contos improváveis eugênio borges (per)versos retorno



Baixar 0,5 Mb.
Página7/43
Encontro05.03.2019
Tamanho0,5 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   43
MATIZES

REVÉRBERO

Repousei com tranquilidade a minha mão sobre o teu colo e deixei que, imóvel, pudesse sentir o pulsar do teu coração. Ele começou a pulsar mais rápido e a tua respiração ficou mais ofegante, como quem procura o ar e não encontra. Senti o toque macio da tua pele e pensei que a idade não tinha ainda conseguido diminuir as sensações que um simples toque pode provocar nos nossos corpos.

Nos olhares, quando eles se prendiam sem pressas nas nossas figuras, pareciam penetrar no mais fundo que as almas escondem ou tentam esconder, às vezes simplesmente por inibição, sem explicação, ou por pura timidez.

As nossas vozes pareciam que se igualavam em tons e intensidade conforme o entendimento das palavras se aninhavam no discernimento aprazível dos anos.

Nossos prazeres gustativos, foram sendo apurados na justeza dos ensinamentos saudáveis da medicina, mas aí, talvez, os nossos corpos tenham obedecido ao apelo dos nossos genes e muitas das nossas preferências permaneceram incólumes.

Os perfumes por nós inalados, nunca tiveram consonância, talvez por isso conseguíssemos ter os nossos aromas tão próprios e diversos.

Por isso a tua lembrança não sai das minhas circunvoluções cerebrais e o teu rosto das minhas retinas, apesar de se terem passado tantos anos da tua morte.

Só as lembranças dos acontecimentos por nós vividos, é que se tem esfumado na memória dos tempos. Assim como quem apaga um quadro negro todo escrito, bem devagar, retirando fragmentos da história, a deixando assim mambembe, coxa, sem equilíbrio lógico. Os parágrafos se misturando, tornando tudo incompreensível. As memórias aparecem em flashes muito rápidos sem me dar tempo de as fixar.

Lembras-te do Antônio? Se tu ainda estivesse viva, irias ver a deterioração mental dele, provocada pelo Alzheimer. Ele já não consegue reconhecer ninguém, nem a si próprio, num declínio cognitivo enorme. Além da confusão mental e irritabilidade. As alterações do humor são frequentes, muitas vezes com agressividade. Já nem consegue identificar objetos ou pessoas.

Não consegue formular frases que tenham algum sentido. Se recusa a levantar da cama e na maioria das vezes não quer comer. Um verdadeiro abjeto.

Corpo sem memória é só um corpo, sem personalidade, sem vida, sem sentimentos. Nós somos a nossa memória, sem ela, nada somos.

E ele tem menos seis anos que eu. Fico imaginando que talvez essa doença atinja quem tem muito medo da morte, pois assim há um desligamento em vida da vida e a gente deixa de ter a percepção dela e nada mais importa. O sofrimento psíquico se acaba e a antevisão da morte deixa de existir. A gente fica como um animal acéfalo.

Mas existem aqueles que resistem às investidas do tempo, como o arquiteto Oscar Niemayer, que ultrapassou os cem anos de idade. O seu corpo se deteriorou, mas a sua integridade mental e intelectual foi fantasticamente preservada.

Creio que os apagamentos no encadeamento das minhas memórias são seletivos. As partes mais fortes, mais intensas têm sido preservadas. Por enquanto.

Tenho tido o cuidado de escrever as partes que me esqueço com mais frequência, para que assim, substitua a perda da minha memória. Só para me sentir mais apoiado de passados. O pior é que muitas vezes quando releio o que escrevi, não me reconheço dentro daqueles personagens. É como se eu estivesse a ler uma história de outra pessoa. De modo que o esforço da preservação de memória acaba por não funcionar e não ter nenhum sentido prático para mim.

Tenho tido apatia e já me foge a memória semântica, perdendo a flexibilidade do pensamento abstrato.

Entrei por outro tipo de experiência: me sento à frente da câmara de vídeo e começo a ler as memórias escritas e afirmo que é a história da minha vida. Mas acabou também não resultando, pois no outro dia nem sequer reconheci o meu rosto como se fosse meu.

. Agora já ando com a tua fotografia no bolso, para que a tua memória não me fuja. Mas no outro dia dei por mim a observar o teu retrato sem te reconhecer.

Por vezes me sinto tão desasado, tão sem memória, que a sensação é de um turbilhão dentro da minha cabeça, com muitos sons desconexos a habitá-la.

As saudades que surgem, quando me lembro de ti, são tão grandes que só me apetece estar contigo, esteja onde estiveres.

Fazes-me falta, minha querida.

Sinto falta do teu toque, do teu cheiro, da tua voz, quando consigo me lembrar disso tudo.

Se estivesses aqui, de certeza que irias repetir para mim, vezes sem conta, as nossas vivências, tornando a minha vida mais consubstanciada, mais crível, mais humana, mais lógica...




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   43


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal