Colégio militar dom pedro II



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TEXTO 1
Texto extraído da obra “O Sonho de Mendeleiev” do filósofo Paul Strathern. Editora Jorge Zahar

1. No COMEÇO
A primeira manifestação de pensamento científico genuíno é tradicionalmente atribuída a Tales, que viveu no século VI a.C. na cidade grega de Mileto, na costa da Tônia (hoje sudoeste da Turquia)..

Nesse período, uma população de língua grega ocupava as ilhas dispersas e as planícies isoladas ao longo do litoral pedregoso de todo o mar Egeu. É essa geografia fragmentada que explica em parte por que o mundo grego havia permanecido um ajuntamento de Cidades-Estados insulares freqüentemente brigões, com uma rede de colônias comerciais que se estendia por toda a região mediterrânea. Durante esse período, como ao longo de todo o período de sua grandeza, os gregos antigos estavam unidos unicamente por sua língua. De maneira reveladora, o território que ocupavam não tinha nenhum nome geral. Foram os romanos que primeiro aplicaram a palavra "Grécia" à terra habitada pelos gregos, que se referiam a si mesmos como helenos (em memória de Helene, chefe de uma obscura tribo antiga da Tessá­lia).

Por que a humanidade começou a pensar pela primeira vez de uma maneira científica essencialmente racional nessa região particular continua sendo um tanto misterioso. Bem mais de um milênio antes, tanto os babilônios quanto os egípcios antigos haviam desenvolvido civilizações superiores, capazes de um tipo de pensamento extremamente elevado. Postados nos terraços elevados de seus zigurates, os astrólogos babilônios haviam observado o céu noturno, discernindo padrões em meio às estrelas, mapeando seus movimentos através do céu. Depois que as águas das inundações anuais baixavam, deixando o vale do Nilo como um mar de lama, os escribas do Egito recalculavam a área exata do pedaço de terra de cada indivíduo, fazendo malabarismos com unidades tão pequenas quanto 1/300. Esse tipo de observação e mensuração avançadas havia sido o apanágio das castas sacerdotais tanto na Babilônia quanto no Egito. Essas habilidades técnicas, e toda especulação teórica que provocavam, eram parte da prática religiosa. Sua sutileza se misturara à sutileza da teologia que as acompanhava - resultando em coisas como números mágicos e a idéia de que os movimentos das estrelas espelhavam os destinos terrenos. Superstições como essas persistem até hoje na forma de números "da sorte" e "signos astrológicos pessoais".

Em comparação, a religião grega antiga, com seus deuses desordeiros a fanfarronar e namoricar no Monte Olimpo era uma piada. Durante o período obscuro que se seguiu ao colapso da civilização micênica, a religião grega permanecera em seu estágio infantil de desenvolvimento; não seria possível vincular nenhum pretenso pensamento científico sério àquelas cabriolas de história em quadrinhos.

Mas esse foi o ponto crucial. Quando o primeiro frêmito de curiosidade cientifica se fez sentir na Grécia antiga, não estava ligado a nenhuma religião. Não teve de se conformar aos ditames de alguma teologia fortemente arraigada, nem foi estimulado a se iniciar em algum domínio ilusório da imaginação. Era inteiramente livre - não refreado por coisa alguma senão a razão e a realidade do mundo com que se confrontava.

Segundo a lenda, Tales gostava de caminhar nos morros ao redor de Mileto. Podemos imaginar a cena. Espalhada abaixo dele, ao sol fulgurante, a cidade portuária com suas prístinas colunas de mármore e o padrão regular das ruas, tudo preciso e frágil como uma miniatura em casca de ovo. As baías e cabos do continente asiático estendendo-se para o norte, a ampla vastidão do mar Egeu, ilhas distantes borradas na cerração do calor. Talvez um barco comercial de velas frouxas, detido no golfo pela calmaria em sua viagem de volta de uma das colônias da cidade no delta do Nilo, no mar Negro ou na Sidlia - ou quem sabe de uma viagem até rincões tão distantes quanto as minas de prata espanholas além das Colunas de Hércules (Gibraltar).

Enquanto caminhava pela trilha na encosta, Tales observava algumas pedras que continham fósseis do que eram inequivocamente conchas marinhas. Percebia que aqueles morros haviam sido outrora parte do mar. Isso o levou a conjeturar que, originalmente, o mundo devia ter consistido inteiramente de água. Concluiu que a água era o elemento fundamental de que todas as coisas derivavam. Em conseqüência, Tales de Mileto é geralmente considerado o primeiro filósofo. Foi o primeiro exemplo conhecido de pensamento verdadeiramente científico.

Em seus primórdios a filosofia abrangia a ciência: o que veio a ser conhecido como "filosofia natural". O pensamento de Tales era científico porque era capaz de fornecer fatos em favor de suas conclusões. Era filosofia porque usava a razão para chegar a essas conclusões: não havia nenhum apelo aos deuses ou a forças metafísi­cas misteriosas. O raciocínio era inteiramente conduzido nas esferas deste mundo, em que era possível reunir dados para provar ou refutar suas conclusões.

Pouco sabemos ao certo sobre Tales de Mileto. Diz-se que ele previu um eclipse do Sol que sabemos ter ocorrido em 585 a.C. Essa é a única indicação real que temos sobre a época em que viveu. Segundo uma história, ele despencou de um morro quando estudava o céu: uma imagem emblemática do filósofo até os nossos dias. Mas Tales não era nenhum bobo. Quando lhe perguntaram por que, se era tão inteligente, continuava pobre, respondeu que enriquecer era fácil. E o provou. Percebendo que a próxima colheita de azeitonas seria boa, alugou todas as prensas de azeitonas do lugar. Durante a colheita excepcionalmente abundante, seu monopólio lhe permitiu cobrar o que desejava. É impossível ter a medida exata do efeito do novo modo filosófico de pensar atribuído a Tales. O conhecimento da civilização ocidental está baseado nele. Olhando para trás, podemos ver que, desde seus primeiros instantes, esse novo modo de pensar continha certos pressupostos básicos. Estes iriam determinar (e mais de dois milênios e meio mais tarde continuam determinando) tanto a forma quanto o conteúdo de nosso conhecimento. Eram os pressupostos que sustentariam todo o pensamento científico subseqüente. Tales fez a pergunta: "Por que as coisas acontecem como acontecem?" Ao respondê-la, presumiu que a resposta devia ser formulada em termos da matéria básica de que o mundo é feito. Presumiu também que há uma unidade subjacente à diversidade do mundo. Mas, talvez o mais significativo de tudo, presumiu que há uma resposta para essa pergunta. E que essa resposta pode ser dada na forma de uma teoria - palavra que deriva do grego" olhar para, contemplar ou especular" - passível de teste.

Sabemos por indícios anedóticos que Tales chegou à sua teoria depois de encontrar alguns fósseis de conchas marinhas muito acima do nível do oceano na épo­ca. Mas suas especulações provavelmente foram ainda mais fundo. Ele deve ter visto a névoa se elevando dos montes anatólios para se transformar em nuvens, e observado a chuva a cair das nuvens em tempestades sobre o mar Egeu: terra se transformando em ar úmido, que por sua vez se transformava em água. Apenas três quilômetros ao norte de Mileto, Um grande rio serpenteia pela vasta planície rumo ao mar. (Tratava-se de fato do antigo rio Meandro, do qual nossa palavra deriva). Tales teria observado o rio se assoreando lentamente, a água tornando-se terra barrenta. Teria visitado os mananciais numa encosta vizinha: terra se transformando em água de novo. Hoje não se precisa de muita imaginação para entender como Ta­les concebeu a idéia de que tudo é água. No entanto, a primeira pessoa a dar um passo no desconhecido com essa idéia deve ter sido um gigante da imaginação.

Curiosamente, esse não foi o único grande passo na evolução do pensamento humano que teve lugar durante o século VI a.C. De maneira completamente independente, em outras partes do globo, a humanidade estava dando vários grandes passos que iriam afetar todo o curso de seu desenvolvimento. A China testemunhou o aparecimento de Confúcio e Lao Tsé (o fundador do taoísmo, o rival do confucionismo), Buda começou a pregar na Índia, e na Pérsia o adorador do fogo Zaratustra fundou o zoroastrismo (que teria grande influência tanto sobre o judaísmo quanto sobre o islamismo). Enquanto isso a região mediterrânea estava testemunhando mais do que o mero advento dos primeiros filósofos na Jônia. No final do século Pitágoras estava vivendo no outro extremo do mundo grego, no sul da Itália, e seus ensinamentos religiosos iriam contribuir significativamente para o elemento não-judaico do cristianismo (várias parábolas do Novo Testamento origi­nam-se de fontes pitagóricas). Da mesma maneira, a influência da religião dos números de Pitágoras pode ser reconhecida na teoria musical e na crença da ciência moderna de que as operações últimas do universo podem ser descritas em termos numéricos. O rumo das civilizações tanto oriental quanto ocidental foi fixado por eventos que tiveram lugar durante o século VI a.C., o mais importante para o mundo ocidental foi, sem dúvida, o desenvolvimento atribuído a Tales de Mileto, o primeiro cientista filósofo. Sua teoria de que o mundo se desenvolvera a partir de um único elemento (água) foi apenas o começo. Essa idéia, uma vez concebida, foi rapidamente desenvolvida pelos discípulos de Tales em Mileto - os filósofos conhecidos como integrantes da escola milésia. Um deles era Anaximenes, que identificou o elo fraco no raciocínio de Tales.' Se tudo fora originalmente água, o que explicava a diversidade atual do mundo? Como ha­via a água se tornado todas as coisas? Anaxímenes sustentou que o elemento funda­mental não era a água, mas o ar. O mundo estava cercado de ar, o qual ficava mais comprimido quanto mais se aproximava do centro. À medida que se comprimia, se transformava em água; quando a água era mais comprimida, se transformava em terra; ainda mais comprimida, se tornava pedra. Tudo era ar, num estado mais ou menos condensado.

Esse foi um desenvolvimento significativo da idéia de Tales. Aqui estava a pri­meira tentativa de explicar a diversidade do mundo - a primeira tentativa de expli­car diferença qualitativa em termos de diferença quantitativa.

Uma nova maneira de pensar fora descoberta. O grande debate filosófico (que permanece não resolvido até hoje) começara. Agora todos podiam participar. Não há registro de como Tales reagiu a tudo isso. Ele pode ter pensado cientificamente; se esperava ser contestado cientificamente é outra questão, mas foi. Ao que parece, Anaxímenes era um homem jovem por ocasião da morte de Tales e foi ele quem transmitiu a história de sua morte. Numa carta a Pitágoras, escreveu: "Tales enfren­tou um destino cruel em sua velhice. Como era seu costume, deixou sua casa à noite com.sua criada e foi olhar as estrelas. Enquanto contemplava o céu, porém, esque­ceu-se de onde estava e caiu num precipício." Anaxímenes previu um destino ainda pior para si mesmo. Numa carta posterior a Pitágoras, lamenta: "Como posso pen­sarem estudar as estrelas quando estou diante da perspectiva do massacre ou da es­cravidão?" Nessa altura as cidades- Estado dispersas do mundo grego estavam sob a ameaça do Império Persa, que se expandira a oeste pela Anatólia e agora estava se aproximando do litoral do mar Egeu. Em 494 a.C. o exército persa devastou Mileto. O destino de Anaxímenes permanece desconhecido e a escola milésia chegou ao fim menos de um século após ter se iniciado. As ruínas de Mileto perduram até hoje, agora mais no interior, a vários quilômetros do estuário assoreado do Grande Meandro.

Mas a filosofia sobreviveu à queda de Mileto. Por uma combinação de acasos felizes e de heroísmo legendário, o mundo grego conseguiu resistir aos grandes exércitos invasores da Pérsia e até derrotá -los. Um dos pontos altos dessa resistência foi a batalha de Maratona em 490 a.C., em que uma força grega muito inferior em número pôs todo o exército persa em fuga. (O mensageiro que levava a notícia da vitória desfaleceu e morreu após correr os 41,3 quilômetros de Maratona a Atenas. Esse evento é comemorado na maratona moderna, que é disputada numa distância idêntica.)

Na época da queda de Mileto, a filosofia já se propagara do litoral jônico para as ilhas do mar Egeu e dali para o resto do mundo grego. Éfeso, que era a principal cidade da Tônia, sobreviveu à investida persa mediante o expediente simples de se aliar ao inimigo contra seus rivais comerciais, como Mileto. Seu filósofo mais conhecido, Heráclito, era similarmente problemático. Heráclito, que nasceu por volta de 540a.C., era um homem arrogante e misantropo. Na velhice, ficou tão desgosto­so com seus concidadãos efésios que abandonou a cidade por uma vida errante nas montanhas, alimentando-se de capim e ervas. Sua filosofia, por outro lado, era cal­ma, sutil e profunda. Heráclito tinha sua própria idéia sobre o elemento fundamen­tal a partir do qual o mundo se formou. Segundo ele, era o fogo.

Anaxímenes compreendera. a necessidade de explicar a diversidade do mun­do. Heráclito viu que Anaxímenes havia respondido a essa questão apenas parcial­mente. Que significava dizer que o ar se transformava em água, terra, pedra e assim por diante? Se não continuava sendo ar, essa não podia ser a substância de que o mundo era feito. Aqui estava uma questão complexa e séria. Heráclito reconheceu que ela era irrespondível enquanto o "um" fosse visto como uma substância - como ar, ou mesmo água. Era necessário ver o "um" como imaterial."O mundo foi, é agora e sempre será um Fogo eterno, inflamando-se gradativamente e apagando-se gradativamente." Para Heráclito o mundo estava num contínuo estado de fluxo. É nos seus célebres fragmentos que isso pode ser mais bem compreendido: "Nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio" e "O Sol é novo a cada dia". O fogo era con­cebido como o padrão ou ordem subjacente do cosmo, transformando-se e ainda assim permanecendo o mesmo.

Durante séculos, filósofos de inclinação científica tenderam a rejeitar as con­cepções de Heráclito como mero misticismo - até o advento da ciência do século XX. Somente então a sutileza de seu pensamento tornou-se clara. O fogo sempre cambiante de Heráclito assemelha-se à idéia de energia na física moderna. Ali estava uma perspectiva filosófica capaz de harmonizar a relatividade e as ambigüidades da física quântica. (Na relatividade a massa é equivalente à energia, segundo a fórmula de Einstein, E = mc2. Assim a energia pode teoricamente transformar-se em maté­ria, exatamente como o fluxo ou o fogo de Heráclito.)

Heráclito teria um fim lamentável, que ele mesmo se infligiu. Sua dieta parca de capim e ervas finalmente o obrigou a descer de seu refúgio nas montanhas para retomar a Éfeso. No entanto, longe de estar esquelético, estava agora inchado pela hidropisia, que provoca a retenção de fluido nos tecidos. Exibindo uma arrogância característica, solicitou um tratamento dos médicos locais na forma de um enigma: "São capazes de criar uma estiagem após uma chuva pesada?" Quando os médicos se mostraram desconcertados com esse teste meteorológico, Heráclito decidiu cu­rar-se a si mesmo. Retirando-se para um estábulo, enterrou-se no esterco, aparentemente na esperança de que o fluido mefítico em seu corpo fosse extraído pelo calor de seu revestimento mefítico. Esse método drástico provou-se ineficaz, e ele morreu de uma morte mefítica.

o elemento primordial já fora identificado como água, como ar e como fogo. Qual era ele então? Pareci_ haver uma resposta óbvia para essa pergunta. Por que haveria de ser apenas um? Por que não vários? Por que não todos os três - com o acréscimo de um quarto elemento para explicar a solidez do mundo? A resposta óbvia parecia ser que o mundo era feito de fato de quatro elementos fundamentais: terra, ar, fogo e água.

De um só golpe, essa noção de pluralidade libertou o pensamento científico do grilhão da unidade. Foi a solução de compromisso óbvia - em retrospecto po­demos ver que ela apontou o caminho para uma compreensão espetacularmente nova dos elementos. Lamentavelmente, isso só pode ser visto em retrospecto. Essa solução de compromisso "óbvia" - a idéia de quatro elementos básicos - iria se pro­var um dos maiores erros do pensamento humano e seus efeitos viriam a represen­tar uma catástrofe para nosso desenvolvimento intelectual.

Quando se espalhou pela Jônia e o mundo grego antigo, a filosofia inicial foi como uma súbita iluminação da mente humana. A evolução estava focando as lentes do pensamento humano: o que fora previamente um borrão de superstição e

metafísica agora estava se tornando claro. Podíamos ver! Os seres humanos esta­vam aprendendo como olhar o mundo à sua volta. Inversamente, a noção de que o mundo consistia de quatro elementos foi como uma doença, e iria estropiar o pen­samento científico pelos dois milênios seguintes.

Isso não foi em absoluto culpa do engenhoso filósofo que concebeu pela pri­meira vez essa idéia. A teoria dos quatro elementos foi proposta por Empédocles, que viveu numa colônia grega na Sicília durante o século V a.C. e foi influenciado por Pitágoras, que continua sendo uma das grandes figuras enigmáticas do início da era helênica. Pitágoras se situa entre os mais exímios matemáticos de todos os tem­pos. Descobriu que 1t era incomensurável e demonstrou o teorema que recebeu seu nome. Seu outro papel como fundador de uma religião baseada numa mistura de puro discernimento espiritual e puro ilusionismo também indica talentos excepcionais. Empédocles iria seguir as pegadas de seu mestre como pensador e como charlatão. Sua teoria dos quatro elementos foi um golpe de gênio, mas ele não pa­rou por aí. Ampliou a visão de mundo científica com teorias adicionais da mais alta qualidade. Afirmou que nada no mundo era criado ou destruído - e sustentou que todas as coisas consistiam em diferentes combinações dos quatro elementos. Aqui, pela primeira vez, surge um vago esboço da idéia da química.

Novamente como Pitágoras, Empédocles era uma combinação de um homem à frente de seu tempo e um homem atrás de seu tempo. Essa conjuminância esquizofrênica de duas eras produziu algumas das mentes mais originais na história. (Basta pensar na combinação das mentes medieval e renascentista de Shakespeare e na contraditória devoção de Newton à alquimia e à física matemática.) Empédocles foi uma versão primitiva desse tipo. Embora a maior parte da filosofia grega estives­se a essa altura sendo escrita em prosa, ele optou por retornar a uma era anterior, confinando seu pensamento científico na camisa-de-força da poesia. Sua obra mais primorosa, O mundo físico, era uma epopéia de cinco mil versos, de 'que conhece­mos apenas fragmentos. Essa obra-prima consistia, ao que parece, num estonteante coquetel de idéias originais brilhantes e charlatanice rematada. Entre as primeiras estava a idéia da evolução. Longe de ser um mero vôo de imaginação poética, trata­va-se de uma teoria plenamente desenvolvida, elaborada em algum detalhe. Empédocles considerou a evolução em termos de unidades anatômicas: membros, órgãos, cabeças e assim por diante. Estas se combinavam de diferentes maneiras. omente as criaturas mais bem adaptadas a seu ambiente sobreviviam. Mas uma vez que, em última análise, nada era criado nem destruído - ou, em outras pa­lavras, os ingredientes do mundo permaneciam os mesmos - ele teve condições de afirmar: "Já fui certa vez um menino e uma menina, um arbusto e um pássaro e um peixe saltitante, corredio." Mais de dois mil anos deveriam se passar antes que idéi­as científicas sobre a evolução de calibre similar reaparecessem na Europa ociden­tal. Empédocles iria morrer ao pular na cratera do monte Etna, numa tentativa de provar para seus se­guidores que era imortal. Na época as opiniões ficaram divididas, mas, com o pas­sar dos anos, seu não reaparecimento depôs contra ele. A idéia dos quatro elementos de Empédocles pode ter errado o alvo na teoria, mas, ironicamente, mostrou considerável discernimento do lado prático. Terra, água, ar e fogo assumem um aspecto muito mais significativo se considerar­mos o que são exatamente. A terra é um sólido, á água um líquido, o ar um gás e o fogo poderia facilmente ser visto como energia. Aqui está uma divisão eminentemente prática das substâncias em diferentes tipos - uma classificação que se pode­ria esperar de um químico prático embrionário, não de um filósofo teórico.

No entanto, essa noção prática de classificação dos elementos não é de fato tão surpreendente. A idéia da Química não passava nesse estágio de um punhado de in­tuições vagas, mas a prática inadvertida dela já avançara bastante. Os antigos tinham conhecimento de processos químicos havia muito. Os primeiros químicos reconhecíveis foram mulheres, as fabricantes de perfumes da Babilônia, que usaram os mais antigos alambiques conhecidos para preparar seus produtos. A primeira química in­dividual que a história conheceu foi "Tapputi, a perfumista", mencionada numa tábua de cuneiformes do segundo milênio a.C. na Mesopotâmia.

A prática precedeu de muito a teoria. Na era helênica, o mundo antigo já havia descoberto também mais de meia dúzia de elementos metálicos e um ou dois não metálicos. Os egípcios antigos conheciam ouro e prata, cobre e ferro; todos os qua­tro são também mencionados no Antigo Testamento. Sabe-se que os fenícios usavam chumbo para tornar mais pesadas suas âncoras de madeira. Numa viagem à Espanha, ao encontrarem mais prata do que podiam transportar, livraram-se então do seu chumbo e, em vez dele, usaram prata para lastrear suas âncoras. Subseqüentemente viajaram para mais longe ainda, até a Grã-Bretanha, onde negociaram com outro elemento metálico das minas da Cornualha - a saber, estanho.

Na verdade, foi o bronze, uma liga de estanho e cobre, que deu nome à era que se iniciou na região do Mediterrâneo por volta de 3000 a.C. Foi na Idade do Bronze, por volta de 1250 a.C., que os micênios tomaram Tróia. O bronze metálico duro é formado quando estanho e cobre são fundidos juntos. Essa liga era usada para ornamentos e baixelas, mas seu uso mais significativo foi em armas e armaduras. Cer­ca de dois milênios depois o bronze foi suplantado por uma liga mais dura feita de ferro e carbono fundidos, inaugurando a Idade do Ferro.

O outro elemento metálico conhecido pelos antigos era o mercúrio, que é mencionado em textos chineses e hindus antigos e foi encontrado em sepulturas egípcias datadas de 1500 a.C. Graças a seu aspecto e qualidades excepcionais (su­perfície espelhada, metal líquido, extremamente venenoso) o mercúrio foi encara­do com admiração reverente e considerado mágico desde o princípio.

Quanto aos elementos não metálicos, o carbono e o enxofre eram certamente conhecidos desde os tempos mais remotos. O autor romano Plínio refere-se a antigas minas sicilianas de enxofre, cujo produto era usado para fins medicinais e para a fabricação de fósforos de enxofre. O carbono era conhecido pelo homem das cavernas na forma de fuligem e carvão. Em sua forma mais rígida e mais preciosa, o diamante, esse elemento foi mencionado no Antigo Testamento e nos Vedas hindus, em textos datados do segundo milênio a.C.

Tanto os gregos antigos quanto os romanos conheciam uma substância que chamavam de "arsênio". Mas não se tratava do elemento puro - tratava-se do sulfe­to; eles o usavam para curtir couros e para envenenar rivais. E é aqui que está a cha­ve. Os antigos sabiam desses elementos, mas não os conheciam como tais, não tendo a menor idéia de que eram elementos. Isso permanecia além de sua concep­ção. A noção de elemento originou-se com os filósofos, não com os químicos. Em outras palavras, com os pensadores, não com os que praticavam. A teoria de Tales segundo a qual a água era o elemento primordial foi o verdadeiro começo: a idéia científica do que é um elemento.

Anaxímenes desenvolveu isso e, pouco tempo depois, uma outra idéia cientí­fica espetacularmente original foi concebida e desenvolvida pelos gregos antigos. Foi o filósofo do século V Leucipo que fez a pergunta: "A matéria é discreta ou con­tínua?" Em outras palavras, é possível avançar dividindo as coisas indefinidamente, ou se chega a um ponto em que elas se tornam indivisíveis? Leucipo considerou evi­dente por si mesmo que a segunda alternativa era a verdadeira. Isso o levou à idéia do atamos, ou átomo. Em grego essa palavra significa "que não pode ser cortado", isto é, indivisível. Leucipo foi o primeiro a declarar que o mundo era composto de átomos indivisíveis. Surpreendentemente, chegou a essa conclusão apenas um sé­culo depois que Tales inaugurara o pensamento científico. Leucipo nasceu provavelmente em Mileto, mas deve ter partido antes da invasão persa. Parece que fundou uma escola em Abdera, no norte da Grécia continental. Ali seu discípulo mais renomado foi Demócrito, que desenvolveria a idéia atômica original do mes­tre. Segundo Demócrito, há uma quantidade infinita de átomos, que existem no es­paço em perpétuo movimento; há também inumeráveis tipos variados de átomos, que diferem em forma e tamanho, peso e calor. Toda mudança aparente no mundo, ele afirmou, deve-se a combinações e recombinações desses átomos imutáveis.

Tal como as idéias de elementos e de evolução, as idéias de Demócrito pare­cem estupendamente modernas - muito, muito além de seu tempo. Essa originali­dade permanece inédita no pensamento humano. Uma vez tendo descoberto o pensamento filosófico, parece que os gregos rapidamente o praticaram até quase os seus limites. Ninguém menos que Bertrand Russell afirmou: "Quase todas as hipó­teses que dominaram a filosofia moderna foram pensadas pela primeira vez pelos gregos." Mas esse deveria ser um legado ambíguo. Como veremos, quando o pensa­mento grego tomava um rumo errado desencaminhava o desenvolvimento intelec­tual por séculos a fio. .

Durante a vida de Demócrito a filosofia grega entrou em sua idade do ouro, em Atenas. Esta havia se tornado a mais rica e poderosa cidade do mundo grego, o ápice da cultura grega. Sua acrópole era coroada pelas colunas sublimemente proporcionais do Partenon, uma das mais belas realizações arquitetônicas da história. Nos teatros panorâmicos ao ar livre da cidade, acusticamente magníficos, eram en­cenadas as tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Quando a filoso­fia ingressou em sua idade do ouro, porém, Atenas havia começado a declinar sob o impacto das longas e desastrosas Guerras do Peloponeso contra Esparta. Ironica­mente, essa idade do ouro, que permanece inigualada em toda a história da filoso­fia, deveria ser em grande parte uma reação contra os feitos de Demócrito, Empédocles, Heráclito e congêneres.

O primeiro grande filósofo ateniense foi Sócrates, que nasceu por volta de 477 a.C. e foi sentenciado à morte em 399 a.C. Sócrates foi um dos personagens extraor­dinários da filosofia, ao mesmo tempo cativando e enfurecendo. Declarado "o mais sábio entre os homens" pelo oráculo délfico, ele afirmava que nada sabia - e passava então a demonstrar que os outros sabiam ainda menos. Diante de seus jovens discípulos usava por vezes esse "método dialético" para criticar os figurões sapientes de Atenas - procedimento que lhe valeu poucos ami­gos bem colocados e quase certamente teve um papel em seu posterior julgamento e condenação à morte por "corromper os jovens". O método dialético de Sócrates consistia em fingir nada saber e em seguida questionar o conhecimento apresenta­do por seu adversário, perguntando seu significado, demolindo os conceitos em que se assentava. Tratava-se de uma forma precursora de análise (a palavra grega analytika significa" deslindar").

A análise é sempre necessária para elucidar o significado - mas, do modo como Sócrates o utilizava, esse método tendia a desmontar o conhecimento em lu­gar de construí-Io. Uma ciência embrionária, cujos conceitos são vagos e cujo co­nhecimento é sumamente teórico, pode suportar mal esse tipo de ataque, e parecia fácil para Sócrates encontrar falhas nesse "conhecimento". (Até hoje a ciência exibe inadequações similares; a virtude que a redime é que opera na realidade, não em termos filosóficos).

Sócrates não estava interessado em átomos ou nos elementos fundamentais que compõem o mundo. Sua filosofia baseava-se antes na introspecção - seu dito favorito era "conhece-te a ti mesmo". Ali estava o único conhecimento verdadeiro. Com conseqüências desastrosas, a filosofia desviou-se do mundo.

Sócrates foi sucedido por seu notável discípulo Platão, que perseverou nessa tradição. Em vez de especulação científica, a filosofia voltou sua atenção para idéias abstratas. Conferia-se um valor muito maior à matemática, à verdade e à beleza que às "meras aparências". As particularidades do mundo à nossa volta não passavam de uma mixórdia acidental de quimeras - somente as idéias eram reais.

Platão nasceu numa família ateniense aristocrática e iria se tornar o fIlósofo supremo da idade clássica. Foi dito que formulou todas as questões importantes da filosofia, e que, desde então, a fIlosofia inteira pouco passou de notas de pé de pági­na a ele. Há alguma verdade nisso, mas está longe de ser toda a verdade. Certamente não se aplica à chamada "fIlosofia natural", isto é, a ciência. Platão nunca poderia ter perguntado "o que é força elétrica?", porque não tinha nenhuma noção do que era eletricidade. Isto pode parecer óbvio, mas é crucial. Embora já não seja conside­rada parte da filosofia, a ciência certamente tem seu efeito sobre,nossa compreensão do conhecimento e de nós mesmos. Depois de Copérnico, Darwin e Freud, nossa idéia de nós mesmos é fundamentalmente diferente daquela de Platão e seus contemporâneos. Podemos compreender a tragédia grega, e sentir a força inexorável de suas emoções, mas já não pensamos nem nos comportamos daquela maneira.

Em 387a.C. Platão abriu sua academia num olival nos arredores de Atenas. Esse "olival acadêmico" foi a primeira universidade reconhecível. Acima de sua en­trada estava escrito "Que não entre aqui ninguém que não saiba geometria". Racio­cínio abstrato, idéias abstratas, geometria abstrata - até o ensinamento político de Platão se concentrava na idéia de uma utopia e não na realidade social. A Academia era soberana em matemática, mas a geometria ali ensinada era limitada a figuras que podiam ser desenhadas com régua e compasso. Somente essas figuras eram ide­ais (isto é, correspondiam a idéias "reais"); todas as demais pertenciam à mixórdia acidental do mundo concreto (que era simplesmente uma ilusão, "mera aparên­cia"). Este último era desprezado como "mecânico". A geometria ocupava-se unicamente de coisas como o círculo, o triângulo e o polígono regular - nenhuma das quais aparece precisamente na natureza. Demócrito chegara ao conceito do átomo aplicando a matemática à natureza. (Aplique a divisão à natureza até não poder ir mais além.) Platão estava exclusivamente interessado em aplicar a matemática a ela mesma. (Essa atitude perdura na noção de matemática "pura".)

O terceiro do triunvirato grego de grandes fIlósofos foi Aristóteles, que foi dis­cípulo de Platão. Enquanto Sócrates fora "o chato de Atenas" e Platão "o fIlósofo dos filósofos", Aristóteles foi o primeiro gênio universal. Ele viajou por todas as ter­ras da civilização egéia, e em certa altura tornou-se o preceptor do jovem Alexandre o Grande - embora não subsista nenhum registro do que o maior polímata da Anti­güidade ensinou (ou procurou ensinar) ao maior megalomaníaco da Antigüidade. Aristóteles daria contribuições capitais em quase todos os campos, exceto a mate­mática. Estava interessado em tudo, e sua biblioteca refletia isso. Nunca antes uma coleção de rolos semelhante fora acumulada por um cidadão privado. Com Aristó­teles a tendência anticientífica chegou ao fim. A essa altura, porém, o estrago já fora feito. Embora Aristóteles tenha sido uma das mais admiráveis mentes científicas de toda a história, suas idéias estavam fatalmente infectadas pelo pensamento platôni­co. (Coisa que ainda ecoa no nosso uso da palavra: não é à toa que caso de amor platônico é aquele em que nada acontece realmente.) As realizações de Aristóteles traçaram minuciosamente o curso do desenvolvimento científico até boa parte da era moderna. Ele deu contribuições de vulto em todos os campos da filosofia natural, da botânica à geologia e da psicologia à zoologia. De fato, foi o primeiro a delinear muitos desses campos científicos. E sua façanha suprema foi a invenção da lógica.

Sendo assim, onde foi que ele errou? Aristóteles virou a filosofia de Platão de cabeça para baixo, acreditando que idéias só podiam existir na substância particular que as corporificava. Apesar disso, seu pensamento permaneceu contaminado pelo modo platônico de ver o mundo. Ele via os objetos como dotados de qualidades - as idéias platônicas que os habitavam - e não de propriedades concretas. Há uma diferença sutil mas fundamental aí. Um mundo que consiste em substância ou objetos pode ter qualidades; um mundo composto de átomos tem propriedades. Não conce­bemos idéias corporificadas num átomo. Somente desse modo um homem com o brilhantismo de Aristóteles poderia ter aceitado terra, ar, fogo e água como os qua­tro elementos básicos. Estas eram qualidades.

Quando Aristóteles aplicou o brilhantismo de sua mente científica a esse erro, o erro foi ampliado com resultados desastrosos. Usando a razão e a observação, Aristóteles deduziu que cada um dos quatro elementos tem seu lugar. A terra estava no centro, em seguida vinha a água, acima desta estava o ar e acima do ar vinha o fogo. Todo movimento no mundo era uma tentativa dos elementos de encontrar seu devido lugar. Desse modo as pedras caem para o fundo da água, as bolhas ascen­dem dela, o fogo se ergue em direção ao ar e assim por diante.

Mas como o Sol, a Lua e as estrelas claramente não se moviam dessa maneira, Aristóteles propôs um quinto elemento. Chamou esse elemento rarefeito de éter. Resquícios desse elemento persistem em nossas palavras etéreo (celestial, aéreo) e quinta-essência. O céu, da Lua para cima, era todo parte desse domínio etéreo. Nada tendo a ver com os outros quatro elementos, os corpos celestes não estavam sujeitos às mesmas leis, o que explicava por que não caíam sobre a Terra. Esse domí­nio etéreo superior continha esferas de cristal transparentes e concêntricas, arranja­das em torno da Terra central como as camadas de uma cebola. A Lua, o Sol, os planetas e as estrelas estavam todos incrustados nessas esferas, cujas rotações inde­pendentes produziam os movimentos dos corpos celestes. À medida que se movi­am umas contra as outras, as esferas de cristal transparentes geravam harmonias sublimes inaudíveis ao ouvido humano, a "música das esferas".

A autoridade de Aristóteles e o brilhantismo inigualável de seu pensamento eram tamanhos que tudo isso foi aceito. A Terra foi tomada como o centro do uni­verso, muito embora vários pensadores pré-socráticos tivessem tido uma compre­ensão diferente. E isso, associado à noção de que o céu consistia de um elemento diferente e obedecia a leis diferentes, deu cabo da astronomia até o advento de Co­pérnico no século XVI.

Aristóteles, como Empédocles e Shakespeare, foi um gênio com pés em duas eras diferentes. O que melhor ilustra sua posição histórica é talvez sua atitude em relação à política. A utopia impraticável de Platão não era para Aristóteles - esse era um assunto a ser considerado cientificamente. Para descobrir o melhor sistema político, Aristóteles reuniu em sua biblioteca rolos que continham as constituições de todas as cidades-Estado da Grécia. Se alguma cidade-Estado o procurava em busca de conse­lho constitucional, era capaz de redigir uma constituição que não só se adequava às circunstâncias daquela cidade particular, mas também continha os melhores pontos tomados das constituições de todas as outras cidades-Estado. Se alguma coisa funcio­nava, essa deveria funcionar. Mas não funcionou, e não podia ter funcionado.

Por quê? Ironicamente, a culpa por isso recaiu sobre o discípulo de Aristóte­les, Alexandre o Grande. Foi Alexandre quem conseguiu unir os gregos, façanha que realizou pelo simples expediente de conquistá-Ios. Decidiu então que sua Gré­cia unida não deveria mais enfrentar a ameaça de um império invasor - assim par­tiu para a conquista dos persas, a leste. Feito isso, decidiu avançar contra todo o mundo conhecido e conquistá-lo. (Deixando de lado a questão da megalomania, pode-se afirmar que a estratégia de Alexandre era equivocada. Naquela altura o Império Persa estava em declínio, ao passo que a oeste a República Romana apenas começava a se expandir. Um século e meio depois da gloriosa campanha de Alexandre, que conquistou tudo a leste, as sobras de seu império começariam a sucumbir ante a invasão vinda do oeste.) Apesar de suas deficiências, Alexandre estabeleceu em pouco tempo o maior império que o mundo já vira. A cidade-Estado (ou pólis) foi substituída pela metrópole (literalmente "cidade mãe"). A era das cidades­ Estado estava terminada, a era dos impérios se iniciara. A democracia fora substi­tuída pelo imperialismo. A despeito de todo o seu brilhantismo intelectual, o pensamento de Aristóteles sobre a forma de alcançar a melhor constituição política havia se tornado totalmente redundante.



Mas o mesmo não aconteceu com seu pensamento científico elementar. A idéia de que o mundo consistia de terra, ar, fogo e água pertencia ao passado. E ne­nhuma soma de pensamento brilhante seria capaz de salvar qualquer ciência basea­da em tal premissa.


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