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(Chuva oblíqua, Fernando Pessoa)
Com a finalidade de enriquecer as conclusões deste trabalho, resumi o atendimento das seis famílias quanto a sua descrição, avaliação das condições do enlutamento, processo terapêutico e resultados.


  1. FAMILIA A

P e Avó foram à clínica encaminhados pela escola de Fo (12), devido aos freqüentes episódios de intensa agressividade, sem causa identificável. Fo (12) já havia se submetido a psicoterapia, aos oito anos, interrompida por dificuldades financeiras. As crises de Fo começaram quando ele tinha sete anos, nunca cessaram, provocando mudanças de escola, até o momento em que a escola atual exigiu atendimento psicológico. Fa (17) parecia estar bem, ou seja: sem queixas que preocupassem P e Avó, embora P a consideras-


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se “muito fechada”, havia repetido o primeiro ano do Colegial e agora estava no segundo. Fa (14) apresentava troca de palavras, tinha tido duas repetências, na terceira e na quinta séries, estando na sexta série. Fo havia repetido a primeira e a quarta séries, que cursava na época. M havia falecido cinco anos antes, de câncer de mama, após um intervalo de quatro anos entre o diagnóstico e a morte. Avó justificou sua presença na entrevista pelo fato de, desde a morte (.a M, haver colaborado com P na administração da casa e no cuidados dos filhos.

Analisando os dados da entrevista inicial, verifiquei que em nenhum momento fora feita a associação entre crises de agressividade de Fo e a morte de M; as crises começaram no mesmo ano da morte, o que é muito sugestivo de uma reação de luto comum em crianças, por não saberem identificar e expressar adequadamente as emoções da perda. Também as primeiras dificuldades escolares de Fa (14) tiveram início no ano da morte de M, corroborando o conhecimento sobre as reações de luto encontradas em crianças estreitamente relacionadas a aprendizagem como por exemplo, dificuldade de concentração. Os informantes buscaram ajuda para Fo apenas porque foram pressionados pela escola, pois não valorizavam seu comportamento como merecedor de cuidados. Cinco anos após a morte de M, haviam ficado muitas questões para serem aprofundadas a respeito do funcionamento familiar. Avó mora em sua própria casa, não com P (que é seu filho), mas tem funções “maternas”, como comparecer às reuniões de pais na escola dos netos. Seu papel não parece claro.


Foram realizadas 12 sessões, no período compreendido entre maio e agosto de 1991, com freqüência semanal e sessões de 50 minutos. Não foram gravadas em videoteipe mas houve observação por dois auxiliares de pesquisa, via espelho unidirecional. A família sabia da existéncia dos observadores e concordou com esse procedimento. Houve uma interrupção de três semanas entre a quinta e a sexta sessões, período em que p passou por uma cirurgia oftalmológica. Avó compareceu a todas as sessões; P e Fo, a todas, menos à última; Fa (17) esteve ausente na primeira, na décima e na última; Fa (14) esteve ausente na décima e na última.


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A morte de M ocorrera após um longo período de doença durante o qual os recursos financeiros da família haviam sido canalizados para o tratamento, o que significou um fator de estresse simultâneo. Após a morte, as crianças foram transferidas de uma escola particular para uma pública, que acarretou outra perdada quebra de vínculo com professores e amigos. Quando M morreu, os filhos tinham, respectivamte, dez, sete e cinco anos e, quando a doença foi diagnosticada, tinham seis, três e um ano. Em particular Fo cresceu ao lado de M doente e é possível pensar que provavelmente ela tinha pouca disponibilidade para ele. Também as filhas sentiram isso, e os três filhos, cada um com os recursos psicológicos próprios à sua fase de desenvolvimento, viveram esses quatro anos de estresse anteriores à morte da M.

M era muito ligada à Avó, sua sogra, que é até hoje vista por todos como a cuidadora. O contato com a família materna já era restrito antes da morte de M, alegadamente por morarem no Interior de São Paulo, e ficou ainda mais. Um fato que P teve muita dificuldade em relatar foi que sua sogra, logo após a morte de M, pegou as roupas dela sem consultá-lo e atualmente as dá para Fa (17) e Fa (14). Dentro do papel de cuidadora que a Avó tem, por três ocasiões ela foi a pessoa que cuidou de doentes que morreram ao seu lado: mãe, marido e M. Isto é visto como “sua sina” (sic).




A família é católica, não praticante. M teve rituais católicos para velório e enterro. A única data relacionada à morte que é lembrada é o aniversário, nenhuma celebração especial é feita, apenas Avó vai à missa no dia.
Avaliando, então, a família quanto ao luto, verifiquei o que se segue:

a) tipo de morte: após cinco anos de doença, câncer de mama, com incidência hereditárla;


b) padrões familiares de união: família ambivalente quanto aos movimentos de abertura e fechamento a novos relacionamentos;

c) flexibilidade do sistema: pouca flexibilidade, rígida tentativa de manter a vida como se nada tivesse acontecido; negação imposta ao sistema, em especial por P;


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d) comunicações, mitos e tabus sobre a morte: entre P e M houve uma encenação sobre o diagnóstico e prognóstico, ninguém falava sobre o perigo de vida de M; filhos e P não se lembram de onde os filhos estavam no da morte; as idas ao cemitério são raras e marcadas po muito sofrimento;
e) recursos sociais e econômicos: família de classe média, tendo sofrido uma queda no padrão após as despesas com o tratamento de M: o âmbito social é bastante restrito, não trazendo suportes significativos;

f) papel do morto no sistema familiar: M era jovem quando foi diagnosticada a doença e tinha com a família uma relação aparentemente sem conflitos; muito mais ligada à sogra (Avó) do que à família de origem, passou do papel de cuidadora para o de cuidada;

g) relações familiares por ocasião da morte: sem outros conflitos além dos da perda; a relação de P com Avô, que já era dificil antes até do casamento, tomou-se e se manteve atritada, pela posição ambivalente de P quanto a aceitar a ajuda de Avó;

h) perdas múltiplas: em razão da queda no padrão econômico, as filhas foram transferidas de escola, perdendo contato com amigos; a família mudou de moradia, embora permanecendo no mesmo bairro;

i) fatores simultârieos de estresse: não houve, além dos mencionados em h), perdas múltiplas;

j) legado multigeracional de lutos não resolvidos: P teve experiência muito dolorosa na infância, com a perda das duas avós e de uma tia, o que provocou uma revolta de caráter religioso; quando seu pai morreu, P era solteiro, reagiu com muita agressividade contra Avó, como se ela fosse culpada pela morte;


k) sistema de crenças da família: basicamente norteados por uma moral burguesa, valorizam as conquistas de caráter material e pautam seu comportamento por essas idéias;

l) contexto sociopolítico e histórico da morte: sem significado para a família em questão, até que se some a


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dupla perda que a morte de M lhes trouxe: perda afetiva e perda de status.
Nas sessões, embora todos soubessem que estavam reunidos para trabalhar o luto pela morte de M, com freqüência P dizia ficar chocado com a naturalidade com que me referia ao fato, parecia querer ouvir eufemlsmos em lugar de: “no dia em que M morreu” ou “M morreu de câncer”. Fa (17) teve a dificuldade mais nítida em falar sobre a morte: faltou à primeira sessão e na segunda chorou muito; fazia observações adequadas sobre as reações emocionais da família (por exemplo, em relação a Fa (14): “Essa aí fica fazendo gracinha para não chorar.”), mas foi preciso que se sentisse muito amparada pela minha atitude para poder falar sobre M. Fo, embora parecesse alheio, esteve muito atento e fez também comentários pertinentes; quando se emocionava, buscava o colo de P ou da Avó. Fa (14) realmente usava esse comportamento de “fazer gracinhas” para se afastar das memórias e do impacto que tinham na sessão.

Quanto às fases da terapia, a demarcação inicial sobrepôs-se à extemalização. A família toda parecia pedir uma condição continente para lembranças (e, muito freqüentemente, esquecimentos), de maneira a não soar acusatória em sua dor. Um conflito permeou todo o atendimento e mereceu encaminhamento específico ao final: P e Avó nitidamente se relacionavam com muita ambivaléncia, no sentido de aproximação/afastamento, dependência/independência; assim, Avó era solicitada a ajudar P com os filhos, ao mesmo tempo que era criticada por fazê-lo: P era criticado pelo esforço absoluto para não precisar de ninguém, ao mesmo tempo que Avô queria tempo e espaço para si mesma, para ter atividades e desenvolver interesses próprios de sua idade.


Os momentos marcantes ocorreram principalmente quando os filhos começaram a perguntar a P e Avó sobre a doença de M, acrescentando e corrigindo suas lembranças. O andamento da terapia levou à realização de um ritual que envolveria a participação de todos, cada um à sua maneira:


a feitura de um álbum de fotografias de M. A razão para ter sido esse o ritual escolhido foi que, durante a terapia, surgiram as já mencionadas lembranças distorcidas (grandemente pelo tabu em se falar na doença), ao mesmo tempo que os
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filhos começaram a falar de legado: Fa (17) tem os cabelos de M, Fa (14) troca palavras e faz piadinhas como M, ambas filhas poderão ter o mesmo tipo de cãncer de mama. Também teve peso o fato de na sala do apartamento da familia haver uma foto de M, que Fa (17) sempre evitava olhar, O aspecto simbólico desse ritual estava em rever memórias e colocá-las em lugar apropriado, não mais no co tidiano.

A leitura do álbum foi o meio pelo qual muitas questões da história da família foram abordadas: ele era feito fora das sessões, mas discutido nelas, com tudo o que hav provocado. Paralelamente, questões que fugiram do contexto do trabalho começaram a surgir, como: limites quanto horário para chegar em casa, mudança de colégio, liberdade sexual. Na tentativa de manter o foco no luto, essas questões não eram aprofundadas, apenas devolvidas e recontextualizadas, ou seja: aquela família, com a composição que lhe era própria, poderia chegar a uma solução.


Houve uma experiência importante que reativou tigas angústias. Entre a quinta e a sexta sessões, P teve. que se submeter a uma cirurgia oftalmológica para extirpção de um tumor que, após biópsia, foi diagnosticado como benigno. Por poderem levar as angústias para o contexto terapéutico, todos da família perceberam como se sentiam frágeis, apesar das tentativas em contrário.


Ao término do álbum foi encerrado o atendimento. As informações vindas do colégio de Fo (12) eram de que ele havia apresentado grande melhora no comportamento, com as crises de agressividade diminuídas quase totalmente. Fa (17) falava livremente sobre M, ao mesmo tempo que fazia pressão para que P a visse como uma jovem responsável, liberando Avó para seus próprios interesses. Esta foi encaminhada para o grupo de terapia para Terceira Idade, na Clínica Psicológica “Ana Maria Poppovic” da PUC-SP, para facilitar sua inserção em um grupo de referência que lhe fosse mais próximo.

O trabalho foi considerado satisfatório, pois atingiu os quatro objetivos básicos da terapia do luto familiar. Muito possivelmente, esta família mais tarde venha a se beneficiar de terapia, não mais especificamente relacionada ao
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luto e sim, para auxiliar nas passagens, que são vividas com dificuldade principalmente pela necessidade de P em manter todos os eventos sob controle. Na tentativa de evitar esse impacto negativo sobre os filhos que atuaram de forma propulsora para a mudança, P foi encaminhado para terapia individual, o que vinha pedindo e que, conseqüentemente, aceitou prontamente.

A queixa que levou à terapia (agressividade de Fo) é encontrada com freqüência no caso de crianças enlutadas, que não dispõem de meios adequados para expressão de suas emoções. Ainda mais se for levado em conta que vivernos em uma cultura onde não é permitido ao homem chorar. ao mesmo tempo que é estimulado a ser forte, valente, não raro se dá a substituição do choro pela agressividade.


P relatou o que é bastante comum entre viúvos: a necessidade imediata de ter uma companheira. Quatro meses após a morte de M, instalou uma namorada em casa, o que hoje reconhece ter sido “encontro de dois carentes”. A relação durou pouco, seguida por várias relações efêmeras, até a atual, que existe há dois anos, embora morando em casas separadas (ou por esse motivo).


Fa (17) teve sua própria maneira de mostrar como elaborou o luto por M. Era constantemente feita a comparação por semelhança entre o cabelo das duas, elogiando- se a beleza, o comprimento etc. Após uma sessão particularmente dificil para Fa (17), ela tingiu os cabelos que, de castanho-escuro, ficaram loiros. Justificou com o desejo de não mais ser morena. Ou seja: de ter sua própria identidade, não mais precisando se assemelhar a M para retêla consigo.


Fa (14), que também apresentava semelhança com M, não tanto no plano fisico, mas na personalidade, como forma de aproximação e retenção da figura de vínculo perdida, entendeu seu processo e pode incorporá-lo nas mudanças que se processavam. Isto ficou nítido quando parou de fazer comentários jocosos sobre o choro de Fa (17) ou a tensão de P e pode, ela mesma, chorar quando da elaboração do álbum.


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  1. FAMÍLIA B

Foi encaminhada para a Clínica Psicológica “A Maria Poppovic” da PUC-SP pela fonoaudióloga de Fo(5) que o trata em razão de grande atraso na aquisição e no .de senvolvimento da linguagem. Essa profissional, ao tom conhecimento da história familiar, teve sensibilidade Para perceber que um atendimento familiar era necessário.


P fora assassinado por um ex-vizinho, em um acerto de contas. Foi um crime violento, P foi esfaqueado na esquina próxima de sua casa, ainda conseguiu andar até o portão de casa, onde caiu, sendo que Fa(12) e Fo(9) viram quando chegou ferido. Morreu a caminho do hospital. M estava no nono mês de gravidez e, entre a data do crime e o nascimento de Fo (5), dez dias mais tarde, parou de sentir os movimentos do feto, o que a fez pensar que ele também estivesse morto.


Atualmente, M trabalha como copeira em uma empresa próxima à casa e as crianças vão à escola; à tarde ficam sozinhas quando estão em casa. M não formou outro vinculo conjugal, de forma que a família é constituída pelos quatro. Uma irmã de M mora próximo e colabora nos cuidados dos filhos.


O atendimento teve início em fevereiro de 1992, com uma sessão semanal de 50 minutos de duração. As sessões foram gravadas em videoteipe e também observadas por três auxiliares de pesquisa, através do espelho unidirecional. Todas as vezes, a mesma caixa lúdica foi colocada na sala, objetivando facilitar a comunicação das crianças. Pela história colhida na primeira entrevista com M, ficou claro que apesar de decorridos cinco anos (ou talvez por causa deles), a questão da morte de P ainda mantinha a família em uma situação de estresse, os filhos apresentavam distúrbios de sono, com insônia e pesadelos, Fo (9) tinha problemas de aprendizagem e havia ainda o atraso de linguagem de Fo (5). Principalmente, M sobrecarregava-se com a dupla função, profissional e materna, com dificuldades tanto em uma como em outra, com freqüência dando a Fa (12) o papel de filha parental.
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Quanto ao atraso de linguagem de Fo (5), exames audiométricos não apontaram causa orgânica.

A partir dos pontos de avaliação da família quanto ao luto, verifiquei o seguinte:


a) tipo de morte: violenta, repentina, assassinato;

b) padrões familiares de união: P muito ligado a Fo (9), relacionamento marcado pela violência fisica de P para os demais; único casamento de P e M;
c) flexibilidade do sistema: possibilidade de troca de papéis ocasião em que P, desempregado, ficou em casa cuidando dos filhos, enquanto M trabalhava fora; Fo (9) foi atropelado, M deixou o emprego para ficar com ele e P foi trabalhar;
d) comunicações, mitos e tabus sobre a morte: os filhos não perguntavam sobre a morte para a mãe, vieram a falar sobre isso na terapia; há o mito (por parte das crianças) de que o assassino, que está solto, é ameaçador e pode matá-los a qualquer momento; é possível dizer que, mais que um mito, essa crença tem base na realidade, com possibilidade de concretização; Fa (12) teve que ir depor muitas vezes, por ter testemunhado o crime, o que a faz atualmente falar sobre isso sem emoção;

e) recursos sociais e econômicos: moram vizinhos a uma tia materna, com quem sempre estão; ela porém estava para se mudar de lá e também a família B, o que acarretaria despesas; a família tem uma renda total de dois salários mínimos, um pelo salário de M e outro pela pensão de P; não moravam em casa própria e estavam prestes a ser despejados;

f) papel do morto no sistema familiar: dava as regras e exigia seu cumprimento de forma rígida; controlador da esposa; é importante ressaltar que tinha papel semelhante na comunidade, o que, de certa forma, provocou sua morte; era o “valentão”;
g) relações familiares por ocasião da morte: estavam com a perspectiva do nascimento do terceiro filho, aparentemente as relações estavam bem;
h) perdas múltiplas: não houve;
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i) fatores simultâneos de estresse: M, no nono mês de gravidez, parou de sentir os movimentos do feto, durante dez dias, até o nascimento; apesar de já ter dois filhos, considerou que esse fato poderia ser normal na fase fina] gravidez; parto normal;

j) legado multigeracional de lutos não resolvido embora não tenha sido possível traçar um genograma c pleto, por falta de informações além das de M, ficou o fa de que, do lado materno, muitas mortes foram repentinas e violentas, como acidentes de caminhão (avô materno): no entanto, as relações familiares com família de origem estavam fragilizadas, pois M morava em São Paulo desde a época de seu casamento, não tendo contato com a família , no Nordeste;


k) sistema de crenças da família: dadas as condições socioeconômicas, de imigrantes nordestinos, as crenças pautadas por idéias como: estudo é alavanca para sucesso; presença masculina dá força e respeitabilidade; julgamentc da comunidade regra comportamento moral; religião não parece ter impacto sobre a família;

l) contexto sociopolítico e histórico da morte: é importante ressaltar o quanto esta família se sente submissa a um sistema social que não protege o mais fraco e sim, acusa-o por sua fraqueza: o criminoso fugiu da prisão, como disse que faria, a família se sente ameaçada por ele e, quando recorre ao sistema, não encontra apoio; a comunidade (vizinhos) ameaça colocar Fo (9) na FEBEM, quando ele se comporta mal (por exemplo, subir no telhado do vizinho, para se proteger de uma tentativa de estupro), porque ele não tem pai para lhe ensinar o que é certo! A morte de P situa-se no triste contexto de um acontecimento atual no Terceiro Mundo, banalizado pela freqüência com que ocorre.


A partir destes dados, o que ficou relevante para a terapia foi a necessidade de contextualizar as queixas individuais (e mesmo comportamentos não valorizados como queixa, pela família) como pertinentes a um corpo de reações de luto. Por exemplo, Fa (12) e Fo (9) assistem televisão até a madrugada, principalmente filmes de terror, e têm pe-


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Sadelos, com freqüência tendo o assassino do pai como protagonista principal, que invade a casa para matá-los. Outro exemplo: a dificuldade de M em se situar como mãe, profissional e mulher, não se vinculando a outro companheiro porque depende da aprovação deste por parte dos filhos. Fo (9) comporta-se de maneira que M identifica como muito seinelhante à do pai, o que justifica por terem os dois sido muito ligados.

Num momento posterior, na quinta sessão, foi trabalhada uma questão que tocou em um ponto muito frágil, em particular para M. O objetivo dessa questão era colocar a família diante da realidade da morte e das condições atuais de vida: “Como seria a vida de vocês se P ainda estivesse vivo?” M respondeu mostrando-o de forma idealizada, o companheiro, o provedor, a figura forte, de quem ela sentia muita falta. Fa (12) e Fo (9), no entanto, trouxeram um aspecto que se revelou intolerável para M: a violência fisica de P, o quanto ele a agredia e também os filhos, fisicamente. Começou a ser possível falar dos sentimentos ambivalentes que essa morte provocou: alívio e pesar. A partir dessa sessão, a família não mais compareceu e, quando contatada pela telefonista da empresa onde M trabalha, justificou-se inicialmente informando que as crianças estavam doentes e, após a terceira semana, que M não queria mais comparecer. Enviei-lhe uma carta registrada na qual dizia que sua reação era compreensível, pois estava se defrontando com situações de dor não somente sua, mas também dos filhos. Era reforçado o convite para que viesse, mesmo que lhe fosse dificil, para que pudesse ser ajudada. Não houve qualquer tipo de resposta à carta.


Essa desistência foi entendida como uma reação não apenas à dor, mas principalmente à intolerável consciência da ambigüidade de seus sentimentos em relação a P. Para M, por estar arcando sozinha com a criação dos filhos, enfrentando os preconceitos culturais, por não ter aval masculino às suas ações, a ilusão de que P teria sido bom pai e bom marido permitia que ela permanecesse imóvel dentro da realidade. Quando ouviu dos filhos uma outra versão da realidade, atribuiu à terapia o papel de destruidora de ilusões, sem considerar a própria possibilidade de ser atuante sobre suas dificuldades (que naturalmente seria o próximo


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momento da terapia). Como agravante da situação, além tipo de morte, assistida por crianças de sete e quatro anos( não pode ser desconsiderado o fato de M estar grávida que é, em si, um fator inibidor do processo de luto, ao mesmo tempo que traz uma ambivalência emocional muito grande, o que parece ter sido a nota básica desta família todo.

Apenas com cinco sessões, a comunicação verbal de Fo (5) melhorava consideravelmente, tomando possível compreensão, sem, no entanto, ter chegado ao padrão esperado para a idade, o que naturalmente não iria acontecer antes de um trabalho terapêutico mais prolongado.


3.FAMILIA C


Fo (14) foi levado a Clinica por uma tia com queixa de mau desempenho em Matematica e dificuldade genérica de aprendizagem Cursava terceira serie do Pnmeiro Grau tendo repetido duas vezes a segunda serie e uma vez a terceira serie M morreu quando ele tinha tres anos Fo (14) não sabia as condições ou causas da morte e sentia-se envergonhado em perguntar diante do tabu sobre morte existente na família. P casara-se novamente e morava em outro Estado Fo (14) estava morando com avó paterna, cinco tias e um primo havia seis anos Entre a morte da mãe e a ida para a casa da avó paterna, ficou morando curtos períodos com diversos parentes, tanto matemos quanto patemos, inclusive com padrinhos, sendo que o padrinho morreu assassinado e a avó materna também morreu, ambos no período de convivência de Fo (14) com eles.

A família teve dificuldade em entender a passagem da queixa escolar de Fo (14) para terapia familiar do enlutamento. Concordavam em vir, embora tivessem ficado dubitativos quanto á relação de sentido.

A história inicial de Fo (14) mostra muitas mortes e separações, além da grande instabilidade que marcou sua vida, com repercussões no plano relacional e cognitivo. E interessante observar a dificuldade de aprendizagem, quan -


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do vista a par com o não-saber a respeito da morte da M. Sentir-se envergonhado pode ter raízes em não encontrar abertura no meio familiar para expressar sua necessidade de saber e, conseqüentemente, de ter algum domínio sobre a perda.

Foram realizadas dez sessões, entre outubro e dezembro de 1991, com a presença constante de Fo (14) e Avó. Das tias houve alternância da presença, bem como de Pr. As sessões tiveram freqüência semanal, com cinqüenta minutos de duração, foram gravadas em videoteipe e observadas por dois auxiliares de pesquisa, via espelho unidirecional. A família concordou com este procedimento.

Considerando-se as informações obtidas, a avaliação do enlutamento mostra os seguintes pontos:
a) tipo de morte: a causa não foi esclarecida, mas está relacionada a um possível tumor uterino; era a segunda vez que M pensava estar grávida, fizera tratamento para engravidar novamente e na primeira vez havia sido detectado um tumor, que não precisou ser extirpado; na segunda vez, a situação foi semelhante, agravada por intensas hemorragias; entre M queixar-se de mal-estar e a morte, parece que se passaram dois dias; as informações não são claras, porque a família patema de Fo (14) não tinha muito contato com a família de Fo (14);

b) padrões familiares de união: quanto à família de origem de Fo (14), não há muita informação; genericamente, se diz que P, M e Fo se davam bem; atualmente, na família da Avó, há forte predominância feminina, com laços afetivos fortes, porém sem demonstrações fisicas. Fo (14) ocupa posição de destaque, é mimado pela Avó e pelas tias;

c) flexibilidade do sistema: a figura da Avó é central e mantém o sistema funcionando de acordo com seus movimentos; a flexibilidade é, portanto, reduzida, dadas as características de uma pessoa com muito medo da vida e da morte, dos movimentos naturais de crescimento individual e de mudanças no ciclo de vida familiar;

d) comunicação, mitos e tabus sobre a morte: especificamente sobre M, pouco é falado, porque pouco é sabido, mas, principalmente, devido ao grande tabu que cerca a


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questão da morte nessa família; todos a temem exagera mente, a ponto de estabelecer hábitos que a impeçam tocá-los, por exemplo: não ir a velórios, sair da sala quando se fala em doença e morte; Fo (14) foi proibido de executar seus rituais em relação á M: acender vela e rezar por ela;

e) recursos sociais e econômicos: é família de classe média baixa, todas as tias trabalhavam e era esperado que Fo (14) logo começasse a trabalhar também; as duas tias casadas moram próximo à casa da Avó, o contato é c não há dados acerca desse aspecto, quando M morreu;

f) papel do morto no sistema familiar: Fo (14) perdeu a mãe aos três anos, figura à qual era muito vinculado; M parecia mesmo ter esse papel agregador, pois, após a morte, a família se dispersou: Fo(14) foi morar com os padrinhos (tia materna e marido) e P casou-se novamente;

g) relações familiares por ocasião da morte: aparentemente, sem problemas, mais intensas com a família materna estendida;

h) perdas múltiplas: para Fo (14), em seguida à morte de M, separou-se de P quando foi morar com os padrinhos, o que também foi uma perda pois P casou-se e os contatos entre os dois hoje são raríssimos; posteriormente Fo (14) viveu a perda do padrinho — assassinado — e da avó materna;

i) fatores simultâneos de estresse: a mudança de Fo (14) para a casa dos padrinhos e a perda de contato com P;

j) legado multigeracional de lutos não resolvidos: a questão que impede a resolução do luto, na família da Avó, é o tabu que cerca o tema, muito mais que lutos anteriores não resolvidos:

k) sistema de crenças da família: muito marcados pelos valores advindos da religião católica, mas reduzidos a um estado primitivo de avaliação da realidade: problemas surgem porque ‘aqui se faz, aqui se paga” é uma idéia que convive com “os mortos precisam de oração, mas rezar não os deixa ir em paz”;


l) contexto sociopolítico e histórico da morte: não-relevante.
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