Contos de Loucura Flávio Moreira da Costa



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Contos de Loucura

Flávio Moreira da Costa

Flávio Moreira da Costa, um dos mais ativos organizadores de antologias no Brasil (já são mais de 30), apresenta desta vez 34 contos e textos que têm a loucura como tema. Entre eles, cartas de Van Gogh para o irmão Théo, Lenz, de Georg Brüchner, Male de Luna, de Pirandello, e A mulher mais linda da cidade, de Charles Bukowski, ao lado dos brasileiros O alienista, de Machado de Assis, e Morfina, de Humberto de Campos. Entre os trabalhos mais surpreendentes está Na quadratura de Joana, da escritora Maura Lopes Cançado, diagnosticada como louca e autora de um dos livros mais impressionantes da literatura brasileira, Hospício é Deus. O livro é dividido em quatro partes: Loucura e cotidiano; Loucura e drogas; Loucura e clínica; e Loucura e testemunho. Outro cuidado do antologista foi apresentar sempre traduções de alto nível, com trabalhos de Boris Schnaiderman, Rubens Figueiredo, J. Guisnburg e José Paulo Paes, entre outros.

Flávio Moreira da Costa é gaúcho de Porto Alegre e de Livramento e mora no Rio de janeiro há muitos anos. Foi jornalista, tradutor e é escritor premiado, com mais de vinte livros, entre romances, contos e ensaios. Reconhecido por seu trabalho como antologista, organizou uma série de livros de sucesso, entre eles: Os cem melhores contos de humor da literatura universal, As cem melhores histórias eróticas da literatura universal e, mais recentemente, Os grandes contos populares do mundo, Aquarelas do Brasil, 22 contistas em campo e Os melhores contos bíblicos.

Seria a literatura um subproduto da infelicidade? Leon Tolstoi teria respondido que sim. Sua famosa abertura de Anna Karênina sugere que os infelizes inventam diferentes estilos de sofrer, cada um à sua maneira. Quanto aos felizes, estes se limitam a viver num estado de ininterrupta platitude, a salvo de sobressaltos e contradições. A presente coletânea de contos e 1 testemunhos sobre a loucura - muitos dos quais, escritos diretamente de dentro dela - comprova a intuição de Tolstoi. Como são infinitas as formas de enlouquecer! Por embriaguez, por paixão, por abandono, por estupidez, por desmesura, por vaidade, por medo -a lista é interminável. Chamo a atenção do leitor para os inúmeros textos escritos entre o final do século xix e o princípio do xx, contemporâneos à descoberta do inconsciente. Autores como Maupassant, Poe, Tchekhov, Lima Barreto e Machado de Assis não precisaram de Freud para entender o sofrimento mental produzido pela rígida racionalidade burguesa, que então se afirmava ao preço da segregação das sensibilidades desviantes. Os melhores contos deste livro organizado por Flávio Moreira da Costa, a meu ver, são os que evocam a relação entre a loucura e a miséria social. Miséria do corpo, da fome, da necessidade; mas também da intolerância, do exercício de pequenos poderes, da subserviência, da incompreensão. São textos que nos fazem perguntar, afinal, de que lado estão os verdadeiros loucos. -Maria Rita Kehl

Traduções exclusivas de Celina Portocarrero (francês, inglês), Léo Schlafman (francês, espanhol, italiano), Rubens Figueiredo (russo) Maria Luiza X. de A. Borges (inglês) e Flávio Alves MC (francês) Traduções escolhidas de José Paulo Paes (inglês), Boris Schnaiderman (russo), J. Guinsburg e Ingrid D. Koudela (alemão), Albino Poli Jr. e Flávio Moreira da Costa (inglês). Ediouro

Copyright (c) Ediouro Publicações, 2007 Copyright (c) da seleção, da introdução e das notas por Flávio Moreira da Costa e Prosa do Mundo Serviços Editoriais

Todos os direitos reservados à Ediouro Publicações S.A. Rua Nova Jerusalém, 345 - Bonsucesso Rio de Janeiro - RJ - CEP: 21042-235 Tel.: (21)3882-8200- Fax: (21)3882-8212 8313 www.ediouro.com.br

"Todos nascem loucos; alguns permanecem." Samuel Beckett (A loucura é) "o abismo da alma" Antonin Artaud

Foi por uma sugestão de Jorge Carneiro, com seu instinto de editor, que tirei esta velha idéia da gaveta - onde ela repousava, mas também amadurecia - para, por fim, levá-la adiante. No que foi importantíssima a colaboração sempre presente de Celina Portocarrero e a assessoria editorial, somada ao entusiasmo de cada um deles, de Paulo Roberto Pires, Felipe Schuery e juliana Freire. (FMC)



Antes mesmo de concluir esta antologia, tinha prometido a mim mesmo fazer uma introdução sem citar Foucault, Freud ou Lacan, com o objetivo de não dar a ela um certo ar acadêmico ou universitário, nada daquele tom de especialista (que aliás não sou), que pode afastar ou excluir a compreensão de terceiros. Mas ei-los citados, enfim, e já na primeira frase. Perdi o medo da incoerência com Glauber Rocha; uma vez, interrompi sua argumentação sobre determinado assunto com um "Mas isso é uma incoerência..." - e ele me respondeu, na hora: "Me peça qualquer coisa, menos para eu ser coerente!" E ele tinha razão: se a incoerência ou a contradição não faz parte do discurso cartesiano ou científico, ela pode ser vital numa discussão de idéias ou num discurso criativo - e Glauber foi ótimo exemplo disso. Mas será que já não falamos de loucura falando em criatividade criação? Todos conhecem aquela velha aproximação entre gênio e louco - e temos aqui alguns exemplos disso, que são os textos de Büchner Lenz, Van Gogh, Artaud, A incoerência ou a contradição, assim como a "certeza absoluta", faz parte de um universo mais fechado. Daniel Paul Schreber, "o louco mais famoso da história da psicanálise", costumava ouvir frases. Uma delas, "O fim do mundo é uma contradição em termos". Olha aí outra vez o problema da contradição (ou falta de), mas confesso que fiquei fascinado pela lucidez e pelo rigor lógico da mensagem que ecoava dentro de sua cabeça. E ouso concluir que talvez seja por coisas assim que Foucault, ao falar da atração que a loucura exerce sobre todos (ou quase todos: muitos a ignoram como se assim se resguardassem da possibilidade de por ela serem atingidos), tenha afirmado ser a loucura "um saber". Sim, mas de que loucura e de que loucos estamos falando? São tantas as definições específicas do ramo Psí, e mais ainda do senso comum, que aqui caberia a lembrança de um outro Foucault, o Foucault de Les mots et les choses: as palavras se desconectaram de seus significados. Ou ganharam matizes, "significados", sutilezas impensáveis. "Sou louco mas não sou maluco" - escutei certa vez de um dependente químico, que bem poderia ter dito a mesma coisa de forma inversa: "Sou maluco mas não sou louco", sem que com isso tivesse dito mentira ou disparate. O que não tem validade "científica" tem lá a sua lógica. Os sinônimos e as variações de loucura e louco são inúmeros no falar popular: pirado, lunático, doidão, maluco, maluco beleza, doido manso, despirocado, desmiolado, lelé da cuca, aquele que tem telha ou parafuso a menos, louco de amor ou de paixão (vide texto de La Fontaine), louco de fome, louco varrido, louco furioso etc. João Antônio, em Casa de loucos lembra outras palavras: zureta, matusquela, tanta, pancada, pinel, piradão e piradélico. Nada científico, mas tudo mais amplo e rico em suas insinuações e revelações até sonoras de uma diversidade do que aquilo que o mundo Psi classifica - como doenças mentais - em poucas (sem contarmos as diferenças internas de conceitos) palavras, ou palavras-chave: neuroses e psicoses, com subdivisões como oligofrenia, esquizofrenia, paranóia, distúrbio bipolar, depressão, TOC etc. Apenas um fio condutor, leitor. É assim que deve ser visto o tema de uma antologia: um fio elétrico que une e conduz a carga eletricidade, que é o conto, ou um fio de nylon que acolhe as conchas de um colar - de contas, de contos. Portanto, em primeiro lugar este é um livro de literatura, esta é uma antologia de contos (narrativas breves) e só numa segunda instância ela deve atender ao tema proposto - a loucura. E, quanto à definição do tema, bem, fico entre os dois pólos (sem nenhuma bipolaridade nisso, acredito) mencionados acima: o das definições oficiais e o das concepções populares. Ou melhor, tenho lá minha inclinação para a definição poética - e a poesia é, sim, um saber - de Antonin Artaud: a loucura é "o abismo da alma". O importante é que se tenha aqui uma boa leitura; da minha parte, respeitei um tema que se apresenta esgarçado por estigmas e preconceitos e... conceitos; um tema, enfim, de certa gravidade (afinal, trata-se de "doenças mentais"), mas que nem por isso exclui de vez a sanidade da lucidez, da criatividade e mesmo do bom humor, conforme se pode ver ler nos textos de Poe, Machado e Qorpo-Santo. Por outro lado, temos a presença nesta antologia de contos reveladores (da esquizofrenia, em "Lenz", por exemplo, mas não só), muitos publicados pela primeira vez em português, caso de "Male de luna", de Pirandello, "Aracnéia", de Mareei Schwob, "O inferno artificial", de Quiroga, "O possesso", de Jean Lorrain, "O comedor de sonho", de Catulle Mendes, e, em tradução direta do russo, "Dentro de um espelho", do poeta simbolista e contista, até hoje desconhecido entre nós, Valiéri Briússov. A parte "Loucura e drogas" não sugere, como poderia parecer, que as drogas sejam sinônimo de doença mental, mas é comprovado que seu uso excessivo e ou constante dá início ou desenvolve processos psicóticos. Propomos ainda, na parte "Loucura e testemunho", um pequeno mas estratégico desvio de rota, com o objetivo de aprofundar o tema em detrimento do gênero literário em concepção restrita, dando voz a quem viveu o problema na pele na mente na instituição, como se assim eles, que são tão pouco ouvidos em vida, nos contassem e advertissem que... nem tudo é ficção. São textos que podem nos perturbar e que chegam mesmo a fazer com que nós (aconteceu comigo, ao longo deste trabalho) venhamos a reavaliar nossas idéias ou conceitos prévios, chegando mesmo a hesitar - eu, de novo - cada vez que precisasse escrever as palavras loucura ou louco: escrevê-las com ou sem aspas? Ou será que continuaremos a classificar um Maupassant, um Gogol, um Artaud, um Van Gogh com o redutivo conceito de "loucura"? Como pode o que se chama universalmente de "loucura" nos revelar tantos momentos de lucidez, criatividade e beleza? Será que alguém, que saiba do que estou falando, consegue ver um girassol na natureza, hoje, com os mesmos olhos que via antes de ter contemplado os girassóis deste "suicidado pela sociedade", nas palavras de Artaud, que foi Van Gogh? E a lucidez de tantos "loucos", como o próprio Artaud ou a nossa Maura Lopes Cançado (ler Hospício é Deus, se possível), explicá-las ou negá-las, quem haveria de? Não, leitor, nenhuma certeza absoluta do que disse até aqui; são apenas considerações de quem se aproximou, com este trabalho, da loucura - com ou sem aspas -, para dela sair um pouco mais renovado, com uma melhor compreensão a respeito do ser humano em geral. Aliás, não é isso o que faz a literatura, esse saber, com nós todos? Sobre a introdução mais, digamos, objetiva, até onde isso é possível, convido o leitor aos textos que antecedem cada conto em particular. Se a loucura (cheguei a cometer um ato falho, escrevendo "leitura" em vez de loucura) é um problema pessoal (louco é sempre o outro, não é mesmo?) e social (o que fazer com "eles"?) é hora de lembrar que a loucura do homem, como ser histórico e coletivo (e para esse homem-nós não há instituição nem drogas que dêem jeito), vem matando o planeta em que ele mesmo vive. Será que o abismo da alma pode se transformar no abismo do mundo? E esse viés ecológico, que parece dar um novo significado à frase de Schreber, poderá nos trazer um pouco de esperança: não, o mundo não pode acabar. Ou será que pode? Bem, só espero que eu não esteja ouvindo vozes. Rio, fevereiro de 2007

LOUCURA E COTIDIANO

"O amor e a loucura" ("Lamour et Ia folie"). FONTAINE, Jean de La. Fables. Paris: Le Livre de Poche, 2002.

TRADUÇÃO DE FLÁVIO ALVES MC

Desde sempre, a ligação supostamente estreita entre dois sentimentos ou emoções diversos, se não antagônicos, do ser humano, e que poderia se sintetizar na expressão corrente "louco de amor", vem ocupando as preocupações ou crendices dos homens. Já era assim na época da Grécia, com seus deuses eternamente presentes; e foi assim

que tudo começou, conforme a versão do clássico francês Jean de La Fontaíne (1621-1695). O texto tem uma forma simples, quase singela; é uma realização poética, sintética e certeira como a própria flecha de Cupído (aqui denominado Amor), nesta que é uma entre tantas de suas célebres fábulas. E ela entra aqui como uma espécie de introdução (mais amena) aos demais textos referentes a "Loucura e cotidiano". No Amor tudo é mistério: suas flechas e sua aljava, sua chama e sua infância eterna. Mas por que o amor é cego? Aconteceu que num certo dia o Amor e a Loucura brincavam juntos. Aquele ainda não era cego. Surgiu entre eles um desentendimento qualquer. Pretendeu então o Amor que se reunisse para tratar do assunto o conselho dos deuses. Mas a Loucura, impaciente, deu-lhe uma pancada tão violenta que lhe privou da visão. Vênus, mãe e mulher, pôs-se a clamar por vingança, aos gritos. E diante de Júpiter, Nêmesis - a deusa da vingança - e de todos os juizes do Inferno, Vênus exigiu que aquele crime fosse reparado. Seu filho não podia ficar cego. Depois de estudar detalhadamente o caso, a sentença do supremo tribunal celeste consistiu em condenar a Loucura a servir de guia ao Amor.

"Lenz" (Uma novela). BÜCHNER, Georg. Na pena e na cena. Org. de J. Guinsburg e ingrid D. Koudela. São Paulo: Perspectiva, 2004.

TRADUÇÃO E NOTAS DE J. GUINSBURG E INCRID D. KOUDELA



Dois escritores que viveram - e morreram - precocemente. Dois criadores, um autor e outro (como) personagem: Georg Büchner (1813-1837], o autor, e um dos inauguradores da dramaturgia moderna com A morte de Danton e Woyseck, ejacob Michael Reínhold Lenz (1751-1792), de uma ou duas gerações anteriores à sua, o personagem, que viveu o "período dos gênios" da literatura alemã, isto é, entre 1765 e 1780, movimento literário também conhecido como "Tempestade e ímpeto" (Sturm und Drang). "Lenz", a única narrativa curta de Büchner, teve como base um diário do pastorJohann Oberlin, que acolheu i. Esta novela inacabada, que Georg Büchner quis escrever sobre Lenz, é um testemunho da atração que a obra desse desventurado poeta e dramaturgo exerceu sobre o autor de Woyieck; e não apenas sobre ele, pois o mesmo impacto tornou-se visível em gerações ulteriores e, mais sensivelmente, a partir do movimento expressionista. Na verdade, pode-se dizer que, se a vida desse expoente do pré-romantismo alemão do Sturm und Drang oferece um antecedente impressionante da figura existencial e prefigura a moldagem que dela se fixou como representativa do escritor romântico a vivenciar na sua carne o mal du siècle, a literatura do jovem "gênio maldito", que tanto lutou para se tornar um êmulo de Goethe, sem conseguir no entanto "classicizar-se" mesmo romanticamente, constituiu-se numa produção, sobretudo a dramática, que é uma das mais irrecusáveis anunciações de uma arte cuja explosão seria a da vanguarda artística do século XX e de sua revolução estética. Não é por acaso que depois de Büchner, Brecht retomará e explorará, com sua genialidade poética e consciência política, as possibilidades teatrais e crítico-sociais do "drama em farrapos" não só em sua adaptação de O preceptor. Jakob Michael Reinhold Lenz (1751-1792) nasceu na região báltica, estudou teologia em Dorpat e Koenigsberg, onde, a conselho de Kant, leu Rousseau. Contratado como preceptor por uma família nobre de Estrasburgo, conheceu Goethe - um encontro que desencadearia o mecanismo de seu fatídico destino. Além de inspirados poemas de amor, com os quais procurou ganhar as graças de Friederike Brion (1752-1813), que fora amante de Goethe, Lenz traduziu em versos livres e estruturas menos rígidas várias comédias de Plauto e compôs as peças O preceptor e Os soldados. Em 1777, restabelecendo-se das perturbações que o texto de Büchner descreve e que o levaram de volta a Estrasburgo, retornou à região natal e, finalmente, foi para a Rússia, vindo a falecer numa rua de Moscou, no mais completo abandono. Lenz, já algo delirante, em sua própria casa na aldeia de Steital; e como cenário uma proposta de literatura que o remeteria a Shakespeare e sobretudo Goethe e à canção popular alemã -, contra o idealismo estético da época. O conto de Büchner chegou até nós com pequenas lacunas no texto, mas nem por isso se trata de um fragmento; ao contrário, é uma narrativa densa e que segue num crescente, embora talvez possa parecer lenta aos olhos do leitor de hoje. Mas cabe a nós abrirmos os olhos e os ouvidos, pois se trata de um texto conto marcante na passagem para a modernidade e, nele, até a lentidão tem sua função, como explicam]. Guinsburg e Ingrid Dormien Koudela, na introdução à bem-cuidada edição brasileira Büchner Na pena e na cena: "As impressões da natureza no caminho de Lenz pelas montanhas são descritas por Büchner como reflexo de estados de alma que se alternam (...) O medo que invade Lenz diante da escuridão e das altas montanhas, a sensação de solidão e a de uma paisagem cujos contornos se desfazem nos vales, perpassa como um tema musical tanto a escritura quanto o continuum do tempo que se dissolve." Até chegar ao auge da crise (mental) anunciada: "O surto psicótico que o avassala se traduz também numa crítica ao cristianismo. A paisagem titânica nas escarpas se lhe descortina, em céus de um azul 'idiota' e, sob a luz incerta de uma Lua 'ridícula', personifica-lhe, na sua esquizofrenia, um Deus que acompanha a vida sem tomar qualquer partido." Lenz, autor que chegou a dialogar com Goethe, escreveu as peças O preceptor e Os soldados. Depois deste episódio de "exílio" psicológico numa aldeia, acabou morrendo numa rua de Moscou, em total abandono. O conto "Lenz" mostra, pela primeira vez (pelo menos na literatura alemã), em texto literário, o desenrolar de uma crise paranóide-esquizofrê

nica. A (20 de janeiro) Lenz atravessou as montanhas. Os cumes e os altiplanos cobertos de neve; vales embaixo, rochedos cinzentos, chapadas verdes, penhascos e pinheiros. Fazia um frio úmido, a água escorria pelas rochas abaixo e saltava sobre o caminho. Os galhos dos pinheiros pendiam pesados no ar úmido. No céu arrastavam-se nuvens cinzentas, mas tudo era tão espesso, e depois a névoa fumeava para o alto e estirava-se úmida e a custo pelo matagal, tão lenta, tão densa. Ele prosseguiu indiferente, pouco lhe importava o caminho, ora para cima, ora para baixo. Cansaço ele não tinha, apenas lhe era desagradável, às vezes, não poder andar de ponta cabeça. De início sentia um aperto no peito quando as pedras saltavam daquele jeito no caminho, quando a floresta cinzenta se agitava lá embaixo e o nevoeiro ora lhe devorava as formas, ora semi-encobria os seus membros poderosos; sentia-se premido, estava em busca de algo, como de sonhos perdidos, mas nada encontrava. Tudo lhe era tão pequeno, tão próximo, tão molhado, gostaria de pôr a terra atrás da estufa, não compreendia por que precisava de tanto tempo para descer uma encosta, atingir um ponto distante; pensava poder medir tudo com alguns passos. Só às vezes, quando a tempestade atirava as grossas nuvens para os vales, e o vapor subia da floresta, e as vozes acordavam nos rochedos, ora como trovões perdendo-se na distância, e depois avizinhando-se com intenso fragor, em sonâncias, como se quisessem em seu júbilo selvagem celebrar a terra, e as nuvens acorriam a galope como relinchantes cavalos selvagens, e o sol as atravessava pelo meio e surgia e desfechava seu gládio cintilante sobre as planuras nevadas, de modo que uma luz clara, ofuscante, talhava de sobre os cumes até os vales; ou quando a tempestade impelia as nuvens para baixo e rasgava nelas um luminoso lago azul, e depois o vento se calava, e lá embaixo, do fundo dos precipícios, do cimo dos pinheiros, seu sussurro se erguia como uma cantiga de ninar e um repicar de sinos; e do azul profundo alçava-se um vermelho suave, e pequenas nuvenzinhas perpassavam sobre asas de prata e todos os picos de montanha, nítidos e firmes, longe sobre o solo refuigiam e brilhavam - isto dilacerava-lhe o peito; estacava, ofegante, com o corpo curvado para frente, olhos e boca bem abertos, devia, pensava, aspirar para dentro de si a tempestade, apreender tudo dentro de si; esticava-se e deitava-se na terra, enterrava-se no Todo, era um prazer que lhe causava dor; ou ficava quieto e pousava a cabeça no musgo e entrefechava os olhos, e então tudo se distanciava, a Terra fugia sob seu corpo, tomava-se pequena como uma estrela errante e mergulhava em um caudal efervescente que arrastava debaixo dele sua água clara. Mas eram apenas instantes, e depois levantava-se sóbrio, firme, calmo, como se um jogo de sombras tivesse passado por ele; não sabia de mais nada. Perto do anoitecer, chegou aos altos das montanhas, ao campo de neve, de onde se desce de novo para a planície a oeste; sentou-se ali em cima. Tudo se tornara mais calmo perto do anoitecer; as nuvens estavam firmes e imóveis no firmamento, até onde a vista alcançava, nada senão cumes de onde desciam largos declives, e tudo tão silencioso, cinzento, crepuscular; sentiu-se terrivelmente só, estava só, inteiramente sozinho; queria falar consigo mesmo, mas não conseguia, mal ousava respirar, a flexão de seus pés ressoava como um trovão atrás dele; precisou sentar-se; foi tomado de um medo indizível nesse nada, estava no vazio, levantou-se de um salto e desceu voando penhasco abaixo. A escuridão havia chegado, céu e terra fundiram-se numa só coisa. Era como se atrás dele algo o seguisse, e como se algo horrível devesse atingi-lo, algo que seres humanos não podem suportar, como se a loucura o perseguisse a galope. Finalmente ouviu vozes, viu luzes, sentiu-se aliviado, disseram-lhe que ainda levaria meia hora para chegar a Waldbach.2 Atravessou a aldeia, as luzes brilhavam através das janelas, de passagem espreitou o interior das casas: crianças à mesa, mulheres velhas, mocinhas, tudo tranqüilo, rostos serenos, era como se a luz devesse emanar deles; sentiu-se desafogado, logo viu-se no presbitério de Waldbach. Estavam à mesa, entrou; os cachos loiros caíam-lhe em torno do rosto pálido, um estremecimento vibrou em seus olhos e seus lábios, sua roupa estava rasgada. Oberlin3 deu-lhe as boas-vindas, tomando-o por um artífice. "Seja bem-vindo, embora eu não o conheça." "Sou amigo de Kaufmannn4 e trago-lhe saudações de sua parte." "Seu nome, por favor?" "Lenz". "Ha, ha, ha, esse nome já não saiu impresso? Já não li algumas peças de teatro, atribuídas a um senhor com esse nome?" "Sim, mas queira não me julgar por isso." Continuaram conversando, ele buscava as palavras e narrava depressa, como se estivesse sobre brasas; pouco a pouco ficou mais calmo, a sala acolhedora e as faces tranqüilas que se destacavam na sombra: o límpido rosto de criança sobre o qual parecia repousar toda a luz e o olhar curioso, confiante, voltado para cima, na direção da mãe, que atrás, na sombra, se encontrava sentada em tranqüilidade angelical. Ele começou a contar de sua terra natal; desenhou muitos de seus trajes típicos, seus ouvintes comprimiam-se com interesse à sua volta; sentiu-se logo em casa, com seu pálido rosto infantil, 2 Walbach, na realidade Waldersbach, pequena cidade alsaciana no Steintal, a sudoeste de Estrasburgo. 3 (ohann Friederich Oberlin (1740-1826), pároco protestante de Waldbach durante 59 anos. Distinguiu-se e tornou-se querido pelas ações generosas que praticou em prol de sua comunidade. No inverno de 1778, acolheu Lenz, já mentalmente perturbado, e anotou em um diário as vicissitudes dessa convivência. 4 Amigo de Lenz e Oberlin, Christoph Kaufmann (1753-1795) era também ligado a Herder e Goethe. que agora sorria, com a vivacidade de sua narrativa; ficou tranqüilo, era como se da escuridão saíssem de novo antigas figuras, semblantes esquecidos; velhas cantigas despertavam, estava longe, muito longe. Finalmente chegou a hora de se recolher, levaram-no ao outro lado da rua: o presbitério era muito pequeno, deram-lhe um quarto na escola. Ele subiu, fazia frio lá em cima, naquele aposento vazio, com um leito muito alto ao fundo; depôs a vela sobre a mesa e começou a andar de um lado para o outro; recordou-se mais uma vez do dia, de como chegara até ali onde estava; a sala da casa paroquial com suas luzes e os rostos queridos, era como se fosse uma sombra, um sonho, e como antes na montanha sentiu-se vazio, mas agora não podia mais preenchê-lo, a luz se apagara, as trevas engoliram tudo; um medo indizível apoderou-se dele, levantou-se de um salto, correu para fora do quarto, escada abaixo, para fora da casa; mas em vão, tudo escuro, não se via nada, ele era um sonho de si mesmo, alguns pensamentos esgueiraram-se, segurou-os com firmeza, era como se precisasse sempre dizer "Pai Nosso"; já não mais conseguia encontrar-se, um instinto obscuro o impelia a salvar-se, tropeçou nas pedras, arranhava-se com as unhas, a dor começou a devolver-lhe a consciência, ele se atirou no poço, mas a água não era profunda, chapinhou lá dentro. Aí chegaram pessoas, haviam escutado, chamaram por ele. Oberlin veio correndo; Lenz voltara de novo a si, a consciência toda de sua situação se lhe apresentava, sentiu-se mais uma vez aliviado, agora se envergonhava e estava desolado por ter assustado aquela boa gente; ele lhes disse que tinha o costume de tomar banho gelado, e tornou a subir; o esgotamento permitiu que por fim repousasse. No dia seguinte as coisas correram bem. Com Oberlin, percorreu o vale a cavalo: largas chapadas de encostas que, descendo de grandes alturas, se contraíam num estreito e tortuoso vale, que se estendia em muitas direções para o alto das montanhas; grandes massas rochosas que se alargavam para baixo, pouca floresta, mas tudo em tintura cinzenta e austera; um panorama para oeste terra adentro, e sobre a cadeia de montanhas, que se lançava reta para baixo rumo ao sul e ao norte, e cujos picos grandiosos se alteavam em severa e taciturna serenidade como um sonho crepuscular. Imponentes massas de luz que por vezes, dos vales, se intumesciam como uma torrente dourada, depois, de novo, grossas nuvens que pairavam sobre o mais alto píncaro, e depois, lentamente, floresta abaixo, descaíam, ou, no refulgir do sol, como um prateado fantasma alado, abatiam-se e ascendiam; nenhum ruído, nenhum movimento, nenhum pássaro, nada a não ser o soprar, ora próximo, ora longínquo, do vento. Apareciam também pontos, esqueletos de cabanas, tábuas cobertas de palha, de cor escura, sombria. As pessoas, silenciosas e graves, como se não ousassem perturbar a quietude de seu vale, os saudavam tranqüilas, quando passavam junto delas em seu trote. Dentro das cabanas reinava animação, comprimiam-se à volta de Oberlin, ele orientava, dava conselho, consolava; por toda parte olhares confiantes, preces. As pessoas contavam sonhos, premonições. Depois, rápido, a vida prática; caminhos traçados, canais escavados, a escola visitada. Oberlin era incansável, Lenz sempre seu acompanhante, ora na conversação, ora ativo no negócio, ora imerso na natureza. Tudo exercia sobre ele um efeito benéfico e apaziguador, tinha com freqüência que olhar Oberlin nos olhos, e a paz imensa que nos assalta diante da natureza em repouso, na profundeza da floresta, nas noites de verão derretendo-se à luz clara do luar, essa paz parecia-lhe ainda mais próxima, nesses olhos serenos, nesse semblante sério, venerável. Era tímido, mas fazia observações, falava; para Oberlin, sua conversa era muito agradável, e o delicado rosto infantil de Lenz causava-lhe grande alegria. Porém, somente enquanto a luz morava no vale era-lhe suportável; ao entardecer, via-se acometido de um estranho temor, desejaria correr atrás do sol; à medida que os objetos se tornavam mais e mais ensombrecidos, tudo lhe parecia tão onírico, tão adverso: apossava-se dele a angústia como a de crianças que dormem no escuro; era como se estivesse cego; agora o medo crescia, o pesadelo da demência sentava-se a seus pés; o pensamento sem salvação, como se tudo fora apenas o seu sonho, abria-se diante dele; agarrava-se a todos os objetos, vultos passavam por ele céleres, esforçava-se por alcançá-los, eram sombras, a vida esvaía-se dele e seus membros ficaram inteiramente tesos. Falava, cantava, recitava trechos de Shakespeare, agarrava-se a tudo que pudesse fazer seu sangue correr mais depressa, ele tentava tudo, mas fazia frio, frio. Precisava então sair ao ar livre, a fraca luz dispersa pela noite, tão logo seus olhos se acostumavam à escuridão, fazia-lhe bem; ele se atirava no poço, o penetrante efeito da água fazia-o sentir-se melhor; nutria também a secreta expectativa de uma doença, ele agora tomava seu (banho) com menos barulho. Quanto mais se habituava àquela vida, mais calmo ficava; ajudava Oberlin, desenhava, lia a Bíblia; antigas esperanças passadas nele renasciam; o Novo Testamento vinha aqui ao seu encontro [lacuna ou falha no texto original}. Quando Oberlin lhe contara como u'a mão invisível o segurara sobre a ponte, como, lá nas alturas, um brilho havia ofuscado seus olhos, como ouvira uma voz, como esta conversara com ele no meio da noite, e como Deus o habitara tão inteiramente que ele, qual uma criança, tirava a sorte do bolso para saber o que devia fazer - essa fé, esse eterno céu em vida, esse ser em Deus; só agora a Sagrada Escritura se lhe abria. Como a natureza chegava tão perto das pessoas, toda ela em mistérios celestes; não violentamente majestosa, porém ainda assim familiar! - Certa manhã saiu de casa, de noite tinha caído neve, no vale havia uma clara luz do sol, mas adiante o nevoeiro meio encobria a paisagem. Logo abandonou a estrada, e galgou uma suave elevação, nenhum vestígio de pegadas mais, até um pinheiral ao lado, o sol recortava cristais, a neve em flocos era fofa; aqui e acolá rastros ligeiros de caça que se estendiam montanha adentro. Nenhum movimento no ar, apenas o rumor de um pássaro a sacudir levemente a neve da cauda. Tudo tão silencioso, e as árvores na distância com brancas penas oscilantes no azul profundo. Pouco a pouco, tudo se lhe tomava íntimo, os uniformes e imponentes planos e linhas que pareciam às vezes falar-lhe em tons violentos estavam encobertos, um secreto sentimento natalino o dominou: achava às vezes que sua mãe, majestosa, havia de aparecer de trás de uma árvore e dizer-lhe que o presenteara com tudo aquilo; ao descer, viu que ao redor de sua sombra pusera-se um arco-íris de raios; era como se algo o tivesse tocado na testa, o ser lhe dirigia a palavra. Chegou lá embaixo. Oberlin estava na sala, Lenz aproximou-se dele alegre e disse-lhe que gostaria de um dia fazer a predica. - "O senhor é teólogo?"5 "Sim!". - "Bem, no próximo domingo". Lenz subiu contente para o seu aposento; pensava em um texto para a predica e absorvia-se em meditação, e suas noites tornaram-se calmas. Veio a manhã de domingo, ocorrera um degelo. Nuvens passantes, azul no entremeio, a igreja ficava perto, montanha acima, sobre uma saliência; o cemitério à sua volta. Lenz encontrava-se lá em cima quando soaram os sinos e os fiéis 5 Lenz, de fato, tinha formação em teologia. que iam ao serviço, as mulheres e as mocinhas com seus austeros trajes pretos, o lenço branco dobrado sobre o livro de cânticos e o galho de rosma-ninho, vinham do alto e de baixo pelos vários lados das estreitas trilhas, entre os rochedos. Pairava por vezes uma nesga de sol sobre o vale, o ar morno movia-se devagar, a paisagem flutuava em perfume, longínquos toques de sino, era como se tudo se dissolvesse em uma onda harmônica. No pequeno cemitério a neve havia desaparecido, musgo escuro debaixo das cruzes pretas, uma roseira têmpora estava encostada no muro; flores tardias, além disso, a despontar sob o musgo, às vezes sol, depois de novo sombra. O serviço começou, as vozes humanas encontravam-se em um som claro e puro; uma impressão de quem contempla uma transparente e límpida torrente de montanha. O cantar cessou, Lenz falou, era tímido, sob a música do canto a sua tensão havia passado inteiramente, toda a sua dor agora acordava e instalava-se em seu coração. Uma doce sensação de infinito bem-estar apoderou-se dele. Falou com simplicidade às pessoas, todas elas sofriam junto com ele, e era um consolo para ele quando conseguia trazer o sono a alguns olhos cansados de chorar e a paz a corações atormentados, quando lograva conduzir aos céus essas existências torturadas por necessidades materiais. Ele havia se tomado mais seguro, quando concluiu; então as vozes entoaram de novo: Deixa que em mim as santas dores irrompam de suas fundas nascentes; seja o padecer todo o meu benefício, seja o padecer meu ofício divino. A inquietação em seu íntimo, a música e a dor abalaram-no. O Todo estava para ele em chagas; sentia uma dor profunda, indizível, por isso. Agora era um outro ser, lábios divinos, frementes, inclinavam-se sobre ele e sugavam seus lábios; subiu para seu quarto solitário. Estava só, só! Aí a fonte rumorejou, rios irromperam de seus olhos, ele se torceu dentro de si, seus membros tremiam; era como se tivesse de dissolver-se, não conseguia encontrar nenhum termo para a sua volúpia; finalmente alvoreceu em seu imo, sentiu uma profunda e mansa compaixão por si próprio, chorou de pena de si mesmo, sua cabeça tombou sobre o peito, adormeceu, a lua cheia pairava no céu, os cachos caíam-lhe sobre as têmporas e a face, as lágrimas pendiam-lhe aos cíiios e secavam sobre as maçãs do rosto; assim deitado, agora, permanecia ali sozinho, e tudo estava silencioso e quieto e frio e a lua brilhou a noite toda e pairava sobre as montanhas. Na manhã seguinte ele desceu e contou calmamente a Oberlin que à noite a mãe lhe tinha aparecido; do escurecido muro do cemitério ela surgira em um vestido branco, trazia uma rosa branca e outra vermelha enfiadas no corpete; depois ela mergulhara em um canto do muro, e as rosas lentamente cresceram sobre ela, com certeza estava morta; não tinha dúvida disso. Oberlin contou-lhe então que estava sozinho no campo quando da morte de seu pai, e ouvira então uma voz, de modo que soubera que seu pai estava morto, e que ao chegar em casa tal fato sucedera. Isso os levou adiante: Oberlin falou ainda do povo das montanhas, de moças que pressentem a presença de água e de metal debaixo da terra, de homens que em alguns picos montanhosos são agarrados e lutam com um espírito; contou-lhe também como certa vez, na serrania, caíra numa espécie de sonambulismo ao fitar uma torrente de água profunda nas montanhas. Lenz disse que o espírito das águas o possuíra, que então teria experimentado algo de seu ser peculiar. E prosseguiu: a mais simples e pura natureza humana está mais estreitamente ligada à mais elementar; quanto mais apuradamente o homem sente e vive o espiritual, mais embotado fica esse sentido elementar; ele não o considerava um estado superior por não ser bastante independente, mas julgava que devia haver uma infinita sensação de deleite em ser tocado por toda e qualquer forma dessa vida peculiar; ter alma para pedras, metais, água e plantas; acolher dentro de si tão sonhadoramente cada ser da natureza, como as flores acolhem o ar com o crescer e o minguar da lua. Ele continuou a externar o que lhe ia no coração dizendo como em tudo havia uma indescritível harmonia, uma sonância, uma ventura, que nas formas superiores com mais órgãos desenvolvidos a partir dela mesma, soa, capta e, por isso mesmo, é tanto mais profundamente afetada, assim como nas formas inferiores tudo é mais reprimido e limitado, mas em troca nelas a paz é maior. Ele prosseguiu nessa idéia. Oberlin o interrompeu, isso o levava para longe de sua maneira simples de ser. De outra vez Oberlin mostrou-lhe uma série de pequenas tábuas coloridas e explicou-lhe quais eram as relações que cada uma das cores mantinha com os homens; exibiu os doze Apóstolos, cada qual representado por uma cor. Lenz apanhou essa idéia, continuou a tecê-la, teve sonhos angustiantes e começou como Stilling6 a ler o Apocalipse e leu muito a Bíblia. Nessa época, Kaufmann veio com sua noiva para Steintal. O encontro, a princípio, foi desagradável para Lenz; havia arranjado para si um cantinho como aquele, era-lhe tão precioso este pouquinho de tranqüilidade, e agora vinha alguém ao seu encontro que lhe recordava tanta coisa, com quem deveria falar, conversar, alguém que conhecia a sua situação. Oberlin de nada sabia; ele o havia acolhido, cuidara dele; via isso como um decreto de Deus que lhe enviara o infeliz e ele o amava com ternura. Todos ali também achavam necessário que ele ali estivesse, ele pertencia a eles, como se aí já estivesse de há muito e ninguém lhe perguntava de onde viera e para onde iria. À mesa, Lenz recuperou o bom humor; falava-se de literatura, ele estava em seu terreno; o período idealista7 começava então, Kaufmann era um adepto dele, Lenz o contestou com veemência. Ele falou: os poetas de quem se diz que retratam a realidade tampouco têm a menor idéia dela, mas ainda são mais suportáveis do que aqueles que pretendem transfigurá-la. Ele dizia: o bom Deus fez o mundo como deve ser, e nós, decerto, não podemos fazê-lo melhor; nosso único esforço deve ser o de copiá-lo um pouco. Eu exijo que haja sempre em tudo - vida, possibilidade de existência e aí está bem; não é necessário então perguntar se é belo ou feio, o sentimento de que aquilo que foi criado tem vida, está acima de ambos e é o único critério na arte. Aliás, ele se nos depara raramente, em Shakespeare encontramo-lo e nas canções populares soa por inteiro, em Goethe de vez em quando. Todo o resto pode ser jogado no fogo. As pessoas também não sabem desenhar uma casa de cachorro. Querem figuras idealistas, mas tudo o que delas vi são bonecos de pau. Esse idealismo é o mais vergonhoso desprezo pela natureza humana. Seria preciso experimentá-lo alguma vez e mergulhar na vida das criaturas mais ínfimas e reproduzi-la, em seus espasmos, em suas insinuações, 6 johann Heinrich JungStilling (1740-1817), um autodidata que chegou a ser doutore acadêmico, foi autor de livros pietistas, bem como de um famoso romance autobiográfico, A Mocidade de Heinrich Stilling. 7 A indicação não pode ser tomada ao pé da letra, pois Büchner, a bem dizer, antecipa um fenômeno que irá ocorrer a partir de 1770, ou seja, a eclosão da escola idealista alemã. todo esse fino, quase imperceptível, jogo de expressões faciais; ele o havia experimentado no Hofmeister (O preceptor) e nos Soldados. São as pessoas ---ais prosaicas do mundo; mas a veia do sentimento é a mesma para quase todos os homens, somente o invólucro que ela deve quebrar é mais ou menos espesso. Basta a gente ter olhos e ouvidos para isso. Ontem, quando vinha subindo perto do vale, vi duas moças sentadas numa pedra, uma delas enrolava os cabelos para cima e a outra ajudava; o cabelo dourado caía solto, em um grave semblante pálido, e no entanto tão jovem, a de traje negro, e a outra tão cuidadosamente prestativa. As mais belas e as mais comoventes obras da velha escola alemã8 mal dão idéia disto.c A gente gostaria às vezes de ser uma cabeça de medusa para transformar em pedra um grupo como aquele, e depois chamar as pessoas. As jovens levantaram-se, a linda cena ficou destruída; mas ao descerem por entre os penhascos, uma nova imagem se constituiu. Os mais belos quadros, os tons mais inflamados se agrupam e se dissolvem. Permanece apenas uma coisa: uma infinita beleza, que passa de uma forma para outra, eternamente desfolhada, transmudada; nem sempre, porém, é possível fixá-la e expô-la em museus ou transpô-la em notas musicais e depois chamar gente moça e provecta, meninos e velhos para comentar a respeito e deixar-se encantar. É preciso amar a humanidade para penetrar na essência particular de cada criatura, nenhuma delas deve parecer a cada um de nós demasiado pequena, demasiado feia, pois só então é possível compreendê-la; o rosto mais insignificante causa uma impressão mais profunda do que a pura sensação do belo, e pode-se deixar as figuras saírem de si, sem copiar algo de fora no seu interior, onde nenhuma vida, nenhum músculo, nenhum pulso se intumescem e palpitam. Kaufmann objetou-lhe que não se encontra na realidade nenhum modelo de um Apoio de Belvedere9 ou de uma Madona de Rafael.10 E o que importa isso, replicou-lhe 8 Cabe supor que a referência, no caso, é à pintura alemã dos séculos XV e XVI, istoé, às obras de Dürer, Altdorfer e os Cranachs, entre outras. 9 Cópia romana do século IV de um original ateniense considerado, sobretudo na Renascença, como o modelo perfeito da masculinidade. Durante muito tempo ela esteve exposta no Belvedere do Vaticano. ío Madona de Rafael Sanzio (1483-1520), um dos principais mestres da pintura renascentista. Seu trabalho deu ao Renascimento algumas das Madonas mais exemplares do período, as quais, no curso de vários séculos, foram tidas como o ápice insuperável da arte da pintura, sobretudo no romantismo. Lenz: devo confessar que me sinto inteiramente frio diante disto. Quando o elaboro dentro de mim, também posso muito bem sentir algo nisso, mas eu o faço o melhor que posso. Prefiro o poeta e artista plasmador que me dá a natureza na expressão mais real, de modo que a criação me leva a sentir; todo o resto me perturba. Prefiro os pintores holandeses aos italianos, eles são, aliás, os únicos pintores compreensíveis; conheço apenas dois quadros, e na verdade ambos da Holanda, que me causaram uma impressão como a do Novo Testamento; um deles, que não sei de quem é, representa Cristo e os Discípulos de Emaús.11 Quando se lê como os discípulos partiram, imediatamente toda a natureza se coloca naquelas poucas palavras. É um sombrio e crepuscular anoitecer, uma réstia rubra e uniforme no horizonte, semi-escuridão sobre o caminho, aí um desconhecido vem a eles, conversam, ele parte o pão; então eles o reconhecem, de um modo simples e humano, e os divinos traços sofredores lhes falam claramente, e eles se atemorizam, pois já escureceu e algo de incompreensível no ar apossou-se deles, mas não se trata de nenhum pavor espectral; é como se um morto querido, no crepúsculo, ao modo antigo, viesse ao encontro da gente, assim é o quadro, com o seu uniforme tom acastanhado, com o seu turvo entardecer silencioso. Depois um outro.'2 Uma mulher sentada em sua alcova, com o livro de orações na mão. Tudo dominicalmente arrumado, a areia espalhada, límpida e cálida intimidade. A mulher não pôde ir à igreja e faz a sua devoção em casa, a janela está aberta, a mulher olha em sua direção, e é como se flutuando por sobre a vasta paisagem plana chegasse à janela o jubiloso repique dos sinos da aldeia e nela se perdesse o cântico da congregação vindo da igreja, e a mulher fosse acompanhando o texto no livro. Lenz continuou a falar dessa maneira; ouviam-no com atenção, muita coisa acertava, o calor das palavras o deixara afogueado, e ora sorrindo, ora grave, sacudia os cachos louros. Esquecera-se inteiramente de si próprio. Depois da refeição Kaufmann chamou-o à parte. Havia recebido cartas do pai de Lenz;13 o filho deveria voltar, para ajudá-lo. 11. A menção parece remeter a um quadro de Carel van Savoy que ainda se encontra no museu de Darmstadt. 12 Supõe-se que se trata de uma tela de Nicolaes Mães, discípulo de Rembrandt. 13 Kaufmann encontrara o pai de Lenz no ano anterior, em 1777, na Rússia, e a menção tem a ver também com o difícil relacionamento entre pai e filho. Kaufmann disse-lhe que ali ele estava desperdiçando a vida, perdendo-a sem proveito, que precisava fixar-se em um objetivo e assim por diante. Lenz replicou furioso: "Ir embora daqui, ir embora! Para casa? E lá enlouquecer? Você sabe, eu não consigo agüentar em parte alguma, exceto aqui, nessa região; se eu não pudesse às vezes escalar uma montanha e dali ver a redondeza, e depois descer de novo para casa, passar pelo jardim, e espreitar pela janela - ficaria louco, louco! Deixem-me em paz! Só um pouco de paz, agora que me sinto um pouco melhor! Ir embora daqui? Não entendo isso, com essas três palavras o mundo ficou estragado. Cada qual tem algo de que precisa; quando pode descansar, o que mais poderia precisar! Ficar sempre subindo, lutar e assim até a eternidade, jogar fora tudo o que o instante dá, e sempre sofrer privações, para um dia desfrutar; padecer de sede, enquanto nascentes cristalinas puras brotam no caminho. A vida me é agora suportável e aqui quero ficar; por quê? Por quê? Justamente porque me sinto bem; o que deseja meu pai? Pode ele me dar mais? Impossível! Deixem-me em paz." Ele ficou muito exaltado, Kaufmann se foi, Lenz estava melindrado. No dia seguinte Kaufmannn quis partir; ele convenceu Oberlin a acompanhá-lo à Suíça. O desejo de poder também conhecer pessoalmente Lava-ter14, a quem conhecia de há muito por carta, foi decisivo. Aceitou. Foi preciso esperar um dia a mais por causa dos preparativos. Lenz sentia-o no coração, agarrava-se ansiosamente a tudo para libertar-se do seu infinito tormento; sentia em alguns momentos bem fundo que apenas estava acertando tudo para si; tratava a si mesmo como a uma criança doente; de certos pensamentos, de certas emoções só com a maior angústia ele conseguia livrar-se, mas logo era de novo impelido com incessante força, ele tremia, os cabelos quase se lhe eriçavam, até que se esgotava na mais avassaladora tensão. Procurava salvação numa figura que flutuava sempre diante de seus olhos, e em Oberlin; suas palavras, seu semblante faziam-lhe infinito bem. Assim, foi com temor que aguardou a partida de Oberlin. Era pavoroso para Lenz ficar agora sozinho na casa. O tempo tornara-se mais ameno e ele decidiu acompanhar Oberlin até as montanhas. Do 14 johann Kaspar Lavater (1741-1801), filósofo, poeta e teólogo protestante, natural da Suíça, que adquiriu fama em toda Europa por sua obra em 5 volumes, Fragmentos fisiognômicos, em que sustentava serem a alma interna e o espírito uma imagem do corpo e sobretudo do semblante. outro lado, onde os vales desembocam na planície, separaram-se. Ele regressou sozinho. Cruzou as montanhas em diferentes direções, amplas chapadas estendiam-se até os vales embaixo; escassa floresta, nada mais senão linhas imponentes e, adiante, a longínqua planície enevoada, no ar o soprar violento do vento, em parte alguma o menor traço humano, a não ser aqui e ali, apoiada à encosta, uma cabana abandonada, onde os pastores passavam o verão. Ele se aquietou, talvez quase sonhando, tudo diante dele fundiu-se numa só linha, como uma onda que se alteia e desaba entre céu e terra; era como se estivesse deitado à beira de um mar infindo que docemente fluía e refluía. Às vezes sentava-se; depois tornava a andar, mas lentamente, em sonho. Não procurava caminho algum, já era noite escura quando chegou a uma cabana habitada, na vertente além de Steintal. A porta estava trancada, foi até a janela pela qual se filtrava uma réstia de luz. Uma lâmpada iluminava apenas um ponto, sua luz caía sobre o rosto pálido de uma moça que repousava ao fundo, com os olhos semicerrados movia de leve os lábios. Um pouco adiante, no escuro, uma velha, sentada, entoava um cântico do hinário. Depois de muito bater, ela abriu a porta; era meio surda, serviu alguma comida a Lenz e indicou-lhe um lugar para dormir, enquanto não parava de cantar o seu hino. A jovem não se mexera do lugar. Passado algum tempo, entrou um homem, ele era alto e seco, raros cabelos grisalhos, com um semblante inquieto, perturbado. Ele se aproximou da moça, ela estremeceu e ficou agitada. O homem tirou da parede uma planta seca e pôs as folhas na mão da jovem, de modo que ela se acalmou e começou a murmurar palavras inteligíveis num lento tom arrastado e pungente. Ele contou que ouvira uma voz na montanha e que depois vira um relampejar sobre os vales, que também o agarrara e com o qual lutara como Jacó. Ele se atirou ao chão e rezou baixinho com fervor, enquanto a enferma cantava num moroso tom arrastado que ia se perdendo, suavemente. Então entregou-se ao repouso. Lenz dormitou em sonhadora sonolência, e depois ouviu, no sono, o tiquetaquear do relógio. Por entre o suave canto da moça e a voz da velha, soava ao mesmo tempo o zunir do vento, ora mais próximo, ora mais distante e logo o luar, ora claro, ora encoberto, lançava sua oscilante luz de sonho pela sala adentro. De súbito, os sons tornaram-se mais altos, a jovem falava com clareza e determinação, dizia que em frente, sobre os penhascos, havia uma igreja. Lenz levantou os olhos e ela, com olhos arregalados, estava sentada, ereta, atrás da mesa, e a lua derramava uma luz suave sobre suas feições, das quais parecia irradiar-se um brilho espectral, ao mesmo tempo em que ressoavam os tons guturais da velha e nessa incessante flutuação de luz, de tons e vozes Lenz por fim adormeceu profundamente. Despertou cedo, na penumbra da sala tudo dormia, também a moça se aquietara, ela estava recostada, as mãos dobradas sob a face esquerda; o fantasmagórico desaparecera de seus traços, tinha agora uma expressão de indescritível sofrimento. Ele foi até a janela, abriu-a e o ar frio da manhã bateu nele de frente. A casa situava-se no extremo de um vale estreito e profundo que se abria para o leste, raios rubros trespassavam o céu cinzento da manhã, atingiam a penumbra do vale coberto de névoa branca, faiscavam na rocha cinzenta e incidiam nas janelas das cabanas. O homem acordou, seus olhos detiveram-se numa imagem iluminada na parede, fitaram-na, fixos e imóveis, então seus lábios começaram a mover-se e a rezar baixinho, depois mais alto e cada vez mais alto. Nisso chegou gente à cabana, todos se ajoelharam em silêncio. A moça caíra em convulsão, a velha roufenhava seu cântico e tagarelava com os vizinhos. As pessoas contaram a Lenz que aquele homem chegara à região há muito tempo, vindo não se sabe de onde; tinha fama de santo, enxergava a água debaixo da terra e era capaz de esconjurar os espíritos, e o povo vinha até ele em peregrinação. Lenz soube ao mesmo tempo que se afastara muito de Steintal, e partiu com alguns lenhadores que iam para aquelas bandas. Fez-lhe bem ter encontrado companhia; sentia-se agora apavorado com aquele homem poderoso, que lhe parecia por vezes falar num tom aterrador. Também temia a si mesmo naquela solidão. Voltou para casa. Mas a noite anterior lhe causara viva impressão. O mundo tinha sido para ele luminoso, e ele sentia dentro de si uma inquietação, um comichão por um abismo que o atraía com força inexorável. Ele se remoía agora no âmago. Comia pouco; passava metade das noites em prece e em sonhos febris. Um violento urgir em seu íntimo e a seguir uma exausta prostração; deitado, desfazia-se em lágrimas ardentes, depois, de súbito, adquiria força e levantava-se frio e indiferente, suas lágrimas pareciam-lhe então como gelo, era obrigado a rir. Quanto mais se exaltava, mais funda era a queda que se seguia. Tudo confluía de novo. Lampejos de seu estado anterior faziam-no estremecer e projetavam clarões no caos desolado de seu espírito. Durante o dia costumava ficar sentado embaixo, na sala; madame Oberlin entrava e saía; ele desenhava, pintava, lia, apegava-se a toda e qualquer distração, tudo às pressas, saltando de uma coisa para a outra. No entanto, sentia-se agora particularmente ligado à madame Oberlin, quando ela ficava sentada ali, com o negro hinário diante de si, junto a um vaso de planta e com o filho mais novo entre os joelhos; também Lenz se ocupava muito com a criança. Estava assim sentado certo dia quando de repente sentiu-se angustiado, ergueu-se de um salto e se pôs a andar de cá para lá. A porta estava entreaberta, ouviu então a criada cantar, primeiro de maneira ininteligível, depois vieram as palavras: Nesse mundo não tenho alegrias, tenho um amor e ele está bem longe. Isso o tocou, a canção quase fê-lo sucumbir. Madame Oberlin fitava-o. Lenz cobrou coragem, já não podia mais calar-se, precisava falar disso. "Cara madame Oberlin, poderia dizer-me o que faz essa moça cujo destino me pesa tanto no coração?"15 "Mas senhor Lenz, não sei de nada". Ele tornou a calar-se e ficou andando de um lado para outro pela sala; depois recomeçou: "Veja a senhora, quero partir; meu Deus, vocês são ainda as únicas pessoas entre as quais eu poderia suportar isso, e no entanto... no entanto preciso ir, para junto dela... mas não posso, não devo". Tomado de violenta agitação, saiu da sala. Perto do anoitecer Lenz retornou, na sala a noite descia; sentou-se ao lado de madame Oberlin. "Veja", começou de novo, "quando ela caminhava assim pela sala, e cantava assim quase que para si mesma, e cada passo era uma música, havia tanta felicidade nela, e isso transbordava para dentro mim, eu estava sempre calmo quando a fitava, ou quando ela encostava a cabeça no meu ombro e meu Deus!, meu Deus... Há muito que eu já não me sentia tão tranqüilo [lacuna no texto] uma completa criança; era como se o mundo fosse para ela demasiado vasto, ela se retraía assim em si mesma, procurava 15 Tudo faz crer que se trata de Friederike Brion, por quem Lenz se apaixonara. o canto mais exíguo da casa, e permanecia ali sentada, como se toda a sua felicidade se concentrasse em um único e pequeno ponto, e então eu também me sentia assim; eu poderia então brincar como uma criança. Agora tudo me parece tão estreito, tão apertado, veja, às vezes é como se minhas mãos batessem no céu; oh, sufoco! Muitas vezes é como se eu sentisse uma dor física, aqui no lado esquerdo, no braço, com o qual outrora eu a segurava. No entanto, já não consigo mais lembrar-me de suas feições, sua imagem me escapa, e isso me martiriza; só às vezes, quando tudo se torna inteiramente claro para mim, sinto-me de novo muito bem." - Mais tarde, voltou freqüentemente a falar disso com madame Oberlin, mas, em geral, com frases entrecortadas; ela quase não sabia o que lhe responder, ainda assim isso fazia bem a Lenz. Entrementes, prosseguiam seus tormentos religiosos. Quanto mais vazio, mais gelado, mais agonizante ele ficava interiormente, tanto mais era impelido a acender em si um novo fervor; vinham-lhe lembranças dos tempos em que tudo dentro dele se agitava, em que arquejava sob tantas sensações; e, agora estava tão inane. Desesperava-se consigo mesmo, jogava-se ao chão, torcia as mãos, revolvia tudo em seu íntimo; mas estava morto!, morto! Suplicava então a Deus que o marcasse com um sinal, depois remoía-se no âmago, jejuava, jazia por terra entregue aos sonhos. Em 3 de fevereiro ouviu contar que uma criança em Fouday havia morrido (chamava-se Friederike); ele converteu isso numa idéia fixa. Retirou-se para o seu quarto e jejuou durante um dia. No quarto dia Lenz entrou de repente na sala onde estava madame Oberlin; havia besuntado o rosto de cinzas, e pediu um saco velho; ela se assustou mas deu-lhe o que pedia. Ele se envolveu no saco, como um penitente, e tomou o caminho de Fouday. A gente do vale já havia se acostumado a ele; contavam toda espécie de coisas estranhas a seu respeito. Chegou à casa onde jazia a criança. As pessoas cuidavam, indiferentes, de suas ocupações; indicaram-lhe um quarto; a criança, vestida com uma camisa, estava estendida sobre palha, em cima de uma mesa de madeira. Lenz estremeceu ao tocar os membros gelados e ver os olhos vítreos entreabertos. A criança pareceu-lhe tão desamparada e ele próprio tão só e abandonado; atirou-se sobre o cadáver; a morte o apavorava, foi dominado por uma dor violenta, esses traços, esse rosto sereno iam decompor-se, lançou-se ao chão, suplicou com todos os lamentos do desespero, fraco e infeliz como era, que Deus lhe desse um sinal, e que a criança pudesse ressuscitar; então imergiu totalmente em si e concentrou toda a sua vontade em um único ponto, e assim ficou sentado por muito tempo com o olhar fixo. Depois ergueu-se e pegou as mãos da criança e falou alto e firme: "Levanta e caminha!" Mas as paredes ecoaram sóbrias o tom de sua voz, parecendo zombar dele, e o cadáver permaneceu frio. Então, meio tresloucado, atirou-se ao chão, depois algo o compeliu a pôr-se em pé e correr para as montanhas. As nuvens moviam-se rápidas diante da lua; ora tudo ficava no escuro, ora a paisagem nebulosa e fugidia se mostrava ao luar. Ele corria para cima e para baixo. Em seu peito ressoava um hino triunfal do inferno. O vento soava como um cântico de titãs, era como se pudesse brandir aos céus um punho imenso, arrancar Deus das alturas e arrastá-lo por entre as suas nuvens; como se pudesse triturar o universo com os dentes e cuspi-io na face do Criador; jurava, blasfemava. Assim chegou ao cume das montanhas, e a luz incerta espalhava-se para baixo, no vale, lá onde jaziam esbranquiçadas massas de rochas, e o céu era um estúpido olho azul, e nele a lua pairava completamente ridícula, apatetada. Lenz teve de rir alto, e com o riso o ateísmo o agarrou e o prendeu de maneira absolutamente segura, tranqüila e firme, já não sabia mais o que antes o havia agitado tanto, sentia frio; pensou que gostaria de ir dormir, e caminhou frio e imperturbável através da inquietante escuridão - tudo lhe parecia vazio e oco, precisou correr e foi para a cama. No dia seguinte, foi tomado de um imenso pavor diante de seu estado no dia anterior, encontrava-se agora à beira do abismo, onde uma volúpia alucinada o impelia a olhar sempre de novo para baixo, e a repetir esse tormento. Então seu medo intensificou-se, o pecado contra o Espírito Santo estava diante dele. Alguns dias depois Oberlin voltou da Suíça, bem mais cedo do que o esperado. Lenz ficou perturbado com o fato. Mas alegrou-se quando Oberlin lhe falou de seus amigos na Alsácia. Enquanto isso, Oberlin caminhava pelo aposento de um lado para o outro, e desfazia as malas, guardando coisas. En-trementes, falava de Pfeffel,16 enaltecendo a vida feliz de um clérigo de aldeia. 16 Cottlieb Konrad Pfeffei (1736-1809), poeta, dramaturgo e tradutor, bem como educador e filantropo. Nisso exortou Lenz a conformar-se com a vontade do pai, a viver de acordo com a sua vocação, a voltar para casa. Disse-lhe: "Honra teu pai e tua mãe" e assim por diante. Por causa dessa conversa Lenz ficou agitado; soltava suspiros profundos, lágrimas marejavam-lhe os olhos, pronunciava palavras entrecortadas. "Sim, mas eu não agüento isso; o senhor quer me expulsar? Só no senhor está o caminho para Deus. Mas para mim tudo acabou! Estou degradado e banido por toda a eternidade, eu sou o judeu errante". Oberlin disse-lhe que Jesus morrera por isso, que deveria voltar-se para Ele com fervor, e ele haveria de partilhar da sua Graça. Lenz ergueu a cabeça, torceu as mãos, e disse: "Ah! Ah! Consolo divino". Depois, perguntou de repente com amabilidade como ia a moça. Oberlin disse que não sabia de nada, mas que gostaria de ajudá-lo em tudo e aconselhá-lo, desde que lhe informasse sobre o lugar, as circunstâncias e a pessoa. Lenz nada respondeu exceto palavras soltas: "Ah, ela está morta! Vive ainda? Você, meu anjo, ela me amava... eu a amava, ela era digna, oh meu anjo. Maldito ciúme, eu a sacrifiquei... ela amava um outro também... eu a amava, ela era digna... oh minha bondosa mãe, também ela me amava. Eu sou um assassino". Oberlin retorquiu: talvez todas essas pessoas ainda estivessem vivas, talvez contentes; mas como quer que fosse, Deus poderia e iria, quisesse ele converter-se ao Senhor, demonstrar a essas pessoas, ante as lágrimas e preces de Lenz, tantas benesses que o proveito então auferido Dele excederia quiçá, de longe, o dano que porventura lhes houvesse causado. Com isso, ele foi pouco a pouco se acalmando e retornou à sua pintura. Voltou de novo à tarde; trazia sobre o ombro esquerdo um pedaço de pele e na mão um feixe de vergas, que lhe deram para entregar a Oberlin, com uma carta. Ele estendeu as varas a Oberlin pedindo-lhe que o vergastasse com elas. Oberlin as tomou de sua mão, deu-lhe alguns beijos na boca e disse que essas eram as chibatadas que ele tinha para lhe dar, que ficasse tranqüilo, que resolvesse seus casos com Deus sozinho, todos os possíveis golpes não apagariam um só de seus pecados; Jesus já cuidara disso, a Ele é que deveria dirigir-se. Lenz saiu. Durante o jantar estava, como de costume, um pouco pensativo. No entanto, falava de muitos e diferentes assuntos, mas com ansiosa precipitação. À meia-noite, Oberlin foi despertado por um rumor. Lenz corria pelo pátio aos gritos, invocando o nome de Friederike com uma voz cava e dura, pronunciada com extrema rapidez, confusão e desespero; depois atirou-se no tanque da fonte, chapinhou nele, saiu e subiu para o seu aposento, tornou a voltar e a jogar-se no tanque, voltou a sair e assim algumas vezes seguidas, até que por fim aquietou-se. As criadas, que dormiam no quarto das crianças, sob o quarto dele, disseram ter ouvido com freqüência, em especial porém naquela mesma noite, um zunido que não saberiam comparar a nada exceto ao som de uma avena. Talvez fosse o seu gemer, com voz cava, terrível e desesperada. Na manhã seguinte demorou muito para Lenz aparecer. Por fim Ober-lin subiu ao seu quarto; ele estava deitado na cama, sossegado e imóvel. Oberlin teve que perguntar muitas vezes antes de obter resposta; finalmente ele disse: "Sim, senhor Pároco, veja, o tédio, o tédio! Oh!, tanto tédio, não sei mais o que devo dizer, eu já desenhei as figuras todas na parede". Oberlin disse-lhe que deveria dirigir-se a Deus; aí ele riu e falou: "Sim, se eu fosse tão feliz, como o senhor, a ponto de descobrir um passatempo tão agradável, então, sim, poder-se-ia preencher assim o tempo. Tudo por ociosidade. Pois a maioria das pessoas reza por fastio; outras se enamoram por tédio; algumas são virtuosas, outras, pecadoras, e eu, nada, nada, nem mesmo suicidar-me eu quero: é por demais enfadonho! Ó Deus, em tua onda radiosa, na tua claridade ardente do meio-dia são despertos meus olhosferidos. Nunca mais então há de fazer-se noite? Oberlin olhou para ele indignado e quis ir embora. Lenz esgueirou-se atrás dele e disse-lhe, fitando-o com um olhar inquietante: "Veja, agora me ocorreu algo, se ao menos eu pudesse distinguir se estou sonhando ou acordado: veja, isso é muito importante, vamos examiná-lo com atenção" - e arrastou-se para a cama. À tarde Oberlin quis fazer uma visita pela vizinhança; sua mulher já havia saído; ele estava pronto para sair quando bateram na porta e Lenz entrou com o corpo curvado para frente, cabisbaixo, com o rosto todo ele e a roupa aqui e ali cobertos de cinza, segurando com a mão direita o braço esquerdo. Pediu a Oberlin que lhe esticasse o braço, que havia torcido ao atirar-se pela janela; mas, como ninguém o vira, não queria também contar isso a ninguém. Oberlin assustou-se muito, porém não disse nada e fez o que Lenz desejava, ao mesmo tempo escreveu ao mestre-escola, Sebastian Scheidecker, de Bellefosse; pediu-lhe que descesse o vale e deu-lhe instruções. Em seguida, partiu a cavalo. O homem veio. Lenz já o vira muitas vezes e se afeiçoara a ele. Sebastian agiu como se quisesse falar algo com Oberlin e depois fez menção de ir embora. Lenz pediu-lhe que ficasse, e assim permaneceram juntos. Lenz sugeriu um passeio para Fouday. Visitou o túmulo da criança que ele quisera ressuscitar, ajoelhou-se várias vezes, beijou a terra do túmulo, parecia orar, mas numa grande agitação, arrancou algumas flores da coroa que estava em pé sobre o túmulo, como lembrança, e regressou a Waldbach, depois tornou a voltar ao cemitério, sempre acompanhado de Sebastian. Às vezes andava devagar e queixava-se de grande fraqueza nas pernas, ou então punha-se a caminhar com rapidez desesperada; a paisagem o apavorava, era tão estreita que receava esbarrar em tudo. Um indescritível sentimento de mal-estar o assaltou, por fim a presença de seu acompanhante tornou-se para ele incômoda, como se este adivinhasse o seu intento e procurasse meios para afastá-lo. Sebastian fingiu ceder, mas achou um jeito furtivo de avisar a seu irmão do perigo, e agora Lenz tinha dois guardiões em vez de um. Ele os fez andar galhardamente por toda a redondeza, ao fim seguiu de volta para Waldbach e, quando estavam perto da aldeia, volveu-se como um raio e saltou como um cervo na direção de Fouday. Os homens foram ao seu encalço. Enquanto o procuravam em Fouday, vieram dois mercadores e lhes contaram que, numa casa, havia sido amarrado um forasteiro, o qual se fazia passar por assassino, mas isso com certeza não devia ser verdade. Correram para essa casa e o encontraram assim: um jovem o tinha amarrado, temeroso ante a veemente pressão. Eles o desamarraram e o trouxeram a salvo a Waldbach, para onde, nesse ínterim, Oberlin e sua esposa já haviam retornado. Ele parecia desvairado, mas vendo que o recebiam com carinho e cordialidade, cobrou novamente ânimo; seu rosto tomou uma expressão melhor, ele agradeceu, gentil e afetuoso, aos dois acompanhantes e a noite decorreu calma. Oberlin suplicou-lhe com insistência que não mais se banhasse no tanque, que passasse a noite tranqüilo na cama e, se não conseguisse dormir, que conversasse com Deus. Ele prometeu e assim o fez naquela noite; as criadas ouviram-no rezar durante quase toda a noite. Na manhã seguinte entrou no quarto de Oberlin com um ar de satisfação. Depois de conversarem sobre vários assuntos, Lenz disse com uma cordialidade excepcional: "Querido Pároco, a moça de quem lhe falei morreu, sim, morreu, o meu anjo!" - "Como sabe disso?" - "Hieróglifos, hieróglifos"... - e olhou para o céu e disse de novo: "Sim, morreu... hieróglifos". Depois disso, nada mais foi possível arrancar-lhe. Ele sentou-se e escreveu algumas cartas, entregou-as a Oberlin, pedindo-lhe que acrescentasse algumas linhas. Entrementes, seu estado era cada vez mais desesperado, toda a paz que haurira do convívio Com Oberlin e da quietude do vale havia desaparecido; o mundo que ele quisera aproveitar apresentava agora uma enorme fissura, não sentia mais ódio, nem amor, tampouco esperança, apenas um vazio pavoroso e, no entanto, uma torturante inquietação a fim de preenchê-lo. Não tinha nada. Tudo o que fazia, fazia-o com toda consciência e, ainda assim, compelia-o um instinto interno. Quando estava sozinho, sentia-se tão terrivelmente solitário que falava constantemente consigo mesmo em voz alta, gritava e então se assustava de novo e era como se uma voz estranha lhe falasse. Durante a conversa, estacava amiúde, um medo indescritível assaltava-o, havia perdido o final de suas frases; então achava que devia reter a última palavra pronunciada, e só com muito esforço reprimia esse desejo. Afligia profundamente aquela boa gente quando, às vezes, em momentos tranqüilos, sentava-se ao seu lado e começava a falar com desembaraço e depois estacava e uma indizível angústia pintava-se em suas feições e ele agarrava convulsivamente o braço das pessoas que estavam sentadas junto dele e só pouco a pouco voltava a si. Quando ficava sozinho ou lendo era ainda pior; toda a sua atividade intelectual ficava às vezes presa a um único pensamento; se pensava em uma pessoa estranha, ou se a evocava vivamente, era como se ele se transformasse nela própria, ficava completamente confuso e, nisso, possuía-o um impulso infinito de, em espírito, lidar, a seu capricho, com tudo o que o rodeava; a natureza, as pessoas, à exceção de Oberlin, tudo como num sonho, friamente; divertia-se em virar as casas com os telhados para baixo, em vestir e despir as pessoas, em imaginar as brincadeiras mais extravagantes. Às vezes sentia um ímpeto irresistível de executar aquilo que lhe vinha à cabeça e fazia então caretas horríveis. Uma vez, estava sentado junto a Oberlin e o gato deitado em frente numa cadeira, de repente os olhos de Lenz fixaram-se, ele os manteve cravados na direção do animal; depois escorregou lentamente cadeira abaixo e o gato fez o mesmo, estava como que enfeitiçado por seu olhar e, tomado de imenso pavor, eriçou-se e rosnou temeroso, enquanto Lenz revidava-lhe com os mesmos sons, com o rosto horrivelmente contorcido; então, como que em desespero, atiraram-se um sobre o outro, até que, por fim, madame Oberlin levantou-se para separá-los. Aí ele se sentiu de novo profundamente envergonhado. Os seus acessos noturnos intensificaram-se a um grau terrível. Só conseguia dormir à custa dos maiores esforços, depois de haver tentado pouco antes esquecer o medonho vazio. Então, entre a vigília e o sono, caía num estado horroroso; deparava-se com algo pavoroso, horrendo; a loucura se apoderava dele, saltava da cama dando gritos medonhos, alagado de suor, e só pouco a pouco voltava a si. Precisava então começar pelas coisas mais simples a fim de recompor-se. A bem dizer, não era ele próprio quem o fazia, porém um poderoso instinto de preservação; era como se ele fosse duplo17 e uma parte procurasse salvar a outra, e chamasse por si mesma; ele narrava histórias, recitava em meio às maiores angústias poemas atrás de poemas, até voltar de novo a si. Também durante o dia tais acessos acometiam-no; aí tornavam-se ainda mais terríveis, pois anteriormente a claridade o guardava disso. Sentia então como se somente ele existisse, como se o mundo existisse apenas na sua imaginação, como se fosse nada, como se ele próprio fosse o eternamente danado, o satã; sozinho com suas imagens torturantes. Ele repassava sua vida com uma rapidez frenética e depois dizia: "conseqüente, conseqüente"; e quando alguém dizia: "inconseqüente, inconseqüente"; era o abismo da loucura irremediável, uma loucura por meio da eternidade. O instinto de preservação espiritual fazia-o reagir; lançava-se aos braços de Oberlin, agarrava-se a ele, como se quisesse penetrar nele, era a única criatura que, para ele, estava viva e através da qual a vida se lhe revelava de novo. Pouco a pouco as palavras de Oberlin traziam-no então de volta a si, ele se punha de joelhos diante de Oberlin, as mãos nas mãos de Oberlin, o rosto coberto de suor frio 17 Essa passagem é tida como a primeira na literatura alemã a realizar uma descrição completa, pontuada por uma seqüência inteira de sintomas, de uma crise de esquizofrenia. no regaço dele, o corpo todo tremendo e palpitando. Oberlin sentia infinita compaixão, a família toda se ajoelhava e rezava pelo infeliz, as criadas fugiam e tomavam-no por um possesso. E quando ficava mais calmo, era como o lamento de uma criança; ele soluçava, sentia uma profunda, profunda compaixão por si mesmo; eram esses também os seus momentos mais felizes. Oberlin lhe falava de Deus. Lenz afastava-se com tranqüilidade e fitava-o com uma expressão de infinito sofrimento, e dizia finalmente: "Mas eu, se fosse onipotente, veja o senhor, se eu fosse assim, não poderia tolerar o sofrimento, eu iria salvar, salvar, não quero senão paz, paz, apenas um pouco de paz e poder dormir". Oberlin dizia que isso era uma profanação. Lenz sacudia a cabeça, inconsolável. Essas meias tentativas de suicídio, que agora praticava seguidamente, não eram de todo sérias; eram menos o desejo de morte, para ele não havia repouso e nem esperança na morte; eram antes, em momentos de tremenda angústia ou do amortecimento na paz à beira do nada, uma tentativa de trazer a si de volta a si mesmo através da dor física. Os momentos em que seu espírito parecia, ao contrário, cavalgar algures uma idéia louca ainda eram os mais felizes. Havia então, apesar de tudo, um pouco de paz e o seu olhar transtornado não era tão assustador quanto o pavor sequioso de salvação, o eterno tormento da inquietação! Freqüentemente batia a cabeça na parede ou então causava a si mesmo uma violenta dor física. Na manhã do dia 8 ficou na cama, Oberlin subiu; Lenz estava deitado quase nu sobre o leito, sob profunda comoção. Oberlin quis cobri-lo, ele porém se queixava muito de como tudo era pesado, tão pesado, ele nem mesmo acreditava que pudesse andar; agora, por fim, sentia o colossal peso do ar. Oberlin procurou, com suas palavras, levantar seu ânimo. Mas ele permaneceu em seu estado anterior e continuou assim a maior parte do dia, sem aceitar tampouco nenhum alimento. Por volta do anoitecer, Oberlin foi chamado para ver um doente em Bellefosse. O tempo estava ameno e havia luar. No regresso, encontrou Lenz. Parecia inteiramente sensato e falava de um modo calmo e amável com Oberlin. Este lhe pediu que não se afastasse muito, ele lhe prometeu; no caminho, voltou-se de repente e veio de novo para bem perto de Oberlin e disse rapidamente: "Veja, senhor Pároco, se ao menos eu não tivesse mais que ouvir isto, já seria de grande ajuda." - "O que, meu caro?" - "Então o senhor não ouve nada, não ouve a voz tenebrosa que grita por todo o horizonte, e à qual se costuma chamar de silêncio? Desde que cheguei a este vale silencioso, ouço-a sempre, não me deixa dormir, sim senhor Pároco, se ao menos eu pudesse dormir de novo". Depois, meneando a cabeça, seguiu o seu caminho. Oberlin regressou a Waldbach e ia enviar alguém à procura de Lenz quando o ouviu subir as escadas que davam para o seu quarto. Um instante depois, algo estatelou-se no pátio com um estrondo tão forte que pareceu impossível a Oberlin provir da queda de um homem. A ama entrou mortalmente pálida e toda trêmula [grande lacuna no texto] 6 Ele permanecia sentado no carro com fria resignação, enquanto viajavam pelo vale em direção do oeste. Pouco lhe importava para onde o levavam; por diversas vezes, quando o carro corria perigo, devido ao mau estado dos caminhos, continuou sentado, muito tranqüilo; tudo lhe era absolutamente indiferente. Nesse estado de espírito percorreu o caminho através das montanhas. Perto do anoitecer encontravam-se no vale do Reno. Afastavam-se pouco a pouco das montanhas que se erguiam agora no rubro poente como uma onda de cristal azul profundo e sobre a qual brincavam os raios avermelhados do crepúsculo; por sobre a planície, no sopé das montanhas, pairava uma cintilante teia azulada. Escurecia à medida que se aproximavam de Estrasburgo; no céu, lua cheia, muito alta, todos os objetos distantes na penumbra, apenas a montanha próxima desenhava uma linha nítida, a terra feito uma taça de ouro sobre a qual corriam espumosas as ondas douradas do luar. Lenz, tranqüilo, olhava fixamente para fora, sem qualquer pressentimento, sem qualquer impulso; apenas um medo surdo crescia dentro dele quanto mais os objetos se perdiam na escuridão. Tiveram de procurar uma hospedaria; aí tornou a fazer várias tentativas de atentar contra si próprio, mas estava sob estrita vigilância. Na manhã seguinte, com um tempo nublado e chuvoso, chegou a Estrasburgo. Parecia estar em plena posse de seu juízo, conversava com as pessoas; fazia tudo o que os outros faziam, mas havia em seu íntimo um vazio pavoroso, não sentia mais nenhum medo, nem desejo; sua existência era-lhe um fardo necessário. Assim viveu desde então. 18 Nas versões subsistentes do texto original, o parágrafo final vem em seguida. Mas a crítica supõe que Büchner deve ter escrito várias páginas intermediárias, que se perderam. 19 Lenz ficou aos cuidados de seu amigo Johann Ceorg Schlosser, cunhado de Coethe, e outros mais, até o ano seguinte, quando foi levado para a casa de um de seus irmãos, em Riga. Mais tarde, foi para Moscou, onde morreu.

"Olhos mortos do sono". TCHEKHOV, Anton. A dama do cachorrinho e outros contos. São Paulo: 34, 2005.



TRADUÇÃO DE BORIS SCHNAIDERMAN A mão da babá que embala o berço é a mesma que... Quantas vezes não leu o leitor chamadas assim para filmes de terror classe B hoje programados nas últimas sessões da TV? Entregar uma criança aos cuidados de uma pessoa desconhecida (na medida em que todos nós temos um desconhecido escondido lá dentro) é um jato corriqueiro e, em muitos casos na vida moderna, necessário. O que não impede que também possa ser perigoso. Não, não estamos antecipando o suspense do conto, que não é o suspense que conta aqui. Nem afirmamos que a personagem deste conto seja louca, aliás, nem nós nem o autor: quem deve dizê-lo é o leitor. Uma pergunta subjacente à narrativa: as condições externas (como uma simples suspensão contínua do sono) podem levar alguém à loucura? É o que Tchekhov (1860-1904) insinua, ou mais do que isso, já que ele era médico. Expoente do conto (e do teatro) mundial, convém lembrar, por outro lado, que o autor não defende tese, mas simplesmente conta uma história. Como bom realista que era, uma história que às vezes costumamos ler nos jornais, ressaltando, por outro lado, que sua narrativa em nada se assemelha aos roteiros dos filmes de horror. Tudo dentro da maior "normalidade", incluindo a "loucura"final. É noite. A babá Varka,1 de uns treze anos, embala o berço da criança e vai ronronando, quase imperceptivelmente: 1 Diminutivo de Varvara. (N. do T.) Báiu-báiuchki-baiú, Vou cantar-te uma canção... Arde, em frente da imagem, um candeeiro verde. Estende-se, através do quarto, de um canto a outro, uma corda com cueiros e um enorme par de calças negras. O candeeiro projeta no teto uma grande mancha verde, enquanto os cueiros e as calças lançam sombras compridas sobre o fogão, sobre o berço e sobre Varka... Quando a luz começa a bruxulear, a mancha e as sombras animam-se e põem-se em movimento, como tangidas pelo vento. Falta ar. Cheira a sopa de repolho e couro de botas. A criança chora. Seu pranto há muito já se tornou rouco e cansado, mas continua gritando e não se sabe quando vai parar. Mas Varka está com sono. Seus olhos grudam, a cabeça pende, dói-lhe o pescoço. Não consegue mover as pálpebras, nem os lábios, e tem a impressão de que seu rosto secou e lenhificou-se, que a cabeça ficou pequena como uma cabeça de alfinete. - Báiu-báiuchki-baiú - ronrona -, vou fazer-te um mingauzinho... Um grilo ruída no fogão. Atrás da porta, no quarto vizinho, roncam o patrão e o aprendiz Afanássi... O berço range, como se fora um lamento, Varka vai ronronando - e tudo isto funde-se num canto noturno, acalen-tador, que é tão doce ouvir, quando se vai para a cama. Agora, porém, esse canto apenas irrita e constrange, porque traz um entorpecimento, e dormir é impossível. Se isto, Deus não o permita, acontecer, os patrões vão moê-la de pancada. Bruxuleia o candeeiro. A mancha verde e as sombras põem-se em movimento, entram pelos olhos entrecerrados, imóveis, de Varka, confundem-se, em seu cérebro meio adormecido, em imagens nebulosas. Ela vê nuvens escuras, que se perseguem pelo céu, gritando como aquela criança. Mas eis que soprou o vento, sumiram as nuvens, e Varka vê uma estrada larga de macadame, coberta de lama quase líquida. Sobre aquela estrada, carroças deslocam-se devagar em fila, arrastam-se homens de alforje ao ombro e perpassam sombras estranhas. De ambos os lados, vê-se uma floresta, através do nevoeiro gélido. De repente, os homens de alforje e as sombras caem por terra, na lama semilíquida. "Para que isso?", pergunta Varka. "Dormir, dormir!", respondem-lhe. E eles adormecem profunda e docemente. Pegas e corvos estão pousados sobre os fios telegráficos, gritam como a criança e procuram acordar os homens. - Báiu-báiuchki-baiú, vou cantar-te uma canção... - ronrona Varka e já se vê em certa isbá escura, abafada. Revolve-se no chão o seu falecido pai, lefim Stiepanov. Ela não o vê, mas ouve como rola de dor e geme. Como diz o doente, a hérnia "tomou conta dele". A dor é tão forte que ele não pode, agora, dizer palavra e somente sorve o ar e bate os dentes como se bate num tambor: - Bu-bu-bu-bu... Mãe Pielaguéia correu à casa senhorial, para avisar os patrões de que lefim estava morrendo. Já saiu há muito e está demorando demais. Varka fica deitada sobre o fogão, sem dormir, prestando atenção àquele "bu-bu-bu". Mas, eis que se ouve um carro chegar à isbá. Os patrões enviaram para ver o doente um médico jovem, hóspede deles. O médico entra na isbá. Não se consegue vê-lo no escuro, mas ouve-se como tosse e faz barulho com a fechadura. - Acendam a luz - diz ele. - Bu-bu-bu... - responde lefim. Pielaguéia corre para o fogão, à procura dos fósforos. Depois de um minuto de silêncio, o médico encontra um no bolso e o acende. - Nesse instante, paizinho, nesse mesmo instante - diz Pielaguéia e corre para fora, um pouco depois, e volta com um toco de vela. lefim está com as faces coradas, brilham-lhe os olhos, e o olhar parece estranhamente penetrante, como se pudesse ver através do médico e das paredes. - E então? O que foi que você inventou? - pergunta-lhe o médico, inclinando-se sobre ele. - O quê! Faz muito tempo que tem isso? - Como? Chegou a hora da morte, Vossa Nobreza... Vou deixar o mundo dos vivos... - Chega de bobagem... Vamos curá-lo! - Seja como quiser, Vossa Nobreza, agradecemos humildemente, mas a gente compreende... Se já chegou a hora da morte, que se vai fazer? O médico passa um quarto de hora lidando com lefim, depois se levanta e diz: Não posso fazer mais nada... Você deve ir para o hospital, eles vão te operar lá. Vá agora mesmo... Sem falta! Já é um pouco tarde, no hospital estão todos dormindo, mas não faz mal, vou dar a você um bilhetinho. Está ouvindo? - Mas, como é que ele pode ir, paizinho? - diz Pielaguéia. - Não temos cavalo. - Não faz mal, falarei com os patrões, eles vão emprestar um. O médico sai, apaga-se a vela e escuta-se novamente: "bu-bu-bu"... Depois de meia hora, ouve-se chegar à isbá uma telega pequena, enviada pelos patrões, lefim apronta-se e vai... Mas, eis que chega uma clara, luminosa manhã. Pielaguéia foi ao hospital para se informar sobre lefim. Uma criança chora e Varka ouve alguém cantar, com a sua voz: - Báiu-báiuchki-baiú, vou cantar-te uma canção... Volta Pielaguéia, persigna-se e murmura: - De noite, eles o operaram e, de manhãzinha, entregou a alma a Deus... Que esteja em paz, lá no céu... Dizem que o levamos para lá muito tarde... Varka vai para o mato e chora lá. Mas, eis que alguém lhe bateu na nuca, com tanta força que sua testa choca-se contra uma bétula. Ergue os olhos e vê, diante de si, o patrão sapateiro. - Que está fazendo, porca? A criança chora e você está dormindo. Puxa-lhe a orelha com força. Ela sacode a cabeça e torna a balançar o berço e a ronronar sua canção. A mancha verde e as sombras das calças e dos cueiros balançam-se, piscam-lhe e, pouco depois, dominam-lhe novamente o cérebro. Vê mais uma vez a estrada de macadame, coberta de lama semilíqui-da. Os homens de alforje às costas e as sombras estão estirados e dormem profundamente. Vendo-os, Varka sente uma vontade louca de dormir, dormir com toda a alma; mãe Pielaguéia, porém, caminha a seu lado, apressando-a. Vão à cidade pedir emprego. - Uma esmolinha, pelo amor de Deus! - implora a mãe aos transeuntes. - Por caridade, meus bons senhores! - Me dá a criança! - responde-lhe uma voz conhecida. - Me dá a criança! - repete a mesma voz, mas agora já abruptamente, com rancor. - Está dormindo, animal? Varka levanta-se de um salto e, olhando em redor, compreende o que sucedeu: não há mais estrada, nem Pielaguéia, nem gente, mas, no meio do quarto, está a patroa, que veio amamentar a criança. Enquanto a patroa gorda, de ombros largos, alimenta e acalma a criança, Varka olha-a de pé, esperando que acabe. Além das janelas, o ar já está se tornando azul, empalidecem as sombras e a mancha verde no teto. Não demora a manhã. - Toma! - diz a patroa, abotoando a camisola sobre o peito. - Está chorando. Deve ser mau-olhado. Varka apanha a criança, deita-a no berço e recomeça a embalá-la. A mancha verde e as sombras desaparecem pouco a pouco e já não há ninguém que se esgueire para dentro de sua cabeça e enevoe-lhe o cérebro. Mas não passou o sono, um sono terrível! Varka deita a cabeça na beirada do berço e balança-se com todo o corpo, a fim de dominar este sono, mas, apesar de tudo, seus olhos estão grudando e pesa-lhe a cabeça. - Varka, vai acender o fogão! - ressoa a voz do patrão, atrás da porta. Quer dizer que já é tempo de se levantar e começar o trabalho. Varka deixa o berço e corre a buscar lenha no depósito. Está contente. Quando se anda ou corre, não se tem tanto sono. Traz lenha, acende o fogão e sente voltar a si o rosto lenhificado e aclararem-se as idéias. - Varka, vai pôr o samovar! - grita a patroa. Varka pica a lenha em gravetos, mas apenas tem tempo de acendê-los e enfiá-los no samovar, já se ouve nova ordem: - Varka, limpa as galochas do patrão! Senta-se no chão, limpa as galochas e pensa em como seria bom enfiar a cabeça numa galocha grande e funda e cochilar um pouco... De repente, a galocha cresce, fica inchada, enche todo o quarto. Varka deixa cair a escova, mas, no mesmo instante, sacode a cabeça, arregala os olhos, procura fazer com que os objetos não cresçam e não se movam em seus olhos. - Varka, vai lavar a escada lá fora, que até dá vergonha perante os fregueses! Varka lava a escada, arruma os quartos, depois acende outro fogão e corre à venda. Há muito serviço, não sobra um instante de lazer. Mas, não há nada tão difícil como ficar parada, diante da mesa da cozinha, e descascar batata. A cabeça tende a pender sobre a mesa, a batata parece saltitar-lhe nos olhos, a faca tomba-lhe da mão. Ao lado dela, vai andando de um lado para outro a patroa gorda e zangada, de mangas arregaçadas, e fala tão alto que sua voz reboa no ouvido. É outra tortura servir à mesa, um inferno lavar roupa, costurar. Há momentos em que se tem vontade de não ligar a coisa alguma, arremessar-se ao chão e dormir. Passa o dia. Vendo a escuridão chegar às janelas, Varka aperta com as mãos as têmporas, que tendem a lenhificar-se, e sorri, sem saber por quê. A treva acaricia-lhe os olhos que grudam e promete-lhe um sono forte, para daqui a pouco. De noite, chegam visitas. - Varka, vai pôr o samovar! - grita a patroa. O samovar é pequeno e, antes que as visitas se dêem por satisfeitas, torna-se necessário esquentá-lo umas cinco vezes. Depois do chá, Varka passa uma hora inteira, parada, olhando as visitas e esperando ordens. - Varka, corre para comprar três garrafas de cerveja! Levanta-se de um salto e procura correr o mais depressa possível, para enxotar o sono. - Varka, vai buscar vodca! Varka, onde está o saca-rolhas? Varka, limpa os arenques! Mas, eis que as visitas se foram, finalmente. Apagam-se as luzes, os patrões vão dormir. - Varka, embala a criança! - ressoa a ordem derradeira. Um grilo trila no fogão. A mancha verde no teto e as sombras das calças e dos cueiros esgueiram-se novamente para os olhos entrecerrados de Varka, bruxuleiam e enevoam-lhe a cabeça, - Báiu-báiuchki-baiú - ronrona -, vou cantar-te uma canção... Mas a criança grita, extenua-se de tanto berrar. Varka vê novamente o macadame lamacento, os homens de alforje às costas, Pieiaguéia, pai lefim. Compreende tudo, reconhece a todos, mas, através da modorra, somente não consegue compreender aquela força que lhe amarra pés e mãos, que a esmaga e impede-lhe a vida. Olha ao redor, procura aquela força, para se livrar dela, mas não a encontra. Por fim, extenuada, concentra todas as energias e todo o seu olhar, espia para cima, para a mancha verde que bruxuleia e, prestando atenção aos gritos, encontra o inimigo que a impede de viver. O inimigo é a criança. Acha estranho que, até então, não tenha compreendido uma coisa tão simples. A mancha verde, as sombras e o grilo parecem rir igualmente, surpreendidos. A idéia absurda toma conta de Varka. Ergue-se do tamborete e passeia pelo quarto, sem piscar, um sorriso largo no rosto. Está contente e excitada com a idéia de que, dentro de um instante, vai livrar-se da criança, que a deixa amarrada de pés e mãos... Matar a criança e, depois, dormir, dormir, dormir... Rindo, pestanejando e ameaçando a mancha verde com os dedos, Varka aproxima-se cautelosa do berço e inclina-se sobre a criança. Depois de estrangulá-la, deita-se rapidamente no chão, ri de alegria porque já pode dormir e, um instante depois, dorme profundamente, como se estivesse morta... (1888)

"Vera".


LISLE-ADAM, Villiers. Les contes cruéis. Paris: GF- Flammarion, 1993.

TRADUÇÃO DE LÉO SCHLAFMAN Amor todo mundo sabe o que é, embora ninguém consiga defini-lo cabalmente. Paixão e loucura costumam ser quase sinônimos, segundo a percepção do homem comum. "Só louco..." diz uma velha canção de amor de Caymmi, "amou como eu te amei..." - e nada menos apropriado, em matéria de gênero, estilo e visão de mundo, do que citar o velho compositor baiano ao lado de Villíers de Ulsle-Adam (1838-1889). No entanto, amor demais é amor insano - eis o que sugere o comportamento estranho deste velho conde francês por sua mulher, Vera, cuja morte recente ele tenta negar. Como nega o próprio tempo: "Na sombra, jazia o relógio da sala, de que ele quebrara a mola para que não soasse outras horas." O final chega em tom fantástico. Aliás, o conto em questão entra aqui como um exemplo da proximidade da literatura fantástica com a insanidade mental. Curiosa essa ligação e mais ampla do que se imagina. Contos como "A sombra", de Andersen; "Um sonho", de Turgeniev; "Quem sabe?", de Maupassant e sobretudo "O homem de areia", de Hoffmann (estudado por Freud), que constam da antologia Os melhores contos fantásticos (Nova Fronteira, 2006), bem poderiam estar nesta antologia de sobre loucura. O precursor do gênero no século XIX, E. T. A. Hoffmann, então, é um caso à parte - não só o conto citado como principalmente "O vaso de ouro" (em Contos fantásticos, Imago, 1993) -, pois até a estrutura do conto que acompanha pari-passu o desenvolver da história corresponde à estrutura de um delírio esquizo-paranóide.Já "Vera" é extraído de Contes cruéis, um clássico francês do fin-du-siècle XIX, época em que o pós-romantismo ainda deixava suas marcas nas novas tendências "decadentistas", parnasianas, simbolistas etc, com autores como Baudelaire, Huymmas, Catulle Mendes, Mareei Schwobjean Lorrain e outros que, por outro lado, marcavam a passagem para o modernismo. Em tempo: com outra tradução, "Vera" também consta dos Melhores contos fantásticos. Escrevi então que a "fantasia, em crescendo de puro delírio, substitui aos poucos a realidade. Em outras palavras, o delírio é puro fantástico, e o fantástico é delírio transcriado". Ainda vale, não vale? À condessa de Osmoy "A forma do corpo é mais essencial do que sua substância." Afsíologia moderna O Amor é mais forte do que a Morte, disse Salomão: sim, seu misterioso poder é ilimitado. Era o cair da tarde de outono, num dos últimos anos, em Paris. Em direção do bairro de Saint-Germain, carros, já iluminados, rodavam, atrasados, no Bois de Boulogne. Um deles parou diante do pórtico de um palacete elegante, cercado por jardins seculares. O arco da abóbada era encimado por um brasão de pedra, com as armas da antiga família dos condes de Athol: azulado, com a estrela deteriorada, de prata, e a divisa Pallida Victrix, sob a coroa envolvida no arminho do barrete principesco. As portas pesadas se abriram. Um homem de 30 a 35 anos, de luto, com o rosto notavelmente pálido, desceu. No patamar, serviçais taciturnos erguiam tochas. Sem prestar atenção neles, galgou os degraus e entrou. Era o conde de Athol. Cambaleando, subiu as escadarias brancas que conduziam ao quarto onde, naquela mesma manhã, ele deitara num caixão de veludo, envolvido em violetas, em ondas de cambraia, sua rainha de volúpia, sua pálida esposa, Vera, seu desespero. No alto, a porta se abria sobre o tapete. Ele levantou a cortina. Todos os objetos estavam no mesmo lugar em que a condessa os deixara na véspera. A Morte se abatera fulminante. Na noite anterior, sua bem-amada desfalecera em alegrias tão profundas, perdera-se em abraços tão delicados, que seu coração, partido em delícias, fraquejara: os lábios se umedeceram bruscamente com uma púrpura mortal. Ela mal teve tempo de dar no marido um beijo de adeus, sorrindo, sem uma palavra: depois os longos cílios, como véus de luto, cerraram-se sobre a bela noite de seus olhos. A jornada intolerável passara. Perto do meio-dia, o conde de Athol, após a terrível cerimônia no jazigo da família, dispensou no cemitério a escolta fúnebre. Depois, fechando-se sozinho com a amortalhada, entre as quatro paredes de mármore, puxou para si a porta de ferro do mausoléu. O incenso queimava sobre um tripé, diante do caixão. Uma coroa luminosa de lamparinas, na cabeceira da jovem defunta, assumia a forma de estrela. Ele, de pé, pensativo, com o único sentimento de uma ternura sem esperança, permaneceu lá o dia inteiro. Às seis horas, no crepúsculo, saíra do lugar sagrado. Ao fechar o sepulcro, retirou da fechadura a chave de prata, e, erguendo-se no último degrau da soleira, lançou-a suavemente no interior do túmulo, jogou-a sobre as lajes interiores pelo trevo que dominava o portal. Por quê?... Com toda a certeza, depois de alguma resolução misteriosa de nunca mais retornar. E agora revia a câmara mortuária. A janela, sob os vastos tecidos de caxemira malva brocada de ouro, estava aberta: um último raio da tarde iluminava, numa moldura de madeira antiga, o grande retrato da finada. O conde olhou, ao redor dele, o vestido jogado na véspera sobre uma poltrona, as jóias sobre a lareira, o colar de pérolas, o leque semifechado, os pesados frascos de perfume de que ela não mais se impregnaria. No leito de ébano, de colunas retorcidas, ainda desfeito, ao lado do travesseiro em que o lugar da cabeça adorada e divina era ainda visível no meio das rendas, ele percebeu o lenço avermelhado pelas gotas de sangue em que sua jovem alma alçou vôo por um instante. O piano aberto exibia uma música para sempre inacabada; as flores indianas colhidas por ela, na estufa, morriam nos velhos vasos de Saxe; e, ao pé do leito, sobre um tapete escuro, os chinelinhos de veludo oriental, sobre os quais uma divisa risonha de Vera brilhava, bordada com pérolas: "Quem verá Vera a amará". Os pés nus da bem amada brincaram com ele ontem de manhã, beijados, a cada passo, pela penugem de cisne. Na sombra, jazia o relógio da sala, de que ele quebrara a mola para que não soasse outras horas. Portanto, ela partiu!... Para onde!... Viver agora? Para fazer o quê?... Era impossível, absurdo. O conde mergulhava em pensamentos estranhos. Refletia sobre a existência passada. Seis meses se escoaram desde o casamento. Fora no estrangeiro, no baile de uma embaixada, que a vira pela primeira vez... Sim. Esse instante ressuscitava diante de seus olhos com clareza. Ela lhe aparecia resplandecente. Naquela noite seus olhares se reencontraram. Reconheceram-se como de natureza íntima semelhante, e deviam se amar para sempre. Ditos decepcionantes, sorrisos que observam, insinuações, todas as dificuldades suscitadas pelo mundo para retardar a inevitável felicidade daqueles que se pertencem, dissiparam-se diante da tranqüila convicção que eles tiveram, instantaneamente, de que pertenciam um ao outro. Vera, cansada das banalidades cerimoniosas de seu meio social, dirigiu-se a ele desde a primeira circunstância, simplificando assim, de maneira augusta, os trâmites banais em que se perde tempo precioso da vida. Oh! Como nas primeiras palavras, as vãs apreciações dos indiferentes em relação a eles pareceram-lhes uma revoada de pássaros noturnos reen-trando nas trevas! Que sorriso eles trocaram! Que beijo indescritível! Sua natureza, no entanto, era das mais extravagantes. Eram dois seres dotados de sentidos maravilhosos, mas exclusivamente materiais. As sensações se prolongavam neles com uma intensidade inquietante. Esqueciam-se deles próprios de tanto senti-las. Ao contrário, certas idéias, a da alma, por exemplo, do infinito, de Deus mesmo, eram inacessíveis à sua percepção. A crença de um grande número de pessoas em coisas sobrenaturais era para eles apenas tema de vagos espantos: questão fechada com a qual não se preocupavam, sem condição de condená-las ou justificá-las. Reconhecendo assim que o mundo lhes era estranho, isolaram-se, logo depois do casamento, naquele velho e sombrio palacete, no qual a espessura dos jardins amortecia os ruídos do exterior. Ali os dois amantes mergulharam no oceano das alegrias lânguidas e perversas em que o espírito se mistura à carne misteriosa! Esgotaram a violência dos desejos, os frêmitos e as carícias desvairadas. Tornaram-se pulsação um do outro. Neles, o espírito penetrava tão bem no corpo que suas formas pareciam-lhes intelectuais, e os beijos, malhas abrasadas, encantavam-nos numa fusão ideal. Longo deslumbramento! De repente, o encanto se rompeu; o acidente terrível separou-os; os braços se desenlaçaram. Que sombra lhe arrebatou a morta querida? Morta! Não. A alma dos violoncelos é arrancada no grito de uma corda que se rompe? As horas passaram. Ele olhava, pela vidraça, a noite que avançava no céu; e a noite tinha um aspecto pessoal. Parecia-lhe uma rainha caminhando, com melancolia, no exílio. Com a fivela de diamante de sua túnica de luto, Vênus, sozinha, brilhava acima das árvores, perdida no fundo do Armamento. - É Vera - pensou. E a este nome, apenas murmurado, estremeceu como um ser que desperta. Depois, levantando-se, olhou ao redor. Os objetos, no quarto, estavam agora iluminados por uma luz frouxa até então imprecisa, a de uma lamparina, azulando as trevas, e que a noite, armada no Armamento, fazia aparecer aqui como uma outra estrela. Eram a lamparina, com odor de incenso, e um biombo com imagens de santos, reli-cário familial de Vera. O tríptico, de velha madeira preciosa, estava suspenso, por esteiras russas, entre o espelho e o quadro. Um reflexo dourado do interior caía, vacilante, sobre o colar, entre as jóias da lareira. A auréola da Madona em traje celeste brilhava, rosácea, na cruz bizantina cujos finos e vermelhos lineamentos, incorporados ao reflexo, sombreavam com uma tonalidade de sangue o brilho das pérolas. Desde a infância, Vera tinha pena do rosto maternal e tão puro da Madona hereditária, e, por sua natureza, só podia consagrar um amor supersticioso que lhe oferecia às vezes, ingênua, pensativa, quando passava diante da lamparina. O conde, ante esta visão, tocado pelas evocações dolorosas até o mais secreto da alma, soprou rápido a luz santa, e, às apalpadelas, na sombra, estendendo a mão em direção a uma corda, tocou a campainha. Um servidor apareceu: era um velho vestido de preto; tinha um candeeiro que colocou diante do retrato da condessa. Quando se voltou, foi com um calafrio de supersticioso terror que viu o senhor de pé sorrindo como se nada tivesse acontecido. - Raymond - disse tranqüilamente o conde -, essa noite estamos cansados, a condessa e eu; você servirá a ceia aí pelas dez horas. A propósito, resolvemos nos isolar mais tempo, aqui, a partir de amanhã. Nenhum dos servidores, além de você, deve passar a noite no palacete. Você lhes dará os salários de três anos e que eles se retirem. Depois, você colocará a tranca de ferro na porta, e acenderá os candelabros na sala de refeições. Você nos bastará. Não receberemos ninguém a partir de agora. O velho tremia e o olhava atentamente. O conde acendeu um charuto e desceu ao jardim. O servidor pensou em primeiro lugar que a dor muito pesada, muito desesperada, extraviara o espírito de seu senhor. Conhecia-o desde a infância; compreendeu logo que o choque de um despertar repentino poderia ser fatal a esse sonâmbulo. Seu dever, antes de mais nada, era respeitar o segredo. Abaixou a cabeça. Cumplicidade devotada a um sonho religioso? Obedecer?... Continuar a servi-los sem levar em consideração a Morte? Que idéia estranha. Resistiria uma noite?... Amanhã, amanhã, ai de mim!... Quem sabe?... Talvez!... Projeto sagrado, apesar de tudo! Que direito de refletir sobre o assunto?... Saiu do quarto, executou as ordens literalmente e, naquela mesma noite, a insólita existência começou. Tratava-se de criar uma miragem terrível. O constrangimento dos primeiros dias se desfez com rapidez. Raymond, inicialmente com estupor, depois com uma espécie de deferência e ternura, disciplinou-se tão bem em ser natural que, nem bem três semanas se passaram, ele se sentia em alguns momentos iludido por sua boa vontade. A segunda intenção se diluía! Às vezes, sentindo uma espécie de vertigem, tinha necessidade de se dizer que a condessa estava realmente morta. Aderia ao jogo fúnebre e esquecia a todo instante a realidade. Logo houve necessidade de mais de uma reflexão para se convencer e se recuperar. Percebeu que acabaria por se abandonar ao magnetismo terrível com que o conde impregnava a atmosfera ao redor deles. Tinha medo, um medo indeciso, suave. Athol, de fato, vivia absolutamente inconsciente da morte de sua bem-amada! Só podia achá-la sempre presente tanto a forma da jovem mulher estava misturada à sua. À tarde, num banco do jardim, nos dias ensolarados, lia, em voz alta, as poesias que ela amava; à noite, perto do fogo, duas xícaras de chá na mesinha de centro, ele conversava com a Ilusão sorridente, sentada na outra poltrona. Os dias, as noites, as semanas voaram. Nenhum dos dois sabia o que se passava. Fenômenos singulares ocorriam agora, em que era difícil distinguir o ponto onde o imaginário e o real eram idênticos. Uma presença flutuava no ar: uma forma se esforçava por preparar a urdidura no espaço tornado inexplicável. Athol vivia duplamente, como um iluminado. Um rosto suave e pálido, entrevisto como o raio, entre ume outro piscar de olhos; um fraco acorde tocado no piano, de repente; um beijo que lhe fechava a boca no momento em que ia falar; afinidades de pensamentos femininos que despertavam nele respostas ao que dizia. O desdobramento de si próprio era tal que ele sentia, como numa névoa fluida, o perfume vertiginosamente doce da bem-amada ao seu lado, e, à noite, entre a vigília e o sono, palavras ouvidas em tom baixo: tudo o advertia. Era a negação da Morte elevada enfim a uma potência desconhecida! Certa feita, Athol sentiu-a e viu-a tão bem ao seu lado que a tomou entre os braços: mas esse movimento dissolveu-a. - Criança! - murmurou, sorrindo. E tornou a adormecer como um amante repelido pela amante risonha e sonolenta. No dia de seu aniversário colocou, de brincadeira, uma sempre-viva no buquê que pôs no travesseiro de Vera. - Pois ela pensa que está morta - disse. Graças à profunda e todo-poderosa vontade do senhor de Athol, que, à força de amor, forjava a vida e a presença de sua mulher no palacete solitário, esta existência acabou por adquirir um encanto sombrio e persuasivo. O próprio Raymond já não sentia qualquer espanto, tendo-se gradualmente habituado a essas impressões. Um vestido de veludo percebido na curva de uma alameda; uma voz risonha que o chamava no salão; um toque de campainha de manhã, ao despertar, como antigamente, tudo isso se tornara familiar: a morte brincava com o invisível, como uma criança. Ela se sentia tão amada! Era natural. Um ano se escoou. Na noite do aniversário, o conde, sentado perto do fogo, no quarto de Vera, acabara de ler-lhe um romance florentino medieval, em verso: Calímaco. Fechou o livro e depois, ao se servir de chá, disse: - Duschka, você se lembra do Vale-das-Rosas, da margem do Lahn, do castelo das Quatro Torres?... Essa história lembrou tudo para você, não é? Levantou-se e, no espelho azulado, viu-se mais pálido do que o normal. Apanhou o bracelete de pérolas numa taça e olhou as pérolas atentamente. Vera não as tirara do braço, há pouco, antes de se despir? As pérolas ainda estavam tépidas e o brilho suavizado pelo calor da carne. E a opala desse colar siberiano amava também o belo seio de Vera até empalidecer, de modo doentio, em seu estojo de ouro, quando a jovem mulher o esquecia por um período! Em outro tempo a condessa amava por isso estas pedras preciosas fiéis!... Naquela noite a opala brilhava como se acabasse de ser deixada e como se o magnetismo delicioso da bela morta a penetrasse ainda. Ao pousar o colar e a pedra preciosa, o conde tocou por acaso no lenço de cambraia cujas gotas de sangue estavam úmidas e vermelhas como cravos na neve!... Sobre o piano, quem virou a página final da antiga partitura? Como? A lamparina sagrada se reacendera, no relicário! A chama dourada iluminava misticamente o rosto, de olhos fechados, da Madona! E que mãos colocaram essas flores orientais recentemente colhidas, que desabrochavam ali, nos velhos vasos de Saxe? O quarto parecia alegre e dotado de vida, de maneira mais significativa e mais intensa que de hábito. Mas nada surpreendia o conde! Tudo lhe parecia tão normal que nem prestou atenção na hora que soou no relógio parado havia um ano. Naquela noite, no entanto, se poderia dizer que, do fundo das trevas, a condessa Vera se esforçava adoravelmente por retornar a este quarto embal-samado! Deixou ali tanto de sua pessoa! Tudo o que constituíra sua existência a atraía para ali. Seu encanto flutuava nele; as longas violências provocadas pela vontade apaixonada do marido deviam ter afrouxado os vagos liames do Invisível ao redor dela!... Necessitavam dela. Tudo o que ela amava estava ali. Ela devia ter vontade de sorrir de novo neste espelho misterioso em que tantas vezes admirou o próprio rosto de lírio! A suave morta estremecera entre as violetas, sob as lamparinas apagadas; a divina morta certamente se agitou, no jazigo, sozinha, olhando a chave de prata jogada sobre as lajes. Ela também queria ir ao seu encontro! Sua vontade se perdia na idéia do incenso e do isolamento. A Morte só é uma condição definitiva para aqueles que esperam algo do Céu, mas a Morte, o Céu e a Vida, para ela, não eram o abraço dele? O beijo solitário do marido atraía seus lábios na sombra. E o som das músicas, as palavras arrebatadas de antes, os tecidos que cobriam seu corpo conservando o perfume, as pedras mágicas que a desejavam, em sua obscura simpatia, e, sobretudo, a imensa e absoluta impressão da sua presença, opinião enfim partilhada pelas próprias coisas, tudo a chamava ali, a atraía havia tanto tempo, e tão insensivelmente que, curada finalmente da morte adormecida, faltava apenas Ela própria! Ah! As idéias são seres vivos!... O conde moldara no ar a forma de seu amor, e era preciso que esse vazio fosse preenchido pelo único ser que lhe era homogêneo, caso contrário o Universo ruiria. Nesse momento surgiu a impressão, definitiva, simples, absoluta de que ela devia estar ali, no quarto! Ele estava tão certo disso como de sua própria existência, e todas as coisas ao redor dele ficaram saturadas por esta convicção. Ela era vista. E como só faltasse a própria Vera, tangível, exterior, era preciso que ela se encontrasse ali e que o grande Sonho da Vida e da Morte entreabrisse por um momento suas portas infinitas. A ressurreição percorria, pela fé, o caminho até ela! Um fragmento fresco de riso musical iluminou com sua alegria o leito nupcial. O conde se voltou. E ali, diante de seus olhos, feita de vontade e de recordação, apoiada nos cotovelos, fluida, no travesseiro de renda, a mão segurando os pesados cabelos pretos, a boca deliciosamente entreaberta num sorriso de felicidade extrema e de volúpia, bela de morrer, enfim, a condessa Vera o fitava ainda um pouco adormecida. - Roger! - murmurou ela com a voz longínqua. Ele se aproximou dela. Seus lábios se uniram numa alegria divina, esquecida, imortal! Perceberam então que eram realmente um único ser. As horas tocaram de leve, num vôo estranho, este êxtase em que se misturaram, pela primeira vez, Terra e Céu. De repente o conde de Athol estremeceu, como surpreendido por uma reminiscência fatal. - Ah! Agora me lembro!... - disse ele. - O que há comigo? Mas você está morta! Naquele mesmo instante, a esta palavra, a lamparina mística do suporte dos ícones se apagou. O pálido amanhecer, de uma manhã banal, plúmbea e chuvosa, infiltrou-se no quarto pelos interstícios da cortina. Os círios tremeram e se apagaram, deixando fumegar acremente seus pavios vermelhos; o fogo desapareceu sob uma camada de cinzas tépidas; as flores murcharam e ressecaram em poucos instantes; o balanço do pêndulo retomou gradualmente sua imobilidade. A certeza de todos os objetos se desvaneceu subitamente. A opala, morta, já não brilhava. As manchas de sangue murcharam também na cambraia, perto dela; apagando-se entre os braços desesperados que queriam em vão se estender ainda, a ardente e branca visão reentrou no ar e se perdeu. Um fraco suspiro de adeus, claro, longínquo, chegou até a alma de Roger. O conde se ergueu. Acabara de perceber que estava só. O sonho se dissolvera de um só golpe; ele rompera o fio magnético da trama radiosa com uma única palavra. A atmosfera era agora a dos velórios. Como aquelas lágrimas de vidro, acrescentadas ilogicamente, e no entanto tão sólidas que uma martelada sobre a parte espessa não as quebraria, mas que caem em súbito e impalpável póse se quebra a extremidade mais fina do que a ponta de uma agulha, tudo se esvaíra. - Oh! - murmurou ele -, então acabou! Perdida!... Sozinha! Qual é o caminho agora para chegar até você? Mostre-me o caminho! De repente, como se fosse uma resposta, um objeto brilhante caiu do leito nupcial, sobre o preto agasalho de pele, com um ruído metálico: um raio do terrível dia terrestre o iluminou!... Ele se abaixou, colheu-o, e um sorriso sublime iluminou seu rosto ao reconhecer o objeto: era a chave do túmulo.

"judas"


SAWA, Miguel. Historias de Locos. Barcelona: E. Domenech Editor, 1910.

TRADUÇÃO DE CELINA PORTOCARRERO Todas as literaturas têm sempre um número de escritores (que foram ou não conhecidos em sua época) muito pouco lembrados, às vezes mesmo por seus pares. É o caso, na Espanha, de Miguel Sawa, que chegou a se destacar na época decadente (de nuestra bohemia literária, como disse um crítico que tentou recuperá-lo) da literatura que se fazia (principalmente) em Madri, no começo do século XX. "Eu não sou daqui, minha cronologia não se mede na esfera dos relógios" - definiu-se ele certa vez. Miguel Sawa deixou um volume inteiro de contos com a mesma temática desta antologia: Historias de locos (7910), com um estilo que transita entre o irreal, o fantástico e o horror. Mas o Judas que se vai ler é um cidadão comum, aparentemente, desses com quem o leitor pode cruzar numa visita a um museu, por exemplo. Estava no museu contemplando extasiado o belo quadro de Van Dick, O beijo de Judas. De repente, uma voz soou atrás de mim, uma voz baixa e lúgubre, que me fez estremecer de espanto. - Não é verdade, cavalheiro, que tenho uma certa semelhança física com o discípulo traidor do Filho de Deus? Voltei-me assustado. Quem me falava era um homem alto, todo vestido de preto, cabelo e barba da cor do açafrão, olhos salientes, pele flácida, amarelada pela icterícia... - E veja o senhor o que são as coincidências... - acrescentou o desconhecido. - Também me chamo Judas, como o que vendeu Cristo. E, sorrindo com ar triste: - Mas não desconfie de mim... Acredite que no fundo sou um bom homem. E agarrando meu braço, como se fossemos amigos de vida inteira, convidou-me para tomar uma caneca de cerveja. Acompanhei-o sem pensar, entre assustado e curioso. Já no café, o estranho personagem me contou sua história, entre uma e outra caneca de cerveja, continuando a falar com aquela voz baixa e lúgubre, que dava calafrios. Não tinha nacionalidade conhecida; era judeu e nascera de qualquer mãe e de qualquer pai, não sabia onde. Vivia sozinho no mundo, sem mulher, sem filhos, sem amigos. Praticava medicina, embora não fosse médico. "Isso me proporcionou o prazer - acrescentou sorrindo - de matar muita gente em total impunidade." Viajara muito, viajava sempre. Tinha quase tantos anos quanto a Humanidade. E a vida o entediava: já tentara uma vez se suicidar pendurando-se a uma árvore. - Eu já lhe disse - concluiu - que não tenho amigos. Os homens me inspiram um profundo desprezo. Ódio, seria dizer melhor. Mas o senhor, sem saber por que, me foi simpático. O senhor tem cara de bom e de inteligente. Assim como me pareço com o discípulo traidor, o senhor se parece com o Mestre sublime. E eu preciso, para me salvar, sentir algum afeto nobre, amar alguém, ter um amigo que seja... E, segurando-me as mãos e apertando-as nervosamente entre as suas, geladas como as de um morto, acrescentou: - É..., mesmo que o senhor não queira, serei seu amigo, seu irmão... A regeneração do mundo está no amor! Eu passei a vida odiando o Homem... Se conseguisse amor estaria salvo! E em voz muito baixa, como se falasse consigo mesmo: - Dezenove séculos de luta já são castigo suficiente...! Oh, Pai de todos, tenha piedade de mim! Dezenove séculos! Pensei que aquele homem estava louco, e, para dar fim à estranha conversa, ofereci-lhe em termos vulgares minha amizade e me despedi dele prometendo voltar depois de três ou quatro dias àquele café onde havíamos celebrado nosso primeiro encontro. Dom Judas apertou-me comovido as mãos, tentou abraçar-me e me pediu, com frases da maior cortesia, que pagasse a cerveja que havíamos bebido "porque - acrescentou com tristeza - seu dinheiro era maldito e não o admitiam em parte alguma". Desde aquele dia funesto Dom Judas foi meu amigo, meu camarada, meu companheiro de todas as horas, meu irmão... E desde aquele dia começaram minhas desgraças. Dom Judas devia possuir um dom sinistro, isso que os italianos chamam dejettatura, e viver com ele era viver na trágica companhia do infortúnio e da dor. O que sofri nos três meses em que aquele ser maldito foi meu amigo! Sou muito fraco de caráter, e Dom Judas se apoderara a tal ponto de minha vontade, que não me atrevia a fazer nada sem seu consentimento e seu conselho. Por sua imperativa determinação coloquei meu modesto capital em ações da sociedade A Honradez, e a tal sociedade quebrou em pouco tempo, deixando-me na miséria. Em suas mãos morreram, no intervalo de sete dias, minha mãe, minha mulher e meus quatro filhos, atacados de uma enfermidade estranha, para a qual os médicos não encontravam remédio. Dom Judas, que, como lhe disse antes, praticava medicina, atendeu solícito a meus doentes, cuidando deles com carinho de mãe e fazendo as vezes de médico e enfermeiro. Quando da morte de meu último filho, Dom Judas, completamente desesperado - aparentemente mais desesperado do que eu -, atirou-se em meus braços declarando-se responsável por todas as desgraças que ocorriam. - Eu sou um ser funesto... eu sou o gênio do mal... sou maldito por Deus e pelos homens... quis me regenerar através do amor e fui teu amigo leal, teu irmão... e te trouxe desgraça, trouxe desgraça para esta casa. Deus não me perdoa! Por mim perdeste tua mãe, tua mulher e teus filhos. Por mim te arruinaste. Ninguém pode ser feliz com meu amor. A cólera de Jeová persegue implacável todos os que amo. E chorava e rugia e arrancava furioso os grossos fios de sua barba ruiva.

f4 MIGUEL SR^R Louco de angústia, perguntei. - Mas afinal quem és? Começou a rir. Que riso o seu! Assim devem rir os diabos, se é que riem. - Imbecil! Não me reconheceste? Sou a traição, o engano, a perfídia, a maldade... Sou Judas, o que vendeu Cristo por trinta moedas! E sacudindo nas mãos uma bolsa: - Aqui tens o preço de minha traição! Por isso te disse que meu dinheiro era maldito e o recusavam em todos os lugares. Voltou a rir com seu riso infernal de desesperado. - Veja meu pescoço... Ainda conserva a marca da corda com que tentei me enforcar, arrependido de minha traição. Mas, desgraçado de mim, estou condenado a viver para sempre! - Não! - gritei enlouquecido. - Tua última hora chegou afinal! Morrerás pelas minhas mãos, assassino da minha mãe, assassino da minha mulher, assassino de meus filhos! - Sim! - gritou Judas. - Mata-me, por caridade! Atirei-me furioso sobre ele, apertando-lhe o pescoço com ambas as mãos. E fiquei apertando por muito tempo. Afinal deixei-o cair no chão, sem vida, morto... E, porter livrado a humanidade daquele homem maldito, porter matado Judas o traidor, trouxeram-me para cá, para este manicômio...



"Um assovio". QORPO-SANTO. As relações naturais e outras comédias. Porto Alegre: Movimento Co-Edições UFRGS, 1976.

Imaginem um nativo da vila de Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, morador de uma Porto Alegre pequena e provinciana, em pleno século XIX. O nome dele? José Joaquim de Campos Leão (1829-1883), que adotaria o pseudônimo de Qorpo-Santo. Ele passa pelo comércio, vira professor, apresenta uma proposta de reforma ortográfica, cria um grupo dramático, escreve para jornais interioranos, funda um colégio em Alegrete, onde é subdelegado e vereador, e põe-se a escrever- como um louco, não é assim que se diz? - peças, aforismos, poemas, uma enciclopédia pessoalíssima, "prosas satíricas" e autobiográficas. "Maníaco-obsessivo", teve a intervenção Judicial de seus bens pedida por sua esposa. Baseado num desses diagnósticos ("exaltação cerebral"), um médico chega a proibi-lo de... escrever. A resposta pode ser lida num dos seus aforismos: "Se eu não lesse, se eu não escrevesse - seria quiçá uma pedra". Pelo menos um médico o declara "em gozo perfeito das faculdades mentais". Enviado ao Rio de Janeiro, fica no Hospício Pedro II, na Praia Vermelha (no mesmo espaço em que ficaria mais tarde Lima Barreto) e na Casa de Saúde Dr. Eiras. O maior médico da Corte, Dr. Torres Homem, também o julga dono de suas faculdades mentais. Mesmo assim, de volta a Porto Alegre, encontra um despacho de um juiz determinando sua interdição judicial. Foi, em suma, um longo e sofrido processo que o levou à falência. Jamais teve em vida qualquer tipo de reconhecimento intelectual efoi preciso esperar um século - com uma isolada tentativa, em 1922, por parte do escritor Roque Callage, de mostrá-lo como "escritorfuturista" - para que tivesse uma peça sua, As relações naturais, levada ao palco, em 1966. Para espanto geral da nação artística, pois já no ano seguinte, com outra montagem, dessa vez no Rio de Janeiro, o crítico lan Michalski anunciava a descoberta de um escritor brasileiro que teria sido "o precursor do teatro do absurdo". Ou do surrealismo, diriam outros; ou do dadaísmo, da patafísica, ou mesmo um humorista de vanguarda, arriscaríamos nós. Desde a década de 1960, descoberto na imprensa por Aníbal Damasceno Ferreira e tendo as peças publicadas em livro - por Guilhermino César-, mesmo contando com certa desconfiança crítica de muitos, Qorpo-Santo vem sendo uma espécie de "caso" (no sentido de case, mesmo) da literatura brasileira e seu único (único?) "louco oficial". Privilegiamos aqui o tema, a loucura de uma peça, e não o gênero - o conto - para incluí-lo nesta antologia. Afinal, trata-se de uma narrativa curta e não podemos nós - médicos ou antologistas - ser ortodoxos ou acadêmicos a respeito de "classificações". Ah!, sim: Qorpo-Santo escreveu 17peças; entre as melhores, além de Relações naturais, Mateus e Mateusa e (mais que um título: é quase um grito de alerta ou de socorro) Eu sou vida; Eu não sou morte. Agora, é só atenderão seu "assovio", de preferência rindo, reação humana que se julga saudável, e concluir que às vezes vale a pena fugirmos de ortodoxias teóricas. Ou, como escreveu ele num poema: "Com lápis rombudo escrevo Por falta de um canivete Mas ainda assim me diverte Borrões que afazer me atrevo." Comédia em 3 atos e um quadro PERSONAGENS: Fernando Noronha Gabriel Caldino Almeida Garre Jerônimo Avis Luduvica Luduvina Esméria Rosinha e Coriolana Três tocadores As Cenas passam-se em Paris.

ATO PRIMEIRO Cena Primeira FERNANDO (passeando e batendo na testa) Não sei que diabo tenho nesta cabeça! Nem São Cosme, que é da minha particular devoção, é capaz de adivinhar o que se passa dentro deste coco! O que, porém, é verdade é que todos os dias, todas as horas faço novas preces; e todas as horas e todos os dias transgrido os deveres que em tais protestos me imponho! (Chama.) Gabriel, Gabriel, que diabo estás fazendo nesse fogão, em que estás pregado há mais de duas horas!? Querem ver que estás a roer os tijolos, julgando serem de goiabada! Cruzes! Cruzes! Que gastrônomo! É capaz... já estou com medo! É capaz de roer até a minha casaca velha! (Pegando de repente no nariz, tira um pedaço; olha e grita:) Oh! diabo! até já me roeu um pedaço do nariz, quando eu ontem dormia! Gabriel! Gabriel! GABRIEL Pronto! Então (de dentro) que tanto me chama!? Diabos te levem! É o amo mais impertinente que tenho visto! Cruzes! Ave-maria! Já vou, já vou! Deixe-me tomar o meu quinhão de café; e tomo, porque estou transido de frio! Estou gelo! Quer derreter-me!? Espere, espere! FERNANDO Diabos te levem para as profundas do maior inferno! Está este diabo a tomar café desde que amanhece, até que anoitece! Vai-te, diabo! GABRIEL (aparecendo) Ora, graças a Deus e a meu amo! - já que com o diabo cortei de todo as minhas relações. (Apalpando e levantando a barriga.) Tenho esta pança mais pequena que a de um jumento, ou de um boi lavrador! Não é nada (caminhando para o lado do amo), existe aqui... quem sabe já quanto estará! (Rindo-se.) Duas chaleiras de café; quatro libras de açúcar... já se sabe - do mais fino refinado. Três libras, não! Seis libras de pão de rala e duas de fina manteiga inglesa. (Andando para uma e outra parte.) Troleró, troró! Agora sei que sou mesmo um Manuel José Taquarião! Só me faltam as cartas, e as parceiras! (Apalpa as algibeiras etira um baralho.) FERNANDO (à parte) Estou otimamente servido de criado e companheiro! Não tenho, sinto - um guindaste para lhe ir suspender a pança! GABRIEL (depois de haver examinado o baralho com atenção; para o amo) Pensei que não tinha trazido. Está ótimo! Vamos a uma primeirinha? (Batendo no baralho.) Hem? hem? (Tocando-lhe no braço.) Então? Vamos, ou não vamos!? FERNANDO Tu és o diabo em figura de bicho. (Batendo-lhe na pança.) GABRIEL Ai! não me fures, que eu tenho um filho de seis meses arranjado pela Sra. D. Luduvina, aquela célebre parteira que o Sr. meu amo melhor que eu conhece... visto que passou as mais apreciáveis noites com... ou... etc. etc. FERNANDO (batendo-lhe na boca) Ó diabo! não descubras esse segredo! Senão, são capazes os amigos dela de me porem na cadeia! GABRIEL (à parte) Por isso é que muitas vezes eu chupo-lhe o dinheiro, e faço d'amo! Tem segredos, que eu sei; e que ele não quer que sejam revelados! FERNANDO Então, Caldino! Encheste o teu pandulho desde (bate-lhe na bunda, que é tãobém formidável, e na barriga) esta extremidade até esta...! GABRIEL Ai! ai! seu diabo! Não sabes que ainda não botei as páreas do que pari por aqui!... (Apalpa a bunda). FERNANDO E entretanto, de mim não te lembraste, judeu! Vai me buscar uma xícara, anda! GABRIEL Oh! pois não! (Pulando; e dando voltas.) O meu amo sabe dançar a chula? (Olha para os calcanhares.) E ainda faltam-me as esporas; senão, havia eu de fazer o papel mais interessante que se tem visto! Nem o Jucá Fumaça era capaz de me ganhar em levianeza e linda graça! (Continua a dançar a chula.) FERNANDO Este diabo (à parte ou para um lado) não vai me buscar café! Então? Vais ou não vais!? GABRIEL Ah! quer café! já vou! (Dá mais duas ou três voltas, e entra por uma porta, pela qual torna a vir logo depois.) FERNANDO Que tal estará o café deste judeu? GABRIEL Eis aqui! Está melhor que o chocolate da velha Teresa lá do Caminho Novo em que não há senão velhas tabaqueiras ou espirradeiras, que na frase dos rapazes são tudo e a mesma cousa! FERNANDO (pegando a xícara e levando-a aos lábios) FumL. Fede a rato podre! E tem gosto de macaco são! Que porcaria! Pega; pega! (Atira-lhe com o café à cara.) GABRIEL (limpando-se todo) Não precisava fazer-me beber pelos olhos! Já estava farto de derramá-lo pela cara! Agora arrumo a xícara. FERNANDO Quem sabe se o fétido e o gosto provêem da xícara!? Pode ser! Para não tornar a ter destes prazeres... (atirando) quebrarei as pernas deste pançu-do! (Atira xícara e pires às pernas do criado.) Gabriel Ó diabo! quase me quebras as pernas! Mas ficou sem o casal da xícara! O que me vale (à parte) é que por eu há muito já o conhecer, mandei o ano passado forrá-las de aço no ferreiro das encomendas, que mora lá por trás das vendas, na Rua das Contendas!

ATO SEGUNDO Cena Primeira LUDUVINA (mulher de Gabriel Galdino, velha feia e com presunções e ares de feiticeira) Graças a Deus que já se pode vir a esta sala (Olhando para o chão.) Oh! cacos! Que barulho haveria aqui! Quem quebraria esta iouça!? Querem ver que o meu marido, o Sr. barrigudo e bundudo, que pelas nádegas (e se espera que faça o mesmo pelo embigo) andou brigando com o amo, que é uma outra das mais raras esquisitices que se há visto sobre a Terra! Nem foi outra cousa! Dei-xem-[n]os por minha conta; hei de pôr-lhes freio e lei, e em toda a sua grei! GABRIEL (entrando) Oh! minha querida Luduvína! Levantei-me a sonhar como um sonâm-bulo. Agarrei-me primeiro a uma janela, pensando que era a Sra.! Depois a uma talha, ainda com a mesma ilusão! E ultimamente a uma música chamada cavatina, pensando sempre que era a Sra. D. Luduvina! LUDUVÍNA O Sr. é muito gracejador! Quem o manda dormir tanto! Por que não faz como eu, que atiro-me do mar, ponho-me no ar!? Sabe que mais? (Pondo o dedo em frente ao rosto dele, como ameaçando.) Se quiser continuar a ser meu, há de, primeiro: Levantar-se de madrugada, senão à do galo primeira cantada! Segundo; banhar-se dos pés à cabeça, e esfregar-se com fino sabão inglês ou sabonete. Terceiro; alimentar-se três vezes ao dia; e de comidas simples e brandas; como por exemplo: uma xícara de chocolate para almoço com uma fatia ou alguma massa fina torrada ou não; um ou dous pedacinhos de galinha ou cousa idêntica, para o jantar, e quando muito mais (o que não julgo necessário) - um cálix de vinho superior, ou uma xícara de café, ou de chá. À noite - qualquer líquido destes como ceia. O melhor de tudo é tomar uma só bebida para almoço, e para ceia; e para o jantar tãobém um só pra-tinho com um cálix de vinho, ou uma xícara de café; no primeiro caso se for com carne; no segundo se for... GABRIEL Agora acabe! Depois da ceia, diga: O que havemos de fazer? Em que me hei de entreter!? LUDUVINA De noite, depois do chá... já se sabe (abraçando-o), vamos para a cama dormir quentinhos! Fazer alguns... alguns filhinhos. Sabe, não? Entende o que eu lhe quero dizer? Entende; entende; o Sr. não é nenhum ignorante. GABRIEL Estás gaiata; gaiatíssima. Pois não basta a nossa filha Esméria para nos entreter!? Ainda queres mais filhinhas!? LUDUVINA É porque eu sempre gostei... GABRIEL Mas isso era no tempo de moça; agora estamos velhos... LUDUVINA A mulher nunca é velha! E o homem sempre é moço. GABRIEL Ora explique-me Sra. Pulquéria, a sua asserção; eu não a entendo bem. LUDUVINA Visto que me troca o nome, eu lhe trocarei o chapéu. (Tira o que ele tem na cabeça e põe-lhe outro mais esquisito.) O nome que me deu, regula com o chapéu, que eu lhe - ponho: e dê graças a Deus não o deixar com a calva à mostra! GABRIEL Já agora estarei por tudo. Casei-me de fato com a Sra.; não há remédio (à parte) senão aturá-la...



Cena Segunda FERNANDO (entrando) Oh! que é isto? O Sr. acompanhado aqui desta dama! GABRIEL Pois que tem? Sim; sabe... o meu casamento... sim; o Sr. ignora! Tem razão! FERNANDO Pois o Sr. é casado!? GABRIEL E até tenho uma filha chamada Esméria. FERNANDO (olhando para um lado) E esta! O meu criado casado; e já com uma filha. GABRIEL Sim, Sr. Sim, Sr. E por isso mesmo far-lhe-ei em breve as minhas despedidas! FERNANDO Ainda mais esta! Fala-me em despedida! (Pausa.) E depois quem me há de servir, se me faltar este pançudo barrigudo! ESMÉRIA (entrando) Sua bênção, meu pai. GABRIEL Oh! bem-vinda, minha querida! FERNANDO Onde diabo, em que casa tinha[s] tu metido a mulher, e este anjo de bondade!? Tão escondidos ou bem guardados, que eu nunca pude saber que existiam!? GABRIEL Não me convinha; porque sei quanto o Sr. é amigo de alheias mulheres! E se a minha Esméria é um anjo de bondade, a minha Luduvina é uma santa de maldade! FERNANDO (muito zangado). Todos têm mulher. (Puxando os cabelos.) Isto é o diabo! É o diabo. E é o diabo. Onde irei eu buscar, achar uma que me agrade! (De repente, para Gabriel Caldino:) Amigo, dás-me a tua filha em casamento!? (Pondo-lhe a mão no peito.) Se m'a dás, hoje mesmo, meu caro, ela será minha mulher! GABRIEL A minha Esméria é um anjo de bondade; só se o Sr. se sujeitar a todos os preceitos que ela lhe impuser! FERNANDO Mas que diabos de preceitos são esses!? Pois tu não me conheces? Não sabes quanto eu sou franco e generoso; cavalheiro e... GABRIEL Sei; sei de tudo isso! Mas eu não quero fazê-la infeliz! O limo. Sr. Dr. Fernando há de ser uma espécie, ou um verdadeiro criado fiel de minha filha; e há de declará-lo em uma folha de papel, escrita por tabelião e assinada pelo juiz competente; o dos casamentos ou dos negócios civis. Etc. etc. e etc. Com a satisfação de todas estas condições, ou seu preenchimento, a minha muito querida filha, se quiser, será sua mulher. Fora delas, ou sem elas, não falaremos, não trocaremos mais sobre tão melindroso assunto. FERNANDO (à parte) E o caso não julgado é verdade - que estou pela menina apaixonado; e que por isso mesmo não terá remédio o Sr. Fernando, senão a tudo se ir sujeitando. Assim é que servia-me o meu futuro sogro; há mais de seis meses sem que eu soubesse que era casado, e que tinha uma filha! Foi realmente um mistério. E dizem-me que não aparecem ou não se vêem milagres no tempo presente.

ATO TERCEIRO Cena Primeira LUDUVICA (criada de Almeida Garrett) Depois que este meu amo se associou ao Sr. Fernando de Noronha; que este se casou com a Sra. D. Esméria, filha de um velho criado deste; e finalmente, depois que se juntou certa camaraótica de maridos, mulheres, genros, criados ou quiabos, anda esta casa sempre assim! Ninguém os entende! Se se vai servir à Sra. D. Luduvina, eis que se ouve a voz do Sr. Fernando de Noronha, gritando - "Luduvica! Luduvica! traz-me as botas"! Se se está servindo ao Sr. Dr. Fernando, eis que me chama a Sra. D. Esméria: "- Luduvica! Luduvica! toma este recado e vai levá-lo à casa de minha prima Hermenêutica". Finalmente, se estou servindo a qualquer destes, eis que o Sr. Gabriel Galdino, criado outrora malcriado, barrigudo, pançudo, bundudo, grita:"- Dá cá de lá os chinelos, que estou com os óculos na cabeça!" Enfim, é o diabo! É o diabo! Muito desejo ver-me livre desta casa, em que seis ou oito meses de serviço já me fedem! Ainda que me não queiram pagar, quando não o pensarem hão de me ver raspar! (Entra Almeida Garrett, Gabriel Galdino e Fernando de Noronha.) GABRIEL GALDINO Com todos os diabos! Estou hoje com tais disposições de avançar a corações, que se tu não fosses casada (pondo a mão em Luduvica), protesto que me não escaparias! LUDUVICA Como o Sr. está engraçado! Pensa que mesmo sendo, e que mesmo não sendo, eu havia de ceder aos seus desejos brutais, sabendo principalmente que é casado, atoleimado, foi criado e que tem filhos!? Está; está - muito e muito enganado! FERNANDO DE NORONHA Oh! Sr. Gabriel Galdino, isso não é cousa que se faça às escondidas de alguém. Eis porque não há criados que queiram servir-nos (Com força.) Isto envergonha! Envergonha! e faz afastar de nós todos os criados e criadas que há em toda esta cidade! É esta a décima oitava que para aqui vem; e que não tardará a deixar-nos! Se o Sr. não mudar de comportamento, estamos todos perdidos! Teremos em breve de nos servirmos com as nossas próprias mãos! GARRETT Ainda será bom se nos servirmos só com as nossas mãos! Se não nos for necessário servirmo-nos com os nossos pés! GABRIEL GALDINO Não - toleirões! Eu estava apenas brincando. Queria ver a que ponto chegava a pudicícia da nossa encantadora e amável servidora - Luduvica An-tônia da Porcíuncula. (Fazendo menção de abraçá-la, ela afasta-se um pouco como receosa.) Não receies, minha Menina; se vos desse um abraço - seria de amizade, ou igual àqueles que os Pais dão nos filhos; as mães nas filhas; etc. etc. FERNANDO Luduvica, já preparaste o que te disse de manhã que queria? LUDUVICA Como havia de preparar, se eu não me posso voltar nem mexer-me para lado algum!? Se me volto para a direita, sou chamada da esquerda; se para a esquerda, incomodada pela direita; e finalmente pelos flancos, retaguarda e vanguarda; sempre e sempre chamada, incomodada e flagelada! FERNANDO Em vista disso, irei eu mesmo preparar! (Sai muito zangado, mas pára-se na porta.) GARRETT E as minhas camisas, calças e ceroulas - já aprontaste? LUDUVICA Não tenho tido tempo nem para coser os meus vestidos, quanto mais a sua roupa! GARRETT Uma criada assim, não sei para que diabo pode servir! (Vai a sair e esbarra-se com Fernando de Noronha, que até então se acha sério e firme, como um soldado de sentinela em frente do inimigo.) FERNANDO Alto lá! Aqui ninguém passa. Ponha-se aí ao lado, e firme como um soldado: Quero ver até que ponto chega a audácia desta criada! (Garrett perfila-se ao lado direito.) GABRIEL GALDINO (com palavras muito ternas ou açucaradas) Então, minha queridinha? (Aproxima-se a ela.) Nem um beijinho me dás, nem uma boquinha, nem um abracinho, nem ao menos um volver desses olhos estrelados! LUDUVICA (sorrindo-se) Ora, nunca pensei que o Sr. fosse tão audaz! GABRIEL Pois é audácia pedir-se aquilo de que se tem necessidade!? LUDUVICA Vá procurar a sua mulher, e com ela faça o que quiser! GABRIEL E se ela não quiser, o que hei de eu fazer!? LUDUVICA Ter paciência, e fazer-lhe continência! GABRIEL Então, além de me negar aquilo que me deve dar, ainda hei de ter paciência e fazer-lhe continência!? LUDUVICA E que remédio o Sr. terá, senão assim proceder, ou humilhar-se!? Se o não fizer, ela o ferirá; o Sr. há de morrer, ou ela se matar! GABRIEL Em vista disso, adeus minha queridinha; adeus! (Vai a sair e encontra o mesmo obstáculo como Garrett.) FERNANDO (para Gabriel Galdino) Alto, frente! Tome a esquerda e perfile-se! (Desembainhando a espada por detrás.) (Gabriel toma a esquerda e perfila-se.) LUDUVICA Que farão os três pandorgas (Passeando e vigiando-os ora com o rabo de um, ora com o rabo de outro olho.) Que esperarão eles! Pensarão mesmo que me hão de continuar a massar!? Estão bem servidos! Eu os componho; eu agora mostro-lhes o que é a força de uma mulher, quando esta está a tudo resolvida, ou mesmo quando apenas quer mangar com algum homem! (Puxa, passeando, um punhal que ocultava no seio e conserva-o escondido na manga do vestido.) Estes (à parte) meus amos são uns poltrões; eu faço daqui carreira, faço brilhar o punhal; eles, ou me hão deixar passar livremente, ou caem por terra mortos de terror; e não só por serem uns comilões, uns poltrões, também porque... não direi mas o farei! (Volta-se repentinamente; faz brilhar o punhal; avança-se para eles. Os dos lados caem cada qual para seu lado, e o do centro para diante; ela salta em cima deste, volta-se para o público e grita levantando o punhal:) Eis-me pisando um homem, como um carancho [a] um cavalo morto! Quando a força da razão, do direito e da Justiça, empregada por atos e por palavras, não for bastante para triunfar, lançai mão do punhal... e lançai por terra os vossos indignos inimigos, como fiz e vedes a estes três algozes! (Desce o pano, passados alguns minutos, e assim finda o Terceiro Ato.)

ENTREATO (entrando com flauta e três tocadores, com vários instrumentos) JERÔNIMO DEAVIS Lá vai! (Sopra a flauta; e esta não dá mais que um assovio destemperado; sopra com mais força, - sucede o mesmo, ou ainda pior. Muito ansiado, querendo desculpar-se:) Senhores, deu o tétano na minha flauta! Desculpem; desculpem! OS OUTROS Qual desculpa, nem desculpa! Embaçou-nos, agora há de aprender a tocar todos os instrumentos. (Caem-lhe em cima com eles; ele defende-se com a flauta; de uns e de outros; e assim que pode corre a safar-se. Os Outros fingem persegui-lo; ele procura escapar-se e não pode, dando também em uns e em outros com a flauta, dizendo-lhes:) Paguem as lições que lhes dei ensinando-os a tocar flauta. (Neste ato e barulho, deve pouco a pouco ir descendo o pano.) QUADRO Aparecem todos; cantam - e dançam mascarados; de violas, tambores, flautas, rabecas e violões - os seguintes versinhos: Minha Musa está vazia, De tanto haver dado à Tia! Minha rabeca não canta, Nem o violão descantal Trai, larai; tri, lari, Lari; trai, larai, tri lari Larou... (Repete-se.) Minha viola 'stá zangada, Por não ter mais uma corda; Dela a flauta discorda; E assim - só desagrada! Trai, larai; tri, lari, Lari; trai; larai; tri lari, Larou... Minha rabeca assovia; Com esse rouco violão, Não faz boa harmonia: Hei de ver melhor baixão! Trom larom, Larom larom larom; Trom larom larom Larau lau lau... (Repete-se.) Meus tambores estão rotos! Que fazer deles - não sei! Hei de vendê-los ao Rei, Cobertos de peles d'escrotos! Trom, larom, laram, Larau lau lau; trom, larom, Larau, larau, lau lau!... (Repete-se.) Minha flauta já não toca, Mas apenas - assovia! - Se não melhorar na pia, - Hei de mandá-la à taboca! Drom, larom, larom, Larim lau lau, drom, Larom, lari, lari, larom! (Repete-se.) Cantados e repetidos estes versos por duas ou mais vozes, dançando-se e tocando-se chóteze, cada um canta os que dizem respeito ao instrumento que toca. - Termina o Quadro; e com ele a Comédia, do seguinte modo: O FLAUTISTA (para os outros) Srs.! Silêncio! O mais profundo silêncio! Vou tocar a mais agradável peça, e de minha composição, que se possa ter ouvido no planeta que habitamos! Ouçam! Ouçam! (Todos ficam silenciosos; e põem os instrumentos debaixo do braço esquerdo. O Flautista, levando a flauta à boca:) Fi u (Desce o pano) Fim do Quadro e da Comédia. Porto Alegre, junho 6 de 1866. Por José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo.



"A galinha degolada" ("La gailina degollada"). QUIROGA, Horacio. Cuentos de amor de locura y de muerte. Echo Library, 2006.

TRADUÇÃO DE LEO SCHLAFMAN Interior do Uruguai, começo do século XX. Um sítio afastado, pasmaceira, galinhas no quintal - cotidiano rural. Quatro crianças, aparvalhadas, estáticas, olhando o vazio, babando. Idiotas elas? A idiotia, ou debilidade mental, e que já foi considerada loucura, é na realidade uma deficiência da mente e não exatamente uma doença mental. No entanto, a conseqüência (no caso do conto em questão), da ação desses personagens pode ser considerada loucura: a loucura como sintoma. Deu para entender? Não faz mal. O importante é ler esse que é um dos mais cruéis contos de Horacío Quiroga (1878-1937), um admirador de Edgar Allan Poe e mestre indiscutível da literatura latino-americana - e cuja vida foi uma tragédia só. A tragédia de sua vida, antes de Quiroga se suicidar, não o impediu de nos deixar centenas de contos de toda ordem: de horror, ecológicos (seus Contos da selva], românticos e sobretudo humanos, demasiadamente humanos. (Ler outro conto do autor na seção "Loucura e drogas".) O dia inteiro os quatro filhos idiotas do casal Mazzini-Ferraz ficavam sentados num banco do pátio. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos, e movimentavam a cabeça com a boca aberta. O pátio era de terra, fechado do lado oeste por um muro de tijolos. O banco ficava paralelo ao muro, a cinco metros, e ali eles se mantinham imóveis, os olhos fixos nos tijolos. Como o Sol se ocultava por trás do muro, quando declinava os idiotas faziam festa. A luz ofuscante chamava a atenção deles no princípio, pouco a pouco os olhos se animavam; riam por fim estrepitosamente, congestionados pela mesma hilaridade ansiosa, olhando para o Sol com alegria boçal, como se fosse comida. Outras vezes, enfileirados no banco, caçoavam horas inteiras, imitando um bonde. Os ruídos fortes sacudiam também sua inércia, e então corriam, mordendo a língua e soltando bramidos, ao redor do pátio. Mas quase sempre submergiam em sombria letargia de idiotice, e passavam o dia inteiro sentados no banco, com as pernas pendentes e quietas, empapando com saliva viscosa as calças. O mais velho tinha 12 anos, e o mais moço 8. Em todo o aspecto deles, sujo e desamparado, notava-se a falta absoluta de algum cuidado maternal. Esses quatro idiotas, no entanto, foram um dia o encanto dos pais. Com três meses de casados, Mazzini e Berta orientaram seu rígido amor de marido e mulher, e mulher e marido, para um futuro bem mais vital: um filho. Que maior felicidade para dois apaixonados do que essa honrada consagração de carinho, já libertado do vil egoísmo do amor mútuo sem finalidade, e, o que é pior para o próprio amor, sem esperança possível de renovação? Assim se sentiam Mazzini e Berta, e, quando o filho chegou, aos 14 meses de casamento, acreditaram consumada sua felicidade. A criatura cresceu bonita e radiante, até um ano e meio. Mas no 20o mês o menino foi sacudido uma noite por convulsões terríveis, e na manhã seguinte já não conhecia os pais. O médico o examinou com atenção profissional buscando visivelmente as causas do mal nas doenças dos pais. Depois de alguns dias, os membros paralisados recobraram o movimento, mas a inteligência, a alma e até mesmo o instinto foram-se embora. Ele ficou profundamente idiota, babão, pendente para sempre sobre os joelhos da mãe. - Filho, meu filho querido! - soluçava ela, sobre aquela espantosa ruína que era o seu primogênito. O pai, desolado, acompanhou o medico até a rua. - Para você posso dizer. Acredito que é um caso perdido. Poderá melhorar, educar-se em tudo o que a idiotice permitir, mas não mais do que isso. - Sim!... Sim!... - concordava Mazzini. - Mas me diga: você acredita que é hereditário?... - Quanto à herança paterna já disse o que acreditava quando vi seu filho. Sobre a mãe, há ali um pulmão que não respira bem. Não vejo nada mais, porém a respiração é um tanto áspera. Faça-a ser bem examinada. Com a alma destroçada de remorso, Mazzini duplicou o amor pelo filho, o pequeno idiota que pagava pelos excessos do avô. Teve ainda de consolar, sustentar sem trégua Berta, ferida no mais íntimo por aquele fracasso de sua jovem maternidade. Como é natural, o casal pôs todo o amor na esperança de outro filho. Ele nasceu, e sua saúde e limpidez do sorriso reacenderam o futuro extinto. Mas aos 18 meses as convulsões do primogênito se repetiram, e no dia seguinte amanheceu idiota. Desta vez os pais caíram num desespero profundo. Seu sangue, seu amor, estavam amaldiçoados! Sobretudo o amor! Ele com 28 anos, ela com 22, e toda a apaixonada ternura não era suficiente para criar um átimo de vida normal. Já não pediam mais beleza e inteligência como na época do primogênito, mas um filho, um filho como todos! Do novo desastre brotaram outras labaredas do dolorido amor, um louco desejo de redimir de uma vez por todas a santidade de sua ternura. Resultaram gêmeos, e ponto por ponto se repetiu o processo dos dois mais velhos. Mas, acima da imensa amargura, restava a Mazzini e a Berta grande compaixão por seus quatro filhos. Houve necessidade de arrancar do limbo da mais profunda animalidade não as almas, mas o próprio instinto abolido. Não sabiam engolir, mudar de lugar, nem mesmo sentar. Aprenderam por fim a caminhar, mas esbatiam em tudo, por não perceberem os obstáculos. Quando eram lavados soltavam gritos até injetar o rosto de sangue. Animavam-se apenas ao comer, ou quando viam cores brilhantes ou ouviam trovões. Riam então, botando a língua para fora e rios de baba, radiantes de frenesi irracional. Tinham, em compensação, certa faculdade de imitação. Nada mais do que isso, porém. Com os gêmeos parecia concluída a pavorosa descendência. Mas passados três anos desejaram de novo ardentemente outro filho, confiando em que o longo tempo transcorrido tivesse aplacado a fatalidade. As esperanças não se satisfaziam. E nesse ardente desejo, exasperado por causa das tentativas infrutíferas, suas relações se azedaram. Até esse momento cada qual assumiu para si a parte que lhe correspondia na desgraça dos filhos; mas a desesperança de redenção diante das quatro bestas que nasceram deles empurrou para fora a imperiosa necessidade de culpar os outros, que é o patrimônio específico dos corações inferiores. A coisa se iniciou com a modificação de pronomes: seus filhos. E como, além do insulto, havia a perfídia, a atmosfera se carregava. - Parece-me - disse uma noite Mazzini, que acabara de entrar e lavava as mãos - que você poderia limpar melhor os rapazes. Berta continuou lendo como se nada ouvisse. - É a primeira vez - respondeu depois de algum tempo - que vejo você se preocupar com o estado de seus filhos. Mazzini voltou um pouco o rosto para ela, com um sorriso forçado. - De nossos filhos, não lhe parece? - Pois bem: de nossos filhos. Agrada-lhe assim? - ela levantou os olhos. Desta vez Mazzini se expressou com clareza: - Você não vai dizer que a culpa é minha. - Ah, não! - sorriu Berta, pálida. - Mas eu também tenho culpa, suponho!... Não faltava outra coisa!... - murmurou. - O que não faltava? - Que se alguém tem culpa, não sou eu, entenda bem! Isso é o que eu queria dizer. O marido olhou-a por um momento, com brutal desejo de insultá-la. - Deixemos de lado! - articulou, secando por fim as mãos. - Como você quiser. Mas se quiser dizer... - Berta! - Como quiser! Este foi o primeiro choque, e depois vieram outros. Mas nas inevitáveis reconciliações suas almas se uniam com duplo arrebatamento e loucura por outro filho. Nasceu assim uma menina. Viveram dois anos com a angústia à flor da alma, esperando sempre outro desastre. Nada aconteceu, no entanto, e os pais a trataram com toda a condescendência, que a pequena levava aos extremos limites do mimo e da má criação. Se ainda nos últimos tempos Berta cuidava sempre dos filhos, quando nasceu Bertínha se esqueceu quase totalmente dos outros. Bastava a recordação para horrorizá-la, como algo atroz que a obrigaram a cometer. Com Mazzini, ainda que em grau menor, passava-se a mesma coisa. Nem por isso suas almas se apaziguaram. A menor indisposição da filha botava para fora, com o terror de perdê-la, os rancores da descendência apodrecida. O fel se acumulara tempo demais para que o recipiente não ficasse distendido, e ao menor contato o veneno se derramava para fora. Desde o primeiro desgosto empeçonhado perderam o respeito mútuo, E se há algo a que o homem se deixa arrastar com gozo cruel é, quando já se começou, humilhar totalmente uma pessoa. Antes se sentiam contidos pela faita de êxito. Agora que o êxito chegara, cada qual, atribuindo-o a si próprio, sentia maior a infâmia das quatro monstruosidades que o outro o forçara a criar. Com estes sentimentos deixou de haver para os quatro filhos maiores qualquer afeto possível. A criada os vestia, dava-lhes de comer, deitava-os, com visível brutalidade. Quase nunca eram lavados. Passavam quase todo o dia sentados diante do muro, desamparados de qualquer remota carícia. Desta maneira Bertinha fez 4 anos, e essa noite, resultado das guloseimas a que os pais julgavam absolutamente impossível negar-lhe, a criatura teve algum calafrio e febre. E o temor de vê-la morrer ou se tornar idiota tornou a reabrir a eterna chaga. Fazia três horas que não falavam, e o motivo era, como quase sempre, as fortes passadas de Mazzini. - Meu Deus! Você não pode caminhar mais devagar? Quantas vezes...? - Bem, é que me esqueço. Acabou-se. Não faço de propósito. Ela riu, com desdém. - Não acredito em você! - Nem eu, nunca acreditei em você... tisiquinha! - O quê? O que você disse? - Nada! - Sim, ouvi alguma coisa! Olha, não sei o que você disse, mas juro que prefiro qualquer coisa a ter um pai como o que você teve! Mazzini empalideceu. Finalmente - murmurou ele com os dentes apertados. - Finalmente, sua cobra venenosa, você disse o que queria. - Sim, cobra venenosa, sim! Mas eu tive pais sadios, está ouvindo? Sadios! Meu pai não morreu em delírio! Eu teria filhos como todo mundo! Esses são filhos seus, os quatro seus! Mazzini enfim explodiu. - Cobra venenosa tísica! Isso é o que eu disse, o que quero dizer! Pergunte ao médico quem tem a maior culpa pela meningite de seus filhos: meu pai ou o seu pulmão furado, cobra venenosa! Prosseguiram cada vez com maior violência até que um gemido de Bertinha fechou instantaneamente suas bocas. À uma da manhã a ligeira indi-gestão desaparecera, e como se passa fatalmente com todos os casais jovens que se amaram intensamente pelo menos uma vez na vida, chegou a reconciliação, tanto mais efusiva como eram penetrantes as ofensas. Amanheceu um dia esplêndido e, ao se levantar, Berta cuspiu sangue. As emoções e a noite desconfortável tinham, sem dúvida, grande culpa. Mazzini a reteve abraçada longo momento, e ela chorou com desespero, mas sem que qualquer dos dois se atrevesse a dizer uma palavra. Às dez decidiram sair, depois do almoço. Como o tempo era escasso, mandaram a criada matar uma galinha. O dia radiante tirou os idiotas do banco. Enquanto degolava, na cozinha, o animal, dessangrando-o com vagar (Berta aprendera com a mãe esta boa maneira de conservar o viço da carne), a criada acreditou sentir algo como respiração por trás. Voltou-se e viu os quatro idiotas, encostados uns aos outros pelos ombros, olhando assombrados a operação... Vermelho... vermelho... - Senhora! As crianças estão aqui, na cozinha. Berta chegou; não queria que jamais pisassem ali. Muito menos nessas horas de pleno perdão, esquecimento e felicidade reconquistada, podia suportar essa horrível visão! Porque, naturalmente, quanto mais intensos eram os arroubos de amor ao marido e à filha, mais áspero ficava o humor em relação aos monstros. - Que saiam, Maria! Ponha-os para fora, estou dizendo! Os quatro pobres imbecis, sacudidos, brutalmente empurrados, voltaram para o banco. Depois do almoço todos saíram. A criada foi para Buenos Aires, e o casal passeou pelas casas de recreio no campo. Quando o Sol se pôs, voltaram, mas Berta ainda quis saudar por um momento as vizinhas da frente. A filha fugiu logo para casa. Os idiotas não se moveram o dia inteiro de seu banco. O Sol já transpusera o muro e começava a submergir, e eles continuavam olhando os tijolos, mais inertes do que nunca. Logo algo se interpôs entre seu olhar e o muro. A irmã, cansada de cinco horas em companhia dos pais, queria observar por conta própria. Parada ao pé do muro, olhava pensativamente para o ponto elevado. Queria subir, sem dúvida. Por fim se decidiu por uma cadeira velha, mas ainda faltava subir mais. Recorreu então a uma lata de querosene, e seu instinto topográfico a fez colocá-la em sentido vertical ao muro, com o que triunfou. Os quatro idiotas, com o olhar indiferente, viram como a irmã conseguia com paciência controlar o equilíbrio, e como, na ponta dos pés, apoiava a garganta no alto do muro, entre as mãos retesadas. Viram-na olhar para os lados e buscar apoio com o pé para subir mais. Mas o olhar dos idiotas se animara. Uma mesma luz insistente se mantinha fixa em suas pupilas. Não desviavam os olhos da irmã, enquanto uma sensação crescente de gula brutal mudava as linhas de seus rostos. Lentamente avançaram até o mura. A pequena, que, tendo conseguido apoiar o pé, ia montar a cavalo e cair do outro lado, sentiu-se colhida com firmeza pelas pernas. Debaixo dela, os oito olhos cravados nos seus lhe deram medo. - Solte-me! Deixe-me! - gritou sacudindo a perna. Mas foi puxada. - Mamãe! Ai, mamãe! Mamãe, papai! - chorou irresistivelmente. Tentou se segurar na borda, mas se sentiu sem apoio e caiu. - Mamãe, ai! Ma... - Não pôde mais gritar. Um deles apertou-a pelo pescoço, afastando os cachos como se fossem plumas, e os outros a arrastaram por uma perna até a cozinha, onde de manhã a galinha fora dessangrada, bem presa, erradicando-lhe a vida segundo a segundo. Mazzini, na casa defronte, acreditou ouvir a voz da filha. - Parece que chama por você - disse a Berta. Apuraram o ouvido, inquietos, mas nada mais ouviram. Um momento depois, contudo, despediram-se, e enquanto Berta ia pendurar o chapéu, Ma- zzini avançou pelo pátio. . .-.¦¦ - Bertinha! * Ninguém respondeu. - Bertinha! - elevou a voz, já alterada. O silêncio foi tão fúnebre para seu coração sempre aterrorizado que as costas se gelaram por um horrível pressentimento. - Minha filha, minha filha! - correu já desesperado aos fundos. Mas ao passar diante da cozinha viu no chão um mar de sangue. Empurrou violen tamente a porta e lançou um grito de horror. Berta, que já corria por sua vez ao ouvir o angustiante chamado do marido, ouviu o grito e respondeu com outro. Mas, ao se precipitar na cozinha, Mazzini, lívido como a morte, interpôs-se, contendo-a: - Não entre! Não entre! Berta chegou a ver o chão inundado de sangue. Só pôde levar os braços à cabeça e desmoronar ao longo dele com um suspiro cavo.

"Um cavalo ao luar" ("Un cavallo nella luna"). PIRANDELLO, Luigi. Noveile per un anno. Donna Mimma. II vechio Dio. La giara. Milão: Garzanti, 1994.



TRADUÇÃO DE LÉO SCHLAFMAN Mesmo em relação a qualquer um dos gêneros em que ele escreveu - teatro (Seis personagens à procura de um autor, entre outras), romance (O falecido Matias Pascal e Um, nenhum e cem mil e contos (centenas deles em Novelle per um anne) -, não há como não considerar Luigi Pirandello (1867-1936) um dos maiores escritores do século XX. Nos romances e nas peças, seu tema central, no fundo, talvez seja a identidade - ou a falta hamletiana de identidade ou mesmo de lucidez (o que em certo sentido não faltava a Hamiet) - do homem moderno. No vasto panorama de seus contos, o que vemos, como uma variação mais realista dessa mesma problemática, é um desfile riquíssimo de situações e de personagens típicos de sua Sícília natal. Sim, o siciliano comum, com sua cultura herdeira ainda de relacionamentos medievais, com suas mazelas, manias, doenças etc. A "loucura" dos personagens aqui talvez não o seja dentro de concepções clássicas ou rígidas, mas de alguma forma já fora assim considerada no passado. Tanto a suposta idiotía de "Um cavalo ao luar" quanto a provável epilepsia de "Male de luna" (deixamos o título no original, pois seria sinônimo dessa disfunção mental, embora ela não seja nomeada no próprio conto), além de terem conseqüências mentais nos outros à sua volta (veja as mulheres dos personagens nos dois contos), eram consideradas "loucuras" na concepção popular, independentemente das possíveis classificações da psiquiatria tradicional. Mas o que vale aqui é a literatura segundo Pirandello. E sobre isso escreveu Ciovanni Bacchia: "Se nos é dado que a realidade, como Pirandello declarou tantas vezes, era singular para cada um e nunca a mesma para todos, que a vida era uma bufoneria muito triste, e que temos em nós mesmo, sem saber como, nem por quê, nem de onde vem, a necessidade de nos iludir constantemente com a criação espontânea dessa mesma realidade que se revela vã, estes microcosmos das 'novelas' (contos) pirandellianas tomavam cada vez mais o aspecto de um labirinto: um labirinto onde, como ele escreveu, nossa alma erra por mil caminhos diferentes, opostos, embaralhados, sem jamais descobrira saída." Longa frase, longo labirinto, mas curtos são os caminhos dos contos. Curtos e, no entanto, mesmo sem saída, comoventes e inesquecíveis como verá o leitor. Em setembro, no planalto seco de argilas azuis, que se desviava, des-moronadiço, sobre o mar africano, o campo, que já ardia pelo furor dos raios solares de verão, era triste. Ainda tinha arbustos hirsutos enegrecidos, com raras amendoeiras e algum tronco centenário de oliveira sarracena aqui e ali. Mas ficou combinado que os noivos passariam pelo menos os primeiros dias da lua-de-mel lá. Em consideração ao marido. O almoço de núpcias, preparado numa sala da antiga vila solitária, não foi realmente uma festa para os convidados. Nenhum deles conseguiu vencer a perturbação, que era antes desânimo, pelo aspecto e o comportamento daquele jovem gordo, mal chegado aos 20 anos, de rosto pouco desenvolvido, que olhava aqui e ali com os pequenos olhos pretos, reluzentes, de louco, e quase nada entendia, e não comia, não bebia, e se tornava cada vez mais roxo, quase negro. Sabia-se que, tomado por um amor insensato, por aquela que agora se sentava ao seu lado, a esposa, fizera loucuras, até o ponto de tentar se suicidar, ele, riquíssimo, único herdeiro da antiga família Berardi, por uma que, tudo considerado, não passava de filha de um coronel da infantaria, chegado à Sicília um ano antes. O senhor coronel, precavido contra os habitantes da ilha, não queria concordar, a princípio, com aquele casamento, para não deixar ali, entre os selvagens, a filhinha. O desalento pelo aspecto e o comportamento do marido crescia entre os convidados, quanto mais se davam conta do contraste com o ar da novíssima mulher. Era ainda uma verdadeira criança, viva, fresca, forasteira: e parecia varrer de si qualquer pensamento tedioso com certos impulsos de uma vivacidade cheia de graça, ingênua e esperta ao mesmo tempo. Esperta, sim, mas de uma malícia ainda ignara de tudo. Órfã, crescida desde a infância sem a mãe, parecia de fato claro que se casou inteiramente despreparada. Todos, num certo momento, acabada a refeição, sorriram e se sentiram gelados a uma exclamação dela, voltada para o marido: - Meu Deus, Nino, mas por que você aperta tanto os olhos? Deixe- me... não, que coisa quente! Por que as mãos estão tão quentes? Sinta, sinta, papai, como estão quentes as mãos dele. Estará com febre? Apreensivo, o coronel apressou a saída dos convidados da casa de campo. Para acabar, é claro, com aquele espetáculo que lhe parecia indecente. Todos se puseram em seus lugares nas seis carruagens. A carruagem em que o coronel se sentou ao lado da mãe do noivo (ela também viúva), andando devagar pela alameda, ficou um pouco para trás, porque os noivos, ela daqui, ele dali, com uma mão na mão do pai e da mãe, quiseram segui-la por um trecho a pé, até o entroncamento da estrada que conduzia à cidade longínqua. O coronel, então, inclinou-se para beijar a cabeça da filha. Tossiu e murmurou: - Adeus, Nino. - Adeus, Ida - sorriu a mãe do noivo. E a carruagem, num trote rápido, tratou de alcançar as outras, dos convidados. Os noivos permaneceram um momento acompanhando-a com os olhos. Ida é quem, na verdade, acompanhava-a, porque Nino não via nada, não ouvia nada, os olhos fixos na mulher que permanecia ali, sozinha com ele finalmente, toda sua, toda. Mas o quê? Chorava? - O papai - disse Ida, agitando o lenço, para saudá-lo. - Ali, está vendo? Também ele... - Mas você não, Ida... Minha Ida... - balbuciou, quase soluçando, Nino, tentando abraçá-la, todo trêmulo. Ida o empurrou - Deixe-me, por favor. - Quero secar seus olhos... - Não, querido, obrigada. Seco sozinha. Nino ficou ali, entorpecido, olhando-a, com cara de coitadinho, boca meio aberta. Ida acabou de secar os olhos e perguntou depois: Mas o que você tem? Está tremendo todo. Por Deus, Nino, não: não fique na minha frente assim! Me faz rir. E se começo a rir não paro mais. Espere, vou acordar você. Pousou-lhe levemente as mãos na testa e soprou nos olhos. Ao toque daqueles dedos, à percepção daquele hálito, ele sentiu as pernas se afrouxarem. Quase caiu de joelhos, mas ela o segurou, explodindo num riso estrondoso. - Aqui na estrada? Você está louco? Vamos, vamos! Olhe ali: naquela colina! Veremos ainda as carruagens. Vamos ver! E o puxou por um braço, com ímpeto. Do campo ao redor, onde tantas ervas e tantas outras coisas já haviam secado, emanava no calor do verão quase um hálito antigo, denso, que se misturava à tepidez gordurosa do estéreo, fermentando em pequenos montes na terra improdutiva, e com a fragrância penetrante das hortelãs ainda vivas e das salvas. Só ele percebia aquele cheiro intenso, aquela tepidez gordurosa, as fragrâncias lancinantes. Ida, por sua vez, por trás das espessas sebes dos figos-da-índia, entre os tufos amarelecidos dos arbustos queimados, ouvia, correndo, como cantavam as cotovias alegres ao Sol, e como, no mormaço da planície, no silêncio atordoado, soava, de lugares longínquos, o cacarejar de algum galo. Sentia-se chegar, em alguns momentos, a fresca respiração refrescante que vinha do mar perto, e mexia as folhas cansadas, das amendoeiras, já raras e amarelecidas, e também aquelas cerradas, agudas e cinzentas das oliveiras. Chegaram logo à colina, mas ele não se agüentava mais, quase estalava em pedaços, por causa da corrida. Quis se sentar. Tentou fazê-la se sentar também, ao lado, puxando-a pela cintura. Mas Ida se subtraiu. - Deixe-me olhar, antes. Dentro de si começava a ficar inquieta. Não queria demonstrar. Irritada com certas curiosas teimosias dele, não sabia, não queria ficar parada; queria fugir ainda, afastar-se; sacudi-lo, distraí-lo e também se distrair, enquanto ainda era dia. Da colina se estendia uma planície interminável, num mar de arbustos, no qual serpenteavam aqui e ali os negros vestígios das queimadas, e aqui e ali também se rompia o amarelo pesado de alguma alcaparra ou algum alcaçuz. Bem mais adiante, quase do outro lado daquele vasto mar amarelo, avistavam-se os tetos de um lugarejo entre os altos alamos negros. Ida, então, propôs ao marido chegar até lá, até o lugarejo. Levariam quanto tempo? Uma hora, talvez um pouco mais. Eram apenas cinco horas. Na vila, os serviçais ainda tinham de tirar a mesa. Antes de anoitecer estariam de retorno. Nino tentou se opor, mas ela o puxou pelas mãos, obrigou-o a ficar de pé, e depois correu pela breve ladeira daquela colina e portanto pelo mar de arbustos, ágil e rápida como uma gazela. Ele, não podendo acompanhá-la, ficava cada vez mais vermelho, e, atordoado, suado, ofegava, correndo, e a chamava, pedindo a mão: - Pelo menos a mão! Pelo menos a mão! - gritava, enquanto caminhava. De repente ela parou, soltando um grito. Levantou-se, à frente, um bando de corvos, crocitando. Logo ali, estendido no chão, havia uma cavalo morto. Morto? Não, não estava morto: tinha os olhos abertos. Deus, que olhos! Era quase um esqueleto. E aquelas costelas! Aqueles flancos! Nino chegou, bufando, aflito: - Vamos embora, logo! Voltemos - Está vivo, olhe! - gritou Ida, com horror e piedade. - Levanta a cabeça... Deus, que olhos! Olhe, Nino! - Pois então - fez ele, ainda arfando. - Vieram jogá-lo aqui. Deixe; vamos embora! Que coisa. Você não sente que o ar já... - E aqueles corvos? - exclamou ela com um calafrio de horror. - Aqueles corvos vão devorá-lo vivo? - Mas, Ida, por caridade! - implorou ele com as mãos juntas. - Nino, chega! - ela ainda gritou, no ápice da raiva por vê-lo assim tão suplicante e tolo. - Responda: vão devorá-lo vivo? - Como você quer que eu saiba se vão devorá-lo vivo? Esperarão... - Que morra aqui, de fome, de sede? - retomou ela, com o rosto comprimido pela compaixão e pelo horror. - Por que é velho? Por que não serve mais? Ah, pobre animal! Que infâmia! Que infâmia! Que coração têm estes vilões? Que coração tem você aqui? - Desculpe - disse ele, alterado -, mas você sente tanta piedade por um animal... - Não deveria sentir? - Mas não sente por mim! - E que animal você é? Está morrendo de fome e de sede, você, jogado no meio dos arbustos? Escute... oh, olhe os corvos, Nino, em cima... olhe... Voam em círculos. Oh, que coisa horrível, infame, monstruosa. Olhe... oh, pobre animal... tenta se levantar! Nino, move-se... talvez possa ainda caminhar... Nino, vamos ajudá-lo... Mexa-se! - Mas o que você quer que eu faça? - enfureceu-se ele, exasperado. - Posso arrastá-lo? Carregá-lo nas costas? Era só o que me faltava, o cavalo, era só o que faltava! Como quer que ele caminhe? Não vê que está meio morto? - E se providenciássemos comida? - E bebida, também! - Como você é mau, Nino! - disse Ida com lágrimas nos olhos. Inclinou-se, vencendo a aversão, para roçar com a mão a cabeça do cavalo que se levantara com dificuldade do chão, ajoelhando-se sobre as duas patas dianteiras, para mostrar, no abatimento de sua miséria infinita, um último resto, no pescoço e na cabeça, da sua nobre beleza. Nino, pelo sangue embaralhado ou pelo despeito obstinado, ou talvez pela corrida e o suor, sentiu um calafrio, sobressaltou-se e seus dentes começaram a bater, com um tremor estranho de todo o corpo. Levantou instintivamente a gola do casaco e, com as mãos no bolso, sombrio, encolhido, desesperado, foi se sentar afastado, numa pedra. O Sol já se pusera. Soaram, ao longe, os guizos de alguma carroça que passava na estrada, embaixo. Por que ele batia os dentes assim? A testa queimava, o sangue fervia nas veias e os ouvidos zumbiam. Parecia-lhe que sinos tocavam ao longe. Toda aquela ânsia, todo aquele sofrimento da espera, a frieza caprichosa dela, a última corrida, e agora o cavalo, o maldito cavalo... Oh Deus, era um sonho? Um pesadelo dentro do sonho? Era a febre? Talvez uma doença pior. Sim! Que escuro, Deus, que escuro! Ou eram os olhos que também se turvavam? E não podia falar, não podia gritar. Chamava-a: "Ida, Ida!", mas a voz não saía da garganta seca e quase sufocada. Onde estava Ida? O que fazia? Correra ao lugarejo para pedir ajuda para aquele cavalo, sem pensar que foram as próprias pessoas dali que arrastaram o animal moribundo. E ali ele permaneceu, sozinho, sentado na pedra, tomado pelo tremor crescente. Curvado, mantendo-se encolhido, como uma grande coruja empoleirada, entreviu de repente uma coisa que lhe pareceu... mas sim, justamente, embora atroz, uma visão do outro mundo. A Lua! Uma grande Lua que surgia lentamente daquele mar amarelo de arbustos. E, negra, naquele enorme disco de cobre vaporoso, a cabeça do cavalo esperava ainda com o pescoço inclinado para a frente, e teria esperado para sempre, talvez, negro, recortado sobre aquele disco de cobre, enquanto os corvos, voando em círculos, crocitavam alto no céu. Quando Ida, desiludida, indignada, perdida pela planície, gritando "Nino! Nino!", voltou, a Lua já estava alta; o cavalo se prostrara, como morto; e Nino... - onde estava Nino? Oh, ali está ele, também deitado no chão. Adormecera? Correu para ele. Encontrou-o agonizando, com o rosto também no chão, quase preto, olhos inchados, fechados, congestionado. - Oh, Deus! Ela olhou em torno, quase desmaiada. Abriu as mãos, em que segurava algumas favas secas trazidas do lugarejo para dar de comer ao cavalo; olhou a Lua, depois o cavalo, depois no chão este homem como morto. Sentiu-se desfalecer, assaltada de repente pela dúvida de que tudo aquilo que via não era verdadeiro; e fugiu, aterrorizada, em direção da vila, chamando em voz alta pelo pai, o pai para levá-la embora, oh, Deus! Para longe daquele homem que se retorcia... quem sabe por quê! Longe daquele cavalo, longe daquela Lua louca, longe daqueles corvos que crocitavam no céu... longe, longe, longe...

"Male di luna". PIRANDELLO, Luigi. Noveile perun anno. In silenzio. Tutfe tre. Dal naso ai cíelo. Milão: Garzanti, 1994.



TRADUÇÃO DE LÉO SCHLAFMAN Bata se sentava todo encolhido sobre um feixe de palha, no chão de terra batida. Sidora, sua mulher, de tempo em tempo se virava para olhá-lo, preocupada, da soleira em que estava sentada, com a cabeça apoiada no umbral da porta, e os olhos semicerrados. Depois, afligida pelo forte calor, tornava a encompridar o olhar para as listras azuis do mar longínquo, como à espera de um sopro de ar, estando já próximo o pôr-do-sol, que se levantasse dali e se movimentasse leve até ela, pelas terras nuas, hirtas, de restolhos queimados. Era tanto o calor que, na palha que ficava na eira depois da debulha, via-se o ar tremular como o hálito de uma brasa. Bata tirou um fio do feixe em que estava sentado, e tentava bater nele com a mão cansada sobre os grandes sapatos ferrados. O gesto era vão. O fio de palha, logo ao ser movido, dobrava-se. E Bata permanecia taciturno e absorto, olhando o chão. Havia no brilho tétrico e imóvel do ar tórrido uma opressão tão sufocante que aquele gesto inútil do marido, teimosamente repetido, dava a Sidora uma aflição insuportável. Na verdade, todos os atos daquele homem, e também só a visão dele, davam-lhe aquela aflição, todas as vezes doentiamente reprimida. Casada com ele havia apenas 20 dias, Sidora já se sentia consumida, destruída. Percebia dentro de si e ao redor um vazio estranho, pesado e atroz. Quase não lhe parecia verdadeiro que há tão pouco tempo fora conduzida para ali, naquela velha propriedade isolada, ao mesmo tempo estábulo e residência, em meio àquele deserto de restolhos, sem uma árvore ao redor, sem um fio de sombra. Ali, sufocando com dificuldade o pranto e a aversão, em 20 dias apenas abandonara o próprio corpo àquele homem taciturno, que tinha uns 20 anos mais do que ela e sobre quem parecia incomodar agora uma tristeza mais desesperada do que a sua. Lembrava-se do que as mulheres da vizinhança disseram à sua mãe, quando ela anunciou o pedido de casamento. - Bata! Por Deus, eu não daria a ele uma filha minha. A mãe acreditara que diziam isto por inveja, porque Bata, por sua condição, era abastado. E tanto se obstinou quanto mais elas, com ar aflito, mostravam-se avessas a participar de sua satisfação pela boa ventura que tocava à filha. Em consciência, nada se dizia de mal de Bata, mas em compensação nada de bem. Atirado sempre ali, naquele seu pedaço de terra afastado, não se sabia como vivia. Estava sempre sozinho, como um animal em companhia de seus animais, duas mulas, uma jumenta e o cão de guarda. Com certeza tinha um ar estranho, sinistro e às vezes insensato. Havia verdadeiramente outra razão, talvez mais forte, pela qual a mãe teimou em uni-la àquele homem. Sidora se lembrava também desta outra razão que naquele momento lhe parecia bem longínqua, como de outra vida, mas também ressaltada, precisa. Via dois lábios frescos, argutos e vermelhos como duas folhas de cravo-da-índia abrirem-se com um sorriso que lhe fazia fremir e congelar todo o sangue nas veias. Eram os lábios de Saro, seu primo, que, por amor dela, não soubera encontrar a força para se acalmar, para libertar-se da companhia dos maus amigos, para retirar da mãe qualquer pretexto de se opor ao seu casamento. Com certeza Saro seria um péssimo marido. Mas que marido era este de agora? Os cuidados, que sem dúvida lhe dariam o outro, não eram talvez de se preferir à angústia, à aversão, ao medo que Bata lhe incutia? Bata, por fim, mexeu-se. Mas apenas ficou de pé, quase atingido por uma vertigem, deu meia-volta sobre si mesmo. As pernas, enredadas, dobraram-se. Equilibrou-se com dificuldade, com os braços no ar. Um gemido quase de raiva saiu-lhe pela garganta. Sidora se deu conta do acontecimento, aterrada. Mas ele a parou com um movimento dos braços. Soltava um murmúrio, inexaurível, que o impedia de falar. Aflito, parecia empurrar as palavras para dentro. Lutava contra os soluços, com um gorgolejo horrível na garganta. Tinha o rosto pálido, turvo, terroso, os olhos foscos e velados, dentro dos quais se percebia um medo quase infantil, ainda consciente, infinito. Com as mãos continuava a fazer-lhe sinal de esperar e de não se espantar e de se manter afastada. Por fim, com voz que não era mais a sua, disse: - Dentro, feche-se dentro... bem... Não se espante... Se eu bater, empurrar a porta e a arranhar e gritar... não a abra... Nada... vamos! Vamos! - Mas o que você tem? - gritou-lhe Sidora, arrepiada. Bata gemeu de novo, sacudido por um forte estremecimento convulsivo, que parecia multiplicar-lhe os membros. Depois, oscilando um braço, indicou o céu, e urrou: - A Lua! Sidora, ao voltar-se para correr em direção a casa, entreviu, de fato, espaventada, a lua cheia abrasada, violácea, enorme, apenas saída das lívidas alturas dos montes. Entrincheirada dentro da casa, apertando-se para impedir que os membros se desprendessem por causa do tremor contínuo, também gemendo, desatinada pelo terror, ouviu depois os uivos longos, ferinos, do marido que se contorcia do lado de fora, diante da porta, presa do mal horrendo que lhe vinha da Lua, e contra a porta batia a cabeça, os pés, os joelhos, as mãos, e a arranhava, como se as unhas se tornassem garras, e bufava quase na exasperação de uma fadiga animal e raivosa, como se quisesse arrancar, destroçar, aquela porta, e agora latia, latia, como se tivesse um cão no corpo, e, começando tudo de novo, tornava a arranhar, borrifando o ar à sua frente, uivando, batendo a cabeça, os joelhos. - Socorro! Socorro! - ela gritava, mesmo sabendo que ninguém naquele deserto ouviria seus gritos. - Socorro! Socorro! - e segurava a porta com os braços, de medo que de um momento para outro, apesar das várias traves, cedesse à violência reiterada, feroz, encarniçada, daquela cega fúria gritante. Ah, se pudesse matá-lo! Perdida, voltou-se, quase procurando uma arma no aposento. Mas, pela grade de uma janela, no alto, na parede da frente, de novo surgiu a Lua, agora limpa, que subia no céu inundado pelo plácido alvor. Àquela visão, como assaltada de improviso pelo contágio do mal, soltou um grande grito e caiu de costas, desmaiada. Ao se recompor, aturdida, em primeiro lugar não compreendeu por que caíra no chão. As traves na porta reanimaram a memória e ela ficou aterrada pelo silêncio que agora reinava do lado de fora. Ficou de pé, encostou-se, vacilante, na porta e esticou a orelha. Nada, mais nada. Permaneceu longo tempo à escuta, oprimida então pela ansiedade daquele enorme silêncio misterioso, do mundo inteiro. Por fim, pareceu-lhe ouvir de perto um suspiro, um grande suspiro, como emitido por uma angústia mortal. Puxou a arca sob a cama, abriu-a e dela retirou uma capa. Voltou para a porta, colou de novo a orelha e depois soltou, uma a uma, silenciosamente, as traves e silenciosamente abriu o ferrolho, a tranca. Abriu apenas um dos batentes, olhou pela fresta no chão. Bata estava ali. Jazia como um animal morto, boca aberta, entre a baba, preto, intumescido, braços abertos. O cão, um pouco atrás, fazia-lhe guarda, sob a Lua. Sidora saiu, retendo a respiração. Fechou devagar a porta, fez para o cão um sinal para que não se movesse dali, e cautelosamente, a passos de lobo, com a capa debaixo do braço, pôs-se em fuga pelo campo, em direção da aldeia, na noite ainda alta, aspergida pelo clarão da Lua. Chegou à aldeia, na casa da mãe, pouco antes da alvorada. A mãe acabara de se levantar. O casebre, escuro como uma caverna, no fundo de um beco estreito, era iluminado apenas por uma espécie de castiçal a óleo. Sidora precipitou-se dentro, transtornada, com sofreguidão. Ao ver a filha àquela hora, naquele estado, a mãe deu um grito, fazendo acorrer com os castiçais todas as mulheres da vizinhança. Sidora se pôs a chorar com força e, chorando, arrancava os cabelos, simulava não poder falar para melhor transmitir à mãe, às vizinhas, a enormidade do caso que acontecera com ela, o medo que sentira. O terror supersticioso daquele mal obscuro apoderou-se de todas as mulheres, diante da história de Sidora. Ah, pobre filhinha! Tinham dito isso à mãe, que aquele homem não era natural, que aquele homem devia esconder dentro de si alguma grande manha; e que nenhuma delas daria a ele a própria filha. Latia, hein? Uivava como um lobo? Arranhava a porta? Jesus, que espanto! Felizmente não morrera, a pobre filhinha. A mãe, prostrada na cadeira, acabada, com os braços e a cabeça balou-çando, gemia a um canto. Ao pôr-do-sol, apareceu no beco, puxando pelo cabresto duas mulas arreadas, Bata, ainda inchado e lívido, humilhado, abatido, aparvalhado. Ao trope! das mulas sobre as pedras daquele beco que o Sol de agosto abrasava como um forno, e que cegava pelo reflexo da cal, com gestos e gritos sufocados de espanto, retiraram-se às pressas com as cadeiras, para seus casebres, estendendo a cabeça para espiar e para piscar os olhos entre elas. A mãe de Sidora parou à entrada, feroz e trêmula de raiva, e começou a gritar: - Vá embora, mau cristão. Tem coragem de reaparecer à minha frente? Saia daqui! Saia daqui! Assassino traidor, saia daqui! Arruinou-me uma filha! Saia daqui! E continuou a vociferar por um momento, enquanto Sidora, escondida do lado de dentro, chorava, suplicava à mãe que a defendesse, que não o deixasse passar. Bata escutou, com a cabeça baixa, ameaças e insultos. Merecia-os: era sua culpa; escondeu o mal. E o escondeu porque nenhuma mulher o aceitaria se confessasse antes. Era justo que agora pagasse por sua culpa. Tinha os olhos fechados e sacudia amargamente a cabeça, sem mover o corpo. Então a sogra bateu-lhe a porta na cara e pôs a tranca. Bata ainda permaneceu algum tempo de cabeça baixa, diante daquela porta fechada. Depois se voltou e percebeu pela abertura das portas daqueles casebres os olhos perturbados e assustados, que o espiavam. Aqueles olhos viram as lágrimas no rosto do homem aviltado, e então a angústia se transformou em piedade. Uma primeira comadre mais corajosa estendeu-lhe uma cadeira; as outras, em duas, em três, foram para fora, e ficaram ao redor dele. Bata, depois de agradecer com mudos acenos de cabeça, começou a narrar devagarinho a sua desgraça: a mãe, quando era jovem, ia para o trigal, e dormia ao sereno, deixando-o, quando criança, exposto à Lua, à noite, e naquela noite, ele, pobre inocente, com a barriguinha para cima, enquanto os olhos vagavam, brincou com a bela Lua, agitando as perninhas e os bracinhos. E a Lua o "encantou". Mas o encanto ficou dormindo nele durante muitos anos, e só há pouco despertara. Todas as noites de lua cheia o mal se reapoderava dele. Mas era um mal só para ele. Bastava que os outros ficassem atentos e, podiam atentar bem, era por um período fixo e ele sentia quando vinha e avisava com antecedência. Durava uma única noite, e pronto. Esperara que a mulher fosse mais corajosa; mas, como não era, podia-se fazer assim, que, ou ela, naquela fase da Lua, fosse para a aldeia, com a mãe; ou a mãe fosse para sua propriedade, para ficar em sua companhia. - Quem? Minha mãe? - gritou, neste momento, inflamada de ira, com o olhar feroz, Sidora, escancarando a porta, atrás da qual estava escutando. - Vocês estão loucos?! Querem matar de medo também minha mãe? A mãe, então, também saiu, afastando com o cotovelo a filha e man-dando-a ficar quieta em casa. Aproximou-se do ajuntamento das mulheres, tornadas agora piedosas, e se pôs a confabular com elas, depois com Bata frente a frente. Sidora, na soleira, zangada e consternada, seguia os gestos da mãe e do marido; e como lhe pareceu que ele fazia com muito empenho alguma promessa que a mãe acolhia com evidente prazer, pôs-se a bradar: - Não, senhores! Esqueçam! Estão tramando entre vocês? Inútil. É inútil! Estou dizendo! As mulheres da vizinhança fizeram-lhe sinais urgentes para ficar quieta, para esperar que a conversação terminasse. Por fim Bata saudou a sogra, deixou-lhe em custódia uma das duas mulas e, tendo agradecido às boas vizinhas, puxando pelo cabresto a outra mula, foi-se embora. - Fique quieta, boba! - disse, devagar, a mãe de Sidora, voltando para casa. No momento da lua cheia irei eu com Saro... - Com Saro? Você disse a ele? - Disse, fique tranqüila. Com Saro. E, abaixando os olhos para esconder o sorriso, fingiu enxugar a boca desdentada com uma ponta do lenço que tinha à cabeça, atado sob o queixo, e acrescentou: - Temos talvez algum outro homem nosso parente? É o único que nos pode dar ajuda e conforto. Fique tranqüila! Assim, na manhã seguinte, de madrugada, Sidora voltou para o campo na mula deixada pelo marido. Não pensou mais nisso por todos os 29 dias até a nova lua cheia. Viu aquela lua de agosto que se aproximava, surgindo sempre mais tarde, desejando acelerar as fases declinantes; depois, durante algumas noites, não a viu mais; reviu-a enfim terna, tênue no céu ainda crepuscular e, pouco a pouco, crescer de novo, cada vez mais. - Não tema - dizia-lhe, triste, Bata, vendo-a com os olhos sempre fixos na Lua. - Ainda há tempo, há tempo! Difícil será quando não tiver mais os cornos... Sidora, ao ouvir esta palavra, acompanhada de um ambíguo sorriso, sentiu-se gelar e o olhou assustada. Chegou por fim a noite tão suspirada e ao mesmo tempo tão temida. A mãe chegou a cavalo com o sobrinho Saro duas horas antes do surgimento da Lua. Bata estava como da outra vez acocorado no chão, e nem levantou a cabeça para saudá-los. Sidora, toda trêmula, fez sinal ao primo e à mãe para nada dizer-lhe e os conduziu para dentro da casa. A mãe foi logo meter o nariz numa pequena sala escura, onde se amontoavam velhos utensílios de trabalho, enxadas, foices, selas de animais de carga, cestos, alforjes, ao lado do quarto grande que dava acolhida aos animais. - Você é homem - disse a Saro - e você já sabe como é - disse à filha. - Sou velha e tenho mais medo do que todos, e ficarei entocada aqui, quietinha e sozinha. Acomodo-me bem, e ele que banque o lobo lá fora. Saíram todos os três para fora, e se entretiveram um bom tempo a conversar diante da casa. Sidora, à medida que a sombra se inclinava sobre o campo, lançava olhares sempre mais ardentes e provocadores. Mas Saro, embora sempre vivo como de hábito, alegre e jovial, sentia-se aos poucos em-palidecer, endurecer o sorriso nos lábios, secar a língua. Como se houvesse espinhos no pequeno muro em que estava sentado, mexia-se nervosamente e engolia saliva com dificuldade. De tempo em tempo dirigia um olhar de viés àquele homem ali à espera do assalto do mal; espichava também o pescoço para ver se, por trás dos montes, apontava a face assustadora da Lua. - Nada ainda - dizia às duas mulheres. Sidora lhe respondia com um gesto vivaz de desdém e continuava, rindo, a provocá-lo com os olhos. Daqueles olhos agora quase imprudentes Saro começou a sentir horror e terror, mais do que daquele homem ali acocorado, à espera. E foi o primeiro a saltar para dentro da casa, logo que Bata soltou o uivo prenunciador e com a mão indicou aos três o momento de se fechar dentro da casa. E com fúria começou a pôr escoras e mais escoras na porta, enquanto a velha se entocava, muito triste, no quarto pequeno, e Sidora, irritada, desiludida, repetia, em tom irônico: - Devagar, devagar... Não fique preocupado. Você verá que não é nada. Não era nada? Ah, não era nada? Com os cabelos eriçados na testa, aos primeiros uivos do marido, às primeiras cabeçadas, aos primeiros pontapés na porta, aos primeiros arranhões, Saro, banhado em suor frio, com o dorso sacudido por arrepios, olhos arregalados, tremia como vara verde. Não era nada? Meu Deus! Meu Deus! Mas como? Aquela mulher era doida? Enquanto o marido, do lado de fora, provocava uma tempestade naquela porta, ela, ali, ria, sentada na cama, agitava as pernas, estendia-lhe os braços, chamava-o: - Saro! Saro! Ah, sim? Irado, indignado, Saro deu um pulo em direção ao esconderijo da velha, agarrou-a com força por um braço, puxou-a para fora, forçou-a a se sentar na cama ao lado da filha. - Aqui - gritou. - Esta aí é doida! E ao se retirar, em direção da porta, percebeu também pela grade da janelinha alta, na parede de frente, a Lua que, se do lado de fora fazia tanto mal ao marido, aqui dentro parecia rir, beata e despeitosa, da fracassada vingança da mulher.

"João Urso". ACCIOLY, Breno. João Urso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.



"Um poeta que não teme os abismos", escreveu José Lins do Rego, na introdução do livro de contos do estreante Breno Accioly, homônimo do conto que se vai ler, publicado em 1962 ou 63, tendo (coisa rara) no mínimo três edições sucessivas ainda em 1963. E Tristão de Athayde, na imprensa da época: "O clima a que nos transporta o Sr. Breno Accioly é, como nos romances do Sr. Cornélio Pena, o das fronteiras da loucura". A comparação com o injustamente esquecido Cornélio Pena só enaltece, mas dispensam-se comparações com autores que abusaram do psicologismo, tão disseminados no século XX pós-Dostoíévskí. A se observar neste "João Urso": a perturbação mental do personagem nunca está nele, mas nos outros e principalmente (abundam as imagens nesse sentido) na própria descrição do ambiente e da natureza à sua volta. Exemplo logo no início: "Os mortos são fardos rompidos. Por lá saltam ecos de fortíssimas vozes, mas a cidade é um enorme silêncio de pesado sono, de um sono estremecido pelas bocas das serras". Perdido na sua vila e na vida, João Urso está sempre rindo ("sem mesmo saber se os seus risos eram contagiosos") enquanto os pequenos habitantes do mundo à sua volta parecem terem-no elegido como "o idiota da aldeia". para JOSÉ LINS DO REGO Os mortos são fardos rompidos. Por lá saltam ecos de fortíssimas vozes, mas a cidade é um enorme silêncio de pesado sono, de um sono estremecido pelas bocas das serras. E parece que a noite das serras é diferente da que mergulha a cidade. Naquela, são as cores vermelhas dos relâmpagos, trovões arrebentando em gritos enormes, árvores tingindo-se rapidamente e rapidamente voltando ao verde de suas folhas. E nenhuma estrela arde sobre os morros. Todas elas estão velando distantes. Ao longe ficaram os ventos, as nuvens raivosas, cores incendiadas. Dir-se-ia que a cidade fosse uma pessoa assistindo a um espetáculo e que, por estar nas últimas cadeiras, manejasse binóculo. João Urso talvez nunca tenha visto binóculo. Mas parece defender os olhos, fazendo das mãos um anteparo contra aquela claridade agressiva. Debruçado à janela, João Urso vê os seculares morros lutando contra a fúria dos elementos, e até se esqueceu daquela tristeza que sempre o acompanha. O motor adormeceu as luzes. Somente os vultos brancos das torres da matriz se salientam, nítidos - cones suspensos, imóveis, ferindo a noite. O muro do hospital e seus pavilhões também são manchas visíveis, embora mais fracas, e se não tivessem pintado a cadeia de vermelho, seria outra mancha a se destacar, um ponto gordo, de velho telhado, dormindo com suas castigadas paixões. João Urso suspende a gola do pijama, esfrega as mãos. Os gameleiros, as caraiberas, todas as árvores da cidade, da beira do rio, estão quietas, sem vento algum a sacudir ramos, a girar o pequeno cata-vento do posto de meteorologia. Canoas presas em forquilhões, como se estivessem sobrecarregadas e não pudessem rumorejar. São enormes abandonados tamancões. As ruas sem bêbedos, sem notívagos, nenhum cachorro uivando. O espetáculo das serras, somente João Urso a ele assiste. Quando os relâmpagos, mais fortes, entram com uma vermelhidão pela janela, fazem doer-lhe os olhos; por um instante mostram pedaços da sala de jantar: cadeiras retratadas num espelho oval, um metro de parede preenchido por um quadro do Sagrado Coração de Jesus, um Deus de manto azul e vermelho, sustentando na mão esquerda o globo do mundo, a direita repousando sobre o peito como se estivesse aliviando uma profunda dor. E quantos retratos dos antepassados de João Urso ficam tingidos, sangrando na luz dos relâmpagos! Como o velho piano pareceu ensangüentado! Quando os relâmpagos avançam pelo lado do rio, a cristaleira parece ficar com as taças cheias de vinho, de vinho de uma estranha festa, que ninguém quis beber. João Urso suspira. Baixa o rosto para a cidade, suspende os olhos para ver as torres, as estrelas ardendo. Sim! Aquelas torres, aqueles sinos! Solta outro suspiro. Quanto tempo, quanta lembrança! E fixa os olhos como se de verdade estivesse vendo os sinos dentro dos cones das torres, os sinos repicando, acordando a cidade, anunciando uma tromba d'água. Desde pequeno gostava de pensar em coisas desse jeito. Coisas que alarmassem, fizessem correr pela sua espinha arrepios de medo. E como seria bom se uma tromba d'água caísse, fizesse um buraco no chão que para se ver o fundo fosse preciso lanterna! Uma tromba d'água que arrancasse telhados, decepasse pelo meio a estátua do Imperador, quebrasse as correntes da cadeia, as barras de ferro que retalham os rostos dos presos quando vão ver a rua! João Urso chegou a rir. A rir como rira toda a infância, um riso que ninguém compreendia, que fez muita gente chamar-lhe de maluco. Ele mesmo nem sabia explicar. Quando via, era a mãe gritando-lhe aos ouvidos, contrariada, aborrecida por querer saber a origem daqueles esparsos, inexplicáveis risos. João Urso começava a chorar. E horas inteiras ficava de castigo, trepado num tamborete de pernas altas. - As horas corriam lentas, lentas. De castigo, as mãos de João Urso sustentavam um livro de sonetos, e quantas vezes João Urso decorou versos de amor, postou-se diante da mãe para recitar o castigo! Às vezes, antes de terminar o soneto a voz de João Urso parecia ter fugido; a boca se lhe rasgava mostrando aqueles dentes cheios de limo, as bochechas se arredondavam e cheias espremiam os olhos, transformavam o rosto de João Urso, enquanto ele ria aquela oculta e misteriosa satisfação. - Volte já para o banco, seu maluquinho. Mais três, ouviu? João Urso sabia que "mais três" significavam mais três sonetos a decorar. Trepava novamente e voltava à realidade muito tempo depois, as pernas pendendo do tamborete alto. De repente os ecos dos risos de João Urso atravessavam os corredores, enchiam o quarto, venciam a monotonia do imenso sobrado, todo de pedra, de largas paredes, avançando para as bandas do rio um enorme quintal. Como dormisse no quarto vizinho, noites acordou ouvindo alguém chorar. Certificou-se de que era a mãe. Encostou o ouvido, mas a parede de compactos blocos somente deixava ouvir tudo longe, muito distante. Mas, mesmo sem ter certeza, João Urso ficou acreditando que o choro noturno de sua mãe era por causa de seus risos que tanto ele amava. João Urso ficava radiante, tremia de prazer, sentindo aquele friozinho descer e subir pela linha da espinha dorsal antes de invadir-lhe o corpo de repetidos choques. Certa vez, apareceu uma visita acompanhada de crianças. Foram brincar no sótão. Debaixo ouviam gritos alegres de uma matinada, mas de repente uma longa gargalhada sufocou todos os ruídos, estremeceu as crianças que dantes pulavam arcas, brincavam de esconder atrás de armários, de esteiras, ocultando-se em vãos de portas, na escada de estreitos e sombrios degraus. As crianças começaram a chorar como se estivessem a pedir socorro. Ao meio do corredor, João Urso era um vulto rindo nervosamente, rindo às gargalhadas, enchendo de pavor as crianças que continuavam a chorar, chamando pelos pais, pedindo o socorro de alguém. Eram crianças chorando como se ouvissem vozes do outro mundo, gargalhadas de uma assombração terrível. Pensou ser castigado, ficar uma tarde inteira trepado no tamborete, ter de decorar muitos sonetos, de agüentar puxavantes, gritos da mãe. Desceu muito triste, e tristemente olhou da janela a rua escaldando no calçamento de lajes enormes, subindo como se quisesse alcançar os morros, donde voltavam os jumentos que iam roubar água do rio. E João Urso sentiu o coração disparar, encher-se de ódio e ao mesmo tempo de cobardia. E se em vez de ser castigado fosse à igreja, disputasse uma lanterna que caminhava devagar na via-sacra, iluminando? Era impossível. Mesmo que pudesse ir à igreja, não poderia segurar nenhuma lanterna. O padre proibira. As beatas se encheram de jaculatórias, de sinais-da-cruz, e soltaram muitas vezes a palavra "excumungado". João Urso, de lanterna em punho, ria à solta, tremia numa convulsão de estranho riso, como se suas mãos tivessem transformado a lanterna num globo, girando a bola do globo qual um menino de circo, um acrobata de poderosas mãos. A via-sacra fora interrompida. Todos se afastaram, o padre de breviário aberto, os olhos pesados de espanto, o terço abandonado no braço direito como uma força inútil. As roupas brancas das filhas de Maria guardavam virgindades perplexas, aterrorizadas ante as gargalhadas de João Urso girando a lanterna, as colunas da nave respondendo aos gritos nuns ecos abafados, ecos que se sumiam por trás de altares, de púlpitos, subiam para o alçapão do coro pela caixa da escada. E no meio daquela satisfação misteriosa de João Urso, aspergiram água benta, enquanto o padre, de longe - todos de longe - rezava em latim. João Urso bem se lembra daquela tarde, daquela água benta que secou nos punhos azuis de seu marinheiro, na gola de belbutina bordada de âncoras. Ele não havia esquecido tampouco o padre, as beatas, toda a cidade. Santana do Ipanema era uma voz que tudo transmitia, que não sabia guardar o mais sério dos segredos. Gente da redondeza soube dessa história. E nas feiras, no açougue, na prefeitura, nas casas das mulheres da rua do Sebo, falavam da doença de João Urso. Imitavam-lhe as gargalhadas, rasgavam o silêncio das noites arremedando-lhe os risos. Era moda rir como ria João Urso. Pensou no castigo, e logo tirou da cabeça a idéia da via-sacra. Tinha certeza, absoluta certeza, de que a mãe iria castigá-lo, prendê-lo no tamborete de pernas altas, encher-lhe as mãos de sonetos - de ternos sonetos que deveria recitar sem nenhum erro. Esperava pela punição. E como se fosse um condenado de poucos instantes de vida, deixou-se ficar à janela, os olhos subindo com a rua, descendo pelo lado oposto, perdendo-se nas viagens de carros de boi chiando nas estradas. As lajes espelhavam e o rio de águas mortas como se se tivessem estagnado se transformava num pântano onde canoas apodreciam. João Urso pressentiu os passos da mãe. Como procurasse defender as orelhas, enrodilhou os braços, afundando a cabeça. E esperou. Esperou tanto tempo que se volveu. E com espanto viu a mãe, chorando, avançar os braços, estreitá-lo num longo e maternal abraço, chorando sempre, umedecendo-lhe os cabelos num pranto, procurando-lhe a boca, os olhos, para cobri-los de repetidos beijos. No canto da sala o tamborete tornava-se uma sombra amiga como as dos móveis. Terminava o sofrimento do tamborete, de decorar sonetos. Mas, em vez de João Urso chorar, acompanhar os soluços da mãe, encheu de gargalhadas todo o sobrado, rindo nervosamente como rira na igreja, como rira espantando no sótão as crianças, qual se estivesse a despedir-se de um castigo, a afastar-se de uma odiosa prisão. E nas escolas, professoras diziam assim quando pegavam alguém rindo sem razão, sem ver por quê: - Será que está com a doença de João Urso? E nenhuma escola quis ensinar-lhe. Parece que por lá tudo se incendiou. Relâmpagos retalhando serras, ensangüentando árvores, debruçando manchas sobre a cidade, manchas de amplos reflexos que são nódoas de sangue nas torres da Matriz, nos poucos sobrados, nos muros do cemitério. Dir-se-iam lanternas, estranhas lanternas que atormentassem a cidade com seus olhos vermelhos, apagando, acendendo, rapidamente apagando. E o peito atrofiado, as mãos pequenas, a cabeça descomunal, o João Urso que o parapeito da janela não pôde ocultar, também é uma nódoa. As serras devem ter aprisionado os trovões. João Urso não ouve mais bocas se arrebentando como se quisessem rasgar o céu, explodir todos os segredos dos morros. Agora, ele é somente tingido pelos relâmpagos, assanhado pelo vento, embalado pela cantiga da chuva que começou a cair. E ouve nas sarjetas a chuva marulhar, descer pelas lajes o canto de um pequeno rio, a força do vento inclinar cabeleiras e árvores chorarem o pranto de cabeleiras revoltas, desalinhadas. João Urso solta outro suspiro. Desce a vidraça. E fica vendo a chuva lavar o vidro, rolar rápidos pingos que se perdem nos caixilhos da janela. Agora, ele mal percebe a cantiga da chuva. A vidraça só permite que ele veja os relâmpagos, ouça longes sussurros de árvores agitadas, uma chuva de pingos enormes martelar os telhados, descer pelas lajes vertiginosamente. joão Urso está a ouvir tudo a distância, tudo pela metade, como se o silêncio do sobrado o houvesse envolvido, aprisionado-lhe os sentidos nos gavetões de cômodas, nos armários de tábuas escuras; passa as mãos nos cabelos, modela a cabeça disforme de um corpo franzino. Quanto tempo! Um relâmpago mais forte atravessa a vidraça, enrubescendo o retrato da mãe de João Urso. E o retrato pareceu avivar a mãe de joão Urso nas tardes de março, naquelas silenciosas tardes de repouso em que subiam os morros, João Urso aspirando docemente. O médico recomendara aspirar mui de leve, e assim João Urso fazia. A mãe descansava numa sombra, as mãos inúteis, os dedos sem rebolarem as agulhas de crochê. E quando percebia João Urso largar o canivete, aborrecido de escrever seu nome nos caules, ela enxugava o rosto, umedecia a manga da blusa balançando a cabeça. Isso fora depois dos castigos, depois de João Urso decorar muitos sonetos, ficar horas perdidas trepado no tamborete. Ela pensava que os risos de joão Urso fossem insubordinação, desobediência. E somente depois do escândalo da igreja, de as crianças chorarem amedrontadas no sótão, depois de toda a cidade arremedar João Urso, de escolas negarem-lhe matrícula - só depois disso tudo se lembrou de chamar um médico. E a receita foi respirar o ar puro das serras, respirar bem de manso, "como se estivesse dormindo". O médico falava assim : "como se estivesse dormindo" -e quantas vezes João Urso viu a mãe alheia a tudo, falando sozinha, balbuciando irreverentemente: "como se estivesse dormindo... como se estivesse dormindo!" Quantas vezes a mãe, rezando as matinas, encaixava, sem perceber, aquela frase do médico! Quantas vezes! E joão Urso respirava como se estivesse dormindo, obediente, chegando mesmo a se deitar sobre as folhas, fingir adormecer. Como joão Urso não deixasse de rir, uma viagem a cavalo, depois de trem, afastou-o das serras, dos comentários, da mãe, que ficou acenando, cheia de lágrimas, acenando até os cavalos se perderem. Os especialistas se espantaram, consultavam-se em junta médica. Nunca tinham visto daquilo, nunca nenhum tratado revelara tal doença. E João Urso continuava rindo, soltando enormes gargalhadas, gritos agudos que corriam pelos pavilhões como gritos de estranho pássaro ferido. Proibiram João Urso de ler as cartas da mãe. Nada de emotividade, nada de sentimento. Os médicos viam em João Urso um doente precioso. Escreveram para a Europa consultando sumidades; multiplicavam-se remédios e um armário se encheu de frascos rotulados: "Tratamento de João Urso". E ficavam desolados, completamente perdidos, quando, depois de um novo remédio, João Urso ria-se como se estivesse junto da mãe, subindo as serras para respirar mais puro. Um, dois, cinco anos, João Urso ficou no sanatório, cinco anos de Natal despercebido, ausente das vésperas de São João que ele as esperava ansioso, contando os dias. Voltou sorrindo pior, muito pior do que quando fora, galopando, varando o mundo das caatingas, viajando no trem de Quebrângulo. Recife é do lado de lá. O braço do pai abria uma curva, como se quisesse abraçar os serrotes, filhotes de dromedários nos morros verdes. Tal gesto parecia dizer: Estamos longe. Metiam a chibata, esporeavam, e os cavalos alargavam as passadas, relinchavam, as ancas molhadas de suor como se tivessem acabado de atravessar um rio. Depois, o trem de Recife correndo léguas inteiras de canavial, mostrando usinas de compridos bueiros. João Urso deslumbrava-se. O calor e a poeira eram-lhe indiferentes. O pai ia dizendo-lhe os nomes das terras, contando histórias daquelas usinas. João Urso suspendia a cabeça disforme e encontrava nos olhos do pai o brilho dos aventureiros. Quando conheceu o pai já sabia falar, todos os dentes já lhe haviam nascido. E, às vezes, via a mãe, debruçada à janela, esquecer-se na varanda a olhar as estradas, com o olhar distante procurando aquele vulto que ela tanto sabia distinguir. E um dia, ao acordar, viu a mãe dizer para um homem alto, de ombros fortes, cheio de sangue: - Este é João Urso, seu filho! E sentiu que as mãos daquele estranho, daquele homem que sua mãe dizia ser seu pai eram duras como pedra, encrespadas de calos. Depois o pai levou-o para o quarto, abriu malas de couro, canastras entupidas de riqueza. E pela primeira vez João Urso ouviu falar em diamantes, em pedras preciosas, que o pai dizia valerem uma fortuna. De repente partia, sem avisar, deixando no olhar da mãe de João Urso aquela saudade tão repetida, uma saudade que se normalizava pelas repetições. Agora, João Urso voltava. Viu a mãe trinta anos mais velha, escutou quase silencioso aquele coração que dantes batia forte. Sentiu comoção, uma vontade imperiosa de chorar, de abraçar a mãe aos soluços. Abriu os braços, enlaçou o peito da mãe num violento aperto, e começou a rir-se, a rir-se como nunca havia rido, um riso doente, entrecortado de gritos profundos, de alucinantes gargalhadas. O médico que trouxera João Urso sentiu-se mal, por um momento viu-se insignificante, arruinado. Mas, em seguida, avançou, fez um gesto de separar os braços de João Urso, afastá-lo do peito da mãe. Os braços de João Urso lembravam membros de ferro, inflexíveis numa grande força momentânea. João Urso rasgava a garganta, abria fortemente o talho da boca. E quando João Urso terminou de rir-se, as paredes devolviam-lhe os risos nuns ecos distantes como se outros Joões Ursos estivessem escondidos e a ele respondessem. A mãe perdera os sentidos. E desfalecida, dormindo sob a ação da morfina, tinha sobressaltos, tremiam-lhe as pernas em convulsões, bracejava, soltava tristes grunhidos. E nunca mais João Urso viu canastras cheias de riqueza, aquelas canastras de couro... Nunca mais sentiu as mãos calosas do pai, nunca mais ouviu falar em diamantes como seu pai falara. A cidade lembrava o pai de João Urso como quem relembra uma morte poderosa: - Ele morreu catando ouro nas margens do Rio Prata... Era o homem mais rico de lá. Acendia cigarro com notas de Cr$500,oo. Tinha um verdadeiro exército de garimpeiros. E era tão rico que foi ser padrinho do filho do Governador. Outras histórias corriam na boca do povo. Histórias quais contos de fada, inadmissíveis à época. - A mulher que andava com ele passava um ano sem aceitar ninguém. Ia descansar, refazer-se. E outra história contava de uma mulher que fora correr mundo, visitar todos os cabarés, viver em Paris como uma princesa, porque o pai de João Urso gostava dela e quisera que ela se fosse distrair. A vidraça não livra João Urso de ficar tingido numa nódoa de sangue. Os morros são traços vermelhos que trouxeram chuva, uma copiosa chuva martelando os telhados, aumentando o volume do rio. E as águas do rio ficam turvas, cada vez mais encardidas. Quantas lembranças a memória de João Urso foi buscar, quantas recordações interrompidas! Pedaços de seu triste passado, quantos João Urso reviveu, quantos! Nem as pêndulas ferem o silêncio do sobrado. Os relógios estão como mapas atrasados apontando horas de outro tempo. Tudo a distância. E como se estivesse a lançar um derradeiro olhar sobre sua vida, João Urso se vê órfão de mãe, esquecido do pai que há tanto não dava notícia, talvez morto, ou morrendo naquela riqueza de que o povo falava. Vê-se afastado do mundo, sem mesmo saber se os seus risos eram contagiosos (até no sanatório os médicos tomavam cautela). Vivendo como um bicho que ama as madrugadas, o ermo das ruas adormecidas. E João Urso sentia-se feliz quando algum tresnoitado dava-lhe boa noite, pedia-lhe fósforo. E era com o olhar cheio de saudade que ele via o vulto se afastar. E também João Urso se afastava, temendo ser reconhecido, medroso de ver o tresnoitado fugir às carreiras, distanciar-se cheio de pavor ao descobrir que ele era João Urso. Gostava de subir para os lados do cemitério, procurar o posto de meteorologia; e ficava muitas horas ouvindo o cata-vento girar, marcar a direção do vento naquelas quatro letras que olhavam para os quatro cantos. E uma vez João Urso viu aberta a casa dos aparelhos. Maravilhou-se diante dos termômetros, dos tubos de mercúrio oscilando magicamente, de manso. Apalpou, encantado, redomas de alumínio. Seus olhos se fixavam àquilo tudo, àquele mundo defendido por tábuas brancas, riscadas de persianas. E sentiu-se dono de um mundo que somente ele visitava às madrugadas. Não se cansava de ver os termômetros, a geografia das constelações traçando caminhos luminosos de cometas, de caudas brilhantes de astros longínquos. João Urso enfrentava a chuva, o frio, o calor de noites sufocantes. E se nesta noite ele não sai pela madrugada, não é por medo dos relâmpagos, da chuva que não consegue lavar o sangue dos morros. Vontade João Urso tem de ir para junto dos tubos de mercúrio, caminhar debaixo da chuva. Mas, agora, ele é um prisioneiro. Transformaram o velho sobrado numa prisão. Soldados batem queixo, guardam as mãos nos bolsos do capote. Praguejam. Têm ordem de não deixar entrar nem sair ninguém. Os fuzis são ferros molhados, esquecidos como os soldados dentro desta noite de tempestade. O Delegado falara enérgico na frente de João Urso: - Se esse renegado tentar fugir, já sabem: fogo. E atiraram pedra, partiram as vidraças da varanda, gritaram de punhos erguidos, crispados na cólera da multidão. O povo se apinhava, lutava por um lugar defronte do sobrado, querendo linchar João Urso. E lá de cima João Urso ouvia seu nome estraçalhado na boca do povo. Destino? João Urso não atinava com o móvel daquilo tudo. Sim, fora uma imprudência. Ele bem deveria lembrar-se de que todos tinham medo de seus risos. Sempre procurava esconder-se. Mas as luzes do circo pareciam chamá-lo: eram apelos. João Urso ficou indeciso. A sombra de uma mulher equilibrando-se num trapézio manchava a coberta, desenhava movimentos difíceis. De longe, João Urso apreciava, acompanhando a sombra, equilibrando os olhos naqueles movimentos estudados, perigosos. Outra mancha estampou na coberta o retrato de uma sombrinha. Era o fim do equilíbrio da morte. Fez-se um grande silêncio. Todos pareciam criaturas mortas, porque ninguém respirava. A bailarina ia saltar para um outro trapézio. A coberta do circo desenhando silhuetas de uma grandiosa função. Uma voz pediu mais silêncio. E todo mundo ficou suspenso, de boca aberta, esperando. O homem do bombo suspendeu o braço para tocar quando se cumprisse o salto da morte. Mas não pôde comemorá-lo efusivamente. João Urso havia-se aproximado, chegando à porta do circo. E no momento do salto, quando os pés da bailarina voaram feito duas asas de lentejoulas, de estreitas calças de cetim vermelho, de um porta-seio robusto, nesse momento João Urso soltou um agudo de um riso estrangulado, cortante, talvez o maior riso de sua vida. E a bailarina pareceu um pássaro ferido, um vôo que tombava. Mais uma vez João Urso ensangüenta os olhos nos relâmpagos. Aborrece o espetáculo dos morros, a cantiga da chuva martelando as telhas, correndo sobre as lajes. E sente unicamente o desejo de dormir esperando uma partida para muito longe, uma viagem que nem ele próprio sabe aonde terminar. Procura a cama, fecha os olhos, guardando dentro deles a geografia incomum das constelações, a matemática dos termômetros amigos, o belo vôo incerto da bailarina...

"O crime perfeito". RAWET, Samuel. Contos e novelas reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.



"O homem é sempre um estranho diante do outro." E: "No fundo, bem no fundo do meu desespero, tinha meus sonhos. (...) Eu não precisava de drogas para delirar. Eu delirava". E: "O homem ainda não existe, ele está sempre no futuro. Daí a grandeza de seu presente. E a miséria". E: "Como identificar o imbecil, o tolo, o idiota, sem desconfiar da própria imbecilidade, tolice, idiotice". E: "Um marginal sabe no fundo que ele também é sociedade". São frases de Samuel Rawet (1929-1984) pingadas ao acaso em seus Contos e novelas reunidos, organizado por André Seffrin e publicado pela Civilização Brasileira, em 2004. Polonês de nascimento, ele emigrou com a família ainda criança, vivendo entre os "judeus da Leopoldina", no bairro carioca. Depois, formação em Engenharia, vida entre o Rio - um andarilho do Catete -, e Brasília, cidade que, como calculista, ajudou a construir. Efoi ele mesmo desconstruindo-se em vida, até ser descoberto morto em um apartamento de Brasília. Estava, há algum tempo, "louco", segundo os amigos e conhecidos. Sozinho e isolado.Julgava-se perseguido por judeus e não-judeus, até a água potável estava estaria envenenada. (Ele andava quarteirões para comprar água mineral, mesmo à noite.) Este escritor único, estranho, "difícil" e excêntrico, teve a loucura espalhada por seus escritos e ao longo de sua vida. Embora (não deixa de ser curioso ou sintomático) não tenha deixado nenhum conto explicitamente sobre a loucura, isto é, a loucura como tema e o louco como personagem, sua visão sobre o assunto parece estar disseminada por tudo o que escreveu. Em particular em "Crônica de um vagabundo" (longo demais para ser incluído aqui) e "O crime perfeito" (em que ele disfarça o assunto até no título), o tema parece se lhe insinuar como um fantasma. O fantasma de si mesmo, talvez: "A literatura para mim agora é uma forma de autoconhecimento. Apenas". Foi o que escreveu no ensaio Eu-tu-ele. Eu, tu, ele? Concernente a nós todos, portanto? Desceu do ônibus e hesitou entre a mercearia e a farmácia. A garrafa de conhaque e o sedativo fariam o mesmo efeito. Resolveu abandonar os dois e seguir o caminho de casa. Atravessou a praça, recuou algumas vezes evitando automóveis, seguiu pela rua principal o trecho até a terceira transversal, e antes de dobrar à direita, permaneceu alguns minutos parado observando um grupo em torno de um cão que fora atropelado. Ouviu os últimos ganidos e as expressões de piedade, resistiu ao impulso de se incorporar ao grupo, e enquanto seguia pela calçada até seu edifício tentava recompor algumas idéias sobre o ensaio que a revista lhe exigia com urgência. Maldita a hora em que adotou como tema o trágico. Entrou em casa às quatro horas e doze minutos segundo o relógio da estante, e às quatro horas e sete minutos segundo o seu de pulso. O filho ainda estava na escola, e a mulher cochilava como de hábito entre as três e as cinco. Cortou um pedaço de salame enganchado junto à geladeira, uma fatia de queijo, e ainda com o pano de pratos na mão para tirar a gordura dos dedos aproximou-se da mesa irritado com a arrumação que a mulher fizera. Abriu gavetas, alterou os objetos sobre o tampo e em poucos instantes conseguiu chegar à mesma situação em que a deixara de madrugada. Notas, livros, dicionários, o suficiente para alinhavar algumas considerações de outros, colher epígrafes e definições, não citar certas fontes porque desnecessárias, já pertenciam quase que ao uso diário e comum, procurar uma certa coerência na ordenação das frases, e terminar ou com um artifício que significasse um retorno à primeira frase, ou com qualquer expressão que abrisse a possibilidade de uma seqüência infinita de proposições. Era o caminho de sempre. Receberia os cumprimentos de uns, pela elegância da exposição, e as reservas de outros, pela facilidade com que tirava conclusões de pensamentos alheios, e por uma certa falta de densidade, de profundidade, e às vezes mesmo uma certa leviandade diante de fatos dignos de outro tratamento. Com o dedo na boca, sugando um último vestígio de gordura encravada na unha, lembrou-se da morte,do amigo seis meses antes. De repente, num acesso de raiva, começou a agredir gente na rua, foi internado, operado e morreu. A mulher se movimentou no quarto e passou pela sala ainda sonolenta, cumprimentando-o em meio a um bocejo. Espantou-se com sua resposta grunhida e seu movimento em direção à porta da rua. Voltaria em 15 minutos. Enquanto seguia pela calçada remoía os detalhes finals da morte, sem nenhum acréscimo, mas com a certeza de que alguma coisa naquele conjunto de fatos ia se alterar. Parou alguns minutos junto à grade de uma casa baixa entre dois blocos de quatro pavimentos. Um carro tinha meio corpo fora da garagem, sobre a grama, e num fundo de mau gosto de cerâmica e barras de ferro inclinadas, um velho lia um jornal na varanda. Tentou eliminar todas as idéias possíveis no instante e olhar seu rosto de perfil: cabelos ralos e brancos, testa ampliada pela calvície e enrugada, nariz sem forma definida, queixo um pouco saliente, orelha grande e achatada, e do crânio à gola uma linha curva seguida de uma vertical. Tentou esvaziar-se de qualquer conteúdo afetivo, e encará-lo apenas como uma forma cheia de possibilidades. Não conseguiu. Um leve tremor inesperado agitou-lhe o corpo, e seguiu em direção à casa do amigo morto. A viúva recebeu-o com espanto, há tempos não aparecia. Também ele não escondeu o espanto ao vê-la recuperada do choque e no rosto uma alegria suficiente para avivar traços jovens. O casal de velhos num canto junto ao rádio ergueu-se de mãos estendidas e comoveu-se com o calor de um afeto espontâneo. Levaram-no para o quarto onde o amigo costumava trabalhar. Abriram as gavetas fechadas a chave, trouxeram de um armário alguns embrulhos com recortes e maços de papéis, serviram-lhe um café e deixaram-no só. Nos embrulhos de recortes encontrou com todas as minúcias a história do processo que agitou a cidade havia dois anos e meio. Fotos, crônicas, reproduções de documentos, cópias de declarações de testemunhas, acusação e defesa. Tentou lembrar-se de algum momento em que o amigo lhe tivesse falado qualquer coisa a respeito. Nada. Quanto ao processo em si, nunca se interessara tanto por ele, e participava da opinião geral de que a condenação estava implícita na própria defesa do acusado. O amigo, músico, encarregado da crônica especializada da revista, aparentemente nenhuma ligação tinha com o assunto. Nas gavetas encontrou cópias de artigos publicados, algumas revistas estrangeiras, e algumas pastas com projetos de trabalhos futuros. Numa delas encontrou papéis em desordem com anotações referentes ao processo. Os trechos soltos de início não lhe deram a mínima idéia do que poderia pretender. Tentou encontrar alguma coisa ainda, mas o resto se ligava apenas à sua especialidade. Pediu permissão para levar o pacote de recortes e a pasta com anotações, e voltou para casa. Encontrou o filho já, ficou à toa até o jantar. A sogra veio cuidar do menino enquanto ia ao cinema com a mulher. Um filme japonês de guerra, com algumas cenas meio cruas, algumas de antropofagia. Voltou deprimido, e enquanto a mulher se deitava pôs-se a remexer os papéis na mesa. Algumas horas depois, havia repassado as folhas esparsas, ao encher um copo d'água no filtro, relacionou com rapidez as anotações descosidas do amigo: não tentava inocentar o culpado, via apenas uma ação contraproducente na condenação, e procurava atrás da questão individual qualquer coisa que lhe parecia um pouco mais sórdida. Numa das anotações parecia mesmo sentir um certo horror na possibilidade de descobrir alguns fatos que no momento não eram arrolados. Um pouco antes de seu ponto habitual de descida ouviu um comentário: de repente, num acesso de raiva, começou a agredir gente na rua, foi internado, operado e morreu. Voltou-se e viu um velho de rosto longo, encovado e inexpressivo ao lado de uma velha gorda. Ambos o encararam e pareceu-lhe ver nos olhos dos dois um rápido gesto de zombaria. No escritório, duas vezes pela manhã, e quatro à tarde, a mesma voz desejava falar com alguém que dizia trabalhar no local. Engano. À noite, ao rever os papéis novamente, constatou que o nome procurado durante o dia era o do morto. Relia alguns trechos quando o telefone tocou. Desejavam saber se ali residia um advogado. A partir daquele dia sua sensibilidade principiou a sofrer sobressaltos contínuos. Em certos momentos parecia duvidar de uma espécie de delírio, a rápida superposição de um episódio pessoa! com uma palavra dita ao acaso. Seguiu-se um período em que todos os episódios de sua vida se fragmentaram em comentários irônicos. Às vezes até entre aqueles com quem convivia lhe parecia vislumbrar qualquer acento sarcástico. O mais freqüente eram longos comentários a seu lado no ônibus, no restaurante, e telefonemas que procuravam advogados, hospitais. Um arrepio percorreu-lhe o corpo quando lhe perguntaram pelo telefone se ali não residia um indivíduo que constatou, após desligar, ter o mesmo nome de um santo estraçalhado pela multidão. Entre irritação, delírio provocado pela sensibilidade exacerbada, e alguns momentos de humor (ele não podia resistir ao riso de uma situação absurda), principiou a sentir o terror de ver sua família ameaçada. Alguns episódios miúdos de sua vida principiaram a aparecer nos comentários de sua mulher, mas como se se referisse a um estranho. E ele tinha a certeza de que nunca lhe contara nada. Sabia de há muito, sem ter experimentado, a dimensão que uma banalidade podia adquirir. O horror com que a mulher se referiu a uma experiência sexual de alguém que dizia ser conhecido na cidade lhe deu como reflexo o horror de uma possibilidade. A mulher ouvira o comentário no supermercado. Ele olhou para o filho que nesse instante chegava da escola. Os dias que se sucederam foram de insônias, impossibilidade de concentração na leitura, e tensão cada vez mais difícil de suportar no trabalho. As figuras humanas começaram a perder cargas afetivas e a assumir jeito de caricatura de animais. Quando um dia, num bar, viu apenas mandíbulas, narizes, olhos de pássaros fixos, e dentes a se movimentarem, deu um salto e começou a agredir os outros, ferindo alguns a dentadas. Foi internado e operado.

LOUCURA E DROGAS

"O inferno artificial" ("El infierno artificial"). QUIROGA, Horacio. Cuentos de amor de locura y de muerte. Echo Library, 2006.

TRADUÇÃO DE LÉO SCHLAFMAN "O inferno artificial" dialoga (e a ele se contrapõe) com o título famoso de Baudelaire, Les paradis artificieis. Horacio Quiroga (1878-1937) - como o grande poeta, aliás - sabia do que estava falando: ele próprio usou drogas para amenizar (há sempre um começo ou pretexto) as agruras de sua personalidade e de sua biografia. seu pai morreu de um tiro acidental quando ele era jovem; seu padrasto se suicidou; perdeu dois irmãos; em 1902, acidentalmente, matou o poeta Federico Ferrando e em seguida tentou o suicídio; em 1915 ou 16, sua primeira esposa se matou, deixando-o com dois filhos etc. Exaltando a honestidade artística de Poe e lembrando suas "fraquezas", Quiroga poderia estar falando de si mesmo: "Não houve paraíso artificial que não visitasse nem serpente que não lhe devolvesse fielmente as visitas sob a forma de delirium tremens. (...) Se para Poe a necessidade de álcool, éter, ópio, era tão orgânica quanto se supõe, poucas torturas teriam sido iguais àquelas que sofria quando a escassez dos meios lhe permitia comer e beber mas não embriagar-se." A droga como o sintoma da loucura que ela própria produz - é o que ele nos mostra neste breve relato. Nas noites de luar o coveiro avança por entre os túmulos com passo particularmente rígido. Está nu da cintura para cima e leva à cabeça um grande chapéu de palha. O sorriso, fixo, parece estar pregado à cara com cola. Se estivesse descalço se notaria que caminha com os polegares dos pés dobrados para baixo. Isto nada tem de estranho porque o coveiro abusa do clorofórmio. Circunstâncias do ofício levaram-no a provar o anestésico, e, quando o clorofórmio morde um homem, dificilmente solta. Nosso conhecido espera a noite para destapar o frasco e, como é sensato, escolhe o cemitério como o inviolável teatro de suas bebedeiras. O clorofórmio dilata o peito na primeira inspiração; na segunda, inunda a boca de saliva; pés e mãos formigam na terceira; na quarta, os lábios, juntamente com as idéias, incham, e logo se passam coisas extravagantes. E assim o capricho dos passos levou o coveiro até um túmulo aberto em que à tarde houve remoção de ossos - não concluída por falta de tempo. Um caixão ficou aberto atrás da grade, tendo ao lado, sobre a areia, o esqueleto do homem que esteve fechado nele.



...Ouviu algo, não é verdade? Nosso conhecido abre o ferrolho, entra, e, após dar a volta ao homem de osso, ajoelha-se e aproxima seus olhos das órbitas da caveira. Ali, no fundo, um pouco acima da base do crânio, pendurado como em um parapeito numa dobra do occipital, está aninhado um homenzinho trêmulo, amarelo, o rosto cheio de rugas. Tem a boca arroxeada, as órbitas bem fundas, e o olhar enlouquecido de ânsia. É tudo o que resta de um cocainômano. - Cocaína! Por favor, um pouco de cocaína! O coveiro, sereno, sabe bem que ele próprio poderia dissolver com a saliva a tampa de seu frasco, para alcançar o clorofórmio proibido. É, pois, seu dever ajudar o homenzinho trêmulo. Sai e retorna com a seringa cheia, que a farmácia do cemitério lhe cedeu. Mas como dá-la ao homenzinho?... - Pelas fendas cranianas!... Pronto! É claro! Como não lhe ocorrera? E o coveiro, ajoelhado, injeta todo o conteúdo da seringa, que se infiltra e desaparece por entre as fendas. Mas é certo que algo chegara à abertura a que o homenzinho aderira desesperadamente. Depois de oito anos de abstinência, que molécula de cocaína não acende um delírio de força, juventude, beleza? O coveiro fixou o olhar na órbita da caveira, e não reconheceu o homenzinho moribundo. Na cútis, firme e limpa, não havia o menor rastro de ruga. Os lábios, vermelhos e vitais, entremordiam-se com preguiçosa volúpia que não teria explicação viril se os hipnóticos não fossem quase todos femininos; e os olhos, sobretudo, antes vidrentos e apagados, brilhavam agora com tal paixão que o coveiro teve um impulso de surpresa invejosa. - É isso, assim... a cocaína? - murmurou. A voz interior soou com encanto inefável. - Ah! É necessário saber o que são oito anos de agonia! Oito anos, desesperado, gelado, preso à eternidade pela única esperança de uma gota!... Sim, é pela cocaína... E você? Conheço esse odor... clorofórmio? - Sim - retomou o coveiro envergonhado pela mesquinharia de seu paraíso artificial. E acrescentou em voz baixa: - O clorofórmio também... Eu me mataria se tivesse de abandoná-lo. A voz soou um pouco zombeteira. - Matar-se! E concluiria com segurança que seria como qualquer des ses meus vizinhos... Apodreceria em três horas, você e seus desejos. "Com certeza", pensou o coveiro. "Acabariam comigo." Mas o outro não se rendera. Ardia ainda depois de oito anos aquela paixão que resistiu à falta do recipiente do deleite. Resistiu à morte do organismo que a criou, sustentou-a, e não foi capaz de aniquilá-la. Sobrevivia monstruosamente a si mesma, transformando a ânsia causai em supremo gozo final, mantendo-se diante da eternidade numa reentrância do velho crânio. A voz quente e pausada de voluptuosidade soava ainda zombeteira. - Você se mataria... Bela coisa! Eu também me matei... Ah!, você se interessa, não é verdade? Mas somos farinha de sacos diferentes... No entanto, traga seu clorofórmio, aspire um pouco mais e ouça-me. Sentirá então a diferença entre sua droga e a cocaína. Vamos. O coveiro se voltou, e, achando-se com o peito no chão, apoiado nos cotovelos e com o frasco sob o nariz, esperou. - Seu cloro! Não é muito, vejamos. E ainda morfina... Você conhece o amor pelos perfumes? Não? E o jicky de Guerlain? Então, ouça. Casei-me aos 30 anos e tive três filhos. Com sorte, mulher adorável e três criaturas sadias, era perfeitamente feliz. Mas nossa casa era grande demais para nós. Você viu. Você não... enfim... viu que as salas luxuosamente decoradas parecem mais solitárias e inúteis. Acima de tudo solitárias. Todo nosso palacete vivia assim em silêncio o estéril e fúnebre luxo. "Um dia, em menos de oito ou dez horas, nosso filho maior nos deixou por causa da difteria.. Na tarde seguinte, o segundo também se foi, e minha mulher se jogou sobre a única coisa que nos restava: nossa filha de quatro meses. Que nos importavam a difteria, o contágio e o resto? Apesar da ordem do médico, a mãe deu de mamar à criatura, e em pouco tempo a pequena se retorcia em convulsão, para morrer oito horas depois, envenenada pelo leite da mãe. "Faça a soma: 18, 24, 9. Em 51 horas, pouco mais de dois dias, nossa casa ficou completamente silenciosa, pois nada havia para fazer. Minha mulher permanecia no quarto e eu caminhava ao lado. Fora disso, nada, nem um ruído. E dois dias antes tínhamos três filhos. "Pois bem. Minha mulher passou quatro dias arranhando o lençol, com um ataque cerebral, e eu me socorri com a morfina. "- Esqueça isso - me disse o médico. - Não é para você. "- Para quem, então? - perguntei. E apontei para o fúnebre luxo de minha casa que continuava acendendo lentamente catástrofes, como rubis. "O homem se conformou. "- Experimente sulfonal, qualquer coisa... Mas seus nervos não agüentarão. "- Sulfonal, brionina, estramônio... bah! Ah, a cocaína! É infinita a distância que vai da felicidade esparramada em cinzas ao pé de cada cama vazia ao radiante resgate dessa mesma felicidade queimada, e que cabe numa única gota de cocaína! É assombroso ter sofrido uma dor imensa momentos antes; agora surge uma súbita e plena confiança na vida: instantâneo rebrotar de ilusões que se aproximam do futuro a dez centímetros da alma aberta. Tudo isto se precipita nas veias por intermédio da agulha de platina. E o clorofórmio!... Minha mulher morreu. Durante dois anos gastei em cocaína muito mais do que você pode imaginar. Sabe você algo de resistência? Cinco centigramas de morfina destroem fatalmente um indivíduo robusto. Quincey chegou a tomar durante 15 anos dois gramas por dia, isto é: 40 vezes mais do que a dose mortal. "Mas isso tem um preço. Em mim, a verdade das coisas lúgubres, contida, estonteante, dia após dia, começou a se vingar, e já não tive mais nervos para enfrentar as horríveis alucinações que me assediavam. Fiz então esforços inauditos para jogar fora o demônio, sem resultado. Três vezes resisti um mês à cocaína, um mês inteiro. E caía de novo. Você não sabe, mas saberá um dia, que sofrimento, que angústia, que suor de agonia uma pessoa sente quando pretende suprimir, por um único dia, a droga! "Por fim, envenenado até o mais íntimo de meu ser, carregado de torturas e fantasmas, convertido num trêmulo detrito humano, sem sangue, sem vida, miséria a que a cocaína emprestava dez vezes por dia um disfarce radiante, para afundar em seguida num estupor cada vez mais fundo, um resto de dignidade me levou a um sanatório e me entreguei atado de pés e mãos à cura. "Ali, sob o império de uma vontade alheia, vigiado constantemente para que não pudesse adquirir o veneno, seria inevitável me descocainizar. "Sabe o que se passou? Eu, junto com o heroísmo de suportar a tortura, levava escondido no bolso um frasquinho com cocaína... Agora imagine o que é a paixão. "Durante um ano inteiro, depois desse fracasso, continuei me injetando. Uma longa viagem me deu não sei que misteriosas forças de reação, e me apaixonei então." A voz se calou. O coveiro, que escutava com o sorriso baboso e fixo no rosto, aproximou o olho e acreditou notar um véu ligeiramente opaco e vidrento nos olhos de seu interlocutor. A cútis, por sua vez, rachava-se visivelmente. - Sim - prosseguiu a voz. - É assim que começa... Concluirei logo. A você, um colega, devo a história inteira. "Os pais dela fizeram tudo o que era possível para resistir: um morfi-nômano, ou algo assim! Para minha fatalidade, dela, de todos, eu pusera em meu caminho uma pessoa supernervosa. Mas admiravelmente bela! Tinha apenas 18 anos. O luxo era para ela o que o cristal para um perfume: seu recipiente natural. "Na primeira vez em que eu, por ter esquecido de tomar a injeção antes de entrar, caí bruscamente em sua presença, idiotizando-me, enrugan-do-me, ela fixou em mim seus olhos imensamente grandes, belos e espantados. Curiosamente espantados! Pálida e sem se mover, ela me viu tomar a injeção. Pelo resto da noite não cessou um só instante de olhar-me. E por trás daqueles olhos dilatados que me viram assim eu intuía por minha vez a tara neurótica, o tio internado e o irmão menor epiléptico. "No dia seguinte encontrei-a aspirando Jicky, seu perfume predileto. Lera em 24 horas tudo o que era possível sobre hipnóticos. "Pois bem: basta que duas pessoas sorvam os deleites da vida de maneira anormal para que se compreendam tanto mais intimamente quanto mais extravagante for a obtenção do gozo. Elas se unirão em seguida, excluindo qualquer outra paixão, para se isolar na felicidade alucinada de um paraíso artificial. "Em 20 dias, aquela maravilha de corpo, beleza, juventude e elegância ficou suspensa no sopro embriagador dos perfumes. Começou a viver, como eu com a cocaína, no céu delirante de seu Jicky. "Por fim nos pareceu perigoso o mútuo sonambulismo em sua casa, por fugaz que fosse, e decidimos criar nosso paraíso. Nenhum melhor do que minha própria casa, onde nada fora tocado e à qual eu não voltara mais. Levaram-se os amplos e baixos divãs para a sala. E ali, no mesmo silêncio e na mesma suntuosidade fúnebre que incubou a morte de meus filhos, na profunda quietude da sala, com a lâmpada acesa à uma da tarde, sob a atmosfera pesada de perfumes, vivemos horas e mais horas nosso fraternal e taciturno idílio, eu estendido imóvel com os olhos abertos, pálido como a morte, ela deitada no divã, mantendo sob o nariz, com a mão gelada, o frasco de jicky. "Não havia em nós o menor rastro de desejo. Mas como ela estava linda com suas profundas olheiras, o penteado descomposto e o intenso luxo do vestido imaculado! "Durante três meses raramente faltou, sem eu saber como, a visitas, casamentos e garden parties para que de nada suspeitassem. Naquelas ocasiões chegava ansiosa ao dia seguinte, entrava sem olhar para mim, tirava o chapéu com um gesto brusco, para se entregar em seguida, cabeça lançada para trás e olhos fechados, ao sonambulismo de seu Jicky. "Vou abreviar: numa tarde, e por uma dessas reações inexplicáveis com que os organismos envenenados liberam em explosão suas reservas de defesa, os morfinômanos as conhecem bem!, senti todo o profundo gozo que havia, não em minha cocaína, mas naquele corpo de 18 anos, admiravelmente feito para ser desejado. Essa tarde, como nunca, sua beleza surgia pálida e sensual da suntuosa quietude da sala iluminada. Tão brusca foi a sacudida que me encontrei sentado no divã, olhando-a. Dezoito anos... e com essa beleza! "Ela me viu chegar perto sem fazer um só movimento, e, quando me inclinei, olhou-me com fria estranheza. "- Sim... - murmurei. "- Não, não... - respondeu ela com a voz neutra, desviando a boca com pesados movimentos de sua cabeleira. "Por fim atirou a cabeça para trás e cedeu, fechando os olhos. "Ah! Para que ter ressuscitado por um instante se minha potência viril, meu orgulho de varão, não revivia mais! Estava morto para sempre, afogado, dissolvido no mar da cocaína.! Caí ao seu lado, sentado no chão, e mergulhei a cabeça em seu vestido, permanecendo assim uma hora inteira em profundo silêncio, enquanto ela, muito pálida, mantinha-se também imóvel, com os olhos abertos fixos no teto. "Mas esse rastilho de reação que acendera um efêmero relâmpago de ruína sensorial trazia também à tona da consciência quanta honra masculina e vergonha viril agonizavam em mim. O fracasso de um dia no sanatório e a vida diária ante minha própria dignidade nada eram em comparação com esse momento, você compreende? Para que viver se o inferno artificial em que me precipitara e do qual não podia sair era incapaz de me absorver totalmente! E me liberara por um instante, para me submergir nesse final! "Levantei-me, fui para dentro e me dirigi a um móvel onde guardava meu revólver. Quando retornei, ela tinha as pálpebras fechadas. "-Vamos nos matar - eu disse. "Entreabriu os olhos e durante um minuto não desviou o olhar de mim. A fronte límpida voltou a ter o mesmo movimento de cansado êxtase. "-Vamos nos matar - ela murmurou. "Percorreu em seguida com o olhar o fúnebre luxo da sala, em que a lâmpada ardia com luz forte, e contraiu ligeiramente o semblante. "- Aqui não - acrescentou. "Saímos juntos, sobrecarregados ainda de alucinação, e atravessamos a casa ressoante. Peça por peça. No fim, ela se apoiou a uma porta e fechou os olhos. Caiu ao longo da parede. Voltei a arma contra mim e me matei por minha vez. "Então, quando, devido à explosão, minha mandíbula se desprendeu bruscamente e senti um imenso formigamento na cabeça, quando o coração teve dois ou três sobressaltos e ficou paralisado, quando em meu cérebro e em meus nervos e em meu sangue não houve a mínima probabilidade de tornarem à vida, senti que minha dívida com a cocaína estava quitada. Eu me matara mas também a matei por minha vez! "Mas me enganei! Um instante depois vi, entrando vacilantes e de mãos dadas, pela porta da sala, nossos corpos mortos, que voltavam teimosamente." A voz se partiu de repente. - Cocaína! Por favor, um pouco de cocaína!

"Aracnéia" ("Arachné"). SCHWOB, Mareei. Cozur double. Paris: Gallimard, 1997.



TRADUÇÃO E NOTAS DE CELINA PORTOCARRERO Fantasia? Fantástico? Quase uma prosa poética, abstrata ou hermética, escrita sobre ou com o efeito de drogas - e sobretudo com a marca pessoal deste que "jamais foi esquecido. Simplesmente ainda não encontrou seu justo lugar na literatura francesa" (Silvain Goudemare). Ele, Marcel Schwob (1867-1905), amigo e tradutor de Stevenson para o francês, também deu um mergulho "nas águas negras" da personalidade humana, como o autor de O médico e o monstro. Infuência? Bem, eles são ficcionistas de diferentes tons narrativos. Schwob desenha (como um pintor) seu mundo ficcional por dentro, por dentro da cabeça do narrador e do personagem: "as emoções não são contínuas; elas têm um ponto extremo e um ponto morto. O coração experimenta, em relação à energia moral, uma sístole e uma díástole, um período de contração e um período de relaxamento. Podemos chamar de crise ou aventura o ponto extremo da emoção. Cada vez que a dupla oscilação do mundo exterior e do mundo interior chega a um reencontro, há uma "aventura" ou uma "crise". Depois essas duas vidas retomam suas independências, cada uma delas fecundada pela outra", conforme ele mesmo escreveu na introdução de Coeur double, do qual extraímos o conto que se vai ler. Féerie? Fantástico? Ou uma viagem à fronteira da droga e da loucura? (Em tempo: Borges confessou que não teria escrito sua História universal da infâmia se não houvesse antes lido Vidas imaginárias, o livro mais conhecido - embora não suficientemente - deste autor a ser redescoberto.)

Os senhores dizem que sou louco e me prenderam, mas eu rio de suas precauções e de seus pavores. Pois serei livre no dia que quiser; ao longo de um fio de seda que me lançou Aracnéia, fugirei para longe de seus guardas e de suas grades. Mas a hora ainda não chegou - está, entretanto, próxima: cada vez mais meu coração fraqueja e meu sangue empalidece. Os senhores que me crêem agora louco, me acreditarão morto: enquanto no fio de Aracnéia me balançarei além das estrelas. Se eu fosse louco, não saberia com tanta clareza o que aconteceu, não me lembraria com tanta precisão do que os senhores chamaram de meu crime, nem os discursos de seus advogados, nem a sentença de seu juiz vermelho. Não riria dos relatórios de seus médicos, não veria no teto de minha cela a figura imberbe, o redingote preto e a gravata branca do idiota que me declarou irresponsável. Não, eu não o veria - pois os loucos não têm idéias precisas; ao passo que eu sigo meus raciocínios com uma lógica lúcida e uma clareza extraordinária que a mim mesmo surpreendem. E os loucos sentem dores no alto do crânio; acreditam, coitados!, que colunas de fumaça esguicham, turbilhonando, de seu occipício. Enquanto meu cérebro é de tal leveza que muitas vezes me parece que tenho a cabeça vazia. Pelos romances que li, que me davam outrora prazer, passo agora os olhos e julgo-os pelo valor que têm; vejo cada falha de composição - enquanto a simetria de minhas próprias invenções é a tal ponto perfeita que os senhores ficariam fascinados se eu as expusesse. Mas desprezo-os imensamente: os senhores não saberiam compreendê-las. Deixo-lhes estas linhas como último testemunho de minha zombaria e para fazê-los apreciar sua própria insanidade quando encontrarem minha cela deserta. 1 Os raios das rodas feitos de longas pernas de aranhas; A capota, de asas de gafanhotos; Os tiran-tes, das menores teias de aranha; Seus colares, dos raios úmidos do luar... - Em inglês no original. Ariane, a pálida Ariane perto de quem me apanharam, era bordadeira. Eis o que causou sua morte. Eis o que me trará a salvação. Eu a amava com paixão intensa; ela era pequena, morena de pele e ágil de dedos; seus beijos eram picadas de agulha, suas carícias, bordados palpitantes. E as bordadei-ras têm uma vida tão inconstante e caprichos tão instáveis que eu logo quis fazê-la abandonar a profissão. Mas ela resistiu; e eu me exasperava ao ver os jovens engravatados e gomalinados que espreitavam a saída do ateliê. Minha irritação era tão grande que tentei voltar a mergulhar à força nos estudos que tanta alegria me tinham dado. Fui de má vontade apanhar o volume XIII das Asíatic Researches,2 publicado em Calcutá em 1820. E maquinalmente me pus a ler um artigo sobre os phànsigâr.3 Aquilo me levou aos tugues.4 O capitão Sleeman falou muito a respeito deles. O coronel Meadows Taylor desvendou o segredo de sua associação. Eram unidos por laços misteriosos e serviam como criados nas casas de campo. À noite, na ceia, entorpeciam seus patrões com uma decocção de cânhamo. Pela madrugada, escalando os muros, esgueiravam-se pelas janelas abertas ao luar e iam em silêncio estrangular as pessoas da casa. Suas cordas eram também de cânhamo, com um grande nó na nuca para matar mais depressa. Assim, pelo Cânhamo, os tugues prendiam o sono à morte. A planta que dava o haxixe através do qual os ricos os embruteciam, assim como com o álcool ou o ópio, servia também para vingá-los. Veio-me a idéia de que, punindo minha bordadeira Ariane com a seda, eu a prenderia por completo na morte. E essa idéia, sem dúvida lógica, tornou-se o ponto luminoso de meus pensamentos. Não resisti por muito tempo. Quando ela deitou a cabeça inclinada sobre meu pescoço para adormecer, passei-lhe ao redor da garganta com todo o cuidado a cordinha de seda que apanhara em sua cesta; e, aper-tando-a devagar, bebi seu último suspiro em seu último beijo. Assim os senhores me apanharam, boca contra boca. Imaginaram que eu estivesse louco e ela morta. Pois ignoram que ela continua comigo, 2 Pesquisas Asiáticas. Em inglês no original. 3 Ladrões e assassinos das índias Orientais. 4 Membros de seita religiosa da índia que, em honra da deusa Cáli, praticavam sacrifícios humanos. eternamente fiel, porque ela é a ninfa Aracnéia. Dia após dia, aqui, em minha cela branca, ela se revelou para mim, desde a hora em que percebi uma aranha que tecia sua teia acima de minha cama: ela era pequena, morena e ágil de patas. Na primeira noite ela desceu até mim, por um fio; suspensa acima de meus olhos, bordou sobre minhas pupilas uma teia sedosa e escura com reflexos furta-cor e luminosas flores púrpuras. Senti então perto de mim o corpo nervoso e rechonchudo de Ariane. Ela me beijou o peito, no lugar em que ele cobre o coração - e gritei com a queimadura. E nos beijamos longamente sem nada dizer. Na segunda noite ela estendeu sobre mim um véu fosforescente salpicado de estrelas verdes e círculos amarelos, percorrido por pontos brilhantes que correm e brincam entre eles, que crescem e diminuem, e que tremeluzem ao longe. E, ajoelhada sobre meu peito, fechou-me a boca com a mão; num longo beijo no coração, mordeu-me a carne e sugou-me o sangue até me arrastar para o vazio do desfalecimento. Na terceira noite ela me cobriu as pálpebras com um crepe de seda marata no qual dançavam aranhas multicores cujos olhos eram faiscantes. E me apertou a garganta com um fio sem fim; e puxou com violência meu coração para seus lábios pela ferida de sua mordida. Então deslizou por meus braços até minha orelha, para murmurar: "Sou a ninfa Aracnéia!" É claro, não sou louco; pois compreendi de imediato que minha bor-dadeira Ariane era uma deusa mortal, e que por toda a eternidade eu fora destinado a levá-la com seu fio de seda para fora do labirinto da Humanidade. E a ninfa Aracnéia me é reconhecida por tê-la libertado de sua crisálida humana. Com precauções infinitas, ela me envolveu o coração, meu pobre coração, com seu fio pegajoso; cingiu-o com mil voltas. Todas as noites ela aperta as malhas entre as quais este coração humano endurece como um cadáver de mosca. Eu me unira para todo o sempre a Ariane ao lhe apertar a garganta com sua seda. Agora Aracnéia me uniu para todo o sempre a ela ao me estrangular o coração. Por essa ponte misteriosa visito à meia-noite o Reino das Aranhas, do qual ela é rainha. É preciso atravessar aquele inferno para me balançar mais tarde sob a luz das estrelas. As aranhas dos bosques por lá correm com lanternas luminosas nas patas. As migalas5 têm oito terríveis olhos cintilantes; de pêlos eriçados, lançam-se sobre mim nos desvios dos caminhos. Ao longo dos pântanos onde tremem as aranhas d'água, em cima de grandes pernas de pedipalpos, sou arrastado para as rondas vertiginosas em que dançam as tarântulas. As epeiras me espiam do centro de seus círculos cinzentos percorridos por raios. Fixam em mim as inúmeras facetas de seus olhos, como num jogo de espelhos para aprisionar cotovias, e me fascinam. Ao passar sob as matas, véus viscosos me fazem cócegas no rosto. Monstros aveludados, de patas rápidas, me esperam, acocorados nas brenhas. Ora, a rainha Mab é menos poderosa que minha rainha Aracnéia. Pois essa última tem o poder de me fazer transportar em sua carruagem maravilhosa que corre ao longo de um fio. Sua gaiola é feita da casca dura de uma gigantesca migala, incrustado de cabochões facetados, talhados em seus olhos de diamante negro. Os eixos são as patas articuladas de um pe-dipalpo gigante. Asas transparentes, com rosáceas de nervuras, erguem-na golpeando o ar com batidas rítmicas. Nela nos balançamos durante horas; então de repente desfaleço, esgotado pelo ferimento em meu peito que Aracnéia revolve sem cessar com seus lábios pontudos. Em meu pesadelo vejo inclinados sobre mim ventres constelados de olhos e fujo à frente de patas rugosas carregadas de fios. Sinto agora com nitidez os dois joelhos de Aracnéia que deslizam sobre minhas costelas; e o gluglu de meu sangue que sobe para sua boca. Meu coração logo estará seco; permanecerá então envolto em sua prisão de fios brancos, - e eu fugirei através do Reino das Aranhas em direção à treliça ofuscante das estrelas. Pela corda de seda que me atirou Aracnéia, assim escaparei com ela - e lhes deixarei - pobres loucos - um cadáver pálido com um tufo de cabelos louros que o vento da manhã fará tremular. 5 Gênero de aranhas de grande porte que vivem nos trópicos e fabricam teias de fios resistentes, em que capturam pequenos pássaros; aviculárias.

"O possesso" ("Le possédé"). LORRAIN, jean. Sensations et souvenirs. Paris: Phénix Editions, 2004.



TRADUÇÃO DE LÉO SCHLAFMAN Jean Lorrain (1855-1906) -pseudônimo de Paul Duval - "não nasceu para ser canonizado", segundo o eufemismo de T. d'Anthonay. Jornalista corrosivo, descobridor de talentos e demolidorde reputações, escritor decadente, figura social escandalosa, dândi, homossexual e drogado (eterômano), ele ainda teve tempo de publicar cerca de setenta títulos, hoje esquecidos. (Salvo erro, em 2006, nas livrarias parisienses só havia um desses títulos reeditados: Histories de masques.J Foi autor muito conhecido nofm do século XIX, da mesma geração de Catulle Mendes (vide "O comedor de sonho") e de outros "decadentes", parnasianos ou pós-parnasianos. O uso abusivo de éter, que acabou com sua saúde, ao final, tem a ver com a criação do clima entre o sombrio e o sórdido de grande parte de seus escritos. Mesmo sua obra-prima (um conto que permanece, porque perpetuado em antologias do conto fantástico, como a de ítalo Calvino), "Les trous du masque", conto aliás que marcou muito nosso João do Rio, de "História de gente alegre", também traz essa "marca" do uso de aditivos químicos. Sobre ele, escreveu Calvino: "este conto sobre as máscaras e sobre o nada tem a força incomum de pesadelo, sobretudo porque o narrador consegue contemplar a desaparição de si próprio." ...a aniquilação do sujeito pela droga: eis a insanidade final do "adido". O conto que pesquisamos e escolhemos para nossa antologia, praticamente desconhecido, vale aqui pelo mesmo tom clima: embora o narrador se diga curado (quando se sabe que não há cura; há apenas suspensão do uso), é a visão distorcida, cruel, sofrida, sem nada de esperança ou compreensão aceitação em relação aos outros, vista através da simples passagem de um dia que seria (para os outros) normal. Mas

O POSSESSO (3? o narrador- Lorrain - não se abebera aqui do real objetivo: ele bebeu éter. E a insanidade passa pelo olhar e toma conta do "julgamento" do que vê e ouve. Decadente ou malleuresement profético? Ao doutor Albert Robin - Sim - disse-me Serge. - Devo partir. Não posso mais continuar aqui. E não é porque esteja tinindo de frio, pois todo meu organismo se esfriou pelos litros de sangue que os cirurgiões me extraem há meses. A caixa torácica ainda está boa, graças a Deus! E, com todos os cuidados, sinto-me relativamente seguro quanto aos meus brônquios. Mas não posso mais hibernar aqui, porque, a partir das primeiras tempestades de novembro, fico alucinado, quase louco, à beira de uma obsessão realmente horrível. Em resumo: tenho medo. E, diante da fixidez de meu olhar, disse: - Ah! Não acredite em perturbações provocadas pelo éter! Estou curado, radicalmente curado; estou mesmo intoxicado do veneno que, há apenas dois anos, produzia em todo meu ser uma alacridade de ar mais vivo com não sei que deliciosa sensação de imponderável; o éter hoje me domina braços e pernas, e guardei durante três dias em todos os membros uma verdadeira dor muscular, da última vez, há um ano, quando o consumi. "De resto, por que o consumiria? Não tenho mais insônias nem opressões no coração. Esses inchamentos e esses pesos de esponja do lado esquerdo, essas atrozes sensações de agonia que me jogavam bruscamente no leito, como o frêmito do orgasmo, em minha pele úmida, tudo isso é para mim um pesadelo longínquo, como uma vaga lembrança dos contos de Edgar Poe lidos na meninice, e, de fato, quando penso neste triste período de minha existência, creio tê-lo menos vivido e mais sonhado. "No entanto, devo partir. Cairia doente nesta Paris espectral e assombrada de novembro; porque o mistério de meu caso é que tenho terror não mais do invisível, mas da realidade." - Da realidade? E como eu acentuasse intencionalmente essas palavras, um pouco desconcertado pela última confissão, ele disse: - Da realidade! - e Serge escandiu cada sílaba. - É na realidade que eu me torno visionário. São os seres em carne e osso, é o transeunte, a transeunte, os próprios anônimos na multidão, acotovelados, que me aparecem em atitude de espectros, e é a feiúra e a banalidade mesmo da vida moderna que me gelam o sangue e me entorpecem de terror. E, sentando-se bruscamente a um canto da mesa: - Não é de hoje, você sabe, que tenho visões. Quando eu era vítima miserável do éter, você me viu em dois anos mudar três vezes de apartamento para escapar à perseguição de meus sonhos. Eu literalmente povoava os quartos de fantasmas. Eles estavam dentro de mim e, quando eu me encontrava sozinho em qualquer cômodo fechado, a atmosfera ambiente, toda efervescente de larvas, como uma gota d'água vista ao microscópio com seus micróbios e infusórios, deixava transparecer, aos meus olhos, medonhas faces de sombra. Era a época em que eu não podia olhar a solidão de meu gabinete de trabalho sem ver surgir equívocos pés nus na fresta de baixo da porta ou estranhas mãos pálidas nas dobras da cortina, a terrível época enfim em que o ar que eu respirava estava envenenado por horríveis presenças e onde eu me esvaía, cansado de lutas incessantes contra o desconhecido, meio louco de angústia em meio a lívidos rastejamentos de sombras e inumeráveis leves toques. "Mas como tudo isso está longe! Estou curado, graças a Deus! Reencontrei o apetite e o sono dos 20 anos, durmo como pedra, devoro comida feito um ogro e, neste verão, galguei a montanha com entusiasmo de estudante. Mas é preciso que eu vá embora, e com rapidez, porque a ignóbil neurose me espiona e me espera. O medo está em mim, e eu, que me conheço, tenho medo deste medo." Serge se levantara. Percorria a peça a grandes passos, mãos cruzadas às costas, o rosto como que hesitante e os olhos grudados no tapete de lã grossa. De repente, ele estacou. - Você reparou como a feiúra das pessoas na rua, pessoas humildes, operários indo para o trabalho, burocratas, donas de casa e empregadas do mésticas, exaspera-se e se agrava com aspectos quase fantásticos no interior dos ônibus? Com os primeiros frios isso se torna terrível. Trata-se de cuidado quotidiano com as pequenas necessidades, o peso deprimente das preocupações mesquinhas, o terror dos fins de mês, os vencimentos e as dívidas que jamais serão pagas, a lassitude das pessoas sem dinheiro diante da vida, uma vida insípida e sem imprevistos, toda tristeza pelo fato mesmo de existir sem um pensamento elevado na cabeça ou um grande sonho no coração? Jamais vi, em parte alguma, caricaturas mais ignóbeis do rosto humano! Isso se torna alucinante. É sentimento da feiúra de repente posta face a face, brusca distensão do organismo esquecendo-se por um minuto da doçura agradável das banquetas sem assento ou a deletéria influência da atmosfera empestada? Mas súbito avacalhamento parece se apoderar dos seres amontoados ali; os que estão de pé lutam ainda, preocupados animalescamente para não cair da plataforma; mas as senhoras gordas desabadas nos quatro cantos do interior, os velhos operários de dedos nodosos, as nucas contraídas pelo frio, os pobres cabelos rarefeitos, e a fisionomia dissimulada das empregadas que vão às compras, o ar clorótico e vicioso, os olhos oblíquos, sempre transtornados de um lado ao outro sob as pálpebras frouxas, indivíduos suspeitos abotoados até o pescoço que jamais mostram a roupa branca; pode existir, meu caro, sob a terna claridade de um dia de novembro, espetáculo mais sombrio e repugnante do que o interior de bonde? O frio do lado de fora endureceu todos esses traços, congelando os olhares e contraindo os rostos como que pondo um capacete em suas cabeças. Os olhares sem brilho, sem expressão, são olhares de loucos ou de sonâmbulos. É pior quando eles pensam, porque o pensamento é ignóbil ou sórdido e os olhares, criminais. Só se vê passar por eles rasgos de lucro e roubo. A luxúria, quando surge, é venal e espoliativa; cada um, em seu foro íntimo, só pensa em meios de pilhar e enganar o próximo. A vida moderna, luxuosa e dura, fez desses homens e dessas mulheres almas de bandidos ou de guardas das galés. A inveja, o ódio e o desespero de ser pobre geram em uns cabeças achatadas e amargas, faces aguçadas e retorcidas de basbaques e de víboras. A avareza e o egoísmo dão, a outros, focinhos de velhos porcos com mandíbulas de tubarões, num bes-tiário (em que cada baixo instinto adquire a força de traços de animal, numa jaula rolante, cheia de feras e de batráquios comicamente vestidos como os personagens do desenhista Crandville, de calças, xales e vestidos modernos) em que viajo e circulo desde o começo do mês. E tudo porque não tenho 25 mil francos de renda e ando de bonde como meu porteiro. Pois bem, esta perspectiva de coabitar, nem que seja por uma hora a cada dia, com homens de cabeça de suíno e mulheres com perfil de galinha, homens da lei semelhantes a corvos, vadios de olhar de lince e moços de recado de modistas, com as faces achatadas de lagartos, esta promiscuidade forçada com tudo que é ignóbil e vil da alma humana refluindo de repente à flor da pele, isso está acima de minhas forças; tenho medo, você compreende essa palavra? Tenho medo! Outro dia, não mais longe do que sábado, a impressão de pesadelo foi tão forte (era no trajeto do Louvre a Sèvres e a aflição de uma paisagem de subúrbio, o cais deserto da avenida de Versailles exacerbavam talvez ainda mais a angustiante feiúra desses rostos), fiz o bonde parar e desci em plena solidão da orla do Point-du-Jour. Não podia mais suportar; tinha, aguçado pela necessidade de gritar por perdão, a consciência de que as pessoas sentadas diante e ao redor de mim eram seres de outra raça, metade animais, metade homens, espectros com vida, produtos ignóbeis de coitos monstruosos, antropóides mais próximos do animal do que do homem, encarnando cada um deles o instinto baixo e malfazejo de animais fétidos, grandes animais carniceiros, ofídios ou roedores. Havia, entre outros, bem na minha frente, uma burguesa chata e seca de longo pescoço granulado como o da cegonha, de dentinhos duros e afastados em boca escancarada de peixe, cujo olho de pálpebra membranosa, de pupila extraordinariamente dilatada e aberta, assustava. Esta mulher era a estupidez em pessoa, incarnava-a e a identificava de maneira definitiva, e um pavor crescente me atingia, o pavor de que ela abrisse a boca e emitisse uma palavra na minha direção. Ela teria, estou certo, cacarejado como galinha. Esta mulher vinha do galinheiro, e uma grande tristeza, uma pungência infinita, apoderou-se de mim diante desta degenerescência do ser humano. Um camafeu afivelava as duas fitas do seu chapéu de veludo violeta claro. Preferi descer; e todos os dias, de bonde, de ônibus, até de trem, onde a hediondez dos rostos espectrais se mostra horripilante à noite, à luz das lâmpadas, os mesmos perfis de animais se desprendem lentamente das faces entrevistas, e isso só para mim, nada além de mim. É uma possessão, o que você acha? Assim, tomei minha decisão. Vou fugir deste inferno. Devo partir.

"O comedor de sonho" ("Le mangeur de rêve"). MENDES, Catulle. http:www.bmlhieux.com archives meridesoT.btm - Bibliothèque Municipale de Lisieux, 2001.



TRADUÇÃO DE LEO SCHLAFMAN "Você é a chave falsa do paraíso!", exclama o narrador deste comedor de sonho e drogas. Catulle Mendes (1841-1909) é emblemático do estilo fin de siécle rancês, herdeiro do romantismo de Théophile Gautier e Leconte de Liste, poeta parnasiano, autor de romances eróticos e peças de teatro. Como tantos outros autores de várias gerações de épocas aproximadas - de Baudelaíre, passando porjean Lorrain, atéjean Cocteau -, Mendes conheceu as drogas (éter, ópio, haxixe) na própria pele mente. No caso deste texto, o haxixe. Seu próprio diagnóstico: "Mas você vende caro os êxtases, Haxixe! O céu se transforma em inferno. Um inferno especial, onde aguarda este único e insuportável suplício, o mais insuportável de todos: a solidão imensa, eterna, a náusea infinita". E inferno, no caso, não seria sinônimo de loucura (química) induzida? É uma exceção? Não. Eles já são numerosos, e serão mais numerosos ainda se a história que vou contar - que devo contar - não provocar, pelo pânico e o horror, a reação à sua vida nervosa e enfraquecida, para redespertar a vontade adormecida. Ele passeia pela cidade, queixo caído no peito, braços desamparados. Aparenta 50 anos, sem dúvida. Porém os mais enfastiados dos cinqüentões, aqueles a quem a devassidão imunda e árdua deixou mais extenuados, destruídos e aviltados, não têm este modo de andar errante, que vacila, apalpa o ar, apóia-se às paredes. Nos olhos desmedidamente abertos, fixos, onde jamais se percebe o bater das pálpebras - duas ágatas amarelas, sem brilho - há o embrutecimento nulo dos olhos dos velhos cegos. Diante de qualquer coisa, pareciam nada ver, como que mortos, espécie de contemplação do nada pelo nada. A face, de um amarelo liso, cuja pele muito tensa não tinha uma só dobra viva, assemelha-se ao rosto de um cadáver ainda insepulto, e faz sonhar também com a cabeça de um morto, bem polida. Pode-se dizer que, assombrada um dia por qualquer visão espantosa, conserva eternamente a lí-vida imobilidade estupefacta do medo. Se o interrogam, ele jamais responde; mas ouve, porque estremece com o sobressalto de um animal adormecido que recebe uma paulada: afasta-se para o lado, as mãos unidas sob o queixo, e se retrai para um canto, assustado. A voz - porque lhe ocorre falar, não aos outros, mas a si mesmo - é às vezes muito débil e fina, quase imperceptível, semelhante à vibração de um chamariz de caça, como se descesse de muito alto, às vezes espessa e pesada, ou originária de alguma profundidade roufenha; mas é sempre o ruído de alguma coisa em vez de uma fala humana. Depois de cada palavra a boca permanece aberta durante um bom tempo, e então a língua exausta pende para fora dos dentes pretos como os de um negro que masca tabaco e, comprida, agita-se como a língua de um cão bebendo água. É visto por toda a parte, a qualquer hora! Nas ruas, agitadas pelo estrondo das rodas que roçam por ele, nas avenidas tumultuadas onde a multidão lhe pisa nos pés, ele se movimenta perpetuamente, vago destroço ao sabor da corrente. Abatido, cheio de um pavor que amedronta, ele tem o ar de um ressuscitado que continuaria, por intermédio da vida e do dia, a lenta caminhada iniciada na sombra do túmulo ao redor do caixão reaberto. No entanto, este homem não tem 50 anos. Mal chegou aos 30; e antigamente era bonito, a juventude generosa lhe inflava o peito, punha-lhe risos nos lábios, chamas no olhar e, na testa, o esplendor da vida! Quando saía às ruas banhadas pelo Sol, sentia subir à garganta rajadas quentes de alegria. Era jovem e feliz, com arrebatamento, tendo, no espírito, o sonho e, no coração, o amor. Artista, perseguia, e ia atingir, com a certeza dos primeiros impulsos, o ideal altivo; amante, conhecia a suprema delícia de ser o marido da mulher a quem adora, e de vê-la sorrir, à noite, adormecida, a cabeça emoldurada pelos belos cabelos. Ó orgulho! Ó bem-estar! A glória chegaria em breve, e ele já tinha a ternura. A alegria e a esperança estimulavam perdidamente seu ser; perdulário de si mesmo, pronto para todos os atrevimentos nobres, leal como o juramento de uma virgem, bravo como a espada do herói, ele era a própria juventude, expansiva etriunfante! Mas um dia - por uma curiosidade perversa, ou para espantar o tédio de algum instante, ele entrou, como Romeu no boticário de Mântua, na detestável loja onde se vende a pasta verde que contém a Danação e a Morte; e voltou a ela com freqüência, muita freqüência. Ó deliciosa e sinistra droga! Seja a pasta espessa, aglutinada em bolas, para mascar ou aspirar no cachimbo, ou disfarçada, com requinte, em pílulas prateadas - davamesque ou haxixina - você é terrível, Haxixe! Sim, você é adorável; sim, você proporciona o langor requintado ou a alegria desenfreada, a paz como Deus, ou o orgulho desenfreado como Satã; sim, você oferece o esquecimento! Fora da mediocridade da vida real, longe da futilidade servil e dos deveres mesquinhos, o homem, com você, eleva-se, com as asas da libertação, à quimera e à vitória. Você é a chave falsa do paraíso! Mesmo quando não cria, você transforma. Você abre os horizontes; faz de uma rosa uma floresta de rosas, de um casebre um palácio, de uma lanterna o Sol. Aquele que pertence a você beija a boca de Beatriz nos lábios de uma rapariga de cabaré e encontra o puro êxtase do primeiro amor. Você também diz: "Serei como os deuses", e mantém a promessa. Aquele que cobiça o ouro ouve despencar ao redor niágaras suntuosos de moedas. Aquele que aspira a glória dos Dantes e dos Shakespeares vê se precipitar à sua passagem o entusiasmo desvairado das multidões. E, ao que sente a tentação do triunfo dos líderes militares, você toca os clarins heróicos e tremula por entre os estandartes vitoriosos. Mas você vende caro os êxtases, Haxixe! O céu se transforma em inferno. Um inferno especial, onde aguarda este único e insuportável suplício, o mais insuportável de todos: a solidão imensa, eterna, a náusea infinita. Se você se limitasse, ó temível Senhor, a apagar os olhares, a apagar o sorriso, a colocar na face a palidez dos cadáveres, a arquear os ombros, a fazer da virilidade algo que se assemelha a um trapo que cai, seus escravos ainda agradeceriam, por causa da lembrança de dádivas inefáveis! O que é sofrer no corpo para aqueles a quem foram concedidos todos os êxtases da alma divinizada? Ai de mim, você é um carrasco sutil. De tanto exasperar as forças vivas dos corações e dos espíritos, você quebra os corações, você mata os espíritos. Nada do que deve ser amado parece mais digno de amor, nada do que pode ser sonhado parece digno de um pensamento. Para que viver? O céu vale um olhar? Que mulher vale um beijo? O resultado é uma indiferença enfastiada, não se sabe quanto desgosto, passivo. O sentimento do dever fica abolido para sempre. O respeito de si mesmo cai para debaixo dos pés, como se fosse uma coisa sobre a qual se pode pisar. A consciência, sobrecarregada durante muito tempo por delícias culpáveis, cede finalmente, fraqueja como o estômago de um bêbado, sequer tem remorsos, abandona-se a um tédio opaco e mole, como num vômito. Outro dia, na avenida, o miserável de quem contei a história foi insultado por um passante que ele acotovelou: fugiu como criança que apanha, voltando às vezes a cabeça, temendo ser perseguido! Nem mesmo sabe o que significam estas palavras majestosas: arte, glória, beleza. Ele é ainda um homem? Não. É alguém que come, bebe, dorme, e, desperto, caminha sempre para a frente, sem objetivo, sem pensamento. A mulher eleita, a esposa infinitamente adorada, de quem ele beijava os joelhos como um devoto beija o altar, é para ele como se não existisse mais. Ele deixa de ver as emanações que ela tem nos olhos, a rosa que ela tem na boca. Cansada desse companheiro lúgubre e covarde, tomou um amante; ele sabe, pois não pode ignorar; o amante está sempre lá, dando ordens aos criados, comandando o jantar, tratando a amante com intimidade diante de todo mundo, dizendo, à noite: "Já é tarde, venha se deitar." Mas ele não se irrita, nem mesmo se espanta. Aceita os fatos. Jamais se revolta. Como tem por leito um sofá na sala de estar, ouve os estalidos dos beijos e os risos no quarto vizinho. Não é apenas um imbecil, mas um ser abjeto. Não trabalha mais, é pobre: o apartamento em que reside, as roupas que veste, o pão que come, o tabaco que fuma, é o amante quem paga. Assim seja! Não diz não, aceita tudo, ou nem sonha com isso. É abjeto, não importa. Ele se abate cada vez mais na irremediável inércia do tédio. E viverá assim - não vivo - até a hora em que, passando, uma bela tarde, sobre uma ponte, e olhando para o reflexo, na água azul, dos revérberos e das estrelas - pálidas lembranças das primeiras visões esplêndidas do haxixe - se deixará cair no rio, sem desespero, apenas por causa do momento, como se continuasse a caminhar. Revistando o corpo do afogado, vão encontrar no bolso um pouco da pasta verde, misturada ao tabaco, fétida.

"Histórias de gente alegre". RIO, João do. Os melhores contos de João do Rio. Org. Helena Parente Cunha. Global, 1990.



Um dos contos mais famosos de João do Rio (1881-1921) este "Histórias de gente alegre", que de alegre nada tem pois é uma viagem soturna às vidas vazias da Belle Époque do Rio de Janeiro, que por sua vez de belle só tinha o arremedo da referência parisiense, este conto, enfim, é o que melhor representa a vivência brasileira relacionada ao tópico "Loucura e drogas" da nossa antologia. O conto, sem cair em psicologismos, é um retrato de costumes, um retrato retocado da elite carioca, ou fuminense, com se dizia na época, "bela" época. O ano da publicação é 1910 - e as drogas então eram morfina, éter, ópio, haxixe. Passado um tempo - e chegando até mais próximo de nós, entre os anos 1950 e os anos 1990 do século XX, as drogas "da moda" das nossas elites eram outras: LSD, cocaína, maconha, haxixe, hoje somadas às drogas sintéticas consumidas pela juventude. Mas a essência da história era é a mesma. E os resultados também, tantas vezes, como no conto, terminam em drama ou tragédia. Ou não?

O terraço era admirável. A casa toda parecia mesmo ali pousada à beira dos horizontes sem fim como para admirá-los, e à luz dos pavimentos térreos, a iluminação dos salões de cima contrastava violenta com o macio esmaecer da tarde. Estávamos no Smart Club, estávamos ambos no terraço do Smart Club, esse maravilhoso terraço de vila do Estoril, dominando um lindo sítio na praia do Russel - as avenidas largas, o mar, a linha ardente do cais e o céu que tinha luminosidades polidas de faiança persa. Eram sete horas. Com o ardente verão ninguém tinha vontade de jantar. Tomava-se um aperitivo qualquer, embebendo os olhos na beleza confusa das cores do ocaso e no banho verde de todo aquele verde em derredor. As salas lá em cima estavam vazias; a grande mesa de bacarat, onde algumas pequenas e alguns pequenos derretiam notas do banco - a descansar. O soalho envernizado brilhava. Os divãs modorravam em fila encostados às paredes - os divãs que nesses clubes não têm muito trabalho. Os criados vindos todos de Buenos Aires e de São Paulo, criados italianos, marca registrada como a melhor em Londres, no Cairo, em Nova York, empertigavam-se. E a viração era tão macia, um cheiro de saisugem polvilhava a atmosfera tão levemente, que a vontade era de ficar ali muito tempo, sem fazer nada. Mas a noite já estendia o seu negro brocado picado de estrelas e no plein-air do terraço começavam a chegar os smart-dinners. Que curioso aspecto! Havia franceses condecorados, de gestos vulgares, ingleses de smoking e parasita na (apela, americanos de casaca e também de brim branco com sapatos de jogar o futebol e o lawn-tennis, os elegantes cariocas com risos superficiais, risos postiços, gestos a contragosto do corpo, todos bonecos vítimas da diversão chantecler, os noceurs habituais, e os michês ricos ou jogadores, cuja primeira refeição deve ser o jantar, e que apareciam de olheiras, voz pastosa, pensando no bac chemin defer, no nove de cara e nos pedidos do último beguin. O prédio, mais uma vila da bacia do Mediterrâneo, ardia na noite serena, parecia a miragem dos astros do alto; as toalhas brancas, os cristais, os baldes de christofle tinham reflexos. Por sobre as mesas corria como uma farândula fantasista de pequenas velas com capuchons coloridos, e vinha de cima uma valsa lânguida, uma dessas valsas de lento inebriar, que adejam vôos de mariposa e têm fermatas que parecem espasmos. No meio daquela roda de homens, que se cumprimentavam rápidos, dizendo apenas as últimas sílabas das palavras; - B'Jour - iam chegando as cocotes, as modernas Aspásias da insignificância. Algumas vinham a arrastar vestidos de cinco mil francos; outras tinham atitudes simplistas dos primitivos italianos. Havia na sombra do terraço um desfilar de figuras que lembravam Rosseti e Hellen, Mirande e Herman-Paul, Capielo e Sem, Julião e também Abel Faivre, porque havia cocotes gordas, muito gordas e pintadas, ajaezadas de jóias, suando e praguejando. Falavam todas línguas estrangeiras - o espanhol, o francês, o italiano, até o alemão com o predomínio do parigot, do argot, da langue verte. Só se falava mesmo calão de boukvard. Fora, à entrada paravam as lanternas carbunculares dos autos, havia fonfons roucos, arrancos bruscos de máquinas sessenta H.P. Aquele ambiente de internacionalismo à parisiense cheio de rumor de risos, de gluglus de garrafas, de piadas, era uma excitação para a gente chique. O barão André de Belfort, elegantíssimo na sua casaca impecável, convidara-me para um jantar a dois em que se conversasse de arte antiga - porque ele tinha estudos pessoais sobre a noção da linha na Grécia de Péricles. Evidentemente, antes de terminar o jantar teríamos a mesa guarnecida por alguma daquelas figurinhas escapadas da Tanagra ou qualquer dos monstros gordos circulantes... De súbito, porém, na alegria do terraço ouvi por trás de mim uma voz de mulher a dizer: - Pois então não sabes que a Elsa morreu hoje de madrugada? Não me voltei. A mulher conversava noutra mesa. Mas senti um pasmo assustado. Elsa! Seria a Elsa d'Aragon, uma carnação maravilhosa de 18 anos, lançada há apenas um mês por um menager de musíc-hall, cuja especialidade sexual era desvirginar meninas púberes? Seria ela com os seus olhos verdes, a pele veludosa de rosa-chá e aquela esplêndida cabeleira negra de azevíche? E morrer em plena apoteose, cheia de jóias e de apaixonados! Indaguei de meu conviva: - Morreu a Elsa d'Aragon? O barão Belfort encomendava enfim o cardápio. Acabou tranqüilamente a grave operação, descansou o monóculo em cima da mesa. - Exatamente. Parece que a apreciavas? Pobre rapariga! Foi com efeito ela! Morreu esta madrugada. - De repente? - Com certeza. Devia ter sido uma linda morte. Beleza horrível. Não se fala noutra coisa hoje nas pensões de artistas, em todos os conventílhos elegantes patronados pelas velhas cocotes ricas, nas rodas dos jogadores. A Elsa era muito nature, com a fobia do artifício, mas soube morrer furiosamente. . - Como foi? Neste momento chegara a bisque e o balde com o Moet, brüt impéria-k, que o velho dândi bebe sempre desde o começo do jantar. O barão atacou a bisque, deu não sei que ordem ao maitre d'hôtel, e murmurou: - É uma história interessante. Você decerto ainda não quis fazer a psicologia da mulher alegre atirando-se a todos os excessos por enervamento de não ter o que fazer? Quase todas essas criaturas, altamente cotadas ou apenas de calçada, são, como direi, as excedidas das preocupações? São sempre enervadas, paroxismadas. O meio é atrozmente artificial, a gargalhada, o champagne, a pintura encobrem uma lamentável pobreza de sentimentos e de sensações. Ao demais, a vida tem um regulamento geral de excessos, e elas fatalmente, pela lei, têm de fazer pagar caro e arruinar os idiotas, têm de amar um rapazola miserável que lhes coma a chelpa e as bata, têm de embriagar-se e discutir os homens, os negócios das outras, tudo mais ou menos exorbitando. Uma paixão de cocote é sempre caricatural, é sempre para além do natural, do verdadeiro, e a sua pobre vida, tenha ela centenas de contos ou viva sem um real pelas bodegas reles, é sempre uma hipótese falsificada de vida, uma espécie de fiorde num copo d'água, à luz elétrica. Todas amam de modo excepcional, jogam excessivamente, embriagam-se em vez de beber, põem dinheiro pela janela afora em vez de gastar, quando choram, não choram, uivam, gemem, cascateiam lágrimas. Se têm filhos, quando os vão ver fazem tais excessos que deixam de ser mães, mesmo porque não o são. Duas horas depois os pequenos estão esquecidos. Se amam, praticam tais loucuras que deixam de ser amantes, mesmo porque não o são. Elas têm várias paixões na vida. Cinco anos de profissão acabam com a alma das galantes cria-turinhas. Não há mais nada de verdadeiro. Uma interessante pequena pode se resumir: nome falso, crispação de nervos igual à exploração dos gigolôs e das proprietárias, mais dinheiro apanhado e beijos dados. São fantoches da loucura movidos por quatro cordelins da miséria humana. - A Elsa, então? - A Elsa foi atirada subitamente numa pensão do Catete. Sabes o que é a vida em casas de tal espécie. Elas acordam para o almoço, em que aparecem vários homens ricos. O almoço é muito em conta, os vinhos são caríssimos. A obrigação é fazer vir vinhos. Desde a manhã elas bebem champagne e licores complicados. Nesses almoços discute-se a generosidade, a tolice ou a voracidade dos machos. A tarde é dada a um ou a dois. Às cinco, toilette e o passeio obrigatório. À noite, o jantar, onde é preciso fazer muito barulho, dançar entre cada serviço, ou mesmo durante, dizer tolices. Depois os passeios aos music-halls, com os quais têm contrato as proprietárias, e a obrigação de ir a certo clube aquecer o jogo. Cada uma delas tem o seu cachê por esse serviço, e são multadas quando vão a outro - que, como é de prever, paga a multa. O resto é ainda o homem até dormir. Nesse fantochismo lantejoulado há vários gêneros: o doidivana, o sério, o reservado, o nature, o romântico, e para encher o vazio, os vícios bizarros surgem. Elas ou tomam ópio, ou cheiram éter, ou se picam com morfina, e ainda assim, nos paraísos artificiais, são muito mais para rir, coitadas! mais malucas no manicômio obrigatório da luxúria. A Elsa era do gênero nature. Ancas largas, pele sensível, animal sem vícios. Tentou os petimetres, os banqueiros fatigados, os rapazes calvos e, com oito dias, estava com os nervos esgarçados, estava excedida. Mesmo porque, desde a primeira hora olhava-a com o seu olhar de morte a Elisa, a interessante Elisa. - Ahi - Elisa é um tipo talvez normal nesse ambiente. Tem os cabelos cortados, usa eternamente um gorro de lontra. Nunca a vi com uma jóia e sem o seu ífl 7 eurcor-de-castanha. É feia, não deve agradar aos homens, mas presta-se a todos os pequenos serviços dessas damas. Escreve cartas, arranja entrevistas, tem conhecimentos, e dizem-na com todos os vícios, desde o abuso do éter até o unissexualismo. Ora, era Elisa com seus dois olhos mortos e velados que olhava Elsa, e Elsa sentia uma extraordinária repugnância, um nojo em que havia medo ao mais simples contato. Elisa sorria, a Elisa que está sempre nesses lugares, sem colete, com seu corpo de andrógino morto. E era em toda parte aquele mesmo olhar acompanhando Elsa, pregando-se a todos os seus gestos, lambendo cada atitude da criatura. Uma noite, as duas Lacroix Ducerny, as que vestem sempre iguais e fazem fortuna em comum, asseguraram-me que Elisa já não servia para nada, perdida, louca de paixão; e, com grande pasmo meu, ao entrar num clube ultra-infame, eu vi a Elsa com um conhecido banqueiro e, muito naturalmente, Elisa ao lado. Era a aproximação... - Safa! - Meu caro, nada de repugnâncias. Prove este faisão. Está magnífico. Ora, ontem, no Casino, como a pobre Elsa estava totalmente fora dos nervos e com um vestido verdadeiramente admirável, tive prazer em ir apertar-lhe a mão. - Então, como vai esta vida? - Como vê, muito bem. - Mas está nervosa. - Há de ser de falta de hábito. Acabo por acostumar. - Com um tão belo físico... - Não seja mau, deixe os cumprimentos. - E de súbito:

- Diga-me, barão, não há um meio da gente se ver livre disto? Não posso, não tenho mais liberdade, já não sou eu. Hoje, por exemplo, tinha uma imensa vontade de chorar. - Chore, é uma questão de nervos. Ficará decerto aliviada. - Mas não é isso, não é isso, homem! - Se a menina continua a gritar, participo-lhe que vou embora. - Não, meu amigo, perdoe. É que estou tão nervosa! tanto! tanto... Queria que me desse um conselho. - Para quê? - Para aliviar-me. - É difícil. Você sofre de um mal comum, a surme-nage do artifício. Eu podia dizer-lhe: recolha-se a um convento. Mas pareceria brincadeira e talvez viesse a morrer mística, a conversar com os anjos, como Swedenborg. Conheci algumas que acabaram assim. Podia também, se fosse um idiota, aconselhar a vida honesta. Mas isso seria impossível, porque o pesar de ter saído desta em que o desperdício é a norma, a saudade e as lembranças deixá-la-iam amargurada. Depois, não tem recursos, e teria sempre de pôr em circulação o seu lindo capital. - Barão, por quem é, fale-me sinceramente. - Então, minha filha, aconselho uma paixão ou um excesso, um belo rapaz ou uma extravagância. - Nesta roda não há belos rapazes. - De acordo, há, quando muito, velhos recém-nascidos. Mas é recorrer à multidão, passar uma noite percorrendo os bairros pobres, experimentar. Ou então, minha cara, um grande excesso: champagne, éter ou morfina... - Voltei-me para a sala. Num camarote fronteiro a Elisa olhava-me com os seus dois olhos de morta. - E se não a repugna muito, uma grande mestra dos paraísos artificiais, a Elisa. - Não fale alto, que ela percebe. - Então já a sabia lá? - Corri-a ontem do meu quarto, É um demônio. - O que ela faz... - Já sei, toda gente faz. - Mas naturalmente ela é excepcional. - Barão, vá embora. - Adeus, minha querida. - Quando dei a volta para falar a Elisa, já esta deixara vazio o camarote. - E então, como morreu a linda criatura? - Aceitando o meu conselho. A sua morte pertence ao mistério do quarto, mas devia ser horrível. Elsa partiu do music-hall diretamente para casa, pretextando ao banqueiro, que lhe ia pôr um pequeno palácio, a forte dor de cabeça - a clássica migraine das cocotes enfaradas ou excedidas. E apareceu na ceia da pensão como uma louca, a mandar abrir champagne por conta própria. Quando, por volta de uma hora, apareceu a figura de larva da Elisa, deu um pulo na cadeira, agarrou-lhe o pulso: - Vem, tu hoje és mi nha! Houve uma grande gargalhada. Essas damas e mais esses cavalheiros tinham uma grande complacência com a Elisa, e aquela vitória excitava-os. Elisa molemente sentou ao lado de Elsa, que bebia mais champagne, sentia afrontações e torcia os dedos da apaixonada por baixo da mesa. Era o desespero. Mimi Gonzaga assegurou-me que ela recebera uma carta da mãe logo pela manhã. No fim, Elsa, pálida e ardente, dizia: - Viens mon chéri, queje te baise! e mordia raivosamente o pescoço de Elisa. Via-se a repugnância, a raiva com que ela fazia a cena de Lesbos - pobre rapariga sem inversões e estetismos à Safo... A ceia acabou em espetáculo, e acabaria com todos os espectadores, se algumas mulheres, com ciúmes dos seus senhores - ah! como elas são idiotas! -, não os tivessem levado. Elsa, às 2:30h, fez erguer-se a Elisa, calada e misteriosamente fria. - Vão tomar morfina? - interrogou um dos assistentes - cuidado, hein? Elsa deu de ombros, sorriu, saiu arrastando a outra. E a desaparição foi teatral ainda. Os olhos verdes da Elsa, bistrados, a sua cabeleira desnastra, agarrando com um desespero de bacante a pastosidade oleosa e alourada da miserável que a queria. - Que horror! - A coitadinha aturdia-se. É o processo habitual. Para mostrar a sua livre vontade, caía na extravagância, agarrava o tipo que a repugnava, para mergulhar inteiramente no horror. Estive quase a acreditar que tivesse recebido uma lembrança dos parentes, e imaginei um instante a cena sinistramente atroz do quarto em que, enfim, como uma larva diabólica, o polvo louro da roda iria arrancar um pouco de vida àquela linda criatura ardente, ainda com uns restos de alma de mulher... Nunca pensei no fim súbito. Pelas cinco horas da manhã, a pensão acordava a uns gemidos roucos, que vinham do quarto de Elsa. Eram bem gritos estertorados de socorro. As mulheres desceram em fralda, os criados ergueram-se com o sorriso cínico habituado àquelas madrugadas agitadas de ataques e delírios histéricos. A porta do quarto estava fechada. Bateram, bateram muito, enquanto lá dentro o som rouco rouque-java. Foi preciso arrombar a porta. E a cena fez recuar primeiro a tropa do alcouce. Como luz havia apenas a lamparina numa redoma rosa. O quarto, cheio de sombra, mostrava, em cima das poltronas, as rendas e os dessous de renda da Elsa. Um frasco de éter aberto e empestava o ambiente. A Elisa, o corpo da Elisa, estava de joelhos à beira da cama. Os braços pendiam como dois tentáculos cortados. Inteiramente nua, o corpo divino lívido, os cabelos negros amarrados ao alto como um casco de ébano, Elsa d'Aragon, as pernas em compasso, a face contraída, ainda sentada, agarrava com as duas mãos, numa crispação atroz, a cabeça da Elisa. Era Elisa que rouquejava. Elsa estava bem morta, o corpo já frio. Devia ter havido luta, resistência de Elsa, triunfo da mulher loura e por fim até a morte, enquanto a outra se estorcia, apertava-a, arrancava-lhe os cabelos, machucava-lhe o rosto - aquele horror. Elsa entrara no nada debatendo-se, vítima de um suplício diabólico, mas no último espasmo as suas mãos agarraram a assassina. Quando esta, afinal satisfeita, quis erguer-se, sentiu-se presa pelos cabelos, tentou lutar, viu que a pobre era cadáver. E passou-se então para o monstro o momento do indizível terror, o momento em que se vê para sempre o mundo perdido, porque ficou imóvel rouquejando, de joelhos, a cabeça no regaço do cadáver, que mantinha nas mãos cerradas a massa dos seus cabelos de ouro. Os dedos, de resto, pareciam de aço. Uma das mulheres recorreu à tesoura para despegar a cabeça de Elisa das mãos do cadáver. Quando o corpo tombou no leito com o punhado da cabeleira nas mãos, o bando estremunhado viu surgir a face de Elisa, tão decomposta, tão velha, que parecia outra, como que aparvalhada. Houve um silêncio. O criado servia frutas geladas, esplêndidas pêras de Espanha e uvas das regiões vinhateiras da Borgonha. grandes uvas negras. O barão trincou de uma pêra. - Foi uma complicação para afastar a polícia e impedir notícias nos jornais que desmoralizariam a casa. Elisa seguiu horas depois para o hospício, babando e estertorando. A Elsa devia ter sido enterrada hoje à tarde. Tinha ainda nas mãos cerradas fios de cabelos louros, como se quisesse arrancar para o túmulo a prova desesperada da sua morte horrível. E mordeu com apetite a pêra. No salão de cima uma valsa lenta, chorada pelos violinos, enlanguescia o ar. Das mesas do terraço, entre a iluminação bizantina das velas de capuchons coloridos, subia o zumbido alegre feito de risos e de gorjeios de todas aquelas mulheres que o jantar alegrava.

"Morfina". CAMPOS, Humberto de. O monstro e outros contos. Rio de Janeiro: W.M. Jackson Inc. Editores, 1958.



Esquecido hoje, Humberto de Campos (1886-1934) foi um dos escritores mais prolíficos e populares de seu tempo: jornalista, memorialista, poeta, contista. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Autor de alguns dos contos mais, digamos, cruéis da literatura brasileira, como "Os olhos que comiam carne" (em Os melhores contos de medo, horror e morte, Nova Fronteira, 2005J. Entre outros, tampouco suave é seu olhar sobre o ser humano neste "Morfina", extraído do livro O monstro e outros contos (W. C.Jackson Editores, 1958). Uma senhora, uma droga e suas circunstâncias - vale aqui como um documento, embora em forma de ficção. Como todo texto que visa um impacto ou uma denúncia, o autor talvez carregue nas tintas. Mas, por intermédio dele, pode fazer o leitor, no seu próprio imaginário, uma visita fictícia, embora de base quase jornalística, a um sanatório particular do Rio de Janeiro dos anos 1920. A dependência química (termo que não existia na época, é claro) provoca uma tragédia numa família da alta burguesia - e não entre populares, como nos acostumamos a ver hoje. A morfina, droga de uso médico e hospitalar a princípio, transforma seu dependente e vítima às vezes em criminoso ou louco, conforme o caso e o conto - quando não detido seu uso a tempo. Quando o Carvalho Souto, meu companheiro de escritório, sofreu aquele acidente de automóvel em que fraturou duas costelas e o braço esquerdo, eu ia vê-lo quase diariamente à Casa de Saúde Santa Genoveva, na Tijuca. A solicitude persistente com que velava pelo meu amigo, fez-me, em pouco tempo, íntimo dos médicos do estabelecimento. E de tal maneira que, trinta e quatro dias depois, quando o Souto recebeu o boletim concedendo-lhe "alta", eu contava já um amigo novo, na pessoa amável e mansa do Dr. Augusto de Miranda, que exercia, então, ali, as funções de subdiretor. Filho de médico, e neto de médico, Miranda nascera, pode-se dizer, no quarto ano de medicina. Aos sete anos já utilizava o seu pequenino serrote de fazer gaiolas, serrando, com ele, a perna dos passarinhos que apareciam com alguma unha doente. Mediano de estatura, robusto de tórax, cabelos alourados e olhos entre o azul e o verde, o subdiretor da Casa de Saúde Santa Genoveva era uma figura grave e simpática. O rosto largo, e escanhoado, transpirava a energia serena e boa das almas fortes e tranqüilas. Daí a confiança que entre nós rapidamente se estabeleceu, a franqueza com que me falou, naquela manhã, de uma das suas doentes que ali se achava, ainda, hospitalizada. - Quer vê-la? Vamos... - convidou. A Casa de Saúde Santa Genoveva está situada, como se sabe, na Estrada Velha da Tijuca, em um ponto pitoresco, dominando a cidade. Ensom-bram-lhe as cercanias de antigo solar, algumas dezenas de mangueiras enormes, e árvores outras, de fronde compacta e agasalhadora. Sob uma dessas mangueiras, estirada em uma espreguiçadeira de pano branco e vermelho, achava-se uma senhora alta, de rosto longo e olhos cavados, mas apresentando na fisionomia cansada e enferma os traços da antiga distinção. Devia ter sido bela, com os seus cabelos negros de ondulação larga. E elegantíssima de porte, a avaliar pela graça do busto posto em relevo na postura em que se encontrava. - Preste atenção, vamos passando... Depois que você conhecer a história trágica de sua vida, voltaremos... - disse-me o Dr. Miranda. Entramos por uma estrada de mangueiras vetustas, e, enquanto caminhávamos lentamente na manhã fresca, o subdiretor, a voz tranqüila e pausada, me falava desta maneira: - Aquela senhora que acaba de ver, foi casada com um dos meus companheiros de turma na Faculdade, e é a heroína de uma das tragédias mais terríveis que vieram ter aqui dentro o seu desfecho... - O marido morreu? - indaguei. - Não. Ela, porém, o perdeu sem que ele morresse: está desquitada. As senhoras desquitadas, são, em nossa terra, as viúvas dos maridos vivos. Apanhou, no chão, um pequeno ramo que era uma nódoa na estrada limpa, e reatou: - Filha de um advogado que morreu sem fortuna, esta moça, aos dezessete anos, casou com o colega de que lhe falo, o qual fez um dos mais belos cursos do seu tempo, mas não foi igualmente feliz na vida prática. No primeiro ano de casamento, veio-lhe um filho. Linda criança! Vi-a uma tarde, na rua, em companhia do pai, e não esqueci, jamais, a sua graça infantil... Quatro anos depois de casados, foi esta senhora uma noite atacada de eólica hepática de extraordinária violência. O marido recorreu à terapêutica indicada no caso, mas inutilmente. Compadeceu-se, e aplicou-lhe uma injeção de morfina. A doente sentiu alívio imediato, e dormiu, até à noite. Ao acordar, pôs-se a gemer novamente, e, em seguida, a gritar. Nova injeção. Novo sono. No dia seguinte, à tarde, voltaram os gemidos queixando-se ela dos mesmos padecimentos. Gemia, debatia-se, gritava, reclamando a injeção. Profissional inteligente, o marido certificou-se de que, verdadeira a princípio, a dor, agora, era simplesmente simulada. A morfina havia exercido a sua influência funesta! Por isso, não deu a injeção. Desiludida de alcançar o que pretendia, a esposa calou-se. E a tranqüilidade voltou, de novo, à intimidade do casal. - E a tragédia? - Espere, que a história é longa... Ao fim de algumas semanas, começou o meu colega a observar na senhora uns ímpetos de temperamento, uns excessos de paixão que o encantavam, porque ele era homem, mas que o preocupavam porque era médico e o alarmavam porque era marido. Pôs-se vigilante, e descobriu a verdade terrível: a esposa, seduzida pelas sensações das injeções que ele lhe aplicara, era presa, já, da morfinomania, consumindo diversas ampolas por dia! A sua assinatura havia sido falsificada, já, por mais de uma vez, no papel do consultório, em receitas de responsabilidade, pondo em perigo a sua reputação profissional. O Dr. Miranda parou, por um momento, para acender um cigarro, e tornou: - Com a sua experiência de clínico, o marido compreendeu a ineficiência do seu esforço individual para salvar a companheira infeliz. Por esse tempo, havia chegado da Europa um colega nosso, o Dr. Stewenson, que se tinha especializado na Alemanha e na Suíça na cura da toxicomania. Era um belo espírito, e o marido daquela senhora foi à sua procura, e expôs lealmente o seu caso doméstico. Pediu-lhe que tomasse sob os seus cuidados a esposa, e levou-a, no dia seguinte, ao consultório. Stewenson marcou o início do tratamento para outro dia. A moça foi, sozinha. O médico fê-la entrar para o seu gabinete, e fechou-o a chave. Em seguida, encheu duas seringas, aplicando uma injeção na cliente, e outra em si mesmo. E rolaram, os dois, abraçados, como dois loucos... Stewenson era morfinômano, e o seu anúncio como especialista contra os entorpecentes não visava senão atrair as senhoras viciadas, conquistando companheiras para os seus delírios... - Que horror!... - Ao fim de algumas semanas, o marido da pobre moça descobria a extensão tomada pelo seu infortúnio. A esposa, ela própria, confessou-lhe tudo, fornecendo-lhe os elementos para apurar a verdade. E ele apurou que era duas vezes desgraçado: o Dr. Stewenson era amante de sua mulher!... Diante disso, veio a separação, com o desquite. Não tendo sido judicial, o meu antigo colega de turma passou a dar uma pensão à esposa, que fixou residência em um apartamento em Copacabana, ficando ele num hotel no centro da cidade. Ele era porém, um homem de temperamento apaixonado, e não podia esquecer a criatura a quem amara tanto, e que lhe havia dado as horas de paixão mais intensas da sua vida. Nenhuma outra mulher lhe satisfazia os sentidos e o coração. E ei-lo, na calada da noite, alta madrugada, abandonando o seu hotel e indo, secretamente, bater à porta do apartamento de Copacabana, tornando-se um dos amantes de sua antiga mulher. - Mas, isso é verdade? - perguntei, detendo-me. - É verdade, e é ciência - respondeu-me o Dr. Miranda. Havia, rodeando um tronco de mangueira, um banco circular, de pedra. Sentamo-nos. E o subdiretor da Casa de Saúde Santa Genoveva reatou: - A esposa, agora entregue a si mesma, continuava a tomar morfina, absorvendo doses espantosas. Uma tarde, achando-se em casa, encheu a seringa, e meteu a agulha na parte anterior da coxa. Apertou o sifão. O líquido desapareceu da agulha. No mesmo instante, porém, a pobre rapariga soltou um grito. Uma nódoa vermelha surgira-lhe diante dos olhos. E essa nódoa se transformou em chamas, em labaredas enormes, que a envolviam como se a tivessem precipitado numa fogueira. Um calor intenso, infernal, subia-lhe pelo corpo todo, e tudo era vermelho, tudo era fogo ante os seus olhos horrivelmente abertos. As mãos na cabeça, o pavor estampado na face, a infeliz gritou para a criada, que lhe fazia companhia: "Chamem meu marido, que eu estou morrendo!". Dizia, aos gritos, que estava sendo queimada viva, e rasgava as roupas, correndo pela casa, batendo-se nos móveis, pois que se achava completamente cega, não vendo senão línguas de fogo, chamas que se enrascavam no seu corpo, em furiosos turbilhões. Quando o ex-marido chegou, encontrou-a totalmente nua, o sangue a correr-lhe da testa. E descobriu, logo, a origem daquela crise: a agulha alcançara a artéria, entrando a morfina, diretamente, na circulação... Daí a sensação de incêndio dentro do qual se debatia, e a impressão de labaredas que a envolvessem e as tivesse diante dos olhos... Não podendo detê-la sozinho, chamou o ex-esposo dois empregados do prédio, que a subjugaram, e amarraram, inteiramente despida, na cama, afim de receber a única medicação aconselhável no caso, e evitar que se mutilasse na fúria com que se atirava pelo chão, pelos armários, pelas paredes... - Coitada! - Afinal, passou a crise. Dias e dias tinha ela permanecido entre a vida e a morte. Após as injeções sedativas desamarram-na. Mas ficara com os braços feridos, as mãos feridas, o rosto ferido... O ex-esposo foi, então, de uma solicitude acima de todo louvor... Não a abandonou um só instante. Amor ou piedade, o certo é que ficou a seu lado até que a viu fora de perigo... Um dos primeiros cuidados da pobre moça, logo que recobrou os sentidos, foi ver o filhinho, que contava, então, cinco anos, e ficara com o pai, que o internara em um colégio em Botafogo. O desejo era legítimo, e, ao vê-la melhor, o pai foi buscar o menino. A desventurada chorou muito, beijou muito o garoto, e, como fosse hora do almoço, o meu colega foi para a mesa, com outras pessoas da família que ali se achavam de visita, ficando a mãe e o filho no quarto próximo. De repente as pessoas que se encontravam à mesa ouviram um grito: "Corram que eu estou matando meu filho! Corram, pelo amor de Deus!". Correram todos, e soltaram, diante do que viam, um grito de terror. A morfinômana tinha as mãos crispadas em torno do pescoço da criança, e estrangulava-a sem querer! Queria retirar as mãos, e não podia! Ao contrário do seu desejo, os dedos cada vez mais se contraíam, comprimindo as carnes do pequenito, que se tornara roxo, e cuja língua saía, já, da boca, com um filete de sangue... "Salvem meu filho!... Matem-me, mas salvem meu filho!...", gritava a pobre. Bateram-lhe nas mãos até lhe ferirem os dedos. Quase lhe quebram os braços, com as pancadas que lhe deram, para libertar a criança. Quando o conseguiram, era tarde. Minutos depois, o pequenino morria... O subdiretor da Casa de Saúde Santa Genoveva não procurou ver o espanto que se estampava em meu rosto. Acendeu outro cigarro, e pôs-se de pé. Fiz o mesmo. - Agora, - continuou, - a desventurada senhora que ali viu, está boa. Mas a nossa vigilância em torno dela é enorme. - Para que não volte à morfina? O Dr. Miranda sacudiu a cabeça, lentamente: - Não. Para que não corte, como tem tentado, as mãos com que estrangulou o seu filho! E pusemo-nos a andar, de regresso, a cabeça baixa, em silêncio, um ao lado do outro.

"A mulher mais linda da cidade". BUKOWSKI, Charles. A mulher mais linda dacidade e outros contos. Porto Alegre: L&PM, 1997.



TRADUÇÃO DE ALBINO POLI JR. Numa sociedade, como a norte-americana, que divide seus habitantes entre winners e losers, vencedores e perdedores, a opção de vida - e do universo ficcional - de Charles Bukowski (1920-1994) chega a ser quase sintomática: não há vencedores no submundo desse assumido dirty old man, poeta e alcoólatra perdido pelos bares e pardieiros de São Francisco. Espécie de sucessor escrachado dos beatniksjac c Kerouac, Allen Ginsberg, Gregory Corso, que já nos anos 1950 saíam de Nova York para espalhar o germe do que seria a contracultura na Califórnia nos anos 1960 e 1970, Bukowski, como o cartunista Robert Crumb, apesar de levar uma vida desregrada e desmedida (ou por isso mesmo?), entre vagabundos, parasitas, trambiqueiros e prostitutas decaídas, recitais de poesia "alternativa", toneladas de cerveja e jorros de vômitos, acabou deixando talvez a obra mais representativa da época. "A mulher mais linda da cidade", um de seus melhores contos, foi filmado pelo italiano Marco Ferrerí, com Ornella Muttí como a linda e mucho loca personagem central. A história, como se sabe, é uma viagem insana ao cotidiano nosso de cada dia, o mesmo cotidiano aparentemente "normal" visto de fora. Uma viagem ao inferno - só de ida. Sim, tantas vezes, sem volta. Das cinco irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio-termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão. As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos - "uns frouxos", dizia, "sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado... Tudo por fora e nada por dentro..." Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental. O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza só servia para realçá-la. Conheci Cass uma noite no West End Bar. Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade - o que bem pode ter contribuído. - Quer um drinque? - perguntei. - Claro, por que não? Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou várias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda a minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo. - Me acha bonita? - perguntou. - Lógico que acho, mas não é só isso... é mais que uma simples questão de beleza... - As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou? - Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça. Cass meteu a mão na bolsa, julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror. Ela me olhou e riu. - E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara? Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão tinham assistido à cena. Ele veio até a mesa: - Olha - disse para Cass, - se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama. - Ah, vai te foder, cara! - É melhor não dar mais bebida pra ela - aconselhou o sujeito. - Não tem perigo - prometi. - O nariz é meu - protestou Cass, - faço dele o que bem entendo. - Não faz, não - retruquei, - porque isso me dói. - Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor? - Sinto, sim. Palavra. - Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado. Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traía sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu. Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou: - Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã? - Amanhã de manhã - respondi, - virando de costas para ela. No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama. Deu uma risada. - Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite. - Deixa pra lá - retruquei, - a gente nem precisa disso. - Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro. Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional - os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando... Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se embaixo do lençol. - Vem de uma vez, gostosão. Deitei na cama. Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus. - Qual é o teu nome? - perguntei. - Porra, que diferença faz? - replicou. Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até as 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava sentado na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão - uma folha de inhame. - Sabia que ia te encontrar no banho - disse, - por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista. E atirou a folha de inhame dentro da banheira. - Como adivinhou que eu estava aqui? - Adivinhando, ora. Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava. Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem. - Esses filhos-da-puta - disse ela - só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente. - Quem topa o convite já está comprando barulho. - Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo. - Eu estou interessado em você e também no teu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo. Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado. - Como é, seu sacana, pelo que vejo você já voltou. Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto. - Porra, ainda não desistiu de estragar tua beleza? - Que nada, seu bobo, agora é moda. - Pirou de vez. - Sabe que senti saudade? - comentou. - Não tem mais ninguém no pedaço? - Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça. - Tira esses grampos daí. - Negativo. É moda. - Estão me deixando chateado. - Tem certeza? - Claro que tenho, pô. Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa. - Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? - perguntei. - Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita? - Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão. - Então tá. Sorte minha, né? - Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.

- Muito obrigado. Tomamos outro drinque. - O que anda fazendo? - perguntou.



- Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo. - Eu também. Se você fosse mulher, podia ser puta. - Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo. - Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo. Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes. Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada - da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama. Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço - grande e saliente. - Puta que pariu, criatura - exclamei, já deitado. - Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas? - Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita? Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu. - Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo. - Se é - retruquei, - estou quase morrendo de tanto rir... Cass, sua cretina, eu amo você... mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei. Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem. Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu. - Levanta, cafajeste! joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa! Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não havia chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivéssemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar, jantamos e sugeri que fôssemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando e aí então respondeu, pensativa: - Não. Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse: - Uma pena o que houve com sua amiga. - Pena por quê? - estranhei. - Desculpe. Pensei que soubesse. - Não. - Se suicidou. Foi enterrada ontem. - Enterrada? - repeti. Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta? - Sim, pelas irmãs. - Se suicidou? Pode-se saber de que modo? - Cortou a garganta. - Ah. Me dá outra dose. Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das cinco irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele "não". Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos 20 anos. Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei: - MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO-DA-PUTA! A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.

LOUCURA E CLÍNICA



"O diário de um louco" ("Le Journal d'un fou"). COGOL, Nicolas (NikolaT Vassilie-vitch Gogol). Le Journal d'unfou suivi de le portrait et de Ia perspective Nevsky. Paris: j'ai Lu, 2003.

TRADUÇÃO DE CELINA PORTOCARRERO A melhor ficção russa, segundo Dostoiévski, saiu de "O capote" que, junto com "O nariz" (ambos presentes na antologia Os cem melhores contos de humor da literatura universal, Ediouro, 2004) e este "Diário de um louco" (escrito em 1835!), forma a tríade de pequenas obras-primas do conto de Nikolai Vassilievitch Gogol (1809-1852). Haveria ainda os contos "Perspectiva Nevskí" e "O retrato", além do romance Taras Bulba e da peça O inspetor geral, que solidificaram a presença - definitiva mas também definidora, como disse Dostoiévski- desse ucraniano na literatura russa mundial. "O diário de um louco", com um tom de humor que seria chamado mais tarde de "absurdo", nos mostra um personagem aniquilado ou "coisificado" por uma sociedade estratificada, e de comportamento, um personagem estranho ou excêntrico - da mesma forma como o famoso Akaki Akakievítch, de "O capote", e o barbeiro Ivan lakovlievitch, de "O nariz". (Evocando uma troika com cavalos velozes, o "louco" em questão clama pela fuga: "Corcéis, voem para as nuvens e levem-me para longe deste mundo! Mais longe, mais longe, onde não vejamos nada, mais nada.") O próprio Gogol não terminou seus dias lá muito bem de saúde mental: viajou, ou "fugiu", para Roma, onde se viu atacado por fortes "crises nervosas" que o levaram a um misticismo delirante. 3 de outubro Aconteceu-me hoje uma aventura estranha. Levantei-me bem tarde e, quando Mavra trouxe minhas botas enceradas, perguntei-lhe a hora. Quando ela me disse que passava das dez horas, apressei-me em me vestir. Confesso que nunca teria ido ao ministério se soubesse de antemão a cara amarrada que faria nosso chefe de seção. Já faz algum tempo que ele me disse: "Como é possível que você tenha sempre tanta baderna no cérebro, irmão? Alguns dias, você se agita como um alucinado, faz uma confusão tal que nem o próprio diabo encontraria suas coisas, escreve um título em letras minúsculas, não anota nem data nem número." O miserável! Com certeza tem inveja de mim, porque trabalho no gabinete do diretor e aponto as plumas de Sua Excelência.,. Resumindo, eu não teria ido ao ministério, se não tivesse esperança de ver o caixa e de arrancar daquele judeu pelo menos um mísero adiantamento sobre meu salário. Que tipo absurdo é também esse aí! O juízo Final chegará antes que ele algum dia lhe dê um adiantamento sobre o mês, Senhor! Você pode suplicar, ficar de quatro, mesmo se estiver na miséria ele não dará nada, o velho demônio! E quando se pensa que, na casa dele, a cozinheira lhe dá bofetadas! Todo mundo sabe disso. Não vejo que interesse há em trabalhar num ministério. Não se tem vantagem alguma. Na administração regional, na câmara civil ou na câmara das finanças, a coisa é bem diferente: por lá se vêem homens curvados pelos cantos a escrevinhar. Usam sobretudos imundos, têm umas caras em que dá vontade de cuspir, mas é preciso ver as mansões onde moram! Nem pensar em oferecer-lhes xícaras de porcelana dourada, eles responderão: "Isto é presente para um doutor", mas uma parelha de tratadores, uma charrete ou um casaco de pele de castor que vale uns trezentos rublos, isso sim, vai funcionar. À primeira vista, têm um aspecto tranqüilo, e se exprimem cheios de refinamento: "Poderia me permitir apontar sua pena com meu canivete"; e logo depois limpam tão bem o requerente que não lhe deixa mais do que a camisa. É verdade que entre nós, em compensação, o serviço é especial: reina por toda parte tal limpeza que nunca se verá algo semelhante na administração da província: mesas de acaju, e todos os chefes se tratam por "o senhor". É, reconheço, não fosse a distinção do serviço e eu há muito teria deixado o ministério. Eu colocara meu velho capote e levava meu guarda-chuva porque chovia a cântaros. Ninguém nas ruas: só encontrei mulheres que se protegiam com seus vestidos, mercadores russos sob seus guarda-chuvas e cocheiros. De nobre, apenas um funcionário como eu, que passeava. Assim que o vi, disse comigo mesmo: "He, he, meu caro, você não está indo para o ministério, você apressa o passo atrás daquela que corre por ali e para cujas pernas você olha." Que canalhas nós somos, nós, os funcionários! Palavra de honra, ganharíamos de qualquer oficial! Basta que uma dama de chapéu revele a pontinha do nariz e passamos infalivelmente ao ataque! Enquanto assim refletia, percebi uma charrete que parava defronte à loja ao lado de cuja vitrine eu caminhava. Reconheci-a no mesmo instante: era a charrete de nosso diretor. "Mas ele não tem o que fazer nesta loja, deve ser a sua filha." Apaguei-me de encontro ao muro. O criado abriu a portinhola e ela esvoaçou do carro como um pássaro. Lançou um olhar à direita, à esquerda, vislumbrei em seus olhos um brilho, suas sobrancelhas... Meu Deus do céu! Eu estava perdido, completamente perdido! Que idéia, sair com uma chuva daquelas! Afirmem agora que as mulheres não são apaixonadas por todos esses pedaços de pano. Ela não me reconheceu e aliás eu me esforçava para me disfarçar o mais que podia pois meu capote estava muito sujo e, o que era pior, muito fora de moda. Hoje se usam capotes com uma grande gola, enquanto eu tinha duas golinhas pequenas, uma sobre a outra. E, além disso, o tecido estava desbotado. Sua cachorrinha, que não tinha conseguido ultrapassar a porta da loja, ficara na rua. Conheço aquela cachorrinha. Ela se chama Medji. Um minuto não se tinha passado quando de repente ouvi uma voz suave: "Bom dia, Medji!" Ora vejam só! Quem dizia aquilo? Olhei ao meu redor e vi duas senhoras que passavam sob um guarda-chuva: uma velha, a outra bem jovem; mas elas já haviam passado por mim e, a meu lado, a voz ecoou outra vez: "Não tens vergonha, Medji?" Que diabos! Vi Medji farejar o cão que seguia as senhoras. "He, he, pensei, mas será que estou bêbado?" Entretanto, isso raramente me acontece. "Não, Fiel, estás enganada (vi com meus olhos Medji pronunciar essas palavras), eu estive, au, au, au, muito doente." Vejam só esse cachorro! Confesso que fiquei espantado de vê-lo falar como os homens. Mas mais tarde, depois de refletir bastante a respeito de tudo aquilo, deixei de me espantar. Na verdade, já observamos aqui em baixo um grande número de exemplos semelhantes. Parece que na Inglaterra foi visto sair da água um peixe que disse duas palavras numa (íngua tão estranha que há três anos os sábios se debruçam sobre o problema sem ter até agora descoberto o que quer que seja. Li também nos jornais que duas vacas entraram numa lojinha para comprar uma libra de chá. Mas reconheço que fiquei muito mais surpreso quando Medji disse: "Eu te escrevi, Fiel; com certeza Polkan não te entregou minha carta!" Quero que me tirem o salário se já ouvi na vida dizer que um cão fosse capaz de escrever. Só um nobre sabe escrever corretamente. É claro, há também empregados de lojas e até servos que são, de vez em quando, capazes de rabiscar em preto sobre branco: mas sua escrita é na maioria das vezes maquinal: nem vírgulas, nem pontos, nem estilo. Fiquei portanto espantado. Confesso que, há algum tempo, acontece-me às vezes ouvir e ver coisas que ninguém jamais viu ou ouviu. "Ora, disse a mim mesmo, vou seguir aquela cadela e saberei quem é ela e o que pensa." Abri meu guarda-chuva e segui os passos das duas senhoras. Elas seguiram pela rua Corojovaia, dobraram na rua Meschanskaia, depois na Stoliar, em direção à ponte Kokuchkin e pararam defronte a uma grande mansão. "Conheço esta casa, pensei, é a casa Zverkov." É um verdadeiro alojamento. Toda espécie de gente vive ali: cozinheiros, viajantes! E os funcionários da minha espécie se amontoam por lá como cães! Vive ali também um meu amigo que toca trombeta muito bem. As senhoras subiram ao quarto andar. "Está bem, pensei, por hoje, fico por aqui, mas me lembrarei do lugar e não deixarei de usá-lo quando for o caso." 4 de outubro Hoje é quarta-feira, portanto fui ao gabinete de nosso chefe. Cheguei adiantado de propósito; instalei-me e apontei todas as suas penas. Nosso diretor é com certeza um homem muito inteligente. Seu gabinete está repleto de estantes cheias de livros. Li os títulos de alguns: tudo aquilo é cultura, mas uma cultura que não está ao alcance de homens da minha espécie: sempre alemão ou francês. E quando se olha para ele: quanta seriedade brilha em seus olhos! Nunca o ouvi pronunciar uma palavra inútil. No máximo, quando lhe entregam um papel, ele pergunta: - Como está o tempo? - Úmido, Excelência! Ah! ele não é feito da mesma farinha que nós. É um homem de Estado. Percebo, entretanto, que ele tem por mim um afeto especial. Se sua filha, se ela também... Ei, olha a indecência!... Tudo bem, tudo bem... Eu me calo! Li a Abelha do Norte. Como são imbecis esses franceses! O que eles querem, afinal? Palavra de honra, eu os mandaria prender e lhes daria umas boas chicotadas! Li também no jornal o relato de um baile, descrito com graça por um proprietário de Kursk. Os proprietários de Kursk escrevem bem. Depois, vi que passava de meio dia e meia e que nosso chefe ainda não havia saído do quarto. Mas por volta de uma hora e meia produziu-se um incidente que nenhuma pena pode descrever. A porta se abriu: imaginei que fosse o diretor e me levantei de imediato, meus papéis na mão. Pois era ela, ela mesma! Santos do paraíso, como estava bem vestida! Usava um vestido branco como penugem de cisne: um esplendor! E o olhar que me deu! Um sol, por Deus, um verdadeiro sol! Fez-me um pequeno cumprimento e me disse: "Papai não está aqui?" Ai! Ai! Ai! Que voz! Um canário, tão certo como estou aqui, um canário! "Excelência, eu quis dizer, não me castigueis, mas, se vos der prazer, puni-me com vossa augusta mãozinha." Sim, mas que os diabos me levem, minha língua se embaralhou, e eu simplesmente respondi: "N... não." Ela pousou em mim os olhos, depois sobre os livros, e deixou cair seu lenço. Precipitei-me, escorreguei sobre aquele maldito assoalho e pouco faltou para que me arrebentasse o nariz, mas me equilibrei e apanhei o lenço. Santos anjos, que lenço! Na mais fina cambraia... âmbar, não há outra palavra! Sem mentir, cheirava a generalato! Ela me agradeceu com um leve sorriso que mal entreabriu seus doces lábios e saiu do aposento. Fiquei ainda uma hora por lá. De repente, um criado veio me dizer: "Volte para casa, Aksenti Ivanovitch, o patrão já saiu!" Não consigo suportar a categoria dos criados: estão sempre instalados nos vestíbulos e não se dignariam sequer a lhe fazer um aceno com a cabeça. E se fosse só isso... Um dia, um desses imbecis resolveu me oferecer fumo, sem se mover de seu lugar! Você por acaso sabe, escravo estúpido, que sou um funcionário de origem nobre? Seja como for, apanhei meu chapéu, vesti sozinho meu capote, pois esses senhores jamais o seguram, e fui embora. Em casa, fiquei deitado na cama, quase o dia inteiro. Depois copiei belos versos: Uma hora sem querida Vale um ano em que penei Se devo odiar a vida A morte é mais doce, exclamei Foi com certeza Puchkin quem os escreveu. À noite, envolvido em meu capote, fui até a entrada da casa de Sua Excelência e lá fiquei um bom tempo à espreita: se ela saísse para subir num carro eu poderia vê-la mais uma vez... mas ela não apareceu. 6 de novembro Nosso chefe de seção passou dos limites. Quando cheguei ao ministério, ele mandou me chamar e começou assim: - Diga-me, por favor, o que anda fazendo. - Mas como? Não ando fazendo coisa alguma - respondi. - Vamos, pense bem. Você passou dos 40, não é? Seria tempo de criar juízo. O que está pensando? Acha que não estou a par de todas as suas criancices? Será possível que você agora ande rondando a filha do diretor? Mas você não se enxerga... pensa um pouco em quem é você! Um zero, nada além disso. E não tem um copeque para gastar. Olhe-se um pouco no espelho, pretensão é o que não falta! Caramba! A cara dele parece um vidro de farmácia; no alto do crânio, ele tem um tufo de cabelos enrolado num topete, que mantém armado, be-suntado de uma espécie de pomada de rosas, e imagina que só para ele tudo é permitido! Sei muito bem por que ele não gosta de mim. Está com inveja: deve ter percebido as marcas de benevolência muito especiais que me são concedidas. Mas eu cuspo nele! Grande coisa ser conselheiro áulico! Prende uma corrente de ouro ao relógio, encomenda botas de trinta rublos... e daí?... que o diabo o carregue! E eu? Por acaso meu pai era plebeu, alfaiate, ou subo-ficial? Eu sou nobre. Eu também posso ser promovido. Por que não? Só tenho 42 anos: na nossa época, é nessa idade que se começa a carreira. Espere só, amigo! Nós também nos tornaremos coronel, e talvez até mesmo coisa melhor, se Deus quiser. Criaremos uma reputação ainda mais lisonjeira do que a sua. Então, você meteu na cabeça que não existe homem algum que seja tão adequado como você? Basta que me dêem um terno de Rutch, que eu use uma gravata como a sua, e você não chegará a meus pés. Não tenho dinheiro, essa é a desgraça. 8 de novembro Fui ao teatro. Representavam Filatka, o palhaço russo. Ri muito. Havia também um vaudeville com versos divertidos sobre os advogados e em especial sobre um escrivão; os versos eram realmente muito livres e fiquei surpreso de que a censura os tivesse deixado passar; quanto aos comerciantes, dizem francamente que enganam as pessoas e que seus filhos se entregam à orgia e se imiscuem entre os nobres. Há também uma quadrinha muito cômica sobre os jornalistas, dizem que adoram discutir a respeito de tudo, e o autor pede a proteção do público. Os escritores de hoje criam peças bem divertidas. Adoro ir ao teatro. É só eu ter um trocado no bolso e não consigo deixar de ir. Pois é, entre meus pares, os funcionários, há verdadeiros porcos que não poriam o pé no teatro nem por um império: estúpidos! Mal se dariam ao trabalho de ir se alguém lhes desse uma entrada grátis! Havia uma atriz que cantava divinamente. Pensei na outra... Ei, olha a indecência!... Tudo bem, tudo bem... Eu me calo! 9 de novembro Às oito horas, fui ao ministério. Nosso chefe de seção fez de conta que não percebeu minha chegada. Quanto a mim, fiz como se nada houvesse entre nós. Revi e verifiquei a papelada. Saí às quatro horas. Passei defronte aos aposentos do diretor, mas não havia ninguém à vista. Depois de comer, fiquei deitado na cama quase todo o resto da tarde. n de novembro Hoje, instalei-me no gabinete do diretor e apontei, para ele, 23 penas e para ela... Ah!... para "Sua" Excelência, quatro penas. Ele gosta muito de ter um grande número de penas à sua disposição. Oh! Ele é uma sumidade, com certeza! Não abre a boca, mas suponho que avalia tudo em sua mente. Eu gostaria de saber em que ele pensa com mais freqüência, o que se trama naquele cérebro. Gostaria de observar de mais perto a vida desses senhores. Todos os equívocos, as manobras dos cortesaos, como agem, o que fazem em seu mundo... eis o que eu gostaria de aprender! Tentei por diversas vezes entabular conversa com Sua Excelência, mas, que inferno!, minha língua se recusou a qualquer serviço: só consegui dizer

(80 MKoLmGoGoL que fazia frio ou quente lá fora, e decididamente nada mais! Eu gostaria de dar uma olhada em seu salão, cuja porta está às vezes aberta, e no cômodo que fica nos fundos. Ah! que rico mobiliário! que belos espelhos! que fina porcelana! Gostaria de entrar por um segundo lá, no lugar em que mora "Sua" Excelência, é lá que eu gostaria de penetrar: em sua alcova. Como estarão dispostos todos aqueles jarros e todos aqueles frascos, aquelas flores que se tem medo de fazer murchar com a respiração, seus vestidos em desordem, mais semelhantes ao ar do que a vestidos? Eu gostaria de dar uma olhada em seu quarto de dormir... Lá, imagino prodígios, um tal paraíso que nem mesmo no céu se pode encontrar similar. Olhar o banquinho sobre o qual ela pousa o pezinho ao descer da cama, vê-la calçar aquele pezinho com uma leve meia branca como neve. Ai! Ai! Ai! Tudo bem, tudo bem... Eu me calo! Hoje, aliás, tive como que uma iluminação: lembrei-me daquela conversa que surpreendi entre dois cães na Nevski Prospekt. "Muito bem, disse a mim mesmo, agora saberei de tudo. Preciso interceptar a correspondência que trocam aqueles dois cães ordinários. Então, com certeza descobrirei alguma coisa." Confesso que cheguei a chamar Medji e lhe disse: - Ouça, Medji, estamos sozinhos, como vê; se você quiser, posso também fechar a porta, assim ninguém nos verá. Conte-me tudo o que sabe a respeito de sua dona. O que ela faz? Quem é ela? juro que nada direi a ninguém. Mas o astuto animal botou o rabo entre as pernas, encolheu-se toda e saiu pela porta como se nada tivesse ouvido. Há muito tempo desconfio que o cão é muito mais inteligente do que o homem. Estou realmente convencido de que sabe falar mas que há nele uma espécie de teimosia. É um político extraordinário: observa tudo, todos os passos do homem. Sim, custe o que custar, irei amanhã mesmo à mansão Zverkov, interrogarei Fiei e, se conseguir, interceptarei todas as cartas que Medji lhe escreveu. 12 de novembro Às duas horas da tarde, saí de casa com o propósito de encontrar Fiel e interrogá-la. Não suporto aquele cheio de repolho que sai de todas as lojinhas da rua Meschanskaia; além disso, de cada um dos portões vinha um tal fedor que fugi dali correndo a mais não poder e tampando o nariz. E mais, aqueles salafrários dos artesãos deixam escapar de seus ateliês uma quantidade tão grande de fuligem e fumaça que é decididamente impossível alguém passear por ali. Chegando ao quinto andar, bati. Uma mocinha me abriu a porta: não era feia, com pequenas sardas. Eu a reconheci: era a mesma que caminhava ao lado da velha. Ela enrubesceu um pouco e eu logo vi do que se tratava: "Você, minha linda, está querendo um noivo." - O senhor deseja? - disse-me ela. - Preciso falar com a sua cachorra. Como aquela moça era boba! Compreendi de imediato que era boba! Nesse momento, a cadela acorreu ladrando; eu quis agarrá-la, mas o ignóbil animal por pouco não fecha as mandíbulas no meu nariz! Ainda assim, percebi sua cesta num canto. Aha! Eis o que me interessa! Aproximei-me. Revolvi a palha do cesto e, para minha extrema satisfação, retirei dali um fino amarrado de papeizinhos. Aquela cadela sem-vergonha, vendo aquilo, primeiro me mordeu o tornozelo, depois, quando percebeu que eu lhe tinha roubado as cartas, começou a latir e a me fazer carinhos: "Não, minha cara, adeus!" E saí dali bem depressa. Imagino que a moça me tenha tomado por um louco, porque pareceu muitíssimo apavorada. Ao voltar para casa, eu queria na mesma hora começar a trabalhar e decifrar aqueles papéis, pois não enxergo muito bem à luz de vela. Mas Mavra resolvera lavar o assoalho. Essas finlandesas estúpidas sempre têm idéias de limpeza nos piores momentos! Saí então para dar uma volta e meditar sobre o acontecido. Desta vez, afinal, ficarei sabendo de todos os seus atos e seus pensamentos a respeito de todos os assuntos, vou finalmente desvendar tudo. Estas cartas me darão a chave do segredo. Os cães são muito inteligentes, estão a par de todas as relações políticas, e com certeza hei de tudo encontrar aqui dentro: o retrato e as menores atitudes desse homem. E há de haver uma pequena alusão àquela que... tudo bem, eu me calo! Voltei para casa no final da tarde. Passei uma boa parte da noite deitado na cama. 13 de novembro Pois bem, vejamos: a caligrafia desta carta é bem legível. Há, no entanto, algo de canino nessas letras. Leiamos: "Minha cara Fiel, decididamente não consigo me acostumar com esse nome burguês. Como se eles não pudessem te dar um mais elegante! Fiel, Rosa, como é vulgar! Mas deixemos isso de lado. Estou muito contente que tenhamos decidido nos escrever." A carta está muito bem escrita. A pontuação e os acentos estão sempre no lugar certo. Falando francamente, nosso próprio chefe de seção não escreve tão bem, embora nos canse os ouvidos com a universidade onde estudou. Vejamos a continuação: "Parece-me que partilhar pensamentos, sentimentos e impressões com alguém é uma das maiores alegrias desta terra." Hum! Esta reflexão foi tirada de uma obra traduzida do alemão. Esqueci o título. "Digo isso por experiência, embora eu nada conheça do mundo além do portão de nossa casa. Minha vida transcorre em harmonia, não é mesmo? minha dona, que papai chama de Sofia, me ama loucamente." Ai! Ai! Tudo bem, tudo bem, eu me calo! "Papai também me acaricia com muita freqüência. Tomo chá e café com creme. Ah! minha cara, devo dizer que não vejo nenhuma vantagem naqueles enormes ossos sem carne que nosso Polkan devora na cozinha. Só os ossos de caça são saborosos, sobretudo quando ninguém ainda chupou o tutano. Gosto muito quando misturam molhos variados, mas sem alcaparras e verduras da horta; nada pode ser pior do que o costume de dar aos cães bolinhas de pão. Um senhor qualquer sentado à mesa e cujas mãos já passaram por todo tipo de porcarias, começa a amassar o miolo do pão com essas mesmas mãos, te chama e te enfia a bolinha goela abaixo! E é falta de polidez recusar, então a gente come: com nojo, mas come assim mesmo." Só o diabo sabe o que isso significa! Que absurdo! Como se não houvesse assuntos mais interessantes a tratar! Vejamos a página seguinte. Talvez encontremos alguma coisa mais sensata. "...Será um prazer te manter informada de todos os acontecimentos aqui desta casa. Já te dei alguns detalhes sobre o personagem principal que Sofia chama de Papai. É um homem muito estranho." Ah! Finalmente! Sei, eu sei: elas têm visões políticas a respeito de todos os assuntos. Eis o que diz respeito a Papai: "...um homem muito estranho. Passa a maior parte do tempo calado e raramente abre a boca, mas, oito dias atrás, ele não parava de repetir sozinho: 'Será que vão me dar? Será?' Um dia, chegou a se virar para mim e perguntar: 'O que acha, Medji? Será que vão me dar? Será?' Não entendi coisa alguma; farejei suas botas e me afastei. Então, minha cara, uma semana depois, Papai chegou em casa todo contente. Durante todo o dia, senhores uniformizados vieram felicitá-lo. A mesa, ele estava mais feliz do que nunca e não economizava histórias. Depois do jantar, ergueu-me até seu pescoço e me disse: 'Veja, Medji, o que é, o que é?' Vi uma fita. Cheirei mas não senti qualquer perfume; no fim, dei uma lambida, sem que percebessem... era um pouco salgado." Hum! Parece que essa cadela é por demais... Merece umas chicotadas! Quer dizer que nosso homem é um ambicioso! É bom anotar isso. "...Adeus, minha cara! Vou correndo etc. etc. terminarei a carta amanhã." "Bom dia. Aqui estamos, juntas novamente. Hoje, minha dona Sofia..." Ah! Vejamos o que faz Sofia! Ei, olha a indecência!... Tudo bem, tudo bem... vamos continuar. "Minha patroa Sofia estava agitadíssima. Ela se preparava para ir ao baile e eu fiquei feliz por poder escrever quando ela saísse. Minha Sofia sempre fica muito feliz por ir ao baile, embora sempre fique furiosa enquanto se prepara. Não consigo compreender, minha cara, o prazer de ir ao baile. Sofia volta para casa às seis horas da manhã e, quase todas as vezes, adivinho pelo seu pobre rostinho pálido que nada lhe deram de comer por lá, pobre criança! Confesso que eu nunca poderia viver assim. Se não me dessem uma daquelas perdizes ensopadas, ou uma asa de frango... não sei o que seria de mim. Um creme com molho é também bom. Mas cenouras, nabos, ou alcachofras... isso nunca é bom..." Estilo extremamente desigual. Logo se vê que não foi um homem quem escreveu. Começa direito, depois acaba ao modo canino. Vejamos ainda um outro bilhete. É um pouco extenso. Hum! Nem mesmo está datado! "Ah! minha cara, como o aproximar da primavera se faz sentir! Meu coração bate por qualquer coisinha, como se esperasse algo. Há um permanente zumbido em meus ouvidos. Às vezes, fico por vários minutos, uma pata levantada, ouvindo atrás das portas. Não te escondo que tenho vários admiradores. Observo-os muitas vezes, sentada atrás da janela. Ah! se soubesses que monstros há entre eles! Há um mas-tim talhado a machado, terrivelmente idiota, sua idiotice está escrita na testa; ele passeia pela rua com ares superiores e acredita ser um personagem notável, acha que só temos olhos para ele, palavra de honra! É um nada! Não lhe dou mais atenção do que se não o visse. E aquele horrível buldogue que estaciona defronte à minha janela! Se ficasse sobre as patas traseiras (o que com certeza o grosseirão não consegue), ficaria mais alto do que o Papai da minha Sofia, que já tem uma altura e uma corpulência consideráveis. Esse impertinente é de

uma imprudência sem igual. Rosnei uma ou duas vezes para eie, mas pouco está ligando! Nem pisca! Fica olhando fixo para minha vidraça, orelhas baixas, língua pendurada... um verdadeiro camponês! Mas se imaginas, minha cara, que meu coração não fica indiferente a todas essas solicitações... longe disso!... Se visses o cavalheiro que escala a cerca da casa vizinha, e cujo nome é Tesouro! Ah! Minha cara! Que belo focinho!" Arrgh! Com os diabos! Que coisa abominável! Como é possível encher páginas com semelhantes bobagens? Que me tragam um homem! Quero ver um homem, preciso de um alimento que nutra e deleite a minha alma; enquanto essas bobagens... Viremos a página, talvez seja melhor: "...Sofia conversava, sentada perto de uma mesinha. Eu olhava pela janela, pois gosto de observar quem passa. De repente, um criado entrou e anunciou: Tieplov!' Faça-o entrar, exclamou Sofia, e atirou-se para me beijar. "Ah! Medji, Medji, se soubesses quem é: ele é moreno, um fidalgo da corte. E tem dois olhos negros e brilhantes como brasa!'" "E Sofia correu para seus aposentos. Um minuto mais tarde, entrou um jovem fidalgo da corte com suíças negras; aproximou-se do espelho, ajeitou os cabelos e andou pela sala. Dei um leve grunhido e me instalei no meu canto. Sofia chegou pouco depois e respondeu alegremente à sua reverência; eu continuava tranqüilamente olhando pela janela, como se nada houvesse; mas inclinei um pouco a cabeça e me esforcei para compreender sobre o que conversavam. Ah! minha cara, que bobagens diziam! Contavam que uma dama, no meio de uma dança, tinha feito tal passo em vez de um outro, ou que um certo Bobov, que parecia uma cegonha com sua camisa de babados, quase caíra. Que uma certa Lidina acreditava ter olhos azuis, mas que eram verdes... e outras coisas parecidas. Como seria interessante - pensei - comparar esse fidalgo a Tesouro! Céus, que diferença! Primeiro, o fidalgo da Corte tem o rosto largo e completamente achatado, com suíças em volta, como se o tivesse envolvido num lenço preto, ao passo que Tesouro tem traços finos e uma mancha branca bem na testa. Quanto ao corpo de Tesouro, nem é o caso de comparar ao do fidalgo da corte. E os olhos, as maneiras, a postura são completamente outras. Ah! que diferença! Não sei, minha cara, o que ela vê no seu Tieplov. Por que estará tão entusiasmada?..." A mim também parece que há algo errado. É impossível que Tieplov tenha conseguido encantá-la a esse ponto. Vejamos mais adiante: "Se esse rapaz tem encantos a seus olhos, não vejo por que não aconteceria o mesmo com aquele funcionário que trabalha no gabinete de Papai. Ah! minha cara, se visses aquele aborto!..." Quem pode ser?... "Ele tem um sobrenome muito estranho. Passa o dia todo sentado apontando penas. Seus cabelos parecem feno. Papai sempre o manda fazer compras..." Até parece que é a mim que esse cachorro malvado está se referindo. De onde tirou que meus cabelos parecem feno? "Sofia não consegue olhar para ele sem rir." Você está mentindo, cão maldito! Abominável linguagem! Como se eu não soubesse que isso é obra da inveja! Como se eu não soubesse de quem é a culpa! São os meneios do meu chefe de seção. Aquele homem me jurou um ódio implacável e se dedica a me prejudicar a cada passo. Leiamos mais uma dessas cartas. Talvez tudo se esclareça. "Minha cara Fiel, vais me desculpar por ter ficado tanto tempo sem escrever. Estive vivendo em perfeita embriaguez. É com razão que um escritor disse que o amor era uma segunda vida. Além disso, em casa, há grandes mudanças. O fidalgo da corte vem nos visitar todos os dias. Sofia o ama com loucura. Papai está muito contente. Cheguei a ouvi-lo dizer ao nosso Gregório, que sempre fala sozinho quando varre o chão, que o casamento aconteceria logo, porque Papai faz absoluta questão de ver Sofia casada, seja com um general, um fidalgo da corte, um coronel..." Maldição! Não consigo ler mais... É sempre um fidalgo da corte ou um general. Tudo o que há de melhor no mundo fica sempre para os fidalgos da corte ou para os generais. Encontramos uma coisa boa, pensamos tê-la conseguido e um fidalgo da corte ou um general nos rouba tudo debaixo do nariz. Inferno! Não era para obter a mão dela e outras coisas do gênero que eu gostaria de me tornar general. Não: eu queria ser general apenas para vê-los agitados à minha volta, entregues a todos os salamaleques e equívocos dos cortesãos, e então lhes dizer: "Cuspo em vocês!" Que droga! Que vergonha! Rasguei em pedacinhos as cartas dessa cadela idiota! 3 de dezembro É impossível! Isso não tem cabimento! Esse casamento não vai acontecer! Ele é um fidalgo da corte, e dai? Isso é uma posição: não é uma coisa visível que se possa segurar nas mãos. Não é porque ele é fidalgo da corte que vai lhe surgir um terceiro olho no meio da testa. Seu nariz não é de ouro, que eu saiba, mas igualzinho ao meu, ao nariz de qualquer um; serve para cheirar, e não para comer, para espirrar, e não para tossir. Diversas vezes já tentei desvendar o origem de todas essas diferenças. Por que eu sou conselheiro-titular, e de que serve isso? Talvez eu seja conde ou general e tenha só a aparência de um conselheiro-titular? Talvez eu mesmo ignore quem sou. Há inúmeros exemplos na história: um homem comum, nem digo um nobre, um simples burguês ou um camponês, descobre de repente que é um grão-senhor, ou um barão, ou alguma coisa parecida. Se um ilustre personagem pode sair de um mujique, o que não pode acontecer em se tratando de um nobre! Se, por exemplo, eu fosse à rua em uniforme de general: uma dragona no ombro direito, outra no ombro esquerdo e uma fita azul céu como echarpe? Em que tom cantaria então a minha dama? E que diria Papai, nosso diretor? Oh! É um grande ambicioso! Um franco-maçom, sem sombra de dúvida; embora ele finja ser isso ou aquilo, adivinhei de imediato que era franco-maçom: quando estende a mão para alguém, ele só avança dois dedos. Será que não posso, nesse mesmo instante..., ser promovido a general-governador ou intendente, ou alguma coisa do tipo? Eu queria saber por que sou conselheiro-titular! Por que exatamente conselheiro-titular? 5 de dezembro Hoje, li os jornais a manhã inteira. Acontecem coisas estranhas na Espanha. Não compreendo muito bem. Dizem que o trono está vago, que os dignitários têm dificuldade para escolher um herdeiro e que isso provoca motins. Tudo me parece bem estranho. Como pode o trono estar vago? Dizem que uma certa dona deve subir ao trono. Uma dona não pode subir ao trono. De modo algum. No trono, deve estar um rei. Mas eles dizem que não há rei; é impossível que não haja rei. Um Estado não pode existir sem rei. Há um, mas ignora-se onde está. Talvez esteja lá mesmo, mas razões de família ou receios por parte das potências vizinhas, a saber a França e os outros países, obrigam-no a se esconder; ou talvez haja outros motivos. 8 de dezembro Eu estava decidido a ir ao ministério, mas diferentes razões e reflexões me impediram. Os assuntos da Espanha continuam a não me sair da cabeça. Como pode ser que uma dona se torne rainha? Não permitirão. E, primeiro, a Inglaterra se oporá. E depois há a situação política de toda a Europa: o imperador da Áustria, nosso imperador... Confesso que esses acontecimentos me abateram, me desequilibraram tanto que nada consegui fazer durante todo o dia. Mavra me disse que eu estava muito distraído à mesa. Com efeito, eu, por distração sem dúvida, joguei dois pratos no chão: eles imediatamente voaram em pedaços. Depois do jantar, fui passear pelas montanhas. Não consegui tirar dali nada de útil. Passei o resto do tempo na cama, refletindo sobre os assuntos da Espanha. Ano 2000. 43- dia de abril. Hoje é um dia de grande solenidade! A Espanha tem um rei. Encontraram. Esse rei sou eu. Só hoje eu soube. Confesso que fiquei, de repente, como se inundado de luz. Não compreendo como pude pensar, imaginar que era conselheiro-titular. Como tal pensamento extravagante pode penetrar no meu cérebro? É mesmo uma sorte que ninguém tenha pensado então a me mandar prender num sanatório. Agora, tudo me foi revelado. Agora, tudo está claro... Antes, eu não compreendia, antes, tudo estava à minha frente numa espécie de névoa. Tudo isso acontece, imagino, porque as pessoas imaginam que o cérebro do homem está alojado em seu crânio; não mesmo: ele é trazido por um vento que sopra do mar Cáspio. Imediatamente revelei a Mavra quem eu era. Quando ela soube que tinha diante dela o rei da Espanha, bateu as mãos uma contra a outra e quase morreu de susto. Aquela boba nunca tinha visto o rei da Espanha! Apesar de tudo, esforcei-me para tranqüilizá-la e garantir-lhe, em termos graciosos, minha benevolência: disse-lhe que não guardava o menor rancor por ela ter algumas vezes encerado mal as minhas botas. Essas pessoas são ignorantes. Não se pode conversar com elas sobre assuntos elevados. Ela ficou com medo porque estava convencida de que todos os reis da Espanha se parecem com Felipe II. Mas eu lhe expliquei que nada havia de comum entre Felipe e eu. Não fui ao ministério. O diabo que os carregue! Não, meus amigos, agora vocês não me pegam mais; não vou continuar a recopiar suas papeladas sujas! 86° dia de martubro. Entre o dia e a noite. Hoje, o contínuo veio me dizer para ir ao ministério, porque havia mais de três semanas que eu não fazia mais meu trabalho. Fui ao ministério para rir. Nosso chefe de seção pensava que eu iria fazer-lhe reverências e lhe pedir desculpas, mas eu o olhei com ar indiferente, nem muito zangado nem muito benevolente, e me sentei em meu lugar, como se nada percebesse... Olhei para toda aquela ralé administrativa e pensei: "O que aconteceria se vocês soubessem quem está aqui sentado entre vocês?" Deus do céu! Que zunzum isso causaria! O próprio chefe de seção se inclinaria até dobrar a cintura, como faz agora para o diretor. Colocaram papéis à minha frente, para que eu fizesse um resumo. Mas nem mesmo os toquei com a ponta dos dedos. Alguns minutos mais tarde, todos se agitaram. Disseram que o diretor iria chegar. Muitos funcionários correram, para ver quem se apresentaria mais depressa diante dele. Mas eu não me mexi. Quando ele atravessou nossa sala, todos abotoaram o paletó; eu, fiz como se nada houvesse! O que é um diretor? Que eu me levante diante dele? Jamais! Que diretor é aquele? É uma tampa, não é um diretor. Uma tampa comum, uma simples tampa, nada além disso. Como as que servem para tampar as garrafas. O que mais me divertiu foi quando me entregaram papéis para que eu os assinasse. Pensavam que eu iria escrever lá embaixo da folha: chefe de escritório fulano de tal. Ora vamos! Rabisquei, bem à vista, lá onde assina o diretor do departamento: "Ferdinando VIII." Tinha que se vero silêncio respeitoso que reinou então! Mas fiz apenas um ligeiro gesto com a mão, dizendo: "Não quero qualquer demonstração de.submissão!" e saí. Do escritório, fui diretamente ao apartamento do diretor. Ele não estava em casa. O criado quis me impedir de entrar, mas eu lhe disse duas palavras: seus braços caíram. Fui diretamente ao toucador. Ela estava sentada diante do espelho: levantou-se de um salto e deu um passo para trás. Mas eu não lhe disse que era o rei de Espanha. Disse-lhe apenas que ela sequer imaginava a felicidade que a esperava, e que ficaríamos juntos apesar das maquinações de nossos inimigos. Nada mais quis acrescentar e deixei o aposento. Oh! Que criatura astuta é a mulher! Só agora compreendi o que é a mulher. Até hoje, ninguém sabia por quem ela estava apaixonada: fui o primeiro a descobrir. A mulher está apaixonada pelo diabo. É, sem brincadeira. Os doutores escrevem absurdos, que ela isso, ela aquilo... Ela só ama o diabo. Vejam ali, aquela que observa pelos binóculos o camarote da segunda fila. Acham que ela olha para aquele personagem rotundo e condecorado? Não sabem de nada, ela olha para o diabo que está de pé atrás dele. Vejam, ei-lo que se dissimula sob seu disfarce. Ele lhe faz um sinal com o dedo! E ela o desposará. Ela o desposará! E todos aqueles que vocês vêem ali, todos aqueles pais de família graduados, todos aqueles homens que fazem piruetas em todas as direções e que tomam de assalto a Corte, dizendo que são patriotas, e patati-patatá... fazendas, fazendas, é o que querem esses patriotas! Seu pai, sua mãe, o próprio Deus eles venderiam por dinheiro, ambiciosos, judas! E essa ambição ilimitada lhes vem do fato de terem sob a úvula uma vesícula que contém um vermezinho do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo isso é obra de um barbeiro que mora na rua Gorojovaia. Esqueci seu nome, mas sabe-se de fonte certa que ele quer, com a ajuda de uma parteira, difundir pelo mundo todo o maometismo, e dizem que é por isso que a maior parte do povo francês professa a fé de Maomé. Sem data. Esse dia não tinha data. Passei incógnito pela Nevski Prospekt. Sua Majestade o Imperador passou de carro. Toda a cidade tirou o chapéu e eu fiz o mesmo; entretanto, absolutamente não deixei que percebessem que eu era o rei de Espanha, julguei inconveniente me dar a conhecer logo diante de todos; pois é preciso que antes de tudo eu me apresente à Corte. O que me impediu foi que não tenho ainda a vestimenta nacional espanhola. Se eu pudesse ao menos conseguir um manto. Queria encomendá-lo a um alfaiate, mas eles são verdadeiros asnos; além disso, negligenciam por completo o seu trabalho: lançaram-se na especulação e, na maioria das vezes, pavimentam as ruas. Tive a idéia de fazer um manto para meu uniforme novo que só usei duas únicas vezes. Mas para que aqueles inúteis não o destruíssem, decidi fazê-lo eu mesmo, fechando a porta à chave para não ser visto por pessoa alguma. Talhei-o todo com minha tesoura, porque o corte deve ser totalmente diverso. Esqueci a data. Também não houve mês. O diabo sabe o que era. Meu manto está terminado e costurado. Mavra deu um grito quando o coloquei. Decidi entretanto não me apresentar ainda à Corte. A delegação da Espanha ainda não chegou. Sem delegados, não é conveniente. Tiraria todo o peso de minha dignidade. Espero-os de um momento para outro. Dia primeiro Essa lentidão dos delegados me surpreende sobremaneira. Que razões os podem estar retendo? A França, talvez? É, é a nação menos favorável. Fui perguntar no correio se os delegados espanhóis não haviam chegado, mas o diretor, que é totalmente estúpido, de nada sabe. Ele me disse: "Não, não há qualquer delegado espanhol, mas, se quiser escrever cartas, nós as postaremos pela tarifa correta." Que ele se dane! O que é uma carta? Um absurdo. Os farmacêuticos é que escrevem cartas... Madri, 30 de fevereiro Muito bem, estou na Espanha; tudo aconteceu tão depressa que mal tive tempo de entender. Esta manhã, os delegados espanhóis se apresentaram em minha casa e subi num carro com eles. Tanta precipitação me pareceu estranha. Viajamos com tal pressa que chegamos à fronteira da Espanha meia hora depois. Aliás, é verdade que agora há estradas de ferro por toda a Europa e que os barcos a vapor são muitíssimo rápidos. Curioso país a Espanha: quando entramos no primeiro aposento, percebi uma multidão de homens de cabeça raspada. Mas adivinhei que deveriam ser os grandes, ou soldados, pois tinham a cabeça raspada. O que me pareceu extremamente bizarro foi a conduta do chanceler do Império: tomou-me pelo braço, empurrou-me para um quarto pequeno e me disse: "Fique aqui, e se disseres que és o rei Ferdinando, farei com que não tenhas mais essa vontade." Sabendo que tudo não passava de uma prova, respondi que não. Então o chanceler me deu duas bengaladas nas costas, tão dolorosas que quase dei um grito, mas me controlei, lembrando-me de que se tratava de um ritual da cavalaria, quando da emissão de posse de um alto dignitário: na Espanha, eles ainda observam os costumes da cavalaria. Deixado sozinho, resolvi dedicar-me a assuntos de Estado. Descobri que China e Espanha formam um único e mesmo país e que só por ignorância são considerados dois países diferentes. Aconselho a todos que escrevam "Espanha" num papel; sairá "China". Mas fiquei preocupadíssimo com um acontecimento que deverá ocorrer amanhã. Amanhã, às sete horas, irá se produzir um estranho fenômeno: a Terra se sentará sobre a Lua. O célebre químico inglês Wellington é quem o diz. Confesso que senti viva inquietação, quando imaginei a delicadeza e a extraordinária fragilidade da lua. Sabe-se que a Lua é feita em geral em Hamburgo, e de um jeito abominável. Surpreende-me que a Inglaterra não preste atenção. Quem a fabrica é um toneleiro coxo e é claro que esse imbecil não faz a menor idéia do que seja a Lua. Ele põe um cabo besuntado de breu e uma medida de óleo de oliva; com isso espalha-se pela terra um tal fedor que é preciso tapar-se o nariz. Disso decorre ser a própria Lua uma esfera tão delicada e por isso os homens nela não podem viver. Por enquanto, ela só é habitada por narizes. E eis por que não podemos ver nossos narizes: todos eles estão na Lua. Quando pensei que a Terra, matéria pesante, poderia reduzir a pó nossos narizes, sentando-se sobre eles, fui tomado por tal angústia que enfiei minhas meias e sapatos e me apresentei às pressas à sala do conselho de Estado para ordenar à polícia que impedisse a terra de se sentar na Lua. Os grandes que eu tinha percebido em bom número na sala do conselho de Estado são pessoas muito inteligentes. Quando eu lhes disse "Senhores, salvemos a Lua pois a Terra quer se sentar nela", todos correram no mesmo instante para executar minha vontade soberana e muitos subiram nos muros para agarrar a Lua; mas nesse momento entrou o grande chanceler. Ao vê-lo, todos fugiram. Como sou o rei, fui o único a ficar. Mas o chanceler, para meu assombro, deu-me uma bengalada e me reconduziu à força ao meu quarto. Tamanho é o poder dos costumes populares na Espanha! janeiro do mesmo ano, que sucedeu fevereiro Não consigo compreender que país é a Espanha. Os costumes populares e as regras de etiqueta da Corte são mesmo extraordinários. Não compreendo, decididamente não compreendo nada. Hoje me rasparam a cabeça, apesar de eu ter gritado com todas as forças que não me queria tornar monge. Mas não consigo mais me lembrar do que me aconteceu quando começaram a me jogar água fria na cabeça. Eu nunca havia sido submetido a semelhante inferno. Por pouco não me enfureci e mal conseguiram me conter. Não compreendo em absoluto o significado de tão estranho costume. É uma tradição estúpida, absurda. A leviandade dos reis que ainda não a aboliram me parece inconcebível. Suponho, por tudo o que parece, que caí nas mãos da Inquisição e que aquele que tomei por chanceler é sem dúvida o Grande Inquisidor em pessoa. Mas continuo sem compreender como é possível que um rei seja submetido à Inquisição. É verdade que é possível por parte da França e sobretudo de Polig-nac. Ah! Aquele canalha do Polignac! Ele jurou me prejudicar até a minha morte. Ele me persegue e me atormenta. Mas eu sei, meu amigo, que é o inglês que te dá ordens. O inglês é um grande político. Ele tenta se introduzir por toda parte. Todo mundo sabe que, quando a Inglaterra cheira rapé, a França espirra. Dia 25 Hoje, o Grande Inquisidor veio ao meu quarto, mas eu me escondera sob a cadeira ao ouvir seus passos. Vendo que eu não estava lá, começou a me chamar. Primeiro, gritou: "Poprischew!", mas eu não disse palavra. Depois: "Aksanti Ivanovich! Conselheiro-titular! Fidalgo!". Mantive-me em silêncio. "Ferdinando VIII!" Eu quis botar a cabeça para fora, mas pensei: "Não, irmão, não me darás o troco! Nós te conhecemos: vais me jogar água fria na cabeça." Afinal ele me viu e me fez sair de debaixo da cadeira a bengaladas. Aquela maldita bengala dói horrivelmente. Mas a revelação que acabei de ter compensou tudo aquilo: descobri que todos os galos têm uma Espanha; ela fica debaixo de suas plumas. O Grande Inquisidor saiu do meu quarto furibundo, ameaçando-me de não sei qual castigo. Mas desprezei por completo sua astúcia impotente, pois sei que ele age como uma máquina, como um instrumento do inglês. Não, não tenho mais forças para suportar isto! Meu Deus! O que eles estão fazendo comigo! Jogam-me água fria na cabeça. Não me escutam, não me vêem, não me ouvem. O que lhes fiz? Por que me atormentam? O que querem de mim, infelizes? O que lhes posso dar? Nada tenho. Estou acabado, não consigo mais suportar suas torturas; minha cabeça arde, e tudo gira ao meu redor. Salvem-me! Tirem-me daqui! Dêem-me uma troika de corcéis rápidos como a borrasca! Toma posição, cocheiro, re-piquem, meus sinos! Corcéis, voem para as nuvens e levem-me para longe deste mundo! Mais longe, mais longe, onde não vejamos nada, mais nada. Lá longe, o céu gira diante de meus olhos: uma estrelinha cintila nas profundezas; uma floresta navega com suas árvores escuras, acompanhada pela Lua; uma neblina cinza estende-se a meus pés; uma corda vibra no nevoeiro; de um lado o mar, do outro a Itália; bem lá longe, chega-se a distinguir os izbas russos. Será minha casa, aquela mancha azul a distância? Será minha mãe sentada à janela? Mamãe! Salva o infeliz do teu filho! Deixa cair uma pequena lágrima sobre sua cabeça dolorida! Vê como o atormentam! Aperta contra teu peito o pobre órfão! Ele não tem lugar na terra! Todos o perseguem! Mamãe! Tem piedade de teu filhinho doente!... Ei, vocês sabem que o bei de Argel tem uma verruga bem embaixo do nariz?

"O coração delator" ("The Tell-Tale Heart"). POE, Edgar Allan. The Complete Tales and Poems of Edgar Allan Poe. New York: The Modem Library, 1965.



TRADUÇÃO DE CELINA PORTOCARRERO Pai e mestre da literatura de horror (e de quebra, da policial), certo? Sim, mas... Bem, o especialista francês Jacques Cabau, em Edgar Poe par lui-même, propõe uma outra leitura de Edgar Allan Poe, que não anula a tradicional e só engrandece a literatura deste americano intranqüilo que o francês Baudelaire revelou para o mundo: "o conto de Poe é o contrário do conto de terror clássico. Em lugar de lançar um indivíduo normal num universo ínquietante, Poe larga um indivíduo Ínquietante em um mundo normal. Nada acontece ao herói; ele é que acontece ao mundo. Não é tomado por um horror exterior; não é o medo que dispara a neurose, mas a neurose que suscita o medo. (...) Uma vez apanhado nos seus próprios mecanismos de fascinação, é arrastado para a engrenagem da obsessão." Esse, digamos, gênio - "só e isolado na história literária como um diamante"(Horacio Quiroga) - também teve uma história de vida solitária e sacrificada que acabou resumindo-se a apenas 40 anos - entre a lucidez criativa e as trevas da insanidade. (Se assim podemos chamar o que hoje se classifica como dependência química: Poe foi alcoólatra - sua verdadeira causa mortis - e também se drogava com éter e ópio.) Todo esse sofrimento ele conseguiu canalizar e transfigurar no clima de seus contos "de horror", mas também "de loucura e morte" (para citar um título de Quiroga, talvez seu maior discípulo na América Latina). Muitos de seus contos teriam aqui o seu lugar, como "Wíllíam Wilson" - incluído numa outra antologia minha publicada em 2006, Os melhores contos fantásticos -, que trata da personalidade dividida, ou dupla. (Tema de O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, do conto "O homem embaçado", de Mareei Schwob, e de tantos textos de Borges.) Optamos por este "O coração delator" que, menos revestido dos disfarces do fantástico e do horror que outros contos seus, tem a loucura como tema e o louco como personagem. (A tradução, nova, foi feita em especial para esta antologia. A conferir.) Como complemento, mas não menos importante, um Poe em tom de sátira, quem diria, ironizando os tratamentos psiquiátricos da época, como faria Machado de Assis mais tarde com "O alienista". É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história. É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre - um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre. Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi - com que precaução -, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra! Nunca fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo. E todas as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria, ah, com tanta delicadeza! E então, quando tinha conseguido uma abertura suficiente para minha cabeça, punha dentro uma lanterna furta-fogo bem fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e então eu passava a cabeça. Ah! o senhor teria rido se visse com que habilidade eu a passava. Eu a movia devagar, muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para passar a cabeça toda pela abertura, o mais à frente possível, para que pudesse vê-lo deitado em sua cama. Aha! Teria um louco sido assim tão esperto? E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a lanterna com cuidado - ah!, com tanto cuidado! -, com cuidado (porque a dobradiça rangia), eu a abria só o suficiente para que um raiozinho fino de luz caísse sobre o olho do abutre. E fiz isso por sete longas noites, todas as noites à meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e então era impossível fazer o trabalho, porque não era o velho que me exasperava, e sim seu Olho Maligno. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu entrava corajosamente no quarto e falava com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite. Então, o senhor vê que ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que todas as noites, à meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia. Na oitava noite, eu tomei um cuidado ainda maior ao abrir a porta. O ponteiro de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de meus atos ou pensamentos secretos. Cheguei a rir com essa idéia, e ele talvez tenha ouvido, porque de repente se mexeu na cama como num sobressalto. Agora o senhor pode pensar que eu recuei - mas não. Seu quarto estava preto como breu com aquela escuridão espessa (porque as venezianas estavam bem fechadas, de medo de ladrões) e então eu soube que ele não poderia ver a porta sendo aberta e continuei a empurrá-la mais, e mais. Minha cabeça estava dentro e eu quase abrindo a lanterna quando meu polegar deslizou sobre a lingüeta de metal e o velho deu um pulo na cama, gritando: - Quem está aí? Fiquei imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não movi um músculo, e durante esse tempo não o ouvi se deitar. Ele continuava sentado na cama, ouvindo bem como eu havia feito noite após noite prestando atenção aos relógios fúnebres na parede. Nesse instante, ouvi um leve gemido, e eu soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de tristeza - ah, não! era o som fraco e abafado que sobe do fundo da alma quando sobrecarregada de terror. Eu conhecia bem aquele som. Muitas noites, à meia-noite em ponto, ele brotara de meu próprio peito, aprofundando, com seu eco pavoroso, os terrores que me perturbavam. Digo que os conhecia bem. Eu sabia o que sentia o velho e me apiedava dele embora risse por dentro. Eu sabia que ele estivera desperto, desde o primeiro barulhinho, quando se virara na cama. Seus medos foram desde então crescendo dentro dele. Ele estivera tentando fazer de conta que eram infundados, mas não conseguira. Dissera consigo mesmo: "Isto não passa do vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão", ou "É só um grilo cricrilando um pouco". É, ele estivera tentando confortar-se com tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão. Tudo em vão, porque a Morte ao se aproximar o atacara de frente com sua sombra negra e com ela envolvera a vítima. E a fúnebre influência da despercebida sombra fizera com que sentisse, ainda que não visse ou ouvisse, sentisse a presença da minha cabeça dentro do quarto. Quando já havia esperado por muito tempo e com muita paciência sem ouvi-lo se deitar, decidi abrir uma fenda - uma fenda muito, muito pequena na lanterna. Então eu a abri - o senhor não pode imaginar com que gestos furtivos, tão furtivos - até que afinal um único raio pálido como o fio da aranha brotou da fenda e caiu sobre o olho do abutre. Ele estava aberto, muito, muito aberto, e fui ficando furioso enquanto o fitava. Eu o vi com perfeita clareza - todo de um azul fosco e coberto por um véu medonho que enregelou até a medula dos meus ossos, mas era tudo o que eu podia ver do rosto ou do corpo do velho, pois dirigira o raio, como por instinto, exatamente para o ponto maldito. E agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão. Eu também conhecia bem aquele som. Eram as batidas do coração do velho. Aquilo aumentou a minha fúria, como o bater do tambor instiga a coragem do soldado. Mas mesmo então eu me contive e continuei imóvel. Quase não respirava. Segurava imóvel a lanterna. Tentei ao máximo possível manter o raio sobre o olho. Enquanto isso, aumentava o diabólico tamborilar do coração. Ficava a cada instante mais e mais rápido, mais e mais alto. O terror do velho deve ter sido extremo. Ficava mais alto, estou dizendo, mais alto a cada instante! - está me entendendo? Eu lhe disse que estou nervoso: estou mesmo. E agora, altas horas da noite, em meio ao silêncio pavoroso dessa casa velha, um ruído tão estranho quanto esse me levou ao terror incontrolável. Ainda assim por mais alguns minutos me contive e continuei imóvel. Mas as batidas ficaram mais altas, mais altas! Achei que o coração iria explodir. E agora uma nova ansiedade tomava conta de mim - o som seria ouvido por um vizinho! Chegara a hora do velho! Com um berro, abri por completo a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele deu um grito agudo - um só. Num instante, arrastei-o para o chão e derrubei sobre ele a cama pesada. Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado. Mas por muitos minutos o coração bateu com um som amortecido. Aquilo, entretanto, não me exasperou; não seria ouvido através da parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. É, estava morto, bem morto. Pus a mão sobre seu coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia pulsação. Ele estava bem morto. Seu olho não me perturbaria mais. Se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. Antes de tudo desmembrei o cadáver. Separei a cabeça, os braços e as pernas. Arranquei três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas. Recoloquei então as pranchas com tanta habilidade e astúcia que nenhum olho humano - nem mesmo o dele - poderia detectar algo de errado. Nada havia a ser lavado - nenhuma mancha de qualquer tipo - nenhuma marca de sangue. Eu fora muito cauteloso. Uma tina absorvera tudo - ha! ha! Quando terminei todo aquele trabalho, eram quatro horas - ainda tão escuro quanto à meia-noite. Quando o sino deu as horas, houve uma batida à porta da rua. Desci para abrir com o coração leve - pois o que tinha agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais de polícia. Um grito fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeitas de traição haviam sido levantadas; uma queixa fora apresentada à delegacia e eles (os policiais) haviam sido encarregados de examinar o local. Sorri - pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo. Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar - procurar bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele. Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável. No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o qual repousava o cadáver da vítima. Os oficiais estavam satisfeitos. Meus modos os haviam convencido. Eu estava bastante à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia animado, falaram de coisas familiares. Mas, pouco depois, senti que empalidecia e desejei que se fossem. Minha cabeça doía e me parecia sentir um zumbido nos ouvidos; mas eles continuavam sentados e continuavam a falar. O zumbido ficou mais claro - continuava e ficava mais claro: falei com mais vivacidade para me livrar da sensação: mas ela continuou e se instalou - até que, afinal, descobri que o barulho não estava dentro de meus ouvidos. Sem dúvida agora fiquei muito pálido; mas falei com mais fluência, e em voz mais alta. Mas o som crescia - e o que eu podia fazer? Era um som baixo, surdo, rápido - muito parecido com o som que faz um relógio quando envolto em algodão. Arfei em busca de ar, e os policiais ainda não o ouviam. Falei mais depressa, com mais intensidade, mas o barulho continuava a crescer. Levantei-me e discuti sobre ninharias, num tom alto e gesticulando com ênfase; mas o barulho continuava a crescer. Por que eles não podiam ir embora? Andei de um lado para outro a passos largos e pesados, como se me enfurecessem as observações dos homens, mas o barulho continuava a crescer. Ai meu Deus! O que eu poderia fazer? Espumei - vociferei - xinguei! Sacudi a cadeira na qual estivera sentado e arrastei-a pelas tábuas, mas o barulho abafava tudo e continuava a crescer. Ficou mais alto - mais alto - mais alto! E os homens ainda conversavam animadamente, e sorriam. Seria possível que não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! - não, não? Eles ouviam! - eles suspeitavam! - eles sabiam! - Eles estavam zombando do meu horror! - Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! - e agora - de novo - ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto! - Miseráveis! - berrei - Não disfarcem mais! Admito o que fiz! - levantem as pranchas! - aqui, aqui! - são as batidas do horrendo coração!

"O sistema do doutor Alcatrão e do professor Pena"



("The System of Doctor Tarr and Professor Fether"). POE, Edgar Allan. The Complete Tales and Poems of Edgar Allan Poe. New York: The Modern Library, 1965.

TRADUÇÃO DE FLÁVIO MOREIRA DA COSTA Durante o outono de 18..., fazendo um tour pela Provence, no sul da França, meu trajeto levou-me a algumas milhas de uma certa Maison de Santé, ou uma casa de loucos privada sobre a qual muito ouvira falar em Paris, da parte de alguns médicos, amigos meus. Como nunca havia visitado um lugar deste gênero, achei a oportunidade boa demais para não aproveitá-la; e assim propus ao meu companheiro de viagem (cavalheiro com quem travara relações havia poucos dias) que fizéssemos um pequeno desvio do caminho, de cerca de uma hora ou mais, a fim de dar uma olhada naquele estabelecimento. Idéia que ele rejeitou, dizendo primeiro que tinha muita pressa e, em segundo lugar, que tinha um horror verdadeiro e muito comum na presença de um lunático. Ele quase me implorou, no entanto, para que eu não sacrificasse a minha curiosidade a um sentimento de cortesia para com ele, acrescentando que iria seguir caminho, cavalgando devagar, de maneira que eu pudesse alcançá-lo no mesmo dia ou, quando muito, no dia seguinte. Mas, ao nos despedirmos, lembrei-me da dificuldade que eu poderia ter no acesso ao estabelecimento e comentei com ele a este respeito. Ele me respondeu que, de fato, se eu não conhecia pessoalmente o Sr. Maillard, o diretor, nem levava comigo carta de apresentação, poderia muito bem ter dificuldades de lá entrar, porque os regulamentos daquelas casas particulares de malucos eram muito mais severos do que os dos hospícios públicos. Mas como ele conhecia um pouco o Sr. Maillard, resolveu me acompanhar até a porta e me apresentar a ele, embora seus sentimentos em relação à loucura não lhe permitiriam que entrasse na casa. Agradeci-lhe e, saindo da estrada principal, entramos por um atalho que, em cerca de meia hora, nos levou para dentro de uma floresta espessa aos pés de uma montanha. E através daquela mata densa e sombria andamos cerca de duas milhas, até avistarmos a Maison de Santé. Era um castelo fantástico e meio decadente e, a se julgar pela deterioração externa, devia ser quase inabitável. O seu aspecto me inspirou tal sentimento de pavor que estive a ponto de não seguir em frente, e retornar. Mas envergonhei-me da minha própria fraqueza, e segui. Ao atravessarmos o portal, percebi-o já entreaberto e um rosto que nos olhava. No instante seguinte, o homem se aproximou, saudou meu companheiro pelo nome, apertou-lhe a mão cordialmente e convidou-o a que apeasse. Era o próprio Sr. Maillard, um verdadeiro cavalheiro de outros tempos: bela presença, de aspecto nobre, maneiras polidas e certo ar de seriedade, dignidade e autoridade que cativava simpatia e impunha respeito. Meu amigo então apresentou-me a ele; e depois de mencionar a minha vontade de visitar seu estabelecimento, e de o Sr. Maillard prometer atendê-la com a maior atenção possível, despediu-se de nós. Nunca mais tornei a vê-lo. Logo o diretor me fez entrar numa pequena sala elegantemente mobiliada, onde se viam, entre outros indícios de um gosto refinado, grande quantidade de livros, desenhos, vasos de flores e instrumentos musicais. Um bom lume ardia na lareira. Uma moça bonita, vestida de luto fechado e sentada ao piano, cantava uma ária de Bellini. Levantou-se quando entramos e veio me receber com uma cortesia cheia de graça. A voz era baixa. Pensei também ter percebido traços de tristeza e melancolia em seu semblante que era por demais, embora, pelo meu gosto, não desagradavelmente pálido. Parecia sob profundo luto, o que provocou em meu peito uma sensação combinada de respeito, interesse e admiração. Tinham-me dito em Paris que o estabelecimento do Sr. Maillard obedecia a um preceito conhecido vulgarmente como "sistema suave", isto é, evitava-se o sistema de castigos, a reclusão era pouco empregada e os doentes, vigiados secretamente, gozavam aparentemente de perfeita liberdade, podendo até mesmo, a maior parte deles, circular por todo o prédio e pelo jardim, como se fossem pessoas de pleno juízo. Lembrando-me desses pormenores, cuidei das minhas palavras na presença da moça de luto porque nada me garantia que ela tivesse o juízo perfeito. Pelo contrário, havia nos seus olhos certo brilho intermitente que me induzia quase a acreditá-la louca. Limitei, pois, as minhas observações a assuntos gerais ou àqueles que julguei incapazes de desagradar ou de excitar mesmo uma lunática. A moça respondeu a tudo o que eu disse de um modo inteiramente sensato; e as suas observações pessoais testemunhavam mesmo critério de raciocínio; mas um longo estudo sobre a metafísica da mania havia-me ensinado a desconfiar de semelhantes evidências de saúde mental, e continuei a usar a prudência durante toda nossa conversação. Eis que um criado muito elegante, de libre, trouxe uma bandeja cheia de frutas, vinhos e refrescos, dos quais me servi com prazer. A moça logo se despediu. Assim que ela se retirou, dirigi ao Sr. Maillard um olhar de interrogação. - Não - disse ele - Ah, não!... Ela é da minha família... minha sobrinha, uma senhora perfeita. - Ah, meu senhor, peço-lhe mil perdões pela minha desconfiança. A excelente orientação desta casa é muito conhecida em Paris; assim, imaginei que não seria impossível... O senhor compreende, não é mesmo? - Sim, sim! Não falemos mais nisso; sou eu que tenho de lhe agradecer a louvável prudência com que se portou, coisa rara em gente moça. E mais de uma vez tivemos de lamentar alguns acidentes bem desagradáveis, causados pela irreflexão dos visitantes. Na época em que ainda aplicávamos meu primeiro sistema, e quando os doentes tinham o privilégio de andar por toda parte, bem à vontade, acontecia algumas vezes de caírem em crises perigosas, devido à irreflexão de alguns visitantes. Foi por isso que acabei adotando um sistema mais rigoroso de exclusão, em conseqüência do qual as pessoas que sabemos discretas são admitidas a nos visitarem. - Como assim, na época do seu primeiro sistema? - disse eu, repetindo as palavras do próprio Maillard. - Então o tal "sistema suave" de que tanto me falaram já não é mais aplicado na sua casa? - Não, senhor- replicou ele. - Há algumas semanas que decidimos abandoná-lo para sempre. - Fala sério? - É verdade - disse ele, suspirando. - Foi absolutamente necessário voltarmos aos processos antigos. O "sistema suave" era um perigo constante, e as suas vantagens não eram tantas quanto pareciam. Não pode haver uma experiência mais honesta do que a que se fez nesta casa, onde se praticou tudo o que a humanidade pode racionalmente sugerir. Lamento que não nos tenha visitado antes, para poder julgar pessoalmente. Mas conhece todos os tratamentos do "sistema suave", não é mesmo? - Não, senhor. O pouco que sei foi simplesmente por ouvir dizer. - Vou contar em poucas palavras como era o sistema. A base principal era não contrariar o doente, deixá-lo fazer a sua vontade. Não contradizíamos nenhuma fantasia que entrasse no cérebro do louco. Ao contrário, não só éramos indulgentes a esse respeito como os encorajávamos; e muitas de nossas curas permanentes foram efetivas. Não existe argumento que toque mais a frágil razão dos alienistas do que o reductio ad absurdum [redução ao absurdo]. Tivemos alguns homens, por exemplo, que fantasiavam serem galinhas. A cura consistia em insistir nisso como se um fato fosse - acusar o paciente de estupidez caso não percebesse o tempo todo isso como uma realidade -, e daí recusar-lhe qualquer dieta semanal que não constasse da dieta das galinhas. Nesses casos, um pouco de milho podia operar milagres. - Mas o sistema constituía apenas na aquiescência à loucura? - Não. Tínhamos também bastante fé em certos divertimentos simples, como música, dança, ginástica em geral, cartas, mesmo alguns livros, e assim por diante... Cuidávamos de tratar cada indivíduo como se tivesse uma doença física qualquer; e nunca usávamos as palavras "lunático" ou "louco". Um ponto importante era incumbir cada louco de vigiar todos os demais; depositar confiança na inteligência ou na discrição de um louco é conquistá-lo por inteiro. Isso nos trazia ainda a vantagem de dispensarmos uma categoria muito dispendiosa, que é a categoria dos guardas. - E não havia nenhum tipo de punição? - Não. - E nunca confinavam nenhum paciente? - Raramente. Quando a doença de alguém se transformava em crise, virando um acesso de fúria, nós o levávamos para uma cela particular, já que a sua desordem mental poderia contaminar os demais doentes, e lá o mantínhamos até que pudesse voltar ao convívio coletivo. No caso dos maníacos raivosos, nada tínhamos a fazer. Geralmente eram removidos para os hospícios públicos. - E agora o senhor reverteu toda esta situação, e acha que para melhor? - Com certeza. Meu sistema tinha suas desvantagens, e mesmo seus perigos. Felizmente, agora ele foi extinto em todas as Maisons de Santé da França. - Estou bastante surpreso - disse eu. - Pois eu tinha a impressão de que nenhum outro sistema de tratamento para loucura como este existia no resto do país. - Você ainda é jovem, meu amigo - respondeu o diretor -, mas vai chegar o tempo em que poderá julgar por você mesmo o que acontece no mundo, sem confiar no disse-me-disse dos outros. Não acredite em nada do que você escutar e só na metade daquilo que você estiver vendo. Sobre nossa Maison de Santé, parece que algum mal informado andou fazendo sua cabeça. Depois do jantar, depois de você se recuperar de sua fadiga da viagem, terei o maior prazer em mostrar-lhe a nossa casa e de introduzi-lo a um sistema que, na minha opinião, e na de todos aqueles que testemunharam sua operacionalidade, é efetivamente o melhor de todos. - Seu também? - perguntei. - Um sistema inventado pelo senhor? - Sou obrigado a reconhecer que sim, pelo menos em grande parte. Foi assim que eu conversei com o Sr. Maillard por uma ou duas horas, enquanto ele me mostrava os jardins e a conservação do lugar. - Não posso deixá-lo ver meus pacientes por enquanto - disse ele. - Para uma mente sensível sempre existe algum tipo de choque neste tipo de exibição; e não pretendo privá-lo de seu apetite. Gostaria que jantasse comigo. Posso oferecer-lhe uma vitelinha à Ia Salnte-Menechould, couve-flor à Ia sauce velouté, com um bom copo de Cios de Vougeôt. Que tal? Depois disso seus nervos estarão mais fortalecidos. Às seis, o jantar foi anunciado; e o Sr. Maillard me conduziu a uma vasta salle à manger, com uma enorme comitiva, cerca de trinta pessoas. Pareciam finos e bem-educados, embora mostrassem certos requintes de vestuários faustos e impróprios para a ocasião. Pelo menos dois terços dos convivas eram de senhoras, algumas vestidas de uma maneira muito diferente da que o parisiense está habituado a considerar de bom gosto. Muitas delas, que não tinham menos de 70 anos, estavam decotadas e de mangas curtas, com uma profusão extraordinária de jóias. Observei que muito poucas daquelas roupas eram bem-feitas e que a maior parte delas não combinava com as pessoas que as vestiam. Logo percebi o interesse da moça que o Sr. Maillard me apresentara na sala: e admirei-me de vê-la ataviada a um enorme vestido de anquinhas, uns sapatos de saltos altos e uma touca velha de rendas de Bruxelas, tão grande para ela que dava à sua fisionomia uma aparência ridícula de pequenez. O vestido de luto pesado, com o qual eu a vira antes, lhe caía incomparavelmente melhor. Havia, em suma, no toalete daquelas senhoras todas, um ar de esquisitice que me remeteu à minha idéia original do "sistema suave", a qual o Sr. Maillard tentava me fazer ver, pouco antes do jantar, que não era como eu pensava ser, e me vi jantando justamente com aqueles lunáticos todos; mas me lembrei que em Paris me informaram de que os sulistas da Provence eram particularmente excêntricos, com vastas noções antiquadas de tudo; e então, ao conversar com vários dos convivas, minhas apreensões foram-se desvanecendo por completo. A própria sala de jantar, confortável e imensa, não tinha elegância alguma. O chão não tinha tapete (é verdade que, na França, muito se dispensam os tapetes). As janelas não tinham cortinas; as portas das janelas, quando fechadas, eram trancadas com barras de ferro, na diagonal, como se usa nas lojas. Observei que aquela dependência formava uma das alas do château, e assim as janelas ocupavam três dos lados do paralelogramo, situando-se a porta no quarto lado; não havia menos de dez janelas ao todo. A mesa estava esplendidamente servida. Coberta de baixelas de prata e mais do que repleta de comidas. A profusão de manjares era bárbara. Nunca na minha vida contemplara eu um luxo tão suntuoso das boas coisas da vida. Havia no entanto muito pouco bom gosto nos arranjos; e meus olhos, acostumados a luzes mornas, sentiram-se agredidos pelo prodigioso esplendor de uma multidão de velas colocadas em castiçais de prata sobre a mesa e espalhados pela casa, por toda a parte. Um grupo de criados atentos servia o jantar. Numa mesa, aos fundos da sala, sete ou oito pessoas com violas, flautas, trombone e um tambor. Elas muito me incomodavam, durante o jantar, com uma infinita variedade de barulhos que se pretendiam música e que pareciam dar muita diversão a todos os presentes, exceto a mim, claro. Em suma, tudo o que eu estava vendo era notoriamente bizarro; mas afinal o mundo é composto de todo tipo de pessoas, com maneiras e modos de pensar os mais diversos, e cujos costumes são perfeitamente convencionais. E eu, bem, havia viajado o bastante para ser um bom adepto do nihil admírarí. Tranqüilamente tomei o meu lugar à direita do dono da casa e, com um bom apetite, honrei perfeitamente a ótima ceia. As conversas eram animadas e sobre assuntos gerais. As senhoras, conforme o costume, falavam muito; percebi logo que a sociedade era composta de pessoas bem-educadas. O Sr. Maillard era um manancial de anedotas engraçadas. Falava com toda a liberdade da sua posição de diretor de uma casa de alienados. E para minha surpresa, a loucura era o tema favorito de todos os convivas. - Tivemos uma pessoa aqui - disse o gordinho à minha direita - que se imaginava um bule de chá; e por falar nisso, não é incrível que essa particular mania entre tantas vezes nos cérebros dos lunáticos? Dificilmente existe um hospício na França que não apresente um bule humano. O nosso era um bule de fabricação inglesa. Todos os dias, pela manhã, ele mesmo tinha o cuidado de se polir com uma camurça. - Teve um outro - contou um cavalheiro alto, que se achava à minha frente - com a mania de ser um burro, o que, falando metaforicamente, não deixava de ser verdade. Era um paciente rebelde e que dava muito trabalho. Durante muito tempo não queria comer nada que não fosse capim; e ele foi curado porque não deixamos que ele comesse outra coisa. Ficava sempre batendo com os calcanhares no chão... assim, olhe... assim... - Sr. Kock! - interrompeu uma velha senhora sentada ao lado do orador. - Faça o favor de ficar quieto! O senhor acabou de estragar o meu rico vestido de brocado com seus pontapés. Nosso visitante entende muito bem o que o senhor está dizendo sem demonstrações físicas. E a sua imitação é perfeitamente natural! O senhor é quase tão burro quanto o pobre insensato que procura imitar... - Mille pardons, minha senhora - respondeu o Sr. Kock -, mil per dões! A minha intenção não era de modo algum ofendê-la. Dê-me a honra de beber uma taça de vinho comigo. O Sr. Kock então inclinou-se, beijou cerimoniosamente a sua própria mão e bebeu um copo de vinho com a senhorita Laplace, que assim se chamava a velha senhora. - Permita-me sugerir-lhe, mon ami - disse o Sr. Maillard, dirigindo- se a mim. - Prove desta vitela à Ia Sainte-Menechould... Três criados fortes acabavam de colocar sobre a mesa, sem incidente, um enorme prato contendo algo que imaginei primeiro ser o monstrum horrendum, informe ingend cui lumen ademptum; mas que num exame mais atento me confirmou ser apenas uma vitela assada, inteira, apoiada sobre os joelhos e com uma maçã entre os dentes, segundo costuma-se servir a lebre na Inglaterra. - Não, obrigado - disse eu. - Para falar a verdade, não tenho predileção pela vitela à Ia... como se chama? Peço-lhe a gentileza de provar antes um pouco de coelho. - Pierre! - gritou o dono da casa. - Mude o talher deste senhor e sirva-lhe um bocado de lapin au chat. - Coelho o quê? - exclamei eu. - Coelho ao gato. - Está bem, obrigado. Pensando melhor, não sinto mais vontade de comer coelho. Um pouco deste presunto me cairá bem. Na verdade, pensava eu, esta gente da Provence é capaz de comer de tudo! Não quero provar o seu coelho "ao gato" pela mesma razão que não provaria o seu chat au lapin. - Depois - disse um personagem de rosto cadavérico, ao fundo da mesa, reatando o fio da conversa -, entre outras esquisitices, de tempos em tempos tivemos aqui um paciente que se julgava queijo de Córdova, e que andava sempre de faca na mão convidando seus amigos a cortar-lhe um pedaço da coxa para provarem. - Era um louco e tanto - interrompeu outro conviva -, mas não se pode comparar com aquele homem que dizia ser uma garrafa de champanhe e que começava seus discursos com pan... pan... e pschi... i... i - e o orador pôs o dedo polegar na boca e retirou-o bruscamente, imitando o estouro de uma rolha; depois, com um destro movimento da língua sobre os dentes, imitou a fermentação da champanhe. Maneira de explicar assaz grosseira, achei, e ela também não foi do agrado do Sr. Maillard; mas ele teve a delicadeza de nada dizer, e a conversa foi retomada por um homem muito pequeno e muito magro, com uma grande cabeleira: - E houve um imbecil que se dizia uma rã, animal aliás com quem ele muito se parecia, para dizer a verdade. O senhor precisava ter visto a figura - e era a mim que ele se dirigia. - A naturalidade de sua imitação era extraordinária! Chegava a dar pena que aquele homem não fosse uma rã de verdade. Ele coaxava mais ou menos assim: o... o... gh... o... gh.J Era a nota mais bela do mundo! E em si bemol! E quando ele colocava os cotovelos em cima da mesa, assim, depois de ter bebido um ou dois copos de vinho, e dilatava a boca assim ó, exatamente como estou fazendo agora, e piscando-os com grande rapidez, assim, olhe; pois bem, senhor, posso afirmar que teria caído em êxtase diante do talento daquele homem! - Não duvido - respondi. - Havia um outro - disse outro conviva - que por força queria ser uma pitada de tabaco; e vivia numa tristeza enorme por não poder segurar a si mesmo entre o índex e o polegar. - E o Jules Deshoulières, que era um gênio bastante singular e que endoideceu com a mania de ser abóbora. Vivia perseguindo o cozinheiro para que o transformasse em purê, pedido ao qual o cozinheiro se recusava com indignação. Até acredito que uma torta à Deshoulières deveria ser um manjar dos mais delicados. - É espantoso o que o senhor diz! - exclamei, lançando ao Sr. Maillard um olhar de interrogação. - Há! Há! He! Hi! Hi! - redargüiu ele. - Ótimo, ótimo. Não se assuste, meu caro; o nosso amigo aqui é muito original, um grande comediante. Não se pode levar ao pé da letra tudo o que ele diz. - Conhecemos também Buffon-Legrand - falou outro conviva -, um personagem extraordinário no gênero. Enlouqueceu por causa do amor. Ele imaginava ter duas cabeças. Uma, dizia ele, era a de Cícero; a outra era composta, sendo a de Demóstenes da testa até a boca, e a de Lorde Brou-gham, da boca até a ponta do queixo. Não era impossível que ele se enganasse, mas com certeza ele teria convencido a todos com suas palavras, porque era um homem de rara eloqüência. Sua paixão pela oratória chegava a tal ponto que não conseguia evitar demonstrá-la. Por exemplo, ele tinha a mania de saltar para cima da mesa e depois... Neste momento, alguém sentado ao seu lado segurou-lhe o ombro e disse-lhe algumas palavras ao ouvido; o outro parou repentinamente de falar, voltando a sentar. - Depois - disse seu amigo, aquele que falava baixo - teve ainda Boulard, o pião. Sua mania singular, mas não de todo destituída da razão, era que o havia transformado em um pião. O senhor teria morrido de rir se o visse girando por horas e horas sobre um calcanhar só, deste modo, veja... Então o amigo que o havia interrompido, pagou-o com a mesma moeda, dando-lhe algum tipo de conselho ao pé do ouvido. - Mas então - gritou uma senhora velha, de voz irritante - esse Sr. Boulard era um louco, um louco bastante estúpido. Ora, digam-me: quem já ouviu falar de um pião humano? Nada mais absurdo! Madame joyeuse, todos nós sabemos, era uma pessoa mais sensata. É verdade que tinha também lá a sua mania: era uma mania inspirada pelo senso comum e que divertia quem tivesse a honra de conhecê-la. Pois aquela senhora descobrira, depois de amadurecidas reflexões, que havia sido por acidente transformada em galo; mas na qualidade de galo, ela se comportava normalmente. Batia as asas, assim, assim, com um grande esforço, e seu canto era divino: cocorocó... cocoricó... cocococóricó, có... có... - Madame Joyeuse, peço-lhe que se acalme - interrompeu o dono da casa com certa rispidez. - Se não pode se portar decentemente como convém a uma senhora, saia da sala imediatamente. A escolha é sua! A senhora (que eu fiquei espantado de ouvir ser chamada de madame Joyeuse, depois da descrição que ela mesma fizera de madame Joyeuse) corou até as orelhas, bastante humilhada com a repreensão. Abaixou a cabeça e não emitiu uma sílaba sequer. Então outra senhora, a mesma moça bonita que conheci na sala, continuou a conversação: Ora, madame joyeuse era uma boba! Mas fazia muito sentido a opinião de Eugènie Salsafette. Era uma mulher moça e formosa, ar modesto e melancólico, que achava indecente o modo comum de se vestir e gostava sempre de se vestir saindo, e não entrando para dentro da roupa. É uma coisa fácil de se fazer, você precisa apenas de fazer isso, e depois isto e depois isto e depois isto... - Mon díeu! Mademoiselle Salsafette! - exclamaram umas duas vozes ao mesmo tempo. - O que está fazendo? Pronto! Chega! já vimos como se pode fazer isso! Chega! Chega! - E algumas pessoas se levantaram para evitar que mademoiselle Salsafette se pusesse em traje da Vênus de Milo, o que finalmente conseguiram, auxiliadas por uma porção de gritos e urros vindos de alguma parte do prédio. Meus nervos viram-se bastante afetados por gritos vindos lá de fora; mas os demais convivas sofreram ainda mais. Nunca vi um grupo razoável de pessoas tão apavorado assim na minha vida. Todos ficaram pálidos como cadáveres e, encolhidos nas suas cadeiras, temendo e titubeando de terror e aguardando a repetição dos gritos. Eles continuaram surgindo, mais altos e como que se aproximando; ouviram-se logo por uma terceira vez mais forte ainda; e enfim, numa quarta vez, com um vigor decrescente. Diante da calmaria aparente da tempestade, todos recuperaram-se de espírito e as anedotas recomeçaram com mais ênfase. Atrevi-me então a perguntar a causa de semelhante gritaria externa. - Simples detalhe, une bagatelle - disse o Sr. Maillard - ao qual estamos tão acostumados que nem lhe damos'grande importância. Os loucos, de vez em quando, começam a gritar em coro, excitando-se mutuamente, como acontece com freqüência com um grupo de cães durante a noite. Às vezes este concerto de urros é seguido de um esforço simultâneo de todos para fugir. Neste caso, é sempre preciso a nossa interferência. - Quantas pessoas presas tem agora? - Não mais de dez, no momento. - Mulheres em geral? - Não. São todos homens muito vigorosos. - É mesmo? Pois eu sempre ouvi dizer que a maioria dos loucos pertencia ao belo sexo. - É o que em geral acontece; mas não sempre. Há anos, tínhamos aqui uns 27 loucos, dos quais uns 18 eram mulheres; mas ultimamente as coisas mudaram, como vê. - Sim... mudaram muito, como se vê - interrompeu o cavalheiro que havia ferido as tíbias de mademoiselle Laplace. - Sim... mudaram muito, como se vê - repetiram todos em coro. - Segurem essas línguas! Ouviram bem?! - gritou meu anfitrião, num acesso de raiva. Mediante estas palavras, toda a assembléia observou um silêncio de morte durante um minuto. Houve uma senhora que, seguindo a ordem do Sr. Maillard ao pé da letra, deixou a língua de fora, uma língua bem comprida, e agarrou-a com as duas mãos, conservando-a assim, com muita resignação, até o fim do jantar. - Aquela senhora - disse eu ao Sr. Maillard, inclinando-me e mur-murando-lhe ao ouvido -, aquela excelente senhora que falava ainda agora, com seus cocoricós, é inofensiva, não é, perfeitamente inofensiva? Quer dizer, ela só está ligeiramente atacada - disse eu, apontando para a testa - e não perigosamente afetada. - Mon àieul O que imagina o senhor? Esta senhora, minha velha e particular amiga, madame joyeuse, é tão normal quanto eu. Ela tem lá suas excentricidades, claro, como, você sabe, todas as mulheres de idade são mais ou menos excêntricas! - Certamente... certamente. Mas as demais senhoras e cavalheiros... - São todos meus amigos e meus guardiões - interrompeu o Sr. Maillard, perfilando-se com altivez-, meus ótimos amigos e assistentes. - Como? Todos? - perguntei. - As mulheres e os demais? - Sem dúvida- disse ele. - Não poderíamos manter este lugar sem as mulheres; elas são as melhores enfermeiras lunáticas do mundo; elas têm lá a maneira delas, entende; seus olhos brilhantes têm um efeito maravilhoso, alguma coisa assim como a fascinação das serpentes, entende? - Entendo, certamente. Elas se comportam de uma forma meio estranha, são meio esquisitas, não lhe parece? - Estranhas! Esquisitas! Você acha isso mesmo? Falando a verdade, nós, gente aqui do Sul, não somos nada pretensiosos; fazemos sempre o que nos agrada; e todos estes comportamentos que o senhor acha originais, entende... E depois esse vinho Vougeot é um pouco generoso, compreende, um pouco quente demais... - Claro, claro - disse eu. - E depois o senhor já me disse que o sistema adotado em substituição ao "sistema suave" era de um severo rigor? - Não, eu não disse isso. A reclusão é necessariamente rigorosa; mas o tratamento, o tratamento médico, quero dizer, é até agradável para os doentes. - E é também inventado pelo senhor esse outro sistema? - Não, em absoluto. Algumas partes do sistema devem ser atribuídas ao Dr. Alcatrão, sobre quem o senhor necessariamente já ouviu falar; e houve modificações no meu plano que fico feliz em atribuir ao célebre Sr. Pena,1 com quem, se não me engano, o senhor tem a honra de se relacionar intimamente. - Sinto-me constrangido de confessar que eu nem sequer ouvi falar antes de nenhum desses cavalheiros. - Meu Deus do céu! - exclamou o Sr. Maillard, empurrando sua cadeira para trás e levantando as mãos. - Será que eu ouvi direito? O senhor não pretendeu dizer, hein, que nunca ouviu falar nem do renomado Dr. Alcatrão nem do célebre professor Pena? - Sou obrigado a confessar minha ignorância - respondi. - No entanto sou humilde por não conhecer a obra destes dois. Sem dúvida, homens extraordinários. Vou procurar seus escritos e estudá-los com redobrada atenção. Mas, Sr. Maillard, o senhor realmente conseguiu, preciso confessá-lo, conseguiu realmente que eu sentisse vergonha de mim mesmo! E era a pura verdade. - Não falemos mais nisso, meu jovem - disse ele, gentilmente, pressionando minha mão. - Acompanhe-me num gole deste Sauterne. Bebemos. E todos os convivas seguiram nosso exemplo. Eles falavam, riam, gesticulavam, folgavam e cometiam mil absurdos. As rabecas rangiam, o tambor aumentava seus tantantãs, os trombones mugiam como touros, i Ao nomear tais supostos personagens, Poe brinca com um dito popular - "to tarr and feather" -, que significa cobrir (alguém) com alcatrão e penas, como forma de castigo. (N. do T.) de Phalares, toda aquela cena exasperava-se cada vez mais, à medida que o vinho imperava sobre todos, convertendo-se a cena numa espécie de pandemônio in petto. Enquanto isso, o Sr. Maillard e eu mesmo, com algumas garrafas de Sauterne e de Vougeot em comum, prosseguimos nossa conversa alteando a voz. Uma palavra falada em tom normal teria a mesma chance de ser escutada que a voz de um peixe nas cataratas do Niágara. - Mas, senhor - disse, quase gritando no seu ouvido -, o senhor mencionou antes do jantar a respeito do perigo que incorriam no velho "sistema suave". Como assim? - Ocasionalmente - disse ele -, havia grande perigo, sim. É impossível prever todos os caprichos de um louco; e na minha opinião, assim como na do Dr. Alcatrão e do professor Pena, não é nem um pouco prudente deixá-los circular o tempo todo sem vigilância. Um lunático pode ser "suave", como foi chamado o método por uns tempos, mas, ao fim e ao cabo, acaba por provocar distúrbios. A sua capacidade de manha também é grande e proverbial. Quando tem um plano na cabeça, ele concebe seu desempenho com uma sabedoria formidável; e a destreza com que imitam a sanidade oferece, aos metafísicos, um dos problemas mais singulares para o estudo da mente. Quando um louco aparece totalmente saudável, é o momento de colocá-lo numa camisa-de-força. - Mas qual o tal perigo de que falava? Já teve uma experiência pessoa! deste tipo? Já teve uma razão objetiva para considerar a liberdade como perigosa no caso da loucura? - Certamente que sim. Há pouco tempo, quando o sistema "suave" estava ainda em vigor e os lunáticos gozavam de total liberdade... Bem, o comportamento deles era excelente e daí uma pessoa experiente teria podido deduzir que aqueles malandrões andavam tramando algum plano demoníaco. Pois bem, numa bela manhã, os guardiões foram encontrados nas celas, de pés e mãos atados, vigiados pelos próprios loucos que haviam usurpado a função dos guardas. - Não diga? Nunca ouvi nada de mais absurdo na vida! - De fato. E tudo isso foi obra de um estúpido, um doido que tinha a mania de ter inventado o melhor sistema de governo que se podia imaginar (o governo dos doidos, bem entendido). E, propondo-se a fazer a experiência de sua invenção, persuadiu os demais doentes a juntarem-se a ele numa conspiração a fim de derrubar o poder reinante. - E conseguiu? - Sem dúvida. Os guardiões e os guardados tiveram respectivamente de trocar de posição, com o detalhe importante de que os loucos foram liberados e os guardas imediatamente seqüestrados nas celas e tratados, é preciso que se reconheça, de maneira bastante cavalheiresca. - Mas deduzo que uma contra-revolução logo se formou. Uma coisa destas não pode durar muito. Os camponeses da vizinhança, visitantes do hospício, teriam dado o alarme. - É aí que o senhor se engana. O chefe da rebelião era esperto demais e não admitiu a presença de visitantes. Uma única exceção, num dia, foi a de um cavalheiro de aspecto muito estúpido a ponto deles não terem razão de temê-lo. Eles deixaram que ele visse as dependências para se divertir um pouco com ele. Mas depois de terem desfrutado da cara dele, deixaram que fosse embora. - E quanto tempo durou o reinado dos loucos? - Muito tempo, na verdade cerca de um mês. Enquanto isso, os loucos puseram de lado suas roupas surradas e avançaram à vontade no guarda-roupa da família; nem as jóias lhe escaparam; em seguida dirigiram-se para as adegas do château - e não é que os diabos desses loucos são entendedores de vinho e sabem beber muito bem? Enfim, viveram à tripa forra, isso eu posso lhe garantir. - E o tratamento? Qual o tipo de tratamento que o chefe mandava aplicar? - Bem, quanto a isso, um louco não é necessariamente um bobo; e é a minha modesta opinião que o sistema de tratamento deles era bem melhor do que o nosso. Era um tratamento asseado, sem confusões, realmente delicioso; era... Aqui as observações do dono da casa foram bruscamente cortadas por outra leva de gritos externos. Desta vez as vozes vinham de pessoas se aproximando. - Pela bondade divina! - gritei. - Os loucos sem dúvida estão soltos! - Era o que eu mais temia - disse o Sr. Maillard, subitamente pálido. Ele mal terminou a frase, antes de ouvirmos gritos, berros e insultos atrás das janelas; e em seguida, tornara-se evidente que algumas pessoas do lado de fora forçavam a entrada. A porta era agredida com o que parecia ser um martelo acionado com uma pródiga violência. Seguiu-se uma cena de horrível confusão. O Sr. Maillard, para meu espanto, jogou-se para debaixo da mesa. Esperava mais poder de comando em suas mãos. Os membros da orquestra que, nos últimos 15 minutos pareciam bêbados demais para cumprir suas funções, escalaram a mesa próxima e agarraram-se a seus instrumentos, começando com um só acorde a tocar "Yankee Doodle", executando a música, se não com harmonia, pelo menos com uma energia sobre-humana, durante o tempo todo em que a desordem reinou. No entanto, o cavalheiro a quem tinham impedido de saltar para cima da mesa saltou nela desta vez, no meio das garrafas e dos copos, e começou logo um discurso que pareceria de certo de ótima qualidade se alguém tivesse conseguido escutá-lo. Na mesma hora, o homem que nos mostrara sua predileção pelo pião desatou a girar em roda da sala, de braços abertos, fazendo ângulo reto com o corpo e com tal energia que se teria dito um pião verdadeiro empurrando e deitando por terra tudo o que se encontrava na sua passagem. Ouvi então estalos incríveis e assobio de champanhes e não demorei a perceber que aquele barulho provinha do indivíduo que, durante o jantar, tão bem representara seu papel de garrafa. Ao mesmo tempo, o homem-rã coaxava com toda a força, como se a salvação de sua alma dependesse de cada nota que proferisse. Em meio a tudo aquilo, dominando todos os outros barulhos, reinava o zurrar contínuo de um burro. Quanto à minha conhecida amiga, madame joyeuse, em pé num canto da sala junto ao fogão, ela contentava-se em cantar o mais alto que podia o seu cocoricó! E então chegou a hora do clímax - a catástrofe do drama. Como não havia resistência, além de urros e cocoricós, cerca de dez janelas foram arrebentadas quase que ao mesmo tempo. Jamais esquecerei minhas próprias sensações de espanto e horror ao ver saltar pela janela e jogar-se para o meio de nós outros, acionando os pés, as mãos e as garras, um verdadeiro exército de monstros uivantes, que à primeira vista me pareceram chimpanzés, oran-gotangos ou enormes mandris negros do cabo da Boa Esperança. Recebi uma terrível cacetada, rolei sobre um sofá e lá fiquei estirado. Depois de uns 15 minutos, porém, durante os quais eu escutei com todos os meus ouvidos o que estava acontecendo, cheguei enfim a uma explicação satisfatória para aquela tragédia. Monsieur Maillard, ao que parece, ao me revelar a história do lunático que levara seus colegas à rebelião, estava apenas relatando suas próprias proezas. Este cavalheiro, cerca de uns três anos atrás, havia sido, sim, o diretor do asilo; mas acabou ele próprio enlouquecendo e tornara-se paciente. Fato que não era do conhecimento do meu companheiro de viagem que nos apresentou. Os guardiões, cerca de dez, tendo sido vencidos, foram untados de alcatrão e bem cobertos de penas e depois trancafiados nas celas do porão. Ficaram prisioneiros por cerca de um mês, e durante este período monsieur Maillard generosamente permitiu que dessem a eles não só alcatrão e penas (o que constituía seu "sistema"), mas também pão e água. Água que era bombeada para eles diariamente. Por fim, um deles conseguiu escapar por um cano e restituiu a liberdade para os demais. O "sistema suave", com importantes modificações, foi retomado no château; no entanto preciso concordar com monsieur Maillard que seu próprio "tratamento" era o máximo. Como mui justamente ele observou, era "simples, limpo e delicioso: não dava trabalho". Não tenho senão poucas palavras a acrescentar. Procurei em todas as bibliotecas da Europa as obras do Dr. Alcatrão e do professor Pena e, apesar de todos os meus esforços, não consegui, até o dia de hoje, obter um só exemplar.

"O manuscrito de um louco". DICKENS, Charles. O manuscrito de um louco e outras histórias. Rio de janeiro: Ediouro, 2005.



TRADUÇÃO DE JOSÉ PAULO PAES Um suposto louco observa-se a si mesmo efaz com que o leitor vá acompanhando sua própria evolução involução até o desfecho final. Considera-se "esperto", garante que tem "astúcia": "Continha-me; ninguém sabia, por enquanto, que eu estava louco". E: "atualmente confundo a realidade ao sonho e, tendo muito que fazer e estando sempre atarefado aqui, não me sobra tempo para separá-los da estranha confusão em que se envolvem..." Como nas obras-primas que o consagram no gênero romance - OliverTwist, David Coperfield e outros-, Charles Dickens (1812-1870) não esconde nesta história curta certa empatia com os humilhados e ofendidos (para usar a expressão de Dostoiévski), como se nos dissesse que o mundo não está dividido entre loucos e normais mas entre pobres e ricos. Normal? Sim! - de um louco! Como essa palavra não me teria gelado o coração muitos anos atrás! Como não teria despertado o terror que costumava acometer-me por vezes, fazendo com que o sangue me zunisse e latejasse nas veias, até que o frio orvalho do medo me cobrisse de gotas enormes a pele, e meus joelhos se pusessem a bater um contra o outro, de susto! Entretanto, gosto dela agora. É uma linda palavra. Mostrai-me o monarca cujo cenho carregado tenha sido alguma vez temido como o brilho dos olhos de um louco - cuja corda e cujo machado tenham a metade da firmeza das garras de um louco. Ho! ho! É esplêndido ser louco! Ser contemplado, por entre as grades de ferro, qual um leão feroz - rilhar os dentes e uivar, no silêncio das noites sem fim, ao alegre tilintar de uma pesada corrente -, e rolar e estorcer-se sobre a palha, transportado portão heróica música. Um hurra ao manicômio! Oh! que belo lugar! Lembro-me dos dias em que temia ficar louco; em que costumava despertar sobressaltado e cair de joelhos e rezar para ser poupado à maldição de minha raça; em que, fugindo aos espetáculos de alegria e felicidade, ia-me ocultar nalgum lugar solitário e passava as horas tediosas observando o progresso da febre que me consumiria o cérebro. Sabia que a loucura estava no meu próprio sangue e na medula dos meus ossos!; que uma geração se passara sem a pestilência dar sinal de si e que eu seria o primeiro em quem ela haveria de reviver. Sabia que deveria ser assim: que assim sempre fora e assim teria de ser; quando me enfiava nalgum canto obscuro de uma sala cheia de gente e via os homens murmurarem, apontarem-me com o dedo e voltarem os olhos para mim, sabia que falavam entre si do louco predestinado; fugia, então, novamente para cismar na solidão. Fiz isso durante anos, longos, longos anos. As noites aqui são longas, por vezes - muito longas; mas não se comparam àquelas noites inquietas, cheias de sonhos terríveis. Gela-me o sangue só de recordá-las. Grandes formas torvas, de rostos maliciosos e zombeteiros, povoavam os cantos do quarto e inclinavam-se sobre meu leito, à noite, tentando-me para a loucura. Diziam-me, sussurrantes, que o chão da velha casa onde meu pai morrera estava manchado do seu sangue, derramado por suas próprias mãos durante os ataques de loucura furiosa. Eu tapava os ouvidos, mas elas gritavam-me junto à cabeça, até que o quarto todo ressoasse que na geração anterior a ele a loucura não se manifestara, mas que seu avô vivera anos com as mãos agrilhoadas ao solo, a fim de evitar que se espedaçasse a si mesmo. Eu sabia que diziam a verdade - sabia-o bem. Descobrira tudo anos antes, embora tivessem tentado ocultar-mo. Ha! ha! aquele a quem julgavam louco era esperto demais para eles. Finalmente, a loucura se apoderou de mim e eu me admirei de havê-la sempre temido. Poderia ingressar no mundo, agora, e rir e gritar como todos os homens. Eu sabia estar louco, mas eles nem sequer suspeitavam disso. Como me deliciava ao pensar na bela peça que estava a pregar-lhes; haviam-me apontado e espreitado, julgando que eu não estivesse ainda louco, mas em vias de endoidecer. E como eu me ria alegremente, quan- do estava a sós, ao refletir em quão bem mantivera o segredo e em quão rapidamente meus bons amigos se teriam afastado de mim se soubessem da verdade. Poderia ter berrado de prazer quando, jantando sozinho com algum patusco, imaginara quão pálido ele não haveria de ficar e com que rapidez não fugiria se soubesse que o querido amigo a seu lado, ocupado em amolar uma faca reluzente, era um louco dotado de toda a força necessária, e de quase toda a vontade, para enterrá-la no seu coração. Oh! era uma vida alegre! Enriqueci; tesouros jorraram sobre mim e mergulhei num turbilhão de múltiplos prazeres, realçados pela consciência do meu segredo tão bem guardado. Herdei uma propriedade. A lei - a mesma lei de olhos de águia - fora burlada: entregara às mãos de um louco milhares disputados. Onde estava a argúcia dos homens de olhos clarividentes e mente sã? Onde estava o atilamento dos advogados, sempre tão ávidos em descobrir a mínima incorreção? A astúcia de um louco havia-os sobrepujado. Eu tinha dinheiro. Como era cortejado! Gastava profusamente. Como era louvado! E como aqueles três irmãos orgulhosos e tirânicos se humilharam diante de mim! O velho pai de cabeça encanecida - que deferência, que respeito, que devotada amizade - me adorava também! O velho tinha uma filha e os jovens uma irmã; todos os cinco eram pobres. Eu era rico e quando desposei a rapariga, vi um sorriso de triunfo perpassar pelo rosto dos seus parentes necessitados, ao pensarem no plano tão bem esboçado e no alto prêmio alcançado. Eu é quem deveria sorrir. Sorrir! Rir a bandeiras despregadas, arrancar os cabelos, rolar no chão com rugidos de alegria. Nem se davam conta de que a haviam casado com um louco. Um momento. Se o soubessem, tê-la-iam salvado? A felicidade da irmã contra o ouro do marido. A mais leve pena que eu assopre no ar contra a alegre corrente que me enfeita o corpo! Num ponto, viu-se lograda toda a minha argúcia. Se eu não fora louco - pois embora nós, loucos, sejamos bastante argutos, somos logrados algu mas vezes -, devera ter sabido que a rapariga preferiria ver-se rígida e fria num triste caixão de chumbo, a ser conduzida como invejada noiva à minha faustosa e brilhante mansão. Devera ter sabido que seu coração pertencia ao rapaz de olhos negros, cujo nome lhe ouvi murmurar, certa feita, durante o sono agitado, e que ela fora sacrificada a mim para aliviar a pobreza do velho encanecido e dos irmãos altivos. Não recordo traços ou faces agora, mas sei que a rapariga era bela. Sei que era, pois, nas claras noites de luar, quando desperto na quietude noturna, vejo, de pé, imóvel a um canto desta cela, uma esguia e macilenta figura, de longos cabelos negros que lhe cascateiam pelas costas, agitados por um vento sobrenatural, e de olhos que me fitam sem jamais se fecharem ou pestanejarem. Psiu! o sangue gela-me nas veias quando escrevo isto - aquela figura é a dela; a face é muito pálida e os olhos são vítreos e brilhantes, mas eu os conheço bem. A figura nunca se move; nunca franze o cenho nem vocifera como as outras, que povoam este lugar, por vezes; todavia, aterroriza-me muito, mais mesmo que os espíritos que me tentavam anos atrás, pois vem diretamente do túmulo e é muito semelhante à morte. Durante quase um ano vi aquele rosto empalidecer mais e mais; durante quase um ano vi as lágrimas descerem-lhe pelas faces tristes e nunca soube a causa. Descobri-a, contudo, por fim. Não puderam evitar que eu acabasse por descobrir. Ela nunca me amara; jamais pensei que me amasse. Mas que desprezasse minha riqueza e odiasse o esplendor em que vivia, isso eu nunca esperara. Amava outrem. jamais pensei que tal pudesse acontecer. Estranhos sentimentos se apoderaram de mim, e pensamentos, incutidos por algum secreto poder, giravam e regiravam no meu cérebro. Eu não a odiava, embora odiasse o rapaz por quem ela ainda chorava. Deplorava - sim, eu deplorava - a miserável existência à qual seus parentes frios e egoístas a haviam condenado. Sabia que ela não viveria muito, mas a idéia de que, antes de morrer, pudesse dar à luz algum ser infortunado, destinado a transmitir a loucura à sua descendência, decidiu-me. Resolvi matá-la. Durante muitas semanas, pensei em venenos; pensei depois em afo-gamento e, finalmente, em fogo. Que belo espetáculo não seria a grande mansão em chamas e a mulher do louco convertendo-se em cinzas! Ademais, pensai na farsa de um grande prêmio e de algum homem são a balançar numa corda por um crime que não cometera, em virtude da astúcia de um louco! Pensei muitas vezes nisso, mas desisti finalmente. Oh! o prazer de amolar a navalha, dia por dia, experimentando-lhe o gume afiado e pensando no talho que um golpe da lâmina fina e reluzente abriria!

222 Por fim, os antigos espíritos, que haviam estado comigo antes, tão freqüentemente, sussurraram-me ao ouvido que a hora chegara e colocaram-me a navalha aberta na mão. Agarrei-a firmemente, ergui-me, sem ruído, no leito, e inclinei-me sobre a minha esposa adormecida. Ela tinha o rosto oculto nas mãos. Afastei-as delicadamente e as mãos lhe caíram, inertes, sobre o peito. Estivera chorando, pois havia ainda vestígios de lágrimas em seu rosto. Tinha uma expressão calma e plácida e, quando a olhei, um sorriso tranqüilo iluminou-lhe as feições pálidas. Descansei a mão suavemente sobre o seu ombro. Ela teve um sobressalto - era apenas um sonho passageiro -, gritou e despertou. Um simples movimento de minha mão, e ela nunca mais gritaria nem faria qualquer ruído. Mas eu estava assustado e recuei. Seus olhos estavam fitos nos meus. Não sabia como, mas eles me intimidavam e assustavam; senti-me subjugado. Ela se ergueu na cama, ainda me olhando fixa e esgazeadamente. Eu tremia; a navalha continuava em minha mão, mas não podia movê-la. Eia se encaminhou para a porta. Quando dela se acercou, voltou-se e desviou os olhos do meu rosto. O encanto fora rompido. Pulei para a frente e agarrei-a pelo braço. Dando grito sobre grito, ela se deixou cair ao solo. Eu poderia tê-la matado naquele instante, sem luta, mas a casa alvorotara-se. Ouvi o ruído de passos na escada. Recoloquei a navalha na gaveta do costume, desaferrolhei a porta e chamei, em voz alta, por socorro. Veio gente, que a ergueu e a pôs na cama. Ela permaneceu sem sentidos por horas e horas; quando a vida, o olhar e a fala lhe voltaram, a razão desamparara-a e ela desvairava doida e furiosamente. Doutores foram chamados - homens importantes, que chegavam até minha porta em belos carros, com magníficos cavalos e criados de libre. Permaneceram semanas inteiras à sua cabeceira. Organizaram uma grande reunião: consultaram-se uns aos outros, num quarto anexo, com vozes surdas e solenes. O mais sábio e o mais célebre deles chamou-me à parte e, rogando que me preparasse para o pior, contou-me - a mim, o louco! - que minha esposa estava louca. Permaneceu bem junto de mim, ao lado da janela aberta, com os olhos fitos em minha face e mão sobre o meu braço. Com um simples gesto, eu poderia tê-lo atirado à rua lá embaixo. Teria sido um esporte aprazível, mas o meu segredo estava em jogo, e eu o deixei ir-se ileso. Alguns dias depois, disseram-me que eu devia colocá-la sob vigilância. Que devia arranjar um guardião para ela. Eu! Saí para os descampados, onde ninguém pudesse ouvir-me, e ri até que o próprio ar ficasse saturado com meus gritos. Ela morreu no dia seguinte. O velho de cabeça encanecida acompanhou-a ao túmulo e os irmãos orgulhosos derramaram lágrimas sobre o corpo insensível daquela a cujos sofrimentos haviam assistido, durante a sua vida, com músculos de ferro. Tudo isso era alimento para a minha secreta alegria, e eu me ri por trás do lenço branco que levara à face, ao voltarmos para casa, até as lágrimas me assomarem aos olhos. Embora houvesse alcançado meu desígnio e a tivesse matado, sentia-me inquieto e perturbado; percebia que, dentro em pouco, meu segredo seria conhecido. Não lograva ocultar a doida alegria que me borbulhava no peito e que me fazia, quando estava em casa, a sós, dar pulos, bater palmas, dançar e berrar. Quando saía à rua e via a multidão apressada; quando ia ao teatro e ouvia som de música e contemplava os outros dançarem - sentia tamanho júbilo, que teria sido capaz de atirar-me ao meio deles e espedaçá-los, membro por membro, com urros de gozo. Mas rangia os dentes, firmava os pés no solo e enterrava as unhas aguçadas nas palmas das mãos. Continha-me; ninguém sabia, por enquanto, que eu estava louco. Lembro-me - eis uma das últimas coisas de que ainda me lembro, pois atualmente confundo a realidade ao sonho e, tendo muito que fazer e estando sempre atarefado aqui, não me sobra tempo para separá-los da estranha confusão em que se envolvem -, lembro-me de como, afinal, o revelei. Ha! ha! julgo ver-lhes de novo os olhares apavorados e sentir a facilidade com que os lancei de mim e lhes golpeei as faces alvacentas com os punhos fechados e fugi, rápido como o vento, deixando-os a gritar e a berrar atrás de mim. A força de um gigante vem-me sempre que os recordo. Olhai - vede como esta barra de ferro se encurva ao meu ímpeto furioso. Eu poderia quebrá-la como a uma vara, mas há aqui longos corredores com muitas portas - acho que me perderia neles; e mesmo que conseguisse achar o caminho, sei que há portões de ferro lá embaixo, aferrolhados. Sabem que louco astuto fui e estão orgulhosos de me terem aqui para exibição. Vejamos - sim. Eu saíra. Eram altas horas quando cheguei em casa e ali encontrei o mais orgulhoso dos três orgulhosos irmãos esperando-me

tinham um negócio urgente a tratar comigo. Lembro-me bem. Eu odiava aquele homem com todo o ódio de um louco. Muitas e muitas vezes tinham os meus dedos ansiado por despedaçá-lo. Disseram-me que ele estava à minha espera. Subi apressadamente. Ele tinha uma palavra a dizer-me. Dispensei os criados. Era tarde e ficamos sós - pela primeira vez. A princípio, evitei cuidadosamente fitá-lo, pois sabia que ele nem sequer imaginava - e eu me vangloriava disso - que a luz da loucura brilhava nos meus olhos como fogo. Ficamos sentados em silêncio, durante alguns minutos. Ele falou por fim. Minha recente devassidão e meus estranhos reparos, feitos logo depois da morte de sua irmã, eram um insulto à memória dela. Reunindo muitas circunstâncias que lhe haviam escapado a princípio, julgava que eu não a havia tratado bem. Queria saber se estava certo ao inferir que eu intentava conspurcar-lhe a memória e desrespeitar-lhe a família. O uniforme que vestia obrigava-o a exigir tal explicação. Aquele homem tinha uma comissão no exército - uma comissão comprada com o meu dinheiro e com a miséria da irmã! Aquele era o homem que liderara o plano para agarrar-me e apoderar-se das minhas riquezas. Aquele homem fora o instrumento principal para obrigar a irmã a desposar-me, embora soubesse que o coração da rapariga pertencia ao mancebo choramingas. Seu uniforme! A libre de sua degradação! Voltei os olhos para ele - não podia evitá-lo-, mas não pronunciei palavra. . Contemplei a alteração que ocorreu nele debaixo do meu olhar. Era um homem intemerato, mas a cor fugiu-lhe do rosto e ele recuou a cadeira. Aproximei a minha da dele, ri - eu estava alegre naquele momento - e vi-o estremecer. Senti a loucura crescendo dentro de mim. Ele me tinha medo. - O senhor gostava muito de sua irmã quando ela era viva - obser vei-lhe. - Muito. Olhou inquieto à volta de si e vi sua mão agarrando o espaldar da cadeira; todavia não dizia nada. - Canalha! - exclamei. - Peguei-te; descobri teus planos infernais contra mim. Sei que o coração dela pertencia a outro antes de a obrigares a desposar-me. Sei disso... sei disso. Ele saltou bruscamente da cadeira, brandiu-a no ar e intimou-me a recuar - pois eu tivera o cuidado de aproximar-me mais e mais dele enquanto falava. Eu já não falava: gritava. Sentia paixões tumultuosas borbulharem-me nas veias e ouvia os velhos espíritos murmurarem, incitando-me a arrancar-lhe o coração. - Maldito sejas! - disse eu, erguendo-me e atirando-me contra ele. - Matei-a, sim. Sou um louco. Vou matar-te. Sangue, sangue! Quero o teu sangue! Com um golpe, arranquei-lhe das mãos a cadeira com que, aterrorizado, me ameaçara, e atracamo-nos; com um pesado estrondo, caímos ambos ao chão. Aquela foi uma bela luta, pois ele era um homem alto e forte, lutando pela própria vida, e eu um louco vigoroso, sedento por destruí-lo. Eu sabia que força nenhuma poderia equiparar-se à minha, e estava certo. Certo novamente, embora fosse um louco! Seus movimentos foram-se tornando cada vez mais débeis. Ajoelhei-me sobre o seu peito e agarrei-lhe firmemente o pescoço musculoso, com ambas as mãos. Sua face começou a ficar congesta; os olhos saltavam-lhe das órbitas e, com a língua de fora, ele parecia zombar de mim. Apertei com mais força ainda. A porta escancarou-se súbita e ruidosamente, e um grupo de pessoas irrompeu no aposento, gritando que detivessem o louco. Meu segredo estava revelado, e só me restava lutar pela liberdade. Pus-me de pé antes que me lograssem agarrar, atirei-me contra os invasores e abri caminho com o braço, como se brandisse um machado, derrubando os que se me antepunham. Ganhei a porta, transpus o corrimão e, num átimo, achei-me na rua. Deitei a correr, velozmente, e ninguém se atreveu a deter-me. Ouvi ruído de passos atrás de mim e redobrei de velocidade. O ruído da perseguição foi esmorecendo e, por fim, desapareceu, mas eu continuava a saltar sobre paus e charcos, cercas e muros, com gritos selvagens que eram retomados pelos seres estranhos que me cercavam de todos os lados e devolvidos, ampliados, até rasgarem o ar. Eu era transportado nos braços de demônios que voavam no vento e que derrubavam ribanceiras e sebes, ao passar, fazen-do-me girar e regirar com uma rapidez e um estrépito que me punham a cabeça à roda, até que, por fim, arremessaram-me de si, com um golpe brusco, e eu tombei pesadamente ao chão. Ao despertar, encontrei-me aqui - nesta cela alegre, onde a luz do sol dificilmente penetra, onde o luar só vem para mostrar-me as sombras negras que me circundam e aquela figura silente no seu velho canto. Quando estou desperto, na cama, posso às vezes ouvir estranhos uivos e gritos, vindos de partes distantes deste casarão. Que gritos e uivos são esses, não sei, mas não procedem nem da figura pálida, nem a ela se referem. Desde as primeiras sombras do entardecer até as primeiras luzes da madrugada, ali permanece ela, imóvel, no mesmo lugar, atenta à música da minha corrente de ferro e às cambalhotas que dou no meu leito de palha.

"A mentira (Memórias de um louco)" ("Le mensonge"). ANDREIEV, Leonid. Le mensonge. Paris: Phébus, 1994.



TRADUÇÃO DE ALVES MOREIRA Mentira e verdade não representam aqui uma opção moral ou ética: é mais a bipolaridade de uma idéia fixa. Uma rigidez em relação aos outros e a necessidade absolutamente literal em relação ao próprio significado da palavra, de qualquer palavra; uma mente obsessivo-compulsiva aliada a uma situação dúbia tanto interna quanto externamente, eis o que leva à tragédia final. Façam seus diagnósticos, leitores e doutores .(Ao respondera uma pessoa que lhe havia perguntado se ele tinha certeza absoluta sobre determinado assunto, Lacan respondeu que só os paranóicos tinham certeza absoluta...) O que importa aqui é o resultado literário deste relato de Leonid (Leônidas) Andreíev (1877-1919), clássico russo, autor da obra-prima Os sete enforcados, entre outras histórias que parecem nunca tocadas pela luz do sol. Pelo menos metaforicamente. O homem tem dentro de si uma pantera negra, por sua vez, presa dentro de umajaula? I - Você mente, sei que você mente! - Por que está gritando? Quer que os outros escutem? E mais uma vez ela mentia, porque eu não gritava, apenas falava com ela suavemente; segurava-a pela mão e falava-lhe baixinho. Aquela venenosa palavra "mentira" me provocava calafrios e me picava como uma pequena víbora. - Eu te amo - prosseguia ela -, e é melhor que você acredite em mim! Nem isso é capaz de te convencer? E ela me deu um beijo. Mas quando quis abraçá-la, enlaçá-la fortemente, ela não estava mais ali; saíra já pelo escuro corredor e mais uma vez eu a segui pelo salão onde a alegre festa chegava ao fim. Fora ela que me suplicara para vir ao baile; obedeci-lhe e assisti os pares que dançaram harmoniosamente a noite toda. Ninguém se aproximara de mim, ninguém falara comigo. Sentei-me próximo à orquestra, num canto, afastado de todos, com o bocal de um trombone a gritar e a rir nos meus ouvidos seu riso velhaco, dilacerante: - OhlOhü Ohü E eis que de repente um vulto branco se aproximou de mim: era ela. Depois de erguer os olhos, vi-lhe o perfil branco, duro. Vi também seus belos olhos, grandes, ávidos de luz, tranqüilos. Talvez eu olhara seu rosto num tão breve átimo que meu coração, nesse intervalo, pulsou apenas uma vez. Jamais antes compreendi eu tão profunda e tão horrivelmente o que significava o infinito, jamais antes experimentei com tanta força essa sensação. Presa de um temor que se misturava a um sofrimento, sentia que minha vida perpassava pelos seus olhos e isso duraria até o momento em que eu me transformasse num estranho para mim mesmo, um estranho vazio e nulo, como um morto. E então ela me deixou sozinho, carregando com ela minha vida, e voltou a dançar com um moço alto, soberbo e bonito. Examinei os mínimos detalhes daquele homem, o corte do seu traje, a amplitude de seus ombros esbeltos e os cabelos repartidos ao meio. Com indiferença ele me olhava, sem me ver, mas me pareceu que cada olhar dele me esmagava de encontro à parede e me fazia assim de tal maneira transparente que já quase me confundia com a parede. Quando os brilhantes candelabros começaram a apagar, aproximei-me dela e disse: - Está na hora! Vou acompanhá-la. Ela no entanto ficou surpresa e murmurou: - Eu preciso ir com ele. E me apontou o belo rapaz que olhava para longe. Em seguida, arras-tando-me para o corredor deserto, me deu mais um beijo. - Você mente! - disse a ela, ao ouvido. - Vamos nos rever ainda hoje! Agora você precisa ir! - respondeu-me ela. Ao sair do baile, uma aurora glacial embranquecia os telhados. Na rua, somente eu e o cocheiro. O cocheiro, de cabeça baixa, parecia pensar na vida. Eu também meditava: pensava nela, nas suas mentiras! Andávamos assim pelas ruas compridas e retas, ao passo em que a madrugada erguia-se por cima das casas e tudo à nossa volta estava imóvel e branco. II Ela mentira. Fiquei à sua espera, em vão. O crepúsculo cinzento foi escurecendo e, sem que eu percebesse, ao dia logo se sucedeu à tarde e esta à noite. Eu ia e vinha, com meu passo sempre igual, monótono, fatigado pela longa espera, andando para a frente e para trás, no lado oposto da rua, sem me aproximar da casa em que ela morava. Ao voltar a cabeça para a porta da casa, a neve picou-me o rosto com suas agulhas agudas e tão afiadas que me chegou até o coração, atormen-tando-o com o tédio e a ira de uma já longa espera. Eu esperava por ela, mas ela não chegava. Não sei por que, em vez de chorar e gritar por tanto sofrimento, eu ria e me alegrava, a esfregar os dedos com força, uns de encontro aos outros, como se fossem garras e tivessem conseguido estreitar nelas aquela víbora pequena e venenosa: a mentira! A víbora retorcia-se entre minhas mãos, e mordia-me o coração e seu veneno me obrigava a virar mais uma vez a cabeça. Para mim, tudo era mentira. Sim, todo e qualquer limite entre o presente e o passado desaparecera. Minha impressão era a de ter vivido sempre e nunca, e que ela sempre e nunca reinara sobre mim: cheguei a pensar que aquilo tinha nome e corpo. Não tinha nome, para mim; era aquela que mentia, aquela que fazia-se esperar e não vinha, durante toda a eternidade! Eu ria, sim, e as agulhas afiadas penetravam-me o coração e um riso ordinário ressoava nos meus ouvidos: "OhüOhHOhH" Abri os olhos e vi iluminadas as janelas do alto casarão a me dizer, com voz macia: - Ela o engana! No momento mesmo em que você caminha, sofre, espera, ela, bonita, brilhante, mentirosa, está aqui dentro ouvindo tudo quanto lhe sussurra um rapaz bonito e forte que o despreza. Se você entrasse aqui e a matasse? Seria um feito, com certeza, pois assim mataria você a própria mentira! Eu apertava ainda mais a mão que agarrava um punhal e, sorrindo, respondia: - Sim, eu vou matá-la. Mas era com piedade que as janelas olhavam para mim e, com piedade, acrescentavam: - Não, você não vai matá-la! Não a matará nunca, porque esta arma na suas mãos é uma mentira, igualzinha aos beijos dela! Há muito desapareceram as sombras silenciosas dos transeuntes. Na rua fria continuava eu, sozinho, olhando as trêmulas chamas dos lampiões. Um pouco afastado, o relógio do campanário da igreja marcou as horas: o som metálico tremia e chorava e, chispando pelo espaço, perdia-se finalmente no louco turbilhão dos flocos de neve. Contei as pancadas do relógio: soaram 15 vezes. O campanário era velho, como o relógio; mas muito embora indicasse a hora com exatidão, tocava com freqüência assim mesmo, por acaso, às vezes muito pouco, às vezes demasiado, de modo que o velho sineiro de cabelos grisalhos via-se obrigado a subir até o alto para sustar com as mãos o martelinho que teimava em bater. Por que aqueles antigos toques, trêmulos e compassivos, mentiam? Por que aquela inútil mentira? Ao soar o último daqueles badalos mentirosos, a porta de casa se abriu e vi dela sair a alta figura de um homem. Só consegui lhe perceber as costas, mas não foi difícil reconhecê-lo. Era como o vira na véspera, arrogante e com um ar de desprezo. Reconheci-lhe também o passo, agora ainda mais firme e lépido que no dia anterior. Ao sair por aquela porta, também eu tivera aquele mesmo passo; o passo de um homem que beijara os lábios de uma mulher. Eu cobrava, ameaçava, rangendo os dentes: - Diga a verdade! Ela, rosto frio como gelo, franzia as sobrancelhas de uma maneira singular, e sob elas continuava a sorrir seu impenetrável olhar, e me perguntava: - O quê? Você está insinuando que eu esteja mentindo? Eu sabia que não conseguiria provar que ela estivesse mentindo, que meu estado de espírito desconfiado poderia ser totalmente modificado por uma só palavra - outra mentira. Aguardava que aquela palavra lhe saísse dos lábios, mesmo sabendo que seria sempre negra, ainda que se recobrisse de uma tintura de verdade. - Não te amo? Não sou toda tua? Estávamos longe da cidade. A sóbria janela do quarto dava para um campo de neve. Embaixo, à volta, tudo eram trevas, trevas densas, imóveis, mudas! No aposento quentíssimo, apenas uma vela ardia, e o pálido reflexo do campo parecia divertir-se em sua luz avermelhada. - Preciso conhecer a verdade, por mais terrível que seja! Talvez eu venha a morrer com ela, mas mil vezes morrer do que ficar ignorando a verdade. Em todos os teus beijos e abraços percebo a mentira. Leio a mentira em teus olhos! Digue-me a verdade e eu te deixarei para sempre - exclamei. Ela continuava calada e seu olhar, friamente indagador, penetrava-me a alma, revolvendo-a, examinando-a com uma curiosidade estranha. Gritei então: - Me responda se não eu te mato! - Pois então me mate - tranqüilamente ela respondeu. - Há momentos em que a vida me pesa. Mas você acha que se tornará o senhor da verdade fazendo ameaças? De repente, joguei-me a seus pés. Supliquei-lhe, revirando as mãos, que tivesse piedade de mim, que me dissesse enfim a verdade. - Infeliz! - ela me respondeu, acariciando meus cabelos. - Infeliz! - Tenha pena de mim! - implorei. - Preciso tanto da verdade! Olhava para sua testa pura e pensava que a verdade estava ali, do lado de lá da frágil barreira que, insensatamente, desejava eu abater para, afinal, vê-la. Um pouco mais a baixo, sob o seio alvo, eu sentia pulsar-lhe o coração e experimentava um desejo insensato de abrir aquele peito, para ver - ao menos uma vez na vida - o que realmente existia naquele coração. No entanto, a luz trêmula da vela ia se esvanescendo aos poucos; as paredes iam ficando escuras, e eu me sentia sozinho, vazio, tristíssimo! De repente, apaga-se a vela e permanecemos envoltos nas trevas. Eu nada mais enxergava, nem sua boca, nem os olhos da minha amada; suas mãos envolviam meu pescoço e não escutei mais a mentira. Mantive os olhos fechados, nada mais via, nada mais vivia; apenas interrogava o contato daquelas mãos, que me pareciam um contato verdadeiro. Sem murmúrio algum, estranho e doloroso, alçava-me suavemente na noite. - Me abraça, tenho medo! Em seguida novamente silêncio e novamente um murmúrio indistinto, pleno de terror: - Você quer saber a verdade? Mas quer dizer que você pensa que eu por acaso a conheça? Eu também, quem sabe, não desejaria conhecê-la? Abraça-me; ah!, como tenho medo" Reabri os olhos. A escuridão do aposento amortecia tudo, e das janelas abertas fitava-me em silêncio uma coisa branca, moralmente branca. Era como se dois olhos vítreos nos fitassem, nos seqüestrassem com seu olhar de gelo Abraçamo-nos , a tremer, e ela sussurrou: - Ah, como tenho medo! Matei-a. Matei-a, e quando eu a vi estendida próximo da janela, massa inerte e flácida, inclinei-me sobre seu corpo e explodi em gargalhadas. Não era o gargalhar de um louco, ah!, com certeza quenão! Sabia eu perfeitamente por que estava rindo. Ria por sentir que meu peito finalmente podia respirar com sopro contínuo e leve; nela também agora tudo estava sereno e esvaziado. Meu coração, por fim, vomitava o verme que o atormentava. Inclinando-me sempre, fitava seus olhos esbugalhados que, redondos e opacos, parecendo recobertos por uma camada de mica, eram como olhos de uma figura de cera. Sem sentir pavor algum, podia então fechá-los e abri-los pois o demônio da mentira e da dúvida que de uma forma tão cruel, durante tanto tempo, me sugara o sangue, não mais vivia naquelas escuras e impenetráveis pupilas. Quando chegaram para me prender, eu ainda ria; e vi que meu riso, para aqueles homens, parecia do mal, sinistro, selvagem. Afastavam-se de mim com nojo, e com ar ameaçador é que vinham ao meu encontro; mas tão logo meu olhar, alegre e lúcido, se encontrava com o deles, meu rosto empalidecia e eles também obrigados a me voltar o rosto, me evitando ao máximo. - Louco! Louco! - exclamavam. Eu percebi que essa palavra lhes trazia alívio, e me permitia explicar-lhes o enigma, o de saber como um homem que amava uma mulher como um louco tivesse podido, rindo, matar seu amor. Um só deles, um homenzinho risonho, gordo e avermelhado, chamou-me de outra maneira, que me chocou o coração a ponto de me apagar o brilho dos olhos. - Infeliz! - disse-me ele, com a compaixão que somente poderia possuir um homem gordo e risonho - Infeliz! - Pois eu o proíbo de me chamar assim! - gritei. - Eu o proíbo! - e nem sei porque não me joguei em cima dele. Claro que não queria espancá-lo nem assustá-lo, mas todos aqueles homens, a me julgar insano e assassino, amedrontavam-se ainda mais e gritavam de tal maneira que comecei a rir. Ao me levarem, com força e determinação, para fora do quarto onde jazia o cadáver, disse mais uma vez, com os olhos fixos no homenzinho de aparência jovial: - Eu sou feliz! Sou feliz! E era verdade. Um dia, e já faz tanto tempo, vi numa jaula de feras uma pantera negra que em nada se parecia com as demais panteras que cochilavam vagamente ou lançavam olhares ferozes para os visitantes. Essa pantera em particular caminhava de um lado para o outro da jaula, seguindo como que numa precisão matemática, uma linha invariável e virando sua coxa negra a cada vez na mesma barra de ferro, o que provocava estranhos reflexos dourados. Com o focinho sutil virado para o chão, ela parecia olhar diretamente para dentro de si mesma, sem voltar a cabeça jamais. Da manhã à noite, a pequena multidão que se juntava, resmungava e gritava diante da jaula; alguns visitantes sorriam, mas a maior parte olhava aquilo com uma seriedade quase triste, a viva imagem de um desespero infinito. E mais de um visitante, depois de se afastar, atirava involuntariamente um último olhar àquela pantera, como que sentindo algo de comum entre seu próprio destino e o destino do infeliz animal prisioneiro. Quando, mais tarde, os homens e os livros me falaram da idéia de eternidade, eu me lembrava sempre da pantera e ficava com a impressão de já conhecer a eternidade, com toda a sua seqüência de dores. Hoje, em minha jaula de pedra, também eu me tornei igual àquela fera. Ando e penso. Ando através da cela, de um canto a outro da cela, seguindo uma só e única direção. Uma única linha seguem também meus pensamentos, tão pesados que mais parecia eu carregar sobre os ombros não só a cabeça mas também o mundo. E todos eles consistem numa só palavra, grande, dolorosa, perversa! E essa palavra é: "Mentira!" E mais uma vez ela, silvando, recocheteia por todos os cantos e es-voaça em redor da minha alma. No entanto deixou de ser agora uma pequena víbora para assumir a forma de um enorme dragão que, com seus dentes de aço, me dilacera. E enquanto escancaro a boca para gritar de dor, uma única e idêntica palavra me sai sempre da garganta: "Mentira!" Abominável palavra que, contínua e cotinuadamente, murmurando-me ao ouvido, acaba por exasperar-me. E grito, batendo os pés: - A mentira não existe mais! Eu a matei, eu a matei! E tapo os ouvidos para não ouvir a resposta que me poderiam dartodos os cantos da cela. Mas ela, pouco a pouco, insinua-se da mesma maneira: - Mentira! Como vocês vêem, eu estava inteiramente equivocado! Matei a mulher sem antes, através de rogos, astúcia ou fogo, lhe ter conseguido arrancar a verdade. E assim vou pensando, caminhando de um canto para o outro da cela. VI Como tudo é negro lá embaixo, para onde ela carregou consigo a mentira e a verdade! Mas não importa, para lá irei da mesma maneira. Onde estiver, irei ter com ela, mesmo que no mais negro rincão de Satã. Irei me ajoelhar a seus pés e lhe direi, aos prantos: - Revele-me a verdade! Mas, Deus meu! Também isso é uma mentira! Lá embaixo existem apenas trevas e vacuidades. Ela não mais se encontra lá e nem tampouco em outro lugar! Apenas a mentira vive; a mentira é imortal, é imortal: sinto-a no mais insignificante átomo de ar que respiro. Ela, a cada sopro, me penetra, me penetra no peito e vai torturando-o, torturando-o. Ah!, que loucura é um homem procurar a verdade! Que atroz sofrimento! Socorro! Tenham compaixão de mim! Socorro!

"O Horla (Primeira versão)" ("La Horla"). MAUPASSANT, Guy. La Horla. Paris: Gallimard, 2003.



TRADUÇÃO DE CELINA PORTOCARRERO Ele conheceu a loucura de perto e dela inconscientemente se serviu para deixar uma obra marcada por viagens Inesperadas ao mundo do horror e do fantástico. Consagrou-se em vida, marcou sua presença na história da literatura, o que não o impediu de terminar seus dias num manicômio, de uma forma deplorável. São pelo menos 14 os contos de Guy de Maupassant (1850-1893) que têm a loucura como tema central. Escolhemos aqui "Um louco" e "O Horla" (a primeira versão) que, junto com a segunda versão (incluída em Os melhores contos fantásticos, Nova Fronteira, 2006), estão entre os melhores do autor. As duas versões são diferentes: a primeira, escrita na terceira pessoa, tem uma forma mais contida, clássica; a segunda, escrita na primeira pessoa, apresenta-se de um jeito mais pessoal, "moderno". Sim, valeria a pena a leitura de um e outro, conjuntamente. Nessa versão que se vai ler, a primeira e "clássica", curiosamente uma estranha notícia vinda de um país então (para a Europa) exótico chamado Brasil contribui para o surto do personagem. Quem tiver curiosidade de seguir a trilha dos contes de folie de Maupassant, é a seguinte a lista dos demais contos: "Lui?", "Lettre d' unfou", "Le docteur Héracllus Gloss", "Ríves", "La chevelure", "Ehommes de Mars", "Un cas de divorce", "Menuet", "Denis", "Uauberge", "Uendormeuse". Pode ler sem susto, leitor. Ou não? O doutor Marrande, o mais ilustre e mais eminente dos alienistas, pedira a três confrades e quatro sábios, estudiosos de ciências naturais, que viessem passar uma hora com ele, na clínica que dirigia, para que lhes mostrasse um de seus doentes. Tão logo se reuniram os amigos, disse-lhes: - - - Vou submeter aos senhores o caso mais estranho e mais inquietante que já encontrei. Aliás, nada tenho a lhes dizer sobre meu paciente. Ele mesmo falará. O médico tocou então a campainha. Um criado fez entrar um homem. Ele era muito magro, de uma magreza de cadáver, como são magros alguns loucos aos quais devora um pensamento, pois o pensamento doente devora a carne do corpo mais do que a febre ou a tuberculose. Tendo cumprimentado e se sentado, ele falou: - Senhores, eu sei por que foram reunidos aqui e estou pronto para lhes contar minha história, como me pediu meu amigo o Dr. Marrande. Por muito tempo ele me considerou louco. Hoje, tem dúvidas. Em algum tempo, saberão todos os senhores que tenho o espírito tão sadio, tão lúcido, tão consciente quanto o seu, infelizmente para mim, para os senhores e para toda a humanidade. "Mas quero começar pelos próprios fatos, pelos simples fatos. Ei-los: "Tenho 42 anos. Não sou casado, minha fortuna é suficiente para viver com certo luxo. Eu vivia, então, numa propriedade às margens do Sena, em Biessard, perto de Rouen. Gosto da caça e da pesca. Pois eu tinha atrás de mim, acima dos grandes rochedos que dominavam minha casa, uma das mais belas florestas da França, a de Roumare, e à minha frente um dos mais belos rios do mundo. "Minha casa é grande, pintada de branco por fora, bela, antiga, em meio a um grande jardim plantado com árvores magníficas e que se estende até a floresta, escalando os enormes rochedos que há pouco mencionei. "Meu pessoal é composto, ou melhor, era composto, de um cocheiro, um jardineiro, um criado de quarto, uma cozinheira e uma arrumadeira que era ao mesmo tempo uma espécie de governanta. Todas essas pessoas viviam comigo havia dez ou 16 anos, me conheciam, conheciam minha casa, a região, todo o ambiente em que eu vivia. Eram serviçais bons e tranqüilos. Isso é importante para o que vou dizer. "Acrescento que o Sena, que corre ao longo de meu jardim, é navegável até Rouen, como com certeza sabem; e eu via passar todos os dias grandes navios, a vela ou a vapor, vindos de todos os cantos do mundo. "Então, um ano antes do último outono, fui de repente acometido de doenças estranhas e inexplicáveis. No início, uma espécie de inquietação nervosa que me deixava acordado noites inteiras, uma superexcitação tal que o menor ruído me fazia estremecer. Meu humor se alterou. Eu tinha súbitos e inexplicáveis ataques de ira. Chamei um médico que me receitou brometo de potássio e duchas. "Passei então a tomar duchas pela manhã e à noite, e a tomar brometo. Logo, realmente, voltei a dormir, mas era um sono mais terrível do que a insônia. Mal me deitava, fechava os olhos e desfalecia. É, eu caía no vazio, num vazio absoluto, numa morte de todo o ser da qual eu era arrancado com violência, com horror, pela apavorante sensação de um peso esmagador sobre meu peito e de uma boca, que me comia a vida, sobre minha boca. Oh! Aqueles abalos! Não conheço nada mais apavorante. "Imaginem os senhores um homem que dorme, que é assassinado, e que acorda com uma faca na garganta; e que estertora coberto de sangue, e que não consegue mais respirar, e que vai morrer, e que não compreende - era isso! "Eu emagrecia de forma inquietante, contínua. E percebi de repente que meu cocheiro, que era muito gordo, começava a emagrecer como eu. "Perguntei-lhe afinal: "- Mas o que você tem, Jean? Você está doente. "Ele respondeu: "-Acho que peguei a mesma doença que o senhor. Minhas noites acabam com meus dias. "Imaginei então que havia na casa uma influência febril devido à proximidade do rio e pretendia me afastar por dois ou três meses, embora estivéssemos em plena temporada de caça, quando um pequeno fato muito estranho, observado por acaso, me trouxe uma seqüência de descobertas tão inacreditáveis, fantásticas, aterrorizantes, que fiquei. "Tendo sede uma noite, bebi um meio-copo de água e observei que minha garrafa, colocada sobre a cômoda em frente à minha cama, estava cheia até a tampa de cristal. "Tive, durante a noite, um daqueles despertares terríveis dos quais acabei de falar. Acendi minha vela, tomado de apavorante angústia, e, como queria beber água outra vez, percebi com estupor que minha garrafa estava vazia. Não podia acreditar em meus olhos. Ou alguém entrara em meu quarto, ou eu era sonâmbulo. "Na noite seguinte, quis tirar a prova. Fechei então a porta à chave para ter certeza de que ninguém poderia entrar no meu quarto. Adormeci e despertei como em todas as noites. Alguém bebera toda a água que eu vira duas horas antes. "Quem havia bebido aquela água? Eu, sem dúvida, entretanto tinha certeza, certeza absoluta, de não ter feito um só movimento em meu sono profundo e doloroso. "Recorri então a truques para me convencer de que realmente não era eu quem fazia aqueles atos inconscientes. Coloquei, uma noite, ao lado da garrafa, uma outra de vinho tinto, uma xícara de leite, que detesto, e bolos de chocolate, que adoro. "O vinho e os bolos ficaram intactos. O leite e a água desapareceram. Então, a cada dia, eu mudava as bebidas e as comidas. Nunca tocaram nas coisas sólidas, compactas, e, dos líquidos, só beberam laticínios frescos e, principalmente, água. "Mas aquela dúvida perturbadora continuava em minha alma. Não seria eu quem me levantava sem ter consciência e bebia até mesmo as coisas detestadas, porque meus sentidos embotados pelo sono sonambúlico poderiam ter sido modificados, ter perdido suas repugnâncias habituais e adquirido outros gostos? "Empreguei então um novo truque contra mim mesmo. Embrulhei todos os objetos cujo toque seria inevitável com pedaços de musselina branca e ainda os cobri com um guardanapo de algodão. "Depois, no momento de ir para a cama, lambuzei com grafite as mãos, os lábios e o bigode. "Quando despertei, todos os objetos continuavam imaculados, embora tivessem sido tocados, pois o guardanapo não estava na posição em que eu o tinha posto e, além disso, haviam bebido água e leite. Ora, minha porta trancada com uma chave de segurança e minhas janelas fechadas por prudência a cadeado não poderiam ter deixado penetrar quem quer que fosse. "Fiz-me então esta terrível pergunta: Afinal quem estava ali, todas as noites, perto de mim? "Percebo, senhores, que lhes conto isso depressa demais. Os senhores sorriem, sua opinião está formada: 'É um louco'. Eu deveria lhes ter descrito com mais detalhes essa emoção de um homem que, encerrado em casa, a mente sadia, observa, através do vidro de uma garrafa, um pouco de água que desapareceu enquanto ele dormia. Deveria tê-los feito compreender a tortura renovada todas as noites e todas as manhãs, e o sono invencível, e o despertar ainda mais terrível. "Mas continuo. "De repente, o milagre parou. Ninguém mais tocava em coisa alguma em meu quarto. Acabara. Eu estava melhor, aliás. A alegria voltava, quando fiquei sabendo que um de meus vizinhos, o Sr. Legite, estava exatamente no estado em que eu estivera. Pensei outra vez numa influência febril na região. Meu cocheiro me deixara um mês antes, muito doente. "O inverno terminara, começava a primavera. Numa manhã, quando eu passeava perto de meu canteiro de roseiras, eu vi, vi claramente, bem perto de mim, a haste de uma das mais belas rosas se quebrar como se uma mão invisível a tivesse colhido; depois a flor seguiu a curva que teria descrito um braço levando-a até uma boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, apavorante, a três palmos de meus olhos. "Tomado por um pavor louco, atirei-me sobre ela para agarrá-la. Nada encontrei. Desaparecera. Então, fui tomado de uma cólera furiosa contra mim mesmo. Não é permitido a um homem razoável e sério ter semelhantes alucinações! "Mas seria mesmo uma alucinação? Procurei a haste. Encontrei-a no mesmo instante no arbusto, quebrada havia pouco, entre duas outras rosas que ficaram no galho; porque eu vira três, claramente. "Entrei então em casa, a alma transtornada. Escutem, senhores, eu sou calmo; eu não acreditava no sobrenatural, nem mesmo hoje acredito; mas, a partir daquele momento, tive certeza, certeza como tenho do dia e da noite, de que havia perto de mim um ser invisível que me assombrara, depois me deixara, e que voltava. "Um pouco mais tarde, tive a prova. "Entre meus criados, começaram a surgir todos os dias discussões furiosas por mil causas fúteis na aparência, mas então cheias de sentido para mim. "Um copo, um belo copo de Veneza quebrou, quebrou sozinho sobre o aparador da sala de jantar, em pleno dia. "O criado de quarto acusou a cozinheira, que acusou a arrumadeira, que acusou não sei quem. "Portas fechadas à noite estavam abertas pela manhã. Roubavam leite, todas as noites, na copa. - Ah! "Como era ele? De que natureza? Uma curiosidade nervosa, acrescida de raiva e pavor, me mantinha dia e noite num estado de extrema agitação. "Mas a casa voltou mais uma vez à calma; e eu acreditava outra vez ter sonhado, quando se passou o seguinte: "Dia 20 de julho, às nove horas da noite. Fazia muito calor; eu havia deixado minha janela toda aberta, meu lampião aceso sobre a mesa, iluminando um volume de Musset' aberto em Noite de maio, e me acomodara numa grande poltrona, onde adormeci. "Ora, tendo dormido cerca de 40 minutos, reabri os olhos, sem fazer qualquer movimento, acordado por não sei qual emoção confusa e estranha. Nada vi a princípio, depois de repente pareceu-me que uma página do livro acabava de virar sozinha. Nenhum sopro de ar entrara pela janela. Fiquei surpreso. E esperei. Ao fim de uns quatro minutos, eu vi, eu vi, é, eu vi, senhores, com meus olhos, uma outra página se erguer e cair sobre a precedente como se um dedo a tivesse folheado. Minha poltrona parecia vazia, mas compreendi que ele estava lá, e e! Atravessei o quarto num pulo para segurá-lo, tocá-lo, agarrá-lo se fosse possível... Mas a poltrona, antes que eu a alcançasse, virou como se alguém tivesse fugido à minha frente; meu lampião também caiu e apagou, o vidro quebrado; e minha janela, de repente empurrada como se um malfeitor nela se tivesse agarrado ao escapar, chocou-se de encontro ao batente... Ah! 1 Alfred de Musset (1810-1857), poeta, dramaturgo e romancista francês. Noite de maio é um poema em que o poeta conversa com sua musa. (N. da T.) "Atirei-me sobre a campainha e toquei. Quando meu criado de quarto apareceu, eu lhe disse: "- Derrubei e quebrei tudo. Traga luz. "Não dormi mais naquela noite. Entretanto, poderia uma vez mais ter sido vítima de uma ilusão. No momento do despertar os sentidos continuam confusos. Não teria sido eu quem derrubara minha poltrona e meu lampião ao me arremessar como um louco? "Não, não tinha sido eu! Eu sabia disso sem qualquer sombra de dúvida. E no entanto gostaria de acreditar que sim. "Esperem. O Ser! Como o chamaria? O Invisível. Não, não era o bastante. Batizei-o de o Horla. Por quê? Não sei. Então o Horla não me deixou mais. Eu tinha, dia e noite, a sensação, a certeza da presença daquele inalcançável vizinho, e também a certeza de que ele me tomava a vida, hora a hora, minuto a minuto. "A impossibilidade de vê-lo me exasperava e eu acendia todas as luzes de meus aposentos, como se pudesse, naquela claridade, descobri-lo; "Afinal o vi. "Os senhores não me acreditam. Entretanto eu o vi. Estava sentado diante de algum livro, sem ler, mas espreitando, com todos os órgãos su-perexcitados, espreitando aquele que eu sentia por perto. Sem dúvida, ele estava ali. Mas onde? O que fazia? Como alcançá-lo? "À minha frente a cama, uma velha cama de carvalho com colunas. À direita a lareira. À esquerda a porta que eu fechara com cuidado. Atrás de mim um armário com um espelho muito grande que me servia todos os dias para me barbear, me vestir, no qual eu tinha o hábito de me olhar da cabeça aos pés sempre que passava por ele. "Então eu fingia ler, para enganá-lo, porque ele também me espreitava; e de repente eu senti, tive certeza de que ele lia por cima do meu ombro, que ele estava ali, roçando minha orelha. "Empertiguei-me, virando tão depressa que quase caí. Pois bem!... Enxergava-se como se fosse dia claro... e eu não me vi no espelho! Ele estava vazio, claro, cheio de luz. Minha imagem não estava lá dentro... e eu estava diante dele... eu via o enorme vidro, límpido de cima a baixo! E eu olhava aquilo com olhos enlouquecidos, e não ousava avançar, sentindo perfeitamente que ele, ele, se encontrava entre nós, e que me escaparia mais uma vez, mas que seu corpo imperceptível havia absorvido o meu reflexo. "Como tive medo! Depois de repente comecei a me entrever numa bruma ao fundo do espelho, numa bruma como se através de uma cortina de água; e me parecia que aquela água escorria da esquerda para a direita, devagar, tornando a cada segundo minha imagem mais precisa. Era como o final de um eclipse. O que me ocultava não parecia em absoluto possuir contornos claramente definidos, mas uma espécie de transparência opaca desfazendo-se pouco a pouco. "Pude afinal me distinguir por completo como faço todos os dias ao me olhar. "Eu o vira. O pavor que me ficou me faz ainda estremecer. "No dia seguinte eu estava aqui, onde pedi que me mantivessem. "Agora, senhores, termino. "O Dr. Marrande, depois de ter por muito tempo duvidado, decidiu-se a fazer, sozinho, uma viagem à minha região. "Três de meus vizinhos, atualmente, sofrem do que eu sofria. É verdade?" O médico respondeu: - É verdade! - O senhor os aconselhou a deixar água e leite todas as noites em seu quarto para ver se os líquidos desapareceriam. Assim o fizeram. Os líquidos desapareceram como em minha casa? O médico respondeu com uma gravidade solene: - Desapareceram. - Então, senhores, um Ser, um Ser novo, que sem dúvida se multiplicará em breve como nós nos multiplicamos, acaba de surgir sobre a Terra. "Ah! os senhores sorriem! Por quê? Porque tal Ser permanece invisível. Mas nosso olho, senhores, é um órgão tão elementar que mal pode distinguir o que é indispensável à nossa existência. O que é pequeno demais lhe escapa, o que é grande demais lhe escapa, o que está muito longe lhe escapa. Ele ignora os habitantes, as plantas e o solo das estrelas vizinhas; ele sequer vê o transparente. "Coloquem diante dele um vidro perfeito, sem manchas, ele não o verá e nos atirará sobre ele, como o pássaro preso numa casa que quebra a cabeça de encontro às vidraças. Assim, ele não vê os corpos sólidos e transparentes que contudo existem; não vê o ar do qual nos nutrimos, não vê o vento que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate prédios, desenraíza árvores, ergue o mar em montanhas de água que fazem desmoronar penhascos de granito. "Não surpreende que não veja um corpo novo, ao qual falta sem dúvida a única propriedade de deter os raios luminosos. "Os senhores enxergam a eletricidade? Ela entretanto existe! "Esse ser, que chamei de Horla, também existe. "Quem é? Senhores, é aquele que a Terra aguarda, depois do homem! Aquele que vem nos destronar, nos subjugar, nos domar, e se alimentar de nós talvez, como nos alimentamos dos bois e dos javalis. "Há séculos ele é pressentido, temido e anunciado! O medo do invisível sempre assombrou nossos pais. "Ele veio. "Era dele que falavam todos os contos de fadas, de gnomos, de peregrinos do ar inalcançáveis e malfeitores, dele, pressentido pelo homem inquieto e já trêmulo. "E tudo o que os senhores mesmos fazem, há alguns anos, o que chamam de hipnotismo, sugestão, magnetismo - é ele que os senhores anunciam, que profetizam! "Digo-lhes que ele veio. Ele vaga, inquieto como os primeiros homens, ignorando ainda sua força e o poder que conhecerá em breve, cedo demais. "E eis aqui, senhores, para terminar, um fragmento de jornal que me caiu nas mãos e que vem do Rio de Janeiro. Leio: 'Uma espécie de epidemia de loucura parece grassar há algum tempo na província de São Paulo. Os habitantes de diversas cidades fugiram abandonando suas terras e suas casas e se dizendo perseguidos e comidos por vampiros invisíveis que se alimentam de seu hálito durante o sono e que só beberiam, ademais, água e às vezes leite!' "Acrescento: Alguns dias antes do primeiro ataque do mal do qual quase morri, lembro-me perfeitamente de ter visto passar um grande navio brasileiro de três mastros, com sua bandeira desfraldada... eu lhes disse que minha casa fica à beira d'água... toda branca... ele estava escondido naquele navio com certeza... "Nada mais tenho a acrescentar, senhores." O Dr. Marrande levantou-se e murmurou: - Nem eu. Não sei se este homem está louco ou se ambos estamos..., ou se... se nosso sucessor realmente chegou. 26 de outubro de 1886

"Um louco" ("Un fou"). MAUPASSANT, Guy de. Monsieur Parent. Paris: Gallimard, 1988.



TRADUÇÃO DE CELINA PORTOCARRERO Ele morreu como chefe de um tribunal de alta instância, magistrado íntegro cuja vida impecável era citada em todas as cortes da França. Advogados, jovens conselheiros e juizes o cumprimentavam inclinando-se profundamente, em sinal de enorme respeito, diante de sua figura alta, branca e magra, iluminada por dois olhos brilhantes e profundos. Passara a vida perseguindo o crime e protegendo os fracos. Escroques e assassinos nunca haviam tido inimigo mais temível, pois ele parecia ler, no fundo de suas almas, seus pensamentos secretos, e desvendar, com um passar de olhos, todos os mistérios de suas intenções. Morreu então, aos 82, cercado de homenagens e acompanhado pelo lamento de todo um povo. Soldados de calças vermelhas o escoltaram até seu túmulo e homens de gravatas brancas lançaram sobre seu caixão palavras tristes e lágrimas que pareciam verdadeiras. Pois bem, eis o estranho papel que o escrivão, desnorteado, descobriu na escrivaninha onde ele costumava trancar os dossiês dos grandes criminosos. Seu título era: PORQUÊ? 20 de junho de 1851 - Saio da sessão. Condeno Blondel à morte! Por que, afinal, havia aquele homem matado seus cinco filhos? Por quê? Muitas vezes encontramos pessoas para quem destruir a vida é uma volúpia. Sim, sim, deve ser uma volúpia, talvez a maior de todas, pois matar não é o que mais se assemelha a criar? Fazer e destruir. Estas duas palavras encerram a história dos universos, toda a história dos mundos, tudo o que existe, tudo! Por que matar é embriagador? Pensar que ali está um ser que vive, que anda, que corre... Um ser? O que é um ser? Essa coisa animada, que traz em si o princípio do movimento e uma vontade que determina esse movimento! Essa coisa a nada se prende. Seus pés não se unem ao solo. É um grão de vida que se mexe sobre a terra; e este grão de vida, vindo não sei de onde, podemos destruir como quisermos. E então nada, mais nada. Apodrece, acaba. 26 de junho - Por que, então, é crime matar? É, por quê? Pelo contrário, é a lei da natureza. Todo ser tem como missão matar: ele mata para viver e mata por matar. Matar está em nossa índole; é preciso matar! O animal mata sem parar, o dia todo, a todo instante de sua existência. O homem mata sem parar para se alimentar, mas como tem necessidade de matar também por volúpia, ele inventou a caça! A criança mata os insetos que encontra, os passarinhos, todos os pequenos animais que lhe caem nas mãos. Mas isto não basta à irresistível necessidade de massacre que há em nós. Não é suficiente matar o animal, precisamos também matar o homem. Antigamente, satisfazia-se este desejo com os sacrifícios humanos. Hoje, a necessidade de viver em sociedade fez do assassinato um crime. Condena-se e pune-se o assassino! Mas como não podemos nos entregar a este instinto natural e impiedoso da morte, aliviamo-nos de tempos em tempos por meio de guerras onde todo um povo destrói outro povo. Temos então uma orgia de sangue, uma orgia na qual se precipitam os exércitos e da qual continuam a se embebedar os burgueses, mulheres e crianças que lêem, à noite, sob a lamparina, a narrativa exaltada dos massacres. E poder-se-ia dizer que desprezamos aqueles destinados a realizar essas carnificinas de homens! Não. Nós os cobrimos de honrarias! Nós os vestimos com ouro e tecidos brilhantes, eles usam plumas na cabeça, enfeites sobre o peito, e nós lhes damos cruzes, recompensas, títulos de toda natureza. Eles são orgulhosos, respeitados, amados pelas mulheres,

¦' .*'-*" 1- - - aclamados pela multidão, unicamente porque têm por missão espalhar o sangue humano! Eles arrastam pelas ruas seus instrumentos de morte que o passante vestido de negro olha com inveja. Porque matar é a grande lei lançada pela natureza no coração do ser! Nada há de mais belo e mais honorável do que matar! 30 de junho - Matar é a lei; porque a natureza ama a eterna juventude. Ela parece gritar em todos os seus atos inconscientes: "Depressa! Depressa! Depressa!" Mais ela destrói, mais se renova. 2 de julho - O ser, o que é o ser? Tudo e nada. Pelo pensamento, ele é o reflexo de tudo. Pela memória e pela ciência, é um resumo do mundo, do qual traz em si a história. Espelho de coisas e espelho de fatos, cada ser humano torna-se um pequeno universo no universo! Mas viaje, veja fervilharem as raças, e o homem nada mais é! Mais nada, nada! Suba num barco, afaste-se da margem coberta pela multidão e logo nada verá além da costa. O ser imperceptível desaparece, de tão pequeno e insignificante. Atravesse a Europa num trem veloz e olhe pela janela. Homens, homens, sempre homens, inúmeros, desconhecidos, que fervilham nos campos, que fervilham nas ruas; camponeses estúpidos sabendo apenas revirar a terra; mulheres horrendas sabendo apenas fazer a sopa do macho e engravidar. Vá às índias, vá à China, e continuará a ver agitarem-se milhares de seres que nascem, vivem e morrem sem deixar mais traços do que a formiga esmagada nas estradas. Vá ao país dos negros, refugiados em barracos de barro; ao país dos árabes brancos, abrigados sob uma barraca marrom que flutua ao vento, e compreenderá que o ser isolado, determinado, não é nada, nada. A raça é tudo! O que é o ser, o ser qualquer de uma tribo errante do deserto? E essas pessoas, que são sábias, não se inquietam com a morte. O homem não conta para eles. Mata-se seu inimigo: é a guerra. Isto já era feito outrora, de castelo em castelo, de província em província. Sim, atravesse o mundo e veja fervilharem os humanos incontáveis e desconhecidos. Desconhecidos? Ah! Eis a palavra do problema! Matar é crime porque nós enumeramos os seres. Quando eles nascem, nós os inscrevemos, nomeamos, batizamos. A lei os captura! É claro! O ser que não é registrado não conta: mate-o na campina ou no deserto, mate-o na montanha ou na planície, dá na mesma! A natureza ama a morte; ela não pune! O que é sagrado, por exemplo, é o estado civil! Claro! É ele quem defende o homem. O homem é sagrado porque está inscrito no estado civil! Respeito ao estado civil, o Deus legal! De joelhos! O Estado pode matar, porque ele tem o direito de modificar o estado civil. Quando ele faz decapitar 200 mil homens numa guerra, ele os risca em seu estado civil, ele os suprime pela mão de seus escrivães. Está feito. Mas nós, que não podemos alterar as escrituras dos cartórios, nós devemos respeitar a vida. Estado civil, gloriosa Divindade que reinas nos templos das municipalidades, eu te saúdo. És mais forte que a Natureza. Ah! Ah! 3 de julho - Matar deve ser um saboroso e estranho prazer, ter ali, diante de si, o ser vivo, pensante; fazer um pequeno furo, apenas um pequeno furo, ver escorrer esta coisa vermelha que é o sangue, que faz a vida, e só ter diante de si um monte de carne mole, fria, inerte, vazia de pensamento! 5 de agosto - Eu, que passei minha vida julgando, condenando, matando pelas palavras pronunciadas, matando pela guilhotina aqueles que haviam matado pela faca, eu! eu! se eu fizesse como todos os assassinos que atingi, eu! eu! quem saberia? Quem saberia? Desconfiariam de mim, de mim, sobretudo se escolhesse um ser que não tivesse qualquer interesse em suprimir? 15 de agosto - A tentação! A tentação entrou em mim como um verme que rasteja. Ela rasteja, ela vai; ela passeia por todo o meu corpo, por meu espírito, que só pensa nisto: matar; por meus olhos, que sentem necessidade de olhar para o sangue, de ver morrer; por meus ouvidos, pelos quais passa sem cessar alguma coisa desconhecida, horrível, dilacerante e aterradora, como o último grito de um ser; por minhas pernas, onde treme o desejo de ir, de ir ao local onde a coisa acontecerá; por minhas mãos que se agitam com a necessidade de matar. Como deve ser bom, raro, digno de um homem livre, acima dos outros, senhor de seu coração e que busca sensações refinadas! 22 de agosto - Eu não podia mais resistir. Matei um animalzinho para ensaiar, para começar. Jean, meu empregado, tinha um canário numa gaiola suspensa à janela do escritório. Mandei-o fazer umas compras e peguei o passarinho em minha mão, em minha mão na qual eu sentia bater seu coração. Ele sentia calor. Subi para meu quarto. De vez em quando, eu o apertava com mais força; seu coração batia mais depressa, era atroz e delicioso. Quase o sufoquei. Mas eu veria o sangue. Então peguei a tesoura, uma tesourinha de unhas, e cortei-lhe a garganta com três golpes, bem devagar. Ele abria o bico, tentava escapar de mim, mas eu o segurava, ahl, eu o segurava - eu teria segurado um buldo-gue enraivecido - e vi o sangue escorrer. Como é belo, vermelho, reluzente, claro, o sangue! Eu tinha vontade de bebê-lo. Molhei nele a ponta de minha língua! É bom. Mas tinha tão pouco sangue esse pobre passarinho! Não tive tempo de gozar daquela visão como gostaria. Deve ser fantástico ver sangrar um touro. E depois fiz como os assassinos, como os de verdade. Lavei a tesoura, lavei minhas mãos; joguei fora a água e levei o corpo, o cadáver, para o jardim para enterrá-lo. Enfiei-o debaixo de um pé de morango. Nunca o encontrarão. Comerei todos os dias um morango daquele pé. Realmente, como se pode gozar a vida, quando se sabe! Meu empregado chorou; ele acredita que seu pássaro fugiu. Como suspeitaria de mim? Ah! Ah! 25 de agosto - É preciso que eu mate um homem! É preciso. 30 de agosto - Está feito. Como é pouco! Eu tinha ido passear no bosque de Vernes. Não pensava, não, em nada. Eis uma criança no caminho, um garotinho que comia um pão com manteiga. Ele pára ao me ver passar e diz: - Bom dia, seu presidente. E o pensamento me entra na cabeça: "E se eu o matasse?" Respondo: - Está sozinho, meu menino? - Estou sim, senhor. - Sozinho no bosque? - Estou sim, senhor. A vontade de matá-lo me inebriava como álcool. Aproximei-me devagar, certo de que ele iria fugir. E eis que o pego pela garganta... eu o aperto, aperto-o com toda a minha força! Ele me olhou com olhos de pavor! Que olhos! Redondos, profundos, límpidos, terríveis! Nunca senti uma emoção tão brutal... mas tão curta! Ele segurava meus punhos com suas mãozinhas, e seu corpo se retorcia como uma pluma ao fogo. Então não se mexeu mais. Meu coração batia, ah! o coração do pássaro! Atirei o corpo no fosso, depois joguei mato por cima. Voltei para casa, jantei bem. Como é pouco! À noite, eu estava muito alegre, leve, remoçado, estive na casa do prefeito. Acharam-me espiritual. Mas não vi o sangue! Estou tranqüilo. 20 de agosto - Descobriram o cadáver. Procuram o assassino. Ah! Ah! 1° de setembro - Prenderam dois andarilhos. Faltam provas. 2 de setembro - Os pais vieram me ver. Choraram! Ah! Ah! 6 de outubro - Nada descobriram. Algum vagabundo errante teria feito aquilo. Ah! Ah! Se eu tivesse visto o sangue escorrer, acho que estaria tranqüilo agora. 10 de outubro - A vontade de matar me corre pelos ossos. É comparável aos males de amor que nos torturam aos 20 anos. 20 de outubro - Mais um. Eu ia pela margem do rio, depois do almoço. E vi, debaixo de um salgueiro, um pescador adormecido. Era meio-dia. Uma pá parecia estar, de propósito, plantada num campo de batatas ali perto. Eu a apanhei, voltei; ergui-a como uma clava e, de um só golpe, com a lâmina, rachei a cabeça do pescador. Ah! ele sangrou! Um sangue rosado, cheio de miolos! Escorria para a água, bem devagar. E eu parti num passo grave. Se me tivessem visto! Ah! Ah! Eu daria um excelente assassino. 25 de outubro - O caso do pescador provoca um grande tumulto. Acusam seu sobrinho, que pescava com ele. 26 de outubro - O promotor afirma que o sobrinho é culpado. Todos na cidade acreditam nisso. Ah! Ah! 27 de outubro - O sobrinho defende-se bem mal. Tinha ido à aldeia comprar pão e queijo, afirma. Jura que mataram seu tio durante sua ausência! Quem acreditaria nele? 28 de outubro - O sobrinho quase confessou, de tanto que o fizeram perder a cabeça! Ah! Ah! A justiça! 15 de novembro - Há provas arrasadoras contra o sobrinho, que herdaria os bens do tio. Eu presidirei o julgamento. 15 de janeiro - À morte! à morte! à morte! Fiz com que fosse condenado à morte. Ah! Ah! O advogado de acusação falou como um anjo! Ah! Ah! Mais um. Irei assistir à execução. 1o de março - Acabou. Ele foi guilhotinado esta manhã. Está muito bem morto! Muito bem! Aquilo me deu prazer! Como é bonito ver cortar a cabeça de um homem! O sangue jorrou como uma corrente, como uma corrente! Oh! Se eu pudesse, gostaria de me banhar nela. Que vontade de me deitar ali embaixo, de receber aquilo em meus cabelos e em meu rosto, e de me levantar todo vermelho, todo vermelho! Ah! Se soubessem! Agora esperarei, posso esperar. Seria preciso tão pouco para me deixar apanhar. O manuscrito continha ainda muitas páginas, mas sem relatar qualquer crime novo. Os médicos alienistas, a quem ele foi confiado, afirmam existir no mundo muitos loucos ignorados, tão hábeis e tão temíveis quanto este monstruoso demente.

"O alienista". ASSIS, Machado de. Contos (Uma antologia). São Paulo: Companhia das Letras, 1998.



Não bastasse escrever todos os gêneros, e ser o melhor (Dom Casmurro) e o mais revolucionário (Memórias póstumas de Brás Cubas) romancista brasileiro, Machado de Assis (1839-1908) escreveu contos de primeira grandeza como poucos contistas do mundo. Além disso, nos deixou uma novela, ou uma long short story, que é este "O alienista", que poderia figurar em qualquer lista dos melhores de qualquer época ou país. A loucura como instituição, como definição "científica"; o louco como "internado" ou prisioneiro, e seu tratamento como confinamento e mesmo tortura (não vamos nos esquecer de que os choques, elétricos mas também de insulina, ainda eram realizados no Brasil até uns trinta anos atrás) já estavam registrados neste texto machadiano de 1881, publicado no periódico A estação e posteriormente no livro Papéis avulsos, em 1882. Machado de Assis precursor da grande revisão, conceitual e de tratamento, da psiquiatria, só ocorrida no final do século XX como a antipsiquiatría de Cooper e Lang e os movimentos concomitantes ou correlatos da Itália e França? Ao leitor a conclusão. O que parece indiscutível é que, tratando de tema de tanta gravidade, o autor tenha conseguido transformar sua "pena da galhofa" em uma efetiva sátira social. É o humor machadiano em doses concentradas porém adequadas, sem choques de insanidades punitivas nem facilidades "cômicas" de riso fácil como o assunto costuma provocar no anedotário popular. Uma curiosidade adicional nesta antologia é ler "O alienista" ao lado de "O sistema do doutor Alcatrão e do professor Pena". Ou seja: Machado de Assis leitor de Poe? I De como Itaguaí ganhou uma casa de orates As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia. - A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, - únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte. D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, - explicável, mas inqualificável, - devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes. Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, - o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de "louros imarcescíveis", - expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores. - A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico. - Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais. A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas des-curado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico. - Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo. D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, disse-lhe "que estava com desejos", um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redargüiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloqüência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil. - Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa? Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo, tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Alcorão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude, aliás pia, que o padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente. A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestira-se luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto, - e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, - porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores. Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de orates. II Torrente de loucos Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração. - A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de S. Paulo aos coríntios: "Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada". O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade. - Um excelente serviço, corrigiu o boticário. - Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos. - Muito maior, acrescentou o outro. E tinham razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua! Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias. - Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe... - Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato... - Vá que seja, e fico ansioso. Realmente! Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d'alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois; ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade. O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia de ir ao fim do mundo à cata dos fugitivos. A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre-diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta: - Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu. Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas: - Deus engendrou um ovo, o ovo, etc. Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, mil e duzentas a outro, e não acabava mais. Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus. Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do que por interesse científico. Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e, aceitando essa idéia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem incumbiu da execução de um regimento que lhes deu, aprovado pela câmara, da distribuição da comida e da roupa, e assim também na escrita, etc. Era o melhor que podia fazer, para somente cuidar do seu ofício. - A Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que há o governo temporal e o governo espiritual. E o padre Lopes ria deste pio trocado, - e acrescentava, - com o único fim de dizer também uma chalaça: - Deixe estar, deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa. Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, mo-nomanias, delírios, alucinações diversas. Isto feito, começou um estudo apurado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. Ao mesmo tempo estudava o melhor regime, as substâncias medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos, não só os que vinham nos seus amados árabes, como os que ele mesmo descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista. III Deus sabe o que faz! A ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a mais desgraçada das mulheres; caiu em profunda melancolia, ficou amarela, magra, comia pouco e suspirava a cada canto. Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche, porque respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada, e definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como lhe perguntasse o marido o que é que tinha, respondeu tristemente que nada; depois atreveu-se um pouco, e foi ao ponto de dizer que se considerava tão viúva como dantes. E acrescentou: - Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos... Não acabou a frase; ou antes, acabou-a levantando os olhos ao teto, - os olhos, que eram a sua feição mais insinuante, - negros, grandes, lavados de uma luz úmida, como os da aurora. Quanto ao gesto, era o mesmo que empregara no dia em que Simão Bacamarte a pediu em casamento. Não dizem as crônicas se D. Evarista brandiu aquela arma com o perverso intuito de degolar de uma vez a ciência, ou, pelo menos, decepar-lhe as mãos; mas a conjetura é verossímil. Em todo caso, o alienista não lhe atribuiu outra intenção. E não se irritou o grande homem, não ficou sequer consternado. O metal de seus olhos não deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno, nem a menor prega veio quebrar a superfície da fronte quieta como a água de Botafogo. Talvez um sorriso lhe descerrou os lábios, por entre os quais filtrou, esta palavra macia como o óleo do Cântico: - Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro. D. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. Nunca dos nuncas vira o Rio de janeiro, que posto não fosse sequer uma pálida sombra do que hoje é, todavia era alguma coisa mais do que Itaguaí. Ver o Rio de Janeiro, para ela, eqüivalia ao sonho do hebreu cativo. Agora, principalmente, que o marido assentara de vez naquela povoação interior, agora é que ela perdera as últimas esperanças de respirar os ares da nossa boa cidade; e justamente agora é que ele a convidava a realizar os seus desejos de menina e moça. D. Evarista não pôde dissimular o gosto de semelhante proposta. Simão Bacamarte pegou-lhe na mão e sorriu, - um sorriso tanto ou quanto filosófico, além de conjugal, em que parecia traduzir-se este pensamento: - "Não há remédio certo para as dores da alma; esta senhora definha, porque lhe parece que a não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se". E porque era homem estudioso tomou nota da observação. Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao marido, que, se ele não ia, ela não iria também, porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas. - Irá com sua tia, redargüiu o alienista. Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes despesas ao marido, em segundo lugar porque era melhor, mais metódico e racional que a proposta viesse dele. - Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. Evarista sem convicção. - Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda ontem o escriturário prestou-me contas. Queres ver? E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro. Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência. Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões: - Quem diria que meia dúzia de lunáticos... D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação: - Deus sabe o que faz! Três meses depois efetuava-se a jornada. D. Evarista, a tia, a mulher do boticário, um sobrinho deste, um padre que o alienista conhecera em Lisboa, e que de aventura achava-se em Itaguaí, cinco ou seis pajens, quatro mucamas, tal foi a comitiva que a população viu dali sair em certa manhã do mês de maio. As despedidas foram tristes para todos, menos para o alienista. Conquanto as lágrimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras, não chegaram a abalá-lo. Homem de ciência, e só de ciência, nada o consternava fora da ciência; e se alguma coisa o preocupava naquela ocasião, se ele deixava correr pela multidão um olhar inquieto e policial, não era outra coisa mais do que a idéia de que algum demente podia achar-se ali misturado com a gente de juízo. - Adeus! soluçaram enfim as damas e o boticário. E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras. IV Uma teoria nova Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa idéia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde, era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heróicos. Um dia de manhã, - eram passadas três semanas, - estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar. - Trata-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma triste notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas: Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que ele fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: - "Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora agüenta-te; anda, agüenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amen a tudo, não é? aí tens o lucro, biltre!" - E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspecção até o pescoço. - Estou muito contente, disse ele. - Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz trêmula. O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: - Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua idéia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí; mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí, e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns personagens célebres. Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc, uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente: - A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério. - Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu. Quanto à idéia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era "caso de matraca". Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da câmara e da matriz; - ou por meio de matraca. Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, - um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, - aquele justamente que mais se opusera à criação da Casa Verde, - desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade; nem todas as instituições do antigo regime, mereciam o desprezo do nosso século. - Há melhor do que anunciar a minha idéia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário. E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução. - Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele. Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse: - Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia. O vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução. - Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, - com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução. V O terror Quatro dias depois, a população de Itaguaí ouviu consternada a notícia de que um certo Costa fora recolhido à Casa Verde. - Impossível! - Qual impossível! foi recolhido hoje de manhã. - Mas, na verdade, ele não merecia... Ainda em cima! Depois de tanto que ele fez... Costa era um dos cidadãos mais estimados de Itaguaí. Herdara quatrocentos mil cruzados em boa moeda de el-rei D. João V, dinheiro cuja renda bastava, segundo lhe declarou o tio no testamento, para viver "até o fim do mundo". Tão depressa recolheu a herança, como entrou a dividi-la em empréstimos, sem usura, mil cruzados a um, dois mil a outro, trezentos a este, oítocentos àquele, a tal ponto que, no fim de cinco anos, estava sem nada. Se a miséria viesse de chofre, o pasmo de Itaguaí seria enorme; mas veio devagar; ele foi passando da opulência à abastança, da abastança à mediania, da mediania à pobreza, da pobreza à miséria, gradualmente. Ao cabo daqueles cinco anos, pessoas que levavam o chapéu ao chão, logo que ele assomava no fim da rua, agora batiam-lhe no ombro, com intimidade, davam-lhe piparo-tes no nariz, diziam-lhe pulhas. E o Costa sempre Ihano, risonho. Nem se lhe dava de ver que os menos corteses eram justamente os que tinham ainda a dívida em aberto; ao contrário, parece que os agasalhava com maior prazer, e mais sublime resignação. Um dia, como um desses incuráveis devedores lhe atirasse uma chalaça grossa, e ele se risse dela, observou um desafeiçoado, com certa perfídia: - "Você suporta esse sujeito para ver se ele lhe paga". se deteve um minuto, foi ao devedor e perdoou-lhe a dívida. - "Não admira, retorquiu o outro; o Costa abriu mão de uma estrela, que está no céu." Costa era perspicaz, entendeu que ele negava todo o merecimento ao ato, atribuindo-lhe a intenção de rejeitar o que não vinham meter-lhe na algibeira. Era também pundonoroso e inventivo; duas horas depois achou um meio de provar que lhe não cabia um tal labéu: pegou de algumas dobras, e mandou-as de empréstimo ao devedor. - Agora espero que... - pensou ele sem concluir a frase. Esse último rasgo do Costa persuadiu a crédulos e incrédulos; ninguém mais pôs em dúvida os sentimentos cavalheirescos daquele digno cidadão. As necessidades mais acanhadas saíram à rua, vieram bater-lhe à porta, com os seus chinelos velhos, com as suas capas remendadas. Um verme, entretanto, roía a alma do Costa: era o conceito do desafeto. Mas isso mesmo acabou; três meses depois veio este pedir-lhe uns cento e vinte cruzados com promessa de restituir-lhos daí a dois dias; era o resíduo da grande herança, mas era também uma nobre desforra: Costa emprestou o dinheiro logo, logo, e sem juros. Infelizmente não teve tempo de ser pago; cinco meses depois era recolhido à Casa Verde. Imagina-se a consternação de Itaguaí, quando soube do caso. Não se falou em outra coisa, dizia-se que o Costa ensandecera, ao almoço, outros que de madrugada; e contavam-se os acessos, que eram furiosos, sombrios, terríveis, - ou mansos, e até engraçados, conforme as versões. Muita gente correu à Casa Verde, e achou o pobre Costa, tranqüilo, um pouco espantado, falando com muita clareza, e perguntando por que motivo o tinham levado para ali. Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte aprovava esses sentimentos de estima e compaixão, mas acrescentava que a ciência era a ciência, que ele não podia deixar na rua um mentecapto. A última pessoa que intercedeu por ele (porque depois do que vou contar ninguém mais se atreveu a procurar o terrível médico) foi uma pobre senhora, prima do Costa. O alienista disse-lhe confidencialmente que esse digno homem não estava no perfeito equilíbrio das faculdades mentais, à vista do modo como dissipara os cabedais que... - Isso, não! isso não! interrompeu a boa senhora com energia. Se ele gastou tão depressa o que recebeu, a culpa não é dele. - Não? - Não, senhor. Eu lhe digo como o negócio se passou. O defunto meu tio não era mau homem; mas quando estava furioso era capaz de nem tirar o chapéu ao Santíssimo. Ora, um dia, pouco tempo antes de morrer, descobriu que um escravo lhe roubara um boi; imagine como ficou. A cara era um pimentão; todo ele tremia, a boca escumava; lembra-me como se fosse hoje. Então um homem feio, cabeludo, em mangas de camisa, chegou-se a ele e pediu água. Meu tio (Deus lhe fale n'alma!) respondeu que fosse beber ao rio ou ao inferno. O homem olhou para ele, abriu a mão em ar de ameaça, e rogou esta praga: - "Todo o seu dinheiro não há de durar mais de sete anos e um dia, tão certo como isto ser o sino-salamãol" E mos trou o sino-salamão impresso no braço. Foi isto, meu senhor; foi esta praga daquele maldito. Bacamarte espetara na pobre senhora um par de olhos agudos como punhais. Quando ela acabou, estendeu-lhe a mão polidamente, como se o fizesse à própria esposa do vice-rei, e convidou-a a ir falar ao primo. A mísera acreditou; ele levou-a à Casa Verde e encerrou-a na galeria dos alucinados. A notícia desta aleivosia do ilustre Bacamarte lançou o terror à alma da população. Ninguém queria acabar de crer, que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz. Comentava-se o caso nas esquinas, nos barbeiros; edificou-se um romance, umas finezas namoradas que o alienista outrora dirigira à prima do Costa, a indignação do Costa e o desprezo da prima. E daí a vingança. Era claro. Mas a austeridade do alienista, a vida de estudos que ele levava, pareciam desmentir uma tal hipótese. Histórias! Tudo isso era naturalmente a capa do velhaco. E um dos mais crédulos chegou a murmurar que sabia de outras coisas, não as dizia, por não ter certeza plena, mas sabia, quase que podia jurar. - Você, que é íntimo dele, não nos podia dizer o que há, o que houve, que motivo... Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e curiosa, dos amigos atônitos, era para ele uma consagração pública. Não havia duvidar; toda a povoação sabia enfim que o privado do alienista era ele, Crispim, o boticário, o colaborador do grande homem e das grandes coisas; daí a corrida à botica. Tudo isso dizia o carão jucundo e o riso discreto do boticário, o riso e o silêncio, porque ele não respondia nada; um, dois, três mo-nossílabos, quando muito, soltos, secos, encapados no fiel sorriso, constante e miúdo, cheio de mistérios científicos, que ele não podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana. - Há coisa, pensavam os mais desconfiados. Um desses limitou-se a pensá-lo, deu de ombros e foi embora. Tinha negócios pessoais. Acabava de construir uma casa suntuosa. Só a casa bastava para deter e chamar toda a gente; mas havia mais, - a mobília, que ele mandara vir da Hungria e da Holanda, segundo contava, e que se podia ver do lado de fora, porque as janelas viviam abertas, - e o jardim, que era uma obra-prima de arte e de gosto. Esse homem, que enriquecera no fabrico de albardas, tinha tido sempre o sonho de uma casa magnífica, jardim pomposo, mobília rara. Não deixou o negócio das albardas, mas repousava dele na contemplação da casa nova, a primeira de Itaguaí, mais grandiosa do que a Casa Verde, mais nobre do que a da câmara. Entre a gente ilustre da povoação havia choro e ranger de dentes, quando se pensava, ou se falava, ou se louvava a casa do albardeiro, - um simples albardeiro, Deus do céu! - Lá está ele embasbacado, diziam os transeuntes, de manhã. De manhã, com efeito, era costume do Mateus estatelar-se, no meio do jardim, com os olhos na casa, namorado, durante uma longa hora, até que vinham chamá-lo para almoçar. Os vizinhos, embora o cumprimentassem com certo respeito, riam-se por trás dele, que era um gosto. Um desses chegou a dizer que o Mateus seria muito mais econômico, e estaria riquíssimo, se fabricasse as albardas para si mesmo; epigrama ininteligível, mas que fazia rir às bandeiras despregadas. - Agora lá está o Mateus a ser contemplado, diziam à tarde. A razão deste outro dito era que, de tarde, quando as famílias saíam a passeio (jantavam cedo) usava o Mateus postar-se à janela, bem no centro, vistoso, sobre um fundo escuro, trajado de branco, atitude senhoril, e assim ficava duas e três horas até que anoitecia de todo. Pode crer-se que a intenção do Mateus era ser admirado e invejado, posto que ele não a confessasse a nenhuma pessoa, nem ao boticário, nem ao padre Lopes, seus grandes amigos. E entretanto não foi outra a alegação do boticário, quando o alienista lhe disse que o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras, mania que ele Bacamarte descobrira e estudava desde algum tempo. Aquilo de contemplar a casa... - Não, senhor, acudiu vivamente Crispim Soares. - Não? - Há de perdoar-me, mas talvez não saiba que ele de manhã examina a obra, não a admira; de tarde, são os outros que o admiram a ele e à obra. - E contou o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo até o cair da noite. Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte. Ou ele não conhecia todos os costumes do albardeiro, ou nada mais quis, interrogando o Crispim, do que confirmar alguma notícia incerta ou suspeita vaga. A explicação satisfê-lo; mas como tinha as alegrias próprias de um sábio, concentradas, nada viu o boticário que fizesse suspeitar uma intenção sinistra. Ao contrário, era de tarde, e o alienista pediu-lhe o braço para irem a passeio. Deus! era a primeira vez que Simão Bacamarte dava ao seu privado tamanha honra; Crispim ficou trêmulo, atarantado, disse que sim, que estava pronto. Chegaram duas ou três pessoas de fora, Crispim mandou-as mentalmente a todos os diabos; não só atrasavam o passeio, como podia acontecer que Bacamarte elegesse alguma delas, para acompanhá-lo, e o dispensasse a ele. Que impaciência! que aflição! Enfim, saíram. O alienista guiou para os lados da casa do albardeiro, viu-o à janela, passou cinco, seis vezes por diante, devagar, parando, examinando as atitudes, a expressão do rosto. O pobre Mateus, apenas notou que era objeto da curiosidade ou admiração do primeiro vulto de Itaguaí, redobrou de expressão, deu outro relevo às atitudes... Triste! triste! não fez mais do que condenar-se; no dia seguinte, foi recolhido à Casa Verde. - A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico sem clínica. Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. Cárcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itaguaí, - a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu à captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas, - duas ou três de consideração, - foram recolhidas à Casa Verde. O alienista dizia que só eram admitidos os casos patológicos, mas pouca gente lhe dava crédito. Sucediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio médico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguaí qualquer gérmen de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e míngua daquela cidade, mil outras explicações, que não explicavam nada, tal era o produto diário da imaginação pública. Nisto chegou do Rio de Janeiro a esposa do alienista, a tia, a mulher do Crispim Soares, e toda a mais comitiva, - ou quase toda, - que algumas semanas antes partira de Itaguaí. O alienista foi recebê-la, com o boticário, o padre Lopes, os vereadores e vários outros magistrados. O momento em que D. Evarista pôs os olhos na pessoa do marido é considerado pelos cronistas do tempo como um dos mais sublimes da história moral dos homens, e isto pelo contraste das duas naturezas, ambas extremas, ambas egrégias. D. Evarista soltou um grito, balbuciou uma palavra, e atirou-se ao consorte, de um gesto que não se pode melhor definir do que comparando-o a uma mistura de onça e rola. Não assim o ilustre Bacamarte; frio como um diagnóstico, sem desengonçar por um instante a rigidez científica, estendeu os braços à dona, que caiu neles, e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dois minutos, D. Evarista recebia os cumprimentos dos amigos, e o préstito punha-se em marcha. D. Evarista era a esperança de Itaguaí; contava-se com ela para minorar o flagelo da Casa Verde. Daí as aclamações públicas, a imensa gente que atulhava as ruas, as flâmulas, as flores e damascos às janelas. Com o braço apoiado no do padre Lopes, - porque o eminente Bacamarte confiara a mulher ao vigário, e acompanhava-os a passo meditativo, - D. Evarista voltava a cabeça a um lado e outro, curiosa, inquieta, petulante. O vigário indagava do Rio de janeiro, que ele não vira desde o vice-reinado anterior; e D. Evarista respondia, entusiasmada, que era a coisa mais beta que podia haver no mundo. O Passeio Público estava acabado, um paraíso, onde ela fora muitas vezes, e a rua das Belas Noites, o chafariz das Marrecas... Ah! o chafariz das Marrecas! Eram mesmo marrecas, - feitas de metal e despejando água pela boca fora. Uma coisa galantíssima. O vigário dizia que sim, que o Rio de Janeiro devia estar agora muito mais bonito. Se já o era noutro tempo! Não admira, maior do que Itaguaí, e de mais a mais sede do governo... Mas não se pode dizer que Itaguaí fosse feio; tinha belas casas, a casa do Mateus, a Casa Verde... A propósito de Casa Verde, disse o padre Lopes escorregando habilmente para o assunto da ocasião, a senhora vem achá-la muito cheia de gente. - Sim? - É verdade. Lá está o Mateus... - O albardeiro? - O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fulano, e Sicrano, e... - Tudo isso doido? - Ou quase doido, obtemperou o padre. - Mas então? O vigário derreou os cantos da boca, à maneira de quem não sabe nada, ou não quer dizer tudo; resposta vaga, que se não pode repetir a outra pessoa, por falta de texto. D. Evarista achou realmente extraordinário que toda aquela gente ensandecesse; um ou outro, vá; mas todos? Entretanto, custava-lhe duvidar; o marido era um sábio, não recolheria ninguém à Casa Verde sem prova evidente de loucura. - Sem dúvida... sem dúvida... ia pontuando o vigário. Três horas de pois, cerca de cinqüenta convivas sentavam-se em volta da mesa de Simão Bacamarte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista foi o assunto obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a casta, metáforas, amplificações, apólogos. Ela era a esposa do novo Hipócrates, a musa da ciência, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia nos olhos duas estrelas, segundo a versão modesta de Crispim Soares, e dois sóis, no conceito de um vereador. O alienista ouvia essas coisas um tanto enfastiado, mas sem visível impaciência. Quando muito dizia ao ouvido da mulher, que a retórica permitia tais arrojos sem significação. D. Evarista fazia esforços para aderir a esta opinião do marido; mas, ainda descontando três quartas partes das louvaminhas, ficava muito com que enfunar-lhe a alma. Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco anos, pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos. "Deus, disse ele, depois de dar ao universo o homem e a mulher, esse diamante e essa pérola da coroa divina (e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa), Deus quis vencer a Deus, e criou D. Evarista." D. Evarista baixou os olhos com exemplar modéstia. Duas senhoras, achando a cortesanice excessiva e audaciosa, interrogaram os olhos do dono da casa; e, na verdade, o gesto do alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças, e, provavelmente, de sangue. O atrevimento foi grande, pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que removesse qualquer episódio trágico, - ou que o adiasse, ao menos, para o dia seguinte. Sim, que o adiasse. Uma delas, a mais piedosa, chegou a admitir, consigo mesma, que D. Evarista não merecia nenhuma desconfiança, tão longe estava de ser atraente ou bonita. Uma simples água-morna. Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo? E esta idéia fê-la tremer outra vez, embora menos; menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito, e, levantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do discurso. Não lhe negou que era um improviso brilhante, cheio de rasgos magníficos. Seria dele mesmo a idéia relativa ao nascimento de D. Evarista, ou tê-la-ia encontrado em algum autor que...? Não, senhor; era dele mesmo; achou-a naquela ocasião e parecera-lhe adequada a um arroubo oratório. De resto, suas idéias eram antes arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o épico. Uma vez, por exemplo, compôs uma ode à queda do marquês de Pombal, em que dizia que esse ministro era o "dragão aspérrimo do Nada", esmagado pelas "garras vingadoras do Todo"; e assim outras, mais ou menos fora do comum; gostava das idéias sublimes e raras, das imagens grandes e nobres... - Pobre moço! pensou o alienista. E continuou consigo: -Trata-se de um caso de lesão cerebral; fenômeno sem gravidade, mas digno de estudo... D. Evarista ficou estupefata quando soube, três dias depois, que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde. Um moço que tinha idéias tão bonitas! As duas senhoras atribuíram o ato a ciúmes do alienista. Não podia ser outra coisa; realmente a declaração do moço fora audaciosa demais. Ciúmes? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem recolhidos José Borges do Couto Leme, pessoa estimável, o Chico das Cambraias, folga-zão emérito, o escrivão Fabrício, e ainda outros? O terror acentuou-se. Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doido. As mulheres, quando os maridos saíam, mandavam acender uma lamparina a Nossa Senhora; e nem todos os maridos eram valorosos, alguns não andavam fora sem um ou dois capangas. Positivamente o terror. Quem podia, emigrava. Um desses fugitivos chegou a ser preso a duzentos passos da vila. Era um rapaz de trinta anos, amável, conversado, polido, tão polido que não cumprimentava alguém sem levar o chapéu ao chão; na rua, acontecia-lhe correr uma distância de dez a vinte braças para ir apertar a mão a um homem grave, a uma senhora, às vezes a um menino, como acontecera ao filho do juiz de fora. Tinha a vocação das cortesias. De resto, devia as boas relações da sociedade, não só aos dotes pessoais, que eram raros, como à nobre tenacidade com que nunca desanimava diante de uma, duas, quatro, seis recusas, caras feias, etc. O que acontecia era que, uma vez entrado numa casa, não a deixava mais, nem os da casa o deixavam a ele, tão gracioso era o Gil Bernardes. Pois o Gil Bernardes, apesar de se saber estimado, teve medo quando lhe disseram um dia, que o alienísta o trazia de olho; na madrugada seguinte fugiu da vila, mas foi logo apanhado e conduzido à Casa Verde. - Devemos acabar com isto! - Não pode continuar! - Abaixo a tirania! - Déspota! violento! Golias! Não eram gritos na rua, eram suspiros em casa, mas não tardava a hora dos gritos. O terror crescia; avizinhava-se a rebelião. A idéia de uma petição ao governo para que Simão Bacamarte fosse capturado e deportado, andou por algumas cabeças, antes que o barbeiro Porfírio a expendesse na loja, com grandes gestos de indignação. Note-se, - e essa é uma das laudas mais puras desta sombria história, - note-se que o Porfírio, desde que a Casa Verde começara a povoar-se tão extraordinariamente, viu crescerem-lhe os lucros pela aplicação assídua de sanguessugas que dali lhe pediam; mas o interesse particular, dizia ele, deve ceder ao interesse público. E acrescentava: - é preciso derrubar o tirano! Note-se mais que ele soltou esse grito justamente no dia em que Simão Bacamarte fizera recolher à Casa Verde um homem que trazia com ele uma demanda, o Coelho. - Não me dirão em que é que o Coelho é doido? bradou o Porfírio. E ninguém lhe respondia; todos repetiam que era um homem perfeitamente ajuizado. A mesma demanda que ele trazia com o barbeiro, acerca de uns chãos da vila, era filha da obscuridade de um alvará, e não da cobiça ou ódio. Um excelente caráter o Coelho. Os únicos desafeiçoados que tinha eram alguns sujeitos que, dizendo-se taciturnos, ou alegando andar com pressa, mal o viam de longe dobravam as esquinas, entravam nas lojas, etc. Na verdade, ele amava a boa palestra, a palestra comprida, gostada a sorvos largos, e assim é que nunca estava só, preferindo os que sabiam dizer duas palavras, mas não desdenhando os outros. O padre Lopes, que cultivava o Dante, e era inimigo do Coelho, nunca o via desligar-se de uma pessoa que não declamasse e emendasse este trecho: La bocca sollevò dal fiero pasto Quel seccatore... mas uns sabiam do ódio do padre, e outros pensavam que isto era uma oração em latim. VI A rebelião Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram e levaram uma representação à câmara. A câmara recusou aceitá-la, declarando que a Casa Verde era uma instituição pública, e que a ciência não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimentos de rua. - Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o conselho que vos damos. A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da rebelião, e destruir a Casa Verde; que Itaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e experiências de um déspota; que muitas pessoas estimáveis, algumas distintas, outras humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubículos da Casa Verde; que o despotismo científico do alienista complicava-se do espírito de ganância, visto que os loucos, ou supostos tais, não eram tratados de graça: as famílias, e em falta delas a câmara, pagavam ao alienista... - É falso, interrompeu o presidente. - Falso? - Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre médico, em que nos declara que, tratando de fazer experiências de alto valor psicológico, desiste do estipéndio votado pela câmara, bem como nada receberá das famílias dos enfermos. A notícia deste ato tão nobre, tão puro, suspendeu um pouco a alma dos rebeldes. Seguramente o alienista podia estar em erro, mas nenhum interesse alheio à ciência o instigava; e para demonstrar o erro era preciso alguma coisa mais do que arruaças e clamores. Isto disse o presidente, com aplauso de toda a câmara. O barbeiro, depois de alguns instantes de concentração, declarou que estava investido de um mandato público, e não restituiria a paz a Itaguaí antes de ver por terra a Casa Verde, "essa Bastilha da razão humana", - expressão que ouvira a um poeta local, e que ele repetiu com muita ênfase. Disse, e a um sinal todos saíram com ele. Imagine-se a situação dos vereadores; urgia obstar ao ajuntamento, à rebelião, à luta, ao sangue. Para acrescentar ao mal, um dos vereadores, que apoiara o presidente, ouvindo agora a denominação dada pelo barbeiro à Casa Verde - "Bastilha da razão humana", - achou-a tão elegante, que mudou de parecer. Disse que entendia de bom aviso decretar alguma medida que reduzisse a Casa Verde; e porque o presidente, indignado, manifestasse em termos enérgicos o seu pasmo, o vereador fez esta reflexão: - Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista? Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra e falou ainda por algum tempo com prudência, mas com firmeza. Os colegas estavam atônitos; o presidente pediu-lhe que, ao menos, desse o exemplo da ordem e do respeito à lei, não aventasse as suas idéias na rua, para não dar corpo e alma à rebelião, que era por ora um turbilhão de átomos dispersos. Esta figura corrigiu um pouco o efeito da outra: Sebastião Freitas prometeu suspender qualquer ação, reservando-se o direito de pedir pelos meios legais a redução da Casa Verde. E repetia consigo, namorado: - Bastilha da razão humana! Entretanto, a arruaça crescia. Já não eram trinta, mas trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro, cuja alcunha familiar deve ser mencionada, porque ela deu o nome à revolta; chamavam-lhe o Canjica, - e o movimento ficou célebre com o nome de revolta dos Canjicas. A ação podia ser restrita, visto que muita gente, ou por medo, ou por hábitos de educação, não descia à rua; mas o sentimento era unânime, ou quase unânime, e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde, - dada a diferença de Paris a Itaguaí, - podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha. D. Evarista teve notícia da rebelião antes que ela chegasse; veio dar-lha uma de suas crias. Ela provava nessa ocasião um vestido de seda, - um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro, - e não quis crer. - Há de ser alguma patuscada, dizia ela mudando a posição de um alfinete. Benedita, vê se a barra está boa. - Está, sinhá, respondia a mucama de cócoras no chão, está boa. Sinhá vira um bocadinho. Assim. Está muito boa. - Não é patuscada, não, senhora; eles estão gritando: - Morra o Dr. Bacamarte! o tirano! dizia o moleque assustado. - Caia a boca, tolo! Benedita, olha aí do lado esquerdo; não parece que a costura está um pouco enviesada? A risca azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso descoser para ficar igualzinho e... - Morra o Dr. Bacamarte! morra o tirano! uivaram fora trezentas vozes. Era a rebelião que desembocava na rua Nova. D. Evarista ficou sem pinga de sangue. No primeiro instante não deu um passo, não fez um gesto; o terror petrificou-a. A mucama correu instintivamente para a porta do fundo. Quanto ao moleque, a quem D. Evarista não dera crédito, teve um instante de triunfo, um certo movimento súbito, imperceptível, entranhado, de satisfação moral, ao ver que a realidade vinha jurar por ele. - Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto. D. Evarista, se não resistia facilmente às comoções de prazer, sabia entestar com os momentos de perigo. Não desmaiou; correu à sala interior onde o marido estudava. Quando ela ali entrou, precipitada, o ilustre médico escrutava um texto de Averróis; os olhos dele, empanados pela cogitação, subiam do livro ao teto e baixavam do teto ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentais. D. Evarista chamou pelo marido duas vezes, sem que ele lhe desse atenção; à terceira, ouviu e perguntou-lhe o que tinha, se estava doente. - Você não ouve estes gritos? perguntou a digna esposa em lágrimas. O alienista atendeu então; os gritos aproximavam-se, terríveis, ameaçadores; ele compreendeu tudo. Levantou-se da cadeira de espaldar em que estava sentado, fechou o livro; e, a passo firme e tranqüilo, foi depositá-lo na estante. Como a introdução do volume desconcertasse um pouco a linha dos dois tomos contíguos, Simão Bacamarte cuidou de corrigir esse defeito mínimo, e, aliás, interessante. Depois disse à mulher que se recolhesse, que não fizesse nada. - Não, não, implorava a digna senhora, quero morrer ao lado de você... Simão Bacamarte teimou que não, que não era caso de morte; e ainda que o fosse, intimava-lhe em nome da vida que ficasse. A infeliz dama curvou a cabeça, obediente e chorosa. - Abaixo a Casa Verde! bradavam os Canjicas. O alienista caminhou para a varanda da frente, e chegou ali no momento em que a rebelião também chegava e parava, defronte, com as suas trezentas cabeças rutilantes de civismo e sombrias de desespero. - Morra! morra! bradaram de todos os lados, apenas o vulto do alienista assomou na varanda. Simão Bacamarte fez um sinal pedindo para falar; os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação. Então, o barbeiro, agitando o chapéu, a fim de impor silêncio à turba, conseguiu aquietar os amigos, e declarou ao alienista que podia falar, mas acrescentou que não abusasse da paciência do povo como fizera até então. - Direi pouco, ou até não direi nada, se for preciso. Desejo saber primeiro o que pedis. - Não pedimos nada, replicou fremente o barbeiro; ordenamos que a Casa Verde seja demolida, ou pelo menos despojada dos infelizes que lá estão. - Não entendo. - Entendeis bem, tirano; queremos dar liberdade às vítimas do vosso ódio, capricho, ganância... O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem não era coisa visível aos olhos da multidão; era uma contração leve de dois ou três músculos, nada mais. Sorriu e respondeu: - Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem a rebeldes. Disse isto o alienista, e a multidão ficou atônita; era claro que não esperava tanta energia e menos ainda tamanha serenidade. Mas o assombro cresceu de ponto quando o alienista, cortejando a multidão com muita gravidade, deu-lhe as costas e retirou-se lentamente para dentro. O barbeiro tornou logo a si, e, agitando o chapéu, convidou os amigos à demolição da Casa Verde; poucas vozes e frouxas lhe responderam. Foi nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição do governo; pareceu-lhe então que, demolindo a Casa Verde, e derrocando a influência do alienista, chegaria a apoderar-se da câmara, dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguaí. Desde alguns anos que ele forcejava por ver o seu nome incluído nos pelouros para o sorteio dos vereadores, mas era recusado por não ter uma posição compatível com tão grande cargo. A ocasião era agora ou nunca. Demais, fora tão longe na arruaça, que a derrota seria a prisão, ou talvez a forca, ou o degredo. Infelizmente, a resposta do alienista diminuíra o furor dos sequazes. O barbeiro, logo que o percebeu, sentiu um impulso de indignação, e quis bradar-lhes: - Canalhas! covardes! - mas conteve-se, e rompeu deste modo: - Meus amigos, lutemos até o fim! A salvação de Itaguaí está nas vossas mãos dignas e heróicas. Destruamos o cárcere de vossos filhos e pais, de vossas mães e irmãs, de vossos parentes e amigos, e de vós mesmos. Ou morrereis a pão e água, talvez a chicote, na masmorra daquele indigno. A multidão agitou-se, murmurou, bradou, ameaçou, congregou-se toda em derredor do barbeiro. Era a revolta que tornava a si da ligeira síncope, e ameaçava arrasar a Casa Verde. - Vamos! bradou Porfírio agitando o chapéu. - Vamos! repetiram todos. Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que, a marche-marche, entrava na rua Nova. VII O inesperado Chegados os dragões em frente aos Canjicas, houve um instante de estupefação: os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse mandada contra eles; mas o barbeiro compreendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos alevantados: - Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadáveres, podeis tomá-los; mas só os cadáveres; não levareis a nossa honra, o nosso crédito, os nossos direitos, e com eles a salvação de Itaguaí. Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi indescritível. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando às janelas das casas, ou correndo pela rua fora, conseguiram escapar; mas a maioria ficou, bufando de cólera, indignada, animada pela exortação do barbeiro. A derrota dos Canjicas estava iminente, quando um terço dos dragões, - qualquer que fosse o motivo, as crônicas não o declaram, - passou subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desânimo às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas, e, um a um, foram passando para eles, de modo que ao cabo de alguns minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado, com alguma gente, contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve remédio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro. A revolução triunfante não perdeu um só minuto; recolheu os feridos às casas próximas, e guiou para a câmara. Povo e tropa fraternizavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguaí, ao "ilustre Porfírio". Este ia na frente, empunhando tão destramente a espada, como se ela fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A vitória cingia-lhe a fronte de um nimbo misterioso. A dignidade de governo começava a enrijar-lhe os quadris. Os vereadores, às janelas, vendo a multidão e a tropa, cuidaram que a tropa capturara a multidão, e sem mais exame, entraram e votaram uma petição ao vice-rei para que mandasse dar um mês de soldo aos dragões, "cujo denodo salvou Itaguaí do abismo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes". Esta frase foi proposta por Sebastião Freitas, o vereador dissidente, cuja defesa dos Canjicas tanto escandalizara os colegas. Mas bem depressa a ilusão se desfez. Os vivas ao barbeiro, os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes notícia da triste realidade. O presidente não desanimou: - Qualquer que seja a nossa sorte, disse ele, lembremo-nos que estamos ao serviço de Sua Majestade e do povo. - Sebastião Freitas insinuou que melhor se poderia servir à coroa e à vila saindo pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fora, mas toda a câmara rejeitou esse alvitre. Daí a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus tenentes, entrava na sala da vereança e intimava à câmara a sua queda. A câmara não resistiu, entregou-se, e foi dali para a cadeia. Então os amigos do barbeiro propuseram-lhe que assumisse o governo da vila, em nome de Sua Majestade. Porfírio aceitou o encargo, embora não desconhecesse (acrescentou) os espinhos que trazia; disse mais que não podia dispensar o concurso dos amigos presentes; ao que eles prontamente anuíram. O barbeiro veio à janela, e comunicou ao povo essas resoluções, que o povo ratificou, aclamando o barbeiro. Este tomou a denominação de - "Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo". - Expediram-se logo várias ordens importantes, comunicações oficiais do novo governo, uma exposição minuciosa ao vice-rei, com muitos protestos de obediência às ordens de Sua Majestade; finalmente, uma proclamação ao povo, curta, mas enérgica: "Itaguaienses! Uma câmara corrupta e violenta conspirava contra os interesses de Sua Majestade e do povo. A opinião pública tinha-a condenado; um punhado de cidadãos, fortemente apoiados pelos bravos dragões de Sua Majestade, acaba de a dissolver ignominiosamente, e por unânime consenso da vila, foi-me confiado o mando supremo, até que Sua Majestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao seu real serviço. Itaguaienses! não vos peço senão que me rodeeis de confiança, que me auxilieis em restaurar a paz e a fazenda pública, tão desbaratada pela câmara que ora findou às vossas mãos. Contai com o meu sacrifício, e ficai certos de que a coroa será por nós. O Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo PORFIRIO CAETANO DAS NEVES." Toda a gente advertiu no absoluto silêncio desta proclamação acerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indício dos projetos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior quanto que, no meio mesmo desses graves sucessos, o aiienista metera na Casa Verde umas sete ou oito pessoas, entre elas duas senhoras, sendo um dos homens aparentado com o Protetor. Não era um repto, um ato intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira, e a vila respirou com a esperança de que o aiienista dentro de vinte e quatro horas estaria a ferros, e destruído o terrível cárcere. O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defesa do ilustre Porfírio. Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na ação do governo. O barbeiro fez expedir um ato declarando feriado aquele dia, e entabulou negociações com o vigário para a celebração de um TeDeum, tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual; mas o padre Lopes recusou abertamente o seu concurso. - Em todo caso, Vossa Reverendíssima não se alistará entre os inimigos do governo? disse-lhe o barbeiro dando à fisionomia um aspecto tenebroso. Ao que o padre Lopes respondeu, sem responder: - Como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos? O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o capitão, os vereadores e os principais da vila, toda a gente o aclamava. Os mesmos principais, se o não aclamavam, não tinham saído contra ele. Nenhum dos almotacés deixou de vir receber as suas ordens. No geral, as famílias abençoavam o nome daquele que ia enfim libertar Itaguaí da Casa Verde e do terrível Simão Bacamarte. As angústias do boticário . Vinte e quatro horas depois dos sucessos narrados no capítulo anterior, o barbeiro saiu do palácio do governo - foi a denominação dada à casa da câmara, - com dois ajudantes-de-ordens, e dirigiu-se à residência de Simão Bacamarte. Não ignorava ele que era mais decoroso ao governo mandá-lo chamar; o receio, porém, de que o alienista não obedecesse, obrigou-o a parecer tolerante e moderado. Não descrevo o terror do boticário ao ouvir dizer que o barbeiro ia à casa do alienista. -Vai prendê-lo, pensou ele. E redobraram-lhe as angústias. Com efeito, a tortura moral do boticário naqueles dias de revolução excede a toda a descrição possível. Nunca um homem se achou em mais apertado lance: - a privança do alienista chamava-o ao lado deste, a vitória do barbeiro atraía-o ao barbeiro. Já a simples notícia da sublevação tinha-lhe sacudido fortemente a alma, porque ele sabia a unanimidade do ódio ao alienista; mas a vitória final foi também o golpe final. A esposa, senhora máscula, amiga particular de D. Evarista, dizia que o lugar dele era ao lado de Simão Bacamarte; ao passo que o coração lhe bradava que não, que a causa do alienista estava perdida, e que ninguém, por ato próprio, se amarra a um cadáver. Fê-lo Catão, é verdade, sed vicia Catoni, pensava ele, relembrando algumas palestras habituais do padre Lopes; mas Catão não se atou a uma causa vencida, ele era a própria causa vencida, a causa da república; o seu ato, portanto, foi de egoísta, de um miserável egoísta; minha situação é outra. Insistindo, porém, a mulher, não achou Crispim Soares outra saída em tal crise senão adoecer; declarou-se doente e meteu-se na cama. - Lá vai o Porfírio à casa do Dr. Bacamarte, disse-lhe a mulher no dia seguinte à cabeceira da cama; vai acompanhado de gente. - Vai prendê-lo, pensou o boticário. Uma idéia traz outra; o boticário imaginou que, uma vez preso o alienista, viriam também buscá-lo a ele, na qualidade de cúmplice. Esta idéia foi o melhor dos vesicatórios. Crispim Soares ergueu-se, disse que estava bom, que ia sair; e apesar de todos os esforços e protestos da consorte, vestiu-se e saiu. Os velhos cronistas são unânimes em dizer que a certeza de que o marido ia colocar-se nobremente ao lado do alienista consolou grandemente a esposa do boticário; e notam, com muita perspicácia, o imenso poder moral de uma ilusão; porquanto, o boticário caminhou resolutamente ao palácio do governo, não à casa do alienista. Ali chegando, mostrou-se admirado de não ver o barbeiro, a quem ia apresentar os seus protestos de adesão, não o tendo feito desde a véspera por enfermo. E tossia com algum custo. Os altos funcionários que lhe ouviam esta declaração, sabedores da intimidade do boticário com o alienista, compreenderam toda a importância da adesão nova, e trataram a Crispim Soares com apurado carinho; afirmaram-lhe que o barbeiro não tardava; Sua Senhoria tinha ido à Casa Verde, a negócio importante, mas não tardava. Deram-lhe cadeira, refrescos, elogios; disseram-lhe que a causa do ilustre Porfírio era a de todos os patriotas; ao que o boticário ia repetindo que sim, que nunca pensara outra coisa, que isso mesmo mandaria declarar a Sua Majestade. IX Dois lindos casos Não se demorou o alienista em receber o barbeiro; declarou-lhe que não tinha meios de resistir, e portanto estava prestes a obedecer. Só uma coisa pedia, é que o não constrangesse a assistir pessoalmente à destruição da Casa Verde. - Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa; engana-se em atribuir ao governo intenções vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo, mas o governo reconhece que a questão é puramente científica, e não cogita em resolver com posturas as questões científicas. Demais, a Casa Verde é uma instituição pública; tal a aceitamos das mãos da câmara dissolvida. Há, entretanto, - por força que há de haver um alvitre intermédio que restitua o sossego ao espírito público. O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava outra coisa, o arrasamento do hospício, a prisão dele, o desterro, tudo, menos... - O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não atender à grave responsabilidade do governo. O povo, tomado de uma cega piedade, que lhe dá em tal caso legítima indignação, pode exigir do governo certa ordem de atos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução que ontem derrubou uma câmara vilipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrasamento da Casa Verde; mas pode entrar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminá-la, reconhecê-la? Também não; é matéria de ciência. Logo, em assunto tão melindroso, o governo não pode, não deve, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos alvitres aceitáveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer retirar da Casa Verde aqueles enfermos que estiverem quase curados, e bem assim os maníacos de pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerância e benignidade. - Quantos mortos e feridos houve ontem no conflito? perguntou Simão Bacamarte, depois de uns três minutos. O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo que onze mortos e vinte e cinco feridos. - Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou três vezes o alienista. E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom, mas que ele ia catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E fez-lhe várias perguntas acerca dos sucessos da véspera, ataque, defesa, adesão dos dragões, resistência da câmara, etc, ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundância, insistindo principalmente no descrédito em que a câmara caíra. O barbeiro confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos principais da vila, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O governo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não já com a simpatia, senão com a benevolência do mais alto espírito de Itaguaí, e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera fisionomia daquele grande homem, que ouvia calado, sem desvanecimento, nem modéstia, mas impassível como um deus de pedra. - Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista, depois de acompanhar o barbeiro até à porta. Eis aí dois lindos casos de doença cerebral. Os sintomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto à toleima dos que o aclamaram não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos. - Dois lindos casos! - Viva o ilustre Porfírio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro à porta. O alienista espiou pela janela, e ainda ouviu este resto de uma pequena fala do barbeiro às trinta pessoas que o aclamavam: - ... porque eu velo, podeis estar certos disso, eu velo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recomendo ordem. A ordem, meus amigos, é a base do governo... - Viva o ilustre Porfírio! bradaram as trinta vozes, agitando os chapéus. - Dois lindos casos! murmurou o alienista. X A restauração Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinqüenta aclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfírio estava "vendido ao ouro de Simão Bacamarte", frase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da vila. Porfírio, vendo o antigo rival da navalha à testa da insurreição, compreendeu que a sua perda era irremediável, se não desse um grande golpe; expediu dois decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente, com grandes frases, que o ato de Porfírio era um simples aparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois caía Porfírio ignominiosamente, e João Pina assumia a difícil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamaçao, da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; acrescentam os cronistas, e aliás subentende-se, que ele lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro falara de uma câmara corrupta, falou este de "um intruso eivado das más doutrinas francesas, e contrário aos sacrossantos interesses de Sua Majestade, etc." Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei, e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfírio, e bem assim a de uns cinqüenta e tantos indivíduos, que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses, como afiançaram entregar-lhe mais dezenove sequazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas na primeira rebelião. Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo da influência de Simão Bacamarte. Tudo quanto quis, deu-se-lhe; e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico achamo-la na prontidão com que os vereadores, restituídos a seus lugares, consentiram em que Sebastião Freitas também fosse recolhido ao hospício. O alienista, sabendo da extraordinária inconsistência das opiniões desse vereador, entendeu que era um caso patológico, e pediu-o. A mesma coisa aconteceu ao boticário. O alienista, desde que lhe falaram da momentânea adesão de Crispim Soares à rebelião dos Canjicas, comparou-a à aprovação que sempre recebera dele, ainda na véspera, e mandou capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror, ao ver a rebelião triunfante, e deu como prova a ausência de nenhum outro ato seu, acrescentando que voltara logo à cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circunstantes que o terror também é pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados. Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a câmara lhe entregou o próprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado em plena sessão, que não se contentava, para lavá-lo da afronta dos Canjicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretário da câmara, entusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por meter o secretário na Casa Verde, e foi dali à câmara, à qual declarou que o presidente estava padecendo da "demência dos touros", um gênero que ele pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A câmara a princípio hesitou, mas acabou cedendo. Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural, e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns cronistas crêem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter alcançado da câmara uma postura autorizando o uso de um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradicional, declarasse ter nas veias duas ou três onças de sangue godo. Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuação à câmara foi enriquecer um ourives, amigo e compadre dele; mas, conquanto seja certo que o ourives viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do ilustre médico. Quanto à razão determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram do anel, é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí; a opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos por andarem a gesticular, à toa, nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doidos gesticulam muito. Em todo caso é uma simples conjetura; de positivo nada há. - Onde é que este homem vai parar? diziam os principais da terra. Ah! se nós tivéssemos apoiado os Canjicas... Um dia de manhã, - dia em que a câmara devia dar um grande baile, - a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da noite. O padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente acerca do fato. - Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modéstia com que ela vivera em ambos os matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas que manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observá-la. Suas conversas eram todas sobre esses objetos; se eu lhe falava das antigas cortes, inquiria logo da forma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava, na minha ausência, antes de me dizer o objeto da visita, descrevia-me o trajo, aprovando umas coisas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa Reverendíssima há de lembrar-se, propôs-se a fazer anualmente um vestido para a imagem de Nossa Senhora da Matriz. Tudo isto eram sintomas graves; esta noite, porém, declarou-se a total demência. Tinha escolhido, preparado, enfeitado o vestuário que levaria ao baile da câmara municipal; só hesitava entre um colar de granada e outro de safira. Anteontem perguntou-me qual deles levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Ontem repetiu a pergunta, ao almoço; pouco depois de jantar fui achá-la calada e pensativa. - Que tem? perguntei-lhe. - Queria levar o colar de granada, mas acho o de safira tão bonito! - Pois leve o de safira. - Ah! mas onde fica o de granada? - Enfim, passou a tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e meia, acordo e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dois colares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a demência: recolhi-a logo. O padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objetou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era de "mania sumptuária", não incurável, e em todo caso digno de estudo. - Conto pô-la boa dentro de seis semanas, concluiu ele. A abnegação do ilustre médico deu-lhe grande realce. Conjeturas, invenções, desconfianças, tudo caiu por terra, desde que ele não duvidou recolher à Casa Verde a própria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguém mais tinha o direito de resistir-lhe, - menos ainda o de atribuir-lhe intuitos alheios à ciência. Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão. XI O assombro de Itaguaí E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila, ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua. - Todos? - Todos. - É impossível; alguns, sim, mas todos... - Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à câmara. De fato, o alienista oficiara à câmara expondo: - i-, que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde, que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2-, que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía do domínio da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3-, que desse exame e do fato estatístico resultará para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; 4°, que à vista disso, declarava à câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5e, que, tratando de descobrir a verdade científica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da câmara igual dedicação; 6-, que restituía à câmara e aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc; o que a câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde. O assombro de Itaguaí foi grande; não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, danças, luminárias, músicas, tudo houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso propósito; mas foram esplêndidas, tocantes e prolongadas. E vão assim as coisas humanas! No meio do regozijo produzido pelo ofício de Simão Bacamarte, ninguém advertia na frase final do § 4-, uma frase cheia de experiências futuras. Apagaram-se as luminárias, reconstituíram-se as famílias, tudo parecia reposto nos antigos eixos. Reinava a ordem, a câmara exercia outra vez o governo, sem nenhuma pressão externa; o próprio presidente e o vereador o Sebastião Freitas tornaram aos seus lugares. O barbeiro Porfírio, ensinado pelos acontecimentos, tendo "provado tudo", como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma coisa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferível a glória obscura da navalha e da tesoura às calamidades brilhantes do poder; foi, é certo, processado; mas a população da vila implorou a clemência de Sua Majestade; daí o perdão. João Pina foi absolvido, atendendo-se a que ele derrocara um rebelde. Os cronistas pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio: - ladrão que furta a ladrão, tem cem anos de perdão; - adágio imoral, é verdade, mas grandemente útil. Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara; acrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que ele os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido entusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial manifestação, e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as crônicas que D. Evarista a princípio tivera a idéia de separar-se do consorte, mas a dor de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer ressentimento de amor-próprio, e o casal veio a ser ainda mais feliz do que antes. Não menos íntima ficou a amizade do alienista e do boticário. Este concluiu do ofício de Simão Bacamarte que a prudência é a primeira das virtudes em tempos de revolução, e apreciou muito a magnanimidade do alienista que, ao dar-lhe a liberdade, estendeu-lhe a mão de amigo velho. - É um grande homem, disse ele à mulher, referindo aquela circunstância. Não é preciso falar do aibardeiro, do Costa, do Coelho, do Martim Brito e outros, especialmente nomeados neste escrito; basta dizer que puderam exercer livremente os seus hábitos anteriores. O próprio Martim Brito, recluso por um discurso em que louvara enfaticamente D. Evarista, fez agora outro em honra do insigne médico - "cujo altíssimo gênio, elevando as asas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espíritos da terra" . - Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e ainda me não arrependo de o haver restituído à liberdade. Entretanto, a câmara, que respondera ao ofício de Simão Bacamarte, com a ressalva de que oportunamente estatuiria em relação ao final do 4-, tratou enfim de legislar sobre ele. Foi adotada, sem debate, uma postura autorizando o alienista a agasalhar na Casa Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. E porque a experiência da câmara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ela a cláusula, de que a autorização era provisória, limitada a um ano, para o fim de ser experimentada a nova teoria psicológica, podendo a câmara, antes mesmo daquele prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem pública. O vereador Freitas propôs também a declaração de que em nenhum caso fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos alienados: cláusula que foi aceita, votada e incluída na postura, apesar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a câmara, legislando sobre uma experiência científica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das conseqüências da lei; a exceção era odiosa e ridícula. Mal proferira estas duras palavras, romperam os vereadores em altos brados contra a audácia e insensatez do colega; este, porém, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a exceção. - A vereança, concluiu ele, não nos dá nenhum poder especial nem nos elimina do espírito humano. Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restrições. Quanto à exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se fosse compelido a recolhê-los à Casa Verde; a cláusula, porém, era a melhor prova de que eles não padeciam do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo acerto na objeção feita, e cuja moderação na resposta dada às invectivas dos colegas mostravam da parte dele um cérebro bem organizado; pelo que, rogava à câmara que lho entregasse. A câmara, sentindo-se ainda agravada pelo proceder do vereador Galvão, estimou o pedido do alienista, e votou unanimemente a entrega. Compreende-se que, pela teoria nova, não bastava um fato ou um dito, para recolher alguém à Casa Verde; era preciso um longo exame, um vasto inquérito do passado e do presente. O padre Lopes, por exemplo, só foi capturado trinta dias depois da postura, a mulher do boticário quarenta dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação. Crispim Soares saiu de casa espumando de cólera, e declarando às pessoas a quem encontrava que ia arrancar as orelhas ao tirano. Um sujeito, adversário do alienista, ouvindo na rua essa notícia, esqueceu os motivos de dissidência, e correu a casa de Simão Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mostrou-se grato ao procedimento do adversário, e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a retidão dos seus sentimentos, a boa-fé, o respeito humano, a generosidade; apertou-lhe muito as mãos, e recolheu-o à Casa Verde. - Um caso destes é raro, disse ele à mulher pasmada. Agora espere mos o nosso Crispim. Crispím Soares entrou. A dor vencera a raiva, o boticário não arrancou as orelhas ao alienista. Este consolou o seu privado, assegurando-lhe que não era caso perdido; talvez a mulher tivesse alguma lesão cerebral; ia examiná-la com muita atenção; mas antes disso não podia deixá-la na rua. E parecendo-lhe vantajoso reuni-los, porque a astúcia e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a beleza moral que ele descobrira na esposa, disse Simão Bacamarte: - O senhortrabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e dias santos. A proposta colocou o pobre boticário na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar à Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da dificuldade, prometendo que se incumbiria de ver a amiga e transmitir os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido. Este último rasgo de egoísmo pusilânime pareceu sublime ao alienista. Ao cabo de cinco meses estavam alojadas umas dezoito pessoas; mas Simão Bacamarte não afrouxava; ia de rua em rua, de casa em casa, espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo, levava-o com a mesma alegria com que outrora os arrebanhava às dúzias. Essa mesma desproporção confirmava a teoria nova; achara-se enfim a verdadeira patologia cerebral. Um dia, conseguiu meter na Casa Verde o juiz de fora; mas procedia com tanto escrúpulo, que o não fez senão depois de estudar minuciosamente todos os seus atos, e interrogar os principais da vila. Mais de uma vez esteve prestes a recolher pessoas perfeitamente desequilibradas; foi o que se deu com um advogado, em quem reconheceu um tal conjunto de qualidades morais e mentais, que era perigoso deixá-lo na rua. Mandou prendê-lo; mas o agente, desconfiado, pediu-lhe para fazer uma experiência; foi ter com um compadre, demandado por um testamento falso, e deu-lhe de conselho que tomasse por advogado o Salustiano; era o nome da pessoa em questão. - Então parece-lhe...? - Sem dúvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja qual for, e confie-lhe a causa. O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado o testamento, e acabou pedindo que lhe tomasse a causa. Não se negou o advogado, estudou os papéis, arrazoou longamente, e provou a todas as luzes que o testamento era mais que verdadeiro. A inocência do réu foi solenemente proclamada pelo juiz, e a herança passou-lhe às mãos. O distinto juriscon-sulto deveu a esta experiência a liberdade. Mas nada escapa a um espírito original e penetrante. Simão Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo, a sagacidade, a paciência, a moderação daquele agente, reconheceu a habilidade e o tino com que ele levara a cabo uma experiência tão melindrosa e complicada, e determinou recolhê-lo imediatamente à Casa Verde; deu-lhe, todavia, um dos melhores cubículos. Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma galeria de modestos, isto é, os loucos em quem predominava esta perfeição moral; outra de tolerantes, outra de verídicos, outra de símplices, outra de leais, outra de magnânimos, outra de sagazes, outra de sinceros, etc. Naturalmente, as famílias e os amigos dos reclusos bradavam contra a teoria; e alguns tentaram compelir a câmara a cassar a licença. A câmara, porém, não esquecera a linguagem do vereador Calvão, e se cassasse a licença, vê-lo-ia na rua, e restituído ao lugar; pelo que, recusou. Simão Bacamarte oficiou aos vereadores, não agradecendo, mas felicitando-os por esse ato de vingança pessoal. Desenganados da legalidade, alguns principais da vila recorreram secretamente ao barbeiro Porfírioe afiançaram-lhe todo o apoio de gente, dinheiro e influência na corte, se ele se pusesse à testa de outro movimento contra a câmara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas que ele se emendara, reconhecendo o erro próprio e a pouca consistência da opinião dos seus mesmos sequazes; que a câmara entendera autorizar a nova experiência do alienista, por um ano: cumpria, ou esperar o fim do prazo, ou requerer ao vice-rei, caso a mesma câmara rejeitasse o pedido, jamais aconselharia o emprego de um recurso que ele viu falhar em suas mãos, e isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso. - O que é que me está dizendo? perguntou o alienista quando um agente secreto lhe contou a conversação do barbeiro com os principais da vila. Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa Verde. Preso por ter cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz. Chegou o fim do prazo, a câmara autorizou um prazo suplementar de seis meses para ensaio dos meios terapêuticos. O desfecho deste episódio da crônica itaguaiense é de tal ordem, e tão inesperado, que merecia nada menos de dez capítulos de exposição; mas contento-me com um, que será o remate da narrativa, e um dos mais belos exemplos de convicção científica e abnegação humana. XIII Plus ultra! Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí.

Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, - graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve idéia de mandar correr matraca, para o fim de o apregoar como um rival de Carção e de Píndaro. - Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remédio. Outro doente, também modesto, opôs a mesma rebeldia à medicação; mas não sendo escritor (mal sabia assinar o nome), não se lhe podia aplicar o remédio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para ele o lugar de secretário da Academia dos Encobertos estabelecida em Itaguaí. Os lugares de presidente e secretários eram de nomeação regia, por especial graça do finado rei D. João V, e implicavam o tratamento de Excelência e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas representando o alienista que o não pedia como prêmio honorífico ou distinção legítima, e somente como um meio terapêutico para um caso difícil, o governo cedeu excepcionalmente à súplica; e ainda assim não o fez sem extraordinário esforço do ministro de marinha e ultramar, que vinha a ser primo do alienado. Foi outro santo remédio. - Realmente, é admirável! dizia-se nas ruas, ao ver a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes. Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir. No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de moderação e eqüidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação, corrompendo os juizes, e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a simples vis medicatrix da natureza. Não aconteceu o mesmo com o padre Lopes. Sabendo o alienista que ele ignorava perfeitamente o hebraico e o grego, incumbiu-o de fazer uma análise crítica da versão dos Setenta; o padre aceitou a incumbência, e em boa hora o fez; ao cabo de dois meses possuía um livro e a liberdade. Quanto à senhora do boticário, não ficou muito tempo na célula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos. - Por que é que o Crispim não vem visitar-me? dizia ela todos os dias. Respondiam-lhe ora uma coisa, ora outra; afinal disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona não pôde conter a indignação e a vergonha. Nas explosões da cólera escaparam-lhe expressões soltas e vagas, como estas: - TratanteL. velhacoL. ingrato!... Um patife que tem feito casas à custa de ungüentos falsificados e podres... Ah! tratante!... Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não fosse verdadeira a acusação contida nestas palavras, bastavam elas para mostrar que a excelente senhora estava enfim restituída ao perfeito desequilíbrio das faculdades; e prontamente lhe deu alta. Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra! era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogita-tivo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria. - Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade. Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade. Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: - só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio. Era assim que ele ia, o grande alienista, de um cabo a outro da vasta biblioteca, metido em si mesmo, estranho a todas as coisas que não fosse o tenebroso problema da patologia cerebral. Súbito, parou. Em pé, diante de uma janela, com o cotovelo esquerdo apoiado na mão direita, aberta, e o queixo na mão esquerda, fechada, perguntou ele a si: - Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, - ou o que pareceu cura, não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro? E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram tão desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam. Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta ingente com o povo, podia afirmar esta verdade: - não havia loucos em Itaguaí; Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas tão depressa esta idéia lhe refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a idéia da dúvida. Pois quê! Itaguaí não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica? A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida pelos cronistas ita-guaienses como uma das mais medonhas tempestades morais que têm desabado sobre o homem. Mas as tempestades só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o trovão. Vinte minutos depois alumiou-se a fisionomia do alienista de uma suave claridade. - Sim, há de ser isso, pensou ele. Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era ilusão; mas senão homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi afirmativa. - Nenhum defeito? - Nenhum, disse em coro a assembléia. - Nenhum vício? - Nada. - Tudo perfeito? - Tudo. - Não, impossível, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade. A assembléia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador: - Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as ou tras: - a modéstia. Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato contínuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante. - A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática. - Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em lágrimas. Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade.

"Dentro de um espelho" ("V ziérkale"). BRIÚSSOV, Valiéri. http: az.lib.ru b brju-sow_w_j text_o}20.shtml - Bibliotieka Maksima Mochkova, 2005.



TRADUÇÃO DE RUBENS FIGUEIREDO Começamos dentro da normalidade, pois o que há de mais normal do que uma mulher diante de um espelho? Aliás, de vários - e "cada espelho tem seu mundo particular, próprio. Ponha dois espelhos num mesmo lugar, um depois do outro, e surgirão dois universos distintos. E em distintos espelhos à minha frente, surgiam espectros distintos, todos parecidos comigo, mas nunca idênticos entre si." O relato vai assumindo um ar de conto fantástico - como uma Alice no país dos espelhos para adultos - e no final... Poeta de grande destaque entre os simbolistas russos, Valíéri Briússov (1873-1924) foi também um expressivo contista, como atesta seu L'axe terrestre, livro de 1906 (edição francesa, de 1998, ed. Circe). É a primeira vez que Briússov sai em português e a tradução do conto "V ziérkale" foi feita diretamente do russo, por Rubens Figueiredo, para esta antologia. A narrativa, curta e densa, tem um impacto revelador. Afinal, olhar-se no espelho continuamente é apenas uma questão de identidade ou de vaidade, um ato corriqueiro e inocente, não é mesmo? A não ser que... Dentro de um espelho Do arquivo de um psiquiatra Eu gostava de espelhos desde os primeiros anos da mocidade. Ainda criança, eu chorava e tremia, ao olhar para as suas profundezas cristalina-mente verdadeiras. Na infância, minha brincadeira predileta era andar pelos quartos ou pelo jardim carregando um espelho à minha frente, olhar para o seu abismo, a cada passo ultrapassar a sua margem, sufocando de vertigem e de pavor, já mocinha, passei a encher o meu quarto de espelhos, grandes e pequenos, fiéis e ligeiramente deformados, nítidos e um pouco nebulosos. Acostumei-me a passar horas inteiras, dias inteiros, no meio de mundos en-trecruzados, que entravam uns nos outros, oscilavam, desapareciam e surgiam outra vez. Minha única paixão tornou-se devolver meu corpo a essas vastidões silenciosas, a essas perspectivas sem eco, a esses universos à parte, isolados do nosso, que, em contradição com a consciência, existiam ao mesmo tempo e no mesmo lugar que ele. Essa realidade invertida, separada de nós por uma lisa superfície de vidro e, por algum motivo, inacessível ao tato, atraía-me para si, puxava-me como um precipício, como um mistério. Também atraía-me para si o fantasma que sempre surgia à minha frente, quando eu me aproximava de um espelho e que estranhamente duplicava o meu ser. Eu tentava adivinhar em que aquela mulher se diferenciava de mim, como era possível que minha mão direita fosse nela a esquerda e que todos os dedos da mão tivessem mudado de lugar, embora em um deles estivesse exatamente o meu anel de noivado. Meus pensamentos turvavam-se quando eu tentava penetrar nesse enigma, resolvê-lo. Neste mundo onde se pode tocar em tudo, onde as vozes ressoam, vivia eu, a real; naquele mundo refletido, que só se pode contemplar, ficava ela, a espectral. Era quase como eu, e não era absolutamente eu; ela repetia todos os meus movimentos e nenhum desses movimentos coincidia com os que eu fazia. Aquela, a outra, sabia que eu não podia adivinhar, ela detinha um segredo, para sempre oculto à minha razão. Mas notei que cada espelho tem seu mundo particular, próprio. Ponha dois espelhos num mesmo lugar, um depois do outro, e surgirão dois universos distintos. E em distintos espelhos à minha frente, surgiam espectros distintos, todos parecidos comigo, mas nunca idênticos entre si. No meu pequeno espelho de mão, vivia uma garota ingênua de olhos claros, que me trazia à memória os primeiros anos da mocidade. No redondo espelho do toucador, escondia-se uma mulher que havia experimentado as mais variadas doçuras das carícias, sem pudor, livre, bela, atrevida. Na porta espelhada retangular do armário, sempre aparecia uma figura severa, autoritária, fria, de olhar implacável. Eu conhecia ainda outras sósias - no meu espelho do aparador, no tríptico dourado de vidro, no espelho suspenso na moldura de carvalho, no espelho pendurado em meu pescoço e em muitos e muitos outros que tenho guardados comigo. A todas as criaturas que neles se escondem, eu dava o pretexto e a possibilidade de manifestar-se. Devido às estranhas condições do seu mundo, tinham de assumir a imagem de quem se pusesse diante do vidro, mas, nessa aparência emprestada, conservavam seus traços pessoais. Havia mundos de espelhos de que eu gostava; havia outros que odiava. Em alguns, eu gostava de sumir durante horas inteiras, perdendo-me em suas amplidões fascinantes. De outros, eu fugia. Em segredo, eu não gostava de todas as minhas sósias. Sabia que todas me eram hostis, ainda que fosse apenas pela necessidade de revestir-se com a minha imagem, detestável para elas. Mas eu tinha pena de algumas dessas mulheres dos espelhos, perdoava-lhes o ódio, tratava-as quase com amizade. Havia outras que eu desprezava, gostava de rir da sua fúria impotente, provocava-as com a minha independência e atormentava-as com o meu poder sobre elas. Havia também outras, que, ao contrário, eu temia, que eram fortes demais e atreviam-se, por sua vez, a rir de mim, a dar-me ordens. Dos espelhos onde viviam essas mulheres, eu me apressava a livrar-me, não me olhava nesses espelhos, escondia-os, dava para alguém, ou mesmo quebrava. Porém, sempre depois de quebrar um espelho, eu não conseguia deixar de soluçar por dias inteiros, ciente de que havia destruído um universo à parte. E de dentro dos estilhaços, as faces acusadoras do mundo aniquilado fitavam-me com ar de reprovação. O espelho que se tornou fatal para mim, eu o comprei no outono, numa loja de saldos qualquer. Era um grande espelho de aparador, que girava num eixo. Impressionou-me de modo extraordinário pela clareza da imagem. Nele, a realidade espectral modificava-se à menor inclinação do vidro, mas era independente e vivaz ao extremo. Quando observei esse espelho no leilão, a mulher que nele representava a mim fitou-me nos olhos com uma expressão de desdém. Eu não queria ceder a ela, mostrar que ela me assustava - comprei o espelho e mandei pôr no meu toucador. Assim que fiquei sozinha no meu quarto, aproximei-me do espelho novo, olhei fixamente para a minha rival. Mas ela fez o mesmo e, paradas uma diante da outra, começamos a penetrar uma na outra com o olhar, como serpentes. Em suas pupilas, eu me refletia; nas minhas, ela. Meu coração parou e minha cabeça começou a rodar por causa daquele olhar insistente. Mas com força de vontade eu, enfim, desviei meus olhos dos olhos alheios, golpeei o espelho com o pé, de modo que ele cambaleou, desequilibrando lamentavelmente o espectro da minha rival, e saí do quarto. A partir desse momento, teve início a nossa luta. À noite, no primeiro dia de nosso encontro, não me atrevi a chegar perto no novo móvel, fui com o meu marido ao teatro, ri exageradamente e mostrei-me alegre. No dia seguinte, à luz clara de um dia de setembro, tomei coragem de entrar sozinha no meu toucador e, de propósito, sentei-me bem na frente do espelho. Ao mesmo tempo, aquela, a outra, também entrou pela porta, vindo ao meu encontro, atravessou o quarto e sentou-se também à minha frente. Nossos olhos encontraram-se. Eu, nos olhos dela, li um ódio por mim; ela, nos meus, um ódio por ela. Teve início o nosso segundo duelo, um duelo de olhos. De dois olhares insistentes, dominadores, hipnóticos. Cada uma empenhava-se em dominar a vontade da rival, quebrar sua resistência, forçá-la a sujeitar-se à sua vontade. E haveria de ser terrível observar as duas mulheres sentadas, imóveis, uma diante da outra, ligadas pelo influxo mágico do olhar, à beira de perderem a consciência, por força da tensão psíquica... De repente, chamaram-me. O encanto se desfez. Levantei-me, saí. Depois disso, os duelos passaram a renovar-se todos os dias. Entendi que aquela aventureira invadira de propósito minha casa para dar cabo de mim e tomar o meu lugar em nosso mundo. Mas faltavam-me forças para negar o combate. Naquela rival existia algum enlevo oculto. Na própria possibilidade de derrota, ocultava-se uma espécie de doce tentação. Por vezes, eu me obrigava a não me aproximar do aparador durante um dia inteiro, mantinha-me ocupada com trabalhos, distrações - mas no fundo da minha alma sempre se ocultava a lembrança da rival, que pacientemente e segura de si esperava minha volta para ela. Eu voltava, e ela se apresentava à minha frente, mais altiva do que antes, atravessa-me com o olhar vitorioso e cravava-me no lugar onde eu estava, à sua frente. Meu coração parava e eu, impotente de furor, sentia-me sob o poder daquele olhar... Assim passaram os dias e as semanas; nossa luta se prolongava; mas a vantagem, de forma cada vez mais segura, pendia para o lado de minha rival. E de repente, um dia, entendi que minha vontade estava submetida à vontade dela, que ela já era mais forte do que eu. O horror dominou-me. Meu primeiro impulso foi fugir de casa, partir para outra cidade; mas logo me dei conta de que seria inútil: obediente à força atrativa de uma vontade inimiga, eu, de um jeito ou de outro, voltaria para cá, para este quarto, para o meu espelho. Então surgiu uma outra idéia: quebrar o espelho, converter minha rival em nada; mas derrotá-la por meio da força bruta significava reconhecer a sua superioridade sobre mim: isso seria humilhante. Preferi ficar, para levar até o fim a luta já começada, embora a derrota me ameaçasse. Em pouco tempo, eu não tinha mais dúvidas de que minha rival estava vencendo. A cada encontro, mais e mais, concentrava-se em seu olhar um poder sobre mim. Eu perdia, pouco a pouco, a possibilidade de não me aproximar do meu espelho pelo menos uma vez ao dia. Ela me ordenava a passar algumas horas na sua frente todos os dias. Ela dirigia a minha vontade, como um magnetizador guia a vontade de um sonâmbulo. Ela dispunha da minha vida como um senhor dispõe da vida de uma escrava. Passei a cumprir o que ela exigia, tomei-me um autômato de suas imposições silenciosas. Sabia que ela, de maneira premeditada, calculada, mas inexorável, me conduzia para a minha perdição, e eu já não opunha resistência. Adivinhei o seu plano secreto: lançar-me para o mundo do espelho, enquanto ela sairia de lá para vir ao nosso mundo - mas eu não tinha forças para impedi-la. Meu marido, meus parentes, vendo que eu passava horas inteiras, dias inteiros e noites inteiras diante do espelho, achavam que eu havia enlouquecido, queriam me tratar. Mas eu não tinha coragem de lhes revelar a verdade, era-me proibido contar-lhes toda a verdade aterradora, todo o horror para o qual eu caminhava. O dia da catástrofe caiu num dos dias de dezembro que antecedem as festas de fim de ano. Lembro tudo com clareza, com todos os detalhes, com toda nitidez: nada se confundiu em minhas recordações. Eu, como de costume, fui para o meu toucador de manhã, logo no início do crepúsculo de inverno. Coloquei diante do espelho uma poltrona macia e sem encosto, sentei-me e me entreguei a ela. Sem demora, ela atendeu ao apelo, também colocou uma poltrona, também sentou e pôs-se a me olhar. Pressentimentos sombrios afligiram minha alma, todavia não estava em meu poder baixar meu rosto e eu tinha de aceitar em mim o olhar insolente da rival. Passaram-se horas, sombras pesaram. Nenhuma de nós duas acendeu a luz. O vidro brilhava de leve no escuro. Já quase não se distinguiam as imagens, mas os olhos seguros de si fitavam com a mesma força de antes. Eu não sentia raiva nem horror, como nos outros dias, só uma tristeza insaciável e o amargor da consciência de estar sob o poder de um outro. O tempo fluía e com ele eu fluía para o infinito, para a vastidão negra da impotência e da falta de força de vontade. De repente, ela, a outra, a refletida, levantou-se da poltrona. Comecei a tremer inteira, por aquela ofensa. Mas algo invencível, algo que me coagia de fora, obrigou-me a levantar também. A mulher no espelho deu um passo à frente. Eu também. A mulher no espelho estendeu as mãos. Eu também. Sempre olhando direto para mim com olhos hipnóticos e imperiosos, ela continuou a mover-se para a frente, enquanto eu ia ao seu encontro. E, que estranho: com todo o horror da minha situação, com todo o meu ódio por minha rival, em algum ponto no fundo da minha alma, palpitava um consolo horrendo, uma alegria oculta - entrar, por fim, naquele mundo secreto em que eu perscrutava desde a infância e que, até então, permanecia inacessível para mim. Por instantes, eu quase não soube quem atraía quem para si: ela a mim, ou eu a ela, se ela almejava o meu lugar, ou se eu inventara toda essa luta a fim de tomar o lugar dela. Mas quando, movendo-me para a frente, minhas mãos tocaram nas suas mãos de vidro, fiquei morta de repugnância. Ela tomou-me pelas mãos com um gesto autoritário e, já com força, puxou-me para si. Minhas mãos afundaram no espelho, como que numa água enregelada e cor de fogo. O frio do vidro penetrou no meu corpo com uma dor pavorosa, como se todos os átomos do meu ser tivessem trocado suas interligações. E no instante seguinte toquei o rosto de minha rival, vi seus olhos diante dos meus olhos, fundi-me nela com um beijo monstruoso. Tudo desapareceu num sofrimento torturante, a que nada se pode comparar - e após despertar desse desmaio, vi diante de mim o meu toucador, para o qual eu olhava, do espelho. Minha rival estava à minha frente e ria. E eu - ah, crueldade! - eu, que morria em suplício e em humilhação, eu tinha também de rir, repetindo todas as suas caretas, num riso triunfante e alegre. E mal tive tempo de compreender minha situação, quando minha rival de repente virou-se, caminhou rumo à porta, desapareceu dos meus olhos, e eu de súbito caí no estupor, na inexistência. Depois disso, teve início minha vida como reflexo. Estranha, semi-consciente, mas ainda assim uma vida misteriosamente doce. Havia muitas de nós naquele espelho, almas obscuras, consciências entorpecidas. Não podíamos falar umas com as outras, mas sentíamos a proximidade, gostávamos umas das outras. Nada enxergávamos, ouvíamos vagamente e nossa existência era semelhante à prostração causada pela impossibilidade de respirar. Só quando um ser do mundo das pessoas aproximava-se do espelho, nós, subitamente, depois de assumir sua figura, podíamos lançar um olhar para o mundo, discernir as vozes, respirar com todo o peito. Penso que assim é a vida dos mortos - a consciência obscura do seu "eu", a lembrança vaga do passado e um anseio aflitivo de, ainda que só por um instante, encarnar-se de novo, ver, ouvir, falar... E cada um de nós escondia e acalentava o sonho íntimo de libertar-se, de achar um corpo novo para si, de fugir para o mundo da constância e da estabilidade. Nos primeiros dias, sentia-me totalmente infeliz em minha nova condição. Ainda não sabia nada, não era capaz de nada. De modo obediente e absurdo, eu assumia a forma da minha rival, quando ela se aproximava do espelho e começava a rir de mim. E ela o fazia com muita freqüência. Tinha enorme prazer em exibir à minha frente sua vitalidade, sua realidade. Sentava-se e me obrigava a sentar, levantava e regozijava-se ao ver que eu levantava, abanava os braços, dançava, forçava-me a duplicar seus movimentos e gargalhava, gargalhava, para que eu também gargalhasse. Gritava-me no rosto palavras ofensivas, mas eu não podia responder-lhe. Ameaçava-me com o punho e escarnecia de meu gesto repetido à força. Dava-me as costas e eu, perdendo a visão, tomava consciência de toda a vergonha daquela existência pela metade que me restava... E depois, de repente, com um golpe, ela virava o espelho para trás, girando-o no seu eixo lateral, e com o impulso me atirava na completa inexistência. Porém, aos poucos, as ofensas e as humilhações despertaram em mim a consciência. Entendi que minha rival agora vivia a minha vida, fazia uso de minhas roupas, considerava-se esposa do meu marido, ocupava o meu lugar no mundo. Um sentimento de ódio e uma sede de vingança nasceram na minha alma, como duas flores de fogo. Passei a me maldizer amargamente por haver permitido, por fraqueza ou por uma curiosidade criminosa, que ela me derrotasse. Cheguei à convicção de que aquela aventureira jamais teria triunfado sobre mim se eu mesmo não a ajudasse em suas maquinações. E assim, já um pouco adaptada às condições da minha nova existência, resolvi travar contra ela o mesmo combate que ela travava contra mim. Se ela, uma sombra, tinha sido capaz de tomar o lugar de uma mulher real, será que eu, uma pessoa, apenas temporariamente transformada em sombra, não poderia ser mais forte do que um espectro? Comecei bem de longe. Primeiro, pus-me a fingir que as caçoadas da minha rival atormentavam-me de modo cada vez mais insuportável. Oferecia-lhe de propósito todas as delícias da vitória. Provocava nela os instintos secretos de um carrasco, fazendo-me passar por uma vítima prostrada. Ela não resistiu a esse chamariz. Deixou-se arrebatar por esse jogo comigo. Esbanjou sua imaginação, inventando novas torturas para mim. Engendrou mil astúcias para, vezes e mais vezes, mostrar-me que eu era só um reflexo, que eu não tinha a sua vida. Ora ela tocava piano na minha frente, atormentando-me com o silêncio do meu mundo. Ora, sentada diante do espelho, sorvia em pequenos goles meus licores preferidos, forçando-me a apenas fazer de conta que eu também bebia. Ora, enfim, trazia para o meu toucador pessoas odiosas para mim e, diante do meu rosto, oferecia o corpo aos seus beijos, permitindo-lhes pensar que me beijavam. E depois, ao ficar sozinha comigo, ela gargalhava num riso malévolo e triunfante. Mas aquele riso já não me feria; no seu gume, havia uma doçura: a minha espera de vingança! Sem que ela notasse, nas horas de seus insultos contra mim, eu habituava minha rival a fitar-me nos olhos, apoderava-me gradualmente do seu olhar. Em pouco tempo eu já podia, pela minha vontade, obrigá-la a erguer e baixar as pálpebras, fazer este ou aquele movimento com o rosto. Eu já começava a vencer, embora ocultasse meu sentimento simulando um sofrimento pessoal. A força da alma crescia em mim e eu atrevia-me a dar ordens à minha inimiga: hoje você vai fazer isso e aquilo, hoje você vai a tal lugar, amanhã virá me ver a tal hora. E ela obedecia! Eu enredava sua alma nas malhas dos meus caprichos, urdia um fio firme no qual prendia a sua vontade, regozijava-me em segredo, comemorava os meus êxitos. Quando ela, certa vez, na hora da sua gargalhada, captou de repente em meus lábios um sorrisinho vitorioso que não consegui ocultar, já era tarde. Enfurecida, saiu correndo então do quarto, mas eu, ao recair no sono da minha inexistência, sabia que ela ia voltar, sabia que ia sujeitar-se a mim! O êxtase da vitória pairava sobre a minha impotência carente de vontade e, irisado em forma de leque, cortava as trevas da minha morte fictícia. Ela voltou! Em cólera e pavor, caminhou ao meu encontro, gritou comigo, ameaçou-me. Eu lhe dei ordens. E ela teve de obedecer. Iniciou-se um jogo de gato e rato. A qualquer hora, eu podia atirá-la de novo para as profundezas do vidro e sair de novo para a realidade ruidosa e sólida. Ela sabia que isso estava em meu poder e tal consciência atormentava-a em dobro. Mas eu me demorava. Era doce, para mim, acalentar por alguns momentos a inexistência. Era doce para mim inebriar-me com a possibilidade. Afinal (é estranho, não é verdade?), despertou de repente em mim uma pena da minha rival, da minha inimiga, do meu carrasco. Apesar de tudo, havia nela algo meu e eu temia arrancá-la da vida real e transformá-la num fantasma. Eu hesitava e não tomava coragem, eu protelava dia após dia, eu mesma não sabia o que eu desejava e o que eu temia. De súbito, num claro dia de primavera, entraram no toucador homens com tábuas e machados. Em mim, não havia vida, eu jazia num torpor voluptuoso, porém, mesmo sem enxergar, entendia que eles estavam aqui. Os homens começaram a se agitar em volta do espelho, que era todo o meu universo. E, uma após a outra, as almas que o povoavam junto comigo despertavam e assumiam uma carne espectral em forma de reflexo. Uma inquietação terrível começou a sacudir minha alma sonolenta. Pressentindo o horror, já pressentindo a perdição irremediável, reuni todo o vigor da minha vontade. Que esforço me custou combater o langor da semi-existência! Assim as pessoas vivas às vezes lutam contra um pesadelo, para escapar de suas algemas espirituais e seguir rumo à realidade. Eu concentrava todos os meus poderes de sugestão num apelo, dirigido a ela, a minha rival: "Venha para cá!" Eu a hipnotizava, a materializava com toda a energia da minha vontade sonolenta. Mas o tempo era pouco. Já estavam balançando o espelho. Já se preparavam para pregá-lo dentro de um caixão feito de tábuas, a fim de transportar: para onde, não se sabia. E então, quase num ímpeto mortal, eu chamei de novo, e chamei: "Venha!..." E de repente senti que revivia. Ela, a minha inimiga, abriu a porta e, pálida, semimorta, caminhou ao meu encontro, ao meu apelo, a passos titubeantes, como se fosse para o suplício. Agarrei seus olhos nos meus olhos, amarrei meu olhar no seu olhar, e depois disso já sabia que a vitória seria minha. Sem demora, obriguei-a a mandar aquela gente sair do quarto. Ela obedeceu, não fez sequer uma tentativa de se opor. Ficamos de novo as duas sozinhas. Não era mais possível adiar. E eu não podia perdoar a sua perfídia. No lugar dela, no meu tempo, eu me comportava de outra forma. Agora, ordenei-lhe impiedosamente que viesse ao meu encontro. Um gemido de tortura abriu seus lábios, os olhos dilataram-se, como que diante de um fantasma, mas ela andava, cambaleando, caindo - andava. Eu também andava ao seu encontro, com os lábios torcidos de triunfo, com os olhos muito abertos de alegria, oscilando numa euforia inebriante. De novo, nossas mãos entraram em contato, de novo nossos lábios aproximaram-se, e tombamos uma dentro da outra, queimadas pela dor indescritível da reencarnação. Após um instante, eu já estava diante do espelho, meu peito encheu-se de ar, gritei alto e triunfante e desabei ali mesmo, na frente do aparador, abatida pelo esgotamento. Meu marido veio correndo na minha direção. Só consegui dizer que cumprissem minha ordem anterior, levassem aquele espelho embora da casa, para longe, para sempre. Foi muito bem pensado, não é verdade? Pois aquela, a outra, podia tirar proveito da minha fraqueza nos primeiros minutos do meu regresso à vida e, numa arremetida desesperada, tentar tomar de minhas mãos a vitória. Ao fazer que retirassem de casa o espelho, eu me proporcionava um tempo longo, um tempo duradouro, de tranqüilidade, enquanto minha rival recebia o castigo merecido pela sua perfídia. Eu a golpeei com a sua própria arma, com a lâmina que ela mesma erguera contra mim. Uma vez cumprida a ordem, perdi a consciência. Deitaram-me na cama. Chamaram o médico. Uma febre nervosa tomou conta de mim, por causa de tudo o que eu havia passado. As pessoas próximas havia muito que me consideravam doente, anormal. Num primeiro ímpeto de júbilo, não me precavi e contei a todos o que acontecera comigo. Meus relatos apenas corroboraram suas suspeitas. Mandaram-me para uma clínica psiquiátrica, onde hoje me encontro. Todo o meu ser, eu concordo, ainda está profundamente abalado. Mas não quero ficar aqui. Tenho ânsia de voltar para as alegrias da vida, para todas as inumeráveis volúpias, acessíveis a uma pessoa viva. Já fui privada delas por tempo demais. Além disso - será que devo contar? -, tenho um assunto que preciso resolver a todo custo, o mais depressa possível. Não devo duvidar de que sou esta - eu. No entanto, quando começo a pensar naquela que está reclusa no meu espelho, uma estranha hesitação começa a me envolver: e se eu, a autêntica, estiver lá? Então eu mesma, eu que penso isto, eu que escrevo isto, eu sou uma sombra, eu sou um espectro, eu sou um reflexo. Apenas transfun-diram-se para dentro de mim as recordações, os pensamentos e os sentimentos daquela, da minha outra, da verdadeira. E na realidade fui atirada para o fundo do espelho, para a inexistência, e languesço, definho, morro. Sei, quase sei, que isso não é verdade. Mas, para dissipar as últimas nuvens de dúvida, devo, de novo, uma vez mais, pela última vez, olhar para aquele espelho. Preciso observá-lo mais uma vez, para convencer-me de que lá está a impostora, a minha inimiga, que representou o meu papel durante alguns meses. Verei isso e toda a perturbação da minha alma vai se desfazer e ficarei de novo despreocupada, serena, feliz. Onde está aquele espelho, onde o encontrarei? Preciso, preciso mais uma vez lançar meus olhos nas suas profundezas. (1903)

"No quadrado de Joana". CANÇADO, Maura Lopes. O sofredor do ver. Rio de Janeiro: José Álvaro Editor, 1968.



Hospício é Deus foi colocado à altura de Clarice Lispector, que aliás a admirava. Escreveu também O sofredor do ver - um dos melhores que já li em minha vida." A opinião é de Carlos Heitor Cony sobre esta escritora de uma trajetória pessoalíssima e marcante na história da literatura brasileira recente: Maura Lopes Cançado (1929-1993). Ela teve uma vida tumultuada, de jovem da alta sociedade de Belo Horizonte, que, muito moça, chegou a ser aviadora; por ser "avançada", acabou sendo rejeitada pela "tradicional família mineira", passando a uma existência precaríssima e fatal no Rio de Janeiro. Diagnosticada como esquizofrênica, Maura conheceu internações - de uma delas deixou um diário romance de leitura obrigatória que é Hospício é Deus -, viveu em, digamos, pardieiros no bairro da Glória; foi presa por ter matado uma pessoa em uma das suas crises (tive oportunidade de visitá-la na penitenciária feminina da Frei Caneca); conviveu com os escritores que faziam o "Suplemento Dominical do Jornal do Brasil" nos anos 1950 60, em sua fase áurea (e com o qual colaborou). Morreu cedo, publicou pouco. Além do livro citado, o pequeno volumes de contos O sofredor do ver, de onde extraímos "No quadrado de Joana", um conto aliás que tem a rara perspectiva de mostrar a doença de dentro, isto é, escrita por uma... "doente" e não por um escritor "normal" devidamente distanciado do seu tema. Maura está à espera de um revival. Em tempo: nos anos 1960, perderam-se para sempre os originais de mil páginas da continuação de seu diário, que ela havia entregue (sem cópia, ao que parece) ao então editor José Álvaro. Deixou inéditos na imprensa. Para Carlos Lemos Marcha completando o pátio, o fim da linha sendo justamente princípio da outra, sem descontinuidade, quebrando-se para o ângulo reto. Não cede um milímetro na posição do corpo, justo, ereto. Porque Joana julga-se absolutamente certa na nova ordem. Assim, anda de frente, ombro direito junto à parede. Teima em não flexionar as pernas, um passo, outro e mais, as solas dos pés quentes através do solado gasto. Agora o rosto sente a quentura do muro, voltado inteiramente, quase roçante até o fim da linha; onde junta ombro esquerdo e marcha de costas, na retidão da parede. Finalmente acha-se na metade da quarta vez, todo o pátio contido no âmbito do olhar parado. Anda certo, costas deslizantes como lâminas, na proteção do seu tempo: o muro. Repete sentindo a certeza da quarta vez. Mais e mais - porque cumpre um dever. Quantas vezes Joana marcha rigidamente de ângulo a ângulo? Ninguém sabe. Nem Joana. Vê-se parada imaginando o quadrado das horas. Isto vem justamente aliviá-la da sensação incômoda de que um corpo redondo ilumina o pátio. Retesa-se, ajustando-se no espaço certo - fora de perigo. Perfeitamente integrada. Em forma. Uma pausa completa. Como na pedra. Joana imóvel, quadriculada no pano do vestido, marcando um tempo ainda imarcado porque novo. Um novo tempo: nascido duro, sofredor. O quadrado das horas. No meio do pátio, imóvel obedecendo a ordem. Não sabe porquê, a palavra meio salta-lhe morna, insinuante como ameaça remota. Um orifício no muro: meio de fuga. Para onde e por quê? Deve ter ouvido isto. Ela não se desviaria tanto da lógica, mesmo pensando num momento de descuido, e a lógica está no quadro. Precisa pensar certo. Joana não poderia deixar-se trair. Entanto não conhece régua que lhe permita certificar-se da justeza, da retidão das palavras. Há, no verbo precisar, uma denúncia de falta que vagamente percebe, isto é ameaça. Não poderia admitir, contrariando sua posição na vida, como o verbo poder, naquele tempo, fere sua época. Época de Joana. Não lhe foi dada ainda uma linguagem adequada e não consegue pensar sem palavras. Sente-se incompleta, sem os instrumentos necessários. Não pensar, em posição de sentido, é a ordem por enquanto. E Joana enquadra-se no momento. Plana-lisa-justa. Um marco no novo tempo. Cumprindo um dever, fortalecida e distanciada das curvas, o pensamento quadrado no ar, quase sólido, e o olhar, reto como lâmina, sofrendo o impacto, voltando e enquadrando-se nos olhos impossíveis. Joana está certa no plano vertical. Só ela compreende a grande significação disto. Imóvel, poupando o corpo, principalmente o rosto, que sente duro na parte inferior sustentando o quadro. Não deve mutilar-se na lisura da curva. Não deve perder a forma. Mas a impertinência do seu nome é uma realidade, e Joana escuta-o, sentindo-se gelar nos ângulos, pontos vulneráveis. Procura a proteção do novo tempo e sem pensar, anda de costas dois passos, sofrendo as modulações das vozes que, como num espelho, mostram-se refletidas no corpo de Joana. Como um espelho o corpo reflete sem aberturas. Na perfeição do quadro sente-se ainda sensível ao formigamento que a rodeia. A futilidade das coisas irrita até o muro de pedra. Joana acredita no que é e na certeza do seu tempo. Está só, no quadro ainda infecto de moscas e serpentes ondeadas. Dançam ao seu redor e Joana não tem palavras. No tempo quadrado vive-se sem elas na perfeição das coisas. Mas a dança dos sons é a característica fútil de um subtempo e ela não deve perder-se. Joana teme a roda que ameaçou mostrar-se nos rostos redondos, fitando-a. Concentra-se nas linhas certas do seu próprio rosto e vê-se refletida no muro cinzento: Uma nova figura. Um destino. Nasceu inaugurando um tempo. É o marco da nova'época. Entretanto um milímetro de desatenção pode levar-lhe os olhos a rotações incalculáveis, catastróficas. Pode até cair numa espiral e, em ascensão, transformar-se num ponto irritante como a cabeça de um alfinete. Luta para manter-se enquadrada na hora, o pensamento liso à espera da forma de expressão: uma nova linguagem. Fugindo às palavras pensa em números certos: 44, 77. Desenha-os mentalmente no muro para sua sobrevivência, até que estremece no número 60. Ah!, o número 60 se aproxima qual cobrinha traiçoeira: o círculo, as curvas. Uma áspi-de. Também os números têm nome. Sessenta soa perigoso, ondulante. Figuras sinuosas passeiam no âmbito de sua visão quadrada. Não procura vê-las. Impõem-se impertinentes formando uma quase culpa para Joana que nasceu sem lembranças. Estas chegariam incompletas e isso é outro mundo. A pedra não repele os flocos fúteis de neve. Apenas pedra é pedra. Mas pessoas são como moscas, tentando atrair atenção, fazendo dançar e correr o risco de quebrar-se nas curvas, caindo esfacelada, sem significação. Joana ignora propositadamente a curva de uma folha banal perto de seus pés. Esqueceu as flores, espera sons rápidos, geométricos, para se fazer entender. Vagamente tem noção das figuras incomodativas, ondeadas de banalidades que tentam atrair-lhe atenção. Não cede um milímetro para não desmoronar-se. Deve sobreviver. Alarmada sente o suor correr-lhe pela testa em linha reta. Uma intermitência, o ponto trazendo-lhe o caos. Não. Não admite bagas de suor. Haverá, sim, uma linha reta até o solo, subindo imediatamente evaporada. Uma pocinha seria seu afogamento. Foge do círculo. Mas a linha é formada por pontos. Não no seu tempo; raciocina rápido, quadrando o pensamento. À Joana não é também permitido sentir-se alarmada. O alarma começa de um ponto, significativo ou consciencioso, atingindo num crescendo o grau de alerta ou alarma? Alarma pode surgir como numa tela de cinema, de repente? Joana não sabe. Ha!, como faltam instrumentos. Muitas danças numa banalidade sônica. Entretanto escutou, quase se contorcendo. Não pode responder que não possui ainda meios de expressão. Que fazer para explicar que se acha enquadrada num novo e perfeito tempo? Não pode sequer dar meia volta. Deve poupar-se conservando a forma. Não há como fugir. Ainda assim, para sua sobrevivência, será necessário explicar o que só a ela é permitido compreender. Puseram-na quadrada, certa, objetiva, no tempo novo, forte, mas ameaçado até por flores. Sim, Joana será vencida na curva de uma pétala. A palavra beleza, levada a sério, pode desconjuntá-la. E nuances, mesmo de cores, ou principalmente de cores, seriam sua perdição. Tenta ainda ignorar os sons inúteis. Mais um pouco e fica livre de pensamentos, na hora quarta do novo tempo. É aí que Joana inveja a estátua, imóvel há muitos anos. Não sabe que estátua e perdeu a contagem dos anos. Também com a nova ordem não há concessão. A realidade é o quadrado do pátio ainda cheio de moscas e serpentes ondeadas. A realidade é o perigo de ser levada para a cama. A realidade é a pedra. Joana pode dependurar a hora na parede e acrescentar realidade a isto. Foi feita certa, no tempo certo do mundo novo. Qualquer desvio lhe é proibido. Haverá a nova língua que a dança dos sons talvez esteja impedindo de se formar. Joana é grande e teme um laço de fita cor-de-rosa. Não deve ferir-se nas curvas ou deixar-se mutilar. Está sozinha no novo tempo. Só ela o conhece e às suas regras. Não deseja nem pode sair dele. Também, nunca poderá deitar-se, o que significa cair escombrada num monte. Tenta observar regras absolutamente certas mas não compreendidas. Joana está só. Qualquer inclinação será o encontro da curva e Joana não passará deste plano para o horizontal sem vergar-se, perdendo-se. Decididamente não lhe é permitido deitar-se. Antevê-se amassada e, junto a outros ingredientes, aproveitada numa construção. Será seu destino se for para a cama. Sentir os membros distantes, dentes opacos, pé no terceiro andar, e a boca no ângulo direito da porta principal. Os olhos sim, estes verão as noites, enquadrados no azulejo frente à janela do banheiro. Na melhor das hipóteses Joana ficará no arranha-céu, sem a marcha, que ainda lhe é permitida. E nem haverá esperança da nova linguagem, tendo a boca fixa. Joana não pode, não deve deixar-se perder. - Joana. Movem-se ao seu redor. Sente que querem forçá-la. Joana, sem se virar, marcha de costas dois passos, para sentir-se hirta, ainda antes da queda. Não sabe onde estão os olhos teimosos, olhando. Sabe-se desmoronada, sem salvação, ferida de morte. Mais que isto, ruída. Joana ruiu. Os olhos enfrentam rostos impacientes. Paira no ar uma palavra nova: Catatônica Joana gostaria de medi-la: CA-TA-TÔ-NI-CA Pensa desesperada: será o início da nova língua, agora que estou desmoronada?

LOUCURA E TESTEMUNHO "Duas cartas a Théo". GOGH, Vincent van. The Complete Letters ofVincent van Cogh. Bulfinch, 1991.

Loucura e testemunho

Cartas a Theu de Vincent Van Gogh.



TRADUÇÃO DE MARIA LUIZA X. DE A. BORGES A genialidade que o holandês Van Gogh (1853-1890) revelou ao mundo post-mortem contrasta brutalmente com os sofrimentos e a miserabilidade que experimentou em vida. Na verdade, uma vida que teve seu ponto mais dramático no episódio de agressão física a seu amigo Gauguin e - depois de cortar a própria orelha - na internação no hospício. ("O álcool foi sem dúvida uma das principais causas da minha loucura", escreveu ele.) Aconteceu em Aries, região Provence-Alpes-Côte d'Azur da França, onde Van Gogh tinha ido morar, em busca de luz e cores ideais para a sua arte. As famosas cartas ao irmão-protetor, Cartas a Théo (de onde extraímos as cartas seguintes), contam grande parte de sua vida. Internado em Aries (no prédio onde funciona hoje o Centro Internacional de Tradutores), e em seguida em Saint-Paul-de-Mausole, numa clínica particular do Dr. Peyron, perto de Saint-Rémy, ele segue depois para Auvers-sur-Oise, onde morava o "amigo dos artistas" Dr. Gachet, um "retrato" famoso de Van Gogh. No entanto, a vida, como ele diz, "lhe escapa" - e no dia 27 de julho dá um tiro no peito. Morre dois dias depois. O escritor alemão Hugo von Hoffmannsthal, diante do espanto de sua obra, escreveria, em igoi: "Me senti como que assaltado pelo milagre incrível de sua forte e violenta existência... Cada árvore, cada pedaço de terra amarela ou verdejante, cada sebe viva, a tigela na terra, a mesa, a cadeira rústica, saindo do espantoso caos da não-vida, do abismo do não-ser e eu sentia - não, eu sabia que cada uma destas criaturas nascera de uma dúvida horrível que despertava o mundo inteiro, que sua existência era testemunho eterno do odiosos abismo do nada... Eu sentia em tudo a alma daquele que fizera tudo isso, que com esta visão dava uma resposta para se libertar do espasmo mortal de uma dúvida espantosa." Só a posteridade lhe fez justiça, com o esplendor de seus quadros se impondo às imagens da loucura, com seus belíssimos girassóis sobressaindo à lembrança de sua orelha cortada. Hoje, o mundo sabe disso. (Mas será que sabe?) Aries, 19 de março de 1889 Meu querido irmão, Pareceu-me ver tanta ansiedade fraterna em sua bondosa carta que penso ser meu dever romper meu silêncio. Escrevo-lhe em plena posse de minhas faculdades e não como um louco, mas como o irmão que você conhece. Esta é a verdade. Certo número de pessoas aqui (foram mais de 80 assinaturas) enviou uma petição ao prefeito (acho que ele se chama sr. Tardieu), apontando-me como um homem sem condições de estar em liberdade, ou algo parecido. O comissário de polícia ou comissário-chefe deu então ordem para me trancafiarem de novo. Seja como for, cá estou, preso numa cela todo santo dia, sob sete chaves e enfermeiros, sem que minha culpa tenha sido provada ou mesmo seja passível de prova. É desnecessário dizer que no meu foro íntimo tenho muito que retrucar a tudo isso. É desnecessário dizer que não posso me zangar, pois este me parece ser um caso de qui s'excuse s'accuse. Só para que você saiba que, quanto a me libertar - veja bem, não peço isso, pois estou convencido de que toda a acusação será reduzida a nada -, mas digo-lhe que, quanto a me libertar, você acharia difícil. Se eu não contivesse minha indignação, seria considerado de uma vez um lunático perigoso. Vamos ter esperança e paciência. Aliás, emoções fortes só podem agravar o meu caso. É por isso que lhe peço que, por enquanto, deixe as coisas como estão, sem interferir. Tome como uma advertência minha que isso só poderia complicar e confundir as coisas. Ainda mais porque você há de compreender que, embora eu esteja absolutamente calmo no presente momento, posso, com muita facilidade, recair num estado de superexcitação por causa de novas emoções morais. Assim, você entende que tremendo soco no peito foi ver que há tantas pessoas aqui covardes o bastante para se unirem contra um único homem, e um homem doente. Muito bem - isto para o seu governo; no que diz respeito ao meu estado mental, estou muitíssimo abalado, mas recupero uma espécie de calma apesar de tudo, de modo a não me irritar. Além disso, a humildade me convém após a experiência dos repetidos ataques. Por isso estou sendo paciente. O principal, nunca é demais lhe dizer isto, é que você também mantenha a calma e não deixe que nada o perturbe em seus negócios. Depois do seu casamento poderemos esclarecer tudo isto, e por enquanto eu lhe peço que me deixe aqui sossegado. Estou convencido de que o prefeito, bem como o comissário, é na verdade amigável, e que eles farão o possível para resolver tudo isto. Aqui, exceto pela liberdade e exceto por muitas coisas que eu poderia desejar que fossem diferentes, minha situação não é das piores. Além disso, eu disse a eles que não estávamos em condições de arcar com as despesas. Não posso me mudar sem despesas, e já faz três meses que não trabalho, e veja, eu poderia ter trabalhado se eles não tivessem me exasperado e importunado. Como vão a mãe e a irmã? Como não tenho mais nada para me distrair - eles me proíbem até de fumar, embora os outros pacientes tenham permissão para fazê-lo -, passo os dias e as noites inteiras pensando em todas as pessoas que conheço. É uma pena - e tudo isso, por assim dizer, em vão. Não vou negar que teria preferido morrer a causar e sofrer tanto transtorno. Bem, bem, sofrer sem se queixar é a única lição que se precisa aprender nesta vida. Agora, com tudo isso, se eu tiver que retomar meu trabalho de pintar, naturalmente preciso de meu ateliê, e de alguns móveis, e claro que não temos como substituí-los em caso de perda. Você sabe que meu trabalho não permite que eu seja reduzido a morar em hotéis de novo. Preciso ter meu próprio nicho permanente. Se esses sujeitos aqui protestam contra mim, eu protesto contra eles, e a única coisa que eles têm de fazer é me indenizar por perdas e danos amigavelmente, em suma, só precisam me pagar o que perdi por causa de seus erros e ignorância. Caso - digamos - eu ficasse definitivamente insano, e sem dúvida não digo que isso seja impossível, deveria de todo modo ser tratado de maneira diferente, e gozar de ar fresco, e do meu trabalho etc. Nesse caso, palavra, eu me conformaria. Mas não chegamos a isso, e se eu tivesse tido paz, teria me recuperado há muito tempo. Importunam-me por causa do meu jeito de fumar e de comer, mas de que adianta? Afinal, com toda a sua sobriedade, eles só me causam novos tormentos. Meu querido menino, o melhor que podemos fazer talvez seja rir de nossos pequenos sofrimentos e, de certo modo, dos grandes sofrimentos da vida humana também. Suporte tudo como um homem, vá direto à sua meta. Na sociedade atual, nós artistas não passamos de jarros vazios. Gostaria tanto de poder lhe mandar minhas telas, mas estão todas sob sete chaves, guardadas pela polícia e por vigias. Não tente me libertar, isso se resolverá por si, mas avise ao Signac1 para não se meter, pois ele estaria enfiando a mão num vespeiro - não até que eu volte a escrever. Aperto sua mão em pensamento. Dê lembranças minhas à sua noiva, à mãe e à irmã. Sempre seu, Vincent 1. Théo ouvira Signac dizer que estava indo para o Sul e lhe pedira que fosse visitar Vincent.

Vou ler esta carta como está para sr. Rey, que não é responsável, pois ele mesmo estava doente. Sem dúvida ele lhe escreverá também. Minha casa foi fechada pela polícia. Se, no entanto, você não tiver tido notícias minhas por um mês a partir de agora, tome providências, mas enquanto eu continuar escrevendo, espere. Tenho uma vaga lembrança de uma carta registrada enviada por você pela qual quiseram me fazer assinar, mas que eu não quis receber por causa do rebuliço que criaram em torno da assinatura, e não ouvi mais falar dela desde então. Explique ao Bernard que não tive condições de lhe responder. É uma grande dificuldade escrever uma carta, há tantas formalidades agora como se a gente estivesse na prisão. Diga-lhe para se aconselhar com Cauguin, mas dê-lhe um aperto de mão por mim. Mais uma vez, lembranças para sua noiva e Bonger. Eu preferiria não lhe ter escrito ainda, por medo de arrastá-lo para isso e perturbá-lo no que tem pela frente. As coisas vão se resolver, tudo isto é idiota demais para durar. Eu esperara que o sr. Rey viesse me ver, de modo que eu pudesse conversar com ele de novo antes de enviar esta carta, mas embora eu tenha mandado lhe dizer que estou à sua espera, ninguém apareceu. Peço-lhe mais uma vez que tenha cautela. Você sabe o que significa procurar as autoridades civis com uma queixa. Pelo menos espere até depois de ter ido à Holanda. Eu mesmo receio bastante que, se estivesse lá fora em liberdade, nem sempre conseguiria me controlar se provocado ou insultado, e nesse caso eles poderiam tirar proveito disso. O fato é que uma petição foi enviada ao prefeito. Respondi sem rodeios que estava inteiramente disposto, por exemplo, a me jogar na água se isso fosse contentar aquela boa gente de uma vez por todas, mas que de todo modo, se eu de fato infligira um ferimento a mim mesmo, não havia feito nada desse tipo com eles etc. Por isso anime-se, embora eu mesmo às vezes perca a coragem. Pois sua vinda neste momento, sinceramente, precipitaria tudo. Eu vou me mudar, é claro, assim que souber como isso será possível. Espero que esta o encontre bem. Não tenha medo de nada, estou muito calmo agora. Deixe-os em paz. Talvez seja bom que você escreva mais uma vez, mas nada além disto por enquanto. Se eu tiver paciência, isto só poderá me fortalecer, deixando-me menos sujeito a sofrer uma recaída. É claro que, como eu realmente fizera o possível para ser afável com as pessoas, e não desconfiava de nada, isso tudo, com mais razão ainda, foi um golpe duro. Adeus, meu querido menino, por pouco tempo, eu espero, e não se preocupe. Talvez seja uma espécie de quarentena que estão me impondo, por tudo que sei. Aries, 24 de março de 1889 Meu querido Théo, Escrevo-lhe para lhe dizer que estive com Signac, e isso me fez um bem enorme. Ele foi tão bom, franco e simples quando o problema de abrir a porta à força ou não se apresentou - a polícia havia trancado a casa e arrebentado a fechadura. A princípio não queriam nos deixar fazer isso, mas mesmo assim acabamos entrando. Dei-lhe de lembrança uma natureza-morta que havia incomodado os bons gendarmes da cidade de Aries, porque representava dois arenques defumados, e, como você sabe, eles, os gendarmes, são chamados assim. Como você se lembra, fiz essa mesma natureza-morta duas ou três vezes em Paris, e troquei uma delas por um tapete nos velhos tempos. Isso basta para lhe mostrar como essas pessoas são intrometidas e idiotas. Signac me pareceu muito calmo, embora digam que é tão violento; deu-me a impressão de uma pessoa equilibrada, é isso. Raramente ou nunca tive com um impressionista uma conversa tão livre de discórdias ou conflito de parte a parte. Por exemplo, ele foi visitar Jules Dupré, a quem admira. Sem dúvida você contribuiu para que ele viesse levantar meu moral um pouco, e eu lhe agradeço por isso. Aproveitei minha saída para comprar um livro, Ceuxde Ia Clébe, de Camille Lemonnier. Devorei dois capítulos -tem tanta solenidade, tanta profundidade! Aguarde até que eu o mande para você. Esta é primeira vez em vários meses que tenho um livro nas mãos. Isso significa muito para mim e contribui consideravelmente para me curar. No total, tenho muitas telas para lhe mandar, como Signac pôde ver; ele não ficou horrorizado com a minha pintura, até onde eu ; percebi. Signac achou, e é a pura verdade, que eu parecia saudável. Com isso, sinto vontade e inclinação para trabalhar. Mesmo assim, é claro, se eu tivesse de suportar interferências no meu trabalho e na minha vida privada a cada dia pelos gendarmes e pelos desocupados peçonhentos desses eleitores municipais, a fazer petições ao prefeito que eles mesmos elegeram, e que conseqüentemente depende de seus votos, seria simplesmente humano que eu sofresse uma recaída completa de novo. Tendo a pensar que Signac lhe dirá mais ou menos a mesma coisa. Na minha opinião, devemos nos opor firmemente à perda dos móveis etc. Depois - meu Deus -, preciso ter liberdade para exercer o meu ofício. O sr. Rey diz que em vez de comer o suficiente e em horas regu-lares, eu me mantinha à base de café e álcool. Admito tudo isso, contudo, a verdade é que para atingir a alta nota amarela que atingi no verão passado, eu realmente precisava estar bastante estimulado. E que, afinal de contas, um artista é um homem com um trabalho a fazer, e não é possível que o primeiro desocupado que aparece possa esmagá-lo para sempre. Devo sofrer prisão ou hospício? Por que não? Acaso Rochefort, Hugo, Quinet e outros não deram um exemplo eterno, submetendo-se ao exílio, e o primeiro até a um presídio? Mas quero dizer apenas que isso é algo acima da mera questão de doença e saúde. Naturalmente, a pessoa fica fora de si em casos semelhantes. Não digo equivalentes, estando num plano muito inferior e secundário ao deles, mas digo semelhantes. E essa foi a primeira e a última causa da minha perturbação. Você conhece aquelas palavras de um poeta holandês: "Ik bem aan á'aard gehecht met meer dan aardse banden"}2 Foi isso que experimentei em meio a muito sofrimento - acima de tudo - em minha chamada doença mental. Infelizmente tenho uma profissão que não conheço bem o bastante para me exprimir como gostaria. Detenho-me aqui de repente, por medo de uma recaída, e passo para outro assunto. Antes de partir, você poderia me enviar 3 tubos branco de zinco 1 tubo mesmo tamanho colbalto i tubo mesmo tamanho ultramar 4 tubos mesmo tamanho verde-malaquita 1 tubo mesmo tamanho verde-esmeralda 1 tubo mesmo tamanho laranja de chumbo Isto para o caso - bastante provável se eu encontrar uma maneira de recomeçar meu trabalho - de eu voltar a trabalhar em breve nos pomares. Ah, se pelo menos nada tivesse acontecido para atrapalhar a minha vida! Vamos pensar bem antes de ir para outro lugar. Como você vê, eu não tenho mais sorte no Sul do que no Norte. É mais ou menos a mesma coisa em toda parte. Estou pensando em aceitar de coração aberto o meu papel de louco, assim como Degas desempenhou o papel de um notário. Mas a verdade é que não sinto que, afinal de contas, tenha força suficiente para semelhante papel. Você me fala do que chama "o verdadeiro Sul". A razão por que nunca irei para lá está acima. Deixo isso com justiça para homens que tenham uma mente mais equilibrada, mais integridade que eu. Só sirvo para alguma coisa intermediária, de segunda classe e modesta. Por mais intensos que meus sentimentos possam ser, ou qualquer que seja o poder de expressão que eu possa adquirir numa idade em que as paixões tenham arrefecido, eu jamais seria capaz de erigir uma estrutura imponente sobre um passado tão bolorento, tão despedaçado. De modo que me é mais ou menos indiferente o que possa me acontecer- mesmo minha permanência aqui -, penso que no fim meu destino se equilibrará. Por isso, cuidado com impulsos repentinos - como você vai se casar e eu estou ficando velho, essa é a única política que nos convém. Adeus por ora, não demore muito a me escrever e acredite-me, depois de lhe pedir que dê minhas lembranças à mãe, à irmã e à sua noiva, seu irmão que muito o estima, Vincent Vou mandar o livro por Camille Lemonnier brevemente.

aris, C. 21 de abril de 1889 Meu caro Théo, Você provavelmente já terá voltado a Paris quando esta carta chegar. Desejo a você e à sua mulher muita felicidade. Agradeço-lhe muito por sua bondosa carta e pela nota de 100 francos que ela continha. Dos 65 francos que devo, paguei apenas 25 francos para meu senhorio, tendo tido de pagar três meses de aluguel antecipadamente por um quarto em que não vou morar, mas para onde mandei minha mobília, e além disso tive despesas de cerca de 10 francos para me mudar etc. Depois, como minhas roupas não estavam em condições muito brilhantes, e precisei de alguma coisa nova para sair à rua, comprei um terno por 35 francos e gastei 4 francos com seis pares de meia. Assim, só me sobram da nota uns poucos francos e no fim do mês terei de pagar meu senhorio de novo, embora possa deixá-lo alguns dias esperando. Paguei minha conta no hospital hoje, e ainda há quase o suficiente para o resto do mês do dinheiro que ainda tenho depositado. No fim do mês eu gostaria de ir para o hospital em Saint-Rémy, ou outra instituição desse tipo, de que o sr. Salles me falou. Perdoe-me se não entro em detalhes e discuto os prós e os contras de tal passo. Falar sobre isso seria uma tortura mental. Será suficiente, espero, se eu lhe disser que me sinto inteiramente incapaz de alugar um novo ateliê aqui e ficar lá sozinho - aqui em Aries ou em qualquer outro lugar, por enquanto é tudo a mesma coisa; tentei me decidir a começar de novo, mas no momento não é possível. Eu teria medo de perder a capacidade de trabalhar, que está me voltando agora, forçando-me e tendo além disso todas as outras responsabilidades de um ateliê sobre os meus ombros. E temporariamente desejo continuar internado, tanto para a minha própria paz de espírito quanto para a de outras pessoas. O que me consola um pouco é que estou começando a considerar a loucura uma doença como outra qualquer e a aceitar a coisa como tal, quando durante as próprias crises eu pensava que tudo que imaginava era real. Seja como for, o fato é que não quero pensar ou falar sobre isso. Você me poupará de quaisquer explicações, mas peço que você e os srs. Salles e Rey providenciem as coisas para que eu possa ir para lá como pensionista residente no fim deste mês ou no começo de maio. Recomeçar aquela vida de pintor que andei levando, tantas vezes isolado num ateliê, e sem outras formas de distração a não ser ir para um bar ou um restaurante com todos os vizinhos criticando etc. Não tenho condições de enfrentar isso; ir morar com outra pessoa, digamos, um outro artista - difícil, muito difícil -, é assumir responsabilidade demais. Não ouso nem pensar. Então vamos experimentar isso por três meses, para começar, e depois veremos. A pensão agora deve estar por volta de 8o francos, e farei um pouco de pintura e desenho, sem pôr nisso tanta exaltação como um ano atrás. Não fique aflito com o que lhe conto. Sem dúvida estes últimos dias foram tristes, com toda a mudança, a retirada de todos os meus móveis, a embalagem das telas que vão para você, mas o que me deixou mais triste foi que você tinha me dado todas essas coisas com tanto amor fraterno, e por tantos anos você foi sempre aquele que me apoiou, e agora ser obrigado a voltar e lhe contar esta triste história - mas é difícil exprimir como eu estou sentindo. A bondade que você me mostrou não está perdida, porque ela lhe pertencia e continua pertencendo; mesmo que os resultados materiais sejam nulos, ela continua sendo ainda mais sua; mas não sou capaz de dizer como senti isso tudo. Ao mesmo tempo você compreende que, se o álcool foi sem dúvida uma das principais causas da minha loucura, então ela chegou muito lentamente e irá embora lentamente também, supondo-se que vá, é claro. A mesma coisa se ela vem do fumo. Eu esperaria apenas que ela - essa recuperação [provavelmente uma palavra foi omitida aqui] a terrível superstição de algumas pessoas a respeito do álcool, de modo que elas se convencem a nunca beber ou fumar. Já temos ordem de não mentir nem roubar etc. e não cometer outros crimes grandes ou pequenos, e ficaria muito complicado se fosse absolutamente indispensável não ter nada senão virtudes na sociedade em que estamos inegavelmente inseridos, seja ela boa ou má. Eu lhe asseguro que, nesses dias esquisitos em que muitas coisas me parecem estranhas porque meu cérebro está agitado, no meio de tudo isso não antipatizo com o velho Pangloss.3 Mas você me faria um favor discutindo francamente a questão com o sr. Salles e o sr. Rey. Eu diria que com uma pensão de cerca de 75 francos por mês deve haver um meio de me internar de modo que eu tenha tudo de que preciso. Depois, se for possível, eu gostaria muito de poder sair durante o dia e desenhar ou pintar ao ar livre. Visto que saio todos os dias agora aqui, e penso que isto poderia continuar. Pagar mais, advirto-o, me deixaria menos feliz. A companhia de outros pacientes, você compreende, não me é desagradável em absoluto; ao contrário, me distrai. Comida simples me satisfaz muito bem, especialmente se me dessem um pouco mais de vinho lá, como costumam fazer aqui, meio litro em vez de um quarto por exemplo. nagem famosos de Candidc, de Voltaire, para quem, sempre nas piores situações, tudo era "o dos mundos".(N. daT.) Mas um quarto particular - resta ver quais seriam as instalações de uma instituição como essa. Lembre-se de que Rey está sobrecarregado de trabalho, sobrecarregado. Se ele lhe escrever, ou o sr. Salles, é melhor fazer exatamente o que disserem. Afinal de contas temos de aceitar nosso quinhão, meu querido menino, das doenças de nosso tempo - de certo modo é apenas justo depois de tudo isso, que, tendo vivido alguns anos relativamente em boa saúde, devamos ter nosso quinhão mais cedo ou mais tarde. Quanto a mim, você sabe muito bem que eu não teria escolhido exatamente a loucura se tivesse tido escolha, mas uma vez que a gente tem uma doença desse tipo, não pode contraí-la de novo. E haverá talvez o consolo de ser capaz de continuar trabalhando um pouco na pintura. Como você conseguirá não falar bem demais ou mal demais de Paris e de muitas outras coisas para sua mulher? Sente de antemão que será mesmo capaz de manter exatamente o justo meio o tempo todo e de todos os pontos de vista? Aperto-lhe a mão em pensamento. Não sei se escreverei com muita, muita freqüência, porque nem todos os meus dias são desanuviados o bastante para que eu escreva de maneira razoavelmente lógica. Toda a sua bondade para comigo pareceu-me maior que nunca hoje. Não consigo exprimir isso em palavras, mas lhe asseguro que sua bondade foi ouro puro, e se você não vê nenhum resultado dela, meu querido irmão, não sofra por isso; sua própria bondade permanece. Somente transfira essa afeição para a sua mulher o mais possível. E se nos correspondermos um pouco menos, você verá que ela, se for como eu a imagino, o consolará. É o que espero. Rey é um ótimo sujeito, um tremendo trabalhador, sempre na lida. Que homens, esses médicos de hoje! Se você vir Cauguin ou lhe escrever, dê-lhe lembranças minhas. Ficarei muito contente em receber qualquer notícia que você possa me dar da mãe e da irmã, e se estão bem; diga-lhes para encarar meu caso - falo de coração - como algo que não deve angustiá-las demais, porque eu posso ser relativamente infeliz, mas afinal, apesar disso, ainda posso ter alguns anos quase normais pela frente. É uma doença como qualquer outra, e agora quase todo mundo que conhecemos entre nossos amigos tem algum problema. Assim, será que vale a pena falar sobre isso? Lamento causar transtornos ao sr. Salles, a Rey e acima de tudo a você também, mas que se pode fazer? Minha cabeça não está equilibrada o suficiente para eu recomeçar como antes - portanto o importante é não causar mais nenhuma cena em público, e, naturalmente, estando um pouco mais calmo agora, percebo com clareza que eu estava mental e fisicamente num estado doentio. E depois as pessoas foram boas para mim, aquelas de que me lembro, e quanto às outras, afinal eu causei alguma apreensão, e se eu estivesse num estado normal, as coisas nunca teriam acontecido como aconteceram. Adeus, escreva quando puder. Sempre seu, Vincent

"Como o 'homem' chegou". BARRETO, Lima. A Nova Califórnia - Contos. São Paulo: Brasiiiense, 1979.



Um retrato contundente de uma época do Brasil em que doença mental era caso de polícia - e mais do que isso, uma radiografia do próprio país com sua política em tom menor, seus coronéis, suas mazelas etc. (vide contraste entre a pobreza que cerca o cortejo do suposto louco para ser levado de Manaus ao Rio de Janeiro e as pérolas do nível intelectual das autoridades) -, eis este conto esquecido de Lima Barreto (1881-1922). Um homem louco no interior do Brasil? Nenhum diagnóstico, ainda que precário, apenas uma suspeita: "O 'homem', como dizem eles, era um ente pacato, lá dos confins de Manaus, que tinha a mania da Astronomia e abandonara, não de todo, mas quase totalmente, a terra pelo céu inacessível." O próprio Lima Barreto, como se sabe, sofreu na pele com a mentalidade da época: em crise de alcoolismo agudo, foi internado mais de uma vez como louco. E dessas experiências de internação, em que procurava amenizar as humilhações lendo Plutarco, ele deixou dois documentos fundamentais: Diário do hospício e a ficcionalização de sua vivência que ele realizou com O cemitério dos vivos, do qual extraímos grande parte do capítulo III que se vai ler. Em tempo, Policarpo Quaresma, de Triste fim de Policarpo Quaresma, seu mais famoso personagem, não teria lá seus "grãos de insanidade"?

.Deus está morto; a sua piedade pelos homens matou-o. Nietzsche A polícia da república, como toda a gente sabe, é paternal e compassiva no tratamento das pessoas humildes que dela necessitam; e sempre, quer se trate de humildes, quer de poderosos, a velha instituição cumpre religiosamente a lei. Vem-lhe daí o respeito que aos políticos os seus empregados tributam e a procura que ela merece desses homens, quase sempre interessados no cumprimento das leis que discutem e votam. O caso que vamos narrar não chegou ao conhecimento do público, certamente devido à pouca atenção que lhe deram os repórteres; e é pena, pois, se assim não fosse, teriam nele encontrado pretexto para clichês bem macabra-mente mortuários que alegrassem as páginas de suas folhas volantes. O delegado que funcionou na questão talvez não tivesse notado o grande alcance de sua obra; e tanto isso é de admirar quanto as conseqüências do fato concordam com luxuriantes sorites de um filósofo sempre capaz de sugerir, do pé para a mão, novíssimas estéticas aos necessitados de apresentá-las ao público bem informado. Sabedores de acontecimento de tal monta, não nos era possível deixar de narrá-lo com algum minudência, para edificação dos delegados passados, presentes e futuros. Naquela manhã, tinha a delegacia um movimento desusado. Passavam-se semanas sem que houvesse uma simples prisão, uma pequena ad-moestação. A circunscrição era pacata e ordeira. Pobre, não havia furtos; sem comércio, não havia gatunos; sem indústria, não havia vagabundos, graças à sua extensão e aos capoeirões que lá havia; os que não tinham domicílio arranjavam-no facilmente em chocas ligeiras sobre chãos de outros donos mal conhecidos. Os regulamentos policiais não encontravam emprego; os funcionários do distrito viviam descansados e, sem desconfiança, olhavam a população do lugarejo. Compunha-se o destacamento de um cabo e três soldados; todos os quatro, gente simples, esquecida de sua condição de sustentáculos do Estado. O comandante, um cabo gordo que falava arrastando a voz, com a cantante preguiça de um carro de bois a chiar, habitava com a família um rancho próximo e plantava ao redor melancias, colhendo-as de polpa bem rosada e doce, pelo verão inflexível da nossa terra. Um dos soldados tecia redes de pescaria, chumbava-as com cuidado para dar cerco às tainhas; e era de vê-las saltar por cima do fruto de sua indústria com a agilidade de acrobatas, agilidade surpreendente naqueles entes sem mãos e pernas diferenciadas. Um outro camarada matava o ócio pescando de caniço e quase nunca pescava croco-rocas, pois diante do mar, da sua infinita grandeza, distraía-se, lembrando-se das quadrinhas que vinha compondo em louvor de uma beleza local. Tinham também os inspetores de polícia essa concepção idílica, e não se aborreciam no morno vilarejo. Conceição, um deles, fabricava carvão e os plantões os fazia junto às caieiras, bem protegidas por cruzes toscas para que o tinhoso não entrasse nelas e fabricasse cinza em vez do combustível das engomadeiras. Um seu colega, de nome Nunes, aborrecido com o ar elísico daquela delegacia, imaginou quebrá-lo e lançou o jogo do bicho. Era uma cousa inocente: o mínimo da pule, um vintém; o máximo, duzentos réis, mas, ao chegar a riqueza do lugar, aí pelo tempo do caju, quando o sol saudoso da tarde dourava as areias e os frutos amarelos e vermelhos mais se intumes-ciam nos cajueiros frágeis, jogavam-se pules de dez tostões. Vivia tudo em paz; o delegado não aparecia. Se o fazia de mês em mês, de semestre em semestre, de ano em ano, logo perguntava: houve alguma prisão? Respondiam alvissareiros: não, doutor; e a fronte do doutor se anu-viava, como se sentisse naquele desuso do xadrez a morte próxima do Estado, da Civilização e do Progresso. De onde em onde, porém, havia um caso de defloramento e este era o delito, o crime, a infração do lugarejo- um crime, uma infração, um delito muito próprio do Paraíso, que o tempo, porém, levou a ser julgado pelos policiais, quando, nas primeiras eras das nossas origens bíblicas, o fora pelo próprio Deus. Em geral, os inspetores por eles mesmos resolviam o caso; davam paternos conselhos suasórios e a lei sagrava o que já havia sido abençoado pelas prateadas folhas das imbaúbas, nos capoeirões cerrados. Não quis, porém, o delegado deixarque os seus subordinados liquidassem aquele caso. A paciente era filha do Sambabaia, chefe político do partido do Senador Melaço; e o agente era eleitor do partido contrário a Melaço. O programa do partido de Melaço era não fazer cousa alguma e o do contrário tinha o mesmo ideal; ambos, porém, se diziam adversários de morte e essa oposição, refletindo-se no caso, embaraçava sobremodo o subdelegado. Interrogado, confessara-se o agente pronto a reparar o mal; e, desde há muito, a paciente dera a tal respeito a sua indispensável opinião. A autoridade, entretanto, hesitava, por causa da incompatibilidade política do casal. As audiências se sucediam e aquela era já a quarta. Estavam os soldados atônitos com tanta demora, provinda de não saber bem o delegado se, unindo mais uma vez o par, não iria o caso desgostar Melaço e mesmo o seu adversário jati - ambos senadores poderosos, aquele do governo e este da oposição; e, desgostar qualquer dele punha em perigo o seu emprego porque, quase sempre entre nós, a oposição passa a ser governo e o governo oposição instantaneamente. O consentimento dos rapazes não bastava ao caso; era preciso, além, uma reconciliação ou uma simples adesão política. Naquela manhã, o delegado tomava mais uma vez o depoimento do agente, inquirindo-o desta forma: - Já se resolveu? - Pois não, doutor. Estou inteiramente a seu dispor... - Não é bem ao meu. Quero saber se o senhor tem tenção? - De que, doutor? De casar? Pois não, doutor. - Não é de casar... Isto já sei... E... - Mas de que deve ser então, doutor? - De entrar para o partido do doutor Melaço. - Eu sempre, doutor, fui pelo doutor jati. Não posso... - Que tem uma cousa com a outra? O senhor divide o seu voto: a metade dá para um e a outra metade para outro. Está aí! - Mas como? - Ora! O senhor saberá arranjar as cousas da melhor forma; e, se o fizer com habilidade, ficarei contente e o senhor será feliz, porquanto pode arranjar tanto com um como com outro, conforme andar a política no próximo quatriênio, um lugar de guarda dos mangues. - Não há vaga, doutor. - Qual! Há sempre vaga, meu caro. O Felizardo não se tem querido alistar, não nasceu aqui, é de fora, é "estrangeiro"; e, dessa maneira, não pode continuar a fiscalizar os mangues. É vaga certa. O senhor adere ou antes: divide a votação? - Divido então... Por aí, um dos inspetores veio avisar de que o guarda civil de nome Hane lhe queria falar. O doutor Cunsono estremeceu. Era cousa do chefe, do geral lá de baixo; e, de relance, viu o seu hábil trabalho de harmonizar jati e Melaço perdido inteiramente, talvez por causa de não ter, naquele ano, efetuado sequer uma prisão. Estava na rua, suspendeu o interrogatório e veio receber o visitador com muita angústia no coração. Que seria? - Doutor, foi logo dizendo o guarda, temos um louco. Diante daquele caso novo, o delegado quis refletir, mas logo o guarda emendou: - O doutor Sili... Era assim o nome do ajudante do geral inacessível; e dele, os delegados têm mais medo do que do chefe supremo todo-poderoso. Hane continuou: - O doutor Sili mandou dizer que o senhor o prendesse e o enviasse à Central. Cunsono pensou bem que esse negócio de reclusão de loucos é por demais grave e delicado e não era propriamente da sua competência fazê-lo, a menos que fossem sem eira nem beira ou ameaçassem a segurança pública. Pediu a Hane que o esperasse e foi consultar o escrivão. Este serventuário vivia ali de mau humor. O sossego da delegacia o aborrecia, não porque gostasse da agitação pela agitação, mas pelo simples fato de não perceber emolumentos ou quer que seja, tendo que viver de seus vencimentos. Aconselhou-se com ele o delegado e ficou perfeitamente informado do que dispunham a lei e a praxe. Mas Sili... Voltando à sala, o guarda reiterou as ordens do auxiliar, contando também que o louco estava em Manaus. Se o próprio Sili não o mandava buscar, elucidou o guarda, era porque competia a Cunsono deter o "homem", porquanto a sua delegacia tinha costas do oceano e de Manaus se vinha por mar. - É muito longe, objetou o delegado. O guarda teve o cuidado de explicar que Sili já vira a distancia no mapa e era bem reduzida: obra de palmo e meio. Cunsono perguntou ainda: Qual a profissão do "homem"? - É empregado da delegacia fiscal. - Tem pai? - Tem. Pensou o delegado que competia ao pai o pedido de internação, mas o guarda adivinhou-lhe o pensamento e afirmou: - Eu conheço muito e meu primo é cunhado dele. Estava já Cunsono irritado com as objeções do escrivão e desejava servir a Sili, tanto mais que o caso desafiava a sua competência policial. A lei era ele; e mandou fazer o expediente. Após o que, tratou Cunsono de ultimar o enlace de Melaço e Jati, por intermédio do casamento da filha do Sambabaia. Tudo ficou assentado da melhor forma; e, em pequena hora, voltava o delegado para as ruas onde não policiava, satisfeito consigo mesmo e com a sua tríplice obra, pois não convém esquecer a sua caridosa intervenção no caso do louco de Manaus. Tomava a condução que devia trazer à cidade, quando a lembrança do meio de transporte do dementado lhe foi presente. Ao guarda-civil, ao representante de Sili na zona, perguntou por esse instante: - Como há de vir o "sujeito"? O guarda, sem atender diretamente à pergunta, disse: - É... É, doutor; ele está muito furioso. Cunsono pensou um instante, lembrou-se dos seus estudos e acudiu: - Talvez um couraçado... O "Minas Gerais" não serve? Vou requisitá-lo. Hane, que tinha prática do serviço e conhecimento dos compassivos processos policiais, refletiu: - Doutor: não é preciso tanto. O "carro-forte" basta para trazer o "homem". Concordou Cunsono e olhou as alturas um instante sem notar as nuvens que vagavam sem rumo certo, entre o céu e a terra. L II Sili, o doutor Sili, bem como Cunsono, graças à prática que tinham do oficio, dispunham da liberdade dos seus pares com a maior facilidade. Tinham substituído os graves exames íntimos provocados pelos deveres de seus cargos, as perigosas responsabilidades que lhes são próprias, pelo automático ato de uma assinatura rápida. Era um contínuo trazer um oficio, logo, sem bem pensar no que faziam, sem lê-lo até, assinavam e ia com essa assinatura um sujeito para a cadeia, onde ficava aguardando que se lembrasse de retirá-lo de lá a sua mão distraída e ligeira. Assim era; e foi sem dificuldade que atendeu ao pedido de Cunsono no que toca ao carro-forte. Prontamente deu as ordens para que fosse fornecida a seu colega a masmorra ambulante, pior do que masmorra, do que solitária, pois nessas prisões sente-se ainda a algidez da pedra, alguma cousa ainda de meiguice de sepultura, mas ainda assim meiguice; mas, no tal carro feroz, é tudo ferro, há inexorável antipatia do ferro na cabeça, ferro nos pés, aos lados uma igaçaba de ferro em que se vem sentado, imóvel, e para a qual se entra pelo próprio pé. É blindada e quem vai nela, levado aos trancos e barrancos de seu respeitável peso e do calçamento das vias públicas, tem a impressão de que se lhe quer poupar a morte por um bombardeio de grossa artilharia para ser empalato aos olhos de um sultão. Um requinte de potentado asiático. Essa prisão de Calistenes, blindada, chapeada, couraçada, foi posta em movimento; e saiu, abalando o calçamento, a chocalhar ferragens, a trovejar pelas ruas afora em busca de um inofensivo. O "homem", como dizem eles, era um ente pacato, lá dos confins de Manaus, que tinha a mania da Astronomia e abandonara, não de todo, mas quase totalmente, a terra pelo céu inacessível. Vivia com o pai velho nos arrabaldes da cidade e construíra na chácara de sua residência um pequeno observatório, onde montou lunetas que lhe davam pasto à inocente mania, julgando insuficientes o olhar e as lentes, para chegar ao perfeito conhecimento da Aldebarã longínqua, atirou-se ao cálculo, à inteligência pura, à Matemática e a estudar com afinco e fúria de um doido ou de um gênio. Em uma terra inteiramente entregue à chatinagem e à veniaga, Fernando foi tomando a fama de louco, e não era ela sem algum motivo. Certos gestos, certas despreocupações e mesmo outras manifestações mais palpáveis pareciam justificar o julgamento comum; entretanto, ele vivia bem com o pai e cumpria os seus deveres razoavelmente. Porém, parentes oficiosos e outros longínquos aderentes entenderam curá-lo, como se se curassem assomos de alma e anseios de pensamento. Não lhes vinha tal propósito de perversidade inata, mas de estultice congênita, juntamente com a comiseração explicável em parentes, julgavam que o ser descompassado envergonhava a família e esse julgamento era reforçado pelos cochichos que ouviam de alguns homens esforçados por parecerem inteligentes. O mais célebre deles era o doutor Barrado, um catita do lugar, cheiroso e apurado no corte das calças. Possuía esse doutor a obsessão das cousas extraordinárias, transcendentes, sem par, originais; e, como sabia Fernando simples e desdenhoso pelos mandões, supôs que ele, com esse procedimento, censurava Barrado por demais mesureiro com os magnates. Começou, então, Barrado a dizer que Fernando não sabia Astronomia; ora, este último não afirmava semelhante cousa. Lia, estudava e contava o que lia, mais ou menos o que aquele fazia nas salas, com os ditos e opiniões dos outros. Houve quem o desmentisse; teimava, no entanto, Barrado no propósito. Entendeu também de estudar uma Astronomia e bem oposta à de Fernando: a Astronomia do centro da Terra. O seu compêndio favorito era A Morgadinha de Val-Flor e os livros auxiliares: A dama de Monsoreau e O rei dos Crilhetas, numa biblioteca de Herschell. Com isto, e cantando, e espalhando que Fernando vivia nas tascas com vagabundos, auxiliado pelo poeta Machino, o jornalista Cosmético e o antropologista Tucolas, que fazia sábias mensurações nos crânios das formigas, conseguiu emover os simplórios parentes de Fernando, e foi bastante que, de parente para conhecido, de conhecido para Hane, de Hane, para Sili e Cunsono, as coisas se encadeassem e fosse obtida a ordem de partida daquela fortaleza couraçada, roncando pelas ruas, chocalhando ferragens, abalando calçadas, para ponto tão longínquo. Quando, porém, o carro chegou à praça mais próxima, foi que o cocheiro lembrou-se de que não lhe tinham ensinado onde ficava Manaus. Voltou e Sili, com a energia de sua origem britânica, determinou que fretassem uma falua e fossem a reboque do primeiro paquete. Sabedor do caso e como tivesse conhecimento de que Fernando era desafeto do poderoso chefe político Sofonias, Barrado que, desde muito, lhe queria ser agradável, calou o seu despeito, apresentou-se pronto para auxiliar a diligência. Esse chefe político dispunha de um prestígio imenso e nada entendia de Astronomia; mas, naquele tempo, era a ciência da moda e tinham em grande consideração os membros da Sociedade Astronômica, da qual Barrado queria fazer parte. Sofonias influía nas eleições da Sociedade, como em todas as outras, e podia determinar que Barrado fosse escolhido. Andava, portanto, o doutor captando a boa vontade da potente influência eleitoral, esperando obter, depois de eleito, o lugar de Diretor Geral das Estrelas de Segunda Grandeza. Não é de estranhar, pois, que aceitasse tão árdua incumbência e, com Hane e carrião, veio até à praia; mas não havia canoa, caíque, bote, jangada, catraia, chalana, falua, lancha, calunga, poveiro, peru, macacuano, pontão, alvarenga, saveiro, que os quisesse levar a tais alturas. Hane desesperava, mas o companheiro, lembrando-se dos seus conhecimentos de Astronomia, indicou um alvitre: - O carro pode ir boiando. - Como, doutor? E de ferro... muito pesado, doutor! - Qual o quê! O "Minas", o "Aragón", o "São Paulo" não bóiam? Ele vai, sim! - E os burros? - Irão a nadar, rebocando o carro. Curvou-se o guarda diante do saber do doutor e deixou-lhe a missão confiada, conforme as ordens terminantes que recebera. A calistênica entrou pela água adentro, consoante as ordens promana-das do saber de Barrado e, logo que achou água suficiente, foi ao fundo com grande desprezo pela hidrostática do doutor. Os burros, que tinham sempre protestado contra a física do jovem sábio, partiram os arreios e salvaram-se; e graças a uma poderosa cábrea, pôde a almanjarra ser salva também. Havia poucos paquetes para Manaus e o tempo urgia. Barrado tinha ordem franca de fazer o que quisesse. Não hesitou e, energicamente, fez reparar as avarias e tratou de embarcar num paquete todo o trem, fosse como fosse. Ao embarcá-lo, porém, surgiu uma dúvida entre ele e o pessoal de bordo. Teimava Barrado que o carro merecia ir para um camarote de primeira classe, teimavam os marítimos que isso não era próprio, tanto mais que ele não indicava o lagar dos burros. Era difícil essa questão da colocação dos burros. Os homens de bordo queriam que fossem para o interior do navio; mas, objetava o doutor: - Morrem asfixiados, tanto mais que são burros e mesmo por isso. De comum acordo, resolveram telegrafar a Sili para resolver a curiosa contenda. Não tardou viesse a resposta, que foi clara e precisa: "Burros sempre em cima. Sili." Opinião como esta, tão sábia e tão verdadeira, tão cheia de filosofia e sagacidade da vida, aliviou todos os corações e abraços fraternais foram trocados entre conhecidos e inimigos, entre amigos e desconhecidos. A sentença era de Salomão e houve mesmo quem quisesse aproveitar o apotegma para construir uma nova ordem social. Restava a pequena dificuldade de fazer entrar o carro para o camarote do doutor Barrado. O convés foi aberto convenientemente, teve a sala de jantar mesas arrancadas e o bendegó ficou no centro dela, em exposição, feio e brutal, estúpido e inútil, como um monstro de museu. O paquete moveu-se lentamente em demanda da barra. Antes fez uma doce curva, longa, muito suave, reverente à beleza da Guanabara. As gaivotas voavam tranqüilas, cansavam-se, pousavam na água - não precisavam de terra... A cidade sumia-se vagarosamente e o carro foi atraindo a atenção de bordo. - O que vem a ser isto? Diante da almanjarra, muitos viajantes murmuravam protestos contra a presença daquele estafermo ali; outras pessoas diziam que se destinava a encarcerar um bandoleiro da Paraíba; outras que era um salva-vidas; mas, quando alguém disse que aquilo ia acompanhando um recomendado de Sofonias, a admiração foi geral e imprecisa. Um oficial disse: - Que construção engenhosa! Um médico afirmou: - Que linhas elegantes! Um advogado refletiu: - Que soberba criação mental! Um literato sustentou: - Parece um mármore de Fídias! Um sicofanta berrou: - E obra mesmo de Sofonias! Que republicano! Uma moça adiantou: - Deve ter sons magníficos! Houve mesmo escala para dar ração aos burros, pois os mais graduados se disputavam a honraria. Um criado, porém, por ter passado junto ao monstro e o olhado com desdém, quase foi duramente castigado pelos passageiros. O ergástulo ambulante vingou-se do serviçal; durante todo o trajeto perturbou-lhe o serviço. Apesar de ir correndo a viagem sem mais incidentes, quis ao meio dela Barrado desembarcar e continuá-la por terra. Consultou, nestes termos, Sili: "Melhor carro ir terra faltam três dedos mar alonga caminho"; e a resposta veio depois de alguns dias: "Não convém desembarque embora mais curto carro chega sujo. Siga." Obedeceu e o meteorito, durante duas semanas, foi objeto da adoração do paquete. Nos últimos dias, quando um qualquer dos passageiros dele se acercava, passava-lhe pelo dorso negro a mão espalmada com a contrição religiosa de um maometano ao tocar na pedra negra da Caaba. Sofonias, que nada tinha com o caso, não teve nunca noticia dessa tocante adoração. III Muito rica é Manaus, mas, como em todo o Amazonas, nela é vulgar a moeda de cobre. É um singular traço de riqueza que muito impressiona o viajante, tanto mais que não se quer outra e as rendas do Estado são avultadas. O Eldorado não conhece o ouro, nem o estima. Outro traço de sua riqueza é o jogo. Lá, não é divertimento nem vício: é para quase todos profissão. O valor dos noivos, segundo dizem, é avaliado pela média das paradas felizes que fazem, e o das noivas pelo mesmo processo no tocante aos pais. Chegou o navio a tão curiosa cidade quinze dias após fazendo uma plácida viagem, com o fetiche a bordo. Desembarcá-lo foi motivo de absorvente cogitação para o doutor Barrado. Temia que fosse de novo ao fundo, não porque o quisesse encaminhá-lo por sobre as águas do Rio Negro; mas, pelo simples motivo de que, sendo o cais flutuante, o peso do carrião talvez trouxesse desastrosas conseqüências para ambos, cais e carro. O capataz não encontrava perigo algum, pois desembarcavam e embarcavam pelos flutuantes volumes pesadíssimos, toneladas até. Barrado, porém, que era observador, lembrava-se da aventura do rio, e objetou: - Mas não são de ferro. - Que tem isso? fez o capataz. Barrado, que era observador e inteligente, afinal compreendeu que um quilo de ferro pesa tanto quanto um de algodão; e só se convenceu inteiramente disso, como observador que era, quando viu o ergástulo em salvamento, rolando pelas ruas da cidade. Continuou a ser ídolo e o doutor agastou-se deveras porque o governador visitou a caranguejola, antes que ele o fizesse. Como não tivesse completas as instruções para detenção de Fernando, pediu-as a Sili. A resposta veio num longo telegrama, minucioso e elucidativo. Devia requisitar força ao governador, arregimentar capangas e não desprezar as balas de altéia. Assim fez o comissário. Pediu uma companhia de soldados, foi às allurjas da cidade catar bravos e adquirir uma confeitaria de altéia. Partiu em demanda do "homem" com esse trem de guerra; e, pondo-se cautelosamente em observação, lobrigou os óculos do observatório, donde concluiu que a sua força era insuficiente. Normas para o seu procedimento requereu a Sili. Vieram secas e peremptórias: "Empregue também artilharia." De novo pôs-se em marcha com um parque do Krupp. Desgraçadamente, não encontrou o homem perigoso. Recolheu a expedição a quartéis; e, certo dia, quando de passeio, por acaso, foi parar a um café do centro comercial. Todas as mesas estavam ocupadas; e só em uma delas havia um único consumidor. A esta ele sentou-se. Travou por qualquer motivo conversa com o mazombo; e, durante alguns minutos, aprendeu com o solitário alguma cousa. Ao despedirem-se, foi que ligou o nome à pessoa, e ficou atarantado sem saber como proceder no momento. A ação, porém, lhe veio prontamente; e, sem dificuldade, falando em nome da lei e da autoridade, deteve o pacífico ferrabrás em um dos bailéus do cárcere ambulante. Não havia paquete naquele dia e Sili havia recomendado que o trouxessem imediatamente. "Venha por terra," disse ele; e Barrado, lembrado do conselho, tratou de segui-lo. Procurou quem o guiasse até ao Rio, embora lhe parecesse curta e fácil a viagem. Examinou bem o mapa e, vendo que a distancia era de palmo e meio, considerou que dentro dela não lhe cabia o carro. Por este e aquele, soube que os fabricantes de mapas não têm critério seguro: era fazer uns muito grandes, ou muito pequenos, conforme são para enfeitar livros ou adornar paredes. Sendo assim, a tal distância de doze polegadas bem podia esconder viagem de um dia e mais. Aconselhado pelo cocheiro, tomou um guia e encontrou-o no seu antigo conhecido Tucolas, sabedor como ninguém do interior do Brasil, pois o palmilhara à cata de formigas para bem firmar documentos às suas investigações antropológicas. Aceitou a incumbência o curioso antropologista de himenópteros, aconselhando, entretanto, a modificação do itinerário. - Não me parece, Senhor Barrado, que devamos atravessar o Amazonas. Melhor seria, Senhor Barrado, irmos até a Venezuela, alcançar as Guianas e descermos, Senhor Barrado. - Não teremos rios a atravessar, Tucolas? - Homem! Meu caro senhor, eu não sei bem; mas, Senhor Barrado me parece que não, e sabe por quê? - Por quê? - Por quê? Porque este Amazonas, Senhor Barrado, não pode ir até lá, ao Norte, pois só corre de oeste para leste... Discutiram assim sabiamente o caminho; e, à proporção que manifestava o seu profundo trato com a geografia da América do Sul, mais Tucolas passava a mão pela cabeleira de inspirado. Achou que os conselhos do doutor eram justos, mas temia as surpresas do carrão. Ora, ia ao fundo, por ser pesado; ora, sendo pesado, não fazia ir ao fundo frágeis flutuantes. Não fosse ele estranhar o chão estrangeiro e pregar-lhe alguma peça? O cocheiro não queria também ir pela Venezuela, temia pisar em terra de gringos e encarregou-se da travessia do Amazonas - o que foi feito em paz e salvamento, com a máxima simplicidade. Logo que foi ultimada, Tucolas tratou de guiar a caravana. Prometeu que o faria com muito acerto e contentamento geral, pois aproveitá-la-ia, dilatando as suas pesquisas antropológicas aos moluscos dos nossos rios. Era sábio naturalista, e antropologista, e etnografista da novíssima escola do Conde de Gobineau, novidade de uns sessenta anos atrás; e, desde muito, desejava fazer uma viagem daquelas para completar os seus estudos antropológicos nas formigas e nas ostras dos nossos rios. A viagem correu maravilhosamente durante as primeiras horas. Sob um sol de fogo, o carro solavancava pelos maus caminhos; e o doente, à mingua de não ter onde se agarrar, ia ao encontro de uma e outra parede de sua prisão couraçada. Os burros, impelidos pelas violentas oscilações dos varais, encontravam-se e repeliam-se, ainda mais aumentando os ásperos solavancos da traquitana; e o cocheiro, na boléia, oscilava de lá para cá, de cá para lá, marcando o compasso da música chocalhante daquela marcha vagarosa. Na primeira venda que passaram, uma dessas vendas perdidas, quase isoladas, dos caminhos desertos, onde o viajante se abastece e os vagabundos descansam de sua errância pelos descambados e montanhas, o encarcerado foi saudado com uma vaia: ó maluco! ó maluco! Andava Tucolas distraído a fossar e cavucar, catando formigas; e, mal encontrava uma mais assim, logo examinava bem o crânio do inseto, procurava-lhe os ossos componentes, enquanto não fazia uma mensuração cuidadosa do ângulo de Camper ou mesmo de Cloquet. Barrado, cuja preocupação era ser êmulo do Padre Vieira, aproveitara o tempo para firmar bem as regras de colocação de pronomes, sobretudo a que manda que o "que" atraia o pronome complemento. E assim andando foi o carro, após dias de viagem, encontrar uma aldeia pobre, à margem de um rio, onde chalanas e naviecos a vapor tocavam de quando em quando. Cuidaram imediatamente de obter hospedagem e alimentação no lugarejo. O cocheiro lembrou o "homem" que traziam. Barrado, a respeito, não tinha com segurança uma norma de proceder. Não sabia mesmo se essa espécie de doentes comia e consultou Sili, por telegrama. Respondeu-lhe a autoridade, com a energia britânica que tinha no sangue, que não era do regulamento retirar aquela espécie de enfermos do carro, o "ar" sempre lhes fazia mal. De resto, era curta a viagem e tão sábia recomendação foi cegamente obedecida. Em pequena hora, Barrado e o guia sentavam-se à mesa do professor público, que lhes oferecera do jantar. O ágape ia fraternal e alegre, quando houve a visita da Discórdia, a visita da Gramática. O ingênuo professor não tinha conhecimento do pichoso saber gramatical do doutor Barrado e expunha candidamente os usos e costumes do lugar com a sua linguagem roceira: - Há aqui entre nós muito pouco caso pelo estudo, doutor. Meus filhos mesmo e todos quase não querem saber de livros. Tirante este defeito, doutor, a gente quer mesmo o progresso. Barrado implicou com o "tirante" e o "a gente", e tentou ironizar. Sorriu e observou: - Fala-se mal, estou vendo. O matuto percebeu que o doutor se referia a ele. Indagou mansamente: - Por que o doutor diz isso? - Por nada, professor. Por nada! - Creio, aduziu o sertanejo, que, tirante eu, o doutor aqui não falou com mais ninguém. Barrado notou ainda o "tirante" e olhou com inteligência para Tucolas, que se distraía com um naco de tartaruga. Observou o caipira, momentaneamente, o afã de comer do antropologista e disse, meigamente: - Aqui, a gente come muito isso. Tirante a caça e a pesca, nós rara mente temos carne fresca. A insistência do professor sertanejo irritava sobremaneira o doutor inigualável. Sempre aquele "tirante", sempre o tal "a gente, a gente, a gente"- um falar de preto mina! O professor, porém, continuou a informar calmamente: - A gente aqui planta pouco, mesmo não vale a pena. Felizardo do Catolé plantou uns leirões de horta, há anos, e quando veio o calor e a enchente... - É demais! É demais! exclamou Barrado. Docemente, o pedagogo indagou: - Por quê? Por que, doutor? Estava o doutor sinistramente raivoso e explicou-se a custo: - Então, não sabe? Não sabe? - Não, doutor. Eu não sei, fez o professor, com segurança e mansuetude. Tucolas tinha parado de saborear a tartaruga, a fim de atinar com a origem da disputa. - Não sabe, então, rematou Barrado, não sabe que até agora o senhor não tem feito outra coisa senão errar em português? - Como, doutor? - É "tirante", é "a gente, a gente, a gente"; e, por cima de tudo, um solecismo! - Onde, doutor? - Veio o calor e a chuva - é português? - É, doutor, é, doutor! Veja o doutor João Ribeiro! Tudo isso está lá. Quer ver? O professor levantou-se, apanhou sobre a mesa próxima uma velha gramática ensebada e mostrou a respeitável autoridade ao sábio doutor Barrado. Sem saber desdéns simular, ordenou: - Tucolas, vamo-nos embora. - E a tartaruga? diz o outro. O hóspede ofereceu-a, o original antropologista embrulhou-a e saiu com o companheiro. Cá fora, tudo era silêncio e o céu estava negro. As estrelas pequeninas piscavam sem cessar o seu olhar eterno para a terra muito grande. O doutor foi ao encontro da curiosidade recalcada de Tucolas: - Vê, Tucolas, como anda o nosso ensino? Os professores não sabem os elementos de gramática, e falam como negros de senzala. - Senhor Barrado, julgo que o senhor deve a esse respeito chamar a atenção do ministro competente, pois me parece que o país, atualmente, possui um dos mais autorizados na matéria. - Vou tratar, Tucolas, tanto mais que o Semica é amigo do Sofonias. - Senhor Barrado, uma coisa... - Que é? - Já falou, Senhor Barrado, a meu respeito com o senhor Sofonias? - Desde muito, meu caro Tucolas. Está à espera da reforma do museu e tu vais para lá direitinho. É o teu lugar. - Obrigado, Senhor Barrado. Obrigado. A viagem continuou monotonamente. Transmontaram serras, va-dearam rios e, num deles, houve um ataque de jacarés, dos quais se salvou Barrado graças à sua pele muito dura. Entretanto, um dos animais de tiro perdeu uma das patas dianteiras e mesmo assim conseguiu pôr-se a salvo na margem oposta. Sarou-lhe a ferida não se sabe como e o animal não deixou de acompanhar a caravana. Às vezes, distanciava-se; às vezes, aproximava-se; e sempre a pobre alimária olhava longamente, demoradamente, aquele forno ambulante, manquejando sempre, impotente para a carreira, e como se se lastimasse de não poder auxiliar eficazmente o lento reboque daquela almanjarra pesadona. Em dado momento, o cocheiro avisa Barrado de que o "homem" parecia estar morto; havia até um mau cheiro indicador. O regulamento não permitia a abertura da prisão e o doutor não quis verificar o que havia de verdade no caso. Comia aqui, dormia ali, Tucolas também e os burros também - que mais era preciso para ser agradável a Sofonias? Nada, ou antes: trazer o "homem" até ao Rio de janeiro. As doze polegadas da sua cartografia desdobravam-se em um infinito número de quilômetros. Tucolas, que conhecia o caminho, dizia sempre: estamos a chegar, Senhor Barrado! Estamos a chegar! Assim levaram meses andando, com o burro aleijado a manquejar atrás do ergástulo ambulante, olhando-o docemente, cheio de piedade impotente. Os urubus crocitavam por sobre a caravana, estreitavam o vôo, desciam mais, mais, mais, até quase debicar no carro-forte. Barrado punha-se furioso a enxotá-los a pedradas; Tucolas imaginava aparelhos para examinar a caixa craniana das ostras de que andava à caça; o cocheiro obedecia. Mais ou menos assim, levaram dois anos e foram chegar à aldeia dos Serradores, margem do Tocantins. Quando aportaram, havia na praça principal uma grande disputa, tendo por motivo o preenchimento de uma vaga na Academia dos Lambrequins. Logo que Barrado soube do que se tratava, meteu-se na disputa e foi gritando lá a seu jeito e sacudindo as perninhas: - Eu também sou candidato! Eu também sou candidato! Um dos circunstantes perguntou-lhe a tempo, com toda a paciência: - Moço: o senhor sabe fazer lambrequins? - Não sei, não sei, mas aprendo na academia e é para isso que quero entrar. A eleição teve lugar e a escolha recaiu sobre um outro mais hábil no uso da serra que o doutor recém-chegado. Precipitou-se por isso a partida e o carro continuou a sua odisséia, com o acompanhamento do burro, sempre a olhá-lo longamente, infinitamente, demoradamente, cheio de piedade impotente. Aos poucos os urubus se despediram; e, no fim de quatro anos, o carrião entrou pelo Rio adentro, a roncar pelas calçadas, chocalhando duramente as ferragens, com o seu manco e compassivo burro a manquejar-lhe à sirga. Logo que foi chegado, um hábil serralheiro veio abri-lo, pois a fechadura desarranjara-se devido aos trancos e às intempéries da viagem, e desobedecia à chave competente. Sili determinou que os médicos examinassem o doente, exame que, mergulhados numa atmosfera de desinfetantes, foi feito no necrotério público. Foi este o destino do enfermo pelo qual o delegado Cunsono se interessou com tanta solicitude.

