Capitães de Areia



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Ponto das Pitangueiras

Esperavam que o guarda andasse. Este demorou olhando o céu, mirando a rua deserta. O bonde desapareceu na curva. Era o último dos bondes da linha de Brotas naquela noite. O guarda acendeu um cigarro. Com o vento que fazia, gastou três fósforos. Depois suspendeu a gola da capa, pois havia um frio úmido que o vento trazia das chácaras onde balouçavam mangueiras e sapotizeiros. Os três meninos esperavam que o guarda andasse para poder atravessar de um lado para o outro da rua e entrar na travessa sem calçamento. O Querido-de-Deus não tinha podido vir. Toda a tarde tinha passado na Porta do Mar esperando o homem que não veio. Se ele tivesse vindo seria mais fácil, pois com o Querido-de-Deus ele não ia discutir, mesmo porque devia muita coisa ao capoeirista. Mas não tinha vindo, a informação fora errada, e o Querido-de-Deus já tinha uma viagem acertada para essa noite. Ia a Itaparica. Durante a tarde, num terreninho que havia no findo da Porta do Mar, fizeram treinos do jogo capoeira. O Gato prometia ser, com algum tempo, um lutador capaz de se pegar com o próprio Querido-de-Deus. Pedro Bala também tinha muito jeito. Dos três o menos ágil era o negro João Grande muito bom numa luta onde pudesse empregar sua enorme força física Assim mesmo aprendia o bastante para se livrar de um mais forte ele. Quando se cansaram passaram para a sala. Pediram quatro pi e o Gato sacou um baralho do bolso das calças. Um velho bar sebento, de canas muito grossas.O Querido-de-Deus afirmava o homem viria, o camarada que lhe dera a informação era um sujeito seguro. Era negócio para render muito e o Querido-de-Deus preferia chamar os Capitães da Areia, seus amigos, a um dos malandros do cais. Sabia que os Capitães da Areia valiam mais que muitos homens e tinham a boca calada. A Portado Mar estava quase deserto àquela hora. Somente dois marinheiros de um baiano bebiam cerveja ao fundo, conversando, O Gato pôs o baralho em cima da mesa e propôs:

– Quem topa uma ronda?

O Querido-de-Deus pegou no baralho:

– Tá mais que marcado, seu Gato. Um baralhinho bem velho...

– Se tu tem outro eu não me importa.

– Não. Vamos com esse mesmo.

Começaram o jogo. O Gato descobria duas cartas na mesa, os outros apostavam numa, a banca ficava com a outra. A princípio Pedro Bala e o Querido-de-Deus ganharam.

João Grande não estava jogando conhecia demais o baralho do Gato, só fazia espiar, rindo com seus dentes alvos, quando o Querido-de-Deus dizia que estava com sorte neste dia porque era o dia de Xangô, seu santo. Sabia que a sorte seria só no princípio e que quando o Gato começasse a ganhar não pararia mais. Certo momento o Gato começou a ganhar. Quando ganhou a primeira vez, disse com uma voz meio triste:

– Também já era tempo. Tava com um peso da mãe!

João Grande abriu mais seu sorriso, O Gato ganhou de novo.

Pedro Bala se levantou, recolheu os níqueis que havia ganho. O Gato olhou desconfiado: Tu não vai botar nada agora?

– Agora não que vou mijar... – e foi para os fundos do bar.

O Querido-de-Deus ficou perdendo. João Grande ria e o capoeirista se afundava. Pedro Bala tinha voltado, mas não jogava. Ria com João Grande, O Querido-de-Deus passou tudo quanto tinha ganho. João Grande disse entre dentes:

– Vai entrar no capital...

– Ainda tou perdendo – falou o Gato.

Reparou que Pedro tinha voltado:

– Tu não arrisca mais nada? Não vai na dama?

– Tou cansado de jogar... – e Pedro Bala piscou para o Gato como que dizendo que ele se contentasse com o Querido-de-Deus.

O Querido-de-Deus passou cinco mil-réis do capital. Só ganhara duas vezes durante as últimas jogadas e estava meio desconfiado. O Gato abriu o baralho na mesa.Puxou um rei e um sete.

– Quem vai? – perguntou.

Ninguém foi. Nem mesmo o Querido-de-Deus, que olhava o ar baralho muito desconfiado. O Gato perguntou:

– Tá pensando que tem treita? Pode espiar. Eu faço jogo limpo...

João Grande soltou uma daquelas suas gargalhadas escandalosas. Pedro Bala e o Querido-de-Deus riram também. O Gato olhou para João Grande com raiva:

– Esse negro é burra como uma porta. Tu não tá vendo...Mas não completou a frase, porque os dois marinheiros baiano, que já miravam o jogo há bastante tempo, se aproximaram. Um deles, o mais baixo, que estava bêbado, falou para o Querido-de-Deus:

– Pode-se entrar nesta brincadeira?

– A banca é deste moço.

Os marinheiros olharam desconfiados para o menino. Mas baixo cutucou o outro com o cotovelo e murmurou qualquer coisa ao ouvido. O Gato riu para dentro porque sabia que ele estava dizendo que seria fácil arrancar o dinheiro daquela criança. Se abancaram os dois e o Querido-de-Deus achou estranho que Pedro Bala se abancasse também. João Grande, no entanto, não só não achou estranho se abancou também. Ele sabia que era preciso tapear os marinheiros e então era necessário que a gente do grupo perdesse também. Os marinheiros, do mesmo modo que tinha acontecido com o Querido-de-Deus, começaram ganhando. Mas durou pouca a aragem da sorte e em breve só o Gato ganhava dos quatro. Pedro Bala soltava aclamações:

– Esse Gato quando tem sorte é um caso sério...

– Também, quando dá de perder, perde a noite toda – replicou João Grande e esta sua réplica deu grande confiança aos marinheiros sobre a honestidade do jogo e a possibilidade da sorte virar. E continuaram a jogar e a perder. O baixo só dizia:

– A sorte tem de virar...

O outro, que tinha um bigodinho, jogava calado e cada vez apostava mais alto. Também Pedro Bala subia o valor das suas apostas. Certa hora o de bigodinho virou pro Gato:

– A banca topa cinco mil?

O Gato coçou o cabelo cheio de brilhantina barata, aparentando uma indecisão que os companheiros sabiam que não possuía.

Vá lá. Topo. Só pra dar meio de você livrar teu prejuízo.

O de bigodinho apostou cinco mil. O baixo foi com três mil-réis. Foram ambos num ás contra um valete da banca. Pedro Bala e João Grande foram no ás também. O Gato começou a virar as cartas. A primeira era um nove. O baixo batia com os dedos, o outro puxava o bigodinho. Veio em seguida um dois e o baixo disse:

– Agora é o ás. Dois, depois um... – e batia com os dedos.

Mas veio um sete e depois um dez e então veio um valete. O Gato arrastou a mesa, enquanto Pedro Bala fazia uma cara de grande aborrecimento e dizia:

– Amanhã, quando o peso te pegar, tu vai ver que te arraso.

O baixo confessou que estava limpo. O de bigodinho meteu as mãos nos bolsos:

– Tou só com os níqueis pra pagar a cerveja. O garoto é um braço.

Se levantaram, cumprimentaram o grupo, pagaram a cerveja que tinham bebido na outra mesa. O Gato os convidou a voltarem no outro dia. O baixo respondeu que o navio deles saía aquela noite para Caravelas. Só quando voltasse. E se foram, de braço dado, comentando a pouca sorte.

O Gato contou o lucro. Sem juntar o dinheiro que Pedro Bala e João Grande haviam perdido, existia um lucro de trinta e oito mil-réis. O Gato devolveu o dinheiro de Pedro Bala, depois o de João Grande, ficou um minuto pensando. Meteu a mão no bolso, tirou os cinco mil réis que o Querido-de-Deus havia perdido anteriormente:

– Toma, batuta. Tinha trapaça, eu não quero embolsar teu cobre...

O Querido-de-Deus beijou a nota com satisfação, bateu a mão nas costas do Gato:

– Tu vai longe, menino. Tu pode enricar com essas treitas.

Mas já o sol se punha e o homem não vinha. Eles pediram outra pinga. Com o cair da tarde o vento que vinha do mar aumentou. O Querido-de-Deus começava a ficar impaciente. Fumava cigarro sobre cigarro. Pedro Bala espiava para a porta. O Gato dividiu os trinta e oito mil-réis pelos três. João Grande perguntou:

– Como teria ido o Sem-Pernas com o abafa de chapéus?

Ninguém respondeu. Esperavam o homem e agora tinham a impressão que ele não viria. A informação tinha sido errada. Não ouviam sequer a canção que vinha do mar.A Porta do Mar estava deserta e seu Felipe quase dormia no balcão. Não tardaria, no entanto, a estar cheia, e então todo acerto seria impossível com o homem. Ele não haveria de querer conversar ali com o salão cheio. Poderiam conhecê-lo, e ele não queria isto. Tampouco o queriam os Capitães da Areia. Em verdade, o Gato não sabia de que se tratava. E pouco má sabiam Pedro Bala e João Grande. Sabiam quanto sabia o Querido-de-Deus, a quem o negócio tinha sido proposto e que o tinha aceito para Pedro Bala e os Capitães da Areia. No entanto, ele mesmo tinha apenas vagas informações e iam saber de tudo pelo homem que marcara uma entrevista à tarde na Porta do Mar. Mas até as seis horas não chegou. Em lugar dele chegou o tal que tinha falado ao Querido-de-Deus. Chegou na hora em que o grupo ia sair. Explicou que homem não tinha podido vir. Mas que esperava o Querido-de-Deus à noite, na rua em que morava. Viria por volta de uma da madrugada O Querido-de-Deus declarou que não podia ir, mas que entregava o assunto aos Capitães da Areia. O intermediário mirou os meninos, desconfiado. O Querido-de-Deus perguntou:

– Nunca ouviu falar nos Capitães da Areia?

– Já, sim. Mas...

– De qualquer jeito quem ia tratar do negócio era eles. Daí...

O intermediário pareceu se conformar. Combinaram pan um da manha e se separaram. O Querido-de-Deus foi para seu barco, os Capitães da Areia para o trapiche, o intermediário desapareceu no cais.

O Sem-Pernas não havia ainda voltado. Não havia ninguém no trapiche. Deviam estar todos espalhados pelas ruas da cidade, cavando o jantar. Os três saíram novamente e foram comer num restaurante barato que havia no mercado. Na saída do trapiche, o Gato, que estava muito alegre com o resultado do jogo, quis passar uma rasteira em Pedro Bala. Mas este livrou o corpo e derrubou o Gato:

– Tou treinado nisso, bestão.

Entraram no restaurante fazendo barulho. Um velho, que era o garçom, se aproximou com desconfiança. Sabia que os Capitães da Areia não gostavam de pagar e que aquele de talho na cara era o mais temível de todos. Apesar de haver bastante gente no restaurante, o velho disse:

– Acabou tudo. Não tem mais bóia.

Pedro Bala replicou:

– Deixa de conversa fiada, meu tio. Nós quer comer.

João Grande bateu a mão na mesa:

– Senão a gente vira esse frege-mosca de cabeça pra baixo.

O velho ficava indeciso. Então o Gato bateu o dinheiro em cima da mesa:

– Hoje nós vai fazer gasto.

Foi um argumento suficiente. O garçom começou a trazer os pratos: um prato de sarapatel e depois uma feijoada. Quem pagou foi o Gato. Depois Pedro Bala propôs que fossem andando até Brotas, pois já que iam a pé tinham muito que caminhar.

– Não vale a pena tomar a taioba – disse Pedro Bala. – É melhor que ninguém saiba que a gente foi pra lá.

O Gato então disse que chegaria depois e os encontraria lá. Tinha uma coisa que fazer antes. Ia avisar a Dalva para que não o esperasse essa noite.

E agora estavam ali, no Ponto das Pitangueiras, esperando que o guarda se alistasse. Escondidos no vão de um portal, não falavam. Ouviam o vôo dos morcegos que atacavam os sapotis maduros nos pés. Finalmente, o guarda andou, eles ficaram espiando até que a sua figura desapareceu na curva que a rua fazia. Então atravessaram e entraram na alameda das chácaras e novamente se esconderam num portal. O homem não tardou muito. Saltou de um automóvel na esquina, pagou a corrida e veio subindo a alameda. Tudo o que se ouvia eram os seus passos e o rumor das folhas que o vento balançava nas árvores. Quando o homem vinha próximo, Pedro Bala saiu do portal.Os outros vieram logo depois e como que o guardavam, pareciam dois guarda-costas. O homem se aproximou mais do muro junto ao qual vinha andando. Pedro caminhava para ele. Quando estava defronte, parou:

– Pode me dar o fogo, senhor? – levava na mão um cigarro apagado.

O homem não disse nada. Sacou a caixa de fósforos, estendeu ao menino. Pedro riscou um e, enquanto acendia o cigarro, olhou para o homem. Depois, ao entregara caixa de fósforos, perguntou:

– É o senhor que se chama Joel?

– Porquê? – quis saber o homem. – Foi o Querido-de-Deus que nos mandou.

João Grande e o Gato se aproximavam. O homem mirou os três com espanto:

– Porém são uns meninos! Isso não é negócio para – Diga o que é, a gente sabe fazer o trabalho direito – retrucou Pedro Bala, quando os outros dois tinham se aproximado.

– Mas se um negócio que talvez nem homens... – e o homem pôs a mão na boca, como quem teme ter dito mais do que convinha.

– Nós sabe guardar um segredo tão bem como um cofre. E Capitães da Areia sempre faz os serviços bem feito...

– Os Capitães da Areia? Esse grupo de que falam os jornais? meninos abandonados? São vocês?

– É a gente, sim. E dos que manda.

O homem parecia refletir. Enfim se decidiu:

– Eu preferia entregar esse negócio a homens. Mas como tem que ser esta noite mesmo... O jeito...

– Vai ver como a gente sabe trabalhar. Não fique assustado.

– Venham comigo. Mas deixem que eu vá na frente. Vocês irão uns passos atrás de mim.

Os meninos obedeceram. Num portão o homem parou, abriu, ficou esperando. Veio de dentro um grande cão que lhe lambia as mãos. O homem fez os três entrarem, atravessaram uma rua de árvores, o homem abriu a porta da casa. Entraram para uma saleta, o homem pôs a capa e o chapéu numa cadeira e sentou-se. Os três estavam de pé. O homem fez sinal para que sentassem e primeiro eles miraram desconfiados as largas e cômodas poltronas. Isso Pedro Bala e João Grande, porque o Gato já estava se sentando muito a gosto, numa atitude displicente. A outro sinal do homem, Pedro e o Grande se sentaram, sendo que João Grande ficou sentado apenas na ponta da cadeira, como se temesse sujá-la. O homem tinha um ar de riso. De repente levantou-se e falou, mirando a Pedro, em quem reconhecera o chefe:

– O que vocês vão fazer é difícil e ao mesmo tempo é fácil. Agora o que tem é que é uma coisa que necessita que ninguém saiba.

– Não passa daqui – disse Pedro Bala.

O homem puxou o relógio do bolso: São uma e um quarto. Ele só volta às duas e meia... – olhava os Capitães da Areia ainda com indecisão.

– Então não é muito tempo – falou Pedro. – Se quer que a gente vá, é bom desembuchar logo...

O homem se decidiu:

– Duas ruas adiante desta. É a penúltima chácara à direita. Tem que evitar um cachorro que já deve estar solto. E bravo.

João Grande interrompeu:

– O senhor tem ai um pedaço de carne?

– Pra quê?

– Pro cachorro. Um pedaço chega.

Verei já. – Olhava os meninos. Parecia perguntar a si mesmo se devia confiar neles. – Vocês entram pelos fundos. Junto da cozinha, na parte de fora da casa, tem um quarto por cima da garagem. É o do empregado, que agora deve estar dentro de casa esperando o patrão. É no quarto dele que vocês vão entrar. Devem procurar um embrulho igual a este, igualzinho... Foi ao bolso da capa, trouxe um pequeno pacote amarrado com uma fita cor-de-rosa. – É igualzinho. Não sei se ainda estará no quarto.Também pode ser que o empregado o tenha no bolso. Se assim for, nada mais se pode fazer – e um desespero repentino pareceu tomá-lo. – Se eu tivesse podido ir esta tarde... Então, com certeza, ainda estaria no quarto.Mas agora quem sabe? – e cobriu o rosto com as mãos.

– Mesmo que esteja com o empregado se pode trazer... – disse Pedro.

– Não. É essencial que ninguém saiba que houve furto deste embrulho. O que vocês vão fazer é trocar os embrulhos, se o outro estiver no quarto.

– E se estiver com o empregado?

– Então... – e a fisionomia do homem novamente se alterou. João Grande pensou ouvir um nome que soava como Elisa. Mas talvez fosse ilusão de João Grande, que por vezes ouvia e via coisas que ninguém percebia. O negro era muito mentiroso.

– Então a gente troca os embrulhos do mesmo jeito. Pode ficar descansado. O senhor não conhece os Capitães da Areia.

Apesar do seu desespero, o homem sorriu da bravata de Pedro Bala:

– Então podem ir. Depois, tem que ser antes de duas horas, voltem aqui. Mas só quando a rua estiver deserta. Eu os esperarei. Acertaremos nossas contas então.Mas quero dizer outra coisa lealmente. Se vocês forem percebidos e presos, não me envolvam no caso Nada farei por vocês, porque meu nome não pode aparecer nisso tudo. Tratem de dar fim a este embrulho e não me chamem para nada. É ganhar ou perder...

– Neste caso – replicou Pedro Bala – é preciso marcar o preço. Quanto o senhor paga à gente?

– Dou 100$. Trinta para cada e mais 10$ para você – apontou para Pedro.

O Gato se mexeu na cadeira. Pedro fez sinal para que ele se calasse.

– O senhor dá cinqüenta a cada e parece que ainda vai fazer negócio. São 150 bicos pros três. Senão, não tem embrulho.

O homem não vacilou muito. Olhava o relógio, onde os ponteiros corriam:

– Está bem.

Aí o Gato falou:

– Não é que a gente desconfie do senhor. Mas a coisa pode sair pelo avesso e o senhor mesmo disse que não se importaria com o que acontecesse à gente.

– E daí?

– É justo que o senhor nos passe logo algum.

João Grande apoiava o Gato com um gesto de cabeça. Pedro Bala repetiu as últimas palavras do outro:

– É justo, – repetiu também o homem. Tirou uma carteira do ou uma nota de cem mil-réis. Entregou a Pedro:

– Agora toca a andar. Se faz tarde.

Saíram. Pedro Bala disse:

– Pode ficar descansado. Daqui a uma hora a gente volta com o embrulho.

Em frente da casa a rua estava completamente deserta, numa janela da casa havia luz e eles viam a sombra de uma mulher que andava de um lado para outro o Grande bateu na testa:

– Me esqueci da carne pro cachorro.

Pedro Bala estava olhando a janela com luz, se voltou: Não tem nada. Isso me cheira a coisa de amigamento. O sujeito aquele derrubava a zinha daqui e agora o empregado tem as cartas que os dois se escrevia e quer dar o alarme. Esse pacote tá com perfume. É que o outro há de ter.

Fez sinal para os dois esperarem do outro lado da rua, chegou para perto do portão da casa. Logo que se encostou, um grande cão se aproximou latindo. Pedro Bala amarrou um cordel no ferrolho do portão, enquanto o cão andava de um lado para outro, latindo baixo. Depois chamou os outros dois:

– Tu – apontou pro Gato – fica aqui na rua pra dar o alarma se vem alguém. Tu, Grande, entra comigo.

Treparam na gradezinha do muro. Pedro Bala puxou com o cordão o ferrolho e o portão abriu. O Gato tinha ido para a esquina O cão ao ver o portão aberto se precipitou para a rua, ficou remexendo uma lata de lixo. Pedro Bala e João Grande pularam o muro, cerraram o portão para que o cachorro não pudesse entrar, se adiantaram entre as árvores. Na janela iluminada da casa o vulto de mulher continuava a andar. João Grande disse baixinho:

– Tenho pena dela.

– Quem manda deitar com outros... Perto da casa o negro ficou para transmitir o aviso do Gato se viesse alguém. Tinham assovios especiais para estes casos. Pedro Bala rodeou a casa, chegou à cozinha.A porta estava aberta, como também a do quarto sobre a garagem. Porém, antes de subir a escada que dava para o quarto, Pedro espiou pela porta da cozinha. Na copa havia luz e um homem jogava paciência. “Deve ser o tal empregado”, pensou Pedro e rápido se afastou para a escada da garagem. Subiu de quatro, entrou no quarto do homem.Não havia luz. Pedro fechou a porta, acendeu um fósforo. Havia apenas uma cama, um baú e um cabide na parede. O fósforo se apagou, mas Pedro já estava em cima da cama, que co toda com as mãos. Depois viu embaixo do colchão. Tampouco nada. Desceu então da cama, se aproximou, sem fazer ruído, do baú. Suspendeu a tampa, acendeu um fósforo que prendeu nos dentes. Remexeu a roupa com cuidado, não havia nada. Cuspiu o fósforo depois se lembrou que o homem podia não fumar e então o recolheu ao bolso e foi até o cabide. Nada nos bolsos da roupa ali dependurada Pedro Bala acendeu outro fósforo, mirou todo o quarto:

– Com certeza está com o homem. Agora é que vão ser elas.

Abriu a porta do quarto, desceu as escadas. Chegou na porta da cozinha, o homem ainda estava sentado. Então Pedro Bala reparou que ele estava sentado em cima do embrulho. Aparecia uma ponta sob a perna do homem. Pedro pensou que tudo estava perdido. Como iria ele tirar o embrulho de baixo da perna do homem? Saiu da porta da cozinha, foi andando para onde estava o Grande. Só se ele e o Grande atacassem o homem. Mas aí haveria gritaria, todo mundo saberia do roubo. E o senhor que os tinha empregado não queria saber disso. De repente teve uma idéia. Chegou perto de onde tinha deixado o Grande, assoviou baixinho. João Grande apareceu logo. Pedro falou em voz muito baixa:

– Olha, Grande, o tal empregado tá sentado em riba do embrulho. Tu vai chegar na porta da rua, apertar a campainha e sumir depois. É pro homem se levantar e eu abafar o embrulho. Mas dá o suíte logo pro homem não te ver, pensar que foi sonho. Deixa passar o tempo de eu chegar na cozinha.

Voltou rápido para a porta da cozinha. Dai a um minuto a campainha soou. O empregado levantou-se às pressas, abotoou o paletó e se dirigiu para a frente da casa pelo corredor, onde acendeu uma luz. Pedro Bala penetrou na copa, trocou os pacotes e abriu para os lados da chácara. Saltou o muro, assoviou para o Gato e João Grande. O Gato veio logo. Mas João Grande não apareceu. Andaram de um lado para outro e o negro não chegava. Pedro começava a ficar impaciente pensando que o empregado podia ter surpreendido João Grande e agora estar atracado com ele. Mas quando ele passara por aqueles lados não havia escutado nenhum ruído... Disse:

Se ele demorar, a gente entra.

Assoviaram novamente, não tiveram resposta. Pedro Bala resolveu:

– Vamos entrar de novo...

Mas ouviram o assovio de João Grande, que não tardou a estar ao lado deles. Pedro perguntou:

– Onde tu te meteu?

O Gato tinha pegado o cachorro pela coleira e o punha para dentro do portão. Tiraram o cordel do ferrolho e desapareceram pelo outro lado da rua. Aí o Grande aplicou:

– Na hora que meti o dedão na campainha entonce a dama lá em cima ficou muito assustada. Pegou, abriu a janela, parecia que ia se atirar mesmo.Espiava que fazia medo. Tava mesmo chorando. Entonces eu tava com pena e trepei pela bica pra dizer a ela que não chorasse mais, que não tinha mais de quê. Que agente tinha abafado os papéis. E como tive que aplicar tudo a ela, tive que demorar...

O Gato perguntou muito curioso:

– Era boa, era?

– Era boa, sim. Passou a mão na minha cabeça, depois me disse que muito obrigado, que Deus ia me ajudar.

– Deixa de ser burro, negro. Eu tava perguntando se era boa mas pra cama. Se tu viu o coxame...

O negro não respondeu. Um automóvel entrava pela rua. Pedro Bala bateu no ombro do negro e João Grande sabia que o chefe estava aprovando o que ele fizera. Então seu rosto se abriu de satisfação e murmurou:

– Eu só queria ver acara do galego quando o patrão abrir o pacote não encontrar o que esperavam.



E, já em outra rua, os três soltaram a larga, livre e ruidosa. gargalhada dos Capitães da Areia, que era como um hino do povo da Bahia.




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