Associação Brasileira de Antropologia Prêmio Claude Lévi-Strauss Modalidade B



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Associação Brasileira de Antropologia

Prêmio Claude Lévi-Strauss – Modalidade B

Mariana Oliveira da Fonte

Fundação Getulio Vargas

A artimanha do anonimato em trajetórias de vida

atravessadas pelo alcoolismo: uma etnografia do A.A. da

Ilha do Governador.

Leticia Carvalho M. Ferreira

http://lattes.cnpq.br/4538566456646194

http://lattes.cnpq.br/2964979009631467

O Alcoólicos Anônimos se reconhece como um grupo que abriga homens e mulheres que através do compartilhamento de suas experiências visam solucionar o problema comum do alcoolismo, assim como ajudar outros a se recuperarem. A aceitação do alcoolismo e o desejo por parar de beber são considerados os únicos requisitos para que se possa tornar membro. A Irmandade defende que não se alia a nenhuma seita ou religião, nenhum partido político, organização ou instituição. Além disso, se intitula autossuficiente e se mantém graças às contribuições dos próprios membros. O principal propósito do A.A. é a sobriedade e ajuda mútua na manutenção do estado sóbrio.

Estas são características básicas que todo membro de A.A. irá citar ao caracterizar a Irmandade. Aos membros é transmitida uma cultura de recuperação fundamentada nas doutrinas dos Doze Passos e das Doze Tradições1, cujo intuito é ajudar os alcoólicos a evitar o “primeiro gole” e, dessa forma, manter a sobriedade. O acesso a essas informações me foi concedido durante a observação participante em reuniões (abertas) de recuperação realizadas em um grupo de A.A. localizado na Ilha do Governador, zona norte do Rio de Janeiro - Brasil. No entanto, foi somente por meio de entrevistas2, realizadas com dois membros do A.A. daquela localidade, que pude perceber a complexidade que envolve essa Irmandade. O diálogo que travei com seus membros foi fundamental para a percepção da centralidade do anonimato como uma artimanha que camufla uma imagem socialmente estigmatizada e deteriorada. Desta forma, a metodologia da pesquisa tem por base, fundamentalmente, o trabalho de campo conciliado com a observação participante e a