BeléM 2013 andré benassuly arruda


Genealogia, relações entre poder-saber e as instituições



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1.6. Genealogia, relações entre poder-saber e as instituições
Os tópicos anteriores buscaram demonstrar que as análises de Foucault alertam para o fato de que os saberes não surgem como uma abstração gestada no interior do indivíduo da razão. Os saberes são práticas discursivas em que as relações de poder são elementos imanentes, isto é, são da ordem do resultado das lutas e batalhas que participam de sua elaboração de maneira conjunta e entrecruzada, sem causalidade inerente e progressiva: busca-se evidenciar o objetivo político dos saberes como elementos imanentes das relações de poder, o que os caracteriza como acontecimentos singulares em uma determinada época.
O que me interessa, no problema do discurso, é o fato de que alguém disse alguma coisa em um dado momento. Não é o sentido que eu busco evidenciar, mas a função que se pode atribuir uma vez que a coisa foi dita naquele momento [...] trata-se de considerar o discurso como uma série de acontecimentos, de estabelecer e descrever as relações que esses acontecimentos [...] discursivos [...] mantêm com outros acontecimentos que pertencem ao sistema econômico, ou ao campo político ou às instituições. Considerando sob esse ângulo, o discurso não é nada além de um acontecimento como os outros [...]. Estudo também as funções estratégicas de tipos particulares de acontecimentos discursivos no interior de um sistema político ou de um sistema de poder [...]. (FOUCAULT, 2006b, p.255).
A preocupação com a formação dos discursos levou Foucault, ao longo de suas pesquisas, à conclusão de que os perfis epistemológicos de disciplinas médicas, como a Psiquiatria, e das ciências humanas, como o Direito, a Pedagogia e a Psicologia, eram pouco definidos em função da relação imanente dos saberes com as instituições de controle social, com as necessidades econômicas e políticas mais amplas de regulação dos corpos das populações. Poder e saber, como imanência, orientaram todas as investigações de Foucault ligadas às práticas discursivas e não discursivas articuladas aos regimes de verdade, isto é, às relações de saber-poder (1989b).

Essas articulações dos saberes com as práticas políticas, econômicas e sociais conduziram ao deslocamento de uma pesquisa primeiramente centrada na questão da épistémè, quer dizer, das práticas discursivas (fase arqueológica), para análises mais amplas, nas quais as práticas não discursivas, consideradas aqui como relações de poder, também fossem levadas em consideração, proporcionando a elaboração do conceito de dispositivo13 (fase genealógica), complementando assim a questão anterior da épistémè (FOUCAULT, 1989c), tal como foi apresentado no tópico anterior.

Foucault percebeu que o importante não era se situar em nível de análises das mudanças de conteúdo como processo de refutação e assimilação de novas verdades ou em alterações teóricas, através de novos ajustes paradigmáticos, mas se ater a questões da política do enunciado científico. Nesse nível de análise, o relevante é trabalhar com as forças que regem o enunciado e que devem ser buscadas “[...] nos efeitos de poder que circulam entre os enunciados científicos” (1989b, p.04), por meio de “[...] análises que se fazem em termos de genealogia das relações de força, de desenvolvimentos estratégicos e de táticas”, dentro de um quadro de referência mais em termos de guerra e da batalha do que da língua, dos signos e do sujeito da razão. “A historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não lingüística” (FOUCAULT, 1989b, p.05). Nesse sentido, a genealogia almeja ser uma forma de se fazer história sem perder de vista as relações de poder que estão no cerne da constituição dos saberes e dos domínios de objetos considerados científicos.

Para estabelecer essas relações entre saber e poder, precisamos nos situar nos acontecimentos os quais explicitam a concretude do poder, sua mecânica de funcionamento, uma vez que “[...] a verdade não existe fora do poder ou sem poder [...] a verdade é deste mundo” (FOUCAULT, 1989b, p.12): não há discurso “verdadeiro” sem um conjunto de dispositivos coercitivos que o moldam e produzem regulamentações para a sua enunciação:


Há um combate "pela verdade" ou, ao menos, "em torno da verdade"- entendendo-se, mais uma vez, que por verdade não quero dizer "o conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar", mas o "conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder"; entendendo-se também que não se trata de um combate "em favor" da verdade, mas em torno do estatuto da verdade e do papel econômico-político que ela desempenha. ( p.13).
Em nossas sociedades ocidentais modernas, as coerções que moldam nossos regimes de verdade atravessam e se fazem circular pelas instituições científicas: responsáveis pela política geral de verdade, elas acolhem determinados discursos e os fazem funcionar como verdadeiros, possibilitando formas de racionalizações. Esses regimes de verdade possuem lugar privilegiado no conjunto social e são atrelados, como veremos, com a lei e com a norma. Dessa maneira, partimos das seguintes formulações:


  1. a "verdade" é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem;

  2. está submetida a uma constante incitação econômica e política (necessidade de verdade tanto para a produção econômica, quanto para o poder político);

  3. é objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de educação ou de informação, cuja extensão no corpo social é relativamente grande, não obstante algumas limitações rigorosas);

  4. é produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade, exército, escritura, meios de comunicação);

  5. enfim, é objeto de debate político e de confronto social. (p.13).

Se as ciências humanas não são neutras e respondem a questões de ordem econômica, política e social, elas podem ser questionadas quanto às outras formas de saberes, na produção do que é considerado verdadeiro: a ciência é uma das tantas formas de discursos que coexistem em uma dinâmica, ora de rivalidades, ora de apoios mútuos em busca de se fazer dominantes frente a outras práticas. Foucault se dizia engajado através da genealogia, em uma espécie de


[...] empreendimento para dessujeitar os saberes históricos e torná-los livres, isto é, capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico unitário, formal e científico. A reativação dos saberes locais [...] contra a hierarquização científica do conhecimento e seus efeitos de poder intrínsecos. (FOUCAULT, 2005, p.15-16).

Aludir a dessujeitar saberes não é exatamente atacar os conteúdos ou os métodos científicos propriamente ditos, mas ter em vista uma não domesticação dos corpos através dos efeitos de poder vinculados em inúmeros espaços sociais, científicos e midiáticos canalizadores e disparadores de controles sociais. “Não é necessário primeiro [...] se interrogar sobre a ambição de poder que a pretensão de ser uma ciência traz consigo?” – pergunta Foucault (2005, p.15), em suas reflexões sobre as relações entre o saber e o poder. Além de procurar os elementos racionais e procedimentos de verificação que caracterizariam e fundamentariam suas ciências, os especialistas estão principalmente preocupados em atribuir a si mesmos, os produtores do saber científico, os “[...] efeitos de poder que o Ocidente, desde a Idade Média, atribuiu à ciência e reservou aos que fazem um discurso científico” (p. 15).





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