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Para aprofundar o conhecimento acerca desses pontos, utilizei com as famílias estudadas as questões sugeri- das por McGOLDRICK (1991):

a) As datas relacionadas à morte são vagamente lembras ou celebradas em ritos sagrados?

b) Os membros da família mostram-se à vontade para falar do falecido e das condições da morte?

c) Como os vários membros da família mostraram suas reações à morte? Choro? Afastamento? Depressão? Atividade exagerada? Conversam entre si sobre a morte?

d) Quem estava presente no momento da morte? Quem não estava, mas deveria estar? Quem viu e quem não viu o corpo?

e) Como estava o relacionamento familiar na época da morte?


f) Quem cuidou do funeral? Quem compareceu? Quem não compareceu?
g) O corpo foi enterrado ou cremado? Se cremado, o que aconteceu com as cinzas?
h) Quem vai ao cemitério e com que freqüência? Quem menciona o morto e com que freqüência? O que foi feito dos objetos pessoais do morto?
i) Há algum segredo sobre as causas e circunstâncias da morte? Esse segredo é para pessoas de dentro ou de fora da família?

j) Que mitificações ou mitos foram criados na família acerca do morto? Foi transformado em um “santo”?

k) Quais são as crenças culturais e religiosas sobre a vida após a morte? Como essas crenças influiram na compreensão do significado da perda?
Essas questões abrangem os pontos considerados mais vulneráveis ao estabelecimento de reações patológicas ao luto familiar, e contribuem também para uma visão ampla do padrão de relacionamento existente na família, antes e depois da morte.
Uma investigação no âmbito individual dos elementos da família também é feita, para averiguar a eventual
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presença de reações características do luto patológico, - possam interferir no processo familiar. Os pontos de avaliação sugeridos pela literatura são a seguir apresentados.

BOWLBY (1981) identificou traços em crianças que são semelhantes àqueles encontrados em casos de luto patológico no adulto. São os seguintes:


— ansiedade persistente: medo de outras perdas (principalmente de um dos pais), medo de morrer também;

— esperança de se reunir ao morto: desejo de morrer;


— culpa persistente;

— hiperatividade: repentes agressivos e destrutivos;

— cuidados compulsivos: por outras pessoas con autoconfiança exagerada;

— euforia e despersonalização;

— sintomas de Identificação: acidentes e queixas -- problemas de saúde semelhantes ao do morto.

De acordo com PARKES e WEISS (1983), outros pontos importantes a serem considerados são:


— nível de funcionamento em comparação com o nível de pré-enlutamento


— aceitação da perda;

— socialização;

— atitude quanto ao futuro;

— saúde;


— ansiedade ou depressão;

— culpa ou raiva;

— avaliação de si (auto-estima);

— resistência.


Esses itens foram avaliados dentro da entrevista clínica, não na forma de um questionário, mas como pontos que deveriam ser conhecidos por meio do relato do cliente, num momento inicial de entrevista aberta ou com perguntas a respeito dos pontos que não tenham sido trazidos espontaneamente Os mesmos recursos de avaliação foram
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considerados durante o processo terapêutico, para verificar seu andamento e os resultados que estavam sendo obtidos. Escolhi esses itens por abrangerem os pontos básicos de caracterização de uma evolução favorável ou não do enlutamento.

6. PROCEDIMENTOS DE INTERVENÇÃO


A terapia da família enlutada tem seus objetivos, que determinam a escolha dos procedimentos de intervenção. De acordo com McGOLDRICK (1991), foram definidos como objetivos:


a) reconhecimento compartilhado sobre a realidade da morte;

b) compartilhamento da experiência da perda e sua contextualização:

c) reorganização do sistema familiar:

d) reinvestimento em outras relações e objetivos de vida.
A avaliação do atingimento dos objetivos deu-se no decorrer do processo terapêutico e não somente no seu término. Permitiu que se chegasse ao final do processo, mais pelos objetivos atingidos do que pelo número de sessões realizadas.

As famílias foram atendidas a partir do referencial técnico da terapia breve, quanto ao que recomenda VOLKAN (1971): demarcação, externalização e reorganização. No entanto, esta técnica aplica-se mais especialmente a indivíduos enlutados e não foi desenvolvida, portanto, para famílias. A passagem para terapia familiar requer a utilização de técnicas que reconheçam e abordem a realidade deste grupo tão específico em suas características.


O terapeuta manteve-se dentro dos limites de atuação em terapia breve, ou seja: receber a relação que a família estabelece, ao mesmo tempo que os prepara (assim como a si mesmo) para a separação que irão inevitavelmente vi-
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ver. Suas intervenções verbais foram de caráter ativo, usa do o que COOKLIN (1990) chamou de “delicada firmeza”, seja, uma atitude que permite a promoção do processo luto, ao mesmo tempo que dá suporte para as angústias naturalmente advindas de um processo de mudança. Esta atitude marca-se pelos seguintes comportamentos do terapeuta:


a) ser respeitoso, porém não “reverente” com o sofrimento;
b) transmitir, por meio de sua voz, a convicção que aquilo que fala com a família é importante e vale a pena certo sofrimento;
c) utilizar o humor generosamente; não significa minimizar o sofrimento e sim, dar a mensagem que é possível sofrer e continuar vivendo;
d) quando tiver certeza de estar em um tema importante, não permitir ser manipulado ou dele desviado;

e) cuidar para não viver falsa confiança, impedindo que a família passe pelo processo de luto da maneira que lhe for possível.


Segundo McGOLDRICK (1991), como recursos para atingimento de objetivos — e que foram utilizados neste trabalho —, estão algumas recomendações que, diferentemente dos rituais, dão formas de contato com a perda e de expressão para os sentimentos daí emergentes. Essas recomendações São:


— visitas ao cemitério;

— escrever cartas ao morto ou aos vivos, a respeito do morto;

— olhar antigas fotografias, emoldurar, fazer álbum;

— ler diários ou cartas, para poder decidir sobre o que quer manter, o que dar como lembrança e o que jogar fora;

— escrever diário com sonhos, memórias e reflexões;

— conversar com parentes sobre a perda;

— ler livros e assistir a filmes relacionados à perda;

— Ouvir música, inclusive a preferida do morto.


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O conceito de foco, tão claramente definido por FIORINI (1978) e KNOBEL (1986), norteia o posicionamento terapêutico quanto a ser uma intervenção breve, O foco circunscreve o conflito central, no caso, o luto na família, inserido-o portanto em uma situação grupal específica. A focalização coloca o trabalho terapêutico no tema ao qual foi intenciolm 1te guiado pelo terapeuta e que fez parte do contrato terapêutico com o cliente. Cria-se entre a família e o terapeuta uma relação na qual o terapeuta é parte do sistema. Ou, como diz De SHAZER (1989), a terapia inclui o sistema do terapeuta e o sistema familiar, criando um novo supra-sistema. Esse é o modo de pensar, conhecer e decidir denominado epistemologia ecossistêmica, que determinou o tipo de intervenção terapêutica familiar breve utilizado por mim no presente trabalho.

Como já referido anteriormente, a terapia breve é recomendada para casos de luto patológico, enquanto o aconselhamento tem se revelado recurso valioso nos casos de luto normal. A descrição de um e de outro é clara o suficiente para permitir uma avaliação adequada dos dois diferentes quadros, o que minha experiência corrobora. Assim sendo, terapia breve para a família enlutada é recomendada quando a família organizou-se dentro de uma das seguintes condições de luto: crônico, adiado ou inibido. É possível que, ao fim do processo terapêutico focado no luto, outras questões tenham emergido, requerendo uma abordagem terapêutica que responda a elas. Como será visto nas famílias apresentadas, isso se deu de fato, com algumas, e a mudança está sendo explicada.

Considerando-se a idade dos elementos da família, foi oferecido a eles, para uso durante as sessões, material gráfico e/ou lúdico, para dar meios que facilitassem sua expressão. Receberam material gráfico (papel sulfite, lápis preto e de cor, borracha, giz de cera) as famílias A, C e F. Receberam material gráfico e lúdico as famílias B, D e E. O material lúdico vinha acondicionado em uma caixa de madeira individual para cada família, medindo aproximadamente 0,45m x O,35m x 0,25m, contendo brinquedos variados como: famílias de bonecos, massa plástica, tesoura, barbante, cola, fita adesiva, veículos, armas plásticas. As Caixas eram fechadas com cadeados, cuja chave era levada


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à sessão pela terapeuta que a colocava à disposição para que a abrissem se assim o desejassem. Ao término da sessão, era pedido que os brinquedos fossem guardados caixa que era, então, fechada com o cadeado.


7. RITUAIS COMO RECURSO TERAPÊUTICO
Por meio dos recursos de familiarização, repetição transformação, os rituais têm se revelado experiências farni liares importantes, no marco de transições do ciclo vital (McGOLDRICK, 1991). Permitem o estabelecimento de um elo entre passado e futuro, por incorporarem significado simbólicos referentes à família e à história passada e ao futuro da cultura.

No caso específico dos rituais para a morte, como funerais, as repetições de comportamento servem para contextualizar a experiência, e permitem as mudanças de papéis e condições trazidas pela transição do ciclo vital. Oferecem à família o suporte da sensação de pertencer a cultura que tem respostas previsíveis e, por esse mesmo motivo, necessárias num momento em que o choque da perda deixa-a entorpecida e desarticulada. De acordo com MANDELBAUM (1965), as cerimônias funerais podem diferir culturalmente, mas estão entre as experiências universais do contexto social humano. É possível pensar que essa universalidade existe exatamente para atender à necessidade psicológica e social de dar um enquadramento e uma previsibilidade á perda, à morte.

A ritualização em terapia do luto envolve três aspectos:
– um ritual para admitir a perda e entrar no luto por ela;

— um ritual que simbolize o que os membros da família incorporaram do morto;

— um ritual para simbolizar os movimentos de mudança na vida.
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IMBERBLACK (1991) amplia as funções dos rituais pa o luto familiar, apresentando-as como:


— marcar a perda de um dos membros;

— afirmar a vida como foi vivida pelo morto;

— facilitar a expressão de luto de maneiras que sejam consoantes com os valores da cultura;

— falar simbolicamente dos significados da morte e da vida que continua;
— apontar uma direção que faça sentido para a perda, enquanto permite a continuação dos que vivem.

São as próprias características da família que determinam o ritual a ser realizado: quando, como e por quem. Sempre foram preservadas porém, as condições necessárias para sua eficácia (IMBER-BLACK, 1991).


Mesmo dentro das diferenças encontradas nas culturas, há dois aspectos presentes em todas elas: os rituais são marcados por referências de tempo e espaço, o que oferece um sentido de segurança psicológica aos participantes. As diferenças refletem o sistema de crenças pertinente a cada cultura, oferecendo também esse sentido de segurança, portanto. Para que os rituais permitam essa situação protegida para a expressão de fortes emoções, algumas condições são necessárias, como: as pessoas se reúnem para expressar luto de uma dada maneira, mutuamente suportiva, que permite uma expressão inicial de dor, num contexto que promove contatos interpessoais.


Quanto ao processo terapêutico do luto utilizando rituais, é importante conhecer detalhadamente a existência de outros rituais na família, tanto anteriores quanto posteriores à morte. Eles darão um retrato particular de sua importância, facilitando a adequada utilização de rituais terapêuticos. Há famílias que sub-ritualizam suas perdas enquanto outras as super-ritualizam. Tanto em um caso como no outro, a abordagem via ritual, durante a terapia, requer cautela pois a forma de reação anteriormente adotada havia servido para impedir que os membros vivessem suas perdas e, conseqüentemente. estes serão resistentes a qualquer tentativa de mudança (McGOLDRICK, 1991). Ou seja, o ri-


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tual está a serviço do luto patológico. Na sub-rituailzação pode se instalar o luto adiado (Ou negado), enquanto na super-ritualização, dá-se a cronificação. O aspecto patolôgíco está fundamentado na dificuldade de dar o primeiro passo na direção da elaboração do luto, que é aceitar que a morte se deu. Conseqüentemente, o prosseguimento necessário fica impedido por esta forma enrijecida de negação da realidade que, para sua manutenção, consome muito da energia que poderia ser empregada de forma mais livre e, portantato saudável.


No entanto, à medida que esses rituais são conhecidos dentro da família, toma-se possível ao terapeuta identificar as opções de que dispõe para alterar esses padrões. Nessa identificação entram tanto os rituais existentes previamente à morte assim como os desencadeados após a mor A figura de comando ou central na efetivação do ritual tem papel crucial na re-ritualização, principalmente se for o mor to, pois trará a necessidade de também ser identificado elemento da família que ficará investido desse papel.


Outros eventos do ciclo de vida familiar, como batizados, casamentos, ritos de passagem, formatura são atingidos pela perda (na realização dos seus próprios rituais), se a família não tiver chegado a uma condição de flexibilidade adequada em sua ritualização de luto para aceitar os novos momentos a serem vividos. Esses eventos traze mudanças tanto para os indivíduos quanto para o desenvolvimento da família e podem ter seu significado intensificado ou distorcido por experiências de perda não resolvidas.

IMBER-BLACK (1991) considera de fundamental importância que, no uso terapêutico de rituais com a família enlutada, sejam utilizados os rituais, tradições e comemorações já adotados pela família, mas sem esquecer que pode ser necessário ir além desses rituais normativos e criar um específico para a terapia. Para criar os novos rituais, o terapeuta precisa identificar os símbolos e atos simbólicos apropriados para aquela famiia. O novo ritual não deve ser imposto e sim, criado com a participação de seus membros, deixando mesmo brechas, na execução, para que surjam manifestações autênticas e espontâneas. Na elaboração do ritual, símbolo e ação se completam, de forma que o primeiro permite que os participantes desenvolvam múltiplos


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signficados no ritual, enquanto as ações levam-nos além da esfera verbal.

A utilização de rituais no presente trabalho justificou-se, portanto pela qualidade terapêutica desse recurso, especificamente na terapia da família enlutada. Preservados alguns cuidados quanto à identificação do momento adequado para introdução, envolvimento dos familiares na criação definição do significado e da ação envolvidos, toma-se possível que os rituais, de acordo com ROBERTS (1988) forneçam os enquadramentos de expectativa para que ocorram novos comportamentos, ações e significados.


É ainda ROBERTS (1988) quem estabelece a diferença entre ritual e tarefa:
Início da tabela

RITUAL
1. Trabalha com múltiplos significados, nos níveis: comportamental, cognitivo e afetivo.

TAREFA
1. Coloca mais foco no nivel comportamental (ações).

2. Intervenção inclui tanto aspectos abertos quanto fechados, com espaço para a família im- provisar nos abertos. O terapeuta não necessariamente tem muita certeza sobre o que a familia irá criar com o ritual, nem está muito interessado em predizer como ficará a família após o ritual.

2. Coloca mais ênfase em fazer a intervenção com o final previsto (freqüentemente, o terapeuta pode ter uma visão antecipada do resulta- do).

3. Mais confiança no concreto com ação simbólica.

3. Pouca ênfase nos simbolos.

4. Preparação e envolvimento na
cerimônia são partes essenciais
do

4. Tem foco não na prepara çã mas no ato de fazer em

Fim da nota de roda pé
WHITING (1988), considerando essas diferenças e a própria definição de ritual, dividiu as linhas básicas dessa definição em três categorias:
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1) elementos da elaboração, comuns a todos os rituais;

2) técnicas para rituais e ações simbólicas;

3) outras considerações sobre elaboração de rituais.

Na utilização de rituais para terapia do enlutarnen to, os três aspectos são considerados, uma vez que sua amplitude permite a necessária criatividade para que o terapeuta escolha e utilize aquele que mais se adequar à familia, nas condições do momento. Nas famílias exemplificadas neste trabalho, demonstrei a questão do tempo para a introdução do ritual, sua funcionalidade dentro do sistema e resultados propiciados como recurso terapêutico. De acordo com as necessidades de cada família, o ritual foi apresentado com um caráter de maior ou menor formalidade, o que também é discutido a seguir.


8. PROCEDIMENTO PARA ANÁLISE DOS DADOS


Como pano de fundo para a análise, as questões utilizadas inicialmente para avaliação das famílias estiveram sempre sendo consideradas. Dentre elas, algumas puderam compor áreas como pontuadores para a análise dos dados. Foram elas:


1) flexibilidade do sistema familiar;


2) sistema de crenças da família;
3) rituais;
4) comunicação na família;
5) percepção da perda;
6) perspectivas;
7) socialização;
8) saúde.
Tais pontos serviram como guias para avaliação do processo terapêutico, dado que estão contidos nos objetivos
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a serem alcançados por meio dele. Foi feita uma análise clinica levando em conta o comportamento verbal e o não-verbal intercorrências (como faltas, por exemplo), permitindo que as proposições iniciais pudessem ser verificadas a cada passo.

Os conteúdos emergentes e o processo terapêutico foram analisados a cada sessão, condição necessária para um acompanhamento passo a passo do processo, razão pela qual não houve a participação de juízes, mas de observadores, com quem foram feitas as discussões.


A postura que adotei para concluir sobre o resultado do processo terapêutico com as famílias enlutadas foi baseada no que WATZLAWICK et al. (1977) consideram a formulação e aplicação de um procedimento para mudança, que se divide em quatro etapas:


a) clara definição do problema em termos concretos;


b) investigação das soluções já experimentadas;
c) definição da mudança concreta a ser produzida;
d) formulação e implementação de um plano para produzir essa mudança.

Neste trabalho, o problema foi o luto familiar, como vivido por urna dada família, com suas peculiaridades; as soluções experimentadas são as maneiras que a família tem para adaptar-se e elaborar a perda; a mudança produzida está contida nos objetivos da terapia breve para a família enlutada, enquanto o plano que produzirá a mudança envolve os recursos terapêuticos utilizados. Tendo em mente esse procedimento para mudança, foi possível verificar com clareza como ela se deu e avaliá-la nas quatro etapas.


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V – Analises das Familias Estudades


“De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira. E, misturado, o pó das duas realidades cai...”




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