida 
de intenção”. Soma-se a isso a visão de Eco sobre interpretação. Segundo o estudioso, o 
processo  interpretativo  envolve  uma  complexa  estratégia  de  interações  entre  texto  e 
leitor, assim como “sua competência na linguagem como tesouro social” (ECO, 2001: 
80), sendo este último constituído não só pelas regras gramaticais, mas pelo conteúdo 
enciclopédico  armazenado  na  linguagem.  Portanto,  o  ato  de  ler  é  uma  complexa 
transação entre o conhecimento de mundo do leitor e a competência exigida/postulada 
pela  língua,  pelo  gênero  textual  e  pelas  condições  de  produção  da  interlocução 
(enunciação e leitura).  
É  preciso  considerar  que  o  texto  é  um  fenômeno  rico  e  multifacetado  que 
“significa” de várias maneiras, podendo assim ser explorado sob vários pontos de vista, 
dos quais se distinguem dois ângulos: o texto como um objeto em si mesmo; e o texto 
como um objeto que faz emergir algo mais, vendo-o então como um instrumento. Trata-
se de duas perspectivas complementares. Tomado ora como artefato, ora como espécie, 
o  texto  demanda  uma  análise  complexa,  a  qual  deve  observar  a  língua  com  que  se 
constrói — e suas regras de produção — relativizadas, a partir de um diálogo constante 
entre o que se usa do sistema e este como um todo, considerando a atuação dos leitores 
e os valores que estes trazem ao texto. 
Moura  Neves  (2002),  discutindo  o  funcionalismo  hallidiano,  aponta  dois 
propósitos mais gerais que, segundo a autora, fundamentam os usos da linguagem: 
• Entender o ambiente (função ideacional ou reflexiva) 
• Influir sobre os outros (função interpessoal) 
Acrescenta um terceiro componente, multifuncional, que confere relevância aos 
dois primeiros: o componente textual (função textual segundo Halliday). Disso se extrai 
que há uma multifuncionalidade em configuração orgânica de elementos, cujas funções 
são particulares, mas mantêm relação obrigatória com  o todo sistêmico. Assim sendo, 
cada elemento da língua em uso é explicado por referência à sua função sistêmica, por 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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isso, a gramática funcional constrói e descreve todas as unidades da língua-objeto como 
configuração orgânica de funções. 
A despeito da tensão original entre discurso e gramática, conceitos e definições 
acabam  por  encontrarem-se  quando  observados  pelas  lentes  da  prática  social  da 
linguagem.  As  implicaturas  conversacionais  e  o  processo  de  gramaticalização,  por 
exemplo, passam a ser explicados segundo a movimentação das formas da língua, que 
as  transforma  a  partir  do  componente  semântico  que  vão  adquirindo  no  seu  percurso 
histórico. 
Portanto,  a  perspectiva  sistêmico-funcional  vem  dando  suporte  às  pesquisas 
produzidas  e  orientadas  por  Darcilia  Simões,  uma  vez  que  a  consideração  da  língua 
como  objeto  e  instrumento  da  interação  social  permite  combinarem-se  as  óticas 
hallidiana  e  peirciana  (semiótica  norte-americana).  Dessa  articulação  advém  a 
construção  teórica  que  a  autora  denominou  semiótica  aplicada  ao  signo  verbal  e 
especializou na teoria da iconicidade verbal (Simões, 2009).  
 
 
Metodologia 
 
Tendo por premissa que a escola não tem por meta formar literatos, mas apenas 
sujeitos  competentes  para  a  comunicação  escrita,  afastam-se  das  presentes 
considerações  a  multiplicidade  de  leitores  prováveis  para  um  texto  literário,  da  qual 
resulta  a  exigência  de  estratégias  textuais  muito  mais  elaboradas  que  as  necessárias  à 
produção  de  uma  dissertação  escolar,  por  exemplo.  Tomada  como  gênero,  essa 
produção  reduz  a  expectativa  do  universo  de  leitores  e  permite  circunscrever  as 
variáveis  a  observar  na  produção  do  texto.  São  elas:  finalidade  da  produção,  tema, 
gênero  textual,  variedade  linguística,  destinatário(s),  extensão  (que  no  espaço  digital 
pode ser controlada a partir do número de caracteres). 
Para facilitar o controle da orientação discente, as variáveis são assim definidas: 
 
a)  Finalidade da produção 
Por  se  tratar  de  um  trabalho  escolar,  há  uma  predefinição  historicamente 
praticada  que  é  escrever  para  praticar  e  ser  avaliado.  Todavia,  vem-se  buscando 
redirecionar  essa  meta  de  modo  a  estimular  a  prática  escrita  e  demonstrar  seu  valor 
social.  Assim  sendo,  a prática dissertativa  tem  sido  direcionada  à  elaboração  de  texto 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3497 
argumentativo potencialmente publicável em veículo de comunicação de massa: jornal, 
revista,  blog,  site  etc.  Dessa  forma,  o  estudante  vislumbra  a  possibilidade  de  intervir 
documentalmente em questões sociais que lhe afetem. 
 
b)  Tema 
As redes sociais vêm-se mostrando excelente incubadora de temas de trabalho. O 
jovem  que  usualmente  não  lê  jornais  mostra-se  atualizado  nos  temas  que  povoam  o 
imaginário sociocultural, por meio da participação em mídias digitais como Facebook, 
Instagram, WhatsApp, WeChat, Twitter, Skype, Youtube etc. Polêmicos ou não, os temas 
nacionais e internacionais de toda ordem — políticos, ideológicos, religiosos, culturais, 
filosóficos, técnicos, científicos etc. — entram na rede e mobilizam a participação dos 
interlocutores, especialmente mediados pela escrita. Assim sendo, a eleição de temas do 
interesse mostra-se relativamente fácil. 
 
c)  Gênero textual 
A  definição  de  gênero  exige  um  posicionamento  retórico  prévio.  Seja  na 
definição  de  Miller  (1994),  gêneros  como  "ações  retóricas  tipificadas,  baseadas  em 
situações  recorrentes",  seja  na  perspectiva  bakhtiniana  —  gêneros  como  "tipos 
relativamente estáveis de enunciados" (Bakhtin, 2003). Segundo Marcuschi (2008), os 
gêneros são “entidades dinâmicas”, uma vez que suas formas modelares se ajustam às 
circunstâncias que emolduram a interlocução. Nessa ótica, emerge a necessidade de um 
trabalho a partir de modelos prévios. Estes não são formas hipotéticas, mas recolhos de 
práticas  discursivas  reais  que  possam  orientar  a  produção  de  novos  textos.  No  caso 
presente, o gênero de trabalho é a dissertação escolar. 
 
d)  Variedade linguística 
Esta  variável  é  decorrente  da  escolha  do  gênero  textual.  A  dissertação  escolar 
implica  o  uso  da  variedade  culta  (aqui  definida  como  um  modelo  de  língua  que 
neutraliza as variações geográficas e sociais). Trabalhada sem exageros de erudição, a 
prática da variedade culta leva o falante a ampliar seu repertório ao mesmo tempo que 
assimilará  modelos  frasais  mais  complexos  que  os  empregados  em  sua  prática 
linguageira cotidiana. 
 
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
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e)  Destinatário(s) 
Diferentemente  da  tradicional  prática  de  ensino  de  redação,  propõe-se  a 
produção de textos cujo leitor primeiro e exclusivo passa a ser outro destinatário (não 
mais o professor), cuja escolha será uma consequência do tema eleito para trabalho. Por 
exemplo,  se  o  tema  é  a  necessidade  de  ampliação  da  oferta  de  leitos  na  rede  pública 
hospitalar,  a  dissertação  será  dirigida  ao  Secretário  de  Saúde  local.  Dessa  forma,  o 
estudante se vê engajado em reunir argumentos que possibilitem a produção de um texto 
com autoridade cidadã para a interlocução pretendida. 
 
f)  Extensão 
Da mesma forma como Othon M. Garcia (2007) trata a extensão do parágrafo, 
considera-se a dimensão do texto. Não é apenas o senso de proporção que deve servir de 
critério  para  a  produção  de  um  texto,  senão  o  seu  tema  e  os  itens  sobre  os  quais  se 
pretende discorrer. Um texto se constitui de um conjunto de ideias relativas a um tema, 
ou  assunto.  Portanto,  a  complexidade  do  tema  será  uma  variável  relevante  para  a 
extensão do texto. 
 
 
Demonstração 
 
Nesta seção, serão apresentados recortes de textos de estudantes. A proposta era 
construir  um  texto  que  relacionasse  duas  crônicas  lidas  em  classe:  “O  verbo  for”,  de 
João  Ubaldo  Ribeiro,  e  “Umbigo”,  de  Carlos  Drummond  de  Andrade.  Ambas  as 
crônicas relatam fatos linguísticos relacionados a práticas sociais que mudam ao longo 
do tempo. O texto de João Ubaldo questiona o exame vestibular e relata a conduta de 
um  candidato  cujo  desconhecimento  da  língua  incomodou  o  cronista.  Já  Drummond 
articula mudanças de hábitos e criação neológica. 
Os estudantes, além da grande dificuldade de identificar o foco na relação entre 
língua  e  práticas  sociais  como  tema  articulador  das  crônicas,  também  demonstraram 
inabilidade no uso da língua, e os exemplos a seguir serão apresentados com a meta de 
identificar as questões linguísticas que precisam ser trabalhadas nas aulas de produção 
textual. 
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3499 
PRODUÇÃO 
VERSÕES 
CONTEÚDOS A 
TRABALHAR 
Versão 1 
Tais [NÃO HÁ REFERÊNCIA ANTERIOR PARA QUE USE 
A FORMA tais] palavras são chamadas de neologismos. A fim 
de  se  adaptarem  às  necessidades  da  língua  para  mencionar 
[PALAVRAS  NÃO  MENCIONAM,  designam,  representam] 
objetos ou atividades que anteriormente não existiam. criaram-
se  [AQUI  CAbe  usar  tais]  palavras  novas  que  foram  [SE  A 
CRIAÇÃO É INCORPORADA, LOGO, USE O PRESENTE] 
agregadas  ao  idioma.  Essa  constante  transformação  [DE 
QUÊ?]  se  deve  aos  usos  e  costumes  da  população,  já  que  a 
língua é  viva e está em permanente  mutação, acompanhando, 
assim, as mudanças da sociedade.  
Reescritura 1  Tais  [ERRO  PERMANECE]  palavras  são  chamadas  de 
neologismos.  Criam-se  palavras  novas  que  foram  [ERRO 
PERMANECE] agregadas ao idioma a fim de se adaptarem às 
necessidades 
da 
língua 
para 
mencionar 
[ERRO 
PERMANECE]  objetos  ou  atividades  que  anteriormente  não 
existiam.  A  constante  transformação  [DE  QUÊ?]  se  deve aos 
usos e costumes da população já que a língua é viva e está em 
permanente  mutação  acompanhando  assim  as  mudanças  da 
sociedade. 
Reescritura 2  As  palavras  novas  são  chamadas  de  neologismos.  Criam-se 
palavras que são agregadas ao idioma, a fim de se adaptarem 
às  necessidades  da  língua  para  nomear  objetos  ou  atividades 
que  anteriormente  não  existiam.  A  constante  transformação 
[DE QUÊ?] se deve aos usos e costumes da população, já que 
a língua é viva e está em permanente mutação, acompanhando, 
assim, as mudanças da sociedade.  
 
Referenciação 
pronominal 
 
 
Seleção vocabular 
 
 
Paralelismo 
no 
emprego  das  formas 
verbais 
 
 
Emprego 
de 
determinantes  em  prol 
da clareza dos dados do 
texto 
Tabela 1 - Exemplo da Aluna A 
Observe-se que a constante transformação permaneceu sem determinante, todavia 
não prejudica a compreensão do texto. 
 
PRODUÇÃO 
VERSÕES 
CONTEÚDOS A 
TRABALHAR 
Versão 1 
A palavra sambódromo começou como neologismo. Antes da 
popularização desse termo, os nomes mais [NÃO AFIRME O 
QUE NÃO PODE COMPROVAR] usados para se referir a tal 
[NÃO  HÁ  REFERÊNCIA  ANTERIOR  PARA  QUE  USE  A 
FORMA  tal]  lugar  [EXPLIQUE  QUE  LUGAR  É  ESSE 
PARA  EM  SEGUIDA  NOMEÁ-LO]  eram  passarela  do 
samba  e  avenida  do  samba.  Darcy  Ribeiro,  pensando  na 
palavra samba e no sufixo  ódromo, [NÃO  AFIRME O QUE 
NÃO PODE COMPROVAR] do grego drómos, que significa 
via,  caminho,  [DADO  DISPENSÁVEL]  propôs  o  nome 
sambódromo que foi bem aceito pela mídia e pela população. 
A expressão provou-se prática na pronúncia e [NÃO AFIRME 
O QUE NÃO PODE COMPROVAR] permitia que as pessoas 
fizessem  [DADO DISPENSÁVEL]  uma associação a termos 
[NOMENCLATURA  TÉCNICA  DEVE  SER  USADA  COM 
CRITÉRIO] 
formas 
como 
hipódromo, 
autódromo, 
kartódromo, sendo, mais tarde, oficializada. 
Reescritura 1 
A palavra sambódromo começou como neologismo. Antes da 
popularização  desse  termo,  os  nomes  mais  usados  para  se 
referir  a  tal  [ERRO  PERMANECE]  lugar  [ERRO 
PERMANECE]  eram  passarela  do  samba  e  avenida  do 
Informações 
textuais 
devem 
ser 
comprováveis.  Logo,  é 
preciso  pesquisar  e 
reunir 
fontes 
para 
endossar  o  que  se 
informa no texto. 
 
Evitar  informações  que 
não  fazem  o  texto 
progredir,  portanto  são 
dispensáveis. 
 

emprego 
de 
nomenclatura 
técnica 
deve  ser  feito  com 
parcimônia,  para  não 
incorrer  em  erro  que 
pode 
prejudicar 

compreensão do texto. 
Referenciação 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3500 
samba.    Darcy  Ribeiro,  pensando  na  palavra  samba  e  no 
sufixo ódromo, do grego drómos, que significa via, caminho, 
[ERRO PERMANECE] propôs o nome sambódromo que foi 
bem  aceito  pela  mídia  e  pela  população.  A  nova  forma 
baseou-se  em  palavras  preexistentes  como  hipódromo, 
autódromo, kartódromo. 
Reescritura 2 
A palavra sambódromo começou como neologismo. Antes da 
popularização  desse  termo,  os  nomes  mais  usados  para  se 
referir  ao  lugar  do  desfile  das  escolas  de  samba  eram 
passarela  do  samba  e  avenida  do  samba.  Darcy  Ribeiro 
propôs o nome sambódromo que foi bem aceito pela mídia e 
pela  população.  A  nova  forma  baseou-se  em  palavras 
preexistentes como hipódromo, autódromo, kartódromo. 
 
pronominal 
 
 
 
Tabela 2 - Exemplo da Aluna Z 
Vale notar que a segunda reescritura costuma apresentar evolução significativa na 
forma.  
 
PRODUÇÃO 
VERSÕES 
CONTEÚDOS A 
TRABALHAR 
Versão 1 
A partir do estudo das crônicas “O verbo For” e “Umbigo” é 
possível  pensar  sobre  fatos  e  costumes  que  mudaram  com  o 
tempo,  embora  com  avaliações  diferentes,  no  âmbito 
linguístico  e  social.  Em  relação  à  mudança  linguística,  os 
textos apresentam, respectivamente, a invenção do “verbo for” 
[DESCONHECIMENTO DA FLEXÃO DOS VERBOS ser e 
ir] 
que 

priori 
[EVITAR 
ESTRANGEIRISMO 
DESNECESSÁRIO.] seria verbo “ser” ou “ir” [SUBSTITUIR 
AS  ASPAS  PELO  ITÁLICO],  mas  que  aparece  como  uma 
nova  conjugação  [O  CRONISTA  CONJUGA  COMO 
DEBOCHE],  e  [de  –  INCLUIR  A  PREPOSIÇÃO  PARA 
ATENDER  AO  PARALELISMO:  a  invenção  de  X  e  de  Y] 
“bicicletar” [SUBSTITUIR AS ASPAS PELO ITÁLICO] que 
seria o ato de andar de bicicleta.  
Reescritura 1 
A partir do estudo das crônicas “O verbo For” e “Umbigo” é 
possível  pensar  sobre  fatos  e  costumes  que  mudaram  com  o 
tempo,  embora  com  avaliações  diferentes,  no  âmbito 
linguístico  e  social.  Em  relação  à  mudança  linguística,  os 
textos  apresentam,  respectivamente,  a  invenção  do  verbo  for 
que  seria  [CUMPRE  MOSTRAR  O  EQUÍVOCO  COM  O 
USO DE UMA CONCESSIVA] apenas uma flexão do verbo 
ser ou do ir, e [ERRO PERMANECE] bicicletar que seria o 
ato de andar de bicicleta.  
Reescritura 2 
A partir do estudo das crônicas “O verbo For” e “Umbigo” é 
possível  pensar  sobre  fatos  e  costumes  que  mudaram  com  o 
tempo,  embora  com  avaliações  diferentes,  no  âmbito 
linguístico  e  social.  Em  relação  à  mudança  linguística,  os 
textos  apresentam,  respectivamente,  a  invenção  do  verbo  for 
embora fosse apenas  uma  flexão do verbo ser ou do  ir, e de 
bicicletar que seria o ato de andar de bicicleta. 
 
Distinguir erro e 
criação linguística. 
Distinguir forma 
verbal e verbo. 
Trabalhar o 
paralelismo sintático, 
com ênfase no 
emprego de 
preposições. 
Relação entre tempos 
e modos verbais na 
produção de 
concessivas. 
Valor do itálico nas 
formas em menção e 
das aspas na 
conotação. 
Tabela 3 - Exemplo da Aluna K 
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3501 
Comentários icônico-funcionais 
 
O processo de orientação de escritura praticado é, indiscutivelmente, trabalhoso 
para o docente. Todavia, tem-se mostrado eficiente, uma vez que não apenas aponta um 
erro,  mas  indica  como  solucioná-lo.  Ademais,  demonstra  que  os  dados  gramaticais  e 
semânticos  são  responsáveis  pela  produção  da  iconicidade,  contemplando  assim  as 
metafunções ideacional e interpessoal por meio de um trabalho textual consciente. 
Para  objetivar,  produzimos  a  seguinte  tabela,  com  base  nas  anotações  nos  textos 
discentes usados como exemplo. 
 
CONTEÚDO 

TRABALHAR 
FUNCIONALIDADE 
ICONICIDADE 
Referenciação pronominal 
Objetivação  da  ideia  e 
situação  da  informação 
no plano do texto. 
Correlação  explícita  de 
formas textuais 
Seleção vocabular 
Precisão da informação 
Indicação  objetiva  dos 
dados textuais 
Indicador da adequação da 
variedade  linguística  ao 
gênero do texto 
Paralelismo  no  emprego  das 
formas verbais 
Demonstração  da  ordem 
do raciocínio 
Relação  explícita  entre 
termos 
Emprego  de  determinantes  em 
prol  da  clareza  dos  dados  do 
texto 
Objetivação 
da 
informação 
Indicação  objetiva  dos 
dados textuais 
Distinguir erro e criação 
linguística. 
Precisão da informação 
Indicação objetiva dos dados 
textuais 
Distinguir forma verbal e verbo. 
Precisão da informação 
Indicação objetiva dos dados 
textuais 
Trabalhar o paralelismo sintático, 
com ênfase no emprego de 
preposições. 
Articulação entre termos 
Relação explícita entre 
termos 
Relação entre tempos e modos 
verbais na produção de 
concessivas. 
Articulação entre termos 
Relação explícita entre 
termos 
Valor do itálico nas formas em 
menção  e  das  aspas  na 
conotação. 
Explicitação  
Ênfase  
Informações  textuais  devem 
ser  comprováveis.  Logo,  é 
preciso  pesquisar  e  reunir 
fontes  para  endossar  o  que  se 
informa no texto. 
Fundamentação das 
ideias expressas 
Indicação de autoridade 
informacional 
Evitar  informações  que  não 
fazem  o  texto  progredir, 
portanto são dispensáveis. 
Selecionar ideias  
Formas dispensáveis são 
atrapalham a compreensão 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3502 
O  emprego  de  nomenclatura 
técnica  deve  ser  feito  com 
parcimônia,  para  não  incorrer 
em  erro  que  pode  prejudicar  a 
compreensão do texto. 
Precisão da informação 
Indicação objetiva dos dados 
textuais 
Tabela 4 – Conteúdos a trabalhar 
A relação entre valor funcional e valor icônico comprova a sua operacionalidade na 
orientação da produção de textos. 
 
 
Conclusão 
 
A partir da constatação de que a melhor forma de aprender é pela prática, pela 
experimentação,  vimos  testando  a  produtividade  da  teoria  da  iconicidade  verbal  no 
desenvolvimento  da  competência  verbal  na  leitura  e  na  produção  de  textos.  Para 
referendar essa proposta, traz-se a afirmação de Bazerman (Apud Hoffnagel; Dionísio. 
2006: 87) de que “quase todas as palavras e frases que usamos já havíamos ouvido ou 
visto antes”. No entanto, essa aquisição tácita não resolve sozinha o desenvolvimento da 
competência verbal. Como sujeitos ativos, os falantes precisam saber/poder recombinar 
as  peças  linguísticas,  segundo  suas  necessidades  comunicacionais  imediatas.  Temas, 
propósitos, interlocutores específicos, demandam, entre outras coisas, adequação lexical 
em prol da garantia da interação. Assim sendo, Bakhtin e Bazerman fornecem subsídios 
para  a  produção  de  um  ensino  de  língua  fundado  na  observação  e  experimentação  de 
práticas  efetivas  de  linguagem  que,  de  algum  modo,  servirão  de  modelo  para  novas 
práticas. Essa é a prática em que acreditamos e que buscamos difundir. 
Iconicidade verbal e gramática sistêmico-funcional são duas redes que se cruzam 
na  captura  do  processo  de  semiose  nos  textos.  Com  essa  ferramenta,  as  práticas  de 
ensino  de  língua  portuguesa  podem  aperfeiçoar-se  progressivamente  e  minimizar  as 
explicações  subjetivas.  Embora  saibamos  que  a  expressão  é  individual,  também 
sabemos  que  a  expressão  se  manifesta  por  meio  da  representação  textual.  Qualquer 
texto  produzido  em  qualquer  código  é  passível  de  tradução  verbal.  Logo,  o  código 
verbal  é  a  mais  importante  das  aquisições  escolares,  a  qual  implica  domínio  das 
estratégias de seleção e combinação das formas linguísticas em prol da inteligibilidade 
do texto. 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa
 
3503 
Vale relembrar que os ensinamentos de Bakhtin (2003) — o domínio da língua 
não  se  faz  por  meio  do  exclusivo  convívio  com  dicionários  e  gramáticas,  senão,  ao 
contrário,  pelo  contato  com  enunciados  reais  que  atestam  a  flexibilidade  e  a 
variabilidade  dos  signos  verbais  —  subsidiam  nossa  proposta.  A discussão  dos  textos 
produzidos pelos discentes permite que sejam fornecidas as informações gramaticais e 
semânticas diretamente nos trechos problemáticos. O redator, ao reler seu texto, verifica 
os erros cometidos e recebe instruções de como não repeti-los. Dessa forma é possível 
mostrar ao estudante por que seu enunciado está errado e como poderá corrigi-lo. 
Portanto, o trabalho didático deve considerar que ensinar, aprender e empregar a 
linguagem perpassa necessariamente pelo sujeito, que é o agente das relações sociais e o 
responsável  pela  composição  e  pelo  estilo  dos  discursos.  Esse  sujeito  se  vale  do 
conhecimento de enunciados anteriores para formular suas falas e redigir seus textos.  
Por  conseguinte,  a  escola,  em  especial  o  corpo  docente,  precisa  participar 
efetivamente  dos  debates  sociais  e  políticos,  para  que  seja  impulsionada  a  uma 
renovação constante, do que dependerá a manutenção de sua credibilidade social. Uma 
escola que permite ao aluno chegar ao ensino superior sem fluência na sua língua é uma 
escola fracassada.  
O  estudante,  a  seu  turno,  irá  sentir-se  muito  mais  seguro  quando  constatar sua 
competência  verbal  demonstrada  pelo  êxito  nos  trabalhos  escolares,  além  de 
experimentar  maior  segurança  na  comunicação  linguística,  podendo  assim  atuar 
socialmente, sem passar pelo constrangimento da incomunicação. 
Concluindo, ensinar a língua é capacitar os sujeitos para a representação verbal 
de  suas  ideias  de  forma  apropriada,  ajustando-as  às  exigências  do  contexto  de 
comunicação, ou seja, do cenário onde se realiza a interação discursiva. No que tange à 
aprendizagem da dissertação escolar, a competência será testada nos vários certames por 
que  passam  os  estudantes  no  período  de  ingresso  a  um  curso  superior.  Por  fim,  os 
subsídios  icônico-funcionais  podem  objetivar  a  orientação  discente  para  o 
aperfeiçoamento de sua produção textual e afastar das sessões de avaliação de textos o 
velho e conhecido bordão discente: “mas era isso que eu queria dizer!”. 
 
 
 
 


Simpósio 22 – Questões semântico-sintáticas na pesquisa e no ensino da língua portuguesa 
3504 
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