BeléM 2013 andré benassuly arruda


A analítica do poder em Foucault



Baixar 1,22 Mb.
Página18/60
Encontro01.12.2019
Tamanho1,22 Mb.
1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   60
1.7. A analítica do poder em Foucault

Mais do que desenvolver uma teoria propriamente dita sobre o poder com características sistemáticas de exposição, a análise genealógica buscou realizar inúmeras historiografias sobre o funcionamento do poder (CASTRO, 2009). O deslocamento está em não procurar saber o que é o poder, mas como funciona o poder, através de um movimento metodológico onde questões de tese tiveram menos ênfase, sendo substituídas por perguntas-problema sobre os vários postulados acerca do poder (DELEUZE, 2011).

Diferentemente de concepções sobre o poder, em termos de dominação/centralização/totalização ou como um bem transferível entre os indivíduos em uma lógica economicista, tal como a encontramos no marxismo ou nas teorias jurídicas clássicas14, Foucault provocou um grande deslocamento sobre as possibilidades de análise do poder, quando o problematizou através da sua não existência: “O poder não existe” (FOUCAULT, 1989c, p.248).

Quando se declara a inexistência do poder, não se está dizendo que relações de poder não estão disseminadas nas redes sociais, mas que “[...] a ideia de que existe, em um determinado lugar, ou emanando de um determinado ponto, algo que é um poder, me parece baseada em uma análise enganosa e que, em todo caso, não dá conta de um número considerável de fenômenos [...]”. Se o poder não está em lugar nenhum e não emana de um determinado ponto, é porque o poder passa a ser pensado como “[...] um feixe de relações mais ou menos organizado, mais ou menos piramidalizado, mais ou menos coordenado [...]” (FOUCAULT, 1989c, p.249).

Assim, para Deleuze (2011), ao afirmar que Foucault trouxe um novo questionamento sobre o poder, precisamos incluir em nossas pesquisas a ideia de que os efeitos das relações de poder devem ser buscados mais no nível de estratégias, disposições, manobras táticas, funcionamentos, do que em uma concepção de apropriação do poder.

O poder como uma forma de relação pressupõe um exercício de ato operatório funcionando dentro de uma rede social complexa (DELEUZE, 2011). Assim, as relações de poder se estabelecem por meio de certa relação de força em um momento histórico determinado (FOUCAULT, 2005).

Essa relação de força se dá geralmente de forma “desigual e relativamente estabilizada”, caracterizando uma “diferença potencial” (FOUCAULT, 1989c). Com isso se quer dizer: por mais que o poder não esteja concentrado em um único lugar, de onde emanaria e dominaria os indivíduos, nem pertença a ninguém, não significa que ele esteja distribuído horizontalmente/democraticamente nas relações. De qualquer modo, essa preocupação é da soberania jurídica, diferentemente do que Foucault quis propor, que foi uma análise das relações de poder como força dinâmica, como exercício.

Aqui podemos introduzir a diferença entre poder e dominação. Dominação ocorre quando, nas relações, não há a possibilidade de escolhas, isto é, não há chance para a liberdade/resistência. Relações de poder implicam movimentos de ação sobre ação, onde uma ação – ou um conjunto de ações – tem a possibilidade de mudar a ação de outra(s) pessoa(s) (estamos em um campo de possibilidades e não de determinismos): existem, portanto, espaços para escolhas, liberdades e resistências (CASTRO, 2009).

Tomemos o exemplo dos adolescentes privados de liberdade, nas unidades estatais. O termo “privação de liberdade” tem, como um dos seus significados possíveis, uma limitação expressiva do seu espaço físico de circulação (digamos, no seu direito de “ir e vir”) e de comportamentos (na medida em que, nessas instituições, várias regras devem ser seguidas) e não uma total supressão da liberdade do indivíduo (o que caracterizaria uma dominação).

Nesse contexto, por mais que exista um diferencial de potencial entre os agentes institucionais e os adolescentes (visto, por exemplo, que os agentes possuem maior liberdade de circulação, comportamentos menos limitados – ou regras em outros níveis de limitação, sendo detentores de vários instrumentos e técnicas que contribuem para o exercício do controle), estes têm a possibilidade de exercer várias práticas de contestação e resistência.

Em casos mais extremos, como em uma situação de sublevação dos adolescentes, podemos verificar uma total inversão de potencial nessas relações de força, podendo chegar a um quadro de dominação, na medida em que toda possibilidade de negociações, de escolhas e de resistências dos técnicos pode se tornar praticamente nula.

Poder, nesses termos, está articulado com os atos que nos submetem, de alguma forma, ao governo, a sermos governados ou de fazer governar. Como já frisamos, o poder não seria um misterioso atributo do qual se precisaria escavar as origens, mas de analisá-lo como “[...] um tipo particular de relações entre indivíduos. E essa relações são específicas: dito de outro modo, elas nada tem a ver com a troca, a produção e a comunicação, mesmo se elas lhe são associadas [...]” (FOUCAULT, 2010g, p. 384).

Se utilizarmos o exemplo de situações extremas no cotidiano das relações de poder no CESEF, Foucault também remeteria à tortura e à violência para figurar a questão:
Um homem acorrentado e espancado é submetido à força que exerce sobre ele. Não ao poder. Mas se pode levá-lo a falar, quando seu último recurso poderia ter sido o de segurar sua língua, preferindo a morte, é porque o impelimos a comportar-se de uma certa maneira. Sua liberdade foi sujeitada ao poder. Ele foi submetido ao governo. Se um indivíduo pode permanecer livre, por mais limitada que possa ser a sua liberdade, o poder pode sujeitá-lo ao governo. Não há poder sem recusa ou revolta potencial. (FOCAULT, 2010g, p. 384).
É nesse sentido que podemos salientar que o poder não é nem uma estrutura e muito menos uma forma de potência que estaria unicamente nas mãos de alguns. O poder pode ser distinguido como um processo de ações sobre ações, em uma situação estratégica complexa, em um lugar-tempo determinado, em que “[...] alguns homens podem mais ou menos determinar [...] a conduta de outros homens – mas nunca de maneira exaustiva [...]” (FOUCAULT, 2010g, p.384).




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   60


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal