BeléM 2013 andré benassuly arruda


Analisando documentos: tramas entre poderes e saberes em corpos anônimos



Baixar 1,22 Mb.
Página49/60
Encontro01.12.2019
Tamanho1,22 Mb.
1   ...   45   46   47   48   49   50   51   52   ...   60
4.8 Analisando documentos: tramas entre poderes e saberes em corpos anônimos
Dialogando com as precauções metodológicas foucaultianas, procuramos, entre a miríade de textos e documentos reunidos nos prontuários, aqueles que não se relacionassem unicamente com memórias, lembranças, divagações, descrições e história de vidas dessas adolescentes, mas os textos que continham
[...] o maior número de relações possíveis com a realidade: não somente que a ela se referissem, mas que nela operassem, fossem uma peça da dramaturgia do real [...] um episódio em uma batalha [...] uma ordem [...] textos que desempenharam um papel nesse real do qual falam, e que se encontram, em contrapartida, não importa qual seja sua exatidão, sua ênfase ou sua hipocrisia, atravessados por ela: fragmentos de discurso carregando os fragmentos de uma realidade da qual fazem parte [...] (FOUCAULT, 2010f, p.207).
Nessa perspectiva e coadunando com os apontamentos feitos sobre a História Nova, no primeiro capítulo, trabalhamos com documentos, que, longe de falarem de personagens famosos, heroicos ou históricos, de grande riqueza, de “berço de ouro”, santificados etc., como era o esperado na historiografia tradicional, aludem a essas “[...] existências destinadas a passar sem deixar rastros [...]” (FOUCAULT, 2010f, p. 207), mas que unicamente nos são possíveis de serem conhecidas por esses registros de suas vidas, registros esses possíveis, por sua vez, em função de um “clarão”, um “feixe de luz” que se sobrepôs ao anonimato dessas existências, isto é, devido a encontros, melhor dizer, choques com o poder. Na verdade,
[...] sem esse choque, nenhuma palavra, sem dúvida, estaria mais ali para lembrar seu fugidio trajeto. O poder que espreitava essas vidas, que as perseguiu, que prestou atenção, ainda que por um instante, em suas queixas e em seu pequeno tumulto, e que as marcou com as suas garras, foi ele que suscitou as poucas palavras que disso nos restam [...] (FOUCAULT, 2010f, p.207).
Portanto, não foi nosso objetivo em momento algum das fases desta pesquisa confeccionar narrativas sobre as trajetórias de vida e aspectos representativos das adolescentes, a partir do que, através das tecnologias de extração de confissão e de produção de verdade, havia sido produzido e registrado nos documentos da unidade. Também não foi nosso intuito produzir mais confissões e jogos de representações sobre si mesmas e acerca das práticas desenvolvidas na unidade.

O que tentamos identificar, descrever, reunir e analisar foram momentos em que a vida de pessoas consideradas em conflito com a lei disparou discursos de poder ou por eles foi atravessada. Nas séries de análise que serão apresentadas e problematizadas adiante, sobre discursos técnicos concernentes a jovens corpos acautelados, se “[...] remete exatamente ao que deles foi dito, do que eles foram ou que fizeram nada subsiste [...]” (FOCAULT, 2010f, p. 209). Não intentamos recuperar, na análise documental, as vidas das adolescentes nelas próprias, em sua essência, em tentativas de reconstrução dessas vidas, pois “[...] só podemos balizá-las [...] nas parcialidades táticas [...] nos jogos de poder e nas relações com ele” (FOUCAULT, 2010f, p.208) e materializados nos documentos.






Compartilhe com seus amigos:
1   ...   45   46   47   48   49   50   51   52   ...   60


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal