AvaliaçÕes externas: prova brasil e projeto senna



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Projeto SENNA
Em outubro de 2013, no Estado do Rio de Janeiro, mais de 24 000 alunos foram avaliados, em um teste voltado a avaliar competências socioemocionais, uma avaliação muito diferente das avaliações tradicionais que conhecemos. O modelo de avaliação elaborado foi direcionado aos alunos do 5º ano do ensino fundamental e 1º e 3º anos do ensino médio.

O projeto SENNA6 realizado em parceria com OCDE, INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), MEC (Ministério da Educação) e IAS (Instituto Ayrton Senna) se propõe estudar e construir avaliações externas de aspectos da personalidade humana, em cinco grandes dimensões reconhecidas mundialmente por psicólogos, conhecidas por Big Five. As dimensões de personalidade que compõe o Big Five são: abertura a novas experiências; extroversão; amabilidade; conscienciosidade e estabilidade emocional (PRIMI; SANTOS, 2014).

A divulgação desta iniciativa de avaliação ocorreu no Fórum Internacional de Políticas Públicas “Educar para as competências do século 21”, realizado em São Paulo, entre os dias 24 e 25 de março, de 2014. Este encontro reuniu países, preocupados em desenvolver ações políticas para educar para competências socioemocionais, foram eles: Brasil; Colômbia; Coréia; Equador; Estados Unidos; Letônia; México; Noruega; Paraguai; Peru; Portugal; Suécia, Uruguai e Argentina (FÓRUM INTERNACIONAL..., 2014).

James Heckaman, ganhador do prêmio Nobel de Econômica em 2000, estudioso na área de competências, destacou que as competências socioemocionais são tão importantes quanto as competências cognitivas, pois:


Essas competências podem ampliar a capacidade dos indivíduos de trabalharem com outras pessoas, lidar com emoções e atingir objetivos. Dessa forma, competências socioemocionais são tão importantes quanto competências cognitivas para promover o bem-estar individual e o progresso social (FÓRUM INTERNACIONAL..., 2014, p.1).
No Fórum, foi debatido que a educação é um veículo para desenvolver competências e habilidades como: resiliência; perseverança; comunicação; responsabilidade; tolerância; autonomia; curiosidade; cooperação e a capacidade para resolver problemas de maneira pacífica. Avaliações nesta área vêm sendo formuladas, com a proposição de dar subsídios para professores, gestores e famílias, para que possam melhor educar, de acordo com as atuais exigências do mundo produtivo (FÓRUM INTERNACIONAL..., 2014).

Estas competências, descritas como afetivas e comportamentais, são vistas como fundamentais para o sucesso pessoal e profissional podendo, segundo seus idealizadores, facilitar a aprendizagem de conteúdos escolares. As competências de ordem emocional estão relacionadas à ideia de Capital Social (PRIMI; SANTOS, 2014).

Durante o Fórum diversas autoridades, intelectuais se apresentaram para demostrar os benefícios de fazer das competências socioemocionais um currículo e desenvolver avaliações nesta área. O jornalista Paul Touch7 apresentou no Fórum seu livro intitulado: “Uma questão de caráter: por que a curiosidade e a determinação podem ser mais importantes que a inteligência para uma educação de sucesso”, no qual pelo estilo de linguagem, pelos exemplos de vida apresentados, depoimentos “comoventes” sobre histórias de vida8, tem como intuito de transmitir ensinamentos aos leitores, assemelhando o livro a um manual de autoajuda.

Ao longo de todo o texto, observamos diversos exemplos de programas norte-americanos que ensinam como “fortalecer” o caráter dos alunos, o colocam como disciplina, passível de receber notas9. O caráter é compreendido como algo maleável, que pode e deve ser pode ser melhorado ao longo da vida. A escola tem lugar preponderante nesta tarefa.

Touch (2014) apresenta exemplos de alunos das séries iniciais, do ensino superior, jogadores de xadrez, que expostos à vulnerabilidade social e pobreza, foram educados para conquistarem o sucesso, como ganhar campeonatos, terminar a faculdade, serem produtivos, etc. Para ele, a escola deveria formar nos alunos mentalidade de busca pelo sucesso e crescimento (TOUCH, 2014).

Na concepção do autor, é preciso educar para que as crianças desde cedo aprendam a serem persistentes, busquem e almejem sucesso:


[...] ajudá-la a desenvolver um conjunto muito diferente de qualidade, entre elas persistência, autocontrole, curiosidade, escrupulosidade, determinação e autoconfiança. Os economistas as denominam capacitações não cognitivas, e os psicológicos referem-se a elas como traços de personalidade, ao passo que nós, em geral, costumamos pensar nelas como traços de caráter (TOUCH, 2014, p. 17, grifos nossos).
A “escrupulosidade”, é um traço de caráter muito valorizado, implica a capacidade de nos esforçarmos sem esperar recompensas. Touch (2014) entende que, condições na infância, como abandono, exposição à violência e a miserabilidade, contribuem para que no futuro as pessoas possam tornar-se doentes física e emocionalmente. Entretanto, a pobreza em si não é um problema a ser superado, mas o estresse vivido que pode prejudicar o caráter dos alunos, por isso, ao invés de promover políticas e projetos sociais contrários à desigualdade social, o autor defende a proposta de atuar sobre a “personalidade”.

A educação, neste sentido, vem com o propósito de ser um: “[...] trunfo indispensável à humanidade na sua construção dos ideais da paz, da liberdade e da justiça social” (DELORS, 1998, p.11, grifos nossos).

Como sabemos problemas sociais que temos observado tem se intensificado na contemporaneidade como: tráfico e uso de drogas; roubo; terrorismo; intolerância cultural, etc. O grande desafio da educação do século XXI seria: “[...] não [...] apenas, dotá-los de uma sólida formação geral, mas procura também fortalecer-lhes o caráter e transmitir-lhes um profundo sentido das responsabilidades sociais” (DELORS, 1998, p. 216).

Desse modo, não basta apenas domínio de aspectos cognitivos, como avaliados na Prova Brasil, mas é preciso formular avaliações que deem conta de avaliar as dimensões de caráter, pressionando as escolas a inserirem este item nos currículos escolares, com ações pedagógicas deliberadamente planejadas. Observamos que este é o intuito do projeto SENNA, atrelar o trabalho escolar, deste o ensino fundamental, as necessidades de manutenção da sociedade capitalista, fazendo da escola um instrumento ativo para manutenção da coesão social.

A escola, nesta perspectiva é tomada como uma instituição capaz de ensinar a tolerância, a paz, ou seja, os comportamentos sociais aceitáveis, em um contexto marcado por grandes conflitos, pelo esgarçamento das relações sociais, que põem em risco a própria sociedade capitalista e logicamente a propriedade privada, mais do que realizar atividades de cunho intelectual, que exigem o pensamento abstrato, a memorização, ou seja, a transmissão e apropriação de conceitos científicos.




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