Cidadania: oficinas



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ENTRE A CLÍNICA, A ARTE E A CIDADANIA: OFICINAS COM A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA EM CAMPINAS

Cathana Freitas de Oliveira – UNICAMP/BR; Henrique Sater de Andrade – UNICAMP/BR; Luana Marçon Botteon – UNICAMP/BR; Nicole Guimarães Codorne –Rede de Saúde Mental de Campinas/BR; Sérgio Resende Carvalho – UNICAMP/BR



RESUMO

O cuidado à População em Situação de Rua (PSR) é um desafio e prioridade para a construção de políticas públicas de saúde e cidadania. Nas políticas governamentais brasileiras, a PSR é compreendida como um grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, que tem extrema dificuldade em produção de vínculos e permanência na rede de cuidados entre saúde e assistência social. Assim, desenvolvemos este projeto com foco em oficinas musicais semanais no espaço da rua; oficinas teatrais semanais com PSR no espaço de um Centro de Atenção Psicossocial e futuras oficinas com uso de fotografia e produção de arte de rua. A parceria UNICAMP e Consultório na Rua do Município de Campinas visa ampliar condições de aproximação e vínculo com estes sujeitos com vistas a produção de autonomia e cidadania, bem como, formar redes ensino-serviço fortalecidas para ampliar fronteiras do ensino acadêmico.



INTRODUÇÃO A QUESTÃO:

No Brasil, a PSR, do ponto de vista formal, tem acesso gratuito e universal aos serviços do Sistema Público de Saúde (SUS) que conta com uma ampla rede de serviços terciários, secundários e primários. No entanto, devido a diversos e complexos fatores – preconceitos, discriminação, dificuldade de dialogar com os diferentes por parte dos serviços, limites teóricos e tecnológicos da Clínica e da Saúde Pública – se constata uma insuficiência de respostas adequadas a estas necessidades.

Na prática, apesar da legislação infraconstitucional, estas populações carecem de dispositivos que lhe garantam a efetivação de princípios e diretrizes do SUS, como aqueles que fazem menção ao acesso universal e à equidade na atenção, uma vez que muitas são as barreiras e dificuldades dos serviços em produzir um cuidado que atenda à complexidade e singularidades que constituem os territórios de vida da PSR. Isto ocorre pelo modo que os serviços de saúde operam o cuidado nestes espaços ‘marginais’, sem levar em consideração, muitas vezes, a riqueza existencial e os saberes que habitam a rua.

A população em situação de rua pode ser descrita como um “grupo populacional heterogêneo constituído por pessoas que possuem em comum a garantia da sobrevivência por meio de atividades produtivas desenvolvidas nas ruas, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados, e a não referência de moradia regular” (Brasil, 2009) . A Pesquisa Nacional da População em Situação de Rua ( MDS, 2008) contabilizou 1027 pessoas em situação de rua no município de Campinas. Este censo revelou também que a população brasileira em situação de rua era predominantemente masculina (82%), mais da metade (53%) possuía entre 25 e 44 anos, aproximadamente 69% se declararam afrodescendentes (29,5% se declararam pretas e pardas) e que a maioria (52,6%) recebia entre R$ 20,00 e R$ 80,00 semanais.

Os principais motivos pelos quais estas pessoas passaram a viver e morar na rua se referiam aos problemas de alcoolismo e/ou drogas (35,5%); desemprego (29,8%); e desavenças com pai/mãe/irmãos (29,1%), com vários desses motivos inter-relacionados. É comum associar a situação de pobreza e vulnerabilidade social que este grupo social enfrenta a perda completa da capacidade de produzir experiências múltiplas de vida. No entanto, destacamos que nossa experiência de atuação junto à população em situação de rua de Campinas vem mostrando que, mesmo nesse contexto desafiador e opressivo, essa população possui diferentes histórias de vida, capacidades em potencial e é capaz de produzir diferentes formas de expressão, ao contrário do retrato comum que se estabelece, em especial na imprensa, de que se tratam de pessoas que não tem opção ou desejo algum.

O cuidado à PSR exige pensarmos alternativas à clínica individual e hospitalar. Nesse sentido, o campo da Saúde Coletiva vem desenvolvendo ferramentas clínicas que consideram o sujeito em suas singularidades, como a Clínica Ampliada (Campos, 2008) e que incluam o território existencial dos pacientes no cuidado, como a Clínica Peripatética de Lancetti (2008). Uma qualificação da clínica que caminha ao lado da necessidade, não menos importante, de reinvenção de saberes e práticas de gestão que se paute pelas experiências e relações cotidianas – marcadas pela imprevisibilidade dos territórios de vida singulares dos ‘moradores’ de rua. Não se trata de negar os saberes técnicos, mas valoriza-los mostrando sensibilidade às distintas dinâmicas territoriais que se apresentam. Este processo desafia os trabalhadores da saúde a colocar entre parênteses o que sabem a priori, abrindo-se e deixando-se afetar pelo desconhecido e pelas provocações do território da rua pelo qual são convocados.

Nesses processos, cada encontro é inusitado e inclui o imprevisto, podendo proporcionar aprendizagens e ampliação das relações afetivas, ressignificações do processo de autocuidado e de saúde e produção de linhas de fuga de uma clínica universal e normatizadora. Uma clínica que acolha e potencialize singularidades e que afirme a cidadania e o direito à vida. E é nesta perspectiva que o desenvolvimento de oficinas grupais se inserem como produtoras de vínculos e ações em serviços extra-hospitalares, passando pela função de socialização, expressão e inserção social e obtendo o alcance de um cuidado em liberdade, autonomização dos sujeitos e produção de alternativas dentro de uma sociedade eminentemente individualizadora, meritocrática e excludente das diferenças.

Trata-se, então, de um projeto interdisciplinar, com envolvimento de docentes, pesquisadores, trabalhadores da área da saúde e comunidade, que atua em um território de vulnerabilidade e com uma população que exige uma gama de iniciativas públicas e sociais para seu bem-estar. Utiliza-se de uma metodologia dialógica e traz à tona a necessidade permanente de reflexão sobre produzir saúde em interação com o meio de vida dos sujeitos, pensando dispositivos e ferramentas alternativas e criativas.

O grupo de Pesquisa e Extensão Conexões: Políticas de Subjetividade e Saúde Coletiva e/ou seus membros na condição de professores, pós graduandos e alunos de graduação desenvolvendo projetos de iniciação cientifica vem desde 2013 participando diretamente de atividades da equipe do Consultório na Rua de Campinas, dispositivo de saúde vinculado à Atenção Básica do Município de Campinas que atende a População em Situação de Rua. Participamos das atividades de atendimento e reuniões de equipe, realizamos atividades de integração ensino-serviço em disciplinas de graduação do curso de Medicina e Fonoaudiologia da FCM-UNICAMP. Assim,o presente projeto é um desdobramento dessa parceria e a possibilidade de desenvolvermos atividades extra-disciplinares junto à população e em parceria com essa equipe.

Nesta etapa do projeto da parceria os integrantes da equipe multidisciplinar do Consultório na Rua: discentes da Pós-Graduação em Saúde Coletiva, alunos de graduação dos cursos de área da Saúde da Unicamp e PUC Campinas (em especial, do curso de Medicina, enfermagem e psicologia) e de cursos como Artes Cênicas do Instituto de Artes da UNICAMP. Foi desse contato em rodas de conversa com os moradores de rua que surgiram as propostas aqui apresentadas. Esse tipo de postura metodológica que coloca o sentido das atividades propostas na própria construção e diálogo com os sujeitos envolvidos diferencia-se de uma concepção de planejamento prévio e de compreensão das necessidades da população.


NOSSO OBJETIVOS INICIAIS

O objetivo geral do projeto tem foco na produção de experiências de cuidado a PSR, refletindo sobre sua produção de subjetividade e de autocuidado. Para isso, buscamos repensar as formas tradicionais de cuidado a usuários em situação de rua e a formulação de políticas públicas de saúde imprescindíveis a essa população. Dentre diferentes tipos de oficinas, elencamos neste projeto tanto oficinas artísticas quanto rodas de conversa temáticas com usuários.

Além deste objetivo principal, apostamos no desenvolvimento de 4 seminários acadêmicos sobre os temas prioritários do projeto, com vistas a envolver docentes e discentes de diferentes cursos de graduação da área das ciências da saúde, ciências humanas e arte. Os seminários são abertos a toda universidade e sua organização e composição conta com a participação ativa de usuários, trabalhadores e extensionistas nas falas e intervenções artísticas elaboradas.

Ofertar oficinas de formação em fotografia, produção áudio-visual e produção de fanzines para discentes e trabalhadores que desejem utilizar este meio como registro de pesquisa e multiplicação da ação para as PSR. Acreditamos que a interface de produção/exibição destes materiais em blogs públicos, trabalhos acadêmicos e produções potencialmente de rua são, mais do que registros, tornam-se possibilidade de produção de visibilidade às PSR e suas necessidades e potencialidades.



METODOLOGIAS PARA PRODUÇÃO DE AFETAÇÕES E INFORMAÇÕES

No interior das investigações qualitativas, optamos por explorar as possibilidades abertas pelas perspectivas pós-estruturalistas, que no Brasil, segundo alguns autores incluem a investigação cartográfica (FERIGATO E CARVALHO, 2011). Esta abordagem trabalha com uma noção de sujeito substancialmente diferente das vertentes positivistas e crítico-sociais, ao negar a universalidade e caráter identitário desta categoria, considerando que o sujeito é, antes de tudo, um produto contingente de diagramas de força e de produção de subjetividades que o atravessam (FOUCAULT, 2004).

Iremos trabalhar com a própria cartografia enquanto uma proposta que pensa em uma história no sentido foucaultiano, percebendo de que maneira a realidade nos cerca e nos delimita, formando uma subjetividade e permitindo a percepção da formação e reformulação das identidades.

“A cartografia foi formulada por G Deleuze e F. Guattari (1995) e visa acompanhar um processo, e não representar um objeto. Em linhas gerais, trata-se sempre de investigar um processo de produção. De saída a idéia de desenvolver o método cartográfico para utilização em pesquisas de campo no estudo da subjetividade se afasta do objetivo de definir um conjunto de regras abstratas para serem aplicadas. Não se busca estabelecer um caminho linear para atingir um fim. A cartografia é sempre um método ad hoc (para isso, para esse caso). Todavia, sua construção caso a caso não impede que se procure estabelecer algumas pistas que têm em vista descrever, discutir e sobretudo, coletivizar a experiência do cartógrafo” (KASTRUP, 2007. p. 15).

Um componente essencial a este momento da pesquisa cartográfica é dado pelo processo de redação, leitura, escrita e análise do diário de campo. Em suas vivências de campo, o pesquisador apreende fragmentos de falas, ouve opiniões, observa o contexto, se afeta pelos encontros e tece considerações, produzindo uma narrativa inicial. Posteriormente, deverá submeter este material a uma releitura, fazendo acréscimos a partir de uma reconstrução à distância do vivido ou ao que está sendo pesquisado (AZEVEDO E CARVALHO, 2009).



A Investigação baseada em Arte constitui um gênero da pesquisa qualitativa inserido numa tradição de pesquisa de intervenção crítica que se preocupa com o coletivo onde se realiza a pesquisa. Como uma investigação baseada na ação, toma sua forma através do desenvolvimento da capacidade relacional compartilhada entre os pesquisadores e os participantes da pesquisa, envolvendo dimensões interpessoais, políticas, emocionais, morais e éticas. Seus resultados desvelam o movimento da pesquisa, já que nesta perspectiva os dados obtidos são tão importantes quanto o modo como é realizada e tornada pública a investigação. (Finley, 2005)

Fazendo do método cartográfico uma prática e apostando na potência da investigação baseada em arte, dois formatos de oficinas estão postas em experimentação no atual projeto:



1) Oficinas musicais nos espaços de rua na região central de Campinas - A realização de rodas musicais com os moradores de rua diferencia-se dos momentos tradicionais da clínica, deslocando o cuidado do pólo doença-morte para o da saúde-vida. Ao fazer música, apostamos na expressão construída coletivamente na construção de laços subjetivos e de vínculo. A escolha das canções, a composição de novas músicas, os relatos entre uma canção e outra e a interpretação da voz e dos instrumentos de cada um dos moradores permite falar sobre suas próprias experiências, seus prazeres e sofrimentos e a história de suas vidas.

2) Oficinas de teatro e expressão corporal no Centro de Atenção Psicossocial parapessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas (CAPS AD) – propomos oficinas teatrais realizadas por uma trabalhadora do CAPS AD em conjunto com estudantes do curso de Artes Cênicas da UNICAMP. As oficinas realizam-se através da seguinte dinâmica de funcionamento: iniciam com uma atividade de ativação.

2) Oficinas de teatro e expressão corporal no Centro de Atenção Psicossocial para pessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas (CAPS AD) – Propomosoficinas teatrais realizadas por uma trabalhadora do CAPS ad em conjunto com estudantes do curso de Artes Cênicas da UNICAMP. As oficinas realizampse a través da seguinte dinâmica: iniciam com uma atividade de ativação (andar pelo espaço de diferentes formas e ritmos, jogos com bastãom corda, dança livre, alongamento e aquecimento, entre outros), depois se realiza uma atividade de conexão ou para desenvolvimento de alguma habilidade (jogos de concentração, relaxamento, massagem, exercícios de voz, trabalho de identificação das emoções, expressão corporal, entre outros). Em seguida é proposto um exercício de criação (divisão em grupos para criação de cenas com diferentes temas, utilização de músicas e/ou poesias para criar cenas, continuação de histórias, relatos de vida, entre outros). Por fim, há um momento para que cada participante comente sobre suas percepções e sensações da oficina naquele dia. Como base metodológica utilizamos o teatro do oprimido de Augusto Boal, que é uma proposya voltada para o estabelecimento de atuação, debate reflexão e transformação dos indivíduos por meio de cenas e jogos. Nela, o lúdico e o político se relacionam, construindo possibilidades de aprendizado e exercício de cidadania a partir da participação ativa de todos e da possibilidade de transformação das cenas ao longo do processo. O cerne do teatro do oprimido é trabalhar a partir de jogos e exercícios de criação que falam de opressões vividas pelos participantes.

Haverão também Oficinas de produção de registro e visibilidade da PSR, e pesquisas com uso de metodologias ativas, para isso os participantes do projeto de extensão estão em contato com coletivos de mídia alternativa que também nos ajude a proporcionar rupturas na forma como a PSR é apresentada, com a finalidade de qualificar o registro audiovisual e relatos das atividades, realizando exposição das atividades junto com os próprios moradores de rua. Elaborar um banco de informações quanto às intervenções e inovações utilizadas nas ações de rua para produção da pesquisa acadêmica, a partir da elaboração de documentos colaborativos. Leitura e produção escrita em seminários mensais sobre pesquisa, arte e clínica. Estes materiais permitem ao grupo o desenvolvimento de práticas e reflexões nessa interface entre a clínica, a arte e a cidadania, produzindo modos mais criativos e acolhedores de pensar o cuidado em saúde

Outras oficinas podem surgir no percurso, a partir das rodas de conversa com os próprios moradores e a avaliação das atividades desenvolvidas. O maior obstáculo na realização do presente projeto é a dificuldade de longitudinalidade do processo, pela característica da população em situação de rua, que não estará presente em todos os momentos propostos. Pensamos que enfrentar esse desafio é justamente o cerne do projeto: a construção de vínculos no cuidado.

DESENVOLVIMENTO

As oficinas, que já acontecem no serviço, a partir da participação também de agentes pesquisadores vem tornando possível a produção de registros quanto aos momentos de expressão coletiva e autocuidado. A escolha e a execução das canções permitem falar sobre suas próprias experiências, seus prazeres e sofrimentos e a história de suas vidas. O uso do corpo, a participação ativa dos sujeitos envolvidos no processo e o uso de diferentes recursos artísticos (desenhos, figurinos, dramatizações) vem produzindo práticas clínicas de redução de danos e novos sentidos ao processo saúde-doença dos participantes envolvidos.

A busca de um expressivo número de discentes e a forma de parceria entre academia – trabalhadores – comunidade expressam que estas experiências, embora iniciais no formato do atual projeto, tem dado subsídio para repensar as políticas públicas de saúde imprescindíveis a essa população e a produzir reflexões sobre a formação comprometida social e eticamente, prevista nas Diretrizes Curriculares Nacionais, nos cursos da área da Saúde da FCM-UNICAMP.

A possibilidade de apoiar e participar das oficinas artísticas-terapêuticas tem como potencialidades a reconstrução de laços afetivos e subjetivos de uma população historicamente marginalizada e a criação de vínculo com diferentes dispositivos de saúde. Numa perspectiva mais global, podemos ter o fortalecimento de iniciativas que tenham como foco a construção de cidadania e de cuidado à PSR e a apresentação da temática do cuidado a essa população para os cursos de graduação da área da Saúde da UNICAMP. Tanto membros do Grupo Conexões quanto profissionais do Consultório na Rua e CAPS AD coordenam as oficinas, tocando instrumentos e organizando as rodas, colocando-se em cena na produção teatral do improviso.

A proposição de jogos teatrais e de expressão corporal propicia para os sujeitos a experimentação de novas possibilidades de criação, expressão, produção de vida, convivência, inserção na rede social, acesso a bens culturais, criação de sentido, exercício da ptência de ação, discussão de diferentes temas, entre outros. Utilizando bases do teatro do Oprimido torna-se possível a exploração de temas sociais comuns a todos os participantes, indicando as formas comuns de perceber e intervir nas situações de opressão vivenciadas.

O desenvolvimento de oficinas teatrais em conjunto com estudantes do curso de Artes Cênicas da UNICAMP, tem como objetivo trabalhar com ferramentas de arte e cultura no campo da saúde, entendendo que o trabalho clínico deve considerara o contexto histórico-social e político em que as pessoas estão inseridas e ter foco no aumento da autonomia. Dessa forma, torna-se possível ampliar as possibilidades dos participantes da oficina, como sujeitos de sua própria história, interferir na qualidade de suas vidas a partir do seu fazer.

As atividades culturais e artísticas são importantes instrumentos de valorização da expressão, de descoberta e ampliação de possibilidades individuais e de diferentes possibilidades de ser, conviver e de acessos aos bens culturais. Essas atividades podem “possibilitar a cada um a descoberta de uma forma própria de construir sua ação no mundo” (LIMA, 2004, p. 47).Registraremos com recursos audiovisuais as atividades.

A construção do projeto depende da participação da população em situação de rua e da articulação em rede com diferentes dispositivos da Saúde e da Assistência Social do município de Campinas. Trata-se de um projeto que atravessa diferentes níveis de atenção na Área da Saúde e coloca a UNICAMP como participante de uma rede de atores envolvidos no desafio de pensar as políticas públicas para a PSR. Infelizmente, a produção acadêmica sobre a PSR ainda é muito aquém do necessário, trazer à tona esse debate para o interior dos cursos da área da saúde da FCM-UNICAMP e inserir profissionais e estudantes no cuidado e na rede de Saúde do município de Campinas ajuda a tornar a relação universidade- sociedade mais sólida e inventiva.

Este projeto ainda não aponta conclusões, pois está em período de desenvolvimento da ações a partir das novas integrações pesquisa-extensão-rua e encontra-se em sua fase de desenvolvimento e produção de dados a partir dos registros em diários de campo individuais e coletivos. De todo modo, vem produzindo encontros de produção de cuidado e de aprendizados múltiplos, ampliando as relações afetivas e traçando linhas de fuga de uma clínica universal e normatizadora. Realizar oficinas com usuários do SUS em situação de rua é uma afirmação de cidadania e do direito à vida de uma população historicamente marginalizada.

O QUE ESPERAMOS COM ESTE PROJETO

Este projeto destina-se a criar novos interesses em todos os envolvidos direcionando a produzir experiências coletivas de cuidado e inovação em pesquisas e extensão comunitária no autocuidado junto à População em Situação de Rua. O desenvolvimento da cartografia e uso da arte na pesquisa buscam deslocar o cuidado do polo doença-morte para o da saúde-vida. Utilizar diferentes instrumentos musicais e ritmos, realizar momentos escritos e falados para a organização do repertório e criar momentos de compartilhar histórias relacionadas às músicas, resgatando laços afetivos e construindo possibilidades de produzir saúde a partir da própria música.

A realização das oficinas musicais tem como expectativa produzir momentos singulares na produção de cuidado da PSR no centro de Campinas. Ao fazer música, apostamos na expressão construída coletivamente na construção de laços subjetivos e de vínculo. A música, para além da expressão artística, constitui-se como um dispositivo de cuidado e de produção afetiva. A própria experiência de compartilhar uma roda musical e trocar experiências também pode contribuir para a formação de profissionais de saúde e para repensar nossas práticas clínicas e nossas formas de enxergar o processo saúde-doença.

Nas oficinas de teatro, salientamos a possibilidade de redescoberta do corpo, a participação ativa dos sujeitos envolvidos no processo e o uso de diferentes recursos artísticos (desenhos, figurinos, dramatizações) tem como expectativa produzir significados singulares ao processo saúde-doença dos participantes envolvidos. O trabalho interdisciplinar entre estudantes da área da saúde, das artes cênicas e de uma equipe de saúde vinculada à Atenção Básica pode produzir reflexões instigantes sobre o processo de cuidado e a formulação de políticas públicas na atenção à saúde da PSR.

Dar visibilidade à questão da PSR é uma das tarefas mais importantes na formulação de práticas e políticas referente ao cuidado dessa população. É fundamental desmistificar ideias comuns sobre essa população e ressaltar a dimensão humana e viva desse grupo social. Além disso, como parte integrante de um projeto de Extensão Comunitária e pautado no diálogo e na troca, fazer uma devolutiva aos próprios participantes das oficinas e compartilhar as experiências produzidas durante as atividades será um passo fundamental para reforçar o vínculo e o processo de cuidado envolvido no projeto.

Assim, qualificaremos o registro audiovisual de parte das atividades desenvolvidas, com material que o grupo Conexões já possui juntando apoio de outros coletivos de mídia livre para produção de visibilidade do tema e das histórias que devem produzir a transformação na rua, na universidade e nos serviços envolvidos. Com o registro, pretendemos realizar uma exposição fotográfica, a construção de vídeos e relatos de experiência das atividades desenvolvidas com os próprios moradores e com a sociedade, tanto com outros profissionais e equipes de saúde, como com grupos interessados na construção de política pública de saúde.

Parte importante deste projeto tem aberto diálogo quanto a reflexão sobre a gestão e o agir sobre as políticas públicas de saúde, incluindo a População em Situação de Rua, apontando novas formas de desenvolvimento de uma formação comprometida social e eticamente, prevista nas Diretrizes Curriculares Nacionais, nos cursos da área da Saúde da FCM- UNICAMP e abrir espaço na rede de cuidados para que mais serviços possam fazer uso das ferramentas de trabalho aqui experimentadas.

O projeto vem contribuindo diretamente para nossas pesquisas no campo da Saúde Coletiva, investigando práticas sociais e de saúde que evidenciam a produção de políticas de saúde para a PSR, com teses de doutorado e dissertações de mestrado com a temática e artigos científicos no campo. Além disso, há projetos de mestrado e doutorado na Pós-Graduação em Saúde Coletiva em andamento com a temática. A própria realização das oficinas, as experiências musicais e os temas desenvolvidos nas oficinas teatrais servirão de subsídio para os seminários mensais do nosso grupo de pesquisa e os projetos de investigação em desenvolvimento.

Ainda que esta se apresente como uma experiência local, o compartilhamento e reflexão pública sobre as atividades desenvolvidas pode contribuir no debate acadêmico e na formulação de políticas públicas à PSR. Além disso, pode inserir-se nos cursos da área da saúde da FCM-UNICAMP, com uma temática que vem aos poucos sendo introduzida nas salas de aula e nos campos de estágio dos modelos curriculares da universidade.

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO BM de S, CARVALHO SR. O diário de campo como ferramenta e dispositivo para o ensino, a gestão e a pesquisa. Em: CARVALHO, S. BARROS, M. E, FERIGATO, S. Conexões: saúde coletiva e políticas da subjetividade. São Paulo: Aderaldo & Rothschild, 2009.


BRASIL, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome. Rua: aprendendo a contar: Pesquisa Nacional sobre População em Situação de Rua. Brasília, DF: Secretaria de Avaliação e gestão da Informação. Secretaria Nacional de Assistência Social, 2009.

Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional para a população em situação de rua. Brasília, 2009.



FERIGATO, SH, Carvalho R. Pesquisa qualitativa, cartografia e saúde: Interface – Comum. Saúde, Educ. 2011;15(38):663–75
FINLEY, S. Arts-Based Inquiry: Performing Revolutionary Pedagogy. In: DENZIN, N. K; LINCOLN, Y. S.
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