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III. O Brasil diante da crise



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III. O Brasil diante da crise

11. No Brasil, a crise econômica, embora, aparentemente, não tenha atingido até aqui a mesma intensidade que nos EUA, o governo Lula destinou, pelas mais diversas vias, cerca de 300 bilhões de reais a bancos e empresas, utilizando o BNDES e os bancos estatais para recompor, ainda que parcialmente, a oferta de crédito na economia. Este dinheiro tem como origem, principalmente, recursos dos trabalhadores (FAT e FGTS) e da caderneta de poupança. Na outra ponta, uma onda de demissões, sobretudo na indústria, varreu o país, do último trimestre de 2008 até meados de 2009. Muitas empresas que demitiram em massa, como a Embraer, não só receberam recursos e empréstimos subsidiados do governo como, depois das demissões, pagaram altos bônus a seus executivos e ainda remeteram lucros aumentados para seus acionistas no exterior. Com o aumento do desemprego e os cortes de custos pelas empresas, aumentou enormemente a pressão sobre os trabalhadores para a intensificação do ritmo de trabalho e de sua produtividade, com o objetivo de recompor a taxa de lucro, que caiu em todos os setores da economia.

12. Ainda que estejam dadas as condições objetivas para um forte movimento dos trabalhadores na defesa de suas condições de trabalho e vida frente aos efeitos da crise, subjetivamente há obstáculos a vencer. No Brasil, no segundo semestre de 2009, ocorreram uma série de importantes greves. Grandes categorias, como metalúrgicos, bancários, petroleiros, operários da construção civil e trabalhadores dos Correios, dentre outras, cruzaram os braços, saíram às ruas em defesa de seus salários e direitos e tiveram de enfrentar, não apenas a patronal e o Estado, mas também a burocracia sindical da CUT e da CTB. Essas greves fizeram os trabalhadores experimentarem concretamente o verdadeiro papel que é hoje exercido pela burocracia sindical destas centrais, que utilizaram todos os meios a seu alcance para enfraquecer o movimento, desmobilizá-lo e obrigá-lo a ceder a propostas rebaixadas, seja da patronal, seja do governo. Não poderia ser de outro modo: a burocracia sindical encastelada nestas centrais já deixou há muito tempo de representar os trabalhadores da base. Sua sustentação material depende cada vez menos da contribuição dos sindicatos de base e cada vez mais dos polpudos recursos recebidos pelas mais diversas vias, seja do capital, seja do próprio Estado. Seu apoio político e a participação de muitos de seus quadros no governo Lula faz com que esta burocracia, apoiada pelo governo e pela patronal e motivada por interesses materiais e políticos alheios à classe trabalhadora, esteja se especializando em toda espécie de manobras, fraudes, dissimulações e subterfúgios para impedir que os trabalhadores se mobilizem e venham a se chocar com o governo. Sua dependência em relação ao aparelho de Estado se manifesta nos mais de cem milhões de reais que elas recebem em imposto sindical, recursos do FAT e toda uma série de convênios e contratos celebrados com os mais diversos órgãos do Estado, e nos postos de poder que a burocracia sindical detém em diversos órgãos e conselhos do Estado. Seus laços diretos com a patronal se estabelecem, publicamente, não só em sua participação em conselhos do Sistema S e pela celebração de convênios e contratos de todo tipo, mas, também, notadamente no caso da CUT, pela via do controle que esta burocracia tem dos principais fundos de pensão do país, que hoje detêm, como sócios do capital, mais de 240 bilhões de reais investidos no mercado financeiro, na dívida estatal e na propriedade ou no controle acionário das maiores empresas do país.

13. Com a valorização do real, o fluxo de capitais especulativos, o crescimento do déficit nas contas externas, a queima das reservas cambiais e o aumento das importações, estão presentes as condições objetivas para um processo de desindustrialização do país. Com a retração do crédito, do emprego e do investimento, a queda da arrecadação fiscal e dos gastos e investimentos do Estado e o aumento do estoque da dívida pública, o crescimento econômico do país pode estar comprometido nos próximos anos. Ainda assim, como já ocorreu outras vezes, o governo pode utilizar todos os meios a seu alcance para deslocar a manifestação mais contundente dos efeitos da crise econômica sobre o país para depois das eleições. Como os movimentos e tendências acima indicadas ainda estão em formação e a economia brasileira não foi, até aqui, atingida pela crise nas mesmas proporções que as principais economias do mundo, seus efeitos ainda não chegaram a afetar o prestígio do governo Lula, mas devem colocar grandes dificuldades para qualquer governo que venha a ser eleito em 2010. Apesar de se julgar ancorado em seus altos índices de popularidade, Lula encontra dificuldades para transferir seus votos para Dilma Roussef (PT) nas eleições presidenciais de 2010, além de ter de enfrentar, na base do governo, o obstinado empenho de Ciro Gomes (PSB) em viabilizar sua candidatura, o desgaste e os votos perdidos que podem representar o lançamento da candidatura de sua ex-Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (PV). Para tornar irreversível a candidatura de Dilma, o governo e o PT buscam fechar todos os espaços e selar o mais amplo arco de alianças, empenhando-se, antes de tudo, em fechar acordo com o PMDB. O amplo arco de apoio que se busca formar em torno da candidatura governista, vai da arcaica base ruralista e das velhas oligarquias regionais agrupadas no PMDB à FIESP e ao PC do B; às mais diversas legendas de aluguel da burguesia, à base sindical e social da CUT e da CTB. O objetivo de uma tão ampla coalizão é conquistar o apoio da maior parte da burguesia e de seus meios de comunicação e da grande maioria das organizações, lideranças e direções do movimento social e sindical, além de tentar ocupar a maior parte do tempo e do espaço na propaganda eleitoral. A oposição, diante das altas taxas de popularidade do governo, ainda não definiu quem será seu candidato. A oposição de esquerda, até o momento, sem um nome de consenso para entrar na disputa, enfrenta dificuldades para que o espaço à esquerda seja ocupado pelas forças políticas que protagonizam o processo de reorganização da classe trabalhadora desde o início do governo de frente popular de Lula. São as dificuldades deste panorama econômico e político que as forças da classe trabalhadora terão que enfrentar a fim de avançar na sua organização e na luta pelas suas pautas.






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