Ciência aplicada



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O Legado do Funcionalismo: A Psicologia Aplicada

O Desenvolvimento da Psicologia nos Estados Unidos Walter Dili Scott (1869-1955)

A Vida de Scott

Influências Contextuais sobre a Psicologia Aplicada Publicidade e Seleção de Pessoal

Oranvilie Stanley Hall (1844-1924) Hugo Münsterberg (1863-1916)

A Vida de Hall A Vida de Münsterberg

A Evolução como Estrutura para o Desen- A Psicologia Forense e Outras Aplicações

volvimento Humano

Especialidades na Psicologia Aplicada

James McKeen Catteil (1860-1944) O Movimento dos Testes Psicológicos

A Vida de Cattell A Psicologia IndustrialjOrganizacional

Os Testes Mentais A Psicologia Clínica

Lightner Witmer (1867-1956) Comentário

A Vida de Witmer

A Clínica Psicológica

O Desenvolvimento da Psicologia nos Estados Unidos

Vimos que a doutrina da evolução e a psicologia funcional dela derivada rapidamente dominaram os Estados Unidos, perto do final do século passado, e que a psicologia americana foi orientada muito mais pelas idéias de Darwin e Galton do que pelo trabalho de Wundt. Foi um curioso e até paradoxal fenômeno histórico. Wundt treinou boa parte dos membros da primeira geração de psicólogos americanos em sua forma de psicologia, incluindo-se ai Hall, Cattell, Witiner, Scott e Miinsterberg. Contudo, “poucos elementos do sistema de psicologia de Wundt sobreviveram à passagem de retomo pelo Atlântico com os jovens americanos que tinham ido para o exterior” (Blumenthal, 1977, p. 13). Quando voltaram aos Estados Unidos, esse alunos de Wundt, esses novos psicólogos, se puseram a estabelecer uma psicologia que pouco se assemelhava ao que Wundt lhes tinha ensinado. A nova ciência, mais ou menos como uma espécie viva, adaptava-se ao seu novo ambiente.

A psicologia de Wundt e o estruturalismo de Titchener não puderam sobreviver por

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muito tempo no clima intelectual americano, no Zeitgeist da América, em sua forma original; por isso, transformaram-se no funcionalismo. Eles não eram tipos práticos de psicologia, não tratavam da mente em uso e não podiam ser aplicados às exigências cotidianas e aos problemas da vida. A cultura americana tinha uma orientação prática, pragmática; as pessoas valorizavam o que funcionava. Era necessária uma forma de psicologia utilitária, que arregaçasse as mangas. “Precisamos de uma psicologia usável”, escreveu G. Stanley Hall, o decano da psicologia aplicada americana. “Os pensamentos wundtianos nunca poderão se aclimatar aqui, pois são antipáticos ao espírito e ao temperamento americanos” (Hall, 1912, p. 414).

Os psicólogos americanos recém-treinados retomaram da Alemanha e, à maneira tipica mente direta e agressiva da América, transformaram a espécie peculiarmente germânica de psicologia. Começaram a estudar não o que a mente é, mas o que faz. Enquanto alguns psicólogos americanos — James, Angell e Carr em especial — desenvolviam a abordagem funcionalista em laboratórios acadêmicos, outros a aplicavam em ambientes extra-universitá rios. Assim, a guinada para um tipo prático de psicologia ocorria ao mesmo tempo que o funcionalismo era fundado como escola distinta de pensamento formal.

Os psicólogos aplicados levaram sua psicologia para o mundo real, para as escolas, fábricas, agências de publicidade, tribunais, clínicas de orientação infantil e centros de saúde mental, e fizeram dela algo funcional em termos de objeto de estudo e de uso. Com isso, modificaram a natureza da psicologia americana tão radicalmente quanto os fundadores acadê micos do funcionalismo. A literatura profissional da época reflete o seu impacto. Na virada do século, 25% das comunicações de pesquisa publicadas nas revistas psicológicas americanas eram a respeito de psicologia aplicada, e menos de 3% envolviam introspecção (O’Donnell, 1985). As abordagens de Wundt e Titchener, que há tão pouco tempo constituíam a nova psicologia, iam sendo superadas com rapidez por uma psicologia mais nova ainda.

A disciplina desenvolveu-se e prosperou nos Estados Unidos enquanto o país como um todo também passava por esse processo. O vibrante e dinâmico crescimento da psicologia americana no período 1880-1900 é um evento marcante na história da ciência. Em 1880, não havia laboratórios nos EUA; perto de 1895, havia vinte e seis, e eles estavam melhor equipados do que os da Alemanha. Em 1880, não havia revistas americanas de psicologia; em 1895, havia três. Em 1880, os americanos tinham de ir à Alemanha para estudar psicologia; em 1900, eles tinham programas de graduação em casa. Por volta de 1903, o número de Ph.D.s em psicologia nas universidades americanas só perdia para os conferidos em química, zoologia e física. A publicação britânica Who ‘s Who iii Science (1913) afirmou que os Estados Unidos lideravam na psicologia, havendo no país um número maior de psicólogos notáveis — oitenta e quatro — do que na Alemanha, na Inglaterra e na França juntas (Jonçich, 1968).

Passados pouco mais de vinte anos do início da psicologia na Europa, os psicólogos americanos assumiram a liderança incontestável do campo. James McKeen Cattell afirmou, em seu discurso de posse na presidência da Associação Psicológica Americana, em 1895, que “o crescimento acadêmico da psicologia na América nos últimos cinco anos é quase sem prece dentes... A psicologia é matéria obrigatória do currículo de graduação... e, entre os cursos universitários, a psicologia hoje rivaliza com as outras ciências principais em número de alunos e na quantidade de trabalhos originais realizados” (Cattell, 1896, p. 134).

A psicologia fez sua estréia americana, diante de um público ávido, na Feira Mundial de

Chicago de 1893. Num programa que lembrava o Laboratório Antropométrico de Francis

Galton na Inglaterra, os psicólogos organizaram exibições de aparelhos de pesquisa e um

laboratório de testes em que, mediante uma taxa, os visitantes podiam ter suas capacidades

medidas. Uma exibição mais ampla foi feita na Exposição de Compras da Louisiana, em St.

Louís, Missouri, em 1904. Esse “evento povoado de astros” apresentou conferências dos

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principais psicólogos da época — E. B. Titchener, de Comei!; C. Lloyd Morgan, Pierre Janet, G. Stanley Hall e um novo Ph.D. chamado John B. Watson (Benjamin, 1986). Wundt não teria aprovado essa popularização da psicologia, e nada parecido com isso ocorreu na Alemanha. Popularizar a psicologia refletia o temperamento americano, que tinha modificado tão substan cialmente a psicologia wundtiana, tornando-a psicologia funcional e estendendo-a bem além do laboratório.

Portanto, a América acolheu a psicologia com entusiasmo, e essa disciplina logo se

firmou nas aulas das faculdades e na vida cotidiana das pessoas. O seu alcance é hoje bem

mais amplo do que os seus fundadores podiam imaginar — ou desejar.

Influências Contextuais sobre a Psicologia Aplicada

O Zeitgeist americano, o espírito intelectual e o temperamento da época, ajudou a promover o surgimento da psicologia aplicada. Mas forças contextuais mais práticas também foram responsáveis pelo seu desenvolvimento. No Capítulo 1, vimos como fatores econômicos afastaram o foco da psicologia americana, da pesquisa pura, para a aplicação. Vimos que, enquanto o número de laboratórios de psicologia crescia perto do final do século XIX, o número de doutores americanos em psícologia crescia numa velocidade três vezes maior. Muitos desses Ph.D.s, em especial os que não dispunham de uma fonte independente de renda, tinham de olhar para além da universidade para sobreviver economicamente.

O psicólogo Harry Hollingworth (1880-1956), por exemplo, não conseguia viver com o salário anual de 1.000 dólares que recebia por suas aulas no Barnard Coilege da cidade de Nova York para complementá-lo, dava aulas em outras universidades e era inspetor de exames por meio dólar a hora. Fazia palestras de psicologia para executivos da área de publicidade e fazia tudo o que considerava capaz de lhe dar condições de ter uma vida dedicada à pesquisa e às atividades acadêmicas. Contudo, descobriu que sua única opção para viver era dedicar-se à psicologia aplicada (Benjamin, Rogers e Roseubaum, 1991).

Hollingworth não foi um caso isolado. Outros pioneiros da psicologia aplicada também foram motivados pela necessidade econômica. Isso não quer dizer que eles não considerassem esse trabalho prático, estimulante e desafiador. A maioria o considerava, além de reconhecer que o comportamento humano e a vida mental podiam ser estudados, em ambientes do mundo real, com a mesma eficácia com que eram estudados nos laboratórios acadêmicos. Deve-se observar que alguns desses psicólogos se empenharam em campos aplicados a partir de um interesse genuíno e de um desejo de trabalhar na área. Permanece contudo o fato de muitos membros da primeira geração de psicólogos aplicados americanos terem sido compelidos a abandonar seus sonhos de pesquisa experimental pura como única alternativa a uma vida de pobreza.

A situação era ainda pior para os que davam aulas nas universidades estaduais, menos dotadas de recursos, do Meio-Oeste e do Oeste, na virada do século. Perto de 1910, um terço dos psicólogos americanos trabalhavam nelas e, com o aumento do número de profissionais nessas condições, cresceram as pressões para que eles se voltassem para problemas práticos e, assim, provassem o valor financeiro da psicologia.

Em 1912, Christian A. Ruckmick fez um levantamento entre os colegas psicólogos e concluiu que a psicologia, apesar de sua popularidade junto aos alunos, não tinha uma boa imagem nas instituições de ensino americanas. Os fundos a ela dedicados e os equipamentos que lhe eram fornecidos eram deficientes, havendo apenas uma pequena esperança de melhoria no futuro (Leary, 1987). A melhor maneira possível de remediar a situação — a fim de aumentar os orçamentos e salários departamentais — era demonstrar aos administradores universitários e legisladores estaduais que a ciência psicológica podia ajudar a curar muitos males sociais.

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G. Stanley Hall aconselhou um colega do Meio-Oeste a fazer a influência da psicologia ser sentida ‘fora da universidade, evitando que algum homem ou partido irresponsável, dado ao sensacionalismo, a criticasse no legislativo”. Cattell incitou seus colegas a “fazer aplica ções práticas e desenvolveruma profissão de psicologia aplicada” (O’Donnell, 1985, pp. 215,221).



A solução, portanto, era evidente: tomar a psicologia mais valiosa mediante sua aplica ção. Mas aplicá-la a quê? Felizmente, a resposta logo se tomou clara: as matrículas nas escolas públicas sofriam um crescimento dramático; entre 1870 e 1915, o número de alunos matricu lados elevou-se de sete para vinte milhões. A quantidade de dinheiro gasta na educação pública no período passou de 63 para 605 milhões (Siegel e White, 1982). A educação de repente se tomava um grande negócio e chamou a atenção dos psicólogos.

Hall proclamou em 1894 que “o campo principal e imediato de aplicação da [ era a educação” (Leary, 1987, p. 323). Mesmo William James, que não podia ser considerado um psicólogo aplicado, escreveu um livro sobre o uso da psicologia em situações de sala de aula (James, 1899). Perto de 1910, mais de um terço dos psicólogos americanos se mostravam interessados pela aplicação da disciplina a problemas educacionais. Três quartos dos que se intitulavam psicólogos aplicados já trabalhavam na área. A psicologia encontrara o seu lugar no mundo real.

Discutiremos neste capitulo as carreiras e as contribuições de cinco pioneiros no campo da psicologia aplicada; eles estenderam a nova ciência não apenas à educação, mas também aos negócios e à indústria, aos centros de testes, aos tribunais e às clínicas de saúde mental. Esses cinco homens tinham sido treinados em Leipzig por Wilhelm Wundt para se tomarem psicólogos acadêmicos puros; todos, contudo, se afastaram dos ensinamentos do mestre quando iniciaram a carreira em universidades americanas. São exemplos notáveis de como a psicologia americana veio a ser influenciada mais por Darwin e C3alton do que por Wundt, e de como a abordagem wundtiana foi reformulada quando do seu transplante para o solo americano.

Depois de examinar a obra desses destacados profissionais, descreveremos os primór dios de três áreas importantes da psicologia aplicada: os testes psicológicos, a psicologia

industrial/organizacional e a psicologia clínica.

Granville Stanley Hall (1844-1924)

Embora William James tenha sido o primeiro grande psicólogo americano, o explosivo desenvolvimento da psicologia nos Estados Unidos entre 1880 e 1900 não resultou apenas do

seu trabalho. Outra figura notável na história da psicologia americana foi Granville Stanley Hall.

A carreira psicológica de Hall foi uma das mais interessantes e variadas. Hall trabalhava com arroubos de energia e entusiasmo em várias áreas, que logo deixava, entregando os detalhes à investigação de outros. Não foi um fundador do funcionalismo, mas as suas contribuições aos novos campos e atividades da psicologia aplicada tinham um pronunciado sabor funcional.

A psicologia americana tem uma dívida com Hall em virtude da sua notável coleção de primeiros lugares. Foi ele quem recebeu o primeiro grau de doutor em psicologia da América e afirmava ter sido o primeiro aluno americano do primeiro ano do primeiro laboratório de psicologia. (Novos dados da história revelam que ele foi, na verdade, o segundo; ver Benjamin, Acord, Durkin, Link e Vestal, 1992.) Hall deu inicio ao que muitos consideram o primeiro laboratório de psicologia dos Estados Unidos e fundou a primeira revista americana de psicologia. Foi o primeiro presidente da Universidade Clark, o organi zador e primeiro presidente da Associação Psicológica Americana e um dos primeiros psicólogos aplicados.

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A Vida de Hall



G. Stanley Hall nasceu numa fazenda de Massachusetts e desde cedo desenvolveu urna sucessão de interesses que mais tarde caracterizariam a sua vida. Também era característica sua grande ambição. Aos catorze anos, jurou deixar a fazenda e ‘fazer e ser algo no mundo’... Seu mais intenso medo na adolescência era o da mediocridade” (Ross, 1972, p. 12). Em 1863, ingressou no Wíllíarns Coliege. Ao graduar-se, Hall já acumulara várias honrarias e tinha desenvolvido um entusiasmo pela filosofia, pela teoria evolutiva em especial, o que iria influenciar sua carreira na psicologia.

Em 1867, inscreveu-se no Seminário Teológico União, de Nova York, embora não tivesse grande vocação para ministro. Seu interesse pela evolução em nada ajudava, além de ele não se fazer notar por uma ortodoxia religiosa. Diz a história que, quando Hall fez seu sermão de prova diante de professores e alunos, o presidente do Seminário ajoelhou-se e rezou pela sua ahna.

A conselho do pregador Heniy Ward Beecher, Hall foi para a Universidade de Bonn, Alemanha, estudar filosofia e teologia. Dali, foi a Berlim, onde fez estudos no campo da fisiologia e da fjsica. Essa fase da sua educação foi complementada por interlúdios românticos e pela freqüência assídua a cervejarias e teatros, experiências essas que, para um jovem de formação puritana, exigiam coragem. Ele se referiu a sua surpresa e alegria ao ver um dos seus professores de teologia tomando cerveja num domingo. O tempo que Hall permaneceu na Europa foi para ele urna época de liberação.

Voltou para casa em 1871, com vinte e sete anos, nenhum grau e uma grande dívida. Obteve o diploma em teologia e pregou numa igreja rural de Cowdersport, Pensilvânia, por... dez semanas. Depois de ser preceptor por mais de um ano, Hall conseguiu um cargo de professor no Antioch Coilege, de Ohio. Ensinava literatura inglesa, língua e literatura francesa e alemã, e filosofia; servia como bibliotecário, dirigia o coro e pregava na capela. Em 1874, depois de ler Psicologia Fisiológica, de Wundt, teve despertado seu interesse pela nova ciência, o que o deixou meio indeciso sobre sua carreira. Tirou uma licença do Antioch, instalou-se em Cambridge, Massachusetts, e tornou-se instrutor de inglês em Harvard.

Além de dedicar-se ao trabalho monótono e cansativo de ensinar inglês a calouros, Hall estudava e fazia pesquisas na escola médica. Em 1878, apresentou sua dissertação sobre a percepção muscular do espaço e recebeu o primeiro grau em psicologia dos Estados Unidos. Ele chegou a conhecer muito bem William Jarnes, mas os dois homens, embora próximos em idade, eram muito distantes em formação e temperamento.

Tão logo se doutorou, Hall foi para a Europa; lá, estudou fisiologia em Berlim e foi aluno de Wundt em Leipzig. A expectativa de trabalhar com Wundt foi, ao que parece, melhor do que a realidade. Embora Hall fosse às palestras do mestre e cumprisse suas obrigações de sujeito do laboratório, suas pesquisas seguiam linhas mais fisiológicas, e sua carreira ulterior demonstra que Wundt, em última análise, teve pouca influência sobre ele. Quando voltou à América em 1880, Hall não tinha perspectiva de emprego; contudo, num espaço de dez anos, tornou-se uma figura de renome nacional.

Hall reconheceu, ao retomar da Alemanha, que a melhor oportunidade de satisfazer a sua ambição estava em aplicar a psicologia à educação. Em 1882, fez uma palestra numa reunião da National Education Association (Associação Nacional de Educação — NEA), em que insistia para que se fizesse do estudo psicológico da criança um componente nuclear da profissão de docente. Ele repetia essa mensagem em todas as oportunidades, e isso logo levou ao primeiro passo de sua rápida saída da obscuridade. O presidente de Harvard o convidou a fazer uma série de palestras sobre educação nas manhãs de sábado. Essas conferências bem

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recebidas deram a Hall muita publicidade favorável, e um convite para lecionar em tempo parcial na Universidade Johns Hopkins, estabelecida há seis anos como a primeira escola de graduação dos Estados Unidos.

As palestras de Hall foram um grande sucesso e lhe valeram o cargo de professor efetivo da Hopkins em 1884. No tempo que ali passou, Hall deu início ao que costuma ser considerado o primeiro laboratório de psicologia da América (formalmente estabelecido em 1883), que ele chamou do seu “laboratório de psícofisiologia” (Pauly, 1986, p. 30). Foi professor de alguns alunos que se tornariam psicólogos proeminentes, incluindo John Dewey e James McKeen Cattell. Em 1887, Hall fundou a Anierkan Journal of Psychology, a primeira revista de psicologia dos Estados Unidos, ainda hoje uma publicação importante. Essa revista servia de plataforma de idéias teóricas e experimentais, e funcionava como eixo de solidariedade e independência para os psicólogos americanos. Numa explosão de entusiasmo, Hall imprimiu uma quantidade excessiva de exemplares do primeiro número; ele e a revista precisaram de cinco anos para cobrir esses custos iniciais.

Em 1888, Hall tomou-se o primeiro presidente da Universidade Clark em Worcester, Massachusetts. Antes de assumir o cargo, fez uma longa viagem para estudar em universidades européias e contratar professores para a sua nova escola. A viagem serviu também a outro propósito. ‘Hall parece ter considerado a viagem uma combinação de Grand Tour e férias remuneradas por trabalhos ainda não começados... ela incluiu algumas paradas totalmente irrelevantes do ponto de vista da tarefa que ele iria realizar, tais como academias militares russas, antigos sítios históricos gregos e o roteiro-padrão de bordéis, circos e curiosidades” (Koelsch,, 1987, p. 21).

Hall desejava fazer de Clark urna universidade nos moldes da Johns Hopkins e das universidades alemãs, com ênfase primordial na pesquisa, e não no ensino. Infelizmente, o fundador — o abastado comerciante Jonas (3ilman Clark — tinha idéias diferentes e não forneceu tanto dinheiro quanto Hall esperava. Com a morte de Clark em 1900, a dotação foi dedicada à fundação de urna faculdade tradicional, a que Hall se opunha, mas que Clark há muito tempo defendia.

Hall tornou a Universidade Clark mais receptiva a mulheres e a grupos minoritários do que a maioria das escolas dos Estados Unidos na época. Embora partilhassem da oposição nacional à co-educação para graduandos, admitia mulheres à graduação. Também teve a incomum iniciativa de encorajar estudantes asiáticos (japoneses em especial) a se inscrever em Clark, e teve o gesto inédito de estimular os afro-americanos a entrar no programa de gradua ção, O primeiro americano negro a obter um Ph.D. em psicologia, Francis Sumner, estudou com Hall. Hall se recusou a impor restrições à contratação de judeus como professores, numa época em que a maioria das instituições não os contratava (Guthrie, 1976; Sokal, 1990).

Além de presidente, ele era professor de psicologia e deu aulas na graduação por vários anos. Hall ainda encontrou tempo para fundar, às suas próprias custas, em 1891, a revista Pedagogicai Seminary (hoje Joumal of Genetíc Psychology), para servir de veículo a pesquisas sobre o estudo das crianças e de psicologia educacional. Em 1915, fundou a Jowiial ofApplíed Psychology, elevando o número de revistas psicológicas americanas a dezesseis.

A Associação Psicológica Americana (APA) foi fundada em 1892, principalmente graças aos esforços de Hall. A convite seu, cerca de urna dúzia de psicólogos se reuniram em seu gabinete para planejar a organização e o elegeram o primeiro presidente. Por volta de 1900, o grupo tinha 127 membros.

O interesse de Hall pela religião persistiu. Fundou a Jownal of Religíous Psychology (1904), que só durou uma década. Em 1917, publicou um livro intitulado Jesus, the Christ, ia

the Light of Psychology (Jesus, o Crista, â Luz da Psicologia). Sua descrição de Jesus como

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uma espécie de “super-homem adolescente” não foi bem recebida pela religião oficial (Ross,

1972, p. 418).

A psicologia prosperou em Clark sob a direção de Hall. Durante seus trinta e seis anos ali, foram conferidos oitenta e um doutorados em psicologia. Seus alunos se lembram dos seminários noturnos cansativos, mas estimulantes, realizados às segundas-feiras em sua casa; neles, os doutorandos eram questionados pelos docentes e pelos colegas. No final das reuniões, que duravam até quatro horas, um criado trazia uma gigantesca porção de sorvete.

Os comentários de Hall sobre os textos dos alunos costumavam ser devastadores. ‘Hall resumia as coisas”, lembra-se Lewis Terman, “com uma erudição e uma imaginação fértil que sempre nos espantavam e nos faziam sentir que sua percepção imediata do problema ia imensuravelmente além da do aluno que lhe dedicara vários meses de trabalho intenso.” E quando as sessões terminavam, Terman “sempre ia para casa atordoado e intoxicado, tomava um banho quente para acalmar os nervos e ficava acordado durante horas rememorando a cena e formulando as coisas inteligentes que deveria ter dito e não dissera” (Sokal, 1990, p. 119).

Os graduandos de certo modo adoravam Hall. Um deles se lembrou recentemente da

impressão que tinha de Hall há setenta anos. “Hall era um homem de compleição forte, com

O laboratório de psicologia de Hall na Universidade Johns Hopkins é considerado o primeiro laboratório dos Estados Unidos.

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mais de 1,80 m de altura. Era visto freqüentemente com seu cortador manual de grama ao longo do declive que ia do jardim da frente de sua casa até a calçada... Percorrendo com facilidade a parte superior da inclinação, com a mão esquerda no bolso, ele manipulava o cortador para cima e para baixo com a direita, num sucessivo empurrar e puxar vigoroso de urna extremidade da elevação à outra, o que dava uns bons trinta metros de distância. Às vezes, enquanto ia andando, mantinha conversa com um aluno que caminhava pela calçada ao seu lado” (Averili, 1990, p. 125).

Favorável a estimular estudantes brilhantes, desde que mostrassem a deferência adequa da, Hall era capaz de ser generoso e de dar apoio. Num certo momento, podia-se dizer que a maioria dos psicólogos americanos estivera associada com Hall na Clark ou na Johns Hopkins, embora ele não fosse a fonte primordial de inspiração para todos eles. Talvez sua influência pessoal se reflita melhor no fato de um terço dos seus alunos de doutorado terem terminado por ser administradores universitários como ele.

Hall foi um dos primeiros americanos a se interessar pela psicanálise, sendo bastante responsável pela atenção que ela logo recebeu nos Estados Unidos. Em 1909, para celebrar o vigésimo aniversário de fundação da Clark, ele convidou Sigmund Freud e Cari Jung para uma série de conferências, um convite corajoso devido à suspeita com que a psicanálise era recebida. Hall também convidou seu ex-professor Wilhelm Wundt, que recusou por causa da idade — e porque ia ser o principal orador no aniversário de 500 anos de sua própria universidade.

Hall continuou a escrever depois da sua aposentadoria em 1920. Faleceu quatro anos mais tarde, poucos meses depois de ser eleito para um segundo mandato como presidente da APA. Depois da sua morte, foi feita uma pesquisa entre os membros da APA para avaliar as contribuições de Hall à psicologia. Dentre as 120 pessoas que responderam, 99 colocaram Hall entre os dez maiores psicólogos do mundo. Muitos louvaram sua capacidade didática, seus esforços para promoção da psicologia e seu desafio à ortodoxia, mas, assim como outros que o conheceram, criticaram suas qualidades pessoais. Ele foi descrito como de difícil trato, não confiável, inescrupuloso, cheio de rodeios e agressivamente voltado para sua autopromoção. Williarn James disse um dia que Hall era a “mais estranha mistura de grandeza e pequenez que eu já vi” (Myers, 1986, p. 18). Mesmo seus críticos, contudo, concordariam com o julgamento da pesquisa da APA: “ levou à produção de mais textos e à realização de mais pesquisas do que quaisquer outros três profissionais da área juntos” (Koelsch, 1987, p. 52).

A Evolução como Estrutura para o Desenvolvimento Humano

Embora Hall tivesse interesse por muitas áreas, seus devaneios intelectuais tinham um iínico tema orientador: a teoria da evolução. Seu trabalho acerca de uma variedade de tópicos psicológicos era norteado pela convicção de que o desenvolvimento normal da mente envolve uma série de estágios evolutivos. Assim, Hall empregou a teoria da evolução como estrutura para amplas especulações teóricas e aplicadas. Ele contribuiu mais para a psicologia educacio nal do que para a psicologia experimental, na qual se concentrou somente nas primeiras fases de sua carreira. Concordando com a importância do método experimental para a psicologia, ele, no entanto, ficava impaciente com suas limitações. Para os objetivos e esforços mais gerais de Hall, o trabalho de laboratório no âmbito da nova psicologia parecia muito restrito.

Chamam-no freqüentemente de psicólogo genético, por causa do seu interesse pelo desenvolvimento humano e animal, e pelos problemas correlatos da adaptação. Em Clark, o geneticismo de Hall levou-o ao estudo psicológico da infância, que ele transformou no ceme de sua psicologia. Numa palestra feita na Feira Mundial de Chicago de 1893, ele disse: “Até agora, fomos à Europa buscar a nossa psicologia. A partir deste momento, tomemos uma

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criança, coloquemo-la em nosso meio e deixemos que a América faça sua própria psicologia” (Siegel e White, 1982, p. 253). Hall pretendia aplicar sua psicologia ao funcionamento da criança no mundo real. Como bem observou um ex-aluno seu, “A criança se tornou, por assim dizer, seu laboratório” (Averili, 1990, p. 127).

Em seus estudos sobre a criança, Hall fez amplo uso de questionários, técnica aprendida na Alemanha. Por volta de 1915, ele e seus alunos tinham desenvolvido e usado 194 questio nários cobrindo muitos tópicos (White, 1990). Era tão amplo o seu uso de questionários que, por algum tempo, o método esteve associado, nos Estados Unidos, com o nome de Hall, embora a técnica tivesse sido desenvolvida antes por Francis Galton.

Esses primeiros estudos sobre as crianças geraram um grande entusiasmo público, levan do à criação do chamado movimento de estudo da criança. Embora tenha desaparecido em uns poucos anos por causa de pesquisas malfeitas, o movimento serviu para deixar estabelecida a importância, tanto do estudo empfrico da criança, como do conceito de desenvolvimento psicológico.

A mais influente obra de Hall é o extenso (cerca de mil e trezentas páginas) livro em dois volumes Adolescence: Its Psychology, and Its Relations to Physiology, Ahthropology, Sociology, Sex, Crime, Religion, and Education (A Adole.sc Sua Psicologia e Suas Relações com a Fisiologia, a Antropologia, a Sociologia, o Sexo, o Crime, a Religião e a Educação), publicado em 1904. Essa enciclopédia contém a mais completa sistematização da teoria de recapitulação de Hall, sobre o desenvolvimento psicológico. Ele acreditava que as crianças repetem, em seu desenvolvimento pessoal, a história de vida da raça humana. Quando brincam de índios e caubóis, por exemplo, as crianças repetem ou resumem a história dos seres primitivos. O livro incluía muito material de interesse para psicólogos infantis e educadores, tendo passado por várias reedições, uma delas vinte anos depois de sua publicação inicial.

Adolescence também causou controvérsia porque alguns consideravam haver nele uma excessiva concentração no sexo. Hall foi acusado de lascívia. Numa resenha do livro, o psicólogo E. L. Thomdike escreveu que “os atos e sentimentos, normais e mórbidos, resultan tes do sexo são discutidos de um modo sem precedentes na ciência inglesa”. Thomdike foi muito mais critico numa carta a um colega, onde disse que o livro de Hall era “um choque cheio de erros, de masturbação e de Jesus. O homem é um louco” (Ross, 1972, p. 385). Na época, Hall fazia uma série de palestras semanais sobre sexo em Clark. Era um ato escanda loso, embora ele não tivesse permitido a presença de mulheres. Ele acabou por desistir das palestras porque “muita gente de fora se havia infiltrado e alguns até ouviam sub-repticiamen te à porta” (Koelsch, 1970, p. 119).

Muitos psicólogos se sentiam incomodados com o entusiasmo de Hall pelo sexo. “Não há como afastar Hall desse maldito sexo?”, escreveu Angell a Titchener. “Eu na verdade acho que é ruim, moral e intelectualmente, tocar tanto a tecla sexual” (Boakes, 1984, p. 163). Eles não precisavam se preocupar; o produtivo e enérgico Hall logo se interessou por outra coisa.

Ao envelhecer, Hall naturalmente se interessou por um estágio ulterior do desenvolvi mento: a velhice. Aos setenta e oito anos, publicou o livro em dois volumes Senescence (Senescência), em 1922. Foi a primeira pesquisa de natureza psicológica em larga escala sobre questões geriátricas. Nos últimos anos de vida, ele também escreveu duas autobiografias. Recreations of a Psychologist (Recreações de um Psicólogo), em 1920, e The Life and Confessions of a Psychologist (Vida e Confissões de um Psicólogo), em 1923.

G. Stanley Hall foi um dia apresentado a um auditório como ‘o Darwin da mente”, uma caracterização que com certeza o agradou e exprimia vividamente suas aspirações e a atitude básica que permeava sua obra. A outro auditório foi apresentado como “a maior autoridade mundial no estudo da criança”. Dizem que ele afirmou que o elogio estava correto (Koelsch, 1987, p. 58). Ao longo de sua vida, manteve-se versátil e ágil. Seu entusiasmo aparentemen 183

te ilimitado era ousado, diversificado e não-técnico, e talvez seja essa característica que fez dele uma personalidade tão estimulante e influente.

Em sua segunda autobiografia, Hall escreveu: ‘Toda a minha vida consciente ativa foi formada por uma série de manias ou excessos, alguns fortes, alguns fracos; alguns duradou ros... e outros efêmeros” (Hall, 1923, pp. 367-368). Perspicaz observação. Hall era vivaz, agressivo, quixotesco, sempre às turras com os colegas, mas nunca enfadonho. Ele uma vez observou que Wilhelrn Wundt preferia ser banal a estar brilhantemente errado. Talvez Hall preferisse estar brilhantemente errado a ser banal.

James McKeen Cattell (1 860-1 944)

O espírito funcionalista da psicologia americana também foi bem representado na vida e na obra de James McKeen Cattell, que influenciou o movimento em prol de uma abordagem prática e orientada para os testes no estudo dos processos mentais. A psicologia de Cattell voltou-se mais para as capacidades humanas do que para o conteúdo consciente e, nesse aspecto, ele se aproxima muito de um funcionalista. Tal como Hall e William James, ele nunca se associou formalmente com o movimento, mas tipificou o espírito funcionalista americano em sua ênfase nos processos mentais em termos de sua utilidade para o organismo, bem como em seu desenvolvimento de testes mentais, hoje uma área importante da psicologia aplicada.

A Vida de Cattell

Cattell nasceu em Easton, Pensilvânia. Bacharelou-se em 1880 no Lafayette Coliege, presidido pelo pai. Seguindo o costume de ir à Europa fazer estudos de pós-graduação, Cattell passou primeiro pela Universidade de Gõttingen, indo mais tarde para Leipzig estudar com Wilhelm Wundt.

Um ensaio filosófico lhe valeu uma bolsa de estudos na Universidade Johns Hopkins em 1882. Na época, seu principal interesse era a filosofia e, no primeiro semestre que passou em Hopkins, não foram oferecidos cursos de psicologia. Ao que parece, Cattell se interessou pela psicologia por causa de suas próprias experiências com drogas. Ele experimentou várias substâncias: haxixe, morfina, ópio, cafeína, tabaco e chocolate. Considerou os resultados interessantes em termos pessoais e profissionais. Algumas drogas, principalmente o haxixe, o deixavam consideravelmente eufórico, reduzindo a depressão que vinha sentindo. Ele também observou os efeitos das drogas no seu funcionamento mental.

“Vi-me fazendo brilhantes descobertas científicas e filosóficas”, confidenciou ele ao seu diário; “meu único medo era não conseguir me lembrar delas pela manhã.” Um mês depois, ele escreveu: “A leitura ficou desinteressante. Continuei a ler sem prestar muita atenção. É preciso um longo tempo para escrever uma palavra. Estou bem confuso” (Sokal, 198 la, pp. 51-52). Mas não estava tão confuso a ponto de deixar de reconhecer a importância psicológica das drogas. Observava o seu próprio comportamento e estado mental com crescente fascínio. “Eu parecia ser duas pessoas”, escreveu, “uma das quais podia observar a outra e até fazer experimentos com ela” (Sokal, 1987, p. 25).

No segundo semestre de Cattell na Johns Hopkins, G. Stanley Hall começou a dar aulas de psicologia, e ele (assim como John Dewey) se inscreveu no curso de laboratório de Hall. Pouco depois, Cattell começou a fazer pesquisas sobre o tempo de reação, que é o tempo necessário para diferentes atividades mentais; esse trabalho reforçou seu desejo de ser psicólogo.

A volta de Cattell a Wundt na Alemanha, em 1883, é objeto de algumas anedotas bem

conhecidas na história da psicologia, e servem de exemplos adicionais de como os dados

históricos podem ser distorcidos. Supostamente, Cattell apareceu no laboratório da Universi 184

dade de Leipzig e anunciou a Wundt, pura e simplesmente: “Herr Professor, o senhor precisa de um assistente; e eu vou ser o seu assistente” (Cattell, 1928, p. 545). Cattell deixou claro para Wundt que escolheria o seu próprio projeto de pesquisa, sobre a psicologia das diferenças individuais, tópico que não era relevante para a psicologia wundtiana. Diz-se que Wundt teria caracterizado Cattell e seu projeto como ganz Amerikanisch (‘tipicamente americanos”), uma observação profética. O interesse pelas diferenças individuais, um corolário natural do ponto de vista evolutivo, foi desde então uma característica da psicologia americana, e não da alemã.

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Os métodos de James McKeen Cattell, práticos e voltados para os testes, refletiam o espírito da psicologia funcional americana.

Cattell teria dado a Wundt sua primeira máquina de escrever, na qual a maioria dos livros do mestre foram escritos. Por causa desse presente, Cattell foi criticado, jocosamente, por ter “prestado um sério desserviço... ter permitido que Wundt escrevesse duas vezes mais livros do que lhe teria sido possível de outro modo” (Cattell, 1928, p. 545).

Uma cuidadosa e exaustiva pesquisa em arquivos feita pelo historiador Michael M. Sokal, do Instituto Politécnico de Worcester, a respeito das cartas e diários de Catteil, indica que essas histórias são duvidosas. O relato desses eventos por Cattell, escrito muitos anos depois, não é corroborado pela sua correspondência nem por suas anotações no diário à época em que ocorreram. Por exemplo, Sokal (198 la) assinala que Wundt tinha Cattell em alta conta e o nomeou seu assistente de laboratório em 1886. Além disso, não há provas de que Cattell quisesse estudar as diferenças individuais na época. Por último, Cattell fez com que Wundt usasse a máquina de escrever, mas não lhe teria dado uma.

Cattell descobriu que não conseguia praticar satisfatoriamente a introspecção wundtiana. Ele era incapaz de fracionar o tempo de reação em várias atividades, como a da percepção ou da escolha, e questionava a possibilidade de alguém conseguir fazê-lo. Essa atitude não agradava a Wundt; em conseqüência, Cattell fez algumas pesquisas em sua própria sala.

Apesar de suas divergências, Wundt e Cattell concordavam sobre o valor do estudo do tempo de reação. Cattell acreditava que isso tinha utilidade para o estudo das várias operações mentais e para as pesquisas sobre as diferenças individuais. Muitos estudos hoje clássicos sobre o tempo de reação foram realizados por Cattell nos seus três anos em Leipzig, e ele publicou vários artigos sobre o assunto antes de partir.

Tendo obtido o doutorado em 1886, Cattell voltou aos Estados Unidos e foi dar aulas de psicologia no Bryn Mawr Coliege e na Universidade da Pensilvânia. Depois foi trabalhar em Cambridge, Inglaterra, onde conheceu Francis Galton. Os dois tinham interesses e concepções semelhantes acerca das diferenças individuais, e Galton, então no auge da fama, ampliou os horizontes de Cattell. “Galton forneceu a Cattell um objetivo científico — a medida das diferenças psicológicas entre as pessoas” (Sokal, 1987, p. 27). Cattell admirava a versatilidade de Galton e sua ênfase na medição e na estatística. Por isso, Cattell foi mais tarde um dos primeiros psicólogos americanos a acentuar a quantificação, a hierarquização e a atribuição de graus, embora fosse pessoalinente “analfabeto em matemática — somava e subtraía, muitas vezes, com imprecisão” (Sokal, 1987, p. 37). Desenvolveu o método da ordem de mérito (também chamado método de classificação), que é muito usado em psicologia, e foi o primeiro psicólogo a ensinar a análise estatística de resultados experimentais.

Wundt não era favorável ao uso de técnicas estatísticas. Logo, foi a influência de Galton sobre Cattell que levou a nova psicologia americana a se parecer mais com o trabalho de Galton do que com o de Wundt. Isso também explica por que os psicólogos americanos começaram a se concentrar em estudos de grandes grupos de sujeitos, que permitiam compa rações estatísticas, e não de sujeitos individuais (a abordagem favorecida por Wundt). O impacto inicial dessa mudança se fez sentir na psicologia educacional, a maioria dos resultados de pesquisas publicada nesse campo, entre 1900 e 1910, envolvia dados estatísticos coletados entre grandes amostragens (Danziger, 1987).

Cattell também foi influenciado pela obra de Galton no campo da eugenia. Cattell defendia a esterilização de delinqüentes e de “pessoas imperfeitas”, bem como a concessão de incentivos às pessoas mais inteligentes e saudáveis para que elas se casassem entre si. Ele ofereceu a cada um dos seus sete filhos mil dólares se eles se casassem com filhos ou filhas de professores universitários (Sokal, 1971).

Em 1888, Cattell tornou-se professor de psicologia da Universidade da Pensilvânia,

nomeação conseguida pelo seu pai. Sabendo que uma cadeira de filosofia bem-remunerada

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seria criada na universidade, o velho Cattell agiu junto ao reitor da escola, um velho amigo seu, para garantir o posto para o filho. Ele insistiu para que este publicasse mais artigos a fim de aumentar sua reputação profissional e foi pessoalmente a Leipzig conseguir uma carta de recomendação de Wundt. Disse ao reitor que, como sua família tinha recursos, o salário não importava, o que fez Cattell ser contratado com uma remuneração bem baixa (O’Donnell, 1985). Mais tarde Cattell diria, incorretamente, que foi o primeiro professor de psicologia do mundo, quando sua nomeação na realidade foi para filosofia. Ele ficou na Pensilvânia por apenas três anos, deixando-a para ser professor de psicologia e chefe do departamento na Universidade Colúmbia, onde passou vinte e seis anos.



Motivado pela sua insatisfação com a Aínerican Journai of Psychology, fundou com J. Mark Baldwin, em 1894, a Psychological Review. No mesmo ano, Cattell adquiriu de Alexan der Graham Bell o semanário Science, que estava prestes a deixar de ser publicado por falta de fundos. Cinco anos mais tarde, Science tornou-se a revista oficial da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS). Em 1906, Cattell iniciou uma série de obras de referên cia, incluindo American Men of Science e Leaders iii Education. Comprou o Popular Science Monthly em 1900; depois de vender o nome em 1915, continuou a publicá-lo como Scientific Monthly. Outro semanário, School and Society, foi fundado em 1915. O fenomenal trabalho de organização e edição tomava muito tempo de Catteil, não sendo surpreendente que decli nasse sua produtividade como pesquisador de psicologia.

Durante sua carreira em Colámbia, esta foi a faculdade americana que conferiu mais doutorados em psicologia. Cattell enfatizava a importância do trabalho independente e conce dia aos alunos considerável liberdade em suas pesquisas. Ele acreditava que um professor devia ser independente, tanto da universidade como dos alunos, e, para ilustrar sua afirmação, vivia a sessenta quilômetros do campus, perto da academia militar de West Point. Montou um laboratório e um escritório editorial em casa e só ia à universidade em dias certos da semana. Assim, conseguia evitar as freqüentes distrações, comuns à vida acadêmica.

Esse distanciamento foi apenas um dos vários fatores que tornaram tensas suas relações com a administração universitária. Ele exigia uma crescente participação docente nos assuntos universitários, dizendo que muitas decisões cabiam aos professores e não aos administradores. Com esse objetivo, ajudou a fundar a Associação Americana de Professores Universitários (AAUP).

Cattell não era diplomático nos contatos com a administração da Colúmbia. Foi descrito como uma pessoa difícil de conviver, “grosseiro, irrecuperavelmente detestável e carente de decência” (Gruber, 1972, p. 300). Cattell não se pautava pelas regras aceitas da conduta social, preferindo a sátira cortante à persuasão polida em seus ataques à administração.

Em três ocasiões, entre 1910 e 1917, os curadores pensaram em aposentá-lo. O golpe decisivo veio durante a Primeira Guerra Mundial, quando Cattell escreveu duas cartas ao Congresso norte-americano protestando contra a prática de enviar soldados recrutados à frente de batalha. Essa era uma posição impopular para ser adotada mas, caracteristicamente, Cattell não voltou atrás. Foi demitido da Colúmbia em 1917, acusado de deslealdade ao país. Ele processou a universidade por difamação e, embora indenizado em quarenta mil dólares, não recuperou o cargo. Isolou-se dos colegas e passou a escrever panfletos cáusticos sobre a administração universitária. Fez muitas inimizades e viveu amargurado por essa experiência o resto da vida.

Cattell nunca mais voltou à vida acadêmica. Dedicou-se às publicações, à AAAS e a outras sociedades científicas. Seus esforços promocionais como porta-voz da psicologia diante das outra. ciências conquistaram para a disciplina uma posição mais importante perante a comunidade científica.

Em 1921, realizou uma de suas maiores ambições: a promoção da psicologia aplicada

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como negócio. Organizou a Psychological Corporation, cujas ações foram comprarias por membros da APA, para prestar serviços psicológicos à indústria, à comunidade psicológica e ao público. Essa organização registrou um considerável crescimento e hoje é um empreendi merito de vulto internacional.

Cattell manteve-se ativo como editor e defensor da psicologia até morrer, em 1944. Sua ascensão extremamente rápida no cenário da psicologia americana merece menção. Aos vinte e oito anos, era professor na Universidade da Pensilvânia; aos trinta e um, chefe de departa mento em Colúmbia; aos trinta e cinco, presidente da Associação Psicológica Americana; e, aos quarenta, o primeiro psicólogo eleito para a Academia Nacional de Ciências (NAS).

Os Testes Mentais

Mencionamos os primeiros trabalhos de Cattell sobre o tempo de reação e o seu interesse pelo estudo das diferenças individuais. O alcance dos seus outros trabalhos foi ilustrado em 1914, quando um grupo de alunos seus, que coligia seus artigos originais de pesquisa, desco briu que, além do tempo de reação e das diferenças individuais, havia estudado a leitura e a percepção, a associação, a psicofísica e o método da ordem do mérito. Embora a importância dessas áreas não possa ser negada, Catteil influenciou a psicologia principalmente com seu trabalho aplicado sobre as diferenças individuais e com o desenvolvimento e uso de testes mentais para medir essas diferenças.

Num artigo publicado em 1890, ele cunhou o termo testes mentais, e, em seu período na Universidade da Pensilvânia, administrou uma série desses testes a seus alunos. ‘A psicolo gia”, escreveu Cattell, “não pode atingir a certeza e a exatidão das ciências físicas se não se apoiar nos alicerces da experimentação e da mensuração. Um passo nessa direção poderia ser dado com a aplicação de uma série de testes mentais e medidas, a um grande número de pessoas” (Cattell, 1890, p. 373). É precisamente isso que ele tentou fazer. Continuou com o programa de testes em Colúmbia e reuniu dados de várias timnas de calouros.

Os tipos de testes usados por Cattell ao tentar medir o alcance e a variabilidade das capacidades humanas diferiam dos testes de inteligência ou de capacidade cognitiva, desenvol vidos mais tarde. Estes últimos usaram tarefas mais complexas de aptidão mental. Os de Cattell eram semelhantes aos de Galton, estando primordialmente voltados para medidas corporais ou sensório-motoras elementares, como a pressão dinamométrica, a taxa de movimento (a rapidez com que a mão pode se mover cinqüenta centímetros), a sensação (usando o limiar de dois pontos), a pressão que causa dor (quantidade de pressão na testa necessária para provocar dor), as diferenças apenas perceptiveis para a avaliação de pesos, o tempo de reação a sons, o tempo para denominar cores, a bissecção de uma linha de cinqüenta centímetros, a avaliação de um período de tempo de dez segundos, e o mimem de letras lembradas depois de uma única apresentação.

Por volta de 1901, ele tinha reunido dados suficientes para correlacionar os escores dos testes com medidas do desempenho acadêmico dos alunos. As correlações se mostraram desapontadoramente baixas, o mesmo ocorrendo com as intercorrelações dos testes individuais. Como resultados semelhantes tinham sido obtidos no laboratório de E. B. Titchener, Cattell concluiu que testes desse tipo não serviam para prever o desempenho acadêmico ou, por pressuposição, a capacidade intelectual.

Em 1905, o psicólogo francês Alfred Binet, em colaboração com Victor Henri e Théo dore Simon, desenvolveu um teste de inteligência usando medidas mais complexas de capaci dades mentais superiores. Essa abordagem ofereceu o que foi considerado uma medida eficien te de inteligência e marcou o começo do fenomenal desenvolvimento dos testes de inteligência.

Apesar do seu fracasso em medir as aptidões mentais, a influência de Cattell no movimento

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dos testes mentais foi grande. Seu aluno E. L. Thorndike tornou-se líder da psicologia dos testes mentais e, durante anos, a Universidade Columbia foi o centro do movimento.

A partir da obra de Galton, Cattell empreendeu uma série de estudos para investigar a natureza e a origem da aptidão científica, usando sua técnica da ordem do mérito. Estímulos classificados por alguns juizes eram colocados numa ordem hierárquica fmal mediante o cálculo da média atribuida a cada item de estímulo, O método foi aplicado a eminentes cientistas americanos, pedindo-se a pessoas competentes em cada campo científico que seria lizassem hierarquicamente alguns dos seus colegas mais notáveis. O importante livro de referência American Men of Science veio desse trabalho. Apesar do título, o livro também relacionava mulheres americanas cientistas. A edição de 1910 inclui dezenove psicólogas, cerca de 10% do total geral de psicólogos (O’Donnell, 1985).

O impacto de Cattell sobre a psicologia americana não veio do desenvolvimento de um sistema de psicologia — ele tinha pouca paciência com teorias — nem de uma impressionante lista de publicações. Sua influência veio principalmente do seu trabalho como organizador, executivo e administrador da ciência e da prática psicológicas, e como elo de ligação entre a psicologia e a comunidade científica mais ampla. Cattell tomou-se um embaixador da psico logia, fazendo palestras, editando publicações e promovendo as aplicações práticas do campo.

Ele também contribuiu para o desenvolvimento da psicologia através dos seus discípulos. Durante os seus anos em Colúmbia, treinou, como observamos, mais alunos de psicologia do que qualquer outro nos Estados Unidos, e vários deles, incluindo Robert Woodworth e E. L. Thorndike, alcançaram grande destaque no campo. Mediante seu trabalho com os testes mentais, a medição de diferenças individuais e a promoção da psicologia aplicada, Cattell revigorou energicamente o movimento funcionalista na psicologia americana. Quando ele morreu, o historiador E. G. Boring escreveu a um de seus filhos: ‘Na minha opinião, seu pai fez mais até mesmo que William James para dar à psicologia americana sua fisionomia peculiar, para torná-la distinta da psicologia alemã da qual decorreu” (Bjork, 1983, p. 105).

Lightner Witmer (1867-1956)

Enquanto Hall modificava para sempre a natureza da psicologia americana ao aplicá-la à criança e à sala de aula, e enquanto Cattell aplicava a psicologia à medição de aptidões mentais, um aluno seu e de Wundt a aplicava à avaliação e ao tratamento de certos tipos de comportamento anormal. Apenas dezessete anos depois de Wundt ter fundado a nova ciência da psicologia, outro dos seus ex-alunos a estava usando de uma maneira prática, incompatível com as intenções do mestre. Em 1896, Lightner Witmer, que substituira Cattell na Universi dade da Pensilvânia e insistia que sua sala de aula fosse mantida na temperatura de vinte graus, abriu a primeira clínica psicológica, fundando o campo por ele denominado psicologia clínica.

Witmer ofereceu o primeiro curso universitário na nova área e fundou a primeira revista, Psychologicai Clinic, que editou durante vinte e nove anos. Foi um dos pioneiros da aborda gem funcionalista que acreditava dever a nova ciência ser usada para ajudar as pessoas a resolver problemas, e não para estudar o conteúdo de sua mente.

É importante observar que o que Witmer praticava em sua clínica psicológica não era a psicologia clínica que hoje conhecemos. Veremos que o seu trabalho estava voltado para a avaliação e o tratamento de problemas comportamentais e de aprendizagem de crianças em idade escolar, uma área aplicada hoje chamada de psicologia escolar. A moderna psicologia dinica cuida de uma gama mais ampla de desordens psicológicas, das brandas às graves, em pessoas de todas as idades. Embora Witmer tenha sido fundamental para o desenvolvimento da psicolo gia clínica, e tenha usado esse rótulo livremente, o campo ampliou-se bem além do que ele imaginara.

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A Vida de Witmer



Lightner Witmer nasceu em 1867 em Filadélfia, Pensilv Era filho de um próspero farmacêutico que inculcou nos três filhos a importância da educação. O irmão e a irmã de Witmer se formaram em medicina, e ele doutorou-se com Wilhelm Wundt em Leipzig. Sempre um aluno excelente, Witmer primeiro freqüentou uma escola particular e, em 1884, ingressou na Universidade da Pensilvânia. Depois da graduação, ensinou história e inglês numa escola particular de Filadélfia antes de matricular-se em cursos de direito na Universidade da Pensilvânia.

Aparentemente sem intenção de fazer carreira em psicologia, ele freqüentava as aulas de psicologia experimental de Cattell, por razões que permanecem obscuras, e tornou-se assistente de ensino do departamento de psicologia. Witmer começou a fazer pesquisas sobre as diferenças individuais quanto ao tempo de reação sob a orientação de Cattell, esperando conseguir seu Ph.D. na Pensilvânia. Cattell tinha outros planos. Ele tinha Witmer em tão alta conta que o escolheu como sucessor quando foi para a Universidade Colúmbia. Era uma oportunidade ímpar para o jovem, mas Cattell impôs uma condição: Witmer teria de ir para Leipzig doutorar-se com Wundt. O prestígio de um Ph.D. alemão ainda era fundamental, e Witmer concordou.

Ele estudou com Wundt e com Oswald Külpe; um dos seus colegas, recém-chegado da Inglaterra, foi E. B. Titchener. Witmer não se impressionou com a abordagem wundtiana de pesquisa, tendo mais tarde comentado que a única coisa que conseguiu com a experiência de Leipzig foi o grau. Wundt se recusou a permitir que Witmer prosseguisse com o trabalho sobre o tempo de reação que ele iniciara com Cattell, e o obrigou a fazer pesquisas introspectivas tradicionais sobre conteúdos conscientes.

Witmer criticava o que chamava de “métodos displicentes de pesquisa” usados por Wundt, descrevendo como este fizera Titchener repetir uma pesquisa... porque os resultados obtidos por ele não eram os que Wundt tinha esperado. Do mesmo modo, ele me excluiu como sujeito... porque, em sua opinião, minha reação sensorial ao som e ao toque era breve demais para ser uma verdadeira reação sensorial” (O’Donnell, 1985, p. 35).

Mesmo assim, Witmer recebeu seu grau e voltou para ocupar seu novo cargo na Univer sidade da Pensilvânia no verão de 1892, o mesmo ano em que Titchener obteve o seu e foi para Corneli, e em que outro aluno de Wundt, Hugo Miinsterberg, era levado para Harvard por William James. Também nesse ano, Hall deu inicio à Associação Psicológica Americana, tendo Witmer como um dos seus membros fundadores. Foi a época em que os espíritos funcionalista e aplicado começaram a tomar conta da psicologia americana.

Nos dois anos seguintes, Witmer trabalhou como psicólogo experimental, fazendo pes quisas e apresentando artigos sobre as diferenças individuais e a psicologia da dor. Enquanto isso, no entanto, ele buscava meios de aplicar a psicologia ao comportamento anormal. O impulso para fazê-lo veio num certo dia de março de 1896, como resultado de um incidente que se originou nas circunstâncias econômicas antes mencionadas — a verba disponível para o campo da educação pública, que estava em franca expansão.

Muitos conselhos estaduais de educação estavam estabelecendo departamentos de peda gogia (instrução nos princípios e métodos de ensino) em seus colégios e universidades, e os psicólogos estavam sendo chamados a dar cursos para um número crescente de profissionais que se especializavam em educação, bem como para professores públicos em busca de títulos mais elevados de graduação. Também se pedia aos psicólogos que deixassem a pesquisa em laboratório e descobrissem maneiras de treinar alunos para se tornarem psicólogos educacio nais. Os departamentos de psicologia se beneficiaram muito desse súbito influxo de alunos, já que, então como agora, os orçamentos departamentais dependiam do número de matrículas.

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A Universidade da Pensilv estabeleceu cursos para professores públicos em 1894, ficando Witmer responsável por alguns deles. Dois anos mais tarde, uma aluna, Margaret Maguire, consultou Witmer sobre os problemas que tinha com um dos seus alunos, um garoto de catorze anos que estava encontrando dificuldades para aprender a soletrar, embora estivesse indo bem em algumas outras matérias. Poderiam os psicólogos ajudar a resolver esse proble ma? “Pareceu-me”, escreveu Witmer, “que se a psicologia valesse alguma coisa para mim ou para os outros, ela teria de ser capaz de servir a um caso de retardamento dessa espécie” (McReynolds, 1987, p. 853). Montou uma clínica incipiente e assim começou o trabalho de sua vida.

Dentro de poucos meses, Witmer estava preparando cursos sobre métodos de tratamento de crianças com distúrbios mentais, cegas e com outros problemas, e publicou um artigo sobre o assunto, intitulado “O Trabalho Prático em Psicologia”, na revista Pediatrics. Apresentou uma comunicação sobre o tópico na reunião anual da APA, e foi ali que usou o termo psicologia clínica pela primeira vez. Em 1907, fundou a revista Psychological Clinic, que foi a primeira, e por muitos anos a única, no campo. No seu primeiro número, Witmer propôs uma nova aplicaçâo da psicologia — na verdade, uma nova profissão — a ser chamada psicologia clínica. No ano seguinte, fundou um internato para crianças retardadas e perturbadas, e, em 1909, sua clínica universitária expandiu-se e tomou-se uma unidade administrativa independente.

Witmer ficou na Universidade da Pensilvânia durante toda sua vida profissional, lecio nando, promovendo e praticando sua psicologia clínica. Aposentou-se em 1937, vindo a morrer em 1956, aos 89 anos — o último do pequeno grupo de psicólogos que se reunira em 1892 no gabinete de G. Stanley Hall para fundar a Associação Psicológica Americana.

A Clínica Psicológica

Na qualidade de primeiro psicólogo clínico do mundo, Witmer não tinha exemplos, nem precedentes, em que basear suas ações, e desenvolveu seus próprios métodos de diagnóstico e tratamento no transcorrer do próprio trabalho. Com seu primeiro caso, o garoto que tinha problemas de soletração, Witmer examinou o nível de inteligância, o raciocínio e a capacidade de leitura do menino e concluiu que esta última era deficiente. Depois de análises exaustivas que duraram muitas horas, Witmer concluiu que o menino sofria daquilo que ele denominou amnésia visual verbal. Embora pudesse lembrar-se de figuras geométricas, ele tinha problemas para se lembrar de palavras. Witmer desenvolveu um programa paliativo intensivo que produ ziu alguma melhoria, mas o garoto nunca conseguiu dominar a leitura ou a ortografia.

Os professores enviaram à nova clínica de Witmer muitas outras crianças portadoras de um amplo espectro de deficiâncias e problemas, entre os quais hiperatividade, várias deficiân cias de aprendizagem e desenvolvimento motor ou verbal inadequado. Conforme se tornava cada vez mais experiente, Witmer pôde desenvolver programas-padrão de avaliação e trata mento, e, além de admitir médicos e assistentes sociais para a clínica, contratou mais psicólogos.

Witmer reconhecia que problemas médicos podem interferir no funcionamento psicoló gico, razão por que submetia as crianças a um exame clínico para determinar se a subnutrição

ou defeitos visuais e auditivos contribuíam para as suas dificuldades. Os pacientes eram

testados e entrevistados amplamente por psicólogos; ao mesmo tempo, os assistentes sociais preparavam históricos de caso acerca de sua situação familiar.

A princípio, Witmer acreditava que os fatores genéticos eram amplamente responsáveis por muitos dos distúrbios de comportamento e déficits cognitivos que via; mais tarde, porém, com o aumento da sua experiância clínica, percebeu que os fatores ambientais eram mais importantes. Ele enfatizou a necessidade de oferecer, ainda em tenra infância, uma variedade

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de experiências sensoriais à criança, antecipando os programas de enriquecimento Head Start de tempos mais recentes. Ele também acreditava na intervenção direta na vida dos pacientes e da sua família, alegando que, se as condições em casa e na escola fossem melhoradas, o comportamento da criança também melhoraria.



O desenvolvimento na educação pública ofereceu à nova psicologia amplas oportunida des -. e generosas recompensas — a quem tirasse seus métodos e descobertas do laboratório acadêmico. O exemplo de Witmer foi seguido e ampliado por muitos outros psicólogos. Por volta de 1914, havia quase vinte clínicas psicológicas em operação nos Estados Unidos, a maioria das quais inspirada na de Witmer. Além disso, os alunos que ele treinara divulgaram a sua abordagem, ensinando à geração seguinte de estudantes o trabalho clínico.

Witmer também foi influente na área da educação especial, treinando muitos dos primei ros profissionais desse campo. Um dos seus alunos, Morris Viteles, ampliou o trabalho de Witmer ao fundar, em 1920, uma clínica dedicada à orientação vocacional, a primeira dos Estados Unidos. Outros incluíram adultos no trabalho clínico. Além disso, abordagens mais novas de psicoterapia, desenvolvidas por Sigmund Freud e seus seguidores, fizeram com que o campo crescesse consideraveimente além de suas origens. Esse desenvolvimento, que ocorre naturalmente em todos os campos, de forma alguma reduz a importância de Lightner Witmer em termos da elaboração e evolução da psicologia clínica.

Waiter Dili Scott (1869-1955)

Outro aluno de Wundt, Walter Dili Scott, deixou o mundo da psicologia introspectiva pura que aprendera em Leipzig para aplicar a nova ciência à publicidade e aos negócios. Jogador universitário de rúgbi e quase missionário, Scott dedicou boa parte da sua vida adulta a tornar o mercado e o ambiente de trabalho mais eficientes e a determinar como os lideres empresariais poderiam motivar os empregados e consumidores.

A obra de Scott reflete a crescente preocupação da psicologia funcional com o lado prático das coisas. “Ao retornar da Leipzig de Wundt para a Chicago da virada do século, Scott fez suas publicações passarem da teorização gerniânica à utilidade prática americana. Em vez de explicar as motivações e impulsos em geral, Scott descrevia como influenciar pessoas, incluindo consumidores, públicos de palestras e trabalhadores” (Von Mayrhauser, 1989, p. 61).

Scott reuniu um impressionante número de primeiros lugares. Foi o primeiro a aplicar a psicologia à publicidade e à seleção e administração de pessoal, o primeiro a ostentar o título de professor de psicologia aplicada, o fundador da primeira empresa de consultoria psicológica e o primeiro psicólogo a receber a Distinguished Service Meda], uma condecoração do Exér cito dos Estados Unidos.

A Vida de Scott

Walter Dili Scott nasceu numa fazenda em Illinois, no ano de 1869. Ele começou a se dedicar à idéia do aumento da eficiência aos doze anos quando atava o campo. Como seu pai ficava doente com freqüência, o garoto basicamente dirigia a pequena fazenda familiar. Um dia, ele fez uma pausa no final de um sulco para deixar os dois cavalos descansar. Contem plando os edifícios da Universidade Normal Estadual de Illinois, a distância, ele percebeu de repente que, se quisesse conseguir alguma coisa, tinha de parar de perder tempo. E ali estava ele, perdendo dez minutos de cada hora para deixar os cavalos descansar! Isso equivalia a mais ou menos uma hora e meia por dia, tempo que ele podia usar lendo e estudando. A partir daquele dia, Scott sempre levava ao menos um livro consigo e lia em todos os momentos de folga.

Para pagar os estudos, ele colhia e enlatava amoras, vendia ferro-velho e aceitava

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empregos estranhos. Guardava parte do dinheiro e, com o resto, comprava livros. Aos dezeno ve anos, inscreveu-se na universidade e iniciou sua longa jornada para longe da fazenda. Dois anos depois, conseguiu uma bolsa para a Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois, onde aceitou empregos de preceptor para ganhar um dinheiro extra, jogou rúgbi, conheceu a mulher com quem iria se casar e decidiu ser missionário na China.

Essa carreira, contudo, significaria mais três anos de estudo e, quando se graduou num seminário teológico de Chicago e estava pronto para ir para a China, Scott descobriu que não havia vagas; a China estava cheia. Foi então que pensou numa carreira em psicologia. Havia feito um curso na área e gostara. E já tinha lido artigos em revistas sobre a nova ciência e o laboratório que Wundt instalara em Leipzig. Graças às suas bolsas, atividades de preceptor e vida frugal, Scott economizara vários milhares de dólares, o suficiente não apenas para ir à Alemanha como para casar-se.

Em 21 de julho de 1898, Scott e sua noiva partiram. Enquanto ele estudava com Wundt em Leipzig, a senhora Scott fazia seu Ph.D. em literatura na Universidade de Halie, a trinta quilômetros de distância. Eles só se viam nos fins de semana. Os dois se doutoraram dois anos depois e voltaram para casa, onde Scott foi dar aulas na Universidade Northwestern na área de psicologia e pedagogia. Ele já estava sob a influência da tendência de aplicar psicologia a problemas da educação.

Sua passagem para um campo novo e distinto de aplicação ocorreu em 1902, quando um líder na área da publicidade procurou Scott, que fora recomendado por um ex-professor, e lhe pediu para aplicar princípios psicológicos à publicidade a fim de torná-la mais eficaz. Ele ficou muito interessado na idéia. Na melhor tradição do espírito do funcionalismo americano, ele já se afastara da psicologia wundtiana e buscava um modo de tornar a psicologia mais aplicável a preocupações do mundo real. E tinha agora a sua chance.

Scott escreveu The Theory and Practice ofAdvertising (Teoria e Prática da Publicidade), o primeiro livro sobre o tópico, seguido por uma torrente de artigos em revistas e livros, publicados à medida que sua experiência, sua reputação e seus contatos com a comunidade empresarial se ampliavam. Depois, voltou sua atenção para os problemas de seleção e admi nistração de pessoal. Em 1905, passou de instrutor a professor na Northwestern e, em 1909, assumiu o cargo de professor de publicidade na escola de comércio da universidade. Em 1916, foi nomeado professor de psicologia aplicada e diretor da divisão de pesquisa de vendas na Universidade Técnica Carnegie, de Pittsburgh.

Em 1917, quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra, Scott ofereceu seus préstimos ao exército para ajudar na seleção de pessoal militar. No início, ele e suas propostas não foram bem recebidos; nem todos estavam convencidos do valor prático da psicologia. Além disso, o general com quem Scott falou desconfiava de professores, tendo quase explodi do de raiva. ‘Ele disse que sua função era fazer com que os professores universitários não se pusessem no caminho do progresso, que estávamos em guerra com a Alemanha e que ele não tinha tempo para brincar com experiências; disse ainda que muitas pessoas achavam que o exército era um grande cachorro no qual aplicar experimentos, e que ele faria o que fosse preciso para nenhum professor universitário consegui-lo” (Von Mayrhauser, 1989, p. 65). Scott acalmou o irado oficial, levou-o para almoçar e o persuadiu do valor de suas técnicas de seleção. Perto do fmal da guerra, ele provou que tinha razão e terminou por receber do exército a mais importante medalha concedida a civis.

Em 1919, fundou sua própria empresa (chamada, imaginativamente, The Scott Com pany), que fornecia serviços de consultoria a mais de quarenta empresas importantes nos setores de seleção de pessoal e métodos de aumento da eficiência do trabalhador. No ano seguinte, ele se tomou presidente da Northwestern, tendo se aposentado em 1939.

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Publicidade e Seleção de Pessoal

As marcas deixadas pelo treinamento em psicologia experimental wundtiana e sua ten tativa de estendê-la ao domínio prático são dois traços evidentes nos primeiros escritos de Scott

sobre a publicidade. Ele escreveu, por exemplo, que os órgãos dos sentidos eram as

janelas da alma. Quanto maior o número de sensações que recebemos de um objeto, tanto melhor o conhecemos. A função do sistema nervoso é nos tornar conscientes das visões, sons, sensações, sabores, etc. dos objetos do nosso ambiente. O sistema nervoso que não responde ao som ou a qualquer outra qualidade sensível é deficiente.

Consideram-se os anúncios, por vezes, o sistema nervoso do mundo dos negócios. O anúncio de instrumentos musicais que não contenha nada que desperte imagens de sotia é um anúncio deficiente... Assim como o nosso sistema nervoso é organizado para nos fornecer todas as sensações possíveis de qualquer objeto, assim também o anúncio, que é comparável ao sistema nervoso, deve despertar no leitor tantos tipos distintos de imagens quantos sejam os que o próprio objeto pode suscitar (Jacobson, 1951, p. 75).

Scott afirmava que os consumidores são não-racionais e facilmente influenciáveis, e concentrou-se na emoção e na simpatia como fatores importantes para o despertar dessa sugestionabilidade. Ele também acreditava, como era comum na época, que as mulheres eram mais facilmente influenciadas do que os homens por anúncios que jogavam com as emoções e os sentimentos. Aplicando o que denominou a lei da sugestionabilidade à publicidade, ele recomendava que as empresas usassem ordens diretas — tais como “Use o Sabão X” — para vender seus produtos. Scott também promoveu o uso de cupom porque estes exigiam uma ação específica e direta dos consumidores, que tinham de destacar o cupom da revista ou jornal, preenchê-lo e enviá-lo para receber uma amostra grátis. Essas duas técnicas — as ordem diretas e o envio de cupom — foram rapidamente adotadas pelos publicitários e, por volta de 1910, já eram uma estratégia generalizada (Kuna, 1976).

Para o seu trabalho em seleção de pessoal, com vendedores, executivos e militares em particular, Scott desenvolveu escalas de avaliação e testes de grupo para medir as caracterís ticas de pessoas já bem-sucedidas nessas ocupações. Assim como fora com Witmer na psico logia clínica, não havia trabalhos precedentes nos quais Scott pudesse basear sua abordagem, tendo ele mesmo de desenvolvê-la. Ele pedia a oficiais superiores e a supervisores que fizessem listas dos seus subordinados e os classificassem segundo categorias de aparência, comportamento, sinceridade, produtividade, caráter e valor para a instituição/organização. Os candidatos eram hierarquizados com base nas qualidades consideradas necessárias ao bom desempenho do trabalho em questão, um procedimento não muito diferente do empregado hoje.

Scott concebeu testes psicológicos para avaliar a inteligência e outras capacidades, mas, em vez de julgar cada candidato individualmente, como era prática corrente, elaborou testes passíveis de aplicação a grupos. O mundo dos negócios e a corporação militar exigiam a rápida avaliação de grande número de candidatos, e era mais eficaz e barato testá-los em grupo.

Os testes de Scott diferiam dos desenvolvidos por Cattell e outros por mais razões ainda. Ele não tentava avaliar a natureza da inteligência geral da pessoa como um conteúdo ou faculdade; o que lhe interessava era o modo como a pessoa usava sua inteligência. Em outras palavras, ele queria medir o funcionamento da inteligência num ambiente real. Para ele, a inteligência não se defmia em termos de capacidades cognitivas específicas, mas em termos práticos como julgamento, rapidez e precisão — as características necessárias à boa realização de um trabalho. O seu interesse se restringia à comparação entre os índices alcançados pelos candidatos e os índices de funcionários já bem-sucedidos no trabalho; não era sua intenção

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determinar o que esses índices poderiam representar em termos de conteúdo mental. Essa abordagem prática dos testes tipificou o homem e toda a sua obra.

Tal como Witmer, Scott só tem recebido uma atenção passageira por parte da história da psicologia. Várias razões explicam esse relativo desdém. Como a maioria dos psicólogos aplicados, Scott não formulou teorias, não fundou uma escola de pensamento, não treinou um grupo leal de alunos para dar prosseguimento ao seu trabalho, fez poucas pesquisas acadêmicas e raramente publicava nas revistas dominantes da época. Seu trabalho para corporações priva das e para os militares era estritamente prático, voltado para atender as necessidades do cliente. Além disso, muitos psicólogos acadêmicos, particularmente aqueles detentores de posições de destaque em universidades importantes e que contavam com generosas verbas para seus laboratórios, tendiam a menosprezar o trabalho dos psicólogos aplicados, acreditando que ele não contribuiria para o progresso da psicologia como ciência.

Scott e outros psicólogos aplicados contestavam essa posição. Para eles, não havia conflito entre as aplicações utilitárias e o progresso da ciência. Na verdade, eles acreditavam que “o progresso empírico da psicologia dependia muito dos resultados da experiência extra acadêmica” (Von Mayrhauser, 1989, p. 63). Os psicólogos aplicados alegavam que a divulga ção da psicologia para um público maior demonstrava o seu valor, o que, por sua vez, aumentava o reconhecimento da importáncia da pesquisa psicológica nas universidades. Logo, os primeiros psicólogos aplicados estavam refletindo o legado e o impacto do espírito funcio nalista na psicologia americana, tentando torná-la uma ciência útil.

Hugo Münsterberg (1863-1916)

Hugo Münsterberg, o professor alemão típico, foi por algum tempo um sucesso fenome nal na psicologia americana e o psicólogo mais conhecido do público. Escreveu centenas de artigos para revistas populares e mais de vinte livros. Era um visitante freqüente da Casa Branca, convidado de dois presidentes americanos, Theodore Roosevelt e William Howard Taft. Münsterberg era procurado como consultor por empresas e líderes governamentais, tendo entre suas amizades os ricos, famosos e poderosos, incluindo o kaiser Frederico, da Alemanha, o magnata do aço Andrew Carnegie, o filósofo Bertrand Russeli, bem como astros de cinema e intelectuais.

Foi — por algum tempo — um honrado professor da Universidade Harvard, eleito para a presidência da Associação Psicológica Americana e da Associação Filosófica Americana. Considerado o fundador da psicologia aplicada, foi também um dos dois psicólogos acusados de ser espiões. Foi descrito como “o mais prolífico propagandista da psicologia aplicada”, uma pessoa que “publicava volumes sobre psicologia educacional, legal, industrial, médica e cultural” (O’Donnell, 1985, p. 225). E, segundo o seu biógrafo, Münsterberg foi também um escritor popular bem-sucedido, “abençoado por um peculiar pendor pelo sensacional; sua vida pode ser interpretada como uma série de promoções — de si mesmo, de sua ciência e de sua pátria [ (Hale, 1980, p. 3).

Perto do fmal da vida, tornou-se objeto de escárnio e ridículo, tema de cartuns e caricaturas em jornais, e um embaraço para a universidade a que servira por tantos anos. Quando ele morreu, em 1916, não houve elogios fúnebres para o homem que um dia fora considerado um gigante da psicologia americana.

A Vida de Münsterberg

Em 1882, aos dezenove anos, Münsterberg deixou sua cidade natal, Danzig, na Alema nha, e foi para Leipzig, pretendendo estudar medicina. Mas, ao fazer um curso com Wilhehn

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Wundt, mudou abruptamente seus planos de carreira. A nova psicologia o deixara animado e oferecia oportunidades que a pesquisa e a prática médicas não poderiam oferecer. Conseguiu o Ph.D. com Wundt em 1885 e formou-se médico na Universidade de Heidelberg dois anos

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Hugo Münsterberg foi muito influente na promoção de várias especialidades da psicologia aplicada, incluindo a psicologia forense, a psicologia clínica e a psicologia industrial.

depois, tendo estudado nesta última com o objetivo de se preparar melhor para uma carreira de pesquisador acadêmico. Foi lecionar na Universidade de Freiburg e, como não havia instalações na universidade, montou um laboratório em casa às suas custas.

Miinsterberg publicou um livro e vários artigos sobre sua pesquisa experimental em psicofísica, que Wundt criticou por lidarem com os conteúdos cognitivos da mente, não com os sentimentos. Ao mesmo tempo, sua obra atraiu um grupo leal de seguidores, e alunos vindos da Alemanha e de outros lugares acorreram em bando para o seu laboratório. Ele parecia bem encaminhado para conseguir um emprego de professor numa universidade importante e a reputação de pesquisador respeitado.

William James fê-lo sair dessa trilha em 1892 ao lhe dar a oportunidade de ser o bem pago diretor do laboratório de psicologia da Universidade Harvard. James foi lisonjeiro em seu apelo, escrevendo para Münsterberg que Harvard era a maior universidade dos Estados Unidos e precisava de um gênio para dirigir o laboratório de modo a manter sua primazia na psicolo gia. Miinsterberg teria preferido ficar na Alemanha, mas a ambição o levou a aceitar a oferta de James.

Não foi rápida nem fácil sua transição da Alemanha para os Estados Unidos, e da psicologia experimental pura para a psicologia aplicada. No início, ele desaprovava a dissemi nação da psicologia aplicada e atacava os administradores universitários por pagarem tão pouco aos pesquisadores que os forçavam a ganhar a vida dedicando-se a ocupações mais práticas. Criticava os psicólogos americanos que escreviam livros populares para o público leigo, faziam palestras para líderes empresariais e ofereciam, mediante pagamento, seus servi ços de especialistas. Dentro de pouco tempo, contudo, ele estaria fazendo tudo isso.

Depois de dez anos nos Estados Unidos, e talvez percebendo que nenhuma universidade alemã lhe ofereceria um cargo de professor, escreveu seu primeiro livro em inglês. Intitulado American Traits (Características Americanas), o livro, de 1902, era uma análise psicológica, social e cultural da sociedade americana. Escritor rápido e talentoso, ele era capaz de ditar para uma secretária um livro acessível de quatrocentas páginas, em no máximo um mês. William James comentou que o cérebro de Münsterberg era incansável. E. B. Titchener observou que ele tinha “o dom fatal de escrever com facilidade — fatal especialmente para a ciência, e sobretudo para uma ciência jovem, em que a precisão é, de todos, o aspecto mais necessário” (Hale, 1980, p. 23).

A reação entusiástica ao livro de Münsterberg o encorajou a escrever mais para o público em geral do que para os colegas, e ele logo estava publicando em revistas populares, e não em periódicos profissionais. Afastou-se da pesquisa psicofísica e dos conteúdos da mente e passou a escrever sobre as atividades cotidianas para as quais os psicólogos poderiam contribuir. Seus livros e artigos tratavam de julgamentos nas cortes e do sistema de justiça criminal, da propaganda de produtos de consumo, do aconselhamento vocacional, da saúde mental e da psicoterapia, da psicologia educacional e industrial e da psicologia do cinema. Miinsterberg produzia cursos por correspondência sobre aprendizagem e negócios, e chegou a fazer uma série de filmes sobre testes mentais para exibição nos cinemas.

Münsterberg nunca hesitou em se envolver em questões controversas. Durante um sen sacional julgamento por assassinato, administrou quase cem testes mentais ao assassino con fesso de dezoito pessoas, o qual tinha acusado um líder sindical de pagar pelos crimes. Com base nos resultados desses testes, que incluíram um teste de associação de palavras (apelidado pela imprensa de “máquina da mentira”), Miinsterberg anunciou publicamente — antes de o j ter chegado a um veredito no julgamento do líder sindical — que a alegação do assassino implicando o líder era verdadeira, O júri, no entanto, absolveu este último, o que foi desastroso para Miinsterberg; um jornal passou a referir-se a ele como ‘Professor Monsterwork”.

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Em 1908, ele se envolveu na luta nacional contra o movimento de proibição da venda de bebidas alcoólicas. Ele se opôs à proibição, recorrendo à sua experiência como psicólogo e afirmando que o álcool, tomado com moderação, é benéfico. Os fabricantes de cerveja germa no-americanos, incluindo Adolphus Busch e Gustave Pabst, se deliciaram com o apoio de Münsterberg e deram grandes contribuições financeiras ao seu esforço de promoção da imagem da Alemanha nos Estados Unidos. Numa infeliz e suspeita coincidência, Busch doou cinqüenta mil dólares ao Museu Germânico proposto por Miinsterberg poucas semanas antes de este publicar um artigo na Mc C ure ‘s Magazine denunciando a idéia da proibição. Isso causou furor nos jornais e revistas populares.



As idéias de Münsterberg sobre as mulheres também eram difíceis de ignorar. Embora apoiasse a presença de várias mulheres que eram estudantes graduadas em Harvard, incluin do Mary Whiton Calkins, ele acreditava que esse trabalho era muito rigoroso para a maioria delas. Sua concepção era de que as mulheres não deviam ser treinadas para carreiras acadê micas, porque isso as afastaria de casa. Ele também afirmava que elas não deviam lecionar em escolas públicas, porque não tinham capacidade de ensinar tão.bem quanto os homens e não eram bons modelos para meninos. E acreditava que não se devia permitir a presença de mulheres no júri por elas serem incapazes de deliberação racional; esta observação produziu manchetes internacionais.

O presidente de Harvard e a maioria dos colegas de Münsterberg não gostaram desse sensacionalismo — nem aprovaram o seu interesse em aplicar a psicologia a problemas práti cos. As relações estremecidas alcançaram o ponto da ruptura com a contínua e ardente defesa de sua Alemanha natal feita por Münsterberg durante a Primeira Guerra. Esta eclodira na Europa em 1914, embora os Estados Unidos só tivessem se envolvido diretamente no conflito em 1917. Mas a opinião pública americana era definitivamente antialemã. Aquele país era o agressor numa guerra que já custara milhões de vidas, e Münsterberg estava assumindo uma posição cada vez mais impopular.

Ele escreveu inúmeros artigos defendendo a Alemanha, e mantinha um contato aberto com o embaixador alemão em Washington, D.C., e com o escritório alemão de assuntos estrangeiros em Berlim. Os jornais diziam que Münsterberg era um agente secreto, um espião e um oficial militar de alta patente. Os jornais de Boston pediam que ele se demitisse de Harvard. Seus vizinhos suspeitavam que os pombos que a sua filha alimentava no quintal dos fundos estavam sendo usados para levar mensagens a outros espiões. Um aluno de Harvard que vivia em Londres ofereceu à universidade dez milhões de dólares se ela demitisse Münsterberg.

Münsterberg recebia ameaças de morte pelo correio e era alvo do desprezo dos colegas. O ostracismo e os ataques cada vez mais virulentos lhe abateram o espírito. Mas, em 16 de dezembro de 1916, os jornais matutinos traziam especulações sobre conversações de paz na Europa. ‘Até a primavera teremos paz”, ele anunciou à esposa (Münsterberg, 1922, p. 302). Ele foi a pé, pela neve espessa daquele dia frio, para dar sua aula da manhã. Ao chegar à escola, sentia-se exausto. Münsterberg entrou na classe e foi ao chão sem dizer uma palavra. Morreu instantaneamente de uma síncope.

A Psicologia Forense e Outras Aplicações

Os extremos do comportamento e das crenças de Münsterberg não diminuem a impor tância do seu trabalho em psicologia aplicada. Ninguém mais contribuiu tanto para o progresso da psicologia aplicada em geral e para o seu avanço nas áreas da psicologia forense, clínica e industrial. Apesar de todos os seus defeitos, Münsterberg permanece como uma das figuras mais influentes no desenvolvimento da abordagem funcional e tipicamente americana da psicologia.

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A primeira área de aplicação em que ele trabalhou, a psicologia forense, trata da relação entre a psicologia e a lei. Münsterberg escreveu uma série de artigos sobre tópicos como o uso da hipnose no interrogatório dos suspeitos, formas de evitar o crime, detecção de pessoas culpadas por meio do uso de testes mentais e o caráter inconfiável das testemunhas oculares. Ele tinha particular interesse por este último assunto, isto é, pelo caráter falível da percepção humana diante de um evento como um crime e da lembrança subseqüente do evento. Ele descreveu pesquisas sobre crimes simulados em que se pedia às testemunhas, imediatamente depois de terem visto o crime, que descrevessem o que tinha ocorrido. Os sujeitos não concordavam quanto aos detalhes do que tinham testemunhado, embora a cena ainda estivesse viva em sua memória. Quão preciso poderia ser tal testemunho numa corte, perguntou Müns terberg, já que o evento em discussão teria ocorrido muitos meses antes?



Em 1908, ele publicou On the Witness Stand (No Banco das Testemunhas), que descre via os problemas das testemunhas oculares. A obra também considerava outros fatores psico lógicos que podem afetar o resultado de um julgamento, tais como as falsas confissões, o poder de sugestão no interrogatório de testemunhas e o uso de medidas fisiológicas (a taxa de batimentos cardíacos, a pressão sangümnea, a resistência da pele) para detectar estados emocio riais alterados num suspeito ou réu. O livro foi reimpresso muitas vezes, tendo tido uma edição em 1976, quase setenta anos depois de sua publicação.

No final dos anos 70, houve um ressurgimento do interesse pelas questões levantadas por Münsterberg (ver Loftus, 1979; Loftus e Monahan, 1980), e a Sociedade Americana de Psicologia Forense foi fundada, como uma divisão da Associação Psicológica Americana, para promover a pesquisa básica e aplicada na área forense.

Münsterberg publicou um livro intitulado Psychotherapy (Psicoterapia) em 1909, inician cio o trabalho numa área aplicada inteiramente distinta. Ele tratava os pacientes num laborató rio, e não numa clínica, e nunca cobrava as consultas. Ele confiava muito na autoridade da sua posição como terapeuta e não hesitava em fazer sugestões diretas aos pacientes sobre como eles podiam se curar. A doença mental, acreditava ele, era antes um problema de desajuste comportamental do que algo atribuível a um conflito inconsciente profundo, como afirmava Sigmund Freud. Münsterberg se opôs às concepções freudianas de saúde mental, particular- mente à ênfase nos distúrbios sexuais como causa primária de problemas emocionais. Mõns terberg concordava, no entanto, que, em alguns casos, questões de caráter sexual poderiam estar na raiz do problema.

Sua abordagem terapêutica consistia em forçar as idéias perturbadoras do paciente a sair da consciência, em suprimir os comportamentos indesejáveis ou problemáticos e em incitar o paciente a esquecer — deixar de lado — a dificuldade emocional. Tratava uma variedade de problemas, incluindo o alcoolismo, o abuso de drogas, as alucinações, os pensamentos obses sivos, as fobias e as desordens sexuais. Não aceitava pacientes psicóticos ou pessoas com problemas neurológicos, por pensar que essa forma de psicoterapia não funcionava nesses casos. Por algum tempo, usou a hipnose como método de tratamento, mas interrompeu a prática depois que uma mulher que ele tratava o ameaçou com uma arma. A história deliciou os jornais, e o presidente de Harvard exigiu que ele parasse de hipnotizar mulheres.

Seu livro sobre psicoterapia em muito contribuiu para levar o campo da psicologia clínica à atenção do público, mas não foi bem recebido por Lightner Witmer, que abrira sua clínica na Universidade da Pensilvânia vários anos antes. Witmer nunca alcançara — nem procurara — o tipo de aplauso popular que Münsterberg desejava. Num artigo publicado em sua revista, Psychological CIinic, Witmer queixou-se de que Münsterberg tinha barateado” a profissão ao alardear suas curas “na praça do mercado”. Ele considerava Münsterberg pouco mais que um curandeiro, por causa do “modo garboso com que o professor de psicologia de

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[ vai pelo país, alegando ter tratado em seu laboratório psicológico centenas e cente nas de casos desta ou daquela forma de disturbio nervoso” (Hale, 1980, p. 110).

Ao mesmo tempo, Miinsterberg sistematizava, desenvolvia e promovia mais um campo, o da psicologia industrial. Iniciou este trabalho em 1909, com o artigo “A Psicologia e o Mercado”. O texto cobria várias áreas para as quais ele acreditava que a psicologia poderia contribuir: a orientação vocacional, a publicidade, a administração de pessoal, os testes men tais, a motivação dos empregados e os efeitos da fadiga e da monotonia no desempenho da função. Sua perspectiva era caracteristicamente ampla, tratando de todos os aspectos e proble mas dos negócios, desde a seleção dos operários certos para realizar a tarefa com eficiência até a promoção do produto acabado.

Münsterberg foi contratado como consultor por várias empresas, tendo feito para elas inúmeras pesquisas. Ele publicou suas descobertas em Psychology and Industrial Efficiency (Psicologia e Eficiência Industrial), de 1913, outro livro escrito para o público em geral. A obra alcançou tamanho sucesso que foi para as listas dos livros mais vendidos. Ele afirmava que a melhor maneira de aumentar a eficiência no trabalho e assegurar a harmonia no local de trabalho consistia em selecionar trabalhadores para funções adequadas às suas capacidades mentais e emocionais. E como os empregadores fariam isso da melhor forma? Mediante o desenvolvimento de técnicas psicológicas de seleção como testes mentais e simulações em que se podiam avaliar as várias aptidões e capacidades dos candidatos.

Münsterberg fez pesquisas sobre ocupações tão diversas quanto capitão de navio, condu tor de bonde, telefonista e vendedor, mostrando como seus métodos de seleção promoviam melhorias no desempenho da função. No tocante a problemas de eficiência, apresentou resul tados de estudos que mostravam, por exemplo, que conversar enquanto se trabalha reduz a eficiência. Sua solução não era proibir as conversas entre trabalhadores (isso, admitia ele, geraria hostilidade), mas projetar o local de trabalho de modo a dificultar essas conversas. Esse objetivo poderia ser alcançado pelo aumento da distância entre as máquinas ou pela separação dos espaços com divisórias.

Principalmente graças aos esforços promocionais de Münsterberg, o campo da psico logia industrial exerceu um impacto cada vez mais amplo no mundo do trabalho. Ele propôs ao presidente americano Woodrow Wilson e ao kaiser alemão que seus governos estabele cessem departamentos para patrocinar pesquisas sobre as aplicações da psicologia à indús tria. Esses líderes mostraram interesse pela idéia, mas a irrupção da guerra impediu sua implementação.

Tal como outros pioneiros do campo, Münsterberg não formulou teorias, não fundou uma nova escola de pensamento nem — assim que iniciou o trabalho em psicologia aplicada

— fez pesquisas acadêmicas puras. Ele insistia para que sua pesquisa servisse a um propósito defmido, fosse funcional e orientada para ajudar as pessoas de alguma maneira. Embora tivesse sido treinado por Wilhelm Wundt na técnica da introspecção, criticava os psicólogos que se apegavam à técnica e fustigava colegas não desejosos de empregar as descobertas e métodos da psicologia para a melhoria da humanidade.

Münsterberg nunca aderiu formalmente à definição funcionalista de psicologia e sempre se recusou a definir sua própria abordagem, acreditando que fazê-lo limitaria sua utilidade. Se houve um tema que caracterizou sua diversificada, bombástica e controversa carreira, foi o de que a psicologia tem de ser útil. Nesse sentido, Miinsterberg, apesar do temperamento germâ nico, foi a quintessência do psicólogo americano, refletindo e demonstrando o espírito da sua época. Deve-se a ele o fato de a psicologia aplicada, que ele tanto fez para fundar no inicio do século XX, ter crescido a ponto de tornar-se uma das forças dominantes na psicologia americana agora que o século XXI se aproxima.

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Especialidades na Psicologia Aplicada



Vimos como a psicologia, sob a influência do funcionalismo, começou a ser aplicada a problemas do mundo real no início do século. No Capítulo 10, veremos que o comportamen talismo de John B. Watson também contribuiu para o desenvolvimento da tendência aplicada. Depois de deixar o mundo acadêmico, Watson se tornou um popular psicólogo aplicado. Na época, a psicologia já não podia ficar restrita ao mundo da ciência pura do laboratório onde Wundt e Titchener tentaram valorosamente mantê-la.

Embora o movimento aplicado em psicologia tenha tido o seu começo nos anos entre a virada do século e a Primeira Guerra, seu progresso inicial foi relativamente lento. Contudo, depois que a América entrou na guerra, em 1917, os psicólogos aplicados foram chamados para tratar de problemas práticos e imediatos. A psicologia tornou-se visível aos olhos do público. Psicólogos e não-psicólogos reconheciam que os princípios e métodos do campo podiam ser usados para melhorar o bem-estar humano. Cattell comentou que a guerra pôs a psicologia “no mapa e na primeira página” (O’Donnell, 1985, p. 239). Hall escreveu que a guerra tinha “dado à psicologia aplicada um tremendo impulso. No cômputo geral, isso vai ser bom para a psicologia.., não devemos tentar ser demasiado puros” (Hall, 1919, p. 48). Algumas revistas, como a Journal ofExperimnental Psychology, interromperam sua publicação nos anos da guerra, mas a Joumal of Applied Psychology floresceu.

Nos anos 20, passada a guerra, a psicologia se tornou uma “mania nacional” (Dennis,

1984, p. 23). As pessoas, em todos os Estados Unidos, passaram a acreditar que os psicólogos

- eram capazes de curar tudo — da desarmonia conjugal à insatisfação com o trabalho — e vender qualquer produto — de desodorantes a anti-sépticos bucais. Esse crescente clamor por soluções levava cada vez mais psicólogos a deixar a pesquisa pura para se entregar às áreas aplicadas. Na edição de 1921 do Ainerican Meti of Science de Cattell, mais de 75% dos psicólogos ali citados diziam estar engajados num trabalho de cunho aplicado; em 1910, o número fora 50% (O 1985). As reuniões da seção de Nova York da APA, no início dos anos 20, mostravam um substancial aumento, com relação aos anos anteriores à guerra, no número de artigos sobre pesquisas aplicadas (Benjamin, 1991).

Contudo, no final da década de 20 e durante os dez anos da depressão econômica mundial dos anos 30, a psicologia aplicada passou a ser atacada por não conseguir ser fiel à sua promessa. Líderes empresariais, por exemplo, queixavam-se de que, embora útil, a psico logia industrial não estava curando todos os seus males. Experiências negativas com testes de seleção malconcebidos os tinham levado a contratar alguns trabalhadores improdutivos.

Talvez as expectativas dos psicólogos e seus clientes fossem exageradas, mas, seja como for, surgiu um desencanto com a psicologia aplicada. Um dos maiores críticos foi Grace Adams, que fora aluna de Titchener. Em “O Declínio da Psicologia na América”, artigo publicado numa revista popular, Adams afirmou que a psicologia “abandonara suas raízes científicas para que psicólogos alcançassem popularidade e prosperidade”. Ela acusou os psicólogos de “se mascararem como cientistas” e fracassarem na resolução dos problemas sociais e econômicos trazidos pela depressão (Benjamin, 1986, p. 944). O New York Times e outros jornais importantes criticavam os psicólogos por prometerem mais do que podiam dar e por não conseguirem aliviar o mal-estar causado pela depressão. O número de artigos populares sobre temas psicológicos declinou a partir de 1929, e a imagem e a promessa da psicologia só seriam restauradas em 1941, depois da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra. Vemos assim outro exemplo da guerra como influência contextual no desenvolvimento da psicologia.

A Segunda Guerra trouxe outro conjunto de problemas urgentes para a psicologia resol 201

ver, o que reviveu e ampliou sua influência geral. Vinte e cinco por cento dos psicólogos americanos estavam diretamente envolvidos no esforço de guerra, e muitos outros deram contribuições indiretas através da pesquisa e da redação de textos. Ironicamente, a guerra também fez renascer uma psicologia incipiente na Alemanha, onde o campo declinara depois de os nazistas terem expulsado todos os psicólogos judeus de seus empregos. As necessidades dos militares alemães criaram uma nova demanda de psicólogos com vistas à seleção de oficiais, pilotos, tripulação de submarinos e de outros especialistas (Geuter, 1987).

Nos anos posteriores ao fim da guerra, a psicologia americana como um todo passou pelo mais dramático período de crescimento de sua história. Dentro do campo, o desenvolvimento mais significativo ocorreu nas áreas aplicadas. A psicologia aplicada superou a acadêmica e orientada para pesquisas, que predominara por muitos anos. Já não cabia a afirmação de que a maioria dos psicólogos dedicava-se ao ensino ou trabalhava no campo experimental. Antes da Segunda Guerra, quase 70% dos doutorados em psicologia eram concedidos na área da psicologia experimental; perto de 1960, esse número era 25%, tendo caído para 8% por volta de 1984 (Goodstein, 1988).

Em 1940, pouco antes de os Estados Unidos entrarem na guerra, 75% dos psicólogos trabalhavam em ambientes acadêmicos. Eles eram 47% em 1962 e 42% em 1980 (Gilgen, 1982). Disso resultou uma mudança em termos do poder na APA, onde os psicólogos aplicados (particularmente os psicólogos clínicos) assumiram uma posição de comando. Alguns profes sores e cientistas, orientados para a pesquisa, se ressentiram no domínio dos clínicos e formaram sua própria organização, a Sociedade Psicológica Americana (APS), em 1988. Em 1991, ela tinha mais de 12.000 membros.

Completaremos nossa cobertura do legado do funcionalismo com uma breve discussão de três áreas de psicologia aplicada que têm os mais antigos antecedentes históricos: os testes psicológicos, a psicologia industrial/organizacional e a psicologia clínica. Trataremos dos testes em primeiro lugar porque boa parte do desenvolvimento das duas outras áreas derivou deles.

O Movimento dos Testes Psicológicos

Ao falarmos da obra de Francis Galton e de James McKeen Cattell, discutimos a origem do movimento dos testes mentais. Foi Cattell quem cunhou o termo testes mentais, mas coube a Alfred Binet, um psicólogo francês autodidata, rico e independente, desenvolver o primeiro teste verdadeiramente psicológico da capacidade mental.

Binet discordava da abordagem de Galton e Cattell, que empregava testes de processos sensório-motores para medir a inteligência. Para ele, a avaliação de funções cognitivas como a memória, a atenção, a imaginação e a compreensão forneceria uma melhor medida da inteligência. A oportunidade de prová-lo veio em resposta a uma necessidade prática. Em 1904, o ministro francês da instrução pública nomeou uma comissão para estudar as capacida des de aprendizagem de crianças que estavam tendo dificuldades na escola. Binet e um psiquiatra, Théodore Simon, foram indicados para a comissão, tendo investigado juntos os tipos de tarefas intelectuais que podiam ser dominados pela maioria das crianças em diferentes idades.

A partir do perfil que fizeram dessas tarefas, eles elaboraram o primeiro teste de inteligência. O teste consistia em trinta problemas organizados em ordem ascendente de dificuldade e se concentrava em três funções cognitivas: julgamento, compreensão e raciocínio. Três anos mais tarde, em 1908, o teste foi revisto e ampliado, e o conceito de idade mental, introduzido. A idade mental foi descrita como a idade em que crianças de capacidade média podiam realizar certas tarefas. Por exemplo, se uma criança com idade cronológica de quatro anos passasse em todos os testes em que a amostra de crianças de cinco anos médias tinha

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passado, atribuía-se à criança de quatro anos uma idade mental de cinco. Uma terceira revisão do teste foi preparada em 1911; mas, depois da morte de Binet, o desenvolvimento do teste, e dos testes de inteligência em geral, passou para os Estados Unidos.



O teste foi introduzido nos Estados Unidos por Henry Goddard, aluno de G. Stanley Hall e psicólogo de uma escola de crianças mentalmente retardadas em Vineland, Nova Jersey.

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Alfred Binet (apresentado aqui com suas filhas) desenvolveu o primeiro teste verdadeiramente psicológi co de capacidade mental, que evoluiu para o amplamente usado Teste de Inteligência Stanford-Bínet.

Goddard denominou sua tradução do teste Escala Binet-Simon de Medida da J (Binet-Simon Measurwg Scale for Inteiigence).

Em 1916, Lewis M. Terman, que também estudara com Hall, desenvolveu uma versão do teste que se tornou padrão. Ele lhe deu o nome de Teste Stanford-Binet, a partir do nome da universidade à qual estava ligado, e adotou o conceito de quociente de inteligência (QI). A medida do QI, definida como a razão entre idade mental e idade cronológica, fora proposta originalmente pelo psicólogo alemão William Stem. O Stanford-Binet passou por várias revi sões e continua a ter amplo uso.

No dia em que os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra, realizava-se em Harvard uma reunião da Sociedade de Psicólogos Experimentais, de Titchener. O presidente da APA, Robert Yerkes, estava presente. Yerkes instou os psicólogos presentes a considerar de que maneira a psicologia poderia ajudar na campanha da guerra. Titchener objetou, explicando que era súdito britânico; o mais provável é que não quisesse se envolver com a guerra por não gostar de aplicar a psicologia a problemas práticos. Ele pode ter temido que os esforços dos psicólogos para ajudar a vitória na guerra os fizessem “trocar uma ciência por uma tecnolo gia” (O’Donnell, 1979, p. 289).

O exército tinha diante de si o problema de avaliar a inteligência de grande número de recrutas a fim de estudá-los e classificá-los, bem como atribuir-lhes tarefas adequadas. O Stanford-Binet é um teste individual de inteligência que requer uma pessoa bem treinada para aplicá-lo de modo adequado. Ele não pode ser usado para nenhum programa de testes em larga escala que envolva a avaliação de muitas pessoas num curto espaço de tempo. Para esse propósito, é necessário um teste para grupo de administração simples.

Yerkes, nomeado major do exército, reuniu um grupo de quarenta psicólogos para realizar essa tarefa. Eles examinaram alguns testes, nenhum dos quais de uso geral, e escolhe ram como modelo o de Arthur S. Otis, que estudara com Terman. Otis preparou os testes Ariny Alpha e Amiy Beta, com base no de Otis. O Beta era uma versão do Alpha usada especifica- mente para pessoas que não falavam inglês ou eram analfabetas. Suas instruções eram dadas por meio de demonstração ou mímica, em vez de oralmente ou por escrito.

A implantação do programa seguia lentamente, e a ordem formal para o início dos testes só foi dada três meses antes do fim da guerra. Mais de um milhão de homens foram testados, mas os militares já não precisavam dos resultados. O programa, embora tenha tido pouco efeito no esforço de guerra, teve um enorme impacto sobre a psicologia. A publicidade que recebeu contribuiu em muito para promover o status da psicologia, e esses testes se tornaram protótipos dos muitos que mais tarde foram concebidos.

O desenvolvimento e o uso de testes de personalidade grupais também foram estimulados pelo esforço de guerra. Até aquela época, só se tinham feito tentativas limitadas de avaliação da personalidade. Nos últimos anos do século XIX, o psiquiatra alemão Emil Kraepelin usara o que havia chamado de teste de associação livre; nele, um paciente respondia a uma palavra- estímulo com a primeira palavra que lhe viesse à mente. A técnica fora criada por Galton. Em 1910, CarI Jung desenvolvera uma técnica semelhante, o teste de associação de palavras, que ele empregava na avaliação dos complexos de seus pacientes. Esses dois eram testes de personalidade individuais. Quando o exército manifestou interesse em separar os recrutas altamente neuróticos, Robert Woodworth construiu o Personal Data Sheet, um inventário pessoal em que os pacientes indicavam os sintomas neuróticos que tinham. Tal como o Ariny Alpha e o Aiiny Beta, esse teste teve pouco uso real nos anos de guerra, mas também veio a servir de protótipo para o desenvolvimento dos testes de personalidade grupais.

A psicologia aplicada teve sua própria vitória na guerra, a de ter conquistado a aceitação

pública. Em pouco tempo, milhares de empregados, escolares e candidatos à faculdade viam-

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se diante de baterias de testes cujos resultados poderiam determinar o curso de sua vida. Uma epidemia de testes varreu os Estados Unidos; mas, na pressa em dar uma resposta ao apelo dos negócios e da educação, era inevitável que aparecessem alguns testes malconcebidos e impropriamente pesquisados, que levaram a resultados desapontadores. Em conseqüência, muitas empresas abandonaram o uso dos testes psicológicos na metade dos anos 20. Essa foi uma das razões do desencanto geral com a psicologia que se manifestou nesse período. Com o tempo, foram desenvolvidos testes melhores que permitiram ao comércio e à indústria a seleção de melhores pessoas para suas vagas e de melhores trabalhos para os candidatos; hoje, a seleção e colocação de pessoal por meio de testes tomou-se parte essencial do processo de contratação.



Os testes também participaram de uma importante controvérsia social na década de 20. Em 1921, foram tornados públicos os resultados dos testes de recrutas do exército durante a Primeira Guerra. Segundo os dados, a idade mental dos convocados e, por extensão, da população branca em geral era de apenas treze anos. Os resultados também indicavam que quase a metade dos cidadãos americanos brancos podiam ser caracterizados como retardados mentais ou pessoas de mente fraca. Além disso, os dados mostravam que os negros, assim como os imigrantes de países mediterrâneos e latino-americanos, tinham um QI menor. Só os imigrantes do norte da Europa tinham um QI igual ao dos americanos brancos.

Isso levantou muitas questões entre cientistas, políticos e jornalistas. Como podia uma forma democrática de governo sobreviver se o povo era tão estúpido? Deveriam os grupos de QI baixo ter direito de voto? Deveria o governo recusar a entrada de imigrantes dos países de QI baixo? Como podia permanecer significativa a noção de que as pessoas foram criadas iguais?

O conceito de diferenças raciais em termos de inteligência fora apresentado nos Estados Unidos já nos anos 1880, tendo havido muitos clamores para que se impusessem restrições a imigrantes de países mediterrâneos e latino-americanos. Por outro lado, mesmo antes do desenvolvimento dos testes de inteligência, era geralmente aceito o alegado uivei inferior de inteligência dos afro-americanos. Um dos mais ativos e coerentes críticos dessa concepção era Horace Mann Bond (1904-1972), um destacado erudito afro-americano, presidente da Univer sidade Lincoln, da Pensilvânia.

Bond, doutorado em educação pela Universidade de Chicago, publicou alguns livros e artigos em que afirmava que as diferenças de QI entre negros e brancos eram decorrentes de fatores ambientais, e não genéticos. Ele fez pesquisas que demonstraram que os negros dos Estados do norte tinham um QI maior do que os brancos dos Estados do sul, uma descoberta que prejudicou seriamente a acusação de que os negros eram geneticamente inferiores em termos de inteligência (Urban, 1989).

Muitos psicólogos responderam à sugestão de diferenças raciais quanto à inteligência, acusando os testes de serem viciados. Com o tempo, a controvérsia arrefeceu, apenas para ressurgir nos anos 70. Desde então, os psicólogos se esforçam para desenvolver testes isentos de distorções culturais e educacionais que avaliem com mais precisão as capacidades humanas. Permanece uma grande necessidade prática de testes, e sua utilidade na seleção, no aconselha mento e no diagnóstico continua sendo um foco importante da psicologia aplicada.

A Psicologia Iidustrial/Organizacional

Descrevemos a fundação da psicologia industrial por Walter Dili Scott e os primeiros esforços deste e de Hugo Münsterberg para promover a aplicação da psicologia ao mundo do trabalho. Tal como ocorreu com outras áreas da psicologia aplicada, esse campo passou por um monumental aumento de alcance, popularidade e expansão graças à Primeira Guerra.

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Scott foi voluntário do Exército norte-americano e desenvolveu uma escala de avaliação para a seleção de capitães baseada nas avaliações que havia concebido para classificar líderes no setor de negócios. Perto do final da guerra, ele tinha avaliado as qualificações profissionais de três milhões de soldados, e o seu trabalho foi um outro exemplo amplamente divulgado do valor prático da psicologia.

Depois da guerra, os negócios, a indústria e o governo solicitaram os serviços de psicólogos industriais para reformular suas políticas de pessoal e introduzir testes psicológicos como meios de seleção de empregados e funcionários. Em 1919, como observamos, Scott fundou sua empresa de consultoria, e, dois anos mais tarde, Cattell fundou sua Psychol ogi cal Corporation, que também promoveu com sucesso a aplicação da psicologia ao mundo dos negócios.

O foco primordial da psicologia industrial no decorrer dos anos 20 foi a seleção e a colocação de candidatos a empregos — a pessoa certa na função certa. O escopo do campo aumentou em 1927 com os estudos Hawthome, realizados na fábrica da Westem Electric em Hawthorne, Illinois (Roethlisberger e Dickson, 1939). Essa pesquisa fez com que esse campo passasse da seleção e colocação para problemas mais complexos, envolvendo relações huma nas, motivação e o moral.

O estudo começou como uma investigação dos efeitos do ambiente físico do trabalho — iluminação e temperatura, por exemplo — sobre a eficiência do empregado. Os resultados surpreenderam os psicólogos e os gerentes de fábrica. Descobriu-se que as condições sociais e psicológicas do ambiente de trabalho tinham mais importância do que as condições físicas em que as funções eram realizadas. Os estudos Hawthome abriram novas áreas de exploração de fatores com a qualidade e a natureza da liderança, os grupos informais que os trabalhadores compõem, as atitudes dos empregados com relação ao emprego, a comunicação entre operários e dirigentes, e uma vasta gama de outras forças sociais e psicológicas capazes de influir na motivação, na produtividade e na satisfação.

A Segunda Guerra Mundial levou um grande número de psicólogos a um envolvimento direto com o esforço de guerra. Tal como na Primeira Guerra, sua principal contribuição foram os testes, a avaliação e a classificação de recrutas. Por volta dos anos 40, tinham-se concebido testes bem mais sofisticados. A operação de equipamentos bélicos cada vez mais complexos, tais como aeronaves de alta velocidade, exigia aptidões mais aprimoradas. A necessidade de identificar pessoas dotadas da capacidade de dominar essas aptidões produziu o aperfeiçoa mento dos procedimentos de seleção e treinamento. Essas armas criaram na psicologia indus trial uma especialidade que recebeu múltiplas denominações: engenharia psicológica, engenha ria humana, engenharia dos fatores humanos e ergonomia. Trabalhando em estreito contato com os engenheiros de sistemas, os profissionais da engenharia psicológica forneciam infor mações sobre as capacidades e as limitações humanas. Seu trabalho tinha influência direta sobre o projeto de equipamentos militares, tornando-os mais compatíveis com as características e aptidões das pessoas que iriam usá-los. Hoje, o campo da engenharia psicológica não se restringe a equipamentos militares, aplicando-se ainda a produtos de consumo como teclados de computador, móveis de escritório e mostradores de painéis nos automóveis.

A partir dos anos 50, os líderes empresariais vêm aceitando a influência da motivação, da liderança e de outros fatores psicológicos no desempenho profissional. Esses aspectos do ambiente de trabalho têm assumido uma importância crescente, o mesmo ocorrendo com o impacto do clima psicológico e social como um todo em que o trabalho é realizado. Atualmen te, os psicólogos estudam a natureza de diferentes estruturas organizacionais, seus padrões e estilos de comunicação e as estruturas sociais formais e informais que produzem. Reconhecen do essa ênfase nas variáveis organizacionais, a Divisão de Psicologia Industrial da APA tornou-se a Sociedade de Psicologia Industrial e Organizacional.

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Estudos realizados nas décadas de 20 e de 30 na fábrica da Western Electric Company em Hawthorne, illinois, levaram os psicólogos aplicados às complexas áreas das relações humanas, dos estilos de liderança e da motivação e do moral dos empregados.



A Psicologia Clínica

A aplicação da psicologia à avaliação e ao tratamento do comportamento anormal foi feita pela primeira vez por Lightner Witmer em sua clínica da Universidade da Pensilv Além disso, dois livros foram um primeiro impulso no campo. A Mmd That Found ItseJf (Uma Mente Que Encontrou A Si Mesma), escrito em 1908 por um ex-paciente, Clifford Beers, alcançou imensa popularidade e atraiu a atenção pública para a necessidade de tratar de maneira mais humana os doentes mentais. Psychotherapy (Psicoterapia), escrito em 1909 por Hugo Munsterberg, que também foi muito lido, detalhava técnicas para tratar uma variedade de distúrbios mentais. Ele promoveu a psicologia clínica ao mostrar formas específicas de ajudar pessoas perturbadas.

A primeira clínica de orientação infantil foi instalada em 1909 por William Healey, psiquiatra de Chicago. Logo surgiram muitas clínicas do gênero, cujo propósito era tratar os distúrbios infantis no início, para que esses problemas não se tornassem enfermidades mais sérias na idade adulta. As clínicas usavam a abordagem de equipe, introduzida por Witmer, em que todos os aspectos das dificuldades de um paciente eram tratados por psicólogos, psiquia tras e assistentes sociais.

As idéias de Sigmund Freud foram, naturalmente, cruciais para o desenvolvimento da

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psicologia clínica. Sua obra de psicanálise fascinou e enfureceu alguns segmentos da psicolo gia oficial e do público americano. De suas idéias os psicólogos clínicos extrairam as primeiras técnicas psicológicas de terapia.



Não obstante, o progresso da psicologia clínica era lento e, mesmo em 1940, ela ainda era uma parte pouco significativa da psicologia. Havia poucas instalações para tratamento de adultos perturbados e, por isso, escassas oportunidades de trabalho para os psicólogos clínicos. Não havia programas educacionais para treinar psicólogos clínicos, e o trabalho destes se limitava, em geral, à aplicação de testes.

A situação sofreu uma abrupta mudança quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra, em 1941. Foi esse evento, mais do que qualquer outro, que tornou a psicologia clínica a ampla e dinâmica área aplicada especializada que veio a ser desde então. O exército instalou programas de treinainento para várias centenas de psicólogos clínicos, necessários ao tratamen to de distúrbios emocionais dos militares.

Finda a guerra, a necessidade de psicólogos clínicos ficou ainda maior. A Administração dos Veteranos (VA) viu-se responsável por mais de 40.000 veteranos com problemas psiquiá tricos. Mais de outros três milhões de veteranos precisavam de aconselhamento vocacional e pessoal para facilitar sua reintegração à vida civil, e cerca de 315.000 necessitavam de aconselhamento para conseguir ajustar-se a incapacidades físicas decorrentes de ferimentos de guerra. A demanda por profissionais de saúde mental estava no auge, excedendo em muito a oferta.

Para ajudar no atendimento dessa necessidade cruciante, a VA financiou programas de especialização de nível universitário e pagou as anuidades de alunos em troca de trabalho em seus hospitais e clínicas. Grande número de psicólogos clínicos treinados nos anos 50 recebeu a maior parte dessa instrução sob os auspícios da VA. Os programas também mudaram o tipo de pacientes tratados pelos psicólogos clínicos. Antes da guerra, o trabalho se voltava princi palmente para crianças com problemas de delinqüência e de ajustamento; as necessidades dos veteranos porém significavam que a maioria dos pacientes tratados eram adultos com graves problemas emocionais. A VA (hoje Departamento de Assuntos dos Veteranos — Department of Veterans Affairs) continua a ser a maior fonte individual de empregos para psicólogos nos Estados Unidos, e tem tido um enorme impacto sobre o campo da psicologia clínica.

Os psicólogos clínicos também trabalham em centros de saúde mental, escolas, empresas e consultórios particulares. Discutiremos adiante as mudanças ocorridas a partir dos anos 50 nos métodos de tratamento, notadamente as terapias de comportamento, que são uma decor rência da escola comportamentalista. No momento, a psicologia clínica é a maior dentre as áreas aplicadas; mais de um terço de todos os estudantes formados estão em programas de clínica, e cerca de 40% dos membros da APA praticam a psicologia clínica.

Comentário

A natureza da psicologia americana passou por grande alteração desde os anos em que Hall, Cattell, Witmer, Scott e Münsterberg estudaram com Wundt na Alemanha e trouxeram essa psicologia para os Estados Unidos. Como resultado de seus esforços, a psicologia já não está restrita às salas de conferência, bibliotecas e laboratórios, tendo se estendido a muitas áreas da vida cotidiana. Além dos testes, da psicologia escolar e educacional, da psicologia clínica, da psicologia industrial/organizacional e da psicologia forense, os psicólogos atuam hoje no aconselhamento psicológico, na psicologia comunitária, na psicologia do consumidor, na psicologia populacional e ambiental, na psicologia da saúde e da reabilitação, na psicologia dos exercícios físicos e esportes, na psicologia da política pública e militar e na psicologia dos meios de comunicação. Nenhuma dessas áreas teria sido possível se a psicologia permanecesse

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voltada para os conteúdos da experiência consciente. As pessoas, idéias e eventos que discu timos nestes capítulos sobre o funcionalismo irnpelirarn a psicologia americana a ir bem além dos limites do laboratório de Leipzig.

Consideremos os seguintes fatores: a noção darwiniana de adaptação e função; a identi ficação por Galton das diferenças individuais e suas tentativas de medi-las; o Zeigeíst ameri cano, com sua ênfase no que é prático e útil; a mudança, nos laboratórios acadêmicos de pesquisa, do conteúdo para a função, promovida por James, Angeil, Carr e Woodworth; os fatores sociais e econômicos e as forças da guerra — tudo isso se entrelaçou para dar à luz uma psicologia destinada a modificar a nossa vida, uma ciência ativa, assertiva, atraente e influente.

Esse movimento geral da psicologia americana na direção do lado prático foi reforçado

pelo comportamentalismo, a próxima escola de pensamento na evolução da psicologia.

Sugestões de Leitura

Averill, L. A., Recollections of Clark’s G. Stanley Hall”, Joumal of the Histoiy of the Behavioral Sciences, n 26, pp. 125-130, 1990. Relata os três anos que o autor passou como aluno graduado da

Universidade Clark e suas lembranças de Hall como professor.

Benjamin, L. T., Jr., ‘Why don’t they understand us? A history of psychoiogy’s public image”, American Psychologist, n 41, pp. 941-946, 1986. Acompanha o desenvolvimento da imagem da psicologia desde o começo, numa apresentação pública na Feira Mundial de Chicago, até os escritos de psicólogos em revistas e livros populares, passando por suas aplicações no campo da educação.

Diehl, L. A., “The paradox of O. Stanley Hall: Foe of coeducation and educator of women”, American Psychologist, n 41, pp. 868-878, 1986. Examina a teoria de Hall sobre as diferenças sexuais no desenvolvimento humano — especialmente sua concepção de que o papel próprio à mulher é o de mãe — e estabelece um contraste entre isso e os seus esforços em favor das mulheres que faziam pós-graduação na Universidade Clarlc

Hale, M., Jr., Hwnan Science and Social Order: Hugo Münsterberg and the Orígins o! Applied Psycho logy, Filadélfia, Temple Universíty Press, 1980. A vida e a obra de Münsterberg, um dos fundadores da psicologia aplicada; o livro considera em especial sua concepção da natureza da sociedade e o papel da psicologia na solução de problemas sociais.

Hulse, S. H.; e Green, B. F., Jr. (Orgs.). One Hundred Year of Psychological Re ia America: O.

Staniey Hall and the Johns Hopkins Tradition, Baltimore, Johns Hopkins University Press, 1986.

Apresenta artigos de um simpósio realizado para comemorar o centenário de fundação do laboratório

de psicologia na Universidade Johns Hopkins por Hall. Veja-se em especial a Parte 1, Perspectiva

Histórica”, que trata da vida de Hall e de como moldou o departamento de pós-graduação em psicologia. McReynolds, P., “Lightner Witmer: Little-known founder of clinical psychology”, Ainerican Psycholo gist, n 42, pp. 849-858, 1987. Faz um esboço da vida e da carreira de Witmer, descreve o princípio de sua clínica na Universidade da Pensilvânia e avalia sua importância para a história da psicologia aplicada.

Sokal, M. M.; (Org.), Psychological Testing and American Society: 1890-1930, New Brunswick, Nova Jersey, Rutgers Umversity Press, 1987. Um relato das idéias, programas e práticas pioneiras do movimento de testes mentais nos Estados Unidos, cobrindo o trabalho de Cattell, Scott, Goddard, Temian e Otis, entre outros.

Sokal, M. M., “O. Stanley Hall and the institutional character of psychology at Clark, 1889-1920”, Journal of the History of the Behavioral Sciences, n 26, pp. 114-124, 1990. Descreve a psicologia ensinada e promovida na Universidade Clark e remonta sua origem a aspectos do próprio tempera mento de Hall.

Von Mayrhauser, R. T., “Making inteiligence functional: Waiter Dili Scott and applied psychological

testing m World War 1”, Journal of the History of the Behavioral Sciences, n 25, pp. 60-72, 1989.

Descreve os esforços de Scott, Thomdike e outros na elaboração do primeiro teste de inteligência grupal.



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