BeléM 2013 andré benassuly arruda


Por outra análise das produções de si e dos outros: resistindo aos modos tradicionais de subjetivação por meio da História Nova



Baixar 1,22 Mb.
Página13/60
Encontro01.12.2019
Tamanho1,22 Mb.
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   ...   60
1.2 Por outra análise das produções de si e dos outros: resistindo aos modos tradicionais de subjetivação por meio da História Nova

Retornando e aprofundando questões sobre a História apresentados no tópico anterior, Foucault (1989e) afirma que, ao contrário das premissas tradicionais da história como campo de saber totalizador dos acontecimentos a oferecer a segurança de um sentido, buscou dialogar com o pensamento de Nietzsche. A genealogia desenvolvida por Foucault, nesse sentido, não realiza “escavações históricas” em busca do sujeito do conhecimento universal hipoteticamente presente, porém obscuro, em todo o percurso dos acontecimentos e condutas humanos, das origens e dos segredos solenes, mas se estabelece na superfície dos acontecimentos, no âmbito das descontinuidades, deslocamentos e rupturas no nível concreto dos acontecimentos.

Situar-se no nível das descontinuidades indica uma crítica à noção de origem. Ater-se à superfície dos acontecimentos significa que o trabalho historiográfico não deve se voltar para a busca da essência das substâncias, visto que não haveria uma identidade primeira e originária, como um estopim inicial da história, a ser recuperado no fim da história (FOUCAULT, 1989e).

Refutar a busca das solenidades representa a busca das coisas em um estado de perfeição como uma tarefa ineficaz. O começo histórico – a possibilidade de emergência de determinadas práticas –, é sempre “baixo”, isto é, está circunscrito nos embates de forças, nas guerras, nas relações e afrontamentos do poder, no acaso e arbitrariedade (FOUCAULT, 1989e).

Essa busca da verdade a ser encontrada nas pesquisas históricas das origens e essências leva o historiador a um jogo de interpretações de interpretações em que não se pode chegar a uma verdade original: quanto mais se escava o passado, mais somos levados a um ponto recuado na história cada vez mais intangível, pois é marcado por um campo de forças heterogêneas de lutas, conflitos, disputas e embates das práticas, em suas dimensões discursivas e não discursivas (FOUCAULT, 2009).

Foucault não entrou no jogo das interpretações das interpretações: contornou-o e se estabeleceu na sua margem, para problematizar as questões consideradas “profundas” do ser, com base nas práticas concretas através de um olhar histórico e não metafísico (FOUCAULT, 1989e).

Temos então, nessa perspectiva, que não há origem, mas invenção. Se cada período histórico é marcado pelas suas próprias invenções, e estas representam mais rupturas das práticas e não continuidades entre os períodos históricos, como demonstra Foucault (2009), por exemplo, ao analisar as práticas discursivas ligadas com os saberes ditos científicos (tratamos do assunto nos próximos tópicos sobre a arqueologia e genealogia), não se pode atribuir um sentido contínuo e totalizador da história, nem aos processos considerados subjetivos dos corpos.

A genealogia, nesses termos, introduz na história a descontinuidade e as forças políticas e as valoriza para a compreensão da produção das subjetividades como acontecimentos históricos11: diferentemente da história tradicional, preocupada em dissolver a singularidade histórica de cada período numa continuidade ideal, ignorando os acasos e os acidentes que emergiam nessas pesquisas, buscou uma perspectiva na qual “[...] o verdadeiro sentido histórico reconhece que nós vivemos sem referência ou sem coordenadas originárias, em miríades de acontecimentos perdidos.” (Foucault, 1989e, p.28).

Se as descontinuidades históricas já foram tomadas como “erros históricos”, um incômodo a ser suprimido, por ser considerado sempre um pequeno evento contrariando secundariamente a lógica das continuidades, passaram, na História Nova, à posição fundamental nas análises históricas, definindo os limites dos recortes que o pesquisador deve efetivar, no sentido dos limites de um processo tanto com respeito aos processos sociais como aos subjetivos:
Cremos na perenidade dos sentimentos? Mas todos e, sobretudo aqueles que nos parecem os mais nobres e os mais desinteressados, têm uma história. Cremos na constância dos instintos e imaginamos que eles estão sempre atuantes aqui e ali, agora como antes. Mas o saber histórico não tem dificuldade em colocá-los em pedaços − em mostrar seus avatares, demarcar seus momentos de força e de fraqueza, identificar seus remos alternantes, apreender sua lenta elaboração e os movimentos pelos quais, se voltando contra eles mesmos, podem obstinar-se em sua própria destruição. Pensamos em todo caso que o corpo tem apenas as leis de sua fisiologia, e que ele escapa à história. Novo erro; ele é formado por uma série de regimes que o constroem; ele é destroçado por ritmos de trabalho, repouso e festa; ele é intoxicado por venenos − alimentos ou valores, hábitos alimentares e leis morais simultaneamente; ele cria resistências. A história "efetiva" se distingue daquela dos historiadores pelo fato de que ela não se apoia em nenhuma constância: nada no homem − nem mesmo seu corpo − é bastante fixo para compreender outros homens e se reconhecer neles. Tudo em que o homem se apoia para se voltar em direção à história e apreendê-la em sua totalidade, tudo o que permite retraçá-la como um paciente movimento contínuo: trata−se de destruir sistematicamente tudo isto. E preciso despedaçar o que permitia o jogo consoante dos reconhecimentos. Saber, mesmo na ordem histórica, não significa "reencontrar" e, sobretudo não significa "reencontrar-nos". A história será "efetiva" na medida em que ela reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos sentimentos; dramatizará nossos instintos; multiplicará nosso corpo e o oporá a si mesmo. Ela não deixará nada abaixo de si que teria a tranqüilidade asseguradora da vida ou da natureza; ela não se deixará levar por nenhuma obstinação muda em direção a um fim milenar. Ela aprofundará aquilo sobre o que se gosta de fazê-la repousar e se obstinará contra sua pretensa continuidade. E que o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar. (FOUCAULT, 1989e, p.27).

Esses apontamentos genealógicos nos levam a problematizar as tendências na modernidade em privilegiar aspectos longitudinais individuais, em detrimento das forças concretas e descontínuas que nos atravessam e demonstram uma clara valorização nos mais diversos pontos das redes de saber-poder, em interrogar as formas de subjetivação, não apenas em termos de totalização evolutiva do eu, mas também em termos de interiorização psicológica. As práticas de forjamento e análise dos corpos ainda são comumente atravessadas por vetores de uma valorização da vida em termos de intimidade psicológica, metafísica e da esfera privada.

Nesse sentido, toda a tentativa de análise realizada sobre as narrativas capturadas das adolescentes privadas de liberdade parte do pressuposto da intervenção do pesquisador de refletir e questionar as possíveis implicações do emprego das racionalizações e técnicas de registro e avaliação contemporâneos de indivíduos tutelados em unidades estatais, no intuito de não conceder demasiados privilégios para as análises de sucessões longitudinais dos acontecimentos constitutivos da vida tidos estritamente como história pessoal, em detrimento do espaço social no qual eles são atravessados.

Várias pesquisas no Brasil sobre controle e punição de jovens problematizam as práticas discursivas presentes em documentos de exercício da extração e constituição da verdade pelo dispositivo da confissão e do panóptico, em uma grade de inteligibilidade da interiorização psicológica em termos causais e globais e suas estratégias psicologizantes, a fim de disparar resistências a essas práticas e seus efeitos políticos de esvaziamento do espaço público de discussão, levando à responsabilização das mazelas sociais para o nível do indivíduo e, muitas vezes, de criminalização dos mais pobres.

Psicologizam-se os corpos em detrimento das forças sociais e políticas que os atravessam, produzindo uma atitude despolitizadora (COIMBRA, 2001) dos acontecimentos. Nesse sentido, podemos encontrar, em vários espaços destinados ao “trabalho social” com crianças e adolescentes, um não questionamento dos efeitos de relações de saber-poder (saber e poder serão discutidos adiante) que se efetivam em nossa sociedade, mas o estabelecimento de causalidades pontuais e mecanicistas, onde os processos de privatização, familialismo e de esvaziamento político das ações humanas, no mundo público, não são questionados (LEMOS, 2007; SCHEINVAR, 2010).

Nos tópicos que se seguem, sobre a arqueologia e genealogia foucaultiana, procuramos evidenciar como as análises desse autor, em suas interrogações sobre as relações de saber-poder, produziram ferramentas-conceitos em que os campos das forças históricas, políticas, sociais, econômicas, a partir do enquadramento da história efetiva, são possíveis e com as quais dialogamos para interrogar tanto as práticas destinadas, no Brasil, para o controle e punição dos considerados adolescentes em situação peculiar de desenvolvimento, como, mais especificamente, os documentos produzidos no CESEF para avaliação e descrição das adolescentes em situação de privação de liberdade e os efeitos políticos que, nessas práticas discursivas, são possíveis de serem tensionados analiticamente.






Compartilhe com seus amigos:
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   ...   60


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal