Ciúme atormentado



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Encontro11.10.2018
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Ciúme atormentado

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César Fonseca

 

 



Benedito deu de cara com Bilac assim que saia do restaurante Fogo de Chão, no Setor de Indústria Gráfica, SIA, onde almoçou sozinho naquela primeira terça feira do ano. Bilac olhou o velho amigo pelo canto do olho, envergou-se para trás, abriu um sorriso tímido e cumprimentou-o efusivo, mas sussurante.

 

- Bené!



 

Abraçaram-se. A última vez que se viram, diria Bilac, fora em uma exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil, lindo espaço da Capital da República. Arquiteto, Bilac sempre adorou saber das novidades no campo das artes. Possuía sensibilidade nata para as curvas da natureza, para os sons universais. Extraia poesia das suas alucinações. Tratava-se de ser dotado de generosidade infinita, dado às pessoas. A solidariedade era sua linguagem. Em todas as empresas que trabalhara fora sempre amigo dos trabalhadores e assumia a causa deles. Acabava sempre demitido, porque levantava desconfianças nos diretores. Esses não entediam a sua tendência natural à prática da solidariedade humana de forma completa, sem condicionantes. Por isso, a vida dele estava uma merda. Deprimido, sombrio, pessimista, cabeça totalmente mal feita, infeliz, Bilac se expressava em forma de derrota, um ser desmoralizado, desmotivado.

 

Benedito pensou:



 

- Não existe remédio para os sensíveis senão o eterno sofrimento em um mundo marcado pelo individualismo excessivo.

 

E completou



 

- Vai almoçar?

 

Ia. Desistiu. Benedito ficou levemente desconsertado depois que Bilac disse estar passando por depressão. Aquele ser que se exprimia arrasado pensou em comer alguma coisa. Dispunha-se a entrar no restaurante. Como viu Bené saindo, perdeu o apetite.



Queria, naturalmente, comer sem ser visto, como animal desconfiado.

 

Assim que notou as desilusões extravasadas no olhar desagradavelmente esbugalhado cheio de lágrimas de Bilac, Benedito foi assaltado por uma imagem ainda mais desagradável. Via uma boia numa bacia cheia dágua, derramando pelas bordas. Certamente, Bené teria desistido de almoçar, se a cena o tivesse assaltado antes de comer aquela alcatra sem graça acompanhada de uma salada gostosa. Perderia o apetite.



 

Saíram juntos, caminhando rumo à Pastelaria São Carlos, onde até presidentes, como Itamar Franco, frequentava. Bené compraria um free picado e um cafezinho. Talvez comesse aquele doce de amendoim. Não havia naquele dia. Sentaram para conversar um pouco.

 

- Depressão, disse Bilac, é a pior coisa do mundo. Você fica sem chão. Não dá vontade de fazer nada. Para piorar, os remédios contra depressão me deprimem mais ainda. Levanto mal humorado. Às dez da mantina tomo outra dose de depressivo, para dormir mais um pouco. Não dá para aguentar sem remédio, mas o remédio é uma desgraça.



 

- Vírgilio, como está o Virgílio, tem falado com ele, perguntou Bené.

 

Virgílio, filho com a primeira mulher, Letícia, médica, espírito de artista, leitora compulsiva, elétrica, brilhante e meio desiludida com o amor, estava na bronca com o pai. A relação dele com Bilac se deteriorara, ultimamente. Os dois sempre se sentiram, mas sempre se desencontraram. Letícia tornara-se, naturalmente, a opção de Virgílio, que sofria com as dores da mãe frente ao pai cuja opção na vida fora a vagabundagem, excessivamente, poética e irresponsável.



 

- Mas, ontem, ele me ligou, conversamos bastante, tá tudo em ordem. É um amor atormentado, reconfortou-se o arquiteto fracassado.

 

Os olhos de Bilac incomodavam Benedito. Desconfortado com a comiseração expressa psicologicamene por Bené por meio de um olhar demasiadamente dolorido, Bilac, vulcão de lágrimas preste a explodir, tirou do bolso da camisa um óculos escuro, vagabundo.



 

- Comprei lá em Brasilinha, oito reais. Fica bom? Meio bandeiroso, não? Fico parecendo marginal?

 

Aquele disfarce tornara-se fundamental. Benedito percebera nos olhos de Bilac toda a dor do mundo. Pelo menos, com os olhos protegidos, aquela denúncia explícita de personalidade emocionalmente massacrada estaria suficientemente mascarada. O incômodo passaria entre os dois amigos.



 

- Não sinto prazer em nada, destacou Bilac. Deixei a arquitetura de lado, amargurou-se. Não acompanho mais as exposições culturais, lamentou-se. Estou com 67 anos, alarmou-se. Num balanço geral, sinto que não aproveitei legal a vida. Li pouco, bebi e fumei muito. Me aposentei com R$ 700 mensais. Pensei que ficaria só com R$ 300.

 

O irmão de Bilac, Gustavo, empresário agrícola, registrara-o em sua empresa, localizada em Anápolis. Conseguira aposentá-lo. Continuaria recebendo ainda mais R$ 300 por mês, porque não fora dada baixa em seus documentos de trabalho. O contador da empresa de Gustavo avisara a Bilac que o empreendimento agropecuário, Fazenda Bela Vista, Comércio e Indústria Ltda, falira. Perderia, portanto, aquela renda, que estava servindo-lhe para pagar o aluguel num quarto e sala em que vivia com sua sexta mulher, no SIA. Para piorar a situação, Bilac, contratado pelo irmão para ser diretor da empresa, avalizara o mano querido.



 

- Assinei umas promissoras para ele.... O cartório mandou recado para eu comparecer lá. Fazer o que? Gustavo é gente boa. Ele me ligou, ontem. Está confiante que esse ano a situação vai melhorar. Pagará as dívidas. Mas.... Olha, Bené, isso chateia a gente.

 

Silêncio. Benedito olhou para dentro da pastelaria. Pediu ao garçom uma cerveja e mais um free picado. Dois cigarros já era dose exagerada para ele. A conversa o excitara. Bilac recusou, parara de beber e de fumar. Em compensação, emergira a depressão. A voz dele quase sumira. Disse que era por conta dos remédios. O som interno da alma não se expressava com nitidez no processo depressivo; gritava em sussurros doloridos.



 

- Puta que pariu, hein, Bilacão. Num diga uma coisa dessas! E, agora?, reagiu estupefato Bené.

 

Bilac passou a mão direita na testa, enxugou o suor. Lembrou que o tormento maior, no entanto, era ouro. A causa fundamental da depressão não era a incerteza do futuro material. Sua alma se atormentava por algo mais profundo, que elevava suas inquietações a um grau que o perturbava psicologicamente a ponto de entrar em pânicos. Mergulhava em um mundo cujos contornos não sentia e cujas expectativas cumpriam roteiro de terror administrado por fantasmas esvoaçantes. As abstrações psicológicas o arrasavam e imprimiam-lhe medo insuportável.



 

Naqueles dias, Bilac frenquentava a Capes, centro de recuperação para os mentalmente afetados. Não se sentia confortável no ambiente. Muita gente para ser atendida. Era um número na multidão. O tratamento individualizado, respeitoso, digno, inexistia. Sua cabeça girava sombria. Pensou em subir em cima de um prédio e pular lá de cima. Tentou comprar veneno.

 

- Mas, Bené, fala de você, meu papo tá brabo demais, concorda?



 

Benedito, naqueles dias se encontrava triste. Sua filha, Raquel, estava machucada pelo amor que encerrara numa noite fatídica de sábado, depois de um cinema em que o ar de despedida pairava no ar, e seu filho tomara bomba em três matérias no colégio. Preocupava-se com a filha querida. Ao mesmo tempo sentia-se angustiado porque ela parara de estudar no segundo semestre de 2006. Trancara matrícula no curso de Turismo, uma fuga, e não se preparara, ainda, suficientemente, para enfrentar o vestibular da Universidade de Brasília, seu sonho e de milhares dos que não conseguem ser aprovados. Seu namorado, Juscelino, fora aprovado, deixando-a para trás. Agora, emergia o que se poderia esperar. O mundo, para os jovens que ingressam em universidade pública, onde as vagas são duramente disputadas, ganha novo colorido. Um sentimento de euforia e auto-confiança toma conta de quem saiu aprovado e uma sensação de decepção machuca a alma de quem fica para trás.

 

Benedito inquietava-se diante da sensibilidade aguçada de Raquel, dominada por um jeito acomodado, introspectivo. Nunca lhe faltara nada. Vivia como princesa. Sentia-se relativamente segura até que teve que ir à luta. Despreparada, quebrou a cara. Emergiu a insegurança e a baixa estima imperou no espírito dela. Com o fim do namoro, acumularam-se os dramas. Fazia-se necessário tratamento psicológico. Mas, dependia dela, da sua força de vontade.



 

Além disso, Bené preocupava-se com seus negócios. Vendia produtos de construção civil, tornara-se sócio de uma indústria de equipamentos microeletrônicos em Ceilândia, entraria nos negócios de energia, onde via o futuro. O capitalista nunca tem sossego, pensava. A demanda e a oferta variam hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo, ao longo de todo o tempo, ininterruptamente. Canseira e terror num Brasil onde se pratica o juro e a carga tributária mais alta do mundo, como preço pelo excessivo endividamento do governo. Seu cargo de assessor técnico agropecuário, que complementava sua renda de pequeno empresário, fora aos ares. O novo governador exonerara todos os cargos comissionados, numa canetada, naquele primeiro dia de trabalho da nova administração. Novos parâmetros seriam traçados. Mas, até haver ou não nova contratação, a inquietude permaneceria. Quem pagaria as contas acumuladas por conta daquele salário?

 

- Caro Bilacão, não tenho muito que comentar, senão a velha rotina de sempre.



 

Bilac intuíra certos dramas emanados dos olhares inquietos de Bené. Tal percepção da alma do companheiro animou-o a continuar contando suas agruras, aprofundando a análise dos seus tormentos psicológicos.

 

- Bené, o ciúme....



 

Paulo Bilac de Sousa, de uma família de nobres paulistas, herdeiro dos imperadores do café, que gerou renda para a industrialização brasileira ao longo do século XX, tivera uma vida agitada no plano emocional, desde que chegara a Brasília nos anos 70 do século passado, no rastro do sonho de JK, para se formar em Arquitetura, na UnB. Convivera com seis mulheres, não se firmara, duradouramente, com nenhuma. Todas as separações tiveram como causa básica seu mortífero ciúme. Um a um, demoliram-se todos os seus amores, todos os seus sonhos. Sobraram desilusões e filhos que jamais conseguiu criar. Sua insegurança emocional levou as mulheres a fugirem dele, apesar de amarem-no. Todas se renderam ao seu charme de sofredor, cuja lábia temperava sua sedução. Corria a propaganda de que era bom de cama. Possuía natureza pura, regada pela honestidade e caráter limpo.

 

- O ciúme, Bené, é horrível. Vêm umas imagens que assaltam a gente. Você imagina coisas. Essas coisas ganham vida. Tudo fica agitando na sua cabeça. Criamos versões abstratas que dominam nosso imaginário e que ganham peso psicológico que nos esmagam. Desconfio... Minha mulher atual é ótima, cuida bem de mim, mas... Num sei... Pô, o ciúme corrói minha alma, sinceramente.



 

Elisa, sexta mulher de Bilac, correspondia às expectativas dele. Mantinha-se atenta à medicação do companheiro, a sua alimentação, aos seus achaques. Sugeria que fosse caminhar depois de levantar. Pregava insistentemente ânimo para aquele pobre ser derrotado, que renunciara à própria essência natural do homem: o movimento. Tentava curar aquela tragédia psicológica ministrando doses de amor e paciência. Que seria dele se não fosse ela? Ainda assim, Bilacão ardia de ciúme. O apartamento onde moravam ficava perto de lojas comerciais, oficinas mecânicas, restaurantes, bancos, corretoras de seguro, hotéis de alta rotatividade etc. Bilac, diante de sua mulher, mais nova quinze anos que ele, via-a assediada, ininterruptamente, pelos marmanjos, atraídos pela arquitetura daquele corpo, embora já gasto, porém, bem feito, de curvas nostálgicas que denunciavam uma bela mulher de outrora. Não dormia. Desesperava-se, principalmente, porque os remédios deixaram-no impotente. Quem estaria matando a sede sexual daquela sedução explícita, um vulcão paciente?

 

Já eram quase três da tarde. Benedito tinha que voltar para a Secretaria. Queria viver aquelas emoções dos funcionários que haviam sido desonerados. Dominava-lhe o espírito de solidariedade. Levantou da cadeira. Imediatamente, seguiu-o Bilac, que se dispôs a ir junto do amigo até o carro. Caminharam uns cem metros sem trocar palavras. Um carro, acelerado na curva da esquina, fê-los apressarem o passo.



 

- Porra, quase nos fudemos, brincou Bené, com aquele sorriso que, raramente, mostrava os dentes.

 

Os olhos de Bilac estavam marejados. Sentira-se uma nova onda de calor depois do papo com Benedito.



 

- Bilac anota meu telefone, não esqueça de me ligar, ok? Vamos continuar batendo papo. Foi um prazer te ver depois de tanto tempo.

 

Timidamente Bilac, para encerrar a conversa, enfiou a mão no bolso e tirou um papel amassado. Passou ao amigo como se oferecesse presente, acertadamente, precioso:



 

"A vida é uma tragédia para quem sente, mas uma comédia para quem pensa".

 

Disse achar que a frase era de Shakespeare. Na verdade é de Jean de la Bruyere(1645-1696), ensaísta da corrente intelectual dos moralistas franceses do século XVII, conforme checou Bené no Google, assim que chegou em casa.



 

Vera, mulher de Benedito, amiga íntima de Letícia, certamente - pensou Bené - ficaria vivamente interessada sobre as últimas informações do ex-amante de sua eterna companheira de infância. 



 

À moda de Scott Fitzgerald, Bené, o assessor exonerado da Secretaria de Agricultura, deixara, durante a conversa com Bilac,  flutuar a sensação de relativa desatenção ao relato do amigo, psicologicamente, destroçado. Atenção demasiada naquele instante, mentalizou, poderia estimular a fuga daquele espírito atormentado que resolvera sair da toca do seu sofrimento para expor suas feridas excessivamente massacradas.


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