Como ciência, é o estudo da subjectividade e intersubjectividade; como terapia, a transformação do estilo relacional patológic



Baixar 85.94 Kb.
Página1/3
Encontro31.03.2018
Tamanho85.94 Kb.
  1   2   3

Textos/Congresso Brasil II

25.10.07



A FUNÇÃO DA PSICANÁLISE NA RESSIGNIFICAÇÃO DE VÍNCULOS PRÉ-EXISTENTES E NA CONSTRUÇÃO DE NOVAS LIGAÇÕES:

o processo de mudança na cura analítica e a mudança no processo analítico *

António Coimbra de Matos **

* Conferência no II Congresso Luso-Brasileiro de Psicanálise, 15-17

de Novembro de 2007, Bahia, Brasil.


** Psicanalista.

RESUMO
O autor desenvolve, nesta conferência, quatro princípios essenciais: (1) a urgência de substituir a teoria pulsional da mente por uma teoria relacional – a que propõe é a da “relações objectais internalizadas”; (2) o enfoque na nova relação, em vez de na transferência; (3) a primazia do investimento do analista no analisando; (4) a necessidade da expressão das vivências e afectos contidos ou acantonados no “palco” da sessão analítica, e não na transferência.


Palavras-chave: Relações objectais internalizadas, nova relação, precessão e primazia do amor do analista, enacção no palco da sessão

O processo de mudança na experiência analítica e a sequente mudança na vida diária – processo e resultado da cura analítica – têm constituído e constituem o fulcro ou eixo principal da investigação, conceptualização e prática psicanalíticas.



Porém, se no passado remoto e ainda relativamente recente a incidência do trabalho analítico e da teoria que o suportava caía na rememoração da infância e, um pouco, da juventude, na análise da transferência e na elaboração mental dos dados de uma e de outra – perspectiva histórica e de reactualização, predominantemente passiva –, hoje em dia a atenção recai sobretudo no momento presente da relação encetada e desenvolvida pela e na díade analítica. Do analista espelho e objecto transferencial ou de projecção, passamos ao analista real e participante – o novo objecto que facilita, cataliza e promove uma nova relação: vértice prospectivo, pró-activo e desenvolutivo. Desviamos o foco de escuta, análise e interpretação do passado para o presente – olhos postos no horizonte do futuro –, do inconsciente dinâmico para o implícito, da memória para a expectativa (a “memória do futuro”, de Bion), da dor para o desejo, do ressentimento para o sonho-projecto, da reconstrução para a construção, da transferência-contratransferência para a nova relação, da repetição da relação patológica e patogénica para a emergência e crescimento de uma relação sanígena e desenvolutiva, da regressão para a retoma do desenvolvimento suspenso, da história para a criação – co-criação de um novo destino; metaforicamente, do “lamber as feridas para o crescer do pêlo”.

Não se despreza a técnica clássica. Continua a ser importante a recuperação do excluído da consciência pelos processos defensivos – o recalcado, o clivado e/ou não projectado (split-off e split-in ou/e split-into) e o abolido ou apagado (Freud, 1911 – “Caso Schreber”; semelhante ao “forcluído” de Lacan). É relevante a recolha do transferido – pedra angular do edifício da técnica, tradicional e contemporânea; mas é iatrogénico deixar desenvolver e mais grave ainda fomentar a neurose (psicose ou perversão) de transferência. Interpretam-se os movimentos transferenciais, de preferência logo à nascença; precisamente para impedir a instalação da neurose de transferência – como ensinava Sacha Nacht, o grande “mestre da prática” em Paris. O processo de mudança faz-se na passagem da transferência para a nova relação; a regra de ouro é: dissolver a transferência, construir a nova relação.

Ou então, desfaz-se a transferência à martelada; é uma técnica comparável à do “abcesso de fixação” da antiga medicina infecciológica ou da “malarioterapia” na paralisia geral (neuro-sífilis) da psiquiatria do primeiro quartel do século XX (1918). Não é – como se pensou – reproduzindo na relação analítica a doença que esta se trata. Com esse método, o mais que se pode obter – e, de facto, obtém – é a transformação de uma neurose sintomática num carácter neurótico (já não tem claustrofobia nos elevadores, mas/porque sobe as escadas, “o que faz bem ao coração” – continua a evitar, mas racionaliza; o sintoma da doença [egodistónico] transforma-se em traço de personalidade [egossintónico]); de uma psicose numa personalidade psicótica; de uma perversão aberta numa perversidade oculta. Isto não é resolução da patologia, mas modelagem; não é psicanálise, mas terapia comportamental transvestida mediante roupagem “psicanalítica”. Não há expansão da mente mas redução. Comparando ou fazendo uma analogia, não é educação mas domesticação – “educar, dizia Pestalozzi, não é encher uma ânfora mas alimentar uma chama viva”. Psicanálise não é só aprendizagem, é crescimento mental (Bion); sobretudo, não é condicionamento operante. Mas cuidado! A perversão da técnica anda por aí, passeia-se pelas margens da verdadeira psicanálise. Ainda se repete que a cura analítica leva à “substituição do sofrimento neurótico pelo sofrimento normal”, que “é preciso tolerar a dor”; como se estivéssemos condenados ao sofrimento e à dor, quando estes são apenas sinais de sobrecarga funcional ou de lesão somatopsíquica que é necessário não apagar enquanto não se resolve o problema ou elimina a noxa – para evitar a desistência ou a anestesia em face do mal e promover a busca de solução. Vivemos para nos realizarmos e não para sofrer. Temos direito ao prazer e não o dever de suportar a dor. O entusiasmo é o melhor sinal de saúde mental; e o desânimo, o de depressão. O conformismo é para os masoquistas.

O mesmo se passa com a apregoada virtude da “tolerância à frustração”; apenas e só enquanto não descobrimos uma alternativa satisfatória. A realização negativa deve dar lugar ao pensamento: para indagar, projectar e planear; depois, decidir e agir em consonância.

Ainda se ouve dizer que a análise substitui o recalcamento do inaceitável pela sua condenação. Quando o trabalho é a transformação no que pode ser aceite pelo próprio e pelos outros. Psicanalisar não é limitar mas abrir a soluções consensuais e úteis para todos – em linguagem psicanalítica, para o sujeito e para o objecto.

Uma palavra só sobre a disciplina e o estabelecimento de limites, na vida e na psicoterapia/psicanálise. Berry Brazelton diz que o bebé precisa de amor e disciplina; o analisando, dizemos nós, também.

Todavia, vejamos o que, aqui, quer dizer disciplina. Não é obediência a regras, muito menos heterónomas (ditadas pelo outro); é organização, ordem. A criança e o analisando precisam de um ambiente ordenado (não caótico), de conhecer as regras do jogo (setting analítico) – previamente apresentadas, amplamente discutidas, consensualmente convencionadas e reciprocamente aceites. Regras essas, ainda, que não são estáticas – sem excepções ou nuances – nem eternas – cabe à comunidade psicanalítica debatê-las e, se necessário, alterá-las; muito menos, arbitrárias – resultam da observação metódica e da experiência corrigida. Regras essas também deduzidas tendo em conta os direitos, interesses e bem-estar do analisando; e, sobretudo, com a finalidade (teleonomia) de facilitar o seu desenvolvimento. Uma condição imprescindível é aceitar sem reservas, crítica ou menosprezo os valores, ideais e princípios do analisando; a sua moral autónoma é para respeitar totalmente. Somos cientistas e não doutrinadores, humildes e não omnipotentes, objectais e não narcísicos. Investigamos, não transmitimos a fé.

Não se devem impor limites, mas mostrar que a realidade tem limites (quem mete a mão no fogo queima-se) e a própria realidade objectal também os tem (se bater na mãe, ela fica triste e zangada e eventualmente retalia). A liberdade individual só tem como limite o respeito pela liberdade dos outros. E a liberdade é o valor supremo.

Regemo-nos por uma moralidade genital – em que tudo é permitido, excepto o que é expressamente proibido – e não pela moralidade anal (Ferenczi) – em que tudo é proibido, excepto o que é expressamente permitido; a diferença é abissal. Na relação analítica só há uma proibição: passar ao acto agressivo ou sexual. A destruição de coisas é de somenos importância. Durante uma sessão, uma paciente borderline atirou por cima da minha cabeça um pesado anel que foi embater no vidro da janela. Aflita, diz: “Ai que parti o vidro!” Ao que respondi serenamente: “Não há problema, manda colocar outro”.

Não é o caos, mas é um clima de espontaneidade (recordemos que foi Moreno o primeiro a realçar o valor da espontaneidade). Com efeito, a espontaneidade é o motor eléctrico da criação.

Uma colega da minha geração de psicanalistas,Maria Alice Malva do Valle – infelizmente já desaparecida –, costumava dizer: “Na análise é como na cama – não há programa”. Até há; mas em relação a ele não tenho mesmo nenhuma memória, nem desejo, muito menos qualquer compreensão. Prefiro o meu livre pensamento e aprecio mais o pensamento divergente do analisando.

Efectivamente, é uma ilusão – ou uma perversão – desejarmos conduzir a análise – ou conduzi-la mesmo. A boa análise é uma auto-análise psicanaliticamente assistida. Damos uns toques interpretativos, explícita e implicitamente. Acompanhamos – com empatia, resposta afectiva oportuna e complementarmente adequada, pontuação interpretativa verbal insaturante (as interpretações são/devem ser hipóteses de explicação – “hipóteses de trabalho”, como lhes chamou Freud em 1895 no seu Esboço para uma Psicologia Científica – e jamais interpretações acabadas, leis de regência do conhecimento, que mais não fazem que encerrar, no paciente e no analista, o apaixonante exercício de ir conhecendo e a serena vivência de estar sendo; seja, descobrir e existir) e, retomando o fio do discurso, na mais íntima, autêntica, profunda e empenhada atitude de contínua esperança e aposta no sucesso, do paciente e do analista. Só assim se assiste ao novo nascimento psíquico do analisando; desta feita, criado no “útero mental” do psicanalista. Com prazer, gozo e alegria – quer dizer, na dimensão do real, do imaginário e do simbólico.

Como estamos longe do “analista suposto saber”! E somos o analista que ama: a vida, a si mesmo e os outros. Que não é impotente nem todo-poderoso, mas competente na tarefa que realiza; que não é bronco nem omnisciente, mas sabe aprender com os pacientes; que não tem inveja mas possui ambição; que não é vaidoso mas tem orgulho no que faz. Que é narcísico quanto baste (não se sente inferior) e generoso quanto pode (para não se esgotar).



Intuitivo e introspectivo, o analista pensa no outro e pensa com ele. Relação de Qualidade: penso contigo é o título e subtítulo do meu próximo livro.

Deixamos para trás a teoria das pulsões e abraçamos a “psicanálise relacional”, como lhe chama o nosso colega e amigo Pedro Gomes.

Estamos no Brasil – o novo Portugal. Mas estamos por excelência na Comunidade de Países de Língua Portuguesa, este macro-sistema cultural onde nos afirmamos e reafirmamos as nossas potencialidades de crescimento e criação.

A criatividade foi, desde sempre, a marca saliente do nosso ADN. Mas não chega possuir o talento, é preciso actualizá-lo, inovando em actos.

E para criar, duas condições específicas são necessárias:

1. Ousar o pensamento divergente e produzir ideias fracturantes.

2. Relação objectal complementar não saturada.

Criar não é obra do acaso nem resulta da estruturação aleatória do caos determinista. A criação não é também puro fenómeno de emergência casuística de propriedades novas.

A criação não é apenas derivada da sublimação (Freud) ou da simbolização (Klein, Winnicott).

Não é verdadeira criação a obra realizada na sequência da compensação de funcionamentos psicopatológicos.



A criação é construção do novo. E o Homem é o construtor do seu universo de cultura; tão criador que até criou o próprio Criador. Não fora esssa capacidade criativa – exponencialmente desenvolvida na espécie Homo, até ao advento e culminância do Homem moderno, Homo sapiens sapiens: que sabe e sabe que sabe, dá significado à experiência vivida (período mítico da evolução histórica, filogenética e ontogenética) e constrói sentido para a experiência a viver (período semântico), vale dizer, reflecte (função reflexiva da consciência ou consciência reflexiva já conhecida da filosofia helénica), conceituamos nós, psicanalistas, função analisante (Coimbra de Matos, 1991/2003) ou “função psicanalítica da personalidade” (Bion); não fora isso, dizíamos, não haveria progresso civilizacional (ainda estaríamos a fazer instrumentos de pedra lascada) – por escassez de intervenção no meio e apenas adaptação ao meio, como fazem os bichos –, logo transformação/inovação, e muito menos cultura/criação – invenção e construção do novo, do até então inexistente. Criação solitária – pensamento divergente e ideias fracturantes – e não apenas “evolução na continuidade” como querem os reformistas (mas precisamos de revolucionários) e criação na relação; esta, a mais fecunda, mais pragmática e menos sujeita a desvios loucos e enlouquecedores, já que oriunda do diálogo e balizada pelo debate. Uma e outra informadas pela argumentação lógica (refutabilidade) e corrigidas pela experimentação (falsificabilidade) – a “razão pura” e a “razão prática” de Kant; são os princípios da investigação científica de Karl Popper. A criação solipsista é, porém, arriscada e doentia – facilmente descai para a ilusão, a caminho da delusão; serve como motor de arranque e, nessa função, é imprescindível.

Por isso, a verdadeira criação é a criação a dois, co-criação, co-construção. Criamos – e só verdadeiramente criamos – na relação com o objecto, externo ou interno, sobretudo com este. Só é criador quem atingiu a constância do sujeito no interior do objecto (primeiro passo da existência psicológica) [existo porque fui amado é o subtítulo do meu último livro] e guarda vivo o seu objecto – “constância do objecto interno” (Margareth Mahler), segundo passo da construção psíquica. Crio em relação com o meu objecto – para ele, para mim, para os dois. A unidade psicológica é o par: eu e ela. Só inspiração é o mistério do Espírito Santo. É necessária a transpiração dos corpos e o enlaçamento das almas: na vida e na análise – somos unidades psicossomáticas. O analista não é “como se” (versão mítica da análise); é, ou não é (versão real da análise e, de algum modo, mística – pelo que encerra de transcendente ignorado, à procura do sentido, ultrapassando a mera imanência). Do sentido, dissemos; pois não basta e é mesmo errado procurar sentidos, qualquer um desde que forneça coerência – a teoria da coerência de sentido, tão em voga no modelo da narrativa, ao qual a moda do pós-modernismo, pelo deslize semiótico a que conduz um relativismo à outrance, empresta sem dar alguma credibilidade científica. Mas uma farsa é uma farsa, não a história. Não é história, Senhor! São estórias – como os brasileiros bem entenderam o significado da ficção. E com ficções ninguém se cura, apenas se ilude – por algum tempo, até à próxima recaída. É tempo perdido e trabalho inútil; às vezes, pior que isso: uma fraude (quando tomada por real).

Relação sim, mas relação complementar – de complementaridade identitária; e não relação de comunhão identitária (as mais das vezes, em aliança defensiva; mas pode ser em aliança pulsional, chegando raramente ao duo paranóico ou folie à deux e passando pela aliança narcísica – “eu sou o melhor, tu és o melhor, somos os melhores do mundo” – ou à colusão, aliança contra terceiros), que é sempre redutora.

Ainda, relação de complementaridade insaturada. Se não existem, e persistem, valências livres, a complementaridade forma um conjunto/sistema fechado e estático, sem progressão. É a existência de espaços/tempos de indeterminação e incerteza que dá vida ao par, alma à relação, novidade ao andamento, criatividade ao projecto. O sonho é o motor da vida, diz-se. Mas não qualquer sonho ou devaneio; só o sonho-projecto, animado pela imaginação criadora.

Da história pregressa passamos para a história progressa, co-construída na nova relação do par analítico. Nova relação essa, que não fica ali; é estendida à vida relacional diária do paciente – é o processo de transferência (para o exterior) da nova relação.

“Cesse tudo o que a musa antiga canta / Que outro valor mais alto se alevanta” – Camões, in Os Lusíadas.

“Com o saber de experiência feito”, reza ainda o mesmo autor.



Com o novo saber na nova experiência feito. É a nova história que o analisando, agora, transporta e desenvolve.

Isto é a análise contemporânea. A do futuro aos deuses pertence – não sabemos como será; mas melhor, com certeza.

Investigar é interrogar a realidade. Perguntemos aos nossos pacientes, se queremos continuar a aprender.

A ressignificação dos vínculos pré-existentes é um processo lento, difícil e melindroso, pontilhado de incidentes e acidentes, emboscadas e armadilhas. É a incidência a partir de novos ângulos de visão, nem sempre os mais virtuosos, pertinentes ou resolutivos; são os acidentes por actings no percurso transanalítico, as emboscadas do mau objecto interno/introjecto maligno orbital e as manhas do Super-Eu, as interferências e armadilhas do Eu antilibidinal/sabotador interno e os rebentos espúrios do Id. São os impasses, a reacção terapêutica negativa, os benefícios secundários da doença e do sintoma e os benefícios primários do traço e perturbação geral da personalidade; é a idealização ou demonização excessivas ou mesmo delusórias dos objectos precoces e infantis. É ainda a necessidade de apego suplantando o desejo de exploração; o medo do novo, diferente e estranho, banindo o fascínio pelo desconhecido e o deslumbramento perante a novidade; a xenofobia em vez da xenofilia; o conservadorismo opondo-se à mudança.

Interfere também na ressignificação do passado – e de que maneira! – a atitude de fundo e a eventual patologia do analista. O narcisismo falho e agressividade oculta constituem as principais pechas do mau e incompetente analista. Observamos aqui uma vastidão de deslizamentos iatrogénicos e deformadores da análise e interpretação históricas. Só como exemplos: a lua de mel e a lua de fel transfero-contratransferenciais; os processos do bode expiatório e do objecto sacrificial; o sistema do ídolo e dos seus fãs; a acusação do ausente; a “experiência emocional correctiva “(de Alexander e French) – perversão anedótica da nova relação.



Assim, ressignificar o passado não é/não pode ser revisionismo histórico, dourar a pílula; nem, a contrario, denegrir vetustas figuras – tipo “o demónio são os pais”.

Também não é construir uma “narrativa coerente” ou, o que acontece com frequência, um narrativa conveniente – que chamamos “psicanálise politicamente correcta”; isso é apenas uma cobardia do psicanalista. O psicanalista autêntico não tem medo, é corajoso e até ousado. Ressignificar o passado é reconstruir a história, fazer a narrativa (não uma, ou qualquer uma) dos factos e acontecimentos externos e internos, objectivos e subjectivos daquela particular e única vida e circunstâncias de vida – “eu sou eu e a minha circunstância”, dizia Ortega y Gasset. Ressignificar, em psicanálise, é encontrar o significado e não atribuir significados. Isto é psicanálise, o contrário é aldrabice. Não somos vendedores de banha da cobra, mas gente da ciência; buscamos a verdade, não compomos ramalhetes de flores – não somos floristas. “Só a verdade cura”, afirmava Goethe.

Dentro da Psicanálise existem duas classes de narratologistas:

1. Os sérios e competentes estudam as narrações do paciente. É um método válido e importante de pesquisa psicanalítica, na esfera do diagnóstico. Assim como a construção de narrações é um processo fundamental de crescimento mental; logo, de terapia.

2. Os folclóricos e feirantes: que não deviam fazer análises mas escrever romances – teriam jeito para a literatura de massas; e leitores à espera, dada a mediocridade intelectual em acelerada expansão.

A história do passado não se faz, recolhe-se. É função dos historiadores, que o analista também é.

Fazer história é traçar as linhas do desenvolvimento. Pertence aos governantes, educadores e ainda ao psicanalista. É a sua função mais difícil e que exige grande sentido de responsabilidade, mas a mais nobre. É a sua actividade seminal – a que lança sementes, que germinarão, na mente do analisando.



Temos, então, um trabalho fundamental (é o fundamento da Psicanálise, desde Freud) – de historiadores – e um trabalho seminal (desenvolvido nos últimos decénios) – de construtores de saúde mental, liberdade de pensamento, capacidade de decisão e vontade de acção-intervenção.

“Onde estava o Id deve ficar o Eu”, formulou Freud. Onde estava a “vontade de poder” de Nietzsche há-de ficar o poder da vontade – ousamos nós afirmar, perante vós – que me escutais – e perante todos os que com as minhas ideias se queiram cruzar: serão bem vindos ao diálogo e não me furtarei à polémica. Da discussão aberta nasce a luz, novas luzes. Só do confronto paranoide advém a guerra; e da teimosia obsessiva, a sombra; como da desistência depressiva, as trevas.

Não tenho receio algum que me chamem histérico ou maníaco. “Com muito prazer”, direi.

Assim como nada me incomoda que me julguem revolucionário. “Com muito orgulho”, sinto.

Guardo em mim um profundo sentimento de gratidão para o meu analista, Francisco Alvim – porque me facilitou ser, com mais flexibilidade e pujança, aquele que sempre fui.

Alguns pseudo-analistas são como os cães-polícia: só descobrem aquilo que foram treinados a procurar, passando ao lado de vestígios ou emergências bem mais significativos.

Mas há ainda os ursos adestrados para “dançarem” nos circos de rua. Em pequenos, queimavam-lhes as patas ao mesmo tempo que alguém executava um batuque. Reagindo à dor da queimadura, o ursito levanta-se, saltita e abana as patas dianteiras. Mais tarde, por reflexo condicionado, quando toca o tambor o urso “dança”.

Analogamente, ao aprendiz de feiticeiro impingiram-lhe uma teoria bem formatada. O feiticeiro encartado placa solenemente a teoria sobre a realidade – não vê o analisando, projecta a teoria. O resultado destas pseudo-análises é que o paciente fica mais doente e o “analista” vai ficando mais estúpido. Quando a isto se junta uma forte componente contratransferencial, o paciente entra com uma neurose e sai com três: a que já trazia agravada, a neurose do analista e a “neurose” da teoria. Pode ser um belo espectáculo, mas tem um trágico desenlace.

Outros ainda não são psicanalistas mas funcionários do aparelho psicanalítico-partidário, burocratas da psicanálise. Diz-se: “casaram com a Psicanálise” – é um casamento branco; ou pior, que castra a prole. O ditador Salazar “casou com a Pátria” – castrou os portugueses. Fazem parelha com os ideólogos, que espalham o credo e expandem o império: “a verdade é só uma: a nossa e mais nenhuma” – têm convicções, não têm opiniões. É a ideologia fechada, o sistema paranóico. São os encobertos destruidores e disfarçados desacreditadores da Psicanálise como sistema aberto de pensamento e método científico de investigação, tal como Freud a fundou e desenvolveu. Neles não há pensamento pensante, tão-só pensamentos já pensados.
Se não houver ciência, haja ao menos senso e espírito crítico! Fazer análise não é fabricar salsichas.

Um dos meus mestres em psiquiatria, o Prof. Pedro Polónio, dizia a propósito de um destes exemplares: “Oh Coimbra, é que esse seu colega acredita nas teorias, acredita mesmo!...”

Para o crente, bem-aventurado seja no reino dos Cèus; que o da Terra escapa-lhe. Mas lixam-se os incautos e os ingénuos.

Reproduzir a neurose na transferência é um erro, como já dissemos.

Outra coisa é o enactment, enacção, encenação ou mise-en-scène no palco da sessão analítica – ou no campo analítico, se quizerem.

Não é abreacção ou catarse, mas tem algo de semelhante.

O paciente revive, com maior ou menor intensidade emocional, episódios significativos do passado longínquo ou recente – reais ou imaginados, conscientes ou inconscientes (encenação de fantasia inconsciente), ou da sua ressonância subjectiva –, por reprodução mimética, verbal e não só (por gestos das mãos, entoações de voz, choro, riso, emprego do vernáculo, narração em discurso directo agindo as várias personagens, mudanças da prosódia, alteração da postura e ritmos corporais, etc [parece que declama ou representa teatralmente]). É a enacção no palco analítico.

Tem um certo efeito de descarga, mas também e sobretudo de confirmação da realidade vivida ou vivenciada, de reparação narcísea e, sobremaneira, de comunicação – intenção e efeito comunicativos em relação a e no analista.

Mas isto não é transferência! Impõe-se fazer a distinção.



Investigar é também distinguir, discriminar. Nem tudo é igual ao litro; nem tudo é transferência!

Ou então entramos no país dos fenómenos fantásticos – a terra dos “transferomas”, o tumor transferencial; que chega a ser maligno e até mal-cheiroso – uma espécie de fecaloma.

Como gosto do ar puro das montanhas, tapo o nariz quando assisto às ladaínhas da “Transferência/Contratransferência”. Lembra-me a missa em latim – que nem o Pastor nem as suas ovelhas entendem, mas deixam-se ir na toada. E como gosto de pensar, penso noutra coisa.

Como é bom dispor de alternativas! Aqui, para não embrutecer.

E termino com o maior respeito pela inteligência – e pelos que a têm.

Muito obrigado pela atenção que me dispensaram.

ADENDA



Baixar 85.94 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino fundamental
Processo seletivo
ensino médio
Conselho nacional
minas gerais
terapia intensiva
oficial prefeitura
Curriculum vitae
Boletim oficial
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
Poder judiciário
educaçÃo física
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
Conselho regional
ensino aprendizagem
ciências humanas
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Dispõe sobre
ResoluçÃo consepe
Colégio estadual
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
extensão universitária
língua portuguesa