"O cemitério dos vivos (trecho)". BARRETO, Lima. O cemitério dos vivos. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004.



O espetáculo da loucura, não só no indivíduo isolado, mas, e sobretudo, numa população de manicômio, é dos mais dolorosos e tristes espetáculos que se pode oferecer a quem ligeiramente meditar sobre ele. Dizia Catão que os sábios tiram mais ensinamentos dos loucos que estes deles. Deve ser assim, conforme quem os interpela e o tempo que o faz, mas o certo é que, à primeira vista, o ensinamento não é, como queria o orgulho romano, para melhoramento e progresso dos ajuizados; ao contrário, a primeira impressão é de abjeção para o espírito, pelo enigma que nele se põe, diante de uma misteriosa interrogação sem resposta. Donde vem isto? Que inimigo da nossa espécie é esse que se compraz em nos rebaixar? No pavilhão, devido ao número exíguo de doentes, não se sente bem essa dor especial, é se tomado de amargura pelo nosso destino, o nosso pensamento não se angustia tanto em querer resolver tão sombrio problema da nossa existência que a loucura provoca; mas na Seção Pinel é de abater, é de esmagar, a contemplação, o contato, o convívio com quase duas centenas de loucos. Da primeira vez, não saí do pavilhão para essa seção, que é a dos gratuitos, a dos indigentes, mas, na qual, como uma consideração que a bondade da administração pode ter, sem ferir os regulamentos, há muitos que não eram. De forma que, quando saí do pavilhão, para ela, na segunda vez, foi-me um espetáculo novo, inédito, denso, a que fui obrigado a assistir nela. Logo após o café, fui chamado à presença de um jovem médico, muito simpático, pouco certo dos seus poderes para curar-me. Fez-me umas perguntas, e senti mesmo que seu desejo era mandar-me embora. Disse-me mais ou menos isso, ou melhor, as suas palavras foram estas, depois de dizer o que eu tinha tido: - Não há dúvida... Mas o senhor ou você - não me recordo - veio pela polícia, tem que se demorar um pouco. Concordei e voltei para o pátio. Vestia umas calças que me ficavam pelas canelas, uma camisa que me ficava pela metade do antebraço. Um tal vestuário me aborrecia deveras e não porque eu me julgava mais ínfimo ali com ele do que se outro tivesse. Pouco tempo depois, fui de novo para a varanda, onde me puseram num banco, ao lado de outros companheiros. Estava em uma extremidade e o doente a meu lado era um preto moço, tipo completo do espécimen mais humilde da nossa sociedade. Era ocasião da visita do médico-em-chefe, que me conhecia de vista e eu a ele; mas não fez alusão a isso, e também não me dei por achado. Sempre me disseram um excelente rapaz, mas o supunha muito cheio de certeza, por isso embirrava com ele. Acabada a visita do médico-em-chefe, voltei para o terreiro, à espera da minha alta. Estava certo dela; e, quando o enfermeiro-mor me chamou do alto da varanda que dava para onde eu estava sentado, sorri de alegria. Esse enfermeiro não me fez mal algum, mas impliquei com ele. Era alto, bem apessoado, tinha uma fisionomia bragantina, papada, bochechas, olhos pequenos... O guarda-civil que me esperava no portão do hospício chamou-o de doutor e ele se deixou tratar assim. Pareceu-me um pouco pedante; se não me maltratou, tratou-me com desdém e sobranceria... Muitas vezes, rio-me interiormente, quando tal acontece, mas com ele irritei-me. Veio-me chamar e levantei-me alvissareiro: - Venha cá! Olhando para ele, perguntei: - Eu? - Sim, você. Levou-me o bragantino por corredores e pátios até ao hospício propriamente. Aí é para não me ir embora mas ficar. - Não vou me embora? - Não; você fica. Ainda esperei que fosse cair na seção dos pensionistas; mas assim não foi. Entrei para a Pinel, para a seção dos pobres, dos sem ninguém, para aquela em que a imagem do que a Desgraça pode sobre a vida dos homens é mais formidável e mais cortante. O mobiliário, o vestuário das camas, as camas - tudo é de uma pobreza sem par. O acúmulo dos doentes, o sombrio da dependência que fica no andar térreo - e o pátio interno é quase ocupado pelo pavilhão das latrinas de ambos os andares - tirando-lhe a luz, tudo isso lhe dá má atmosfera de hospital, de emanações de desinfetantes, uma morrinha terrível. Os loucos são de proveniências as mais diversas; originam-se, em geral, das camadas mais pobres da nossa gente pobre. São pobres imigrantes italianos, portugueses, espanhóis e outros mais exóticos; são negros roceiros, que levam a sua humildade, teimando em dormir pelos desvãos das janelas sobre uma esteira ensebada e uma manta sórdida; são copeiros, são cocheiros, cozinheiros, operários, trabalhadores braçais e proletários mais finos: tipógrafos, marceneiros etc. No meio desse baralhamento de homens de tão diferentes raças e educação, fazem-se às vezes descobertas. Um dia, um maluco diz a outro: - Você sabe? Aquele novo é padre. - Qual? - Aquele alemão, que veio há dias do pavilhão. A notícia corre de boca em boca e vai até ao enfermeiro-chefe. Este, então, verifica e procura melhorar o tratamento do pobre náufrago da vida. Quando lá estive, havia um religioso alemão ou teuto-brasileiro, moço, forte, silencioso, com aquele doce olhar que há em certos alemães, em que a gente vê o mar raso e a areia faiscando no fundo. Parecia um frade concentrado e, sem rezar, parecia rezar, andando de um lado para outro do corredor. Pelo que se entendia do seu português, ele o falava bem, com certo acento, mas correto. Não se o entendia, porque não pronunciava as palavras: balbuciava, ciciava... Vi também o D. L, meu antigo conhecido, poeta das pequenas coisas, paródias, sonetos satíricos. Era companheiro do T., que foi meu colega de colégio, e agora se fez esquecer; mas foi um grande estróina. D. L. montou um colégio num arrabalde modesto e, segundo notícias, ele prosperou. Deixou de andar em rodas dos literatos, parece que estudou, pois eu o conheci com pouca instrução, e os seus discípulos gabavam-lhe o saber e o método. Veio, porém, a equiparação ao ginásio, ele não tinha dinheiro para equiparar o seu colégio ao oficial, foi perdendo alunos, endividou-se e enlouqueceu. Foi o primeiro a me falar e, pelo jeito com que o fez, parecia que me esperava ali desde muito tempo. Fui de novo à presença de um médico; era também moço, mas não tão céptico como o primeiro que me viu no pavilhão, nem tão crente como o chefe deste. Interrogou-me pacientemente sobre o meu delírio, sobre os meus hábitos e antecedentes. Disse-lhe toda a verdade. Não me desgostou este médico, senão quando ele me perguntou assim, com um pouco de menosprezo. - O senhor colabora nos jornais? - Sim, senhor; e já até publiquei um livro. O doutor, por aí, sorriu desdenhosamente, mas foi um instante. Saí do exame e fiquei pelos corredores. Eu tinha passado bem a noite passada; mas tudo aquilo me parecia mais extravagante. Como é que eu, em vinte e quatro horas, deixava de ser um funcionário do Estado, com ficha na sociedade e lugar no orçamento, para ser um mendigo sem eira nem beira, atirado para ali que nem um desclassificado? Porque o Estado queria-me gratuito, comendo à sua custa, quando era mais simples tomar-me o ordenado dar-me pelo menos um paletó?... Recordei-me um pouco da casa do meu sobrinho, da sua infantil mania de supor que o hospício me curava e de supor que era o álcool e as companhias que me punham a delirar. O meu sofrimento era mais profundo mais íntimo, mais meu. O que havia no fundo dele, eu não podia dizer, a sua essência era meu segredo; tudo mais: álcool, dificuldades materiais, a loucura de minha sogra, a incapacidade de meu filho, eram conseqüências dele e do desnorteamento em que eu estava na minha vida. Depois de quase dez, ou antes, logo nos primeiros anos da morte de minha mulher, é que eu senti bem a falta dela e que me convenci que ela viera ao meu encontro, para realizar o meu destino e o meu sonho. Perdida ela, perdida nas condições em que foi, parecia-me que eu tinha praticado um crime, uma falta grave, sem remédio e sem resgate. Embora não a tivesse nunca maltratado de nenhuma sorte, eu me sentia culpado por não a ter compreendido em tempo, por não a ter adivinhado. Vinha-me um desespero íntimo, um aborrecimento de mim mesmo, um sinal da evidência da minha incapacidade para qualquer obra maior, pois - raciocinava - quem teve um ente humano a seu lado, com ele viveu na mais total intimidade em que dois entes humanos podem viver, não o compreendeu, não pode absolutamente compreender mais coisa alguma. E eu atirava meus livros para o lado, e eu me punha a beber, e eu não tratava do meu, e eu me queria anular, ficar um desclassificado, uma bola de lama aos pontapés dos polícias... Não tinha lido o trecho de Plutarco a que aludi, pois o li no próprio hospício; mas, agora, relembrando as minhas impressões, sinto bem que ele tem bastante razão. Eu estava ajuizado e tinha muito que aprender com loucos. Da primeira vez, não me demorei observando loucos. Revoltei-me, censurei meu sobrinho; mas desta vez, voltava mais capaz de fazê-lo. Eu me tinha esquecido de mim mesmo, tinha adquirido um grande desprezo pela opinião pública, que vê de soslaio, que vê como criminoso um sujeito que passa pelo hospício, eu não tinha mais ambições, nem esperanças de riqueza ou posição: o meu pensamento era para a humanidade toda, para a miséria, para o sofrimento, para os que sofrem, para os que todos amaldiçoam. Eu sofria honestamente por um sofrimento que ninguém podia adivinhar; eu tinha sido humilhado, e estava, a bem dizer, ainda sendo, eu andei sujo e imundo, mas eu sentia que interiormente eu resplandecia de bondade, de sonho de atingir a verdade, do amor pelos outros, de arrependimento dos meus erros e um desejo imenso de contribuir para que os outros fossem mais felizes do que eu, e procurava e sondava os mistérios da nossa natureza moral, uma vontade de descobrir nos nossos defeitos o seu núcleo primitivo de amor e de bondade. O hospício me retemperava. Lembrava-me do plano de minha obra, dos grandes trabalhos que ela demandava, dos estudos que pedia; e, de mim para mim, eu me prometia levá-la a cabo, empregando todos os argumentos, tirando-os de toda a parte, não só os lógicos, como os sentimentais; havia de escrevê-la, empregando todos os recursos da dialética e da arte de escrever. Voltava-me para trás da minha vida e lá via minha sogra louca, às vezes, delirando; às vezes, calada, a olhar tudo com um olhar intraduzível e sobretudo meu filho, seu neto, que passava dos dez anos e não sabia absolutamente nada. Não havia ameaça, não havia afago, não havia promessa que o fizesse dar um pouco de atenção à cartilha. Eu não sabia o que fazer. Deixava o tempo correr; e, quando me vinha a idéia que havia de ter um filho completamente analfabeto, eu amaldiçoava tudo e me arrependia de tê-lo gerado. No hospício, porém, estas duas lembranças dolorosas não me abatiam tanto quanto em casa ou solto em qualquer parte. A conclusão a que chegava era ser preciso transmontá-las, para executar o meu propósito de moço e o meu sonho de menino... - Seu Vicente, venha ver sua cama. Era o inspetor. Era bom homem, conhecera meu pai e se lembrava dele com amizade. Eu não me recordava dele; havia-o visto menino. Ele, entretanto, fez tudo para suavizar a minha sorte, sem pedido nem rogo meu. Era um mulato escuro, forte, mesmo muito forte, rosto redondo grande, olhos negros brilhantes, com uma pequena jaca de desconfiança. Deu-me uma cama num dormitório mais razoável, com melhor companhia; e, por sua iniciativa, fez que eu tomasse as minhas refeições com os doentes mais escolhidos. Entre estes fui encontrar um rapaz português da minha idade, a quem conhecera quando estudante. Travamos relações na pensão da senhora que veio a ser minha sogra. Parece que ele fora daqueles que tinham de voltar pobres. Era um tanto instruído e me foi de um préstimo inesquecível. Não tinha cigarros, ele mos deu; não sabia ir ao refeitório, ele me ensinou; enfim, amaciou as dificuldades do primeiro estabelecimento. Apesar de não demonstrar vestígio algum de loucura, nem mesmo a alcoólica ou tóxica, Misael era veterano no hospício e me informou muito sobre os loucos, suas manias, seus antecedentes. O meu mergulho naquele mundo estranho foi logo profundo naqueles quatro dias que nele passei. Vista assim de longe, a noção do horror que se tem da loucura não parte da verdadeira causa. O que todos julgam é que a coisa pior de um manicômio é o ruído, são os desatinos dos loucos, o seu delirar em voz alta. É um engano. Perto do louco, quem os observa bem, cuidadosamente, e une cada observação a outra, as associa num quadro geral, o horror misterioso da loucura é o silêncio, são as atitudes, as manias mudas dos doidos. Há indivíduos que se condenam a um mutismo absoluto, que não conversam com ninguém, não dizem palavra anos e anos. Destes, uns vivem de um lado para outro, outros deitados; ainda outros fazem gestos, e certos outros prorrompem em berreiros. Alguns, a sua doença atacou-os no aparelho de emissão da palavra. Havia um, mas na outra seção, velho e dizem que de família importante, que falava de onde em onde, mas logo perdia o jeito e emudecia. Tinha delírios terríveis. Corria que em estado de loucura matara uma irmã, na fazenda paterna, com mão-de-pilão. Alguns não suportam roupa no corpo, às vezes totalmente, outras vezes em parte. Na Seção Pinel, num pátio que ficavam os mais insuportáveis, dez por cento deles andava nu ou seminu. Esse pátio é a coisa mais horrível que se pode imaginar. Devido a pigmentação negra de uma grande parte dos doentes aí recolhidos, a imagem que se fica dele, é que tudo é negro. O negro é a cor mais cortante, mais impressionante; e contemplando uma porção de corpos negros nus, faz ela que as outras se ofusquem no nosso pensamento. É uma luz negra sobre as coisas, na suposição de que, sob essa luz, o nosso olhar pudesse ver alguma coisa. Aí é que há os berradores; mas, como em toda a parte, são só os seus gritos que enchem o ambiente. Eles são relativamente poucos. Há outros que se degradam no sexo, com uma indiferença de amaldiçoados a isso... É um horror silencioso, que nos apavora e faz-nos cobrir a humanidade de piedade, e nos amedronta sobre a nossa vida a vir. Olham-se os quartos e todos aqueles homens, muitas vezes moços, sem moléstia comum, que não falam, que não se erguem da cama nem para exercer as mais tirânicas e baixas exigências da nossa natureza, que se urinam, que se rebolcariam no próprio excremento, se não fossem os cuidados dos guardas e enfermeiros, pensa-se profundamente, dolorosamente, angus-tiosamente sobre nós, sobre o que somos; pergunta-se a si mesmo se cada um de nós está reservado àquele destino de sermos nós mesmos, o nosso próprio pensamento, a nossa própria inteligência, que, por um desarranjo funcional qualquer, se há de encarregar de levar-nos àquela depressão de nossa própria pessoa, àquela depreciação da nossa natureza, que as religiões querem semelhante a Deus, àquela quase morte em vida. Parece tal espetáculo com os célebres cemitérios de vivos que um diplomata brasileiro, numa narração de viagem, diz ter havido em Cantão, na China. Nas imediações dessa cidade, um lugar apropriado de domínio público era reservado aos indigentes que se sentiam morrer. Dava-se-lhes comida, roupa e o caixão fúnebre em que se deviam enterrar. Esperavam tranqüilamente a Morte. Assim me pareceu pela primeira vez que deparei com tal quadro, com repugnância, que provoca a pensar mais profundamente sobre ele, e aquelas sombrias vidas sugerem a noção em torno de nós, de nossa existência e a nossa vida, só vemos uma grande abóbada de trevas, de negro absoluto. Não é mais o dia azul-cobalto e o céu ofuscante, não é mais o negror da noite picado de estrelas palpitantes; é a treva absoluta, é toda ausência de luz, é o mistério impenetrável e um não poderás ir além que confessam a nossa própria inteligência e o próprio pensamento. A loucura se reveste de várias e infinitas formas; é possível que os estudiosos tenham podido reduzi-las em uma classificação, mas ao leigo ela se apresenta como as árvores, arbustos e lianas de uma floresta: é uma porção de coisas diferentes. Uma generalização sobre o seu fundo pecaria pela base. Choques morais, deficiência de inteligência, educação, instrução, vícios, todas essas causas determinam formas variadas e desencontradas de loucura; e, às vezes, nenhuma delas o é. Apela-se para a hereditariedade que tanto pode ser causa nestes como naqueles; e que, se ela fosse exercer tão despoticamente o seu poder, não haveria um só homem de juízo, na Terra. É bastante pensar que nós somos como herdeiros de milhares de avós, em cada um de nós se vem encontrar o sangue, as taras deles; por força que, em tal multidão, há de haver detraqués, viciosos etc, portanto a hereditariedade não há de pesar só sobre este e sobre aquele, cujos antecedentes são conhecidos, mas sobre todos nós homens. Por ser remota? Mas as forças da natureza não contam o tempo; e, às vezes mesmo, as mais poderosas só se fazem notar quando se exercem lentamente, durante séculos e séculos. A explicação por hereditariedade é cômoda, mas talvez seja pouco lógica. Sem capacidade nem competência para tratar de semelhante assunto, eu me lembrei de fazer estas considerações por ter observado entre os meus colegas da Pinel um caso singular de mania. Eu via um português velho, sempre com um gorro e borla, de barba cerrada, enroupado num grande sobretudo marrom, passear de um lado para o outro nos corredores. A sua fisionomia tinha um ar de estampa, sorridente, mas orgulhosa. Perguntei certo dia: - Misael, quem é aquele doente? - É um português que foi barbeiro. Os fregueses chamavam-no de Francisco I, imperador da Áustria. Ele se parece, convenceu-se e acabou aqui. Há dias, quando embarcaram uma turma para a colônia, ele foi até ao grupo e recomendou: "Olhem, vocês vão para lá. Se forem maltratados, queixem-se a mim, que sou seu imperador". Que relação teria a sua loucura com a sua fortuita semelhança com o imperador da Áustria? É possível que ela tivesse alguma intervenção? Parecia pueril uma tal questão, mas eu a pus sempre, de mim para mim, essa pergunta do poder de auto-sugestão na loucura e também da imitação. Tomei posse do meu dormitório e despertei maravilhosamente. O meu dormitório era no canto da ala direita do pavimento térreo. O hospício é bem construído e seria adequado, se não tivesse quatro vezes o número de doentes para que foi planejado. É obra de iniciativa individual, e a sua construção, pode-se dizer, foi custeada pela caridade pública. Nas dádivas e doações, como sempre, nas obras, muito concorreram os portugueses que enriqueceram no comércio. Os chãos parece que já eram da Santa Casa, mas o edifício propriamente é resultado de dádivas e doações. É grande de fachada, com fundo proporcional, acabamento e remates cuidadosos, um pouco sombrio no andar térreo, mais devido aos acréscimos do que ao plano primitivo, que se adivinha. Acabado de construir em 1852, todo ele trai, no aspecto exterior, ao gosto do pseudoclássico da Revolução e do Império Napoleônico. O seu arquiteto, Dominigos Monteiro, foi certamente discípulo da antiga Academia de Belas-Artes e certamente do arquiteto Grand-jean de Montigny. É de aspecto frio, severo, solene, com pouco movimento nas massas arquiteturais. Custou naquela época cerca de mil e quinhentos contos, e por aí se pode avaliar a tenacidade de José Clemente, que o ideou e o ergueu, no espaço curto de dez anos. Dizem que há, no salão nobre, uma estátua dele, mandada fazer pelo segundo imperador, que também tem a sua, diante da daquele. Este José Clemente parece não ter sido estadista de grandes vistas políticas, mas pelas posições em que passou deixou traços do seu amor a obras de utilidade pública, sobretudo de assistência. Interiormente é dividido em salões e quartos, maiores e menores, com janelas todas para o exterior, e portas para os corredores, que olham para os pátios internos. O meu dormitório ficava no extremo da ala esquerda do edifício, como já disse, e as camas ficavam encostadas ao longo das quatro paredes. Tinha três janelas de sacada para a rua, mas eram inteiramente gradeadas. Via-se o jardim, a rua, os bondes, o mar e as montanhas de Niterói e Teresópolis. Com o ar azul da enseada de Botafogo, para quem olha, devia ser um alegre retiro, tivesse ele outro destino; mas a beleza do local pouco deve consolar, apreciada através das grades, da triste condição em que se está, torvo o ambiente moral em que ali se respira. A beleza da natureza faz mais triste a quem tem consciência do lugar em que está e, olhando-a com os olhos tristes, ao amanhecer, a impressão que se tem é que não se pode mais sonhar felicidade diante das belas paisagens e das belas coisas... Assim amanheci. Olhei o mar através das grades, com esses sombrios pensamentos, e recebi essa emoção. Demorei-me pouco vendo-o... Pela enseada adentro, entrava uma falua, com velas enfunadas e muito suavemente deslizava sobre o mar levemente encrespado pelo terral fresco... Passavam banhistas de ambos os sexos. As mulheres, envolvidas em roupões ou lençóis, escondiam as pernas e os braços, mais ainda que os calções e as blusas; os homens, porém, ostentavam-nos com garbos. As pernas, embora muscu-losas, às vezes, eram hediondas. Todos olhavam para a grade, e logo saí dela vexado com aquela curiosidade malsã... Domingo, eu não amanheci mais nesse dormitório. O inspetor, tinha resolvido, me transferira para um quarto em que havia um outro doente de consideração. Não me agradou, porque se tratava de um estudante e porque, à sua enfatuação (eu a tive também) de estudante, não devia agradar um companheiro que lhe surgia no estado de mendigo. Tratou-me bem e eu não tive queixa dele durante as duas noites que fui seu companheiro de aposento. Estava há quatro dias no hospital e não havia recebido visita alguma. Misael salvou-me no que toca a cigarros, o inspetor emprestava-me os jornais; mas não me contentava com isso. Chamaram-me à noite e, de pé, no corredor para onde se abria a porta da seção, falei com meu sobrinho. Não tive aborrecimento algum, eu tinha convicção da minha manifestação de loucura. O que me amedrontava era a seção. Não os loucos propriamente, mas do que o seu aspecto geral me trazia ao pensamento. Trouxe-me cigarros e eu só lhe reclamei a saída da seção, fosse como fosse. De tanto pensar no meu destino, entrelaçado com o daqueles que me eram companheiros, eu me apavorava mais do que se estivesse no Inferno, perseguido por mil diabos. Perguntei por todos de casa e despedi-me. Voltei ao interior da seção e fizeram-me mudar a roupa. Foi a primeira satisfação que me oferecia o manicômio. Senti mais integrado na minha dignidade, na minha educação, com aquele pijama que me cobria os tornozelos e os braços. Não pude fumar um cigarro até ao fim. Vieram-me chamar. Era um bom vizinho, negociante dos subúrbios, humano e compassivo. Minha família comprava na sua venda e, a bem dizer, foi dela que saí da segunda vez para o hospício. Deu-me cigarros e jornais. Conversamos dez minutos, e senti bem, naquele homem simples, de pouca cultura, a piedade profunda que lhe inspirava. Foi a segunda satisfação que o hospício me dava. Havia bondade, simpatia de homem para homem, independente de interesse e parentesco. Pus-me a ler os jornais. A minha sensação já não era de mágoa e de dor de estar ali; era de esperança da minha correção e da melhoria de todos os homens. A afeição, o amor, a simpatia e a piedade haviam de inspirar um dia alguém que curasse aqueles pobres homens. Naquele instante, conversando com um companheiro, um outro doente delirava de fazer rir. Não me ri, mas prestei-lhe atenção, simulando ler. Dizia o doente a outro que, no banco em que era empregado, certas vezes dava a fazer a cobrança de que estava encarregado a outro colega. Este lhe pedia a roupa, os sapatos, o chapéu o relógio etc. Um dia, porém, pediu-lhe por empréstimo o nariz, os olhos, os bigodes etc. - Neguei-lhe, afirmava com energia; como havia eu de viver sem nariz, sem olhos, sem bigodes, enfim, sem a minha cabeça? O outro, que era também delirante, não vi a que propósito, veio a falar em livros, poetas etc, porque é próprio do delírio, como toda gente sabe, não ligar nunca as idéias às vezes só às palavras, outras vezes nem a uma nem a outra coisa, para continuar a sua manifestação, em estilhaços de pensamentos, de uma que arrebentou sob a pressão da loucura: - Livros! Tive-os muito bons! fez o homem que não queria emprestar os bigodes. Você já ouviu falar em Luís de Camões? - É o autor dos Lusíadas, português. - Qual o que! Sou eu! Era uma obra em que eu há muito tempo trabalhava. Escrevia-o em papel muito bom, com uma excelente caligrafia, quando saía, guardava-o numa escrivaninha à chave. Eu tinha uma criada, uma negra que era amigada com um português. Certo dia, esqueci-me da chave e, ao voltar para a casa, não encontrei a negra, nem o livro. Ela tinha fugido com o meu trabalho... Passam-se anos e um dia li que, em Lisboa, morrera na miséria um poeta que vivia com uma negra, deixando um poema, intitulado Lusíadas, primoroso... Adivinhei logo a coisa: era o meu trabalho, que a negra tinha roubado e dado ao galego... - Não reclamou? - Qual! Não arranjei nada! O parentesco do delírio do meu companheiro de dormitório com o episódio do jau, da vida de Camões, toda gente percebe; eu, porém, não inter-vim na conversa e, até, forcei a atenção para os jornais, a fim de que ela não me arrastasse de novo a pensamentos agoureiros. Li-os com cuidado, li seções que, normalmente, desprezava, mas não findei a leitura. Misael chamou-me para o jantar. Nos domingos, era mais cedo, e, como das outras vezes, atravessamos o pátio cheio dos doentes mais incorrigíveis, uns em pé, do lado para outro, outros deitados debaixo daquele sol de dezembro, outros nus e sobre uma esteira, um inteiramente nu, de bruço, com um curativo negro de um cáustico qualquer, que denunciava uma das mais nojentas formas de sodomia. Misael perguntou-me: - Sabe o que é isso? - Sei... Há muitos? - Muitos. Não quis mais continuar o diálogo, mesmo porque chegávamos ao refeitório. O domingo, que tinha amanhecido toldado, nevoento, com o correr do dia se tornou claro e luminoso. O calor bastante sensível não era de sufocar, a viração soprou bem cedo, e a tarde se fez uma esplêndida tarde tropical, tépida, embalsamada de azul e de silêncio imaterial das coisas. Do refeitório, nós víamos as montanhas, e até o Corcovado inclinava-se para o hospício. Acabado o jantar, eu e Misael fomos dar um passeio pela chácara. É vasta e, apesar das modificações, mutilações, que tem sofrido, ainda guarda exemplares das grandes fruteiras que deviam povoá-la há quarenta anos passados. Vi nela uma grande horta, sem viço, sem verdura tenra das couves e repolhos, por ser verão; mas, assim mesmo, ela me interessava todo, me recordava sonhos e projetos. Gostei sempre muito da casa, do lar; e o meu sonho seria nascer, viver e morrer, na mesma casa. A nossa vida é breve, a experiência só vem depois de um certo número de anos vividos, só os depósitos de reminiscências, de relíquias, as narrações caseiras dos pais, dos velhos parentes, dos antigos criados e agregados é que têm o poder de nos encher a alma do passado, de ligar-nos aos que foram e de nos fazer compreender certas peculiaridades do lugar do nosso nascimento. Todos os desastres da minha vida fizeram que nunca eu pudesse manter uma inabalável, minha, a única propriedade que eu admitia, com as lembranças dos meus antecedentes, com relíquias dos meus amigos, para que tudo isso passasse por sua vez aos meus descendentes, papéis, livros, louças, retratos, quadros, a fim de que eles sentissem bem que tinham raízes fortes no tempo e no espaço e não eram só eles a viver um instante, mas o elo de uma cadeia infinita, precedida de outras cadeias de números infinitos de elos. Uma horta, um pomar com grandes jaqueiras, mangueiras, laranjeiras, abacateiros, sempre foi o meu sonho; e estavam ali aqueles restos de uma grande chácara, com árvores de mais de meio século de existência, maltratadas, abandonadas, talvez, de toda a contemplação sonhadora de olhos humanos, mas que ainda assim davam prazer, consolavam aquele sombrio lugar de dor e de angústia. Misael tinha não sei que moléstia nos músculos de uma das pernas que o fazia capengar, e nós, sob a luz coada matemalmente pelas árvores, andamos devagar pela chácara afora. Havia por ela outros pavilhões, além do de observação. Havia o de epilépticos, o de tuberculosos, e neste eu vi um chim, no último grau, deitado numa cama, debaixo de uma árvore frondosa, que me lembrou de novo o Cemitério dos Vivos de Cantão. Ele tinha todas as duas magrezas: a de tuberculoso e a de chim; e, falando a Misael, eu me admirei que não tivesse tido piedade dele. Quis afastar-me logo; e o china nos ofereceu cigarros. Recusei, por temer o contágio. Surpreendi-me com esse motivo que calara, porque nunca temo pegar moléstia alguma. É espontâneo em mim esse destemor, mesmo nas maiores epidemias que tenho atravessado. Continuamos a nossa peregrinação. A tarde ainda estava alta e clara; a noite ainda se demoraria a vir. Por baixo das árvores, havia doentes; e deparei ao lado cerradas touceiras de bambus, cujos colmos se entrelaçavam no alto. Não eram as do jardim Botânico; mas, no momento, tinham a beleza de me lembrar as ogivais dele. Quem as teria plantado? De quem teria sido aquela chácara? Como as coisas têm às vezes o destino ilógico! Aquelas árvores, aqueles bambus, destinavam-se a uma remansosa estação de recreio, teriam assistido festas de junho, bulhentas de foguetes e outros fogos, e iluminadas por fogueiras de cultos esquecidos. Os anos as fizeram ver a mais triste moléstia da humanidade, aquela que nos faz outro, aquela que parece querer mostrar que não somos verdadeiramente nada, nos aniquilando na nossa força fundamental. Parecia que bastava esta ali; mas não era assim. Fomos ver outra pior, a horrorosa morféia, que, junto com a loucura, é para juntar o horror até ao mais alto grau. Uma deforma, degrada o pensamento; a outra, o corpo, o rosto sobretudo. Não quis olhar onde estavam alojados os lázaros dementes. Era numa barraca de campanha, erguida sobre espeques, e cujas bordas eram presas por pedregulhos respeitáveis. A sua moradia era provisória; a Morte não tardaria em levá-los... Era no fundo da chácara. Os automóveis passavam fonfonando. Adivinhava-os cheios de senhoras, moças, rapazes, homens, cheios de satisfação por ir gozar aquele domingo em Copacabana; na frente, era o mesmo movimento dos que se dirigiam a contemplar a baía, a cidade, o mar e as árvores das montanhas, por cima do Pão de Açúcar. O hospício estava naquele dia de passeio quase cercado de alegria, e movimento. Ele, porém, continuava tranqüilo, silencioso, só às vezes o silêncio se quebrava, com um grito isolado de alienado lá nos pavilhões da frente; e nós estávamos diante da mais terrível associação de males que uma pessoa humana pode reunir. Voltamos pelo mesmo caminho. Olhei o céu tranqüilo, doce, de um azul muito fino. Não se via o sol, que descambava pelas nossas costas. A tarde continuava bela e agradável. Em meio do caminho, encontramos bandos de crianças loucas, de menos de dez anos, que iam brincar, sob a vigilância de uma enfermeira estrangeira, alemã, parecia. Havia de todas as cores, e todas eram feias, algumas mesmo aleijadas. Continuamos a volta. Eu olhei o muro que dava para uma das ruas, onde corriam os automóveis, e calculei sua altura pela minha, que eu sabia de cor.

"Dois textos". ARTAUD, Antonin. "J'ai passe 10 ans avec des alienes..." e "Ainsi donc, à vous bien comprendre...". Artaud Oeuvres. Paris: Quarto Gallimard, 2004.



TRADUÇÃO DE LÉO SCHLAFMAN Inquieto, desconcertante e "louco"; escritor, viajante, aventureiro; mas sobretudo teórico de teatro (O teatro e seu duplo) e ator que deixou sua marca na história do teatro e do cinema - e que ainda pode ser visto, em cinematecas ou via DVD, em filmes como A paixão de Joana D'Arc, de Dreider, e Napoleon, de Abel Cance -, Antonin Artaud (1896-1948) passou longos períodos de internação psiquiátrica, sem quase nunca perder a lucidez mesmo quando sufocada pela dor e pela tortura das internações (das quais os textos aqui reproduzidos dão seu testemunho). Se é verdade que a loucura fascina o homem - "e fascina porque é um saber", segundo Michel Foucault -, a presença de Artaud vem fascinando e intrigando gerações de admiradores. Ainda segundo Foucault (e referindo-se à "luta mitológica entre a libido e o instinto de Morte", teorizada por Freud), a obra de Artaud "deveria propor, ao pensamento do século XX, se ele prestasse atenção, a mais urgente das questões (...)" As obras completas de Artaud (Oeuvres, Gallimard,2004) têm cerca de 1.800 páginas, a maioria delas referentes à (sua) loucura, algumas de inegável destaque, como as obras Héliogabale ou Panarchiste couronné, Lettres écrites de Rodez, Van Gogh le suicide da ia societé e Pour en finir avec le jugement de Dieu (para só citar alguns), que não estão aqui presentes devido ao tamanho do textos ou dificuldade com os direitos autorais. Mas, em dezenas de cartas e textos soltos, Artaud deixou sua força, seu protesto e sua lucidez, como veremos nestes dois escritos aqui incluídos. O texto I é praticamente um esboço do que seria uma nova "Carta aos médicos-chefes dos asilos de loucos" que o autor pretendia reescrever para incluírem suas obras completas. O segundo texto, de 4 5 de fevereiro de 1947, foi publicado originariamente em Les Temps Modernes, a famosa revista dirigida porjean-Paul Sartre, em fevereiro de 1949. Já que o "pensamento do século XX" não prestou a atenção nele, prestemos nós, ao vivo e a cores. Passei dez anos com os doidos, não como o médico amador que fica uma hora por dia com a loucura no momento da visita, mas como um autêntico doido. Fui rejeitado pela sociedade e condenado. Porque nem a alma, nem o espírito, nem o ser, nem a consciência, nem o eu, nem o homem jamais me quiseram. Há palavras que sempre foram tomadas por coisas, mas as coisas que elas representam, e a que não correspondem, mas que contra-indicam, sempre resistiram em mim. Assim, portanto, tranqüilizem-se os alienistas, sou louco em função mesmo da loucura porque minha consciência sempre resistiu, em todas as suas menores dobras. Sem ir mais longe, vivi noite e dia e da manhã à noite com os loucos, comi a sopa de rábano com repolho, caguei como eles em suas próprias latrinas, dormi nos vastos dormitórios de loucos, arquejei, escarrei e respirei cada noite no odor de seus peidos, porque não há ninguém como os doidos para peidar, ouvi os feiticeiros do peiote peidar, mas devo dizer que neste domínio eles não sabem tanto como o último dos loucos. Existe uma ciência dos gases mefíticos comumente chamados de peidos. Uma consciência se baseia nesta ciência, nasceu nela. O gás mefítico é um espírito, cultivado por finos iniciados, e é um dos meios com que ele pode interferir na vida. Os doidos não sabem, mas há entre eles altos (e perfeitos) espíritos que se servem da demência deles, mas qual é o psiquiatra que compreendeu? Vi que os delírios dos loucos contêm mais verdade do que as pílulas de vitaminas eróticas do médico que pretende curá-los. Não há psiquiatra que não tenha, sobretudo ele, uma tara grave, que seria necessário curar, porque, para mim, internado arbitrário, o anti-social é o psiquiatra. Chama-se sociedade este cone do espírito, esse consentimento anônimo à Cone Kone de koni (do grego konia, a poeira), depositário de piolhos cadentes, acumulação caída, poeira multidão de pessoas túmulo de estupidez, rolamento de besteira achatada, deformada a partir de baixo (sic) estiagem nível a que a massa da consciência adere. A sociedade é este cone de espírito que sempre consentiu em ser vil porque estava bem em seu papel, e depois de ter vivido dez anos noite e dia com os loucos, partilhando com eles meu delírio e minha loucura que consistia em considerar o mundo estúpido, e pensando que podia fazer algo para reformá-lo, por minha loucura, meus escritos, meu teatro e o sopro de minha magia pessoal (...) dez anos entre os loucos e seus peidos, seus arrotos, seus delírios, suas tosses, suas melecas, e suas cagadas no vaso sanitário coletivo, posso dizer que nenhum doido me pareceu delirar, e que sempre reputei no fundo de tudo o delírio como o fio da verdade, insólito talvez, mas bem aceitável, que o louco conceituado busca. II Assim, portanto, acima da vida quotidiana a consciência forma seres e corpos que se unem e se entrechocam na atmosfera, e distinguem sua personalidade. E esses organismos formam terríveis concílios nos quais tudo o que pode se tornar vida na Terra é discutido em última instância. Não sou André Breton e não fui a Baltimore mas é o que eu vi à margem do rio Hudson. Morri no asilo de Rodez com um eletrochoque. Disse morte. Legalmente e do ponto de vista médico, morto. O coma do eletrochoque dura um quarto de hora. Meia hora talvez. E depois o doente respira. Mas uma hora depois do choque eu não despertara e cessara de respirar. Surpreso pela minha rigidez anormal, um enfermeiro foi buscar o médico-chefe que, depois da auscultação, não encontrou sinal de vida em mim. Tenho lembranças de minha morte naquele momento, mas não é sobre elas que me baseio para revelar o fato. Restrinjo-me apenas aos detalhes que me foram passados pelo doutor Jean Dequeker, jovem interno de Rodez que os ouviu da boca do próprio doutor Ferdière. E o doutor Ferdière lhe disse que naquele dia acreditou que eu estava morto, chamou dois guardas do asilo e ordenou que transportassem meu corpo para o necrotério porque uma hora e meia depois do choque eu não recobrara os sentidos. E parece que, no momento em que os enfermeiros entraram para transportar meu corpo, perceberam um estremecimento mínimo, depois do qual eu despertei. Mas eu tenho outra lembrança da coisa. Guardei-a no entanto para mim, em segredo, até o dia em que o doutor Jean Dequeker, do exterior, confirmou-me o fato. Essa lembrança é que tudo o que o doutor Jean Dequeker me contou eu já vira não desse lado do mundo, mas do outro, e simplesmente na cela em que se realizou o choque e sob seu teto, embora, por momentos, para mim, não havia nem cela nem teto, mas, a cerca de um metro acima de meu corpo, no ar, uma espécie de aeróstato fluidificado que balançava entre meu corpo e o teto. Eu, com certeza, jamais esquecerei, em qualquer vida possível, a horrível situação desse esfíncter de revulsão e de asfixia pelo qual a massa criminosa dos seres força o agonizante a passar antes de lhe dar a liberdade. Na cabeceira de um moribundo há mais de dez mil seres e eu me dei conta disso naquele momento. Há uma unanimidade consciente de todos os seres, que não querem passar da vida à morte antes que ela se instale definitivamente, pelo abandono total e absoluto de seus restos, que o corpo inerte, sobretudo o corpo, o ser resiste a entregar. O que você quer então que um morto faça de seu corpo no túmulo? Eu sou você e sua consciência sou eu - eis o que naquele momento dizem todos os seres, funcionários, farmacêuticos, merceeiros, perfuradores de tíquetes no metrô, coveiros, amoladores, varredores, lojistas, banqueiros, padres, donos de fábricas, pedagogos, sábios, médicos, ninguém falta na passagem sinistra. Lástima que nenhum outro morto, além de mim, retornou para confirmar, como eu, a coisa, porque em geral, de fato, os mortos não retornam. O eletrochoque desta vez não se comportou como os dois primeiros. Senti que algo não ia bem. E todo meu corpo elétrico interno, toda a mentira desse corpo elétrico interno que há um certo número de séculos é o fardo de cada ser humano, voltou-se, tornou-se em mim um imenso retorno de fogo, mônadas de nada encrespadas no limite de uma existência prisioneira de meu corpo de chumbo que não podia sair de seu chumbo nem se levantar como um soldadinho de chumbo. Não podia mais ser meu corpo, não queria ser este sopro que transformaria em morte ao redor dele até a extrema dissolução. Assim torcido e curvado, fibra a fibra, sentia-me o terrível corredor de uma impossível revulsão. Não sei que vazio suspenso me invadia com suas lacunas negras, mas eu era o vazio, suspenso, e, quanto à alma, eu não era mais do que um estertor entre muitas sufocações. Onde se colocar e por onde tornar a sair, eis o único pensamento que estremecia em minha garganta tomada e bloqueada por todos os lados. Nem pela alma e nem pelo espírito, eis o que me lançava, ao passar, cada muro de fuligem corporal, e tudo aquilo é o mundo de antes, eis o que me dizia cada batimento. É o corpo que subsistirá, sem espírito, o espírito é o doente.

"Do outro lado da vida" (Um dia no Hospício de Juqueri). FLOREAL, Sylvio. Ronda da meia-noite - Vícios, misérias e esplendores da cidade de São Paulo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.



Autodidata, de pedreiro na juventude, passando pela política operária da época, ele chegou a jornalista, cronista e romancista. Ele, santista de família italiana, Domingos Alexandre, ou Sylvio Floreal (1862-1929,). Afonso Schmidt e o sempre atento Brito Broca ("figura muito curiosa do último boêmio, que desenvolvia, por vezes, a atividade de literato ambulante", escreveu ele) são dos poucos que registram sua existência. Mas o que justifica sua presença aqui não é nenhuma intenção de "reabilitá-lo"; apenas mostrar um dos seus textos, incluído em Ronda da meia-noite (livro de crônicas publicado em 1929 e reeditado em 2003, pela Paz e Terra), que trata de um "um dia no Hospício dejuqueri", conforme o subtítulo; na verdade, um dos raros testemunhos sobre as desumanas condições em que viviam os "internos" deste famoso hospício paulista lá pelos anos 1920. A loucura, apesar de ser uma coisa tão velha como o mundo, ainda é um dos grandes motivos literários. Vista através da literatura, a loucura é um fato extraordinário. Tudo quanto ela possui de exagerado, desproporcional, cabe no ilimitado campo da literatura. Ainda agora, enquanto escrevo esta crônica, tenho sobre a mesa Le Miditazione d'un Pazzo, de Mario Mariani. Livro curioso e doloroso ao mesmo tempo, pelo qual desfilam tipos de maníacos, cada qual mais interessante dentro da sua demência. É um verdadeiro sadismo intelectual procurar assuntos no interior dos hospícios para saciar a gula voraginosa dos que vivem relativamente ajuizados. A vida sentida e observada com todas as faculdades, em plena per- cepção, já não satisfaz; anseia-se por conhecer como ela é, observada pelos prismas ziguezagueantes da loucura. Os loucos estão do outro lado da vida, do outro lado da razão e do equilíbrio: daí a ilusão de que eles têm do mundo e das coisas uma concepção diferente da nossa. Puro engano! Porque os loucos não vivem: existem. Desvirtuada a psique, centro da sensibilidade, e alteradas as funções cerebrais, zona do pensamento, eles deixam logicamente de ser entes, para ser coisas. No louco todos os sentidos superiores estão atrofiados. Ele é uma verdadeira máquina desconjuntada, que se move insensivelmente, sem a noção exata do próprio movimento que produz. Note-se: um louco perde a faculdade de pensar e sentir - manifestações do cérebro e da alma - mas não perde todas as outras funções materiais - manifestações do instinto, que põem a sua máquina corporal em locomoção, razão pela qual chegam até mesmo a insensibilizar os gestos na escala das manifestações físicas. A única coisa interessante que os loucos possuem é que, tendo perdido o senso da responsabilidade, não sabem fingir nem mentir, coisa aliás que os torna extremamente curiosos, devido ao hábito de mentir que todos nós, que não temos uma telha partida no telhado do raciocínio, cultivamos como uma medida defensiva contra o nosso semelhante, que, sempre que possa, mente mais do que nós. Os do outro lado da vida conseguiram realizar o prodígio da lealdade, sem se devorarem. Explica-se; lá não há interesse de ordem material nem moral em jogo. No outro lado, vivem admiravelmente em paz, tendo pão na arca, a proteção de Deus vinda do alto e o amor do diretor desabrochado numa primavera eterna de desvelos. Entremos no Hospício. A visão do inferno (Jm frísson extraordinário me domina, como se uma serrilha de aço fosse cerceando os meus nervos. A força da curiosidade, em luta com o medo, lentamente me conduz. Atenuada a vibração, os meus cinco sentidos acusam e comunicam à minha razão o ambiente moral e material que vou penetrando. Tudo, por um trabalho de sugestão, se transfigura sucessivamente ante a chapa perceptiva da minha memória. Caminho como que puxado por uma força dinâmica. O espírito, sugestionado pela antevisão, desdobra-se fantasticamente, criando monstruosidades, aberrações; fisionomias disformes, vultos apocalípticos, sombras cabalísticas, fantasmas viscosos de abracadabra! Amplia-se o cosmorama da invocação funesta! De esfuziada, desfilam corpos imprecisos, envoltos numa plúmbea cerração de malefício, pelos horizontes esfumados da minha memória, todos com o espanto e o terror estampados no rosto, todos com uma praga e uma blasfêmia sobre a navalha vermelha dos lábios, todos com uma tragédia a arder no incêndio dos olhos, todos com um mundo de revelações calcadas nas contrações pelanquentas da face! A sarabanda, focada pela imaginação e exagerada pela virulência escaldante do delírio, prossegue, dilatada, até invadir a zona desvairante do pandemônio, onde há gritos, lamentos, estertores, desfalecimentos, delírios, de-líquios, vociferações, barbaréus, confusão! E numa cadência funeral, na noite báquica da loucura, há batuques de dores, sabás de agonias, danças macabras de angústias, rodopios curveteantes de mágoas, can-cans estabanados e possessos de gemidos e lamúrias! E o deboche da loucura, a pornéia da demência, finaliza, no negror dessa noite pressaga, entre últimos magotes lusco-fusco de epiléticos, teorias fulvas de danados agressivos, bandos verde-negro, luciferi-nos, de furiosos, tatalando os dentes, numa ronda ameaçadora de destruição. Imaginai uma cena dantesca, uma visão do inferno, um báratro atroz de sofrimento, e tereis desdobrado na fotosfera da memória o panorama trá-gico-bufo da loucura refugiada dentro dum hospício. Passada a rajada das primeiras impressões, começou a declinar o calafrio e a diminuir a exaltação que me empolgara; os nervos retomaram a sua função normal. O meu raciocínio, naquela seara da loucura, abrolhava timidamente. E o Hospício de juqueri, tal e qual como eie é, surgiu aos meus olhos desanuviados. No alto, o sol alvoroçava o céu límpido, com o seu queimor e o seu brilho. Dentro do hospício, os loucos nas suas mise-en-scénes da demência, calmos, resignados, pareciam personagens da "arte do silêncio", filmando uma película cômica. Reinava uma calma paradoxal, absurda, incompatível com aquele ambiente. Capu-mortuum Na manhã clara, em pleno sol que se derrama sobre tudo, o automóvel, engolindo todas as irregularidades do caminho, foge vertiginoso através de terras cultivadas. A meu lado, fumando o seu aromático caipira, vai o Sr. Mello e Oliveira, almoxarife do Hospício. Homem atencioso; fuma e fala pouco. Essa virtude, aliada a esse hábito, fê-lo paciente e gentil. Enquanto O Sr. Mello suga gulosamente o seu goiano, eu vou aos poucos bombardeando o seu silêncio com perguntas e interrogações. - Para onde vamos? - Vou mostrar-lhe as colônias, que são o capu-mortuum do asilo, onde estão os enfermos que apresentam indícios de incurabilidade. No capu-mortuum, ou colônias, os alienados trabalham e gozam de uma relativa liberdade. A preocupação máxima do diretor tem sido justamente essa: a de evitar o mais possível o aspecto de prisão. A ilusão da liberdade étão completa, que não raras vezes nós surpreendemos, entre os loucos, arrufos pacíficos deste teor: "Não começa a me provocar, que perco a cabeça e vou parar outra vez no hospício"... Realmente, a preocupação constante do trabalho, dentro dos moldes possíveis da liberdade, deve deixar essa ilusão no espírito avariado dos doentes. Todos nutrem pelo trabalho uma festiva predisposição. O nosso automóvel trepidava, esfarelando insensivelmente todas as saliências atrevidas do caminho. O almoxarife renovou, dentro dos lábios, um cigarro já gasto e continuou: - Para o senhor avaliar como eles estão identificados com os hábitos do hospício, basta dizer-lhe que, há tempos, um enfermo, aproveitando-se da distração do empregado com quem trabalhava na lavoura, fugiu e se encaminhou para São Paulo, onde andou por espaço de oito dias; e no fim desse tempo, surgiu ele na colônia, foi lá benevolamente acolhido e até hoje trabalha sem mais tentar evadir-se. Quando apareceu voluntariamente na colônia, foram estas as suas palavras: "Voltei, porque lá fora não me ajeito mais". Nessa expressão está todo um elogio inconsciente ao tratamento que aqui recebia. E assim o trabalho e a liberdade suavizam em parte a grande desgraça desses infelizes! - Quantos loucos tem o hospício? 1.470 homens e 360 mulheres e isso porque não há, nos pavilhões que formam as colônias, mais um lugar. Se houvesse, teríamos de dar alojamento a 800 e tantos loucos que estão disseminados pelas cadeias de todo o interior do Estado. As colônias são 5, afora 2 fazendas. Alojados nos pavilhões das colônias, há uma média de 150 a 200 alienados. - Aqui, como em todos os hospícios, deve haver loucos muito interessantes pelas suas manias, sestros, cacoetes, grimaças, esgares e outras manifestações extremadas, segundo a localização da demência e os caracteres de cada qual. - Em nosso stock de loucos, há um pouco de tudo. Temos 2 médicos, 2 advogados, 1 engenheiro, 2 freiras e 1 padre cuja única distração é capinar. Assim como também um daqueles advogados não faz outra coisa que não seja rachar lenha e tirar leite das vacas; e um daqueles médicos gosta imensamente de aparar o sangue dos porcos, quando são abatidos, e de estrangular galinhas. Quis saber os nomes, mas o Sr. Mello, disfarçando jeitosamente a insistência da minha curiosidade, apontou-me ao longe um enorme serralho, onde seguramente refocilavam, tomando o seu banho fresco de lama, várias dezenas de porcos. Mais adiante, insisti novamente; porém o meu cicerone, que de modo algum me queria ser desagradável, armou-se de coragem - ele que poderia mentir, se quisesse - e disse-me timidamente, com o cigarro famoso apagado entre os dedos, que os nomes não mos poderia dar, visto ser isso proibido pelo regulamento da casa. O auto rodava sempre, mastigando com as suas rodas denticuladas tudo quanto aparecia ante a sua fome insaciável, no fundo-gamela do caminho anfractuoso. íamos calados, mas era necessário, imperioso, que eu rompesse o silêncio e arrastasse, pela via sinuosa da minha curiosidade, um pouquinho mais a paciência do almoxarife. Era necessário, obrigatório mesmo; e, assim, continuei impiedosamente a chuchá-lo com as minhas perguntas: - Seria possível determinar todas as espécies de loucura desses 1.830 asilados? - Não é muito difícil, porque os fatores principais são dois: sífilis e álcool. A sífilis costuma mandar-nos para aqui 40% de loucos e o álcool outros 40%, que são 80, os 20 que restam aparecem por causas diversas. Enquanto o Sr. Mello levava mais um cigarro a ser sacrificado entre as tenazes dos lábios, eu rememorava, evocada por essa estatística, aquela célebre sentença italiana, pavorosa, mas que ninguém teme: Bacco, tabacco e Venere Riduce l'uomo a cenere. Um duque e um jornalista O almoxarife manda parar o automóvel. Estávamos na entrada de uma colônia. Ao penetrarmos de improviso no grande pátio que serve de área aos pavilhões de alojamento, uma chusma de loucos se amotina formando um burburinho estranho. Vozes roufenhas, esganiçadas, finas e grossas vibram num diapasão ininterrupto e confuso, entremeadas de palavrões obscenos, chalaças sórdidas, ditos populeiros de revoltante mau gosto, proferidos a esmo, inconscientemente. Naquele mostruário opulento de loucos, pude observar como a demência altera e deforma a fisionomia dos indivíduos. Todas as faces estão com os músculos secos, paralisados dolorosamente num ríctus apavorante. Os olhos - janelas por onde as suas loucuras espiam para o mundo - são todos estriados de listras sanguinolentas, e com os globos fora das órbitas; parecem órgãos que, não tendo podido enlouquecer, procuram fugir do corpo em que estão encarcerados. As bocas fazem, num segundo, mil trejeitos esquisitos, percorrendo toda a escala do estrabismo. A loucura até parece uma desgraça inteligente, uma infelicidade genial, porque começa a devastar o paciente naquilo que ele tem de mais perfeito e útil - a cabeça. Enquanto o meu espírito, aguçado pela curiosidade, peneirava naquela touceira da loucura, estava eu alheio aos tipos que de mim se acercavam - quando aparece e pára ao meu lado um homem alto e louro. Antes que eu lhe fizesse alguma pergunta, ele, com ares confidentes, completamente calmo, fazendo rodar os carreteis da mania, começou ao mesmo tempo a desfiar a linha embaraçada e cheia de nós da sua vida. Ensaiando uma difícil compostura, a fim de aparentar um homem fino, com o intuito de prender e interessar a minha atenção, foi aos poucos fazendo o despejo da sua loucura. E, sem mais preâmbulo, disse, no seu italiano misturado com português, o seguinte: - Estou aqui sem nenhum motivo, mas qualquer dia arranjo as malas e embarco para a Itália, porque eu sou o Duque de Módena, primo-irmão do rei da Itália. Lá, onde vive a minha família, tenho palácios, terras, bosques para caçar, cavalos, carruagem, cachorros de raça e outras belas coisas. Batendo-me no ombro, levemente, finalizou a lengalenga, visto ter-lhe eu demonstrado vontade de sair. E ainda exclamou: - Quando o senhor for à Itália, não deixe de me fazer uma visita. Afastei-me em direção à saída. O meu companheiro ia-me explicando que aquele doido viera de uma fazenda onde trabalhava como colono. Nisto, um homenzinho aproxima-se de nós às pressas e diz, esfregando as mãos descarnadas: - O senhor é jornalista, não é? Pois eu também sou jornalista e advo gado. Sou colombiano e chamo-me Lopera Berrio. O senhor deve conhecer- me de nome. Olhei fixamente para ele; está magro, devastado, bastante danificado pela idade e pela enfermidade que o retém aí no Hospício, mas era ele mesmo, o Lopera Berrio, que eu conhecera em Santos, aí por volta de 1910 a 1911. De fato, nessa época, um pouquinho menos louco do que ele é hoje, escrevia então na Tribuna, onde criara uma seção com o título agressivo de "Arranhões e Beliscaduras". Escrevia em espanhol, mas isso não o impedia de dizer aquilo que bem desejava. justamente por essa época, Saturnino Barbosa, que era então professor público em Santos, acabava de publicar uma celebérrima sarrabulhada, um poema esdrúxulo, heróico-bufo, intitulado A morte de Deus. O Lopera, que de há muito andava com o Saturnino atravessado na garganta, escreveu uma série de panfletos desancativos, à Vargas Vila, salpicados de sarcasmo carroceiral e desaforos de sarjeta; e o Saturnino, devorador de Deus, abalou para São Paulo e, desde então, nunca mais voltou a Santos, e creio mesmo que nunca mais teve notícia do Lopera. Saturnino, que matou Deus, para se vingar do colombiano, amargo e ríspido, parece que entendeu de fazer um pacto com o Diabo, porque ainda não conseguiu enlouquecer, como o infeliz do Lopera que deu com os costados no Juqueri. A sala dos miolos Às duas horas da tarde, após termos percorrido todas as colônias, fazendas e demais lugares do hospício, voltamos aos pavilhões centrais, onde fui ver o pavilhão das mulheres. A mulher louca impressiona mais do que o homem. Quis o acaso, talvez adivinhando a presença de pessoa estranha no local, que eu presenciasse uma cena comovedora de epilepsia. A doente, uma moça forte, com os seus traços de beleza ainda não deformados pela enfermidade, rola por terra e, aos estremeções e contrações nervosas, debate-se horrivelmente por espaço de alguns minutos. Presenciei esse fenômeno desagradável e saí a convite da pessoa que me acompanhava, para evitar que presenciasse a mais algum caso. Dali passamos para a sala dos miolos. Ao transpor a porta principal, um calafrio agudo relampagueou pela minha epiderme. O ambiente trescala uma tacitumidade catacumbal. Tudo é cinzento. Do silêncio gris que paira sobre tudo, exala-se um cheiro persistente de formol. As quatro paredes guarnecidas de prateleiras, do rés do chão até ao alto, estão todas cheias de vidros grandes e pequenos, que guardam, em conserva, fatias de blocos de miolos humanos. O médico encarregado desta seção vai me explicando: - De todos os loucos mortos aqui no hospício, e cujos cadáveres a família ou os parentes não reclamam, extraímos os cérebros para estudo. Enquanto ele ia explicando, enxertando na demonstração termos técnicos e frases arrevesadas do vocabulário anatômico, entretinha-me eu a ler os nomes dos antigos donos daqueles miolos, escritos em etiquetas e colados na face larga dos recipientes. Por sobre as mesas, outros cérebros ainda in teiros, dentro de vasilhames de vidros, aguardavam o momento oportuno de serem cortados e examinados. ¦ ¦ . Chamou-me a atenção um miolo enorme, ainda fresco, mergulhado voluptuosamente em formol, dentro de uma bacia de vidro. Como ainda não estivesse etiquetado, perguntei ao médico de quem era aquela fartura mioiar, pardacenta, raiada de veias escuras, congestionadas. - É do Serapião, aquele preto que esteve envolvido no crime de Cravinhos. Enlouqueceu na cadeia de Ribeirão Preto e morreu aqui no Juqueri. Saí como quem se liberta de um pesadelo. Fora, o sol, que tem hábitos democráticos de dar a sua luz gratuitamente a todos os mortais, envolvia em ouro quente o Hospício, como a querer iluminar, num gesto de suprema piedade, a razão imersa em trevas de todas aquelas criaturas humanas.

"Sobre 'O Ataque', jornalzinho dos vigiados no sanatório Três Cruzes. SUSSEKIND, Carlos & Carlos. Armadilha para Lamartine. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.



Publicado nos anos 1970 por uma editora que não existe mais, a Labor (e reeditado, sem menção à edição anterior, pela Cia. das Letras em 1998), Armadilha para Lamartine é um livro sui generis, como realização e como resultado: ele foi escrito por Carlos Sussekind Filho, em cima dos diários deixados pelo pai, Carlos Sussekind, ambos, em épocas diversas, claro, com experiências de internamento em clínicas psiquiátricas. Sui generis também no seu resultado estético: "um extraordinário romance", segundo Hélio Pellegrino, ou um testemunho com status literário? Ou nem uma coisa nem outra? Inclassificável, porém digno de nota, e só por isso - mais a adequação ao tema desta antologia -justifica-se a inclusão de um trecho do livro de pai efilho "anormais", que acabam se reencontrando na escrita. Um grupo de internos numa clínica resolve fazer um jornal e aí então... Quando Lamartine entrou no Sanatório, eu já aqui me achava havia um mês e meio e o O Ataque ia pelo seu quinto ou sexto número. A equipe se resumia no Mário Afonso, mais conhecido como "Jornalista", fundador e redator-chefe; o Professor Pepe, de letra muito bonita e que por isso era quem manuscrevia as edições; e eu, o ilustrador. Éramos só os três. Mário Afonso tinha enorme preguiça de escrever, daí a maior parte de sua produção para o jornal ter sido constituída pelo que ele mesmo chamava de "artigos-título". O artigo-título era um assunto em que ele percebia grandes possibilidades jornalísticas, mas de que se limitava a dar-me o título para que eu inventasse uma ilustração. O mais bem bolado, não há a menor dúvida, foi o que fizemos sobre "De médico e louco todos nós temos um pouco": aparecia um índio (o cocar de uma pena só, na cabeça, era a convenção de que nos servíamos sempre para caracterizar a personagem do Louco) apontando seu revólver contra um bandido de faroeste (o chapelão do Texas identificava o Bandido, ou seja, o Médico); este, por sua vez, desafiava o índio com um arco e uma flecha. A idéia era representar os dois em luta, cada qual empunhando a arma que havia tomado ao outro. Mário Afonso gostou tanto que decidiu converter o "De médico e louco" em lema do jornal - e, daí por diante, todos os números tiveram no cabeçalho o desenho do índio e o bandido se enfrentando com armas trocadas. Lamartine deu entrada no Sanatório com uma aparência horrível. Muito magro e abatido, a cabeça raspada a zero; e o tratamento de febres artificiais a que, de início, o submeteram, punha ele de tremedeira a qualquer hora do dia. Depois que parou de tremer, parou também com as bobagens de religião, sempre maçantes quando se apoderam do espírito de um doente mental. Escrevia uns poemas no gênero "Senhor! Senhor!" e vinha me mostrar para que publicássemos no O Ataque. Respondia-lhe que nem eu nem o Mário Afonso tínhamos qualquer simpatia por místicos ou abstratos. Ele conseguiu, afinal, vencer as resistências do Mário com uma poesia sentimental, a "Balada da Suave Cavalgada", que afirmava ter feito para a noiva. Quanto a mim, ainda não estava muito convencido de que o poeta dos "Senhor! Senhor!" pudesse ser um colaborador afinado com a orientação que imprimíamos ao jornal; até que começou a escrever o "Diário da Varandola" , uma série de imitações do Diário de seu próprio pai, o Dr. Espártaco M., personagem que não tardamos a acolher entre nós, em espírito, presenteando-o com o cocar do nosso carinho e da nossa fraternidade. Duas palavras sobre a "orientação que imprimíamos ao jornal": Na verdade, O Ataque t nba começado como um folheto de modinhas, com o "Jornalista" anotando as de que se lembrava e pedindo aos outros doentes que completassem as de que ele só se lembrava pela metade. Inclusive, nos números i e 2, o papel do ilustrador fora apenas de ornamentar os cantos das páginas com uma moldura de flores, violões e corações entrelaçados. A partir do número 3 foi que entrei em campo com os meus índios, numa infiltração por todas as brechas do jornal onde encontrasse espaço sobrando; lado a lado com o "jura", de Sinhô, a "Linda Morena", a "Loura queridinha, agora chega a tua vez de ser rainha", havia sempre um pele-vermelha em ação, pulando de alguma árvore e surgindo de surpresa, brandindo a machadinha contra soldados e vaqueiros, investindo a galope, rodeando as diligências; fle-chavam, queimavam, pilhavam, massacravam e perder não perdiam nunca. Mário Afonso aprovou a inovação e, assim que o Professor Pepe terminava de passar a limpo as letras todas, Mário vinha com as folhas e me ia mostrando os espaços vazios: aqui dá pra pôr um ataque, aqui outro, aqui outro... Foram os índios que deram o nome ao jornal, mas a identificação deles com os doentes (e dos pistoleiros com os médicos) só veio no número 7, com o artigo-título "De Médico e Louco etc". Sendo que, então, o seu cocar glorioso, de muitas penas, transformou-se no cocar dos perseguidos, de uma pena só. Nesse número 7 começou a série do "Diário da Varandola" e foi aquele tremendo sucesso. Aliás, uma confirmação do sucesso que já tinha sido a narrativa oral, quando Lamartine (abusando um pouco da nossa credulidade de doentes mentais) fazia de conta que estava lendo no Diário do pai por telepatia. Mário Afonso teve a idéia de publicar o "Diário" no O Ataque, e assim foi que começaram as implicâncias suas com o Lamartine - porque, em pouco tempo, os leitores passaram a se interessar mais pelo "Diário" do que pelas modinhas e os artigos-título, relegando o "Jornalista" a um modesto segundo plano dentro do seu próprio jornal. É que o "Diário" falava de coisas presentes, os comentários do pseudo Dr. Espártaco voltavam-se para as experiências do dia-a-dia (ainda me lembro da passagem em que, a propósito de uma entrevista com o Philips, médico de Lamartine, dizia Dr. Espártaco haver quase vomitado com o cheiro insuportável de um anticaspa nos cabelos do psiquiatra), era uma maneira de mostrar que o Sanatório Três Cruzes não estava desligado da vida e que era possível senti-la e partilhar dela, não apenas mergulhando na nostalgia de marchinhas e sambas-canções do passado. O efeito imediato que isso teve sobre o meu trabalho no O Ataque foi a já mencionada identificação dos índios com os doentes - e quanta coisa não se iria inventar a partir daí! Quis o destino que, nessa mesma época, Lamartine se apaixonasse por uma novata do Pavilhão dos Tranqüilos, dando para fazer diversas extravagâncias, como, por exemplo, arrancar flores do canteiro principal, no jardim do Sanatório, e arremessá-las à amada, aproveitando a hora em que ela descansava no seu quarto com a janela aberta e em que as freiras afrouxavam um pouco a vigilância porque tinham que almoçar. Mário Afonso não perdoou que Lamartine fosse infiel à sua noiva, evocada com tanto sentimento na "Balada da Suave Cavalgada", e resolveu dar-lhe uma lição, encarregando-me de desenhar uma história em quadrinhos (gênero que ainda não havíamos tentado no O Ataque) em que entrassem as flores arrancadas e arremessadas, as freiras correndo para segurar o invasor da ala feminina e este sempre desapontado com o fracasso do seu galanteio (a amada não aparecia à janela nem dava qualquer sinal de haver notado as flores). No último quadrinho, uma vez dominado o Lamartine pelas freiras, deveriam elas dizer-lhe: Miguel, Miguel, não tens abelhas e vendes mel? Objetei ao Redator-Chefe que não me agradava, na história, o aspecto "lição de Médico", "lição de Bandido", que outra não me parecia ser a lição que ele estava querendo dar ao Lamartine. E propus-lhe algumas modificações. Lamartine com o cocar na cabeça arrancava as flores, saía numa carreira até a janela de Inês (a sua deusa), jogava as flores lá para dentro, era agarrado pelas freiras (temíveis, de cinturão e revólver) e na janela não aparecia ninguém. Isso, duas vezes. Na terceira vez, ele arrancava as flores e, antes que chegasse debaixo da janela de Inês, vinha um quadrinho mostrando o que acontecia, naquele momento, dentro do quarto (das outras vezes, o interior do quarto não tinha aparecido): Inês reclinada em sua cama e o Psicanalista dela (Dr. Klossowski, o "Barba Ruiva") sentado ao lado, com um caderno na mão, tomando notas. Em seguida, o quadrinho de Lamartine arremessando as flores, as freiras chegando, Lamartine olhando para cima e - último quadrinho - a figura do Psicanalista assomando à janela, com flores nas mãos, outras embaraçadas nas abas largas do seu chapelão de Bandido, e uma expressão de irritação na cara toda. Moral arco-e-flecha: o aborrecimento causado ao Bandido compensava sobejamente a nenhuma resposta da Amada. Mário Afonso ficou contrariadíssimo com a supressão da fala das freiras, que considerava imprescindível (entenda-se: para a desmoralização do jornalista rival), mas acabou concordando em substituí-la por um desenho na primeira página - espécie de reclame da história em quadrinhos - onde aparecia o Lamartine (ainda mais baixote do que é na realidade) arremessando as flores para dentro da janela com um salto gracioso e a legenda (artigo-título?) "Homem pequenino: embusteiro ou bailarino". Engraçado foi que Inês se divertiu muito com esse número do O Ataque, tendo começado daí por diante a falar com Lamartine. A partir desse momento, também, ele deixou em paz os canteiros do jardim. Insistente no seu propósito de tomar as dores da noiva de Lamartine, Mário Afonso chegou a querer me convencer de que era eu quem deveria tirar partido do sucesso da historinha junto a Inês, já que fora eu o seu autor e não o embusteiro bailarino ("simples personagem"). Inês é muito bonita mas não é do tipo que me atrai. Muito dostoievsquiana nas suas angústias metafísicas e muito crítica. Do meu gosto, mesmo, é a enfermeira que aplica os eletrochoques, a Margô, loura de traços suaves e pernas grossas, o corpo afinando de baixo para cima, de formato piramidal. Mas essa só dá bola para os médicos. Um belo dia, Mário renunciou ao seu posto de Redator-Chefe do O Ataque e teve uma troca de palavras ásperas com o Lamartine, acusando-o de ser um ambicioso, de ter complicado inutilmente o jornal com malabarismos intelectuais e de dar um mau exemplo com a sua conduta licenciosa. Lamartine chamou-o para um abraço de reconciliação. Sarcástico, o "jornalista" afastou-se dele dizendo: - Muitos abraçam seus inimigos para sufocá-los! - O Ataque já tinha os seus dias contados, e só quem sabia disso era o seu ex-Redator-Chefe. O motivo que levou os médicos a proibirem o O Ataque foram as inconveniências publicadas e desenhadas na edição número IO, por sinal a mesma que determinou a renúncia de Mário Afonso. Nesse número 10 a participação do "Jornalista" havia sido mínima. Lamartine me dera para desenhar o roteiro de uma história em quadrinhos muito comprida que acabou tomando o número todo, com exceção da primeira página e de meia coluna na última; na primeira página, colocamos uma charge, concebida também por nós dois - de maneira que, para o Mário, ficou sobrando apenas a tal meia coluna no finzinho do jornal. Diga-se, a bem da verdade, que o Redator-Chefe havia perdido o interesse pelo O Ataque depois que azedaram as suas relações com os colaboradores e, para esse número 10, nem achamos que valesse a pena consultá-lo sobre a publicação da charge ou da história em quadrinhos. Mário Afonso vinha fazendo amizade com um doente que tocava violão (e que trouxera o seu para o Sanatório), um rapaz estudante de engenharia, Balbino, ou Balduíno, do Pavilhão dos Tranqüilos; esse rapaz já foi até embora, e da amizade deles nasceu um samba-canção com letra de Mário e música do estudante, intitulado "Algum dia fomos gente". Eram queixumes e lamentações sem fim, de que só a última linha me ficou na lembrança: "é bom ter amigos, querer bem até no Inferno!" Encaixamos o "Algum dia fomos gente" na meia coluna que estava vaga e fizemos circular a edição. Dois ou três dias depois, o "Jornalista" foi convocado sigilosamente para uma entrevista com o Diretor-Principal do Sanatório, o Dr. Górdon, estando presentes outros figurões da casa. Fizeram-lhe saber que a charge da primeira página era uma ofensa imperdoável que nem um louco tinha o direito de fazer à instituição e a seus dirigentes, que o jornal não poderia sair mais e que, se ele insistisse, ia ver o que acontecia. Mário Afonso deve ter apontado, na ocasião, os verdadeiros responsáveis, mas o certo é que ninguém sofreu nada daquela vez; limitaram-se a apreender o número 10. Veio, depois, a renúncia do Redator-Chefe e esse patife nada mencionou da entrevista que havia tido com Dr. Górdon. Nem eu nem Lamartine suspeitamos de qualquer ligação entre a sua renúncia e a apreensão do O Ataque. Estávamos convencidos de que era puro ressentimento de Mário Afonso por não ter sido consultado quando preparamos a edição e por considerar humilhante o espaço mínimo que lhe reservamos na última página. Como não nos animássemos a partir para uma nova edição na mesma linha do número 10 (ignorávamos a ameaça verbal feita ao Redator-Chefe mas não podíamos subestimar a ameaça implícita no ato de apreender o jornal), concordamos, Lamartine e eu, em participar da homenagem a Francisco Alves (um retorno ao folheto de modinhas, inofensivo, que fora o O Ataque em suas origens), iniciativa do estudante Balduíno a que o próprio Mário Afonso deu o melhor de seu entusiasmo, confiante, quem sabe, em que, dessa vez, nada havia que pudesse suscetibilizar as "autoridades". É de compreender o espanto com que vimos, depois, os médicos baixarem o pau em todos os que colaboraram nessa edição extraordinária. Lamartine foi o único que escapou dos eletrochoques, porque tinha recebido uma descarga na véspera. A charge tinha verdadeiramente que irritar os dirigentes da Casa: mostrava o Calvário, com Jesus Cristo crucificado entre os dois ladrões; na cabeça do Cristo, um cocar (mais exatamente, uma pena presa à coroa de espinhos) e, nas cabeças dos dois ladrões, os traços muito reconhecíveis do Dr. Córdon e do Dr. Astolfo, Diretores-Proprietários do Sanatório. Córdon, exausto, está sendo retirado da cruz com o máximo cuidado pelos serventes do Sanatório; algumas freiras, embaixo, esperam para vesti-lo, tendo nas mãos a cueca, a calça, a camisa, meias, sapatos e o chapelão do bandido. Ajoelhada a alguma distância da cruz de Górdon, com os olhos postos nele e as mãos unidas em fervorosa prece, a Madre Superiora acompanha ansiosa os lances do salvamento do Diretor-Principal. Na outra cruz, Astolfo, também mais morto do que vivo, está sendo atendido pela bela Margô, a enfermeira dos eletrochoques, enquanto aguarda a sua vez de ser salvo; Margô subiu por uma escadinha (recurso deste ilus-trador para pôr em evidência as pernas que tanto o fascinam) e faz o que é possível para reanimá-lo. Um freira pequetitinha (de frente para o leitor e ao pé do diretor-menos-principal) ficou com a roupa toda de Astolfo arrumada no seu braço esquerdo; o braço direito, esticado e imobilizado num ângulo de quarenta e cinco graus, segura o chapelão de abas largas com que, para salvaguarda do decoro, cobre as vergonhas do médico (a pobre é obrigada a se manter nas pontas dos pés). Na cruz do meio, Jesus está abandonado à própria sorte. Sorridente, como se pensasse: ainda bem que se esqueceram de mim! Palavras de Górdon (a Astolfo? aos seus salvadores? à Madre Superiora?): - Se sairmos desta, abrimos um sanatório e vamos à forra. A charge tinha como título "Origens do Sanatório Três Cruzes (I)". Pensávamos fazer uma série. Inês insiste muito num noivo que ela diz ter (mas diz rindo); Lamartine pede-lhe que descreva como é o rapaz, Inês manda-o amolar o boi; pergunta-lhe o que faz esse noivo que não vem visitá-la uma vez sequer, ela então responde que a família é contra. Na "Armadilha para Lamartine" a gente fazia aparecer o noivo no Sanatório, de madrugada, escalando um muro que dá para a ala feminina do Pavilhão dos Tranqüilos e indo procurar Inês no seu quarto para ajudá-la a fugir. Logo no primeiro quadrinho ficava-se sabendo que o misterioso personagem era o Dr. Klossowski (embaixo, a legenda: "O noivo que a família é contra"). Enquanto os dois se aventuravam pelo jardim deserto, Lamartine, debruçado à sua janela, onde estivera contemplando a lua, descobria tudo e resolvia segui-los sem que eles percebessem. Via-se, depois, o casal em fuga caminhando por uma imensa praia selvagem, com Lamartine sempre atrás, prudentemente a guardar distância. Nota-se Lamartine cansadíssimo; Inês e o Dr. Klossowski, radiantes, leves como plumas, percorrem a areia fina, de braços dados - ela sorri para ele, descansa toda no seu braço, fica indo e vindo nos passos dele... O sol ainda não apareceu no horizonte, mas já o céu está começando a clarear. A barba encaracolada do Dr. Klossowski era pintada em vermelho, tudo o mais nos quadrinhos sendo preto e branco. No olhar que Inês lança para trás, Lamartine tem a impressão de haver sido visto; deita-se e esconde a cabeça na areia. Quando se ergue novamente, os dois desapareceram. Lamartine suspeita de que tenham entrado em uma cabana, não muito longe dali. Hesita antes de abrir a porta da cabana, mas o ciúme e a curiosidade acabam vencendo os seus escrúpulos. A cabana era uma armadilha para Lamartine. Assim que ele entra, a porta se fecha e acendem-se luzes por todos os lados. Lamartine vê-se cercado de máquinas, numa sala muito ampla (legenda: "O Gabinete de Experimentos do Dr. Klossowski"). Está diante de um aparelho que o intimida. Dr. Klossowski: -Você se deita aqui, você vai fazer um vôo pela sala. É um teste. Se as condições do seu metabolismo forem boas, você fica girando em órbita e não há problema. Inês está assistindo, junto à porta. O psicanalista já pôs Lamartine nu e agora mostra a sua posição qual deva ser no aparelho: de barriga pra baixo, as costas voltadas para onde está a moça, o traseiro um pouco empinado. Lamartine: - Não, mas assim diante dela eu não posso. Não. Não. - Vamos - diz Dr. Klossowski ajustando-o ao aparelho. E ainda não era tudo. Para dar a partida, aproxima-se com um eletrodo em cada mão. Um ele lhe atarracha na boca e o outro no eu. Lamartine começa um vôo frenético pela sala. Não está em órbita nenhuma, passa em vôo rasante sobre Dr. Klossowski, este se agacha depressa e Lamartine bate com toda a força contra a parede, despencando dolorido para o chão. Com o choque saltaram fora os eletrodos. Dr. Klossowski apanha um e depois o outro, com cuidado, verificando se não sofreram avarias. Acomoda-os, em seguida, por baixo de suas próprias roupas e faz um sinal a Inês para que o acompanhe até uma pequena plataforma, aonde sobem, ambos, e ficam de pé, dando a frente um para o outro. Dr. Klossowski prende as pontas dos cabelos de Inês nas pontas de sua barba encaracolada, estreita fortemente o corpo dela contra o seu, beija-a com paixão e, no mesmo instante em que se faz ouvir um zumbido ensurdecedor, os dois, assim enlaçados, somem da plataforma. Furacão ou o que quer que seja, Lamartine agarra-se a um pé de mesa para não ser arrastado: eles estão voando em círculos dentro da cabana (legenda: "O vôo nupcial!"), velocíssimos, com impactos raspantes sobre as tábuas das paredes e as tábuas do teto, até que, vencidas todas as resistências materiais, o Gabinete de Experimentos vem abaixo. Desprendem-se da Terra os corpos imantados de Inês e do Dr. Klossowski e procuram nas alturas o seu destino celeste. Ao sentir na pele os primeiros raios diretos do sol, Inês se fixa, com espanto, na fisionomia do seu companheiro de ascensão: não é o Dr. Klossowski, mas Lamartine. - Você! - exclama ela, enquanto continuam a subir vertiginosamente. Lamartine explica-lhe que foi o seu noivo quem ficou lá embaixo entre os destroços da cabana. - (Legenda: "Um truque dos mais fáceis para quem tem poderes especiais".) Vê-se Lamartine transformar-se em Jesus Cristo, fazendo resplandecer o corpo de Inês com a luz intensa que Ele irradia. Os dois continuam subindo. Enquanto isso, no Sanatório Três Cruzes (legenda: "Liberdade! Liberdade!"), miríades de peles-vermelhas, dignamente cobertos com os seus coca-res de penas coloridas até o chão e montados em soberbos corcéis, escapam dos pavilhões saltando pelas janelas e pulando os muros. Os médicos atiram neles de espingardas, entrincheirados em posições estratégicas. O sol está nascendo. Os índios galopam na praia selvagem (de novo a legenda: "Liberdade! Liberdade!"), por onde passaram Inês e o Dr. Klossowski com Lamartine em sua perseguição. Infinitamente distante, no céu, vê-se um pontinho que brilha (Inês e o Cristo-Lamartine unidos nas alturas). Do pontinho saem dois "balões" com os seguintes dizeres: - Mas, e como vou saber se estou mesmo subindo aos céus, e que não é Você que me faz pensar que estou subindo? - Qual a diferença? O importante é estarmos juntos. Um final tão poético!

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