Centro espírita nosso lar



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CENTRO ESPÍRITA NOSSO LAR
GRUPO DE ESTUDO DAS OBRAS DE ANDRÉ LUIZ E
MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA
9o livro: Tramas do Destino – 1975 - 6 reuniões
1a. reunião
(Fonte: Prefácio e capítulos 1 a 5.)
1. Tramas do destino - Em seu prefácio, Manoel Philomeno de Miranda afirma ser muito difícil compreender do ponto de vista da unicidade das existências as tramas do destino. Uma única existência não fornece os dados indispensáveis para se compreender a justiça divina e ex­plicá-la. "As conceituações da predestinação pela graça, das con­cessões pelo ingresso no paraíso e das punições infernais encontram-se ultrapassadas, mesmo no seio de algumas das religiões que as prescre­viam", assevera o autor desta obra. Por outro lado, negar Deus e rele­gar a vida ao caos, isto não é suficiente para explicar os porquês in­teligentes que a todos assomam e dominam, diante das incontáveis aqui­sições do espírito humano, aturdido em face das inquestionáveis provas da sobrevivência do ser e da comunicabilidade do princípio intelectual depois do túmulo. A Parapsicologia, a Psicobiofísica e outras ciências experimentais equivalentes tentam colocar no lugar do Espírito, com que não se defrontam nos seus laboratórios, sucedâneos materialistas e energeticistas, sem o êxito esperado, porquanto esses agentes se esbo­roam, quando colocados diante de novos fatos que espocam, incessantes. A temerária reação contra o Espírito vai sendo, pois, vencida lenta­mente, embora parapsicólogos e psicobiofísicos, com algumas exceções, mantenham intolerantes posições de anátema contra a fé e asseverem que ainda não possuem provas concludentes, definitivas, da sobrevivência do Espírito ao túmulo, nem documentação alguma que consiga provar a existência da alma. A imortalidade, contudo, triunfa sobre os seus ne­gadores. Os homens interexistentes, os homens psi multiplicam-se e os fenômenos de que são objeto impõem urgente reconsideração nas idéias e opiniões preconceituosas. (Prefácio, págs. 11 e 12)
2. A lei de ação e reação - As enfermidades da mente sucedem-se, avas­saladoras, na razão direta em que os métodos psiquiátricos, psica­nalíticos e psicológicos se aprimoram, incapazes de deter a grande avalancha dos distônicos, dos esquizóides, dos neuróticos e dos psicó­ticos. O homem cético, saturado de tecnicismo, acaba arrojando-se na busca de emoções fortes e ressuscita cultos demoníacos, missas negras, sabats, ansioso pelo sobrenatural e pelo fantástico. "As orgias de sangue, sexo e droga -- assevera o prefaciador -- fazem-no recuar às origens do primitivismo, revelando a falência das conquistas extrínse­cas e o malogro da ética dissociada das aspirações legítimas, tornada passadista..." E' que as soluções superficiais e apressadas não re­solvem as questões complexas de profundidade, atenuando na superfície os efeitos, sem remover, contudo, nas causas as legítimas raízes em que se fixam os males contínuos. O homem hodierno se encontra aturdido e somam-se a essas inquietações as parasitoses espirituais, que os acadêmicos insistem em ignorar. Nas células espíritas, contudo, onde vibram as harmonias do Consolador prometido por Jesus, reaparece a te­rapêutica do Evangelho, através de técnicas especiais com que se li­bertam perseguidos e perseguidores, facultando-se-lhes a saúde íntima e a paz. Nas tarefas nobres da desobsessão, dois mundos em litígio se defrontam: o espiritual e o físico, de cujos painéis se pode apreen­der, nas causas reais, a lógica dos efeitos que engendram as tramas dos destinos. O conhecimento da reencarnação permite formar o quadro esclarecedor, para se entenderem as ocorrências que escapam, aparente­mente misteriosas, muitas vezes inexplicáveis. O homem, com efeito, não experimenta uma só e única vida terrestre. A Terra é seu berço e sua escola, onde, evoluindo, demanda mais altas aquisições espiri­tuais. "Suas experiências exitosas ou malsucedidas -- afirma Philomeno -- produzem a engrenagem em que se movimentar  no futuro". "A cada ação corresponde uma reação equivalente." A morte nada mais é do que uma transferência de posição vibratória; por isso, a vida mantém sua interação e harmonia nas diversas situações do corpo físico e fora dele, sem qualquer solução de continuidade ou defasagem perturbante. (Prefácio, págs. 12 a 14)
3. As raízes dos nossos mais graves problemas - Philomeno assevera que muitos dos problemas graves que a Medicina depara a cada momento têm suas raízes no pretérito espiritual do paciente. "Seus erros e suas aquisições fazem-se os agentes da sua paz ou da sua perturbação", en­sina-nos o amigo espiritual. Reencarnando cada qual com a soma das próprias experiências, diferentes serão as situações pessoais, con­forme se observa no mundo. Vinculados a seus desafetos do passado, os homens padecem-lhes as injunções e influências maléficas. A reencarna­ção é, pois, a chave para a explicação dos enigmas que envolvem as auto-obsessões, as obsessões e as subjugações. Ao lado das terapêuti­cas valiosas, que ora vêm sendo aplicadas nos obsessos de vário porte, impõem-se os recursos valiosos e salutares da fluidoterapia e das con­tribuições doutrinárias do Espiritismo, que traz de volta os insuperá­veis métodos evangélicos de que Jesus foi o expoente máximo na Terra. O amor e a prece, o perdão e a caridade, a tolerância e a confiança, a fé e a esperança não são apenas virtudes vinculadas às religiões pas­sadas, mas insubstituíveis valores de higiene mental, de psicoterapia, de laborterapia, indispensáveis à neutralização das ondas crescentes do ódio e da revolta, da vingança e da mágoa, da intolerância e da suspeita, da descrença e da desesperança, que irrompem e se instalam no homem, avassalando a tudo intempestivamente. A Doutrina Espírita dispõe, pois, de valiosos tesouros para a aquisição da felicidade na Terra e na vida post-mortem. Conhecê-la e praticar-lhe os ensinos re­presenta uma oportunidade ditosa para aqueles que aspiram a melhores dias, anelam por paz e laboram pelo bem. (Prefácio, págs. 14 a 16)
4. As "cidades de dor" - Diariamente mergulham na roupagem carnal, com objetivos relevantes, Espíritos felizes que se esquecem dos gozos que podem fruir, objetivando, através do amor, alçarem às Regiões de Ven­tura antigos companheiros que naufragaram nas experiências da evolu­ção. Por outro lado, existem em toda parte províncias de sombra e ago­nia, cujas paisagens ermas e doentias mais envenenam os que ali se de­moram, graças à exteriorização miasmática dos seus pensamentos em de­salinho e das suas personalidades enfermas... Aglutinados em magotes compactos ou formando comunidades infelizes, constituem tais locais verdadeiras "cidades de dor", onde esses seres expungem os gravames que os ferreteiam, sicários uns dos outros. Hebetados uns, enfurecidos outros, constituem estranho e numeroso agrupamento que se movimenta sem direção, padecendo horrores indescritíveis ou produzindo deploráveis dores em si mesmos como no próximo, a que se vinculam ou imantam, conforme as afinidades que os fixam, reciprocamente, em vigorosas sin­tonias obsidentes. À vista desses múltiplos submundos que se multipli­cam terrificantes, quer na Terra, em locais específicos, quer em torno dela, experimentando as mesmas conjunturas da gravitação a que se prende o Planeta, o conceito teológico sobre o Inferno, excluído dele o caráter de eternidade, que não possui, empalidece. Nessas lôbregas sociedades espirituais raramente vigem a piedade e a esperança, e seus chefes se arrogam direitos de justiçar, perseguindo não apenas os que lhes facultam o assédio após a desencarnação, como os homens que lhes experimentam a influência. Na verdade, a vida humana, assinalada pelo desequilíbrio na superfície do mundo, reflete só palidamente as reali­dades que promanam das Esferas Espirituais Inferiores, por serem nes­tas que surgem os fatores reais, modeladores daqueles insucessos. Nes­ses labirintos de pesadelos e horror programam-se incontáveis desgra­ças, individuais ou coletivas, que se abatem sobre a humanidade encar­nada. ("In limine", págs. 17 e 18)
5. A passagem pela carne é fator primordial - O amor vigilante de Nosso Pai compadecido procede, todavia, periodicamente, a expurgos le­nificadores, emigrações em grupo, encaminhando legiões de entidades infelizes à experiência reencarnacionista, com vistas à melhoria deles e à diminuição da psicosfera que os envenena e degenera, perturbando a economia moral da Terra. Com freqüência, em nome desse amor, caravanas de abnegados enfermeiros espirituais e missionários da caridade con­densam suas energias sutis e vão até esses labirintos de alucinação e crime, usando a misericórdia e a solidariedade com que sensibilizam os mais feridos e agonizados, ajudando-os a se renovarem interiormente, propiciando-lhes a modificação vibratória com que se deslocam mental­mente dos martírios que os supliciam, para depois encaminhá-los a ni­nhos de repouso e campos de refazimento, onde se armam de forças para os cometimentos futuros, em que a passagem pela carne, "esse bendito escafandro para a atmosfera terrestre", é fator fundamental. Evidente­mente, trazem eles para os círculos carnais os sinais dos erros, os estigmas de que necessitam liberar-se, bem como as fixações da demên­cia em que se escondem dos sicários, ou as matrizes para oportunas re­alizações, em consórcio obsessivo com que se erguerão moralmente e po­derão também levantar para a felicidade os antigos asseclas, que lhes foram vítimas um dia e agora aparecem travestidos em algozes impeni­tentes... Na verdade, na tecelagem dos destinos humanos, os fios que atam as malhas procedem sempre das vidas transatas. "Nenhum acaso existe regendo ocorrências, nenhuma força fortuita aparece escolhendo a esmo", assevera o autor espiritual. ("In limine", págs. 18 e 19)
6. Amor e conhecimento: essenciais à desobsessão - Em toda obsessão, simples ou subjugadora, a trama dos destinos se situa no passado espi­ritual dos litigantes, em forma de fatores causais. Os atos geram efeitos. Forrar-se de amor e conhecimento, para ajudar com proficiên­cia, tal deve ser a atitude de quem se candidata a esse ministério de terapia providencial que é a desobsessão. Na presente obra, a história que nela se desdobra apresenta uma trama sui generis, em que Artêmis troca uma estância feliz para auxiliar antigos afetos ilhados no de­sespero. Renunciando por longos anos à felicidade, a sua dita são os difíceis sorrisos daqueles aos quais doou toda uma longa existência. Obsessões perniciosas, enfermidades lancinantes, dores morais superla­tivas, nada a abateu, fazendo que mais se lhe desatassem as fibras do amor superior que engastava no seu espírito de escol, para ajudar na redenção difícil e vitoriosa do clã a que se entregou. "A vitória do amor é semelhante à vida: incontestável!", assevera Manoel Philomeno de Miranda. "Não havendo morte, o triunfo do amor eqüivale à glória da verdade em que se apoia como manifestação da Divida Paternidade." ("In limine", págs. 20 e 21)
7. Artêmis e Rafael - Artêmis de Alencar Ferguson aprendera desde cedo que a Divindade a tudo provê, jamais sobrecarregando as criaturas com padecimentos acima de suas forças. Por isso, apesar da dor que se lhe fazia mais profunda à medida que se passavam os anos, ela mantinha os lábios cerrados a qualquer queixa ou reclamação. Nascida numa Fazenda próspera de pequena cidade do interior da Bahia, recebera dos pais, especialmente de sua mãe, Adelaide, as necessárias forças para a re­sistência contra o mal. Ao lado da mãezinha -- nobre Entidade que lhe forjara o caráter na fé cristã austera --, Artêmis adquirira os conhe­cimentos iniciais da alfabetização, logrando desenvolver as faculdades intelectuais, conforme a época, cultivando as letras e conseguindo re­alizar uma bem fundamentada conquista nos bons livros, o que lhe cons­tituiria amparo moral para os cometimentos futuros. De hábitos singe­los, de vida recatada e moderada, apreciava a vida interiorana e tinha predileção pelo coisas do campo. Bem dotada de corpo, de mente e de alma, não se sentia abrasar pelos desequilíbrios da emotividade em desdobramento na quadra juvenil. Com seu temperamento calmo e voz doce, cativava, com sua presença simpática e a ternura natural, os servidores domésticos e os trabalhadores da casa, que lhe disputavam a amizade fraternal. Seu casamento, quando completou 18 anos, fora con­certado pela família, sem qualquer reação negativa de sua parte. Co­nhecera o futuro esposo, Rafael Duarte Ferguson, com 20 anos à época, numa das recepções domésticas em que, conforme os costumes da época, as famílias se aproximavam e as moças casadouras se tornavam conheci­das. Rafael procedia de um clã respeitável e era um moço bem dotado. Preferira a vida na Capital, desde que para ali fora, a fim de cursar o Liceu. Ambicioso, deixou de lado a carreira acadêmica -- real ambi­ção de seu pai -- para, dois anos antes do casamento, dar início à car­reira comercial. (Cap. 1, págs. 23 a 25)
8. Um casamento infeliz - O pai concedeu o aval e o necessário apoio inicial à execução dos desejos do filho, que se tornou viajante comer­cial, graças ao espírito aventureiro de que dava mostras, a par de um caráter forte e relativamente inflexível. Embora gentil e palrador, vez por outra irrompiam-lhe as lembranças inconscientes do passado, ocasião em que falava pouco e se fazia rancoroso, com visível dificul­dade para perdoar as ofensas reais ou imaginárias... Quando viu Artê­mis a primeira vez, anos antes, não experimentara qualquer sensibili­dade. Depois, porém, o reencontro produziu-lhe funda impressão, tor­nando-se um apaixonado. O namoro rápido converteu-se em matrimônio fe­liz um ano depois. Nessa época, contudo, a jovem Artêmis sentiu-se as­saltar com freqüência por tormentosos presságios, em que experimentava impressões angustiantes que lhe camartelavam o espírito sensível. Mais de uma vez a jovem fora acometida de súbitos e estranhos estados de transitória alucinação que, felizmente, não deixaram sinais que pudes­sem preocupar a família. Artêmis passou então a sofrer de perturbadora neurose íntima a lhe prenunciar sofrimentos, cuja causa não lhe era lícito pressupor sequer, mas que superava através da crença em Deus e da oração. Os noivos se amavam, compreendiam-se e respeitavam-se; pa­reciam velhos conhecidos que se reencontravam, estabelecendo liames que, embora interrompidos, não cessavam de sustentar-se, apesar da distância no espaço e no tempo. Na verdade, não era aquela a sua pri­meira experiência afetiva, na programática redentora a que se propu­nham espiritualmente. Transcorridos, porém, os primeiros meses do ca­samento, Rafael passou a exteriorizar os tormentos íntimos que o domi­navam, transformando-se, pouco a pouco, em vigoroso verdugo da esposa submissa que lhe experimentava as injunções, entre frustrações afeti­vas e profundos martírios morais. Rafael tornava-se rancoroso sem qualquer motivo e desconfiado, a ponto de sucumbir em crises de vio­lência e mudez selvagem a que se entregava, ante a reação passiva da esposa aturdida e inditosa. Passados os conflitos, que se amiudavam, parecia recobrar a lucidez, retornando à gentileza e à ternura com que buscava reabilitação, para logo recair nos mesmos dédalos de crueldade e insânia. (Cap. 1, págs. 25 a 27)
9. Encontro com a mãe desencarnada - Obsidiado em si mesmo, avassalado pe­las odientas reminiscências do passado e açulado pelo ódio dos anti­gos cômpares de orgias e de agressividade, Rafael padecia a funesta subjugação transitória, cíclica, em que se arruinava emocionalmente, avançando celeremente para um colapso nervoso. Decepcionada com o ma­trimônio inditoso, Artêmis refugiava-se nos deveres domésticos e na oração. A doce mãe de Jesus era-lhe a sublime confidente. Na prece, adquiria paz e força, bem como a claridade mental para prosseguir no dever, aguardando o transcurso do tempo que lhe reservaria experiên­cias importantes e graves, de cujo teor não lhe era lícito suspei­tar... Na Capital, não possuía o consolo de um amigo ou de um parente devotado. As saudades da casa paterna eram, por isso, grandes. Artê­mis, porém, não se queixava, suportando o fardo dos dissabores sob chuvas de doestos, entre as crises de ira e arrependimento a que se entregava o esposo infeliz. Um ano após o matrimônio desencarnou sua mãe. A notícia chegou-lhe através de lacônico telegrama, sem que ela pudesse ter fruído ao menos o consolo de ver a genitora pela última vez. Esse fato produziu-lhe infinita mágoa moral, de que não mais se refaria. O invisível punhal da angústia cravou-se-lhe n'alma, fazendo-a debulhar-se em lágrimas candentes e inestancáveis. Certa noite, em que supunha não suportar tantas dores e tanta soledade, Artêmis, orando, adormeceu... Viu-se então, repentinamente, diante da genitora desencarnada, em radiosa manhã, num parque em flor, em estância feliz, desconhecida. "Jesus, minha filha -- falou-lhe a querida mãe --, reu­niu-nos, a fim de que eu te pudesse consolar, de modo a saíres do vale da saudade e animar-te a galgares o monte das provações a que te pro­puseste. Não morri. Não morreremos. Refaço-me, depois da travessia pelo corpo denso para a vida espiritual, mas podemos prosseguir jun­tas. Não te entregues a demasiada aflição. O desespero, mesmo na dor justa, é medida de rebeldia ante os impositivos da evolução que proma­nam do Senhor. Asserena-te e confia". Artêmis reclinou a cabeça no re­gaço materno e desatou a chorar. Ela não suportava a decepção no lar e, agora, a ausência da mãe. (Cap. 1, págs. 27 e 28)
10. Família e progresso - A genitora, induzindo-a a desistir da lamen­tação e da queixa desnecessária, que geram azedume e avinagram os sen­timentos, falou-lhe, suave: "Embora os poucos dias em que me separei das sombras físicas, encontro-me informada de todas as tuas agruras... no entanto, desces, sem que o percebas, ao poço de inditoso suicídio indireto, por negar-te o direito da vida, em face das dores que te en­jaulam no sofrimento forte". E prosseguiu: "Serás mãe em breve, e é indispensável que te prepares para o sacerdócio sublime de co-criadora com Nosso Pai, a fim de ensejares a regularização de severos compro­missos com outros Espíritos aos quais te vinculas". Ante a notícia so­bre a maternidade, Artêmis experimentou estranha alegria, recuperando-se, de momento, das aflições e provanças rudes. A genitora advertiu-a, porém, para não sonhar desnecessariamente. A vida nos reserva feli­cidade futura, mas se estrutura em contínuos testes de humildade e pa­ciência. A harmonia íntima constrói-se de renúncia em renúncia, passo a passo. O amor dos filhinhos seria a luz de suas horas, na lâmpada dos seus sacrifícios, mas Rafael estava enfermo da alma e era preciso ajudá-lo com o seu puro e inocente amor. "Não lhe queiras mal, haja o que houver. Compreenderás o porquê, posteriormente", aduziu a nobre senhora, que comentou, na seqüência, a questão das dificuldades do lar: "Sacrifício doméstico é cruz libertadora. Os homens, sedentos de gozos e iludidos em si mesmos, simplificam soluções, separando-se do cônjuge-problema e adiando compromissos-resgates... Transferem reali­zações, tecem complicadas malhas de fugas em que se enredam. Enquanto houver força, deve alguém porfiar no matrimônio sem esperar reciproci­dade". "Vínculos familiares -- acrescentou a entidade -- são opções evolutivas e experiências em que transitamos em forma de parentela carnal, para atingir a pureza na fraternidade espiritual que nos es­pera. Por isso, cônjuges difíceis, ingratos, adúlteros, agressivos, obsessos, ao invés do abandono rápido, puro e simples que mereceriam sofrer, devem-nos inspirar, enfermos que são, misericórdia, tratamento e ajuda..." Era precisamente esse o caso de Rafael, um doente con­fiado à vigilância e afetividade da esposa... A genitora continuou ainda por algum tempo orientando e estimulando a filha e, quando esta despertou, apresentava os sinais balsâmicos da esperança... (Cap. 1, págs. 28 a 30)
11. Nasce o primogênito de Artêmis - O nascimento de Gilberto, pri­meiro filho do casal, trouxe a Rafael desconcertantes emoções. Ao mesmo tempo que sentia entranhado orgulho pela chegada do filho, so­fria diante dele surda animosidade que lhe amargurava o íntimo. Pare­cia conhecê-lo e nutria forte antipatia que lhe assomava à mente, ante o delicado corpo do filhinho, ensejando-lhe, numa que outra oportuni­dade, ganas de trucidá-lo. Desde os primeiros sintomas da gravidez da esposa, Rafael passou da animosidade antiga a mórbido ciúme e asco, menosprezando-lhe a dignidade e os sentimentos nobres. A esposa com­preendia, sofrida, a alucinação que tomava curso no companheiro e ins­tava a que ele buscasse recurso médico ou socorro espiritual. Rafael tornara-se fácil presa das distonias que se agravavam em doloroso pro­cesso de desequilíbrio obsessivo, mas os Benfeitores Espirituais esti­mulavam-no, sugerindo-lhe estreitar o filho recém-nato nos seus braços fortes e protetores, estabelecendo com isso vínculos de afeição que o tempo se encarregaria de condensar e preservar, em clima de elevação. Os dias se sucediam e acentuava-se a instabilidade emocional do chefe da família, cujo retorno, em cada viagem, se convertia em dolorosos instantes de agressividade verbal e moral com que afligia a esposa. No segundo mês de nascimento do menino, Artêmis passou a contar com a co­laboração de Hermelinda, cunhada e amiga, convidada pelo irmão a auxi­liá-la nas injunções novas da maternidade. Hermelinda provinha de Cír­culo Espiritual representativo e participava, desde vidas pregressas, do grupo que agora se religava pelos laços da parentela corporal. Es­pírito nobre, a jovem anelava construir o próprio lar, pressentindo, porém, que não fruiria a ventura de ser mãe da própria carne. Tornou-se, assim, verdadeiro êmulo da cunhada junto ao sobrinho e contribuiu de forma decisiva para a recuperação da saúde materna, então debili­tada e frágil, porquanto a sua presença constituiu, de certo modo, por algum tempo, impedimento à explosão de irascibilidade do irmão, o que logrou mudar sensivelmente a paisagem doméstica. (Cap. 2, págs. 31 a 33)
12. Nasce Lisandra - Dois anos após o primeiro filho, Artêmis volveu à maternidade, recebendo Lisandra, que, ao contrário do menino, produziu no pai profundos sentimentos de amor. A filhinha inundou-o de júbilos, conseguindo uma quase transformação no comportamento que lhe era habi­tual. Rafael experimentou forte atração pela filha, que se lhe vincu­lava por entranhadas conjunturas, porquanto, simultaneamente, ele se debatia em cruéis dúvidas, como se sentisse magoado e traído por aquele ser dependente. Gilberto, o primogênito, possuía o temperamento do pai, introvertido, soturno, atormentado, raramente jovial, disposto a mutismos demorados, com que amargava a própria rebeldia que o tor­nava revel. Lisandra refletia os traços joviais da mãe, bem como sua alegria no passado, antes dos tormentos trazidos pelo matrimônio. Meiga e afável, era ela o encanto do lar; contudo, vez por outra caía em crises de "ausências", que a distanciavam da realidade objetiva. Nesses momentos, olhar parado, fixo em cenas distantes, pálida, com sudorese abundante e fria, vertia lágrimas longas, inexplicáveis. Tais ocorrências eram, porém, de breve duração e não deixavam marcas pro­fundas. Determinado médico receitou-lhe calmantes, alimentação cuida­dosa, sono reparador, conforme a terapia de então. Na verdade, nessas ocasiões, Lisandra era dominada pela presença de clichês mentais gra­vados no inconsciente atual e ali arquivados pelos atos incorretos que os insculpiram na existência anterior, que deveria rever para superá-los, mediante resgate sacrificial. Naquele corpo pequenino e gentil, risonho e róseo, encontrava-se um Espírito endividado, a quem a Jus­tiça Divina facultava sublimação, porquanto é da Lei que todos podem semear o bem como o mal a bel-prazer, onde, como e quando o desejem, mas serão impelidos a colher onde e como semearam, pela compulsória da reabilitação impostergável. (Cap. 2, págs. 33 a 35)
13. A doença de Lisandra torna-a triste - A família de Artêmis ajus­tava-se aos programas afetivos, em prol da própria redenção. Lisandra podia ser comparada a um anjo bom em relação ao pai, que não conseguia dissimular a preferência pela filha, embora o garoto não lhe causasse nenhuma repulsa consciente. A menina demonstrava sentimentos antagôni­cos em relação ao pai; afável e carinhosa em algumas ocasiões, noutras vezes parecia temê-lo. Durante as "ausências", que se amiudavam, dimi­nuíam, com o passar do tempo, as suas resistências, e ela passou toda a infância padecendo as estranhas constrições da enfermidade insanável. Acometida de pesadelos apavorantes, despertava com expressões tí­picas do autismo, alheada, só volvendo à lucidez após ingentes esfor­ços dos genitores aflitos. Por causa disso, a jovem experimentou sen­síveis modificações, tornando-se triste, quando não facilmente irritá­vel, denotando agravamento paulatino do mal que lhe minava a organiza­ção física e mental. O genitor, em suas longas viagens, curtia difí­ceis angústias que lhe afetavam o temperamento, suscetível à irritação constante, a par da agressividade contínua. Embora não fosse um homem culto, conhecia alguma coisa sobre as questões ligadas à libido, em que se sustentam os pilotis das célebres investigações do pai da Psi­canálise. Já  ouvira falar acerca dos complexos de Édipo e de Electra, atormentando-se ante a idéia infeliz de que sua preferência pela filha fosse de natureza incestuosa. Apesar de suas debilidades, mantinha-se ele em estritas linhas de conduta moral e honradez sexual; sabia, por­tanto, que o sentimento pela filha nada tinha a ver com a teoria freu­diana. Faltava-lhe o conhecimento da pluralidade das existências, para poder compreender o que se passava em seu próprio lar, tal como acon­tecera com o próprio Freud, com Adler e Jung. (Cap. 3, págs. 37 e 38)
14. Esquizofrenia - Não era atração de ordem física que imanava Rafael e Lisandra, mas a incoercível força procedente do passado espiritual de ambos. Apesar das tensões derivadas da preocupação com a saúde da filha, ele fez-se mais sociável e gentil com a esposa, no que colabo­rou também sua irmã Hermelinda, por quem nutria imenso respeito. Gil­berto, o primogênito, vivia num mundo à parte. Sisudo, não detestava a irmã, nem a amava; mas se apiedava dela quando a via cair nos demora­dos vagados ou durante as crises noturnas dolorosas. Com o tempo, tor­nou-se quase indiferente ao drama doméstico. Muitas pessoas aconselha­ram os Ferguson a procurarem a ajuda do Espiritismo para o tratamento da filha. O preconceito religioso não permitiu, porém, que eles o fi­zessem. Com a adolescência, Lisandra começou a apresentar sinais pe­riódicos que se assemelhavam à hebefrenia clássica, que já  se expres­savam como cargas obsessivas de grave teor espiritual, perturbante. (N.R.: hebefrenia é uma variedade de esquizofrenia que se observa, em geral, nos adolescentes.) Ela tornara-se distante da realidade, com péssimo aproveitamento no Liceu, embora se esforçasse por aprender e fosse pontual às aulas. Os pais não acreditavam pudesse a filha con­cluir o curso, mas anelavam prepará-la melhor culturalmente para en­frentar o futuro. (Cap. 3, págs. 39 e 40)
15. A lepra - Por essa mesma ocasião, o chefe do lar foi vitimado por uma série de problemas orgânicos, que muito afligiram seus familiares. Em plena convalescença, deu-se conta de constantes cãibras nas mãos e nos pés, e passou a experimentar, periodicamente, sensações de perda do tato. Surgiram então algumas despigmentações cutâneas que o leva­ram, apreensivo, a conhecido dermatologista, que não titubeou no pronto diagnóstico. Rafael era portador do "mal de Hansen", em grave fase de desenvolvimento, ameaçando a família e a comunidade em que circulava. O especialista, conforme praxe na época, foi peremptório, encaminhando o enfermo, sem de nada o informar, ao Serviço de Lepra, com indicação expressa de internação pura e simples. Chegavam assim as excruciantes aflições que desabariam por longos anos sobre os Fergu­son... Rafael nada sabia, mas, por intuição, antes de rumar ao consul­tório indicado, dirigiu-se ao lar. Experimentava profunda sensação de aniquilamento... Em silêncio, opresso, adentrou-se no lar e procurou fixar n'alma, indelevelmente, todas as cenas, que lhe seriam as remi­niscências futuras. Não teve coragem de oscular os familiares. Algo lhe dizia ser aquela uma despedida que o levaria à loucura surda e in­suportável. A esposa percebeu seu semblante marcado pela dor e inter­rogou-o preocupada. Naquele momento, ele deu-se conta de quanto a amava e desejou suplicar-lhe perdão e ajuda. Sopitou, porém, a vontade e dirigiu-se à clínica a que fora encaminhado. Sentia-se avançando para o matadouro. O médico usou de sinceridade absoluta: "Não há  dú­vida, o senhor é portador do mal de Hansen, de lepra, como é vulgar­mente conhecida a enfermidade. Não se fazem, sequer, necessários os exames para a confirmação do diagnóstico... Estes poderão ser provi­denciados após o internamento". A palavra e o diagnóstico desabaram sobre Rafael como o ruir de tudo, esmagando suas forças enfraquecidas. Ele recusava crer no que ouvia, mas o especialista prosseguiu: "Sou obrigado a interná-lo no Sanatório próprio. Sua vida, agora, pertence ao Estado, encarregado de zelar pela população. Não digo que o senhor seja uma ameaça, porém, convenhamos, é um perigo para a coletividade". Depois, dando curso à rude explicação, aconselhou ao enfermo ser de bom alvitre poupar seus familiares ao escândalo de ser levado à força, ou, o que é pior, ao contágio... (Cap. 3, págs. 40 e 41)
16. No Lazareto - Após ouvir a cruel sentença, Rafael, sem conseguir articular a palavra, com a garganta túrgida e a alma em febre, assen­tiu com a cabeça, enquanto as lágrimas desataram-lhe em abundância. Dali mesmo, o enfermo foi transferido para o Lazareto, um casarão semi-abandonado, em que os réprobos do pretérito espiritual culposo ressarciam os débitos, na  áspera posição atual. Antes de despedir-se, informado de que a família seria notificada posteriormente, ele redi­giu com mão trêmula um recado à esposa, que a tudo ignorava, esclare­cendo-lhe a necessidade de uma viagem urgente, prometendo notícias pormenorizadas logo depois. O médico comprometeu-se a enviar o bilhete à destinatária, enquanto Rafael seguiu, sentenciado pela legislação divina incorruptível, para o cumprimento da pena impostergável. Na alma aturdida, em densa noite, o Sr. Ferguson, sem o amparo de uma fé luarizante, não possuía o socorro das estrelas morais que fulgem espe­rança no céu das aflições. Deixou-se, pois, sucumbir, sem raciocinar, impossibilitado de pensar ante a situação maceradora que o impelia à revolta em que mergulhou, sob o estrugir do ódio, em forma inicial de ira, que o dilaceraria, no futuro, como  ácido a requeimá-lo por den­tro. (Cap. 3, págs. 42 e 43)
17. A força da prece - Não houve despedida entre o enfermo e seus fa­miliares, nenhuma palavra que pudesse diminuir a inclemência do horror que se abateu sobre Artêmis, quando notificada do inditoso aconteci­mento. O ofício lacônico do órgão competente, sem mais amplos infor­mes, alcançou a finalidade, como um raio destruidor, atingindo débil floração de vida. Se Hermelinda não acudisse, Artêmis ter-se-ia ferido no solo, em virtude do desmaio que a venceu, ao ler o comunicado, que exigia também a presença de toda a família, no Posto de Saúde, para os exames que se impunham. Sem saberem como agir de imediato, foram as duas amigas inspiradas à oração pela genitora desencarnada de Artêmis. Naquele momento, Lisandra repousava, após mais uma crise angustiante, e Gilberto se encontrava no Liceu. As duas almas irmãs, trucidadas pelo sofrimento, recolheram-se então à oração lenificadora. Aos pou­cos, sob o beneplácito da oração que jamais se demora sem resposta, foram-se acalmando, atendidas pelo magnetismo dulcificador e reconfor­tante que lhes aplicavam os invisíveis Amigos Espirituais, responsá­veis pelo curso dos acontecimentos educativos em prol da sua redenção. Os Benfeitores amorosos não liberam os seus tutelados da canga do so­frimento de que necessitam, por impositivo dos próprios erros, mas inspiram decisões felizes, evitam ciladas odientas, que aumentam o pa­decimento, impregnam-nos de forças superiores que decorrem da oração e do intercâmbio psíquico, induzem-nos ao bem, iluminam a consciência, amparam-nos moralmente e tornam-se faróis íntimos a apontarem o rumo na noite das provações santificadoras. Refeitas, assim, do primeiro grande choque, as duas almas afins combinaram que não poderiam ocultar aos jovens o drama que pesava sobre o lar, mesmo porque todos deveriam submeter-se aos exames médicos inadiáveis. (Cap. 4, págs. 45 e 46)
18. Deus jamais nos deixa órfãos - As horas agora pesavam no compasso da lentidão. A ausência do chefe da família se transformava num tipo de morte mais dorido do que o da desencarnação, a que se adicionavam as dificuldades financeiras derivadas de sua ausência, o que era mais uma sombra de dor para aquelas almas aflitas. Os Ferguson eram pessoas da classe média, conforme os padrões vigentes na Terra, que dependem das quotas do labor realizado, sem maiores economias que possam supor­tar um período largo de vicissitudes. Naquele tempo, o ingresso num Leprocômio significava uma viagem sem retorno. Acrescentava-se a isso o estigma que acompanhava as famílias em cujo seio surgia um hanse­niano, as quais inspiravam pavor e, em alguns lugares, perseguição im­placável. Muitas vezes, as pessoas ligadas a hansenianos viam-se obri­gadas a terrível silêncio, sem lograrem sequer uma palavra de conforto dos amigos ou dos parentes mais chegados. Artêmis somava, então, à ex­trema aflição de uma indébita viuvez com o esposo vivo-morto toda a gama das próximas dificuldades financeiras e a carga dos preconceitos humanos... Após a prece lenificadora, Hermelinda abraçou a cunhada e, fortemente inspirada, confortou-a, dizendo: "Deus nos dará  forças para vencer a situação amarga. Jamais nos deixa órfãos o Supremo Pai, quando d'Ele mais necessitamos. Uniremos nossos esforços e lutaremos. Em verdade, nunca preencheremos a falta do ser querido, em casa; toda­via, o Senhor não nos deixar  sem o pão, sem a luz da fé, nem o aga­salho da esperança. Sofreremos e cresceremos ante Seus olhos... Razão deve haver, que nos escapa, para que sejamos apanhados por este super­lativo sofrer, nos verdes dias dos nossos sonhos, ora tornados som­brios pesadelos. Não desanimaremos, apesar de a alma estar triturada, e tenho a certeza de que Ele, o Pai Zeloso, nos auxiliar  a subir a difícil montanha da resignação e da confiança, conduzindo o fardo que nos cabe suportar". (Cap. 4, págs. 47 e 48)
19. Uma noite de agonia - Hermelinda, semi-incorporada pela genitora de Artêmis, olhos brilhantes, concluiu: "Dia virá  em que veremos re­tornar o nosso Rafael, mutilado ou não, em outras circunstâncias, ao lar que o esperará por todo o sempre, onde foi impedido de permanecer, por enquanto, ao império da superior vontade de Deus". Após tais pa­lavras, uma atmosfera de paz saturou o ambiente, fazendo-o sutil, qual o clima que deveria ser, habitualmente, o de todos os lares da Terra. Naquela noite, reunindo suas forças claudicantes, após transcorrida a refeição e realizados os deveres escolares, Artêmis elucidou os filhos quanto ao ocorrido e, sem qualquer dramaticidade, expôs sobre os cui­dados que deveriam ter, a partir de então, em se referindo ao pai, bem como a respeito dos dias que viriam menos ditosos, encerrando a entre­vista com um toque superior de otimismo e esperança. Os jovens não pu­deram ocultar a angústia diante das conseqüências do ocorrido: o pade­cimento do pai, a desventura da mãe, a ameaça que pairava sobre todos quanto à hipótese de estarem também contaminados, e o futuro da famí­lia, que agora se tornava mais incerto. Aumentando a carga de deses­pero daquele lar, Lisandra, acoimada pelo choque, foi vencida de novo por demorado mergulho em dura crise epileptiforme, perdendo a cons­ciência. A jovem agitava-se balbuciando palavras inteligíveis, diver­sas da ocorrência tipicamente epiléptica, sem as convulsões caracte­rísticas. Inquieta, como se passeasse por lúgubres sítios que lhe cau­sassem horror e alucinação, expressava conexão nas palavras enunciadas com esgares... Eram as reminiscências da vida anterior, que produziam agora os desaires e as aflições que se impunham como medida salvadora para sua reabilitação pessoal e a dos implicados nas desditas passa­das. Aquela foi, para os Ferguson, uma demorada noite de agonia, até a quase total lassidão das resistências físicas e morais. (Cap. 4, págs. 48 e 49)
20. A reação de Rafael - Passado o primeiro momento, após a notícia desconcertante que lhe martelava a mente, Rafael não conseguia coorde­nar direito as idéias. Era-lhe inconcebível aceitar aquela contingên­cia, que se semelhava a grosseiro embuste do destino, de que se libe­raria mediante surpresa idêntica da fortuna. Ao anoitecer, defrontando a aspérrima realidade que encontrara no Hospital, não suportou a dor superlativa e entregou-se ao choro convulsivo, selvagem. Aquele era um mundo de mutilados, de sombras inditosas, purulentas, na escuridão de um inferno horrendo. Rafael sentia o recrudescer dos sentimentos infe­riores, dominando-o num ódio primitivo contra Deus, contra todos, con­tra ele mesmo. Fizera-se um vulcão em erupção. O odor nauseante da sala, as péssimas condições de higiene, a promiscuidade coletiva eram tão macerantes quanto a própria enfermidade. Na véspera -- pensava -- dormira no lar e agora... Não sopitou o desespero e foi acometido por um acesso nervoso. Enfermeiros e colegas de infortúnio acorreram e do­minaram-no. Aplicou-se-lhe medicação calmante, enquanto ele se debatia em fúria, negando-se a permanecer na jaula a que se sentia relegado. Blasfêmias espocaram-lhe pelos lábios febris, até à exaustão, quando se fez sentir o efeito do medicamento. Faltava, à época, maior compre­ensão em torno da hanseníase, de suas causas e de sua terapia, o que era agravado pela ignorância quanto à preparação psicológica dos en­fermos, a fim de submeter-se ao tratamento em clima de confiança, em­bora a pouca esperança de cura. Até os enfermeiros viviam isolados da sociedade, porque se temia a doença mais do que os criminosos portado­res de alta periculosidade. No dia seguinte, Rafael não teve forças para levantar-se, deixando-se ficar imerso na torva desesperação sem palavras. Negar-se-ia a viver -- reflexionava, aturdido. Pensou também nos familiares e nos horrores que eles deveriam estar experimentando com a infausta notícia. Considerou-se então, naquele momento, um ser desprezível e desgraçado, um "imundo", como milenarmente se dizia acerca dos leprosos. (Cap. 5, págs. 51 e 52)
21. Rafael vê cenas de seu passado - Rafael chorou, emocionado -- não as lágrimas de  ácido comburente, devastadoras, mas as que nascem nas fontes do sofrimento, que, enquanto são vertidas, acalmam, refrescam o ser, lenindo as ulcerações e prometendo cicatrizá-las. Perdera a noção do tempo e do espaço, e uma sensação desconhecida entorpeceu-o, le­vando-o a sono profundo, não obstante as horas do dia claro. No transe, sentiu-se recuar às contingências da vida atual, como se esti­vesse diante de uma tela de cinemascópio e se revisse em caráter re­trospectivo, desde o internamento até ao berço e daí, após uma larga faixa de sombras, paisagens passadas, em que se sentia viver. Destaca­vam-se, na visão colorida, cenas que retratavam poder e distinção so­cial em torno de um homem abastado e nobre, e bajulado, no qual se descobriu a si mesmo, embora alguns diferentes traços fisionômicos... Sentiu a arrogância e a prepotência daquele homem e a alta carga de paixões, que a custo dissimulava. A mente varrida por dramas sucessi­vos parecia deleitar-se em poder executá-los sinistramente. Sabia-se temido e odiado, no que se comprazia. Continuando a viagem de reminis­cências, encontrou-se numa ampla alcova, diante de bela mulher imóvel, que fitava aterrada a construção de uma parede... Ele parecia vingar-se de alguém... Os cenários depois se enevoaram, perderam os contornos e ele, voltando à posição anterior, passou a fugir em delírio, dese­quilibrado, açodado por implacável vingador que cavalgava em pós, al­cançando-o e liberando-o, para novamente vencê-lo... Rafael pôs-se en­tão a gritar e, debatendo-se no leito humilde, despertou, banhado de suor, com expressão bestial. Um enfermeiro, de nome Cândido, acudiu, procurando acalmá-lo. Era apenas um pesadelo, disse-lhe o atendente, aduzindo que todos eram vítimas desses sonhos tenebrosos, quando davam ingresso ali; depois se acostumavam. Na verdade, o que Rafael vira fo­ram cenas de seu passado espiritual, no qual fixara as matrizes do so­frimento atual, porquanto os depósitos da "memória não cerebral" guar­dam os arquivos dos sucessos atuais e os pregressos, pertinentes às vidas anteriores. (Cap. 5, págs. 53 e 54)
22. A Justiça Divina é perfeita - Os sofrimentos que Rafael enfrentava agora eram fruto de uma existência perniciosa, que deveria santificar no amor e na solidariedade, considerando-se os bens que usufruíra egoísta e voluptuosamente. Alguém que malbarate os valores da vida não permanece de consciência pacificada. O abuso da força, do poder econômico ou social, da autoridade, da inteligência, seja do que for, pro­duz a desdita a que o mau mordomo se arroja, em demorada e aflitiva recuperação. Todos os valores positivos que enflorescem a vida humana exigem prestação de contas, na qual são examinados a aplicação, o uso, os resultados do investimento, concedendo-se ao usufrutuário o respec­tivo salário, adicionado aos juros de que se faça credor. Na ordem di­vina, espírito algum explora, aproveita-se, perverte, abusa do patri­mônio do Pai, sem ser chamado a graves contas... Os que estagiavam, portanto, no Lazareto, constituíam a massa de exploradores de ontem, em si mesmos vencidos, ao impacto do ressarcimento, no campo de lutas que preferiram por livre escolha. Daí os pesadelos semelhantes, men­cionados pelo enfermeiro Cândido, que ofereceu a Rafael um vaso com  água fresca, tentando reconfortá-lo. "A coisa não é tão má  como dizem -- falou-lhe Cândido. -- Aqui também se ama e se confia em Deus. Isto não é um presídio, mas um hospital. O cerceamento da convivência fami­liar se justifica a benefício de todos. Note bem: em casa as pessoas negligenciam os horários para a medicação, que deve obedecer a um ri­goroso esquema; não resguardam, devidamente, a família; são tentadas à convivência social... Ora, como não se sabe exatamente como ou quando ocorre o contágio da doença, o Serviço de Saúde isola o paciente e nada mais. O restante decorre da superstição e da ignorância..." A ar­gumentação franca e legal repercutiu positivamente no recém-chegado. E ele prosseguiu, dizendo que Rafael deveria agradecer por ter os seus familiares poupados e ser cuidado por pessoas especializadas, que não se impressionavam com seu estado, nem o temiam. "Concorda comigo?", indagou-lhe o enfermeiro. Rafael assentiu com a cabeça. Cândido con­clamou-o então a sair da cama e começar uma vida nova. "Recusar-se um problema não o anula, nem o resolve, antes agrava-o", asseverou o atendente, que convidou Rafael a conhecer a sua nova casa. Ela era velha e sombria, mas poderia ser bela, se todos assim o quisessem, aduziu o enfermeiro. Rafael encontrava ali seu primeiro amigo, um ex­celente amigo, quase um benfeitor. (Cap. 5, págs. 55 e 56)
2a. REUNIÃO



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