BeléM 2013 andré benassuly arruda


Descrevendo os acontecimentos nos relatórios



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1.5. Descrevendo os acontecimentos nos relatórios

Não obstante, nossa hipótese de pesquisa está longe de afirmar que tudo o que iremos encontrar nos documentos são heterogeneidades; ao contrário, os enunciados estão ligados a sistemas discursivos mais amplos de sua época, singularizando-se em acontecimento, pois estaremos implicados no estudo de um curto período histórico, com pessoas localizadas em uma mesma região e compartilhando sistemas discursivos próximos entre si, em um mesmo dispositivo (o conceito de dispositivo será mais bem explorado no próximo tópico).

Quando pudermos identificar um conjunto de enunciados, de onde, a partir de seus agrupamentos, elementos como objetos, conceitos, temas, classificações etc. emergem, teremos a possibilidade de problematizá-las como formações discursivas. Esses elementos estão atrelados às regras de formação, que são também suas condições de formulação e coexistência com outros conjuntos de enunciados (FOUCAULT, 2009a).

Por conseguinte, os enunciados presentes nos documentos de avaliação e acompanhamento das adolescentes em conflito com a lei, em situação de privação de liberdade no CESEF, só podem ter a sua possibilidade de emergência pelas formações discursivas que lhes permitem a sua materialidade, e esta é


[...] um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa. (FOUCAULT, 2009a, p.133).

Em face do conceito de formação discursiva e retornando às questões relacionadas com a elaboração das séries, pensar em descrição intrínseca do documento significa uma modalidade diferente de análise documental, em que “[...] operadores de síntese que sejam puramente psicológicos (a intenção do autor, a forma de seu espírito, o rigor de seu pensamento)” (p.32) possam ser substituídos por outra grade de inteligibilidade. Essa outra grade de inteligibilidade significa buscar:



  1. Relações entre os enunciados (essas relações não precisam estar totalmente evidentes para o autor que as enuncia; não precisam pertencer ao mesmo autor, nem que estes se conheçam);

  2. Relações entre grupos de enunciados (esses grupos não precisam se remeter aos mesmos domínios formais de saber, nem aos vizinhos);

  3. Relações entre enunciados ou grupos de enunciados e acontecimentos de uma ordem inteiramente diferente (caracterizam-se pelas dimensões da técnica, da economia, do social e da política).

Portanto, estabelecendo essas novas relações nesses níveis de análise, podemos elaborar uma descrição dos acontecimentos discursivos sem precisar necessariamente nos remeter às unidades que se encerram em si mesmas (o livro, a obra) e aos operadores de síntese psicológicos (o autor), mas nas possibilidades de emergência das formações discursivas em contexto histórico que são imanentes à sua produção. Essas relações nunca estão em evidência por elas mesmas, através da simples leitura, o que lhes dá um caráter de invisibilidade. Todavia, essa invisibilidade não significa que estamos atrás de um discurso secreto, ou seja, o oculto do discurso manifesto, propulsor da interpretação que as traria à nossa consciência, mas nos conduz a uma “[...] análise de sua coexistência, de sua sucessão, de seu funcionamento mútuo, de sua determinação recíproca, de sua transformação independente ou correlativa” (FOUCAULT, 2009a, p.33) e de seus efeitos políticos sobre os corpos.

Nossa hipótese inicial foi de que, ao empregar as ferramentas-conceitos de Foucault para o desmonte do conjunto de documentos do CESEF propostos para a pesquisa, seria possível agrupar os enunciados dispersos nos documentos, com base em séries como “Adolescência”, “Motivações sociais do ato infracional”, “Motivações psicológicas do ato infracional”, “Aspectos psicológicos da adolescente em conflito com a lei”, “A Família da adolescente infratora”, “Avaliação da periculosidade da adolescente infratora”, “Conduta das adolescentes durante o período de cumprimento da MSE”12 etc.

Acreditávamos que, com a identificação e formação das séries, séries de séries poderiam ser estabelecidas, com o objetivo de tentar estabelecer seus tipos de relações. Como já mencionado no tópico anterior, para a problematização das séries mapeadas na pesquisa documental, partiremos das sugestões conceituais da análise genealógica, a fim de analisar as práticas destinadas à contenção de liberdade das crianças e dos jovens, tais como: relações de saber-poder, dispositivo, subjetivação, resistência, liberdade, governamentalidade, poder disciplinar, biopolítica, biopoder, racismo de Estado e de sociedade, produção da delinquência, periculosidade etc. São sobre esses conceitos que iremos avançar, nos próximos tópicos.



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