Conferência do dia 07/10/2003



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AS TECNOLOGIAS DO IMAGINÁRIO1
Prof. Dr. Juremir Machado da Silva/PUCRS
Boa tarde. Muito obrigado por esta apresentação. Obrigado a todos pelo convite e em especial a Lúcia.
Realmente, é muito agradável estar de novo em Pelotas, para conversar com as pessoas daqui sobre um tema realmente instigante e bonito. O título do colóquio - Saberes Arcaicos - faz pensar, faz a gente ficar imaginando e sonhando um pouco.
Eu já vim muitas vezes a Pelotas e agora, ouvindo a apresentação da Raquel, nossa aluna do Programa de Pós-Graduação e Comunicação da Famecos, onde toda sexta- feira à tarde nós nos encontramos, lembrei-me da nossa última aula. Na última sexta feira houve um debate intenso sobre tecnologias, daqueles bons, - debate bom é como aquele, em mesa de bar, quando dá vontade de meter o dedo no olho do outro, tudo muito civilizadamente, mas de toda a maneira um debate muito intenso.
Eu já me vi, em Pelotas, muitas vezes em situações acaloradas, boas, por exemplo, no baile do Vermelho-e-Preto e no Bra-Pel. Outras vezes, vim, simplesmente, para ir a bares que existiam em torno da Boca-do-lobo. Então, vocês vêem que eu tenho uma certa familiaridade com as coisas interessantes de Pelotas.
Eu vim para debates nas Universidades, muitas vezes na Católica, e que sempre foram bons debates, acalorados.
Com um tema desses, eu imagino que não vá ser diferente, porque o Imaginário é um tema candente, é um tema que é como os signos que têm terra, fogo, água e ar.
O Imaginário é algo que, apesar da singeleza, da estranheza ou da abstração dessa palavra é alguma coisa muito concreta e pulsante. A gente pensa muitas vezes ou até pode imaginar que o Imaginário é uma coisa de professores universitários, de acadêmicos, de gente que fica estudando com bolsa do CNPQ, Capes, ou coisas assim, mas o Imaginário é algo real, concreto, da vida de todos os dias. O Imaginário é altamente cotidiano e a gente nem fica sabendo, pois, a maior parte das coisas que fazemos na vida,, nós não sabemos o porquê, mas quase tudo que a gente faz é por força de um Imaginário.
Só para dar uma idéia, nesse começo de conversa, a gente acha que beija porque beija, e que cada um beija como quer, do seu jeito. Que cada um é livre para beijar como quiser. É falso. A gente não beija assim dessa maneira como as pessoas estão pensando. Assim, com toda essa autonomia,, independência e liberdade, não. O beijo (a minha avó quando eu disse isso para ela, achou uma pouca-vergonha) é uma coisa coletiva, uma construção social, resultado de um Imaginário. Ele é uma produção de longo tempo, de séculos mesmo, fruto da ação de certas tecnologias do Imaginário: o cinema, por exemplo. Muita gente já beijou, pensando que estava dando um beijo exclusivo para o objeto da sua paixão, e estava apenas repetindo um beijo dado numa tela de cinema. Estava simplesmente beijando por procuração, por imitação, por delegação ou por contágio. Então, vocês vejam que uma das coisas mais íntimas que se possa imaginar e, ao mesmo tempo, aquela que extravasa todos os nossos sentimentos (ao menos era assim até algum tempo, agora não sei!) é o beijo, que é alguma coisa que é fruto de uma produção cultural e social, que tem uma série de formas de expressão e que muda com o tempo. O beijo de hoje não é o beijo de ontem. Já não se beija mais da mesma forma e existem várias formas de beijo, tem, por exemplo, o beijo selinho. O selinho é um beijo do Imaginário pós-moderno. O selinho não existia antes. Vem, exemplificando, uma coisa que nós consideramos escandalosa e que na França é muito comum, que são os quatro beijos entre homens: o sujeito chega encontra o amigo no meio da rua e lhe dá quatro beijos. É um ato que não termina mais: um, dois, três e quatro. O sujeito fica quase com torcicolo de tanto beijar, não termina nunca. Vocês já se perguntaram por que são quatro beijos na França e, atualmente, três no Brasil? Porque têm um que é para casar. Mas antes eram dois e houve uma em época que era só um e, antes ainda, nenhum. Vejam os Russos, dão beijo na boca, assim, cheguei, bom dia e...têm beijo na boca entre os homens. Então, observem como o beijo varia de sociedade para sociedade, de época para época, de classe social para classe social e de cultura para cultura. Então, o beijo não têm nada de natural, nada de trans-histórico, ele não é o mesmo em toda a parte. Ele é uma construção social, uma construção de época, ele é o fruto de um Imaginário.
Ora, com isso eu queria semear, e imagino que já esteja aí na cabeça de vocês a seguinte pergunta: mas afinal, o que é o Imaginário? Os estudos que a gente vive fazendo por aí, as discussões e as polêmicas, estão nesse sentido:: definir o que é o Imaginário.
Então, a primeira frase que eu queria dizer para vocês, uma frase que está no meu livro “Tecnologias do Imaginário”, é justamente assim: todo o Imaginário é real e todo o real é Imaginário. Todo o Imaginário é real significa que não existem Imaginários que não sejam partes de uma realidade, de uma história, de um acontecimento, de uma vida. Nesse sentido, todo Imaginário é uma realidade, todo Imaginário é concreto. É mais ou menos como a gente imaginar a famosa oposição entre o real e o virtual. O virtual faz parte do real? O virtual e o real não se opõem? O virtual não é outra coisa. Não é porque está lá dentro do computador, que não é real. Mesmo se a gente arrancar o computador, quebrar todo e examiná-lo, não vai existir nada lá dentro, mas é real de toda a maneira. O imaginário também. Quando a gente pensa num unicórnio. Vocês já viram um unicórnio ou um centauro? Não existem, mas existem. Todo mundo sabe o que são e não têm dúvida nenhuma. Eu falo um centauro e está todo mundo imaginando um centauro. Eu falo um unicórnio e está todo mundo imaginando um unicórnio. Ninguém viu um unicórnio, ninguém tocou em um, mas ele existe. Nem tudo que existe concretamente é palpável. Nem tudo que existe precisa ser uma mesa ou um copo, mas não deixa de existir. Ninguém duvida que uma ficção exista e uma ficção é uma ficção, logo em princípio ela é o oposto de uma realidade, mas ela existe. Existe como uma realidade, e o Imaginário também.
E, ao mesmo tempo, todo real é Imaginário, porque o real não é alguma coisa dada de uma vez por todas, cem por cento incontestável. O real é uma construção que depende do olhar de cada um de nós. É, como o beijo, varia com o tempo, varia com o nosso olhar, varia com a nossa “bagagem”, o real é uma construção. Vocês vão dizer: “uma mesa é uma mesa e não têm discussão”.
Ontem, houve uma discussão no programa “Conversas Cruzadas” da TVCOM de Porto Alegre, entre a Eliane Cantanhede, do jornal Folha de São Paulo, e o Senador do PPS, Roberto Freire, onde ele dizia assim: “Não tem objetividade na mídia”, e a Eliane, como jornalista, respondia: “Tem sim, claro que tem”; e ele dizia: “Não, não tem não e quando vocês fazem uma manchete, a fazem de acordo com uma determinada simpatia”. E ela falava: “Não, a gente faz de acordo com o fato”. Ele: “Não, não estou falando de manipulação, nem de deturpação, eu estou falando que na hora de escolher, há uma modulação que, mesmo inconscientemente, é uma modulação. Por exemplo: um candidato que começa a subir nas pesquisas está dois por cento acima dos outros, ele está na margem de erro e o jornal pode colocar das seguintes maneiras: – ‘que o candidato sobe nas pesquisas, que há um empate técnico ou que está na margem de erro”.
A maneira de colocar o texto vai mudar tudo. O que está em jogo nisso tudo é simplesmente o seguinte: não tem objetividade, tem um olhar que constrói a situação. É diferente de manipular, de dizer assim: “Eu vou enganar os outros, eu vou tentar fazer alguma coisa para que eu engane os outros”. Não, é outra coisa, mas ainda assim, não é da ordem da objetividade.
O Imaginário é assim. Normalmente, a gente imagina que o nosso Imaginário é real, que ele tem bases concretas, que ele é o fruto de alguma coisa que faz sentido e que o Imaginário dos outros não é, que o Imaginário dos outros é delírio, é algum tipo de devaneio, de divagação. O Imaginário é uma situação que é, ao mesmo tempo, um reservatório e um motor.
Ele é reservatório por que? Porque o Imaginário é uma espécie de lago. Gilbert Durand, que é um dos autores que mais trabalhou com essa idéia, diz assim: “É uma bacia semântica”. É lá no lago para onde derivam todas as imagens, afetos, experiências e sensações, tudo aquilo que dá significado para nossa existência individual ou grupal, e que fica lá, naquela espécie de reservatório, está tudo lá, naquele grande “lago existencial”, onde se acumulam todas as nossas sensações mais importantes e mais significativas.
E ele é um motor porque, de repente, naquele lago as águas começam a circular, começam a ser canalizadas para nos impulsionar para a ação, para fazer com que a gente aja de uma maneira e não de outra. Isto é tudo: o Imaginário é aquilo que determina, de uma forma ou de outra, as nossas ações cotidianas.
O Imaginário não é uma ideologia. O Imaginário não é a cultura. O Imaginário não é uma determinação racional, não é um cálculo do tipo: devo fazer isto ou aquilo em função de determinadas perdas ou ganhos, de determinadas expectativas. O Imaginário é aquela força afetiva, não racional, intimista, que vai se acumulando em nós, mesmo que nós não o saibamos, sendo vetor de nossas ações e é completamente arraigado em nós. Quando começamos a pensar esse tipo de situação, começamos a perceber qual é o imaginário que nos determina. Normalmente, não pensamos sobre isso, a gente vive, simplesmente. Agora, quando começamos a pensar sobre situações cotidianas e começamos a imaginar e começamos a verificar e a pensar, porque agimos de uma maneira ou de outra, começamos a ver que existem pontos de recorrência, que se repetem. A gente começa a descobrir que existem significações que estão lá e que determinam as nossas ações nos mais variados campos. Normalmente, o sujeito pergunta assim: mas afinal de contas por que alguém gosta de loiras de olhos azuis e outro de morenas de olhos verdes? Bom, isso eu não sei, é um mistério, é sobrenatural, é absolutamente impossível saber disso. Aí o sujeito começa a fazer um exame, não que ele vá chegar matematicamente a essa determinação, mas ele começa a descobrir que na construção dessa cartografia, desse mapa dos seus afetos, das suas relações, dos seus sentimentos, existem situações que são construtoras de um determinado modo de ver, - o Imaginário é uma educação não consciente da percepção. Então, lá pelas tantas, o sujeito viu um filme, num determinado momento da sua infância e se apaixonou perdidamente pelos olhos verdes da atriz, nunca mais pensou nisso, mas isso começa a rebater na sua maneira de encarar a vida e as mulheres e os homens com quem gostaria de se relacionar.
O Imaginário transborda da gente nas situações limites. Quando eu fui morar na França, (eu morei quase seis anos na França) uma coisa que me parecia completamente absurda era a idéia de patriotismo. Como é que alguém pode ser patriota? As pessoas diziam assim: “Eu amo o Brasil”, e eu me dizia: “Eu não amo o Brasil, não amo nem odeio, nem deixo de amar”. O Brasil, simplesmente, é o lugar onde estou imerso. Eu nunca pensei em nenhuma razão para amar o Brasil. As pessoas, às vezes, me diziam: “Olha, é possível chorar pelo Brasil, é possível amar a bandeira brasileira. Está aí uma coisa que me parecia a mais absurda de todas. Como é que alguém pode amar a bandeira de um país, que é um pano colorido? Como é que alguém pode atribuir valor a esse pano colorido, alguns de extremo mau gosto? Ou seja: por que eu vou amar uma bandeira? Quando eu cheguei na França, logo descobri que a melhor maneira de fazer um patriota é mandar o sujeito para o exterior. No aeroporto eu já estava começando a amar o Brasil. Já na chegada, no aeroporto, foi me dando uma vontade de Brasil que depois foi se traduzindo, como se traduzia para a maior parte dos brasileiros que estavam lá, depois de longos anos, nas coisas mais absurdas possíveis, algumas completamente idiotas, por exemplo: saudade de bombons “Sonho de Valsa”, ou de guaraná “Antártica”. Mesmo que depois a “Antártica” tenha sido vendida para a “Coca-Cola”, eu acho, continuava aparecendo como uma marca da brasilidade. Brasileiro que ficava muito tempo sem vir ao Brasil, tinha problemas. Eu fiquei uma vez trinta e quatro meses sem vir ao Brasil e quando eu entrei num avião da “Varig”, eu me joguei em cima da aeromoça pedindo: “Por favor, um guaraná ”Antártica”. Era o Brasil todo que vinha em mim.
Eu me lembro que nos primeiros tempos sentia muito frio em Paris e o pessoal me dizia: “Só tem uma maneira de ficar bem aquecido, afora uma boa calefação, é se enrolar na bandeira do Brasil” - aí já era o delírio absoluto. É claro que eu não tinha a coragem de me enrolar na bandeira do Brasil, nem tinha uma. Imaginava que, com um absurdo desses, era de mandar o sujeito direto para o hospício: - “o sujeito enrolado na bandeira do Brasil”.
Em todo caso, em determinado momento, eu encontrei uma boa desculpa para comprar uma bandeira do meu país, que era alguma coisa que no fundo eu estava com muita vontade de fazer, mas que, claro, eu não tinha essa desfaçatez toda, ir num lugar e comprar a bandeira do Brasil: foi a copa do mundo de futebol de 1994. Então, fui lá e comprei uma bandeira e a desfraldei na janela. Foram momentos de felicidade intensa. Eu via a bandeira tremulando na minha janela. Era a glória!
Em 1998, eu estava na França de novo, já mais experiente e tal, e claro que eu coloquei a minha bandeira na janela. Só que o Brasil perdeu a copa. Aquilo tudo foi terríve,l porque os franceses ganharam e, além de tudo, tinha um argentino na esquina da minha casa que, evidentemente, tinha todas as razões do mundo para me tocar uma “boa flauta”, então, eu tinha medo de encontrá-lo. Quando a França ganhou, eu fechei a janela, evidentemente. Arranquei a bandeira da janela meio assim, “de quatro”, porque não podia ser visto. Passei quase um mês me escondendo do argentino, que, quando me encontrou, disse assim, com aquele ar cândido e inocente: “Por que aquela bandeira não está mais na janela?" Então, naqueles meses, eu pensei o seguinte: o Brasil fazia sentido para mim. O Brasil era alguma coisa que estava profundamente enraizado em mim.
Quando eu sentia muita saudade do Brasil, como todos os outros, eu pensava no Brasil, não de uma maneira qualquer, não de uma maneira autônoma. Eu pensava ouvindo Chico Buarque, Tom Jobim, Elis Regina e, quando o desespero foi completo, por volta do 34o mês, eu já pensava no Brasil ouvindo até José Mendes, era um despropósito. Eu já estava para ouvir o Gildo de Freitas, qualquer coisa me servia.
E, então, eu descobri que tinha um “magma cultural” profundamente enraizado em mim, que só teve possibilidade de vir à tona no momento em que eu pude me defrontar com a ausência. O Imaginário é alguma coisa que se alimenta da falta, é como a paixão. Não sei se vocês já se deram conta, afinal, é um assunto do qual todo mundo é especialista, mas a paixão se alimenta da falta, ela se alimenta da fome, quanto menos tem, mais quer. A melhor maneira de se apaixonar é se a pessoa, objeto da paixão, não quiser; aí é paixão certa! Se quiser, o sujeito, depois de algum tempo, desiste, ou seja, ele já tem, está saciado. Mas, quando não tem, aí aumenta terrivelmente. Então, a paixão se alimenta dessa ausência, dessa fome, desse estranhamento, desse afastamento. O Imaginário é a mesma coisa, ele se enraíza e se cristaliza. Ao mesmo tempo em que ele é liquido, porque ele está constantemente sendo renovado ou alterado, ele também se cristaliza. Aquilo que se cristaliza e em determinado momento fica lá no reservatório, é que vai mexer profundamente nas nossas estruturas e balizar as nossas ações.
Então, durante muito tempo, se imaginou, pensou, conjeturou que o Imaginário era alguma coisa que servia como metáfora, era uma palavra para definir o indefinível. Quando nós não sabíamos como explicar determinado comportamento, preferência ou gosto, nós falávamos em Imaginário. Houve um momento em que essa palavra perdeu completamente a força e foi encoberta por conceitos como Ideologia. Passou-se a discutir o que era Ideologia. Depois se percebeu que a Ideologia tinha um caráter político e racional muito forte e que ultrapassava o Imaginário.
A gente poderia imaginar o Imaginário como cultura, mas a cultura é muito mais ampla que o Imaginário. A Cultura é tudo, o Imaginário não. Existem inúmeros Imaginários dentro de uma cultura. Então, ele é, de alguma maneira, mais difuso do que a Ideologia e menos amplo que a Cultura, mas ele, ao mesmo tempo, pode ser um Imaginário Ideológico, um Imaginário Social ou um Imaginário Cultural.
Então, afinal, o Imaginário sendo uma educação dos sentidos, uma educação da percepção, é também, e profundamente, uma forma de estabelecer valores. O Imaginário é uma segmentação, uma apropriação individual da Cultura. O Imaginário é, antes de tudo isso, uma apropriação individual ou grupal da cultura. É como um grupo ou um indivíduo declina, recorta, toma posse, se apropria da cultura na qual está imerso. Claro, nunca é uma operação racional - não é assim: “Hoje eu vou ao cinema para melhorar o meu Imaginário, eu vou ler um livro para educar o meu Imaginário, eu vou fazer uma viagem para aprimorar o meu Imaginário”, não. É claro que o Imaginário acaba impulsionando: “Vou fazer tal viagem porque isso está em mim, eu não tenho explicação, gostaria de fazer”. Talvez disso resulte uma desconstrução desse imaginário, ou um reforço.
Eu fiz muitas viagens, às vezes, até um tanto bizarras. Uma vez eu fui convidado, através do governo americano, pela agência de informação do Estados Unidos, como jornalista, para fazer uma viagem. Era uma viagem maravilhosa porque tinha intérprete, carro esperando em cada aeroporto, hotel cinco estrelas e podíamos ir aonde eu quisesse. Então, lá eu fiz uma lista de todos os lugares que eu achava que tinha que ir: Nova Iorque, Washington etc. Em determinado momento eu disse assim: “ Eu quero ir a Dakota do Sul. Aí, o sujeito diz assim: “Mas por que, ninguém vai lá, nenhum americano vai lá”. E eu: “Ah! Mas eu quero ir”. Ele: “Mas não tem nada lá, absolutamente nada, é um riachinho deste tamanho e depois é campo aberto e uma reserva indígena. Por que o senhor quer ir lá”? “Eu quero ir lá porque quando eu tinha uns quinze anos eu li um livro, que muita gente aí deve conhecer, chamado “Enterrem meu coração na curva do rio”. Esse livro para mim foi uma coisa extraordinária, uma coisa que me apaixonara, eu ficava lá imaginando aqueles personagens, o Cavalo Doido, a questão indígena nos Estados Unidos. Depois a morte do índio. O coração dele, em princípio, fora enterrado na curva do rio, que eu imaginava que era um grande rio e, na verdade, era um fiapinho d'água. E eu quis ir lá. O intérprete que tinha que ir comigo e era pago para isso, foi durante toda aquela longa viagem reclamando, criticando, não entendendo porque nós iríamos até lá.
E finalmente chegamos, no meio do campo. Não tinha absolutamente nada lá. É como ir aqui na região da campanha e, de repente, estar no meio do campo, na beira de um arroio. O sujeito olhou para mim e disse: “E agora, está contente!”. Nós tínhamos viajado três mil quilômetros e eu estava embasbacado. Aí, veio um índio com um ar muito estranho, que eu imaginei fosse um Xamã, um sacerdote, um detentor da cultura secular daqueles índios, mas que depois se revelou ser apenas um sujeito com problema de alcoolismo. Ele me contou uma história fabulosa sobre “O sacrifício das lágrimas”, que era parte da cultura local e que eu achei que estava obtendo uma grande revelação e estava já imaginando o livro que escreveria sobre aquilo tudo, até que veio um outro e disse: “Isto é uma historinha que eles contam para todos para conseguir alguns centavos. Dá um dólar que ele pára de contar essa história”. Ainda assim, aquilo para mim foi uma viagem inesquecível, porque na verdade, eu não estava viajando no mesmo registro que o Tom, meu intérprete, que não tinha nada a ver com aquilo. Eu estava viajando no registro das páginas do livro que tinha lido quando adolescente, e que foi significativo para minha geração. Era um livrão que, no fundo, falava dos valores da natureza, dos valores de uma cultura autêntica, da grande aventura, do sonho de evasão, dos grandes espaços. Então, era alguma coisa, que falava para mimque estava em mim, e não nas estradas e em tudo aquilo que se via ali. Era interessante, porque ao longo da viagem, a gente podia ir a inúmeros lugares e em cada um desses lugares era recebido pelo diretor do centro de pesquisa e pelo diretor de teatro, mas o que fazia sentido para mim mesmo era aquele espaço absolutamente vazio e aberto, que depois eu, examinando bem a situação, compreendi que não era só o livro que tinha forjado o meu Imaginário, era bem mais simples do que isso era todo o Imaginário dos filmes de faroeste, porque para lá se passava por todos aqueles espaços e por muitos daqueles rios, como o rio Dakota, que era o rio por onde passava o Tex Willer nos gibis de faroeste, que eu lia quando criança, e todos os filmes que tinha visto e que estavam lá: rio Bravo, rio Lobo. Essa viagem não era uma viagem no espaço concreto, era uma vigem no espaço afetivo.
O Imaginário é, constantemente, essa viagem no espaço afetivo. A gente pensa muitas vezes que faz coisas por razões muito racionais, vale a redundância, e até se convence disso porque, afinal, é a melhor maneira de explicar as coisas e de resolver os problemas.
Boa parte de nós vai estudar no exterior. Eu mesmo fui estudar na França, certo de que lá eu encontraria o melhor ensino e, para mim, encontrei um ensino de excelente qualidade. Fiz um doutorado com um sujeito que admiro demais, que é o Michel Maffesoli, mas, além disso, ou muito mais do que isso, foi o que a França representava culturalmente. Eu fui para a França por tudo o que Imaginário francês sempre simbolizou para os professores universitários, para os intelectuais, para os que sonham em ser intelectuais no Brasil.

Vejam que a cultura francesa, do ponto de vista das ciências humanas, sempre foi decisiva para a cultura brasileira: observem a história do positivismo, a influência de Auguste Comte e tudo o mais. Vocês sabem, até o final do século 19, início do século 20, todo o intelectual brasileiro que se prezasse ia à Paris fazer uma espécie de “beija-a-mão”, de ritual de veneração, ao que restara de Auguste Comte. O sujeito ia lá na “Rue Monsieur Le Prince”, chegava perto da casa e colocava a mão na parede (alguns ainda fazem isso) ou ia de alguma maneira reverenciar Comte.


Há uma história fabulosa, neste sentido, no livro do Luiz Antônio de Assis Brasil, quando o personagem quer romper com essas reverências, quer eliminar isso “matando o pai”. Então, ele vai a Paris, na Rue Monsieur Le Prince”, que é bem pertinho da Sorbonne. Chegando lá, como ato supremo de irreverência, ele “mija” na parede da casa de Comte, afirmando o seguinte: “Esse Imaginário não me serve mais”, concretizando, assim o ato, ao mesmo tempo vulgar e enfático, de ruptura com alguma coisa que está enraizada como Imaginário geral.
Então, as nossas relações culturais na maior parte das vezes são dessa natureza. Tem um motor que está impulsionando as nossas ações, que está nos fazendo agir e que é de alguma maneira invisível, ele está lá, não temos consciência dele.
Imaginário, evidentemente, é uma palavra com inúmeras acepções. Quando eu falo de Imaginário aqui, o pessoal da Psicologia talvez fique um pouco aborrecido, porque devem ficar pensando em Lacan, pois o Imaginário tal qual Durand, Maffesoli e Bachelard tratam não tem absolutamente nada a ver com o Imaginário lacaniano, ao contrário, de alguma maneira tem a ver com o que em Lacan chamaria de simbólico. Nesta área, deste lado de cá, se construiu uma boa antinomia, que é falar de Imaginário simbólico, que no fundo é uma mistura um tanto estranha. O Imaginário aqui quer dizer simplesmente isso: são essas forças irrefreáveis, inconscientes e evidentemente imateriais, balizadoras das nossas ações, que estão constantemente se desconstruindo e se reconstruindo, sem poder ser medidas, acabam por estabelecer o vetor das nossas práticas. Não tem grupo sem Imaginário, não tem indivíduo sem Imaginário, é impossível, nós somos feitos disso.
Durante muito tempo, no auge das crenças marxistas, se tentou diminuir ao máximo, à parte da chamada superestrutura, atribuindo à força motora simplesmente ao material e ao econômico o que, do ponto de vista imaginal, era simplesmente o Imaginário econômico que privilegiava a infra-estrutura, em relação à superestrutura. Depois o que a gente viu ao longo da polêmica e das discussões nesse campo foi que apareceram pensadores que começaram a relativizar o papel da infra-estrutura, que, como Althusser, por exemplo, ao dizer que havia uma relativa autonomia da superestrutura, foi se recuperando, aos poucos, o papel do simbólico, da cultura e de tudo aquilo que poderia ser, nessa ótica, considerada como idealista. Essa é uma das críticas que Marx faz da concepção de Imaginário: de que seria uma nova forma de idealismo imaginar que somos impulsionados para a ação, não por um conjunto de forças materiais, mas por aquilo que sonhamos ou pensamos.
Ora, o Imaginário é isso mesmo, tem a ver profundamente com o valor do sonho, da fantasia e daquilo que está arraigado em alguma coisa que, freudianamente, poderia se chamar de inconsciente, mas que não é exatamente isso, porque de alguma forma, usando uma expressão consagrada, “o inconsciente é um continente negro que na maior parte das vezes a gente tem medo dele”, é como se dissesse assim: “do inconsciente vão sair forças tenebrosas que vão nos impulsionar para ações perigosas”. Os advogados, por exemplo, adoram explorar isso. Cada vez que alguém mata alguém barbaramente, eles dizem: “é alguma coisa que saiu lá das profundezas do inconsciente”.
O Imaginário, no fundo, é uma concepção positiva das coisas, uma idéia de que, sim, os nossos sonhos, utopias e aspirações acabam nos movendo para as realizações.

Neste sentido, o Imaginário é uma cristalização de utopias. É a idéia de que não se constrói absolutamente nada se não for a partir de uma utopia. A utopia no sentido de pensar o impossível, o ainda não realizável.


Quando a gente olha hoje tudo que nós temos, um microfone, uma geladeira, um computador, uma televisão, um avião, tudo isso era parte do Imaginário tecnológico de um Júlio Verne. Era absolutamente impensável e improvável que isso pudesse acontecer e está aí. É como se tivesse acontecido porque alguém ousou imaginar que seria possível, quando não era. Bom, a maior parte das coisas, em termos de ciência e tecnologia existentes hoje, nós mortais, não temos a menor idéia de como funciona. Uma televisão não sabemos como funciona, a não ser que liga, desliga e troca canais, mas como se dá o milagre de uma imagem ser transportada de um lugar para outro, e ainda mais, não de lugares pertinho, mas de um continente para outro em tempo real. No entanto, isso acontece pela força da pesquisa, da inteligência de alguns ou de muitos. É o investimento em investigação científica. Mas o limite da ciência de toda maneira existe e, muitas vezes, a ciência é impulsionada por outras coisas que não são de uma ordem científica, aquilo que poderíamos chamar de “o fator da sociologia da ciência”, ou seja, a ambição, as brigas de poder, a vaidade, o desejo de fazer uma carreira, como também um espaço absolutamente misterioso onde um impulso para a curiosidade, para a descoberta, uma motivação de ordem afetiva se impõe.
E o Imaginário é uma construção coletiva, resultante de cruzamentos infinitos e constantes, de permanentes práticas sociais onde os grupos e os indivíduos fazem recortes e apropriações desses cruzamentos, que são sempre provisórios, porque ninguém tem um Imaginário permanente, ninguém será sempre a expressão de um mesmo Imaginário, ninguém se mantém único.

Uma das frases mais usadas para se falar de Imaginário é aquela famosa expressão do poeta francês Jean Arthur Rimbaud: “o eu é um outro”. Vejam, a gente acorda todos os dias e se olha no espelho e, aqueles que são mais lúcidos, sabem que a cada dia aquele que se olha no espelho não é o mesmo. Outros tentam se consolar dizendo: “não, ainda sou eu”, mas nunca é o mesmo.


Nós estamos sempre em movimento e nós, em nós mesmos, temos muitos. Nós somos contraditórios e a crítica mais injusta que se faz a alguém é dizer: “esse sujeito é incoerente!”; somos todos incoerentes. “Esse sujeito está em contradição!”, estamos sempre em contradição. Em algumas situações nós não podemos aceitar a contradição, mas imaginar um sujeito isento de contradição é imaginar um ser inumano. Há muitos historiadores que fazem, sob a alegação de que estão fazendo uma análise fria dos acontecimentos, projeções de coerência que não se justificam em relação ao comportamento de seres humanos. Por exemplo, uma das coisas que se faz no Rio Grande do Sul é imaginar Borges de Medeiros, que foi um positivista, como um homem sem contradições, sem divergências consigo mesmo e incapaz de sair do seu credo positivista. Há pouco tempo uma excelente jornalista que hoje está na revista Época, e que trabalhou durante muito tempo no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, descobriu que Borges de Medeiros consultava quase que mensalmente um príncipe africano, para fazer previsões sobre como seria o futuro político do Brasil e sobre determinadas atitudes que ele queria tomar. Os historiadores disseram que ela não tinha alguns documentos onde aparecessem encontros do príncipe com Borges de Medeiros. Disseram, ainda, que aquilo era improvável, impossível, não porque eles tivessem apresentado outros documentos ou provas cabais, mas porque não era coerente com a figura do positivista. Então, dentro de uma idéia de linearidade do comportamento, não era mesmo. Agora, será que Borges de Medeiros era mesmo um ser capaz de se elevar acima dessa condição humana, que é a de ter vários em si mesmo, de se contradizer, de pensar de diferentes formas, ser camaleônico. A gente pensa que essa história de ser mutante só apareceu com o Raul Seixas e companhia, não, isso sempre existiu, nós sempre fomos mutantes. E, quando a gente estuda a biografia de alguém, o que mais surpreende são as variações ao longo do caminho.
Eu tenho estudado muito nos últimos tempos, para escrever um romance, a biografia de Getúlio Vargas, e o que mais me surpreende é o quanto, a cada momento, ele foi múltiplo. O quanto cada atitude contradisse a anterior. Um exemplo flagrante disso é a famosa história com Luís Carlos Prestes. Getulio mandou prender Prestes, que ficou oito anos na cadeia, praticamente isolado, numa situação insuportável. A única pessoa que ele via, já uma grande contradição, era o jurista Sobral Pinto, que foi seu advogado, era um católico fervoroso, absolutamente anticomunista e que tinha tudo para não querer ser o defensor de Prestes. Então, Prestes colocado na cadeia por Getúlio, tendo como defensor um católico fervoroso e que tinha todas as razões para não estar com ele, dependia dessas contradições. Quando, finalmente, vem a anistia em 1945, Prestes apóia Getúlio e o Sobral Pinto, que deveria, por lógica, apoiar Getúlio, publica uma carta nos jornais, criticando Prestes por ter apoiado Getúlio, o que ele achava absolutamente inaceitável. Queria, então, que Prestes apoiasse o brigadeiro Eduardo Gomes que era um sujeito liberal e que tinha lutado bravamente pelo fim da ditadura. Prestes negou, pois tinha razões concretas e ideológicas para apoiar Getúlio. Então, se formos examinar esse período da história brasileira, o que se vê é contradição em cima de contradição, onde as pessoas estavam convencidas, por uma série de razões, que estavam agindo coerentemente. Essas contradições só aparecem para nós agora. Apareciam para alguns naquele momento. Se vocês fizerem uma comparação com o período atual não vai ser muito difícil imaginar coisas que nos parecem absolutamente, para mim, pelo menos, difíceis de entender. Para outros são absolutamente razoáveis. A gente se pergunta: “ O Lula é o Lula ou ele mudou, ou ele é esquizofrênico, ou ele é oportunista, ou realista, o que ele é, que forças o movem?” A questão com o Imaginário é sempre esta de saber que força nos movem, como se construíram, de onde vieram e como se alteram?

Eu escrevi um livro, “As tecnologias do Imaginário”2, onde procurei justamente aqueles fatores irrigadores de Imaginários. Normalmente a gente imagina que tecnologia e Imaginário são termos antagônicos. A tecnologia sendo da ordem da ciência, da razão, do material, do matemático e do mensurável, e o Imaginário sendo da ordem do misterioso, do inefável, do poético e tudo mais. Eu fiz o livro para tentar dizer que mesmo esses Imaginários, tendo um pouco disso tudo, são estimulados, irrigados por tecnologias no sentido de fatores de construção das nossas percepções.


“Tecnologias do Imaginário” é um termo bastante amplo, porque envolve quase tudo. O próprio livro é uma tecnologia do Imaginário, na medida em que durante muito tempo foi até mesmo a única, onde a gente “bebia” aquilo que educava a nossa percepção, nos apropriávamos disso que bebíamos e, daí, forjávamos uma visão de mundo, porque o Imaginário sempre forja uma visão de mundo. De uma maneira geral é a televisão a principal tecnologia do Imaginário, numa cultura como a brasileira, mas o cinema também é uma tecnologia potente de Imaginário. Hoje, para outras pessoas, é a Internet a tecnologia potentíssima de formulação de Imaginários. Então, a gente vai trabalhando com tecnologias que se irrigam, se cruzam e, muitas vezes, se contradizem. A televisão pode ser vista, na ótica da manipulação, como aquilo que é usado como instrumento para manipular a nossa consciência ou pode ser vista como um instrumento de formatação de Imaginário. O Imaginário não é o produto de uma manipulação, ele é o produto muito mais de uma adesão inconsciente. O Imaginário é aquilo que nos seduz e que nos provoca um choque perceptivo.
Normalmente as nossas relações com o existente, com a cultura, se dão de duas maneiras: a identificação e o choque perceptivo. A principal é a identificação, onde a gente vê algo, reconhece e se identifica. É o que acontece, por exemplo, no texto jornalístico noticioso onde a maior parte das vezes a gente lê, reconhece aquilo, identifica e esquece. Existem outros tipos de produtos culturais que produzem choques na percepção, um estranhamento. Aquilo vem até nós e produz uma espécie de ruptura que faz com que algo seja absorvido de uma outra maneira: aquilo fica. Então, o Imaginário só começa a se enraizar em alguém como Imaginário na medida em que um choque perceptivo foi produzido. A arte, por exemplo, diferentemente do texto da industria cultural, tem por objetivo fundamental produzir choques perceptivos. Não tem arte sem choque perceptivo. Tem industria cultural, mas arte, não. Outro dia eu li uma entrevista genial na Folha de São Paulo sobre um artista britânico, eu creio, que fez o seguinte: pegou um copo d’água, o fotografou e colocou como título da obra “Um Carvalho”. Ele é um sujeito bastante conhecido que ficou famoso com obras desse tipo. A Folha de São Paulo foi entrevistá-lo, fotografou-o ao lado de um carvalho e colocou sua obra ao lado, na página. O sujeito, tocando na árvore de carvalho, e do outro lado um copo d’água. Então, perguntou para ele: - “Isto é um copo d’água?” – “Não, é um carvalho. O senhor não está vendo que é um carvalho!” – “Não, como carvalho, estou vendo este outro que o senhor está tocando!” – “Não, isto é uma árvore do carvalho, agora isto aqui é um carvalho, uma obra de arte!” – “Sim, mas quando é que isso se transforma num carvalho?” – “Quando eu fiz a obra de arte!” – “E sempre que o senhor vê um copo d’água, ele se transforma num carvalho?” – “Não, só quando eu faço uma obra de arte”. E como é que se dá a passagem da percepção, quando é que o copo d’água se transforma num carvalho? “–” Bom, no momento em que eu produzo a obra de arte! “Bom, o sujeito não consegue enxergar nunca um carvalho no copo d’água, e o artista diz o seguinte: -” Eu não consigo entender porque o senhor não vê o carvalho, porque é óbvio que aí têm um carvalho, tanto que essa obra de arte já me valeu a fama como artista. É um problema de percepção, o senhor não consegue ver o carvalho, porque a sua educação perceptiva só lhe permite ver um carvalho numa árvore. O senhor não consegue ver aqui, mas se educar a sua percepção verá cristalinamente que aqui tem um carvalho. O sujeito saiu de lá pensando assim: - “Que grande impostor”, que é a sensação que todos nós temos, quando vemos determinadas instalações que nos fazem produzir aqueles discursos mais conservadores sobre as obras de arte.

Uma vez fui a uma exposição de um amigo artista em Paris, - um sujeito que eu não via havia vinte anos. Quando cheguei, vi que tinha um cabide com um chapéu. Como estava cansado, me escorei no cabide, o mesmo caiu, e, por conseqüência, derrubei a obra de arte, o que foi uma gafe tremenda. Recuperamos a obra de arte, mas eu fiquei com aquela sensação de ser um grande ignorante, que não era capaz de reconhecer uma obra do gênero artístico e, portanto, capaz de cometer uma grosseria de pensar que um cabide com chapéu não era uma obra de arte, quando era visivelmente uma. É da mesma ordem do carvalho.


Então, o que é uma obra de arte? Alguém sabe? Claro que nós não sabemos. Uma obra de arte é uma construção, uma atribuição social e cultural. Uma atribuição de Imaginário. No fundo, a impostura do sujeito do copo d’água/carvalho epistemologicamente é muito interessante, porque o que se está questionando é como se atribui a algo o estatuto de obra de arte, - quem tem esse direito, como se faz, com que percepção?
Portanto, voltamos ao ponto de partida. Como se educa a percepção para que algo tenha o valor de identificação ou de choque perceptivo? A maior parte dos livros de literatura não nos causa interesse nenhum, porque ficam no nível da identificação, não conseguindo nos provocar nenhum tipo de ruptura, não atingindo a nossa forma de olhar o mundo, não modificando as nossas lentes em relação ao mundo. Então, não criam choque perceptivo. A arte está dentro daquela lógica heideggeriana, de fazer vir. É arte aquilo que desvela, que revela, que faz emergir, ou seja, aquilo que traz da sombra algo que está escondido, aquilo que arranca da familiaridade, aquilo que por ser familiar nós não estamos vendo. A arte é essa capacidade de provocar, de interpelar, de fazer com que o familiar seja interpelado e convertido em algo estranho, que finalmente nos toque os sentidos; o resto é pura identificação que não produz efeito nenhum, e passa. Arte é uma questão de ponto de vista, no sentido de interpelação do nosso olhar. As pessoas perguntam assim: “Por que a Metamorfose de Kafka é uma obra revolucionária e marcante, que chocou a nossa percepção e ficou para sempre, ou para o sempre possível até agora? Não é porque o texto é muito revolucionário - o texto de a Metamorfose é absolutamente simples, não tendo nenhuma palavra que as pessoas não conheçam - pois, a leitura desse texto não requer uma única ida ao dicionário para uma pessoa de vocabulário médio. Ela não têm, do ponto de vista de linguagem, absolutamente nada complicado - não é um Guimarães Rosa ou um Joyce – chegando a ter uma descrição quase no plano “transparente” da identificação. O que tem ali é um ponto de vista diferente – a história do ponto de vista de alguém que acorda transformado num inseto – e que, talvez, hoje não tivesse tanto impacto. Na situação em que nos encontramos o mais chocante seria o sujeito acordar como um inseto transformado num ser humano e o choque dele diante de tudo que estamos vivendo, talvez fosse equivalente. Vocês imaginem uma traça transformada num ser humano, que saiu de dentro de um livro, que cultua o papel – marca de civilização – e que de repente se vê diante de uma televisão, vendo o Faustão, a Hebe Camargo, o João Gordo ou o Ratinho. Essa traça deve ter vergonha de ser humana e vontade de voltar a sua condição privilegiada de traça – voltar ao interior das páginas de um livro. Ora, é o ponto de vista Kafkiano que faz a revolução. É a sua capacidade de romper com o Imaginário dominante naquele momento e fazer ver com outros olhos, os olhos do impossível.
Há uma série de exemplos assim: “O tambor” de Günther Grass – livro transformado em filme – é uma questão de ponto de vista – o nazismo visto pelo ângulo de um menino de 20 anos, que não cresceu. Ao mesmo tempo em que ele tem 20 anos, ele se recusou e parou de crescer. Então, ele olha o mundo de baixo para cima – que é um debaixo para cima construído pela sua vontade – sendo que está nos dois lugares. Ao mesmo tempo ele tem 20 anos e não tem 20 anos. É esta alteração de ponto de vista que faz com que toda a história faça sentido. Fora isso, não teria sentido nenhum.
A história do Kafka, tirando esse detalhe que está contado nas primeiras linhas – toda a história da Metamorfose está no início: “Quando numa manhã Gregor Samsa acordou transformado num terrível inseto...” – torna-se comum. Toda a história vai fazer sentido até o fim, mesmo sabendo desde o começo o que acontece - toda a força está ali.
Normalmente, as histórias se contam ao inverso: o sujeito conta toda uma história para no final revelar o grande desfecho. Na de Getúlio Vargas, por exemplo, a grande dificuldade é que todo o mundo sabe o final: ele se suicidou. Então, não adianta guardar essa revelação para a última linha, porque todos já sabem. Tem é que trabalhar com ela, possivelmente, desde a primeira linha.
No caso do Kafka, a grande magia está em trabalhar – mostrando o desenlace – desde as primeiras linhas, e funciona. Funciona porque mexe, justamente, com a nossa capacidade de percepção do real e olhem que há um contrato tácito – que é típico de um contrato que se estabelece entre o público e a arte – que é o de considerar verossímil o que é inverossímil. O sujeito poderia dizer na quarta linha: “ninguém se transforma num inseto, logo, não vou ler essa bobagem. Ninguém acorda transformado num inseto”. No entanto, todo mundo faz esse pacto e continua a leitura. O pacto feito é: “vamos considerar que ele acordou transformado num inseto”, e cada vez mais nós acreditamos nisso até a última linha, como acreditamos num centauro, no Negrinho do Pastoreio ou na Salamanca do Jarau. Nós acreditamos tacitamente naquilo que não existe como entidade concreta – dentro desse estatuto de existência – mas, que existe numa outra constituição, que é o estatuto da criação imaginal.
Quando falamos assim: “esse aí parece o Capitão Rodrigo ou esse aí é quixotesco”, a gente vê que determinados seres irreais são muito mais reais do que todos os outros seres concretos que andam por aí. Dom Quixote e o Capitão Rodrigo tem mais “espessura” do que a maior parte das pessoas que a gente conhece – são mais permanentes, difundidos e andarilhos do que a maior parte dos conhecidos – e eles não existem, mas sabemos exatamente as características de cada um: ninguém vai se enganar e chamar de quixotesco quem não é. É como os heterônimos de Fernando Pessoa, onde o genial é que era o mesmo escritor fazendo muitos escritores, cada um com uma personalidade diferente, perfeitamente consistente, psicologicamente aceitável, verossímil.
O Imaginário é isso, é essa capacidade de cristalizar como admissível aquilo que, em princípio, é inverossímil e que nos move. Em outras palavras, o que nos move é o que não existe, é a utopia, é o afetivo, é o não racional – muitas vezes o irracional mesmo. O que nos move é o desejo de construção de algo. É, fundamentalmente, aquilo que nós não somos, mas queremos ser. Então, não nos move, simplesmente, o realismo – ele também é importante e é uma variável que conta – mas, se faz uma composição aparentemente antinômica e inaceitável entre o utópico e o realismo. Portanto, quando alguém diz: “não queremos uma política realista”, ela só faz sentido na medida em que ela tenha pelo menos um grão de utopia. Ou quando alguém fala: “queremos uma política utópica”, ela só faz sentido se tiver alguma possibilidade realista de concretização. É nessa ambigüidade que se dá a construção da cultura, nessa determinação de realizar o que não somos e que, portanto, não poderíamos ser, mas que, com freqüência, conseguimos alcançar.
O Imaginário tem sido uma imensa discussão - teorização - por alguns dos principais pensadores contemporâneos e cada vez mais tem servido para afirmar uma mesma idéia: a definição de ser humano. Ser humano é a capacidade de fabular, de inventar, de criar e de gerar coisas que, numa primeira olhada, são inúteis, como a poesia. Alguém poderia dizer: “a poesia é útil, ela serve para vender livros – embora venda muito poucos – e serve para impulsionar as pessoas a isto ou aquilo”. Pode ser que sim, mas é uma derivação. A poesia em si, felizmente, não serve para nada, como a arte também não. E, por não servir para nada, é que elas são tão determinantes e úteis para a nossa vida. É aquele momento em que nós precisamos partilhar algo que está além do utilitarismo, propriamente dito, aquilo que faz sonhar, que faz gerar utopia, que permite compreender o que somos, porque não pretende de uma maneira imediata determinar o que devemos ser, mas que nos interpela e nos provoca.
E a arte, nesse fazer vir, ela faz vir não o que o artista é, não o que a obra é – que também vem – mas fazer emergir o que o receptor é.
Outro dia fiquei encantado por um acidente de percurso. Eu dei um livro para os meus alunos de graduação – chamado “O próximo amor” - para que fizessem uma resenha. É a história de um sujeito que se apaixona por uma aeromoça um tanto volátil – como a própria metáfora indica, ela era instável, estava sempre em deslocamento – logo, não estava nunca com ele e o traía a “torto e a direito”. O sujeito sofre como um cão.
Os estudantes leram e disseram o seguinte: “não entendemos, professor, como é que alguém pode sofrer assim por uma mulher”. E eu disse: “eu é que não entendo como é que alguém pode não sofrer assim por uma mulher”. “Olha, professor, quando não dá com uma, vai com outra, tem fila, é assim”. E eu: “bom, mas isso é um tanto quanto ‘self service’, não?”. “É a vida, professor, não tem porque ficar quebrando a cabeça”. Então, eu compreendi que para eles – pelo menos eu disse, me resguardando: “a gente conversa dentro de 20 anos” – isso era uma idéia mais ou menos assim: - a paixão é própria das situações onde não se pode mudar.
Então, se fica preso pela dificuldade da mudança, mas quando pode mudar e não precisa justificar, em princípio não há razão para não mudar – não deu certo, muda. Talvez outras gerações tenham sido muito mais apaixonadas, porque era mais difícil mudar, era mais difícil desvincular-se. Hoje não há nenhuma dificuldade para desvincular-se. Desta forma, certo ou errado, o que tinha ali era o livro fazendo ler o leitor, não era tanto eles que estavam apreendendo com o livro que dei para que lessem. Eu é que estava apreendendo um pouco, na medida da minha capacidade de leitura sobre o que o livro deixava ler, sobre os seus leitores. Isto é típico de uma apreensão Imaginária. O Imaginário que flui e que brota. O livro foi apenas um fator de transbordamento que fez emergir e, Heiddegerianamente falando, ele fez vir, ele interpelou e provocou. Vocês sabem a famosa divisão de Heiddeger – têm tecnologias que não interpelam a natureza e outras que sim. Então, por exemplo, um moinho-de-vento não interpela a natureza, o regime dos ventos não se altera em nada, continua o mesmo. Modifica a paisagem, sem dúvida, e, portanto produz coisas, mas não interpela a natureza, no sentido de não deturpar as “entranhas da natureza”. Agora, determinadas tecnologias industriais interpelam a natureza, provocam, alteram – é a história do impacto ambiental. Aquilo que tem impacto ambiental interpela a natureza.
Considero a arte um dos principais fatores de construção do Imaginário, porque através dela é que se dá, profundamente, a interpelação do indivíduo, mas nós somos a cada dia interpelados pelos “n” produtos culturais que vemos e, quando eu falo arte, estou dizendo que é o vetor predominante, mas não é só a arte – uma novela pode interpelar as pessoas. As novelas como a da tv Globo - “Mulheres Apaixonadas” - interpelam muita gente. A relação dos jovens com os idosos, mostrada na novela, tem provocado muita interpelação, com as pessoas discutindo, é assim, não é assim, porque é assim. Dá-se um processo de reflexão porque de repente tem muita gente que, na surdina, sem querer confessar, está dizendo assim: “olha, eu tenho um pouco de dó deles (os velhos) ou, o que é pior, achando que poderia comprar uma raquete (instrumento com o qual, na novela, o marido bate na esposa). Tudo isso mexe com quem assiste. A pessoa se vê, se identifica. A identificação não é só o que o cinema americano faz – chorar como o personagem – para uma certa catarse um tanto piegas, se gostar do filme, ir embora, boa noite. Não, a identificação é uma capacidade de se ver pelo negativo. Não é quando eu digo: “ah! eu sou parecido com o personagem, nós somos tão sofridos”. É quando eu descubro no lado perverso do personagem o meu lado perverso e que eu me obrigo a pensar: “será que eu posso expurgar esse lado perverso que não tinha racionalmente admitido ainda a existência? ”É aí que estou em contato com o meu Imaginário”.

Então, assim como a Psicanálise é um instrumento para a detecção de algo que está no indivíduo e que ele não tem elaborado, a arte é um instrumento para a detecção do Imaginário do indivíduo. Ela o interpela e faz com que ele se revele, com que ele venha à tona. É através da arte, quando o sujeito começa a atentar conscientemente para os seus efeitos, que ele descobre que tem esse reservatório motor, que faz agir e que impulsiona. Que não é tudo, pois nós temos todo um universo de escolhas racionais. Mas, em boa parte do tempo, nós não somos os executores dessas escolhas racionais. Por mais que sejamos racionalizadores, nós somos muito propensos à racionalização. Quando uma coisa não funciona, a gente justifica e dá à racionalização um caráter de racionalidade, mas qualquer um percebe quando é uma racionalização (aquela autojustificativa-mal-costurada), onde nós temos um papel “bom”.


Portanto, o Imaginário é acima disso, é quando nós não queremos racionalizar mais. O Imaginário é aquilo que nos envolve e nos dá uma “aura”. O Imaginário é uma aura, é aquilo que nos dá a nossa especificidade e que faz de nós, temporariamente, intensamente, alguma coisa. Michel Maffesoli, meu mestre nessas coisas, diz o seguinte: “ Nós vivemos de sinceridades sucessivas”. O Imaginário é um desses estágios de sinceridades sucessivas, ou seja, quando se está ali, se está profundamente, intensamente, o que não quer dizer que vá se ficar para sempre no mesmo lugar.
Então, há no Imaginário um mesmo grau de permanência, volubilidade e de passagem. Essas passagens acontecem, fazem parte do existente e, no entanto, cada situação presente é “aurática”, ou seja, se está profundamente aureolado e enraizado naquilo.
Então, o Imaginário é uma espécie de poesia da vida, que se não mede como somos, permite-nos compreender um pouco melhor porque agimos de uma maneira e não de outra.


1 Texto original da 1ª Conferência de abertura do IIº COLÓQUIO INTERINSTITUCIONAL SOBRE IMAGINÁRIO, CULTURA E EDUCAÇÃO E DO Iº de COMUNICAÇÃO, degravado e organizado Por Alex Vergínio Assunção, alunos do programa de mestrado em educação, da Faculdade de Educação da universidade Federal de Pelotas

2 MACHADO DA SILVA, J da. As Tecnologias do Imaginário. Porto Alegre: Ed. Sulina, 2003.





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