Capitães de Areia



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Aventura de Ogum

Outra noite, uma noite de inverno, na qual os saveiros não se aventuraram no mar, noite da cólera de Yemanjá e Xangô, quando os relâmpagos eram o único brilho no céu carregado de nuvens negras e pesadas, Pedro Bala, o Sem-Pernas e João Grande foram levar a mãe-de-Santo, DonAninha, até sua casa distante. Ela viera ao trapiche pela tarde, precisava de um favor deles, e enquanto explicava, a noite caiu espantosa e terrível.

– Ogum esta zangado... – explicou a mãe-de-Santo DonAninha.

Fora este assunto que trouxera ali. Numa batida num candomblé que se bem não fosse o seu, porque nenhum polícia se aventurava a dar batida no candomblé de Aninha, estava sob a sua proteção, a polícia tinha carregado com Ogum, que repousava no seu altar. DonAninha tinha usado da sua força junto a um guarda para conseguir a volta do santo fora mesmo à casa de um professor da Faculdade de Medicina, seu amigo, que vinha estudar a religião negra no seu candomblé, pedir que ele conseguisse a restituição do deus. O professor realmente pensava em conseguir que a policia lhe entregasse a imagem. Mas para juntar à sua coleção de ídolos negros e não para reintegrá-la no seu altar no candomblé distante. Por isso, por estar Ogum numa sala de detidos na polícia, Xangô descarrega os raios nessa noite.

Por último DonAninha veio aonde estavam os Capitães da Areia, seus amigos de há muito, porque são amigos da grande mãe-de-santo todos os negros e todos os pobres da Bahia. Para cada um ela tem uma palavra amiga e materna. Cura doenças, junta amantes, seus feitiços matam homens ruins. Explicou que tinha acontecido a Pedro Bala. O chefe dos Capitães da Areia ia pouco aos candomblés, como pouco ouvia as lições do padre José Pedro. Mas era amigo tanto do padre como da Mãe-de-santo, e entre os Capitães da Areia quando se é amigo se serve ao amigo.

Agora levavam Aninha para sua casa. A noite em torno era tormentosa e colérica. A chuva os curvava sob o grande guarda-chuva branco da Mãe-de-santo. Os candomblés batiam em desagravo a Ogum e talvez num deles ou em muitos deles Omolu anunciasse a vingança do povo pobre. DonAninha disse aos meninos com uma voz amarga:

– Não deixam os pobres viver... Não deixam nem o deus dos pobres em paz. Pobre não pode dançar, não pode cantar pra seu deus, não pode pedir uma graça a seu deus sua voz era amarga, uma voz que não parecia da mãe-de-santo DonAninha. – Não se contentam de matar os pobres a fome... Agora tiram os santos dos pobres... – alçava os punhos.

Pedro Bala sentiu uma onda dentro de si. Os pobres não tinham nada. O padre José Pedro dizia que os pobres um dia iriam para o reino dos céus, onde Deus seria igual para todos. Mas a razão jovem de Pedro Bala não achava justiça naquilo. No reino do céu seriam iguais.

Mas já tinham sido desiguais na terra, a balança pendia sempre para um lado.

As imprecações da mãe-de-santo enchiam a noite mais que o ruído dos agogôs e atabaques que desagravavam Ogum. DonAninha era magra e alta, um tipo aristocrático de negra, e sabia levar como nenhuma das negras da cidade suas roupas de baiana. Tinha o rosto alegre, se bem bastasse um olhar seu para inspirar absoluto respeito. Nisso se parecia com o padre José Pedro. Mas agora estava com um ar terrível e suas imprecações contra os ricos e a polícia enchiam a noite da Bahia e o coração de Pedro Bala.

Quando a deixaram, rodeada das suas filhas-de-santo, que beijavam sua mão, Pedro Bala prometeu:

– Deixa estar, mãe Aninha, que amanhã te trago Ogum.

Ela bateu a mão na cabeça loira dele, sorriu. João Grande e o Sem-Pernas beijaram a mão da negra. Desceram a ladeira. Os agogôs e atabaques ressoavam desagravando Ogum.

O Sem-Pernas não acreditava em nada, mas devia favores a DonAninha. Perguntou:

– O que é que a gente vai fazer? O troço está na polícia..

João Grande cuspiu, estava com certo receio.

– Não chame Ogum de troço, Sem-Pernas. Ele castiga...

– Tá preso, não pode fazer nada – riu o Sem-Pernas.

João Grande calou a boca, porque sabia que Ogum era grande demais, mesmo na cadeia podia castigar o Sem-Pernas. Pedro Bala coçou o queixo, pediu um cigarro:

– Deixa eu matutar. A gente tem que dar conta. A gente garantiu a Aninha. Agora tem que fazer.

Desceram para o trapiche. A chuva entrava pelos buracos do teto, a maior parte dos meninos se amontoavam nos cantos onde ainda havia telhado. O Professor tentara acender sua vela, mas o vento parecia brincar com ele, apagava-a de minuto a minuto. Afinal ele desistiu de ler essa noite e ficou peruando um jogo de sete-e-meio que o Gato bancava, ajudado por Boa-Vida, num canto. Moedas no chão, mas nenhum rumor desviava Pirulito das suas orações diante da Virgem e de Santo Antônio.Nestas noites de chuva eles não podiam dormir. De quando em vez a luz de um relâmpago iluminava o trapiche e então se viam as caras magras e sujas dos Capitães da Areia. Muitos deles eram tão crianças que temiam ainda dragões e monstros lendários: Se chegavam para junto dos mais velhos, que apenas sentiam frio e sono. Outros, os negros, ouviram no trovão a voz de Xangô. Para todos estas noites de chuva eram terríveis. Mesmo para o Gato, que tinha uma mulher em cujo seio escondia a jovem cabeça, as noites de temporal eram noites más. Porque nestas noites homens que na cidade não têm onde reclinar a sua cabeça amedrontada, que não têm senão uma cama de solteiro e querem esconder num seio de mulher o seu temor, pagavam para dormir com Dalva e pagavam bem. Assim o Gato ficava no trapiche, bancando jogos com seu baralho marcado, ajudado na roubalheira pelo Boa-Vida. Ficavam todos juntos, inquietos, mas sós todavia, sentindo que lhes faltava algo, não apenas uma cama quente num quarto coberto, mas também doces palavras de mãe ou de irmã que fizessem o temor desaparecer. Ficavam todos amontoados e alguns tiritavam de frio, sob as camisas e calças esmolambadas. Outros tinham paletós furtados ou apanhado sem lata de lixo, paletós que utilizavam como sobretudo. O Professor tinha mesmo um sobretudo, de tão grande arrastava no chão.

Uma vez, e era no verão, um homem parara vestido com um grosso sobretudo para tomar um refresco numa das cantinas da cidade. Parecia um estrangeiro. Era pelo meio da tarde e o calor doía nas carnes. Mas o homem parecia não senti-lo, vestido com seu sobretudo novo. O Professor achou o homem engraçado e com cara de sujeito de dinheiro e começou a fazer um desenho dele com o sobretudo enorme, maior que o homem, era o próprio homem o sobretudo, a giz no passeio. E ria de satisfação, porque provavelmente o homem lhe daria uma prata de dois mil-réis. O homem voltou-se na sua cadeira e olhou o desenho quase concluído. O Professor ria, achava o desenho bom, o sobretudo dominando o homem, era mais que o homem. Mas o homem não gostou da coisa, se deixou possuir por uma grande raiva, levantou-se da cadeira e deu dois pontapés no Professor. Um atingiu o menino nos rins e ele rolou pela calçada gemendo. O homem ainda meteu o pé no seu rosto, dizendo congestionado ao se afastar:

– Toma, corneta, para aprender a não fazer burla de um homem.

E saiu batendo moedas na mão, após meio apagar com o pé o desenho. A garçonete veio e ajudou o Professor a se levantar. Olhou com piedade o menino, que apalpava o lugar dos rins doloridos, olhou o desenho, disse:

– Que bruto! Até que o retrato estava parecido... Um estúpido!

Meteu a mão no bolso onde guardava as gorjetas, tirou uma prata de um mil-réis, quis dar ao Professor. Mas ele recusou com a mão, sabia que ia fazer falta a ela.Olhou o desenho semi-apagado, seguiu seu caminho ainda com as mãos nos rins. Ia quase sem pensar, com um nó na garganta. Ele quisera agradar o homem, merecer uma prata dele. Tivera dois pontapés e palavras brutais. Não compreendia. Por que eram odiados assim na cidade? Eram pobres crianças sem pai, sem mãe. Por que aqueles homens bem vestidos tanto os odiavam? Foi com sua dor. Mas aconteceu que no caminho para o trapiche, no deserto do areal sob o sol, encontrou novamente, minutos depois, o homem de sobretudo. Parecia que ia para um dos navios atracados no porto e levava agora o sobretudo no braço porque o sol estava abrasador. Professor tirou a navalha poucas vezes a usava e se aproximou do homem. O calor tinha alijado do areal todos os homens e o do sobretudo cortava pela areia para fazer o caminho mais curto para o cais. O Professor foi silenciosamente por detrás do homem quando chegou perto tomou a frente com a navalha na mão. A vista do homem tinha transformado a confusão de seus sentimentos num único sentimento: vingança. O homem o olhou aterrorizado. 0 Professor crescia em sua frente com a navalha aberta. Murmurou entre dentes:

– Sai, moleque.

O Professor avançou com a navalha, o homem ficou branco.

– Que é isso? Que é isso?– e mirava todos os lados na esperança de ver alguém. Mas só ao longe, nas docas, apareciam perfis de homens. Então o do sobretudo largou a correr quando o Professor saltou em cima dele e lhe cortou a mão com a navalha. O sobretudo ficou abandonado no chão e o sangue caía da mão do homem na areia. O Professor tomou pelo outro lado, ficou um instante sem saber que fazer. Não tardaria a vir um guarda, logo muitos, acompanhando o homem em sua perseguição. Se o navio do homem saísse logo, tudo estava bem, a perseguição pouco demoraria. Mas se tardasse a sair, com certeza o homem o perseguiria até dar com ele e pô-lo no xadrez. Então o Professor lembrou-seda garçonete. Caminhou para a cantina, do jardim que ficava em frente fez sinal para a garçonete. Ela veio e logo compreendeu quando o viu com o sobretudo. O Professor avisou:

– Ele tá com um talho na mão.

Ela riu:

– Tu te vingou, hein?

Levou o sobretudo para a cantina, guardou. O Professor sumiu até que o navio saiu barra afora. Mas de onde estava viu a batida dos guardas pelo areal e pelas ruas adjacentes. Foi assim que o Professor tinha conseguido aquele sobretudo, que nunca quis vender. Adquirira um sobretudo e muito ódio. E tempos depois, quando as suas pinturas murais admiraram todo o país eram motivos de vidas de crianças abandonadas, de velhos mendigos, de operários e doqueiros que rebentavam cadeias, notaram que nelas os gordos burgueses apareciam sempre vestidos com enormes sobretudos que tinham mais personalidade que eles próprios.

Pedro Bala, João Grande e o Sem-Pernas entraram no trapiche. Foram para o grupo que jogava em torno ao Gato. Quando eles chegaram, o jogo parou um momento, o Gato ficou espiando os três:

– Quer topar um sete-e-meio?

– Tou com cara de besta? respondeu o Sem-Pernas.

João Grande sentou para espiar, Pedro Bala se afastou com o Professor para um canto. Queria combinar uma maneira de roubar a imagem de Ogum da polícia. Discutiram parte da noite e já eram onze horas quando Pedro Bala, antes de sair, falou para todos os Capitães da Areia:

– Minha gente, eu vou fazer um troço difícil. Se eu não aparecer até de manhã, vocês fica sabendo que eu tou na polícia e não demoro a tá no reformatório, até fugir. Ou até vocês me tirar de lá...

E saiu. João Grande o acompanhou até a porta. O Professor veio para junto do Gato novamente. Os menores olhavam a partida do chefe com certo receio. Tinham uma grande confiança em Pedro Bala e sem ele muitos não saberiam como se arranjar.

Pirulito veio do seu canto, deixara uma oração pelo meio:

– O que foi?

– Pedro foi fazer um troço difícil. Se não voltar de manhã, é que tá na chave...

– A gente tira ele respondeu Pirulito naturalmente, e nem parecia que minutos antes estava ante um quadro da Virgem rezando pela salvação da sua pequena alma de ladrão. E voltou aos seus santos a rezar por Pedro Bala.

O jogo recomeçou. Chuva e raios, trovões e nuvens no céu. O frio intenso no trapiche. Gotas de água caíam sobre os meninos que jogavam. Mas o jogo agora era sem atenção, o próprio Gato se esquecia de ganhar, havia como que uma confusão em todo o trapiche. Durou até que Professor disse:

– Eu vou ver as coisas...

João Grande e o Gato foram com ele. Nesta noite foi Pirulito que se deitou na porta do trapiche com o punhal sob a cabeça. E perto dele Volta Seca espiava a noite com sua cara sombria. E pensava em que lugar estaria nesta noite de temporal o grupo de Lampião na imensidade das caatingas. Talvez que nessa noite de temporal lutassem com a polícia como ia fazer agora Pedro Bala. E Volta Seca pensou que quando Pedro Bala fosse grande como um homem seria tão corajoso como Lampião. Lampião era o dono do sertão, das caatingas sem fim. Pedro Bala seria dono da cidade, do casario, das ruas, do cais. E Volta Seca, que era do sertão, poderia andar nas caatingas e nas cidades.

Porque Lampião era seu padrinho e Pedro Bala seu amigo. Imitou o cocorocó de um galo e isso era sinal de que Volta Seca estava alegre.

Pedro Bala, enquanto subia a ladeira da Montanha, revia mentalmente seu plano. Fora arquitetado com a ajuda do Professor e era a coisa mais arriscada em que se metera até hoje. Mas DonAninha bem que merecia que um corresse risco por ela. Quando tinha um doente ela trazia remédios feitos com folhas, tratava dele, muitas vezes curava. E quando aparecia um Capitão da Areia no seu terreiro ela o tratava como a um homem, como a um ogã, dava-lhe do melhor para comer, do melhor para beber. O plano era arriscado, possivelmente não daria certo, Pedro Bala comeria cadeia uns dias e terminaria remetido para o reformatório, onde a vida era pior que vida de cão.

Mas havia uma possibilidade de dar certo, e Pedro Bala jogaria tudo nesta possibilidade. Chegou ao largo do Teatro. A chuva caía e os guardas se abrigavam sob as capas. Começou a subir a ladeira de São Bento vagarosamente. Tomou por São Pedro, atravessou o largo da Piedade, subiu o Rosário, agora estava nas Mercês, diante da Central de Policia, olhando as janelas, o movimento de guardas e secretas que entravam e safam. De minuto em minuto um bonde passava fazendo ruídos nos trilhos, iluminando ainda mais a rua já bastante iluminada. O guarda amigo de DonAninha tinha dito que Ogum estava na sala de detidos, jogado sobre um armário, em meio a diversos outros objetos apreendidos em batidas várias em casas de ladrões. Naquela sala colocavam os que eram presos durante a noite antes de serem ouvidos ou pelo delegado ou pelos comissários de turno e que depois ou eram remetidos para as prisões ou para a rua. Ali, num canto, a princípio dentro de um armário que logo se encheu, depois junto ou sobre ele, colocavam objetos sem valor apreendidos nas batidas policiais. O plano de Pedro Bala era passar a noite ou parte dela na sala de detidos e levar ao sair se conseguisse sair a imagem de Ogum consigo. Tinha uma grande vantagem: não era conhecido entre a polícia. Mesmo só raros guardas o conheciam como moleque das ruas, se bem todos os guardas e mesmo alguns investigadores desejassem ardentemente capturar o chefe dos Capitães da Areia. Sabiam dele apenas que tinha aquele talho no rosto e Pedro Bala passou a mão no talho. Mas o pensavam maior do que era em verdade e também faziam a idéia de que Pedro Bala devia ser mulato e de mais idade. Se chegassem a descobrir que ele era o chefe dos Capitães da Areia talvez nem para o reformatório o mandassem. Muito provavelmente iria diretamente para a penitenciária.Porque do reformatório se consegue fugir, mas da penitenciária não é fáciL Enfim... – e Pedro Bala andou até o Campo Grande. Mas já não ia com aquele seu passo despreocupado de moleque das ruas da cidade. Ia agora gingando como um filho de marítimo, o boné puxado por causa da chuva, a gola do paletó devia ter sido anteriormente de um homem muito grande levantada.

O guarda estava debaixo de uma árvore por causa da chuva. Pedro veio chegando assim como quem tem medo. E quando falou ao guarda, sua voz era a de uma criança que estava temerosa da noite tempestuosa da cidade.

– Seu guarda...

O guarda olhou:

– O que é, moleque?

– Eu não sou daqui. Eu sou de Mar Grande, vim com meu pai hoje.

O guarda não deixou que ele continuasse:

– E o que tem isso?

– Eu não tenho onde dormir. Queria que o senhor deixasse eu dormir na polícia...

– A policia não é hotel, malandro. Desaperta, desaperta... – e fez sinal para que Pedro se afastasse.

Pedro tentou novamente puxar conversa, mas o guarda o ameaçou com o cassetete:

– Vai dormir num jardim... Vai embora...

Pedro saiu com cara de choro. O guarda ficou espiando o menino. Pedro parou no ponto de bonde, esperou. Do primeiro carro não desceu ninguém, mas do segundo saltou um casal. Pedro se atirou em cima da mulher, o homem viu que ele queria abafar a carteira dela, segurou Pedro por um braço. A coisa fora tão mal feita que se um dos Capitães da Areia passasse ali sem dúvida não reconheceria o seu chefe. O guarda, que via acena, já estava junto a eles:

– Então era assim que você não era daqui? Um moleque ladrão.

Se afastou levando Pedro pelo braço. O menino ia com uma cara entre amedrontada e risonha:

– Só fiz isso pro senhor me pegar mesmo...

– Hein?

– Tudo que eu disse é verdade. Meu pai é marítimo, tem um saveiro em Mar Grande. Hoje me deixou aqui, não voltou com o temporal. Eu não sei onde dormir, pedi pra dormir na polícia. O senhor não deixou, eu fiz que ia roubar a mulher só pro senhor me pegar... Agora tenho onde dormir.



– E por muito tempo foi a única resposta do guarda.

Entraram na Central. O guarda atravessou um corredor, largou Pedro Bala na sala dos detidos. Havia uns cinco ou seis homens. O guarda disse troçando:

– Agora você pode dormir, filho da mãe. E depois que o comissário chegar vamos ver quanto tempo você vai dormir aqui...

Pedro ficou calado. Os outros presos nem ligavam para ele, estavam muito interessados em fazer troça com um pederasta que tinha sido preso e se dizia chamar Mariazinha.A um canto Pedro Bala viu o armário. A imagem de Ogum estava ao lado, junto de uma cesta para papéis inúteis. Pedro se adiantou para ali, tirou o paletó, pôs sobre a imagem. E enquanto os outros conversavam, enrolou Ogum não era grande, havia outras imagens muito maiores no seu paletó e deitou-se no chão. Pôs a cabeça sobre o embrulho e fez que dormia.

Os presos daquela noite continuavam a rir com o pederasta, exceto um velho que tremia num canto, Pedro não sabia se de frio ou de medo. Mas ouvia a voz de um negro jovem que dizia a Mariazinha:

– Quem tirou teu cabaço?

– Ora, me deixe... respondeu o pederasta rindo.

– Não. Conta. Conta! disseram os outros.

– Ah! Foi Leopoldo... Ah!

O velho continuava a tremer. Um malandro de cara chupada pela tísica percebeu o velho no canto:

– Tu por que não vai te enrabar com aquele velhote?– perguntou a Mariazinha, que fez bico.

– Não tá vendo logo que não me passo pra velho. Olhe, não quero mais conversa, não...

Agora um guarda gozava na porta e o de cara chupada se virou para o velho, que se encolheu todo:

– Mas tu bem que gostava se ele lhe desse hoje, hein, tio?

– Eu sou um velho... Eu não fiz nada... murmurou o velho, mais que falou. – Não fiz nada, minha filha está me esperando...

Pedro, que estava de olhos fechados, adivinhou que o velho chorava. Mas continuou fingindo que estava dormindo. Ogum doía nos ossos da sua cabeça. Os presos continuavam a pilheriar com o pederasta e o velho, até que chegou outro guarda e falou para o velho:

– Você, velhote. Vamos...

– Eu não fiz nada... falou mais uma vez o velho. – Minha filha está me esperando... se dirigia a todos, guardas e presos. E tremia tanto, que todos tiveram pena e até o malandro de cara chupada baixou a cabeça. Só o pederasta sorria.

O velho não voltou. Depois foi o pederasta. Demorou muito. O de cara chupada explicava que Mariazinha era de boa família.

Naturalmente estavam telefonando para casa dele, pedindo que o viessem buscar para não terem que o prender de novo naquela noite. De quando em vez, quando tomava cocaína demais, dava escândalos na rua e era trazido por um guarda. Quando Mariazinha voltou, foi só para pegar o chapéu. Então viu Pedro Bala deitado e disse:

– Tão novinho este. Mas é um amorzinho...

Pedro cuspiu de olhos fechados:

– Sai, xibungo, antes que eu te pranche a cara...

Os outros riram, e só então atentaram em Pedro:

– Que é que tu tá fazendo aqui, rato de igreja?

– O que não é da tua conta, macaqueio... – respondeu Pedro Bala ao de cara chupada.

Até o guarda riu e explicou para os outros a história de Pedro. Mas o negro jovem foi chamado e eles ficaram silenciosos. Sabiam que o negro tinha esfaqueado um homem num breforé nesta noite. Quando o preto voltou trazia as mãos inchadas dos bolos. Explicou:

– Disse que vou ser processado por ferimentos leves. E me dero duas dúzia...

Não conversou mais, procurou um canto, se arriou. Os outros também ficaram calados. E foram indo um por um para o despacho do comissário. Uns eram postos em liberdade, outros iam para o calabouço, outros voltavam apanhados. O temporal cessara e a madrugada chegava. Pedro foi o último a ser chamado. Deixou o paletó onde enrolara Ogum.

O comissário era um jovem advogado que reluzia um rubi no dedo e um charuto no queixo. Quando Pedro entrou com o guarda, pedia café em voz alta. Pedro ficou diante da escrivaninha, parado. O guarda disse:

– Esse é o menino do roubo no Campo Grande.

O comissário fez um sinal com a mão:

– Veja se esse café sai ou não sai...

O guarda retirou-se. O comissário leu a parte do guarda que prendera Pedro Bala, olhou o menino:

– O que é que você tem a dizer? E não venha me mentir, não.

Pedro contou com uma voz amedrontada uma história comprida.

Que seu pai era saveirista em Mar Grande e naquele dia pela manhã viera com o saveiro e o trouxera. Mas voltara em seguida para buscar outra carga e o deixara na cidade passeando, porque o saveiro tornaria à Bahia ainda à tardinha e então ele poderia voltar com seu pai. Mas com o temporal seu pai não tinha podido voltar e ele, que não conhecia ninguém, ficou na chuvas em ter onde dormir. Perguntou a um homem na rua onde poderia dormir, o homem respondera que na polícia. Então ele pedira ao guarda que o levasse a dormir na policia, o guarda não deixara, ele fizera então que ia furtar a mulher só para ser levado, para poder dormir sob um teto.

– Tanto que não roubei e nem fugi... – concluiu.

O delegado, que sorvia o café em golinhos, disse de si para si:

– Não é possível que uma criança desta idade inventasse essa história...

Depois, como tinha veleidades literárias, murmurou:

– Eis aí um conto formidável... e sorriu com bom humor.

– Como é o nome de teu pai? – perguntou a Pedro.

– Augusto Santos – respondeu o menino, dando o nome de um saveirista de Mar Grande.

– Se o que você contou for verdade, eu vou lhe soltar. Mas se você quis me tapear com essa história, vai ver...

Tocou a campainha chamando o guarda. Pedro estava com os nervos todos em tensão. O guarda chegou, o comissário perguntou se na polícia havia um livro de registro de saveiristas de Mar Grande que ancoravam no cais do Mercado.

– Tem, sim senhor.

– Vá ver se tem um tal Augusto Santos e volte para me dizer. E ande depressa, que minha hora está acabando.

Pedro Bala olhou para o relógio: marcava cinco e meia da manhã. O guarda demorou uns minutos, o comissário não se ocupou mais de Pedro, que estava de pé ante sua secretária. Só quando o guarda voltou e disse: Tem, sim senhor... Hoje mesmo teve no cais, mas voltou logo... – o comissário fez um gesto com a mão e falou para o guarda:

– Ponha esse moleque em liberdade Pedro pediu para ir buscar seu paletó. Acomodou debaixo do braço, nem parecia trazer a imagem envolvida nele. Atravessaram o corredor novamente, o guarda o deixo una porta. Pedro tomou para o largo dos Aflitos, rodeou o velho quartel, desabou pela Gamboa de Cima. Agora ia correndo, mas ouviu passos atrás de si. Parecia que o perseguiam. Olhou. Professor, João Grande e o Gato vinham atrás dele. Esperou que eles chegassem e perguntou curioso:

– Que é que vocês tava fazendo por estas bandas?

O Professor coçou a cabeça:

– Não vê que a gente saiu agora cedo. E velo vindo por aqui, andando sem que fazer, foi quando topou com tu, que vinha desabalado..

Pedro abriu o paletó, mostrou a imagem de Ogum. João Grande riu com satisfação:

– Como foi que tu tapeou eles?

Foram descendo a ladeira escorregadia da chuva. E Pedro Bala ia narrando as aventuras da noite. O Gato perguntou:

– Tu não teve nem um pingo de medo?

Primeiro Pedro Bala pensou em dizer que não, depois confessou:

– Pra falar verdade, tive um cagaço da desgraça...

E riu da cara gozada que João Grande fazia. O céu agora estava azul, sem nuvens, o sol brilhava e da ladeira eles viam os saveiros que partiam do cais do Mercado.






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