Congresso de psicologia



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Conhecimento – Direito ao conhecimento e modos de conhecer: novas condições

Knowledge – Right to knowledge and modes of knowing: new conditions

Concepções sobre a deficiência mental e a constituição da subjetividade da pessoa deficiente


Evani A. Amaral Camargo & Ana Maria Torezan, Universidade Estadual de Campinas, Brasil

Introdução

Este trabalho surgiu de indagações ocorridas durante a nossa atuação profissional junto a pessoas com síndrome de Down, especialmente indagações que diziam respeito às características do relacionamento entre pais e profissionais da área. Durante a construção do trabalho, nosso interesse se direcionou para a identificação e análise das concepções que pais e profissionais faziam da deficiência mental e do sujeito deficiente, bem como para as possíveis reelaborações a respeito dessas concepções que pudessem ocorrer em discussões em grupo.


Pautando-nos na crença de que a subjetividade se constitui nas interações sociais, ou seja, nas relações intersubjetivas e que o sujeito deficiente mental tem com os pais e profissionais um relacionamento bastante intenso, a hipótese levantada foi a de que a concepção desses pais e profissionais sobre a deficiência é fundamental na constituição da subjetividade desses indivíduos.
Segundo Bakhtin (1997), as pessoas vão se constituindo como sujeitos nas sucessivas interações, nos diversos espaços discursivos e, pode-se presumir que a subjetividade se forma pelos “olhos dos outros”. É só ocupando o lugar do outro, o lugar “de fora” que o homem consegue ver a si mesmo e iniciar sua constituição enquanto sujeito. Nesta perspectiva, há sempre um “inacabamento” constituinte, que é dado pelo lugar que o(s) outro(s) ocupa(m) nas sucessivas interações. Esse “inacabamento” do sujeito está diretamente relacionado ao conceito que Bakhtin desenvolve a respeito do excedente de visão, que seria o que os outros vêem dele e que ele não vê, como se fosse uma “paisagem de fundo”. Assim, o sujeito, incompleto, só existe nas relações com as pessoas, as quais definem os limites. Como as relações são sucessivas e infinitas, não se tem nunca um sujeito absoluto. Ele é sempre resultado de um passado e uma expectativa do que pode vir a ser no futuro.
Vyon (1992) também discute a questão da intersubjetividade e se refere a ela como ”... universos de conhecimentos ou imagens a que os protagonistas reagem, sejam imagens deles mesmos, de seus parceiros ou da situação. A comunicação se desenrola dessa forma sobre um fundo imaginário que as ciências sociais se esforçam em entender através do conceito de representação.” (Vyon, 1992:47). Assim, o indivíduo não reage à situação objetiva em si, mas à representação que faz dela e que decorre de conhecimentos precedentes, ou seja, pressupostos culturais. A representação está relacionada à imagem que o sujeito faz de si, dos outros, da situação e, por último, das regras e normas de comportamento do grupo social ao qual pertence.
Os conceitos sobre subjetividade, intersubjetividade, representação e indeterminação do sujeito, indicam que as pessoas, e aí se incluem pais e profissionais, vão se constituindo e se reconstituindo nas interações que ocorrem ao longo da história de cada um. Tanto os pais quanto os profissionais vão (re)fazendo seus percursos a partir dos muitos contatos que estabelecem ao longo da vida, e as interações que vão se estabelecendo entre eles certamente também interferem na constituição da subjetividade de cada um. No decorrer dessas interações é possível que novas ressignificações sobre o filho deficiente possam surgir. Nesta perspectiva, as concepções dos pais a respeito da deficiência e do próprio filho podem ser modificadas a partir dos diálogos com os diversos profissionais e outras pessoas ao longo de suas sucessivas experiências. Também a constituição do sujeito deficiente se estabelece nas relações que ele tem com os outros e que, numa esfera privada e fundamental, dá-se com os próprios pais. Desse modo, podemos presumir o quão importante são as significações que esses pais apresentam em relação ao filho deficiente, e o quão fundamental são as concepções da deficiência que os pais vão elaborando a partir dos contatos com outras pessoas e com os profissionais ao longo do processo de crescimento do filho.
Vygotsky (1984 e 1987), de modo semelhante a Bakhtin e Vyon, também atribui à linguagem e à interação social um papel fundamental na constituição do sujeito. De acordo com o autor, é imprescindível direcionarmos nosso olhar para o desenvolvimento enquanto processo que se estabelece nas relações sociais. Todas as funções especificamente humanas são constituídas através da vida social, envolvendo portanto a linguagem e a dimensão histórico-cultural.
Dentro dessa perspectiva, a linguagem tem uma importância crucial no desenvolvimento humano, sendo seu aparecimento um “marco” no desenvolvimento da criança (Vygotsky , 1987). A linguagem, como um sistema semiótico privilegiado, conjuntamente com outros sistemas de signos (as diferentes formas de numeração, os dispositivos mnemotécnicos, o simbolismo algébrico, a escrita, entre outros), tem origem na vida social e, modificando globalmente a evolução e a estrutura das funções psíquicas, transforma-se em instrumento psicológico. O homem passa a ver o mundo e a percebê-lo de acordo com a cultura em que está inserido. Esse recorte do mundo é elaborado para ele pelas outras pessoas do seu grupo social através da linguagem, nas diferentes, sucessivas e infinitas interações sociais que vão constituindo o sujeito ao longo de sua história.
Com respeito à questão da deficiência, Vygotsky (1989) discorre sobre a importância do recorte do mundo feito para a criança e para o jovem “deficiente” por seus pais e pela sociedade como um todo. São as significações e ressignificações feitas pelos seus pares sociais que os constituem enquanto sujeito. Assim, um indivíduo com limitações e com um potencial biológico diferente dos demais pode ter os rumos de seu desenvolvimento alterados em função do modo como o seu meio social o encara e em função das expectativas existentes em relação a ele. Nossa sociedade tem restrições em relação ao que é diferente, àquilo a que não está habituada. Portanto, a constituição da pessoa com deficiência pode ser prejudicada pela quebra da expectativa de seu grupo social, pelo estranhamento em relação à inteligência desse indivíduo, pelos preconceitos e estigmas presentes na sociedade frente às diferenças. Assim, o “olhar” da sociedade irá influenciar o desempenho da pessoa deficiente. Se o “olhar” voltado para ela for de incapacidade, provavelmente ela se tornará incapaz.
Em função das indagações levantadas, para efetivar o estudo, construímos os dados a partir das interlocuções ocorridas durante um trabalho de discussão em grupo que realizávamos com pais de crianças e adolescentes com síndrome de Down, em conjunto com outros profissionais da área de educação especial. Focalizamos as relações entre profissionais e pais, com o propósito de identificar de que modo, nessas relações, a concepção sobre a deficiência mental, sobre os indivíduos deficientes, suas possibilidades e potencialidades estavam sendo elaboradas. Além disso, pretendíamos identificar como os profissionais interferiam nos modos como os pais elaboravam a problemática da deficiência no seu cotidiano e, em que medida, a discussão em grupo possibilitaria mudanças nas concepções citadas.
Assim, os objetivos do estudo foram: identificar e analisar as concepções que pais e profissionais apresentavam da deficiência mental, do sujeito deficiente e de suas possibilidades e verificar como os profissionais interferiam na concepção dos pais e vice-versa.

Método

Desta forma, para atingirmos os objetivos propostos, considerando os princípios colocados acima, construímos os dados a partir da fala de profissionais e pais de crianças e adolescentes com síndrome de Down, em situação de interlocução. As falas foram retiradas de gravações magnéticas de um trabalho de discussão em grupo com famílias de alunos de uma instituição especial para indivíduos com síndrome de Down. As reuniões foram realizadas com pais que tinham os filhos num mesmo grau de escolaridade. Foram constituídos dois grupos de pais: Grupo 1, com pais de crianças com idades entre 7 e 10 anos e Grupo2, com pais de crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos.


De um total de 15 reuniões para o Grupo 1 e 14 para o Grupo 2 no ano de 1995, selecionamos 7 de cada grupo para organizarmos os dados. Tal seleção foi feita em função dos assuntos nos quais concepções a respeito da deficiência mental apareciam mais claramente. Além disso, também levamos em conta o número de participantes por reuniões (demos preferência àquelas em que estiveram presentes um maior número de pais), bem como buscamos fazer uma seleção de modo a obter reuniões distribuídas em vários momentos do ano de 1995.
Como já foi apontado, todas as reuniões foram audio-gravadas e posteriormente transcritas literalmente. Os turnos de fala (enunciados) foram demarcados a cada mudança de interlocutor e numerados. Esta demarcação foi feita conforme Bakhtin (1997), para quem a unidade são os enunciados, com as fronteiras determinadas pela alternância dos falantes e que garantem a possibilidade de réplica, com as devidas argumentações e contra-argumentações. Está também especificado em nossa transcrição se a fala é referente aos pais ou às profissionais e o nome de cada interlocutor está em negrito. Após a seleção das reuniões, as mesmas foram divididas conforme as temáticas desenvolvidas pelos participantes. Estamos denominando temáticas o conteúdo relativo a um determinado assunto nos sucessivos enunciados.
Após a identificação de todas as temáticas, elegemos 4 delas, nas quais ficaram reveladas de maneira mais explícita diferentes concepções da deficiência. São elas: implicações pessoais e socias da deficiência mental, independência, sexualidade e trabalho.
Após a releitura das interlocuções nas temáticas selecionadas, elegemos trechos dessas temáticas, nos quais era possível identificar concepções a respeito da deficiência mental, do sujeito deficiente, bem como suas possibilidades e potencialidades. Denominamos esses trechos de fragmentos. Usamos para a construção dos dados 6 fragmentos do Grupo 1 e 7 fragmentos do Grupo 2.
A análise dos fragmentos selecionados envolveu a identificação das concepções a respeito da deficiência que apareceram de modo explícito ou subjacente à discussão das temáticas. Os fragmentos foram construídos recortando-se trechos dos diálogos ocorridos nas reuniões, sem termos a preocupação em respeitar fielmente a seqüência dos turnos. Esta opção metodológica na construção dos dados foi feita com o intuito principal de mantermos o significado da temática abordada em cada fragmento.
De modo mais específico, a análise envolveu a identificação e caracterização das concepções comuns aos participantes das reuniões e das concepções recorrentes. Além disso, pautando-nos em Bakhtin (1995,1997) e Vyon (1992), procuramos examinar de que modo os vários discursos dos diferentes participantes da reunião refletiam suas posições e lugares, e em que medida a assimetria de posições entre o pais e profissionais podia influenciar a construção de sentidos que ocorriam durante as interlocuções, bem como o posicionamento individual.


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trabs -> Subjetividade e constituiçÃo do sujeito em vygotsky
trabs -> ConstituiçÃo dos processos de simbolizaçÃO: limites e possibilidades
trabs -> Locus de produção do conhecimento Uma reflexão inspirada em Vygotsky e no seu diálogo com Espinosa
trabs -> Título: o desenho e suas relações com a linguagem escrita em alunos portadores de deficiência mental
trabs -> Alteridade e formas de saber
trabs -> The beginnings of my past: Children's early accounts of autobiographical memories
trabs -> Morte simbólica, não-ser em vida: construindo o conceito
trabs -> InstitucionalizaçÃo das práticas racistas através dos discursos
trabs -> A criança com deficiência visual: desenvolvimento, aprendizagem e inclusão escolar

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