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quase não conviveu. Há dois meses começou a trabalhar em urna casa de leilões. Parou os estudos no segundo ano do colegial. Fez psicoterapia na adolescência, não gostava da terapeuta e interrompeu. Sente-se desanimada, angustiada, tem muito sono mas não dorme bem à noite. Quando o bebê morreu, emagreceu muito; ficou quatro dias sem comer quando encontrou o marido com a pessoa com quem ele tinha o relacionamento. Geralmente sente-se muito angustiada quando acorda e quando chega em casa. Tem vontade de morrer, mas não de cometer suicídio.

Com esta torrente de informações em uma primeira entrevista, M deixou clara a forte necessidade de uma terapia para o enlutamento, uma vez que a morte do filho, além do sofrimento naturalmente inerente a essa experiência, desencadeou um processo depressivo sério, que poderia ter repercussões negativas, diante de seus antecedentes emocionais. Quando foi chamada para uma entrevista de primeiro contato com o trabalho da pesquisa, quando a terapia familiar seria proposta, revelou que estava novamente grávida, no segundo mês de uma gravidez de risco, pois estava tendo hemorragias, tendo sido recomendado repouso, que ela não cumpria.


O relacionamento com P havia melhorado, pois ele lhe havia assegurado ter rompido o relacionamento extraconjugal. M havia se ressentido muito com o comportamento de P, por ocasião do parto e da morte do filho. P esteve ausente, não tendo dado a ela o apoio emocional de que necessitava. P tem um restaurante, o que o obriga a ficar fora de casa até de madrugada: quando chega em casa, M e os filhos estão dormindo, de modo que os contatos com ele são restritos. M passa o dia com sua mãe, na loja de leilões desta, levando os filhos consigo, porque os considera muito dificeis para que possa cuidar deles sozinha.


Considerando-se os fatos deste luto, é necessário levar em conta os seguintes aspectos:


a) tipo de morte: filho recém-nascido, com impacto muito maior em M, porém atingindo todo o sistema;


b) padrões familiares de união: fragilidade, sem relação de confiança entre o casal;


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c) flexibilidade do sistema: talvez fosse mais a quado falar flacidez, pois não há clareza ou consistência quanto a este aspecto, é mais um sistema sem coritornos.

d) comunicação, mitos e tabus sobre a morte: para M pela culpa que a situação lhe causou, começou a se criar o mito de que a morte é uma punição pelo descuido; os lhos foram informados da morte com uma história: “O bebê veio e foi embora, agora ele é uma estrelinha no céu”; esta gravidez, em seguida à morte, pode trazer o risco de transformar o bebê que nascer em um herói, mitificando sua, identidade;


e) recursos sociais e econômicos: o restaurante de P é a única fonte de renda básica para a família, embora receba suporte informal de sua mãe para, por exemplo, pagar assistência médica e as despesas do parto;


f) papel do morto no sistema familiar: o bebê nasceu de uma gravidez não desejada, uma vez que o relacionamento conjugal estava com problemas: não fica claro se M chegou a atribuir a ele o papel de unificador do casal;


g) relações familiares por ocasião da morte: como já dito, estavam em ruínas; P estava tendo um relacionamento extraconjugal, M sentiu-se (e parece que de fato esteve) muito abandonada; teve apoio de sua mãe tanto quando soube da notícia da morte quanto para as providências necessárias;


h) perdas múltiplas: não houve;


i) fatores simultâneos de estresse: houve ameaça de rompimento do casamento;


j) legado multigeracional de lutos não resolvidos: a morte da avó de M teve grande impacto sobre ela, pois moravam juntas e era uma relação muito positiva quanto à segurança afetiva; essa morte fez com que M voltasse a morar com sua mãe, com quem não se deu bem até recentemente; não há informações sobre outras perdas de impacto;

k) sistema de crenças da família: a partir de M, é um sistema de crenças primitivas, infantiljzadas, marcado por forte maniqueísmo que provoca profunda desorientação e frustração quando não resiste a um confronto com a realidade;


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l) contexto sociopolítico e histórico da morte: sem significado.

Diante deste caso, uma questão fundamental foi colocada: seria possível circunscrever a terapia à elaboração do luto, se o funcionamento familiar já vinha sendo tão arneaçado por soluções mal-empregadas? Era um casamento, segundo M, que não deveria ter acontecido porque ela


casou-se com P “por birra”, quando queria mesmo casar-se com um ex-namorado, de quem havia se separado por descobrir que tinha outra namorada. Na ocasião da terapia, ele vivia uma situação semelhante com o marido. A infidelidade de P, durante a terceira gravidez indesejada de M, sinaliza um ponto a ser mais bem entendido: o quanto essa é uma organização familiar que o exclui, nas três vezes, ou não permite que sua participação seja aceita na solução de problemas, o que o leva a se refugiar em uma relação talvez idealizada. Mesmo assim, é surpreendente a fertilidade do casal que, embora usando meios razoavelmente seguros de contracepção, engravida quatro vezes em cinco anos, ou talvez, mais do que uma questão de fertilidade, seja de ambivalência.

M afirmara desde o início que P não iria à Clínica, para qualquer que fosse o tipo de atendimento. Justificou essa decisão dele como sendo medo de ser acusado pelo comportamento durante os últimos episódios, pela infidelidade. Naturalmente, aí poderia estar tendo importante papel a necessidade de M de ter cuidados exclusivos para si, uma vez que estava deprimida e assustada. Os dois filhos vivos eram pequenos, dois e três anos, respectivamente, e foram convidados a participar, inicialmente para uma avaliação da relação de M com eles e também para verificar como a questão da morte do irmão-bebê estava sendo percebida por eles.


Foram realizadas quatro sessões, entre novembro e dezembro de 1991; a terapia teve de ser interrompida pois M decidiu fazer o repouso que lhe era exigido. P realmente não compareceu. M esteve sozinha nas duas primeiras sessões e com os filhos nas duas últimas. As sessões foram gravadas em videoteipe e não houve observadores através do espelho unidirecional, pois o horário disponível da famí –


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lia não se compatibilizou com o horário disponível da sala de observação.

Apesar de terem sido feitas tão poucas sessões, fato de a interrupção ter se dado para que M pudesse fazer o repouso foi significativo quanto a um resultado possível: a percepção de sua ambivaléncia e a disponibilidade para fazer o sacrificio (como considerado por ela) necessário Para não passar novamente pelo sofrimento de perder o bebê. Durante esse curto período, foi possível trabalhar a relação que estava se estabelecendo, no sentido de fazer desse bebê a reposição de Fo (11 dias), a partir do desejo, com freqüên cia encontrado em pais que perderam filhos, de dar a ele o mesmo nome. M começou a considerar um outro nome a dar, interessada em conhecer os significados atribuídos aos nomes.


Observando-se os filhos nas sessões, o que chamou mais a atenção foi a pouca disponibilidade de M para atendê-los nos pedidos que faziam e também para cuidar deles quando se expunham a situações de risco, como subir no espaldar e tentar ficar se segurando com uma só mão. Isso já é dificil para uma criança de três anos, mais ainda para uma de dois e ambos fizeram isso sem que M sequer se levantasse para se aproximar deles. De fato, encontrava-se muito deprimida, quase apática, com extrema dificuldade para se voltar para as necessidades dos filhos.


Não é possível afirmar sobre os futuros acontecimentos, caso M continuasse com a terapia. Com o que foi observado e trabalhado, fica a idéia de que não foi a terapia de uma família enlutada no sentido mais clássico, e sim, um trabalho preventivo para o bebê que ia nascer. Assim, ele poderia ter uma identidade desvinculada do irmão morto, que o precedeu. Quanto a Fo (3) e Fa (2), a partir do conhecimento sobre a conceituação de morte por crianças dessa idade, M foi orientada a falar com eles de uma maneira mais simples: “R acabou, não tem mais R”, sem associar com o bebê que poderia vir a nascer. Era, sem dúvida, uma situação delicada, pois essa nova gravidez, com a ambivalência que seria naturalmente esperada, estava em risco, acentuando a ambivajêneja crônica, por assim dizer, de M, quanto a ter filhos. O motivo que a levava a tomar os cuidados necessários para chegar com a gravidez a bom termo


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implicava a tentativa de substituição do bebê morto que, como dito, não seria saudável.

Ao mesmo tempo, o casamento estando abalado não só não oferecia a M a segurança necessária para o enfrentamento do risco como representava também uma ameaça. Com a recusa de P em participar, foi possível trabalhar apenas aqueles aspectos com os quais M podia arcar: cuidados consigo própria, não-mistura de identidade entre os dois bebês, medidas práticas nos cuidados de Fo (3) e Fa (2).


Pelos contatos telefônicos mantidos posteriormente, soube-se que M continuava em repouso, mesmo não tendo mais hemorragias. Havia contratado uma babá para os filhos e aceitava melhor as ofertas de colaboração de P. Ficou claro, no entanto, que tão logo tivesse maior autonomia após o nascimento do bebê, procuraria uma terapia, muito provavelmente individual no início, pois pudera perceber o quanto os conflitos atuais refletiam sérias dificuldades pessoais. O fato de buscar terapia individual devia-se muito também a sentir-se incapaz de envolver P em questões que dissessem respeito a ambos.


6. FAMÍLIA F


É composta por M (41), Fa (14) e Fo (12). P faleceu em junho de 1991, de enfarto do miocárdio, após curto período de sintomas (diagnosticados clinicamente como estresse), durante realização de exames. M procurou a Clínica Psicológica “Ana Maria Poppovic” a conselho de amigos. em abril de 1992, por sentir-se muito deprimida com dificuldades em superar o luto. P era contador em uma construtora, M era dona-de-casa, os filhos estudavam em colégio particular, residiam em casa própria.


Foi feita uma entrevista de triagem com M, após a qual, em outra entrevista, foi-lhe feita a sugestão de terapia familiar focada no luto, dentro desta pesquisa. Na segunda entrevista, foram levantados os pontos de avaliação.

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A morte de P havia sido repentina, em casa, na presença de M, enquanto os filhos estavam no colégio. M relatou sua reação de choque inicial, com grande dificuldade em aceitar a morte, tanto no momento em que havia dado, quanto no momento da entrevista, onze meses depois. Chorou muito durante o relato e informou que chora qualquer hora do dia, sem causa direta. Com freqüência julga ver P na rua ou nas estações do metrô, aproxima-se e verifica tratar-se de homem fisicamente semelhante a ele. tem vida social, embora antes da morte o casal fosse ativo, na igreja e no clube. M refere-se também a dificuldade para dormir. Atualmente trabalha em uma agência de turismo, em função administrativa e comercial. Sente-se muito ameaçada profissionalmente, pois há dias em que nao se ve em condiçoes para sair e falar com as pessoas.

Os filhos recusam-se a falar sobre P ou sua morte e não são muito estimulados por M nesse sentido, por ser também para ela uma experiência dolorosa. A relação que tinham com P, segundo informa M, era mais de temor do que de amizade, por ele ter sido muito autoritário. Há uma relação intensa entre as famílias de origem, particularmente com as avós. No lado paterno, há forte influência religiosa, quanto a rituais e sistemas de crença.


Quanto à relação entre M, Fa e Fo, o agravante está no fato de os filhos terem sofrido uma dupla perda, pois após a morte de P, M teve de voltar a trabalhar, deixando-os sozinhos por muito tempo e não tendo disponibilidade para acompanhar os deveres escolares. A família mudou-se da casa em que havia morado por muitos anos, o que ocasionou perda de contato com vizinhos de longa data. Atualmente, moram em pequeno apartamento, em bairro próximo ao anterior.


Os cuidados com os funerais foram tomados por um irmão de P, pois M ainda se encontrava entorpecida com a morte. A família toda esteve presente, além de muitos amigos que também compareceram ao velório e enterro.


A perda não parecia ter sido aceita, apesar das tentativas de ajuste às necessidades presentes. Enquanto M mostrava-se depressiva, Fo reagiu com muita atividade, o que também ocorreu com Fa, porém em menor grau. Ambos
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apresentaram notas baixas nos meses que se seguiram à morte de P.


Analisando os dados obtidos na primeira entrevista, percebi uma relação clara entre o tipo de morte — repentina — e outros fatores, até então desconhecidos, que haviam impedido a elaboração. A suspeita provável era da existência de relações ambíguas entre P e M. Parecia haver dois tipos de luto patológico em ação simultaneamente: M com o luto crônico e os filhos com o luto inibido. Não importava saber a causa desta simultaneidade e sim, como ela se dava. Se no sistema familiar, M carregava o luto crônico, ninguém mais precisaria ficar de luto, ou teria permissão para isso, daí a inibição por parte dos filhos.


Convém lembrar que M havia procurado ajuda psicológica para si, não tendo sequer pensado na possibilidade de seus filhos também precisarem. Era possível pensar, portanto que, ao tomar para si a função de “enlutada da família”, M não permitia que o processo se desse também com os filhos.

A morte de P fora repentina, após um curto período de exames, sem que a família tivesse informação acerca da gravidade de seu estado. Essas duas situações são, em si, consideradas como complicadores para a resolução do luto, a partir da literatura apresentada neste trabalho.


O padrão de relação da família era marcado por rigidez na hierarquia, sendo P o chefe, controlador, exigente, aquele que ditava as regras às quais M e os filhos se submetiam, não sem contrariedade. No caso particular da relação entre M e P, as concessões feitas por M (“dançar conforme a música”, como ela dizia), que abafaram sua potencialidade para não criar problemas, aliadas à experiência da morte repentina de P, estabeleceram as condições do luto crônico. No entanto, no que se refere a Fa e Fo, a relação com P não tinha essa característica de submissão e ambivalência. Marcava-se pelo exercício da autoridade, muitas vezes inconsistente, com a conseqüente reação dos filhos.


Considerando-se o momento do ciclo de vida fanilliar, há um impacto importante que não pode ser negligenciado nesta análise: o casamento de 17 anos era estável, P era estável profissionalmente e havia galgado uma boa posi-

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ção na empresa, os filhos entravam na adolescência sei problemas significativos e M via-se diante do impasse de obter sua autonomia e diferenciação de volta, de acordo com seu potencial — via atividade profissional — ou continuar sendo o elemento complementar de P. Este era um ponto de atrito na relação, o que torna compreensível a ambivalência de M para P. Este não aceitava ajuda, nem admitia ser objeto de preocupação; o sentimento de competência de M, tendo sido abafado ao longo dos anos, não podia ser usado quando necessário, como de fato não foi, na circuns.. tância dos exames e da morte, porque M estava convencida da competência exclusiva de P. Após a morte, quando voltar a trabalhar não é mais uma escolha, e sim uma imposição da situação, M permite — somente com o suporte da terapia — o desenvolvimento dessa potencialidade e o surgimento do outro lado da relação ambivalente, o ressentimento.

Sem dúvida, esse foi um período muito angustiante, que se refletiu na relação com os filhos, no âmbito doméstico e na atitude de M ao impedi-los — contraditoriamente ao que parecia — de ir às sessões terapêuticas. M tentava preservá-los dessa ambivaléncia, como se pudesse contaminálos. Isso explica a razão das faltas dos filhos e de sua alegação de que não precisavam de terapia. O papel de “enlutada da família” foi mesmo por todos atribuído a M. Esta, por seu lado, conquistava o espaço necessário para as reparações e reformulações possíveis. Fa e Fo abrigavam-se da dor, ao mesmo tempo que, saudavelmente, iam se colocando no caminho de adolescentes, passando a exigir de M que assumisse o papel de “autoridade da família”. Foram, dessa forma, co-terapeutas de M, mesmo fora das sessões.


Este paradoxo era trabalhado na terapia por meio da minha posição como terapeuta pois, ao mesmo tempo que insistia na presença de Fo e Fa, não deixava de envolver M nas questões de aceitação da perda e reformulação da nova realidade, consigo e com os filhos.


O envolvimento de Fo com atividades esportivas e sua possibilidade de ser bem-sucedido e colaborador com a equipe significaram uma derivação importante para a questão de limites, regras, autoridade. Do ponto de vista afetivo, muito provavelmente fará bom uso desse tipo de suporte social. Como é próprio de adolescentes do sexo masculino na


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nossa cultura, tende a reproduzir o papel masculino que absorveu de P (o que de fato estava ocorrendo), mas M, em sua luta por uma nova identidade, está no caminho de poder ajudá-lo a se tornar um homem mais seguro, que não precisa de autoritarismo para garantir sua posição.

Até em outros pontos de identificação com P, ao menos no plano da mitologia familiar (“O gênio dele é ‘triste’, como o de P”), M chegou a poder perceber que há mais vantagens em se relacionar com Fo no que ele difere de P. Isso apenas foi possível para M, no entanto, quando ela percebeu que não só lhe era permitido ter raiva de P por tê-la “poupado” (palavra que muito a irritava, pois traduzia claramente o duplo vinculo entre ambos) como também era necessária essa permissão para que pudesse se perdoar pelo que considerava suas omissões no momento da morte: “seu eu tivesse ido ao médico”, “se eu tivesse percebido a gravidade” e outras de igual teor.


Quando M percebe que seu luto é diferente daquele vivenciado pelos filhos, porque cada um perdeu uma pessoa diferente, embora fosse o mesmo P, ela pode desobrigá-los de entrar em sua cronicidade, assim liberando-os para seguir seu curso natural.


Um aspecto extremamente positivo foi a vinculação de M ao emprego, o que lhe permitiu desenvolver novos interesses, buscar conhecimentos que preenchessem as lacunas de informação que percebeu ter, sem se lamentar ou se recriminar por isso. Sua vida social intensificou-se a partir da profissional, o que também repercutiu no âmbito familiar, pois fez com que os filhos a vissem como uma pessoa/mulher e não apenas como a mãe que deveria estar em casa para servi-los. Ainda que de forma incipiente, M começou a mostrar desejo de ser bem-vista por pessoas de sexo masculino. Sua apresentação pessoal mudou muito durante o processo terapêutico: iniciou com roupas extremamente sóbrias, até que no final apresentava-se com roupas leves, em cores claras, mostrando um evidente cuidado com esse aspecto e, numa outra visão, a libertação da imagem de viúva.


Quanto ao uso de rituais, houve uma tentativa inicial, marcando a celebração da data do primeiro aniversário da morte de P. Foi proposto um ritual de despedida, por


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meio de uma missa que tivesse o caráter de uma cerjmô de adeus. No entanto, como a família (excetuando-se a f mília de origem materna) já era super-ritualizada, não utilizou essa proposta como uma possibilidade de mudança. a partir da constatação da perda. Essa super-ritualização da família tinha muito mais os contornos de tarefa, . obrigatoriedade e repetição não refletida. A partir da primeira tentativa, então, optou-se por não colocar o ritual duma forma tão explicita e sim venficar as possibilidades para que junto com a descronificação as despedidas pudessem acontecer. De fato isso se deu quando M pode rever e avaliar os objetos que a mantinham presa a memorja de P. Nesse processo ela deu novo significado aos objetos mantendo alguns e se desfazendo de outros de maneira a poder ver que cercar-se deles não era ter P de volta e sim, seu fantasma. Este foi um momento importante no processo, no que se refere à aceitação da perda e à reorganização da vida considerando que a perda se deu.

Para os filhos, esse processo de M trouxe uma nova possibilidade de relação entre eles e M: se ela pode sair do luto crônico, pode vê-los em suas necessidades e liberá-los para viver seu próprio luto.


Assim sendo, o processo terapêutico da Família F foi considerado com tendo chegado ao seu término, dentro do que era proposto para uma terapia familiar breve focada no luto. As questões até então pendentes, tais como: a relação entre M e os filhos adolescentes, estabelecimento de limites, divisão de tarefas, não se revestem das características do luto patológico. A elaboração possível coloca-as no caminho da resolução.


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VI – Conclusões

“Mas a minha tristeza é sossego. Porque é natural e justa.”




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