Celso Pereira de Sá (1941-2016) – acadêmico, amigo



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Celso Pereira de Sá (1941-2016) – acadêmico, amigo.

Na madrugada do dia 7 de maio de 2016 faleceu Celso Sá, professor titular do Instituto de Psicologia da UERJ.

Celso nasceu no Rio de Janeiro em 8 de março de 1941, data depois consagrada como o “Dia Internacional das Mulheres”. Nas comemorações de seu aniversário, costumava brindar as mulheres presentes com um botão de rosa. Isto, creio, resume um pouco de quem ele era: alguém que, mesmo nas ocasiões mais pessoais, fazia sua vinculação com o público, com o coletivo, com o que se passava no mundo. E, sempre, da maneira carinhosa e gentil que era sua marca.

Foi Oficial da Marinha em sua juventude, período em que serviu no Setor de Pessoal, o que o estimulou a estudar Psicologia. Foi aluno da UERJ, universidade que o atraiu porque era a única que possibilitava o estudo noturno, condição essencial para quem trabalhava em horário integral. Terminou sua formação em 1971. Foi o discípulo querido do professor Eliezer Schneider (1916/1998) que o considerava seu sucessor. Entretanto, mesmo Schneider sendo Diretor do jovem Instituto de Psicologia e Comunicação Social da UERJ, Celso teve seu nome preterido para ingresso na carreira docente várias vezes – naquela época não havia concurso público na UERJ - até conseguir ingressar em 1977. Desde então, sua dedicação foi totalmente à UERJ.

Obteve o título de Mestre em 1978 e de Doutor em 1985, pelo Instituto de Pesquisas Psicossociais da Fundação Getúlio Vargas (ISOP/FGV), sempre sob a orientação do prof. Schneider. Este, advogado de formação, havia participado da Juventude Comunista em pleno Governo Vargas. E foi um dos primeiros brasileiros a obter uma educação formal em psicologia, na Iowa University, nos anos de 1940. A psicologia nesta universidade tinha uma forte conotação behaviorista, orientação que Schneider transmitiu a Celso. Isto está presente em sua dissertação de mestrado, publicada sob a forma de livro em 1979 pela Achiamé, e intitulada “Psicologia do Controle Social”.

Na UERJ, Celso galgou todos os degraus da carreira acadêmica, iniciada em uma época em que esta universidade tinha somente cursos de graduação e era regida por um forte conservadorismo aliado ao regime militar. Mesmo assim, não se furtou a lutar pela redemocratização da Universidade, como muitos faziam pelo país. Foi um dos 97 professores da Uerj que se reuniram na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para a assembleia de fundação da Associação dos Professores da UERJ (APUERJ), hoje ASDUERJ. Como consta na página da associação, “a realização da assembléia fora dos muros da universidade indica o forte clima de desconfiança e perseguição ainda existente”.



Esta luta se estendeu ao período de democratização da universidade. Participou ativamente do movimento que propunha eleições diretas para Reitor em 1983. E, quando o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional tais eleições, auxiliou na realização da “consulta pública” que se constituiu no fortalecimento da associação docente. Nesta consulta, chegou a ficar de vigília no caixa-forte da Universidade, tomando conta das urnas eleitorais.

Eleito nesta consulta como Diretor do Instituto de Psicologia, enfrentou muitas dificuldades para ser empossado e exerceu uma gestão com muitas pressões conservadoras tanto de dentro do IP quanto de fora. Entretanto, os ventos democráticos propiciaram o reconhecimento de sua gestão (1984 a 1987), possibilitando sua eleição seguinte para a Direção do Centro de Educação e Humanidades (1988 a 1991).

Neste último ano, foi o proponente do Mestrado de Psicologia e Práticas Sócio-Culturais do qual foi o primeiro coordenador (1991-1994) – Mestrado que hoje é o Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social.

Também neste período descobriu a Teoria das Representações Sociais (TRS) que o fez abandonar o behaviorismo de sua formação inicial. Realizou seu pós-doutorado naquela abordagem em 1996, na Université de Provence, e se tornou um de seus principais autores, não somente em nível nacional como também internacional. Comprovação disto é a constante presença de Denise Jodelet, uma das principais autoras francesas da TRS, como sua interlocutora.

Desde a comemoração dos 500 anos do “descobrimento do Brasil”, dedicou-se à investigação e sistematização do que denominou uma “psicologia social da memória”, principalmente em conjunto com pesquisadores portugueses. Isto não o impediu de, ao mesmo tempo, no período de 2000 a 2003, ser Vice-Reitor da UERJ, acompanhando Nilcea Freire como Reitora – para ele, contribuir para a UERJ era o principal.

Também foi, de 2002 a 2004, vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP) e, de 2002 a 2005, membro do Conselho Superior da Faperj. Era pesquisador nível 1 do CNPq.

Seu filho mais velho, Cláudio, faleceu precocemente em 2006. Esta foi uma perda avassaladora, que Celso revelou claramente num belo artigo publicado em 2007 na revista Psicologia&sociedade, em que, como era de seu feitio, articulou o pessoal com o coletivo. Intitulado “Sobre a Psicologia Social no Brasil – entre memórias históricas e pessoais”, relata sua trajetória, seus ganhos e perdas, e aponta sua relação, intelectual e afetiva, com dois ícones - antagônicos - da psicologia brasileira, também já falecidos naquele momento: Carolina Bori e Silvia Lane.

Aposentado desde 2011, Celso continuava atuando no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social como Pesquisador Visitante, orientando e publicando.

Celso publicou 68 artigos, muitos em revistas internacionais; publicou 5 livros como autor e outros 2 como organizador, além de 32 capítulos de livros. Orientou 22 dissertações de Mestrado e outras 15 de doutorado, além de inúmeros trabalhos de final de curso de graduação e de Iniciação Científica. Deixou 1 orientação de doutorado em andamento.

Em 2015, publicou pela EdUERJ “Estudos de psicologia social: história, comportamento, representações e memória”, livro em que republicou diferentes textos escritos ao longo de quase quarenta anos de contribuição à psicologia. Correspondendo à honestidade intelectual que o caracterizava, não fez nenhuma revisão dos textos para aproximá-los à sua visão atual. Desta forma, o livro é uma excelente ferramenta para análise das diferentes nuances de seu pensamento ao longo de sua vida.

Celso era uma pessoa gentil, generosa, com um humor fino mas que evitava ofender. Aceitava as críticas com tranquilidade. Mas não suportava críticas a seus orientandos e amigos que fossem além das puramente acadêmicas. Neste caso, virava um leão, articulado na defesa daqueles que lhe eram caros. Teve alguns alunos prediletos e a eles dedicou alguns de seus livros, numa relação marcada pelo carinho.

Depois de sua aposentadoria, Celso almejava o título de Professor Emérito da UERJ. Nada mais justo, tendo em vista seus quase 50 anos de contribuição à universidade. Infelizmente, diversas injunções impediram que o recebesse. A outorga do título foi aprovada pelo Conselho Superior de Ensino e Pesquisa mas Celso não pôde esperar sua análise pelo Conselho Universitário.

Que sua vida continue iluminando a todos nós, companheiros de sua história, e a outros que irão ainda conhecê-lo.
Rio de Janeiro, 8 de maio de 2016

Ana Maria Jacó-Vilela




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