Bullying enquanto elemento socializador juvenil1 Jamile Guimarães



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Palavras-chave: bullying; gênero; socialização; juventude; meninas
INTRODUÇÃO

A violência entre pares, conhecida pelo termo bullying, tem adquirido crescente visibilidade com o aumento da incidência de suas manifestações. Tradicionalmente, o bullying é caracterizado por comportamentos agressivos, intencionais e repetidos ao longo do tempo, que ocorrem entre pares e sem motivação evidente. É executado em uma relação desigual de poder que torna possível a intimidação por um indivíduo ou um grupo, seja pela diferença de idade, força física, classe social ou raça (Fante, 2005; Olweus, 2004).

Classificado em diferentes tipos que incluem físico, verbal, relacional e cyber, o bullying desdobra-se em múltiplas formas de vitimização e de contexto. Para além da generalidade ou da categorização de formas, outros determinantes definem e particularizam esse fenômeno. Dentre esses, há que considerar as questões de gênero, com vistas a compreender o interjogo de valores culturais, expectativas sociais e os ditames normativos, dotados de força para definir um referencial específico de condutas, que resultam dessa dinâmica.

Desde as pesquisas pioneiras de Olweus (2004), focalizou-se apenas os indivíduos do sexo masculino, pois considerava-se que este fenômeno ocorria com muito mais frequência neste grupo. Em parte, isso foi uma consequência das primeiras conceituações de bullying serem restritas às agressões físicas, mais comumente praticadas por garotos. Com a ampliação da definição para incluir formas indiretas, descritas como relacionais, sociais ou dissimuladas, tornou-se evidente que as meninas se envolviam mais frequentemente em tais formas de intimidação, e que os efeitos destas eram tão devastadores quanto os outros tipos (Bandeira; Hutz, 2012).

Crick e Grotpeter propuseram o termo “agressividade relacional” para designar as ações de bullying cometidas pelas meninas, definindo-o como “a manipulação deliberada feita com a intenção de prejudicar a amizade ou o sentimento de aceitação de outra criança dentro de um grupo social” e “frustrar ou prejudicar os objetivos que são valorizados pelos seus respectivos grupos de pares” (1995, p. 710-711). Já Galen e Underwood, aproximando-se de uma discussão sobre estruturas de poder, descreveram a “agressão social” como um comportamento “direcionado para danificar a autoestima, status social, ou ambos, de outrem, podendo tomar as formas diretas como a rejeição verbal, expressões faciais negativas, ou movimentos de corpo, ou formas mais indiretas, como calúnias ou exclusão social” (1997, p. 589).

Observa Veiga-Neto (2002) que a importância dos sentimentos de pertença se situa na possibilidade de conceder a cada qual uma posição de maior ou menor atuação dentro de um grupo. Mas pertencer a um grupo é um processo que não se configura apenas pelas afinidades entre pares, mas também pela não adesão a determinados grupos, e até mesmo pela manifestação de repulsa a alguns deles.

Na escola, o processo de sociabilidade é contraditório, marcado pelas muitas diferenças sociais e culturais entre os sujeitos, oriundas dos distintos “mapas de significação” resultantes de variados contextos sociais, trajetórias e valores vividos (Pais, 2006). O cotidiano escolar torna-se, então, um espaço complexo de interações que evidenciam a demarcação de posições sociais e a manutenção de fronteiras entre os diferentes grupos.

Palmonari et al. (1992) assinalam que os sujeitos tendem a adotar estratégias de maximização das diferenças entre o ingroup e o outgroup, de modo a assegurar a distintividade positiva do grupo, enquanto processo que está na base da proteção, preservação e acentuação da sua identidade social. As diversas formas de usos e apropriações dos espaços propiciam o “desenvolvimento de tensões e conflitos, latentes ou abertos, entre éticas estruturais tradicionais e novos horizontes sociais de realização individual” (Pais, 2003, p. 14).

Neste trabalho, parte-se do pressuposto de que as relações de conflito comporiam uma forma de sociabilidade assentada em um jogo de diferenças e oposições. Neste processo, o bullying atua como mecanismo cultural estruturador de normalização e classificação dos sujeitos, que cumpre um papel importante no controle como prática e discurso de vigilância, controle e punição de condutas socialmente reprovadas. Para tanto, este trabalho analisa o bullying como uma forma de interação conflituosa entre pares, em que são coproduzidas categorias de identidade de gênero.
MÉTODO

Esta pesquisa é um estudo etnográfico realizado em duas escolas públicas do segundo ciclo do ensino fundamental (6º a 9° anos), de duas capitais brasileiras, São Paulo e Salvador, no ano letivo de 2014. Estas cidades encontram-se em regiões distintas do país, com fortes diferenciações culturais e socioeconômicas.

A pesquisa de campo utilizou como técnicas metodológicas a observação participante, conversas informais individuais e grupais com estudantes de ambos os sexos e entrevistas em profundidade com garotas entre 11 e 15 anos. Para abarcar diferentes pontos de vista sobre a questão em estudo, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os diretores de ambas as escolas, um vice-diretor, seis professores e as quatros inspetoras de disciplina das unidades de ensino investigadas.



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