Bom envelhecimento



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Bom envelhecimento”, independência e saúde: influências e divergências presentes no programa social Centro Dia e Centro de Convivência.

Beatrice Cavalcante Limoeiro1


Resumo

Este trabalho tem por objetivo compreender como velhice, saúde, cuidado e as moralidades e/ou normatividades elaboradas para esta fase da vida socialmente construída estão sendo compreendidas e praticadas por diferentes atores presentes no programa Centro Dia e Centro de Convivência. Este programa é um espaço anexo ao Hospital Estadual Eduardo Rabello, um hospital especializado em atendimento geriátrico, localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O local apresenta duas modalidades de centros para idosos: Centro Dia, local de reabilitação, promoção e prevenção em saúde; e Centro de Convivência, local de sociabilidade e lazer. O programa visa atingir pessoas com 60 anos ou mais em situação de fragilidade ou vulnerabilidade física, mental ou social. Existe uma disputa entre os saberes dos profissionais da área da saúde e as vontades do usuário, relacionada ao que é melhor para o idoso e quem o sabe. Significa saber quais as atitudes, atividades e receitas trarão um envelhecimento mais saudável e de maior qualidade.


Palavras-chave: Saúde; Envelhecimento; Corpo; Cuidado.
INTRODUÇÃO
Inserido em um contexto amplo de uma atual preocupação científica e política com o envelhecimento, está o objeto de investigação desta: o Centro Dia e Centro de Convivência (CD/CC) para idosos do Hospital Estadual Eduardo Rabello (HEER), um hospital geriátrico, localizado em Campo Grande, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, Brasil. No programa, que funciona em um espaço anexo ao hospital, pessoas consideradas idosas, acima dos 60 anos2, frequentam e participam de diversas atividades (realizadas em grupo ou individualmente), de segunda à sexta, das 8 às 16 horas. As atividades podem ser terapêuticas, de caráter de prevenção e esclarecimento sobre questões de saúde, e também com objetivo de lazer.

O programa foi criado em 1998 e reúne duas modalidades de Centros para idosos no mesmo lugar. O Centro Dia pressupõe um programa de atenção, prevenção e cuidados diários aos seus usuários, uma alternativa de acompanhamento para idosos que possuem alguma fragilidade física ou mental, e que não podem mais permanecer sozinhos em suas casas. Já o Centro de Convivência possui um caráter opcional, uma alternativa de lazer, aprendizado e sociabilidade. No entanto, não existe separação formal entre as duas modalidades.

A criação do programa pode ser compreendida como uma solução para o problema social da velhice. Cada sociedade, em determinado momento, elabora seu próprio corpo de problemas sociais legítimos, dignos de serem discutidos, públicos, oficializados e, por vezes, garantidos pelo Estado (LENOIR, 1988). A velhice é um destes “problemas” legítimos atualmente na sociedade brasileira, vide as tentativas governamentais em delimitar e atender o que seriam demandas daqueles que vivem esta realidade socialmente construída.

Se no primeiro momento do surgimento da velhice como um problema social ela aparece como alvo de caridade, uma fase de vida repleta de necessidades a serem sanadas pelo Estado e sociedade, em um segundo momento esta visão vai se transformando e vai se retirando do Estado a responsabilidade sobre as “mazelas” da velhice e colocando-a no indivíduo. A partir deste momento, o Estado passa a se empenhar não apenas em solucionar os problemas associados à velhice, mas em educar e disciplinar o indivíduo para que seja independente dos cuidados do Estado, e, desta forma, seja também menos dispendioso para o mesmo.

Para Guita Grin Debert (1999) este processo aponta para uma reprivatização da velhice, isto é, seria um processo de responsabilização do indivíduo com relação aos seus autocuidados (ou a falta destes), sobre o sucesso ou fracasso de seu envelhecimento. Neste contexto, o indivíduo é responsável pelo seu envelhecimento, que deverá ser ativo, produtivo e saudável. É preciso que se mude a ideia da velhice como um momento de limitações, para que este seja visto positivamente pelo indivíduo. Assim, ele poderá viver o que se considera um “envelhecimento ativo”, isto é, tornando-se o principal responsável pelo “sucesso” desta etapa de sua vida, o que, neste caso, significa permanecer saudável, ocupado e não aparentar ter envelhecido.

O objetivo desta pesquisa é compreender, através do cotidiano e funcionamento do local, como o envelhecimento está sendo representado, gerido e vivenciado por funcionários e usuários do Centro Dia e Centro de Convivência. Neste sentido, foi necessário compreender: quais valores sobre o processo de envelhecimento e sobre saúde estariam sendo utilizados no momento de concepção e percepção da necessidade da criação de um espaço como este?

Quem são os gestores e funcionários do programa, o que pensam a respeito do que é a velhice, saúde para a mesma e sobre funcionamento do Centro, das atividades realizadas no local? Como é o cotidiano do local? Como se dão as relações entre funcionários e entre funcionários e usuários? Quais as possíveis disputas de poder, conhecimento e legitimidade que estão em jogo no local?

Outro objetivo aqui proposto é compreender quem são os indivíduos que utilizam este espaço. Quais são suas motivações para frequentar o local, como representam esta experiência e como é a sua participação nas atividades? Pretendo compreender se a participação em um programa estatal, elaborado e pensado por gestores públicos, influencia ou não o cotidiano destes indivíduos enquadrados na categoria de idosos.

Para atingir estes objetivos, realizei trabalho de campo que teve início em fevereiro de 2013 e término em agosto do mesmo ano, totalizando sete meses frequentando o local de duas a três vezes por semana, permanecendo desde o início até o encerramento do funcionamento.

Observei a rotina praticada, participei das atividades propostas, conversei com usuários e funcionários e realizei trinta e uma entrevistas em profundidade (com perguntas abertas e duração aproximada de uma hora) com os pesquisados que concordaram em participar da pesquisa (vinte e uma entrevistas com usuários e dez com funcionários). Registrei também em meu caderno de campo as informações sobre o funcionamento cotidiano, práticas e comportamentos, que pude ter acesso ou captar durante a pesquisa no campo.

DESCRIÇÃO DO CENTRO DIA E CENTRO DE CONVIVÊNCIA
A região administrativa de Campo Grande, onde está situado o Centro Dia e Centro de Convivência, é atualmente considerada a segunda mais populosa da cidade do Rio de Janeiro, segundo os resultados do mais recente censo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com 542.084 habitantes, sendo 63.355 destes maiores de 60 anos3.

A região ocupa a 22ª posição dentre as 32 regiões administrativas analisadas da cidade do Rio de Janeiro em relação ao índice de desenvolvimento humano4 (IDH) com índice de 0,7925. O IDH-Longevidade (IDH-L) é de 0,728, IDH-Educação (IDH-E) é de 0,922 e IDH-Renda (IDH-R) com índice de 0,727. Estes índices, em relação às demais regiões da cidade, demonstram que Campo Grande está longe de ser considerada uma área privilegiada da mesma.

As características desta região, que vem apresentando ao longo das últimas décadas forte expansão urbana, comercial e populacional - e em conjunto com esta expansão vem assistindo ao envelhecimento de sua população -, mas que também possui uma população de baixa renda e escolaridade, parecem ter despertado a atenção das autoridades governamentais, que em 17 de novembro de 1973 inauguram o Hospital Eduardo Rabello. Implantado no bairro de Senador Vasconcellos, este hospital foi o primeiro planejado, arquitetado e construído para atendimento geriátrico especializado na América do Sul.

O programa visa atingir pessoas com 60 anos ou mais em situação de fragilidade ou vulnerabilidade física, mental ou social, assim como consta no projeto do programa, que será tratado mais detalhadamente à frente. Os critérios para diagnóstico destas fragilidades são definidos pelos especialistas: assistentes sociais, na maioria dos casos, que avaliam se o idoso está ou não apto a se cadastrar como usuário do Centro Dia e Centro de Convivência.

Durante as entrevistas com profissionais do programa pude perceber que ao falar sobre as fragilidades e riscos identificados por estes nos idosos do lugar, eles estavam falando também sobre as suas representações da velhice, sobre o que ela é e quais características geralmente apresenta, como: depressão, solidão, fragilidade física e/ou mental e ociosidade. Neste sentido, o idoso é visto como um sujeito de faltas e necessidades.

No período de realização da minha pesquisa, o Centro Dia e Centro de Convivência tinha 208 usuários cadastrados no total, que alternavam os dias de presença. Os usuários, na maioria dos casos, são aposentados e moradores de Campo Grande ou redondezas que compõem a Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, e que possuem populações com características semelhantes às da região administrativa de Campo Grande. Além disto, também pude perceber uma forte influência e presença da religião cristã evangélica no local.

No espaço é possível identificar também idosos de diversas idades. As idades podem variar de 60 (a idade mínima) até os 90 anos. Isto revela a heterogeneidade de velhices que compõem o espaço.

O Centro Dia e Centro de Convivência tem como corpo profissional basicamente dois tipos de funcionários: os técnicos e os administrativos. O corpo técnico é composto de enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, massoterapeutas, assistentes sociais, nutricionistas. O corpo administrativo é formado por profissionais responsáveis pela coordenação e administração do programa, além dos setores de alimentação, limpeza, segurança e atendimento ao público.

As atividades do programa, que têm participação opcional, podem ser coordenadas pelos profissionais do local, como a Oficina da Memória, Oficinas de Alongamento e Pa Tuan Chin6, Oficina de Dança Sênior, dentre outras7; ou podem ser organizadas pelos próprios usuários, como é o caso do grupo musical e dos três grupos de artesanato. O programa também oferece três refeições diárias (café, almoço e lanche), eventos comemorativos e passeios esporádicos.

A prevenção e a socialização aparecem como os principais objetivos do programa Centro Dia e Centro de Convivência, e podem ser compreendidas como cuidado, no sentido de engajamento, atenção para com o outro, para manter, preservar e reparar a saúde destes idosos (MOL, 2008), e portanto, como uma parte mais humana e não tradicional do tratamento médico.

Ao mesmo tempo em que uma medicina mais focada em terapias e prevenção é uma forma de resistência ao monopólio da biomedicina, David Le Breton (2011) afirma que o surgimento destas áreas alternativas de saúde contribui para tornar a preocupação com a mesma a “pedra angular” da modernidade, perpetuando, portanto, a noção de que todo indivíduo é um potencial doente ou um doente a se prevenir.


AS VELHICES E O COTIDIANO NO CENTRO DIA E CENTRO DE CONVIVÊNCIA
No programa existem dois tipos de velhice: a semi dependente, relacionada à modalidade Centro Dia e a independente, relacionada ao Centro de Convivência. Estes modelos são compreendidos e classificados através do grau de capacidade funcional do corpo e mente do idoso.

Fala-se, neste sentido, de etapas de decadência da saúde que podem ou não ser experimentadas por estes indivíduos idosos. Para os profissionais técnicos do programa Centro Dia e Centro de Convivência, existe uma necessidade de conter e controlar a evolução destas etapas. Daí a necessidade de se prevenir diante da chegada de doenças, através de quaisquer atividades, estilos de vida, comportamentos e procedimentos que possam ser eficazes para tal.

Pensar nas diferentes representações sobre a velhice que compõem o programa é pensar também nas heterogeneidades e diferentes possibilidades da velhice. Como já demonstraram diversos estudiosos do envelhecimento (DEBERT, 1999; MOTTA, 2002; ALVES; LINS DE BARROS, 2012;), a experiência de envelhecer não é homogênea, isto é, pode apresentar diversas e diferentes características e necessidades. No sentido contrário de uma tendência identificada por Guita Grin Debert (1999), a velhice dependente e fragilizada não é invisibilizada, neste caso específico do programa. Esta velhice existe, está presente e é vista como uma realidade para usuários e funcionários do programa. No entanto, ela não é valorizada, ao contrário, é preciso que se faça tudo para evitá-la.

Em geral, ao chegar ao Centro Dia e Convivência, e após pegar seu crachá e assinar presença com a recepcionista do local, a primeira atividade do programa é a primeira refeição, o café da manhã, realizado no refeitório. Após o café da manhã, os idosos começam a ir aos poucos para a sala da enfermagem. Após a visita à equipe de enfermagem, o usuário fica livre para escolher o que quer fazer. Algumas usuárias vão para as salas onde confeccionam suas peças de artesanato, outros usuários participam das oficinas propostas pelos profissionais técnicos, outros ficam sentados ao longo do amplo corredor do galpão, conversando, assistindo televisão ou apenas observando o movimento do local.

Considerando a fala de uma das criadoras do programa, quando diz que na prevenção da saúde do idoso precisam ser trabalhados: corpo, memória e emoção, podemos interpretar que a modalidade Centro Dia (e seus profissionais técnicos) tenta atender a estes quesitos através de suas oficinas. Já o quesito sociabilidade, citado diversas vezes pelos profissionais do programa como um principal objetivo do mesmo, seria atendido através das atividades da modalidade Centro de Convivência.

Embora a modalidade Centro Dia tenha como missão atender a estes três elementos da vida do idoso - corpo, memória e emoção -, pode-se perceber que no cotidiano de atividades do programa o corpo e a memória aparecem como questões privilegiadas. As oficinas que trabalham estas áreas estão em maior número e acontecem mais vezes durante a semana (de duas a cinco vezes), contando com certa variedade de oficinas e profissionais.

Com o objetivo de trabalhar o aspecto do corpo, existe a Oficina de Alongamento e Pa Tuan Chin, a primeira atividade que tive oportunidade de acompanhar no Centro Dia e Centro de Convivência. Esta oficina é realizada por uma massoterapeuta - com o auxílio de uma terapeuta ocupacional - que trabalha cerca de vinte e um anos no hospital e atua há cinco anos exclusivamente no Centro Dia e Convivência.

A atividade ocorre normalmente às terças-feiras, pela manhã, de 9:30 às 11 horas e conta com número mais expressivo de mulheres (de 10 a 20), do que de homens. A atividade é composta por exercícios propostos pelas profissionais. De pé e posicionadas em roda, as usuárias imitam os movimentos demonstrados por estas. Os movimentos são podem ser alongamentos das articulações dos braços, dedos, punhos, pernas, joelhos e coluna, cada um realizado por vez. Primeiro os braços, depois dedos, punhos, e assim por diante.

Em cada movimento existe um tempo para permanecer trabalhando aquela determinada região do corpo. Durante este tempo, as profissionais vão passando pela roda e intervindo diante de cada usuário que não esteja realizando corretamente o movimento. As profissionais advertem: “estica mais o corpo”; “assim não, deste jeito”, enquanto as usuárias se entreolham, comparam, comentam, riem e brincam umas com as outras sobre a dificuldade ou o prazer de se realizar cada movimento em cada parte do corpo.

Outra importante atividade do programa é o grupo musical, que tem caráter de Centro de Convivência e os objetivos de proporcionar lazer e sociabilidade para os usuários. Os ensaios ocorrem toda quinta e sexta-feira e nos dias de festa o grupo está sempre presente, fazendo apresentações.

O grupo é composto por um usuário chamado por todos de Maestro, que coordena, organiza e rege o grupo; uma banda, composta por 5 homens, que tocam instrumentos de percussão - como reco-reco, pandeiro, tambor, bumbo, por exemplo - e violão; e pelo coral composto por cerca de 30 vozes femininas.

Os idosos que compõem o grupo da música são conhecidos por ser “um público diferenciado”. O grupo é composto por idosos independentes e que não apresentam quadro de fragilidade física ou mental, são conhecidos por um comportamento boêmio, pois não gostam de participar das atividades voltadas para Centro Dia, para prevenção.

Os funcionários do local classificam este grupo como os “idosos danadinhos”, “saidinhos”, pois se ocupam mais em cantar, tocar, dançar, e não realizam as atividades terapêuticas, consideradas saudáveis e benéficas segundo os especialistas em saúde. O que não significa que estes profissionais não achem também benéfico, de certa forma, a participação do usuário no grupo musical. No entanto, não consideram que a permanência do usuário apenas nesta atividade, além da não realização das atividades preventivas para saúde, vá resultar em um envelhecimento saudável no futuro desde idoso.

SAÚDE, CUIDADO E AUTONOMIA: O QUE É O “BOM ENVELHECIMENTO”?


Existem constantes embates, disputas e contradições sobre o uso devido ou correto do espaço. Este embate se dá principalmente entre funcionários (principalmente técnicos) e usuários sobre o que é mais adequado para o idoso fazer no programa.

A disputa entre os saberes dos profissionais da área da saúde e as vontades do usuário está também relacionada ao que é melhor para o idoso e quem o sabe. Significa saber quais as atitudes, atividades e receitas trarão um envelhecimento mais saudável e de maior qualidade de vida ao usuário. Pode-se entender que a maior preocupação da equipe técnica do programa é com a funcionalidade biológica do usuário. Através de suas propostas e atividades de adoção de um estilo de vida mais ativo, os profissionais tentam tornar o usuário o mais independente funcionalmente o possível. Desta forma, seriam capazes de realizar suas atividades diárias sem a ajuda de terceiros.

Para envelhecer bem e ter qualidade de vida, na visão destes profissionais, é primordial que haja uma preocupação anterior a respeito da saúde e das perdas neste âmbito que a velhice pode trazer. Para os usuários, ter qualidade de vida e ser saudável têm outros significados, como se sentir bem, fazer o que gosta e não se preocupar, por exemplo.

Segundo Eneida Gonçalves de Macedo Haddad (1986) existe um trabalho pedagógico da parte dos especialistas sobre o envelhecimento, ou os “ideólogos da velhice”, para fazer com que os idosos, até então vistos como “maiores abandonados”, consigam sua autonomia. Isto será possível desde que sigam as soluções propostas por estes especialistas. Estas receitas envolvem: ser mais ativo, ocupar-se de atividades preventivas, buscando sua independência física e também financeira8.

No entanto, no cotidiano do programa nem sempre se abrem espaços para o usuário fazer valer seus desejos. Muitas vezes a independência e o comportamento questionador e reivindicador do usuário é visto como um problema. Para ser independente e ter um bom envelhecimento, é preciso fazer o que é recomendado pelos especialistas na área da saúde. Quando a independência do usuário é utilizada para questionar o funcionamento do programa ou para realizar atividades que não são consideradas saudáveis pela equipe técnica, a mesma não é vista positivamente.

Além disto, o Centro Dia e Centro de Convivência está repleto de usuários que não seguem à risca a ideia da preocupação constante ou preventiva com a saúde; ou que aprenderam tão bem a serem ativos e participativos em relação ao serviço que questionam o funcionamento e as atividades do programa e se tornam um problema dentro da instituição.

Existe uma influência destas normatividades e representações, sobre o que é e como deve ser a velhice, na vida, cotidiano e práticas dos idosos deste campo. Não há dúvida de que, de alguma forma, a experiência de envelhecer é afetada pela participação no programa e pelo contato com estas ideias sobre uma nova e valorizada imagem sobre o envelhecimento. O fato de existir um lugar em que possam ser acolhidos, cuidados e valorizados como idosos parece ser um fator importante para a vivência de suas velhices. Exemplo desta influência está na gratidão que os usuários sentem em relação àqueles que oferecem o serviço do cuidado e no desejo de serem reconhecidos como idosos, assim como foram orientados por estes profissionais.

No entanto, a preocupação e um desejo de se manter em bom estado de saúde não parece ser a principal motivação destes idosos para ir ao Centro Dia e Centro de Convivência ou aquilo que mais buscam ou esperam do serviço. Os usuários falam em: sociabilidade, amizade, alegria, brincadeiras, risos, música, dança, festas, distração e lazer.

A minha hipótese para entender como a saúde é importante, mas não central na vida destes usuários, é de que não faz sentido para estes viver mais anos ou estar saudável sem que haja significado nesta existência. Ocupar-se de algo que tenha significado é qualidade de vida para estes idosos. Não é o cuidado com a saúde, neste caso, que dá sentido às suas vidas, mas as amizades, a sociabilidade, distração, lazer que encontram através do programa.

O que dá sentido à velhice destes usuários é estar em um local onde possam fazer o que gostam ou o que já estavam acostumados a fazer: artesanato e música, por exemplo. Além de um lugar de acolhimento e segurança, para estes usuários o espaço é também um lugar de distração, onde podem esquecer seus problemas e preocupações, e fazer aquilo que lhes dá prazer: conversar, cantar, dançar, tocar, costurar, criar, e brincar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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