Cícero Josinaldo da Silva Oliveira



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RESUMOS

Pensar o Estado moderno a partir de Nietzsche

Adriana Delbó (USP)

Neste texto pretendo apresentar alguns elementos para reflexão a respeito do Estado a partir das considerações de Nietzsche sobre os vínculos estabelecidos entre Estado e a proteção da vida. E para a contextualização do ataque de Nietzsche ao Estado de sua época, faz-se necessário também apresentar seu ponto de partida para pensar a política: a cultura, a arte e a natureza. Nesta perspectiva, o critério de análise da política é o quanto ela promove ou impede o desenvolvimento de cultura.

No escrito “O Estado grego” Nietzsche define o Estado como a “eterna fonte de fadiga” e por isso também reconhece como eterna a relação de dependência do Estado para com um vultoso número de homens em torno de si. Ademais, se ocorre de a relação dos indivíduos para com o Estado parecer invertida, como se o Estado estivesse a serviço das necessidades e vontades da enorme massa da qual ele depende, isto, aos olhos de Nietzsche, não passa de um ardil da natureza. Como sinais da inevitável monstruosidade do Estado, Nietzsche proclama o que julga serem seus engodos. Ao examinar o Estado grego, ele tem os olhos voltados para sua própria época, para manifestações em que reconhece perigo para a esfera política e artística. É o Estado burguês o verdadeiro alvo da crítica de Nietzsche. A compreensão de que o direito natural individual funda a legitimidade do poder do Estado, concebido este como artifício, traduz uma inversão da relação saudável entre indivíduo e Estado no que tange à elevação da cultura. Se a meta é a proteção da vida individual e do processo de acumulação, de satisfação de metas egoístas, o Estado converte-se em obstáculo à geração do grande indivíduo e, por conseguinte, ao fortalecimento da cultura.

O otimismo racional do homem moderno impede que ele reconheça o contínuo e doloroso engendramento do homem cultural emancipado. Para Nietzsche, no entanto, a sociedade, a organização dos indivíduos, o ímpeto da natureza para a organização institucionalizada deve suplantar qualquer vontade particular de um grupo específico de indivíduos. A sociedade é movida pelo mesmo ímpeto da natureza que mobiliza o Estado. A explicação fornecida por Nietzsche para a origem e a natureza do Estado não distingue o Estado moderno de qualquer outro; por conseguinte, a impiedade é ainda a mesma. Ele compreende, contudo, consoante a explicação dos homens modernos para o Estado, que este é impedido de promover e satisfazer a vontade de arte e pode servir apenas a interesses de proteção e manutenção da vida; são as próprias intenções que são perseguidas sem limites, quando a meta última do Estado passa a ser a mais imperturbável vida de grandes comunidades políticas.

Em “O Estado grego”, Nietzsche almeja retirar do Estado o caráter exclusivamente social e econômico que lhe é atribuído na modernidade, como se resultasse de um pacto – sob este ângulo, o Estado pode ser apenas prejudicial à vida cultural de um povo. Nietzsche avista o fundamento da relação entre os homens e o Estado, na modernidade, no cálculo do que “querem do Estado e o que esse pode conceder-lhes”, sendo assim impossível imaginar que façam qualquer sacrifício “à tendência estatal”. É esta relação que converte o Estado moderno em um obstáculo à cultura, visto ser admitido somente em função do que oferece em termos de segurança, comodidade e bem-estar. Os interesses privados e a tendência monetária que Nietzsche reconhece no envolvimento dos homens modernos com o Estado traduzem uma prostração à atividade do Estado reguladora do egoísmo entre os homens. Para que tais interesses sejam contemplados, tornou-se necessário vencer outras forças que representam entraves a este percurso: evitar a propensão à guerra, alimentada pelo que chama de tendência monárquica.






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