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Algumas considerações sobre a juventude na modernidade



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2.3. Algumas considerações sobre a juventude na modernidade

O pesquisador francês Philippe Ariès (1981), em sua obra História Social da Criança e da Família, interroga o conceito ou a ideia que se tem da infância e busca demonstrar que estes foram historicamente construídos e que a criança, por muito tempo, não foi vista como um ser em desenvolvimento, com características e necessidades próprias, porém, como um adulto em miniatura.

Com efeito, se no fim do século XVI e início do XVII, a infância ainda era praticamente ignorada como uma fase especial de desenvolvimento distinta dos demais ciclos da vida humana, mudanças radicais nos séculos seguintes foram produzidas, como veremos a seguir.

As crianças seriam tidas como seres produtivos e substituíveis com funções utilitárias para a sociedade, pois, a partir dos sete anos de idade, eram inseridas na vida adulta e se tornavam úteis na economia familiar, realizando tarefas, imitando seus pais e suas mães, acompanhando-os em seus ofícios, cumprindo, assim, seus papéis perante a coletividade.

As crianças antes cresciam em um ambiente social com maiores liberdades de comportamento e de locomoção. Brincadeiras e condutas de cunho sexual eram mais toleradas entre crianças e adultos. Para o autor supracitado, não havia um sentimento de respeito à condição de infantes, nem se acreditava na inocência destes, da maneira como lhes atribuímos, na modernidade.

Os locais de habitação eram indiferenciados, não havendo espaços separados entre crianças e adultos. Elas ouviam e viam tudo o que se passava no mundo dos adultos. O uso da mesma cama era hábito comum em todas as camadas sociais, sendo a liberdade de linguagem também natural naquela época.

Posteriormente, as crianças foram concebidas como seres cheios de fragilidades e começaram, principalmente durante o período do Romantismo, a serem comparadas com os anjos. Dentro de uma concepção moral da infância, passou-se a associar sua fraqueza com inocência, na medida em que refletia a pureza divina da criança.

A educação veio a ser vista como uma das obrigações humanas mais importantes, de sorte que espaços educacionais começaram a proliferar. Se antes as crianças conviviam misturadas com os adultos e grande parte de seus aprendizados provinha de suas experiências comunitárias indiferenciadas, elas foram progressivamente separadas dos adultos, tanto a partir dos novos modelos escolares, quanto no espaço familiar, por uma nova organização espacial da casa. Tais transformações tiveram seus momentos fundamentais entre os séculos XVII e XVIII.

Em ambas as séries, a casa e as escolas, práticas disciplinares rigorosas, foram efetivadas visando sempre à moralidade, à obediência dócil, com o preparo dos corpos para o trabalho.

Temos, portanto, um percurso onde o privilégio da vida social fora da família cai em declínio pela valorização das relações familiares como lócus privilegiado para o desenvolvimento da afetividade e da missão educacional, sempre associado aos espaços educacionais fora da família. “O grande acontecimento foi, portanto o reaparecimento mo início dos tempos modernos da preocupação com a educação” (ARIÈS, 1981, p. 276).

Os próximos tópicos contribuem para avançarmos sobre aspectos que transversalizam o tema da pesquisa e demonstram as práticas desenvolvidas pelo poder disciplinar e suas características.



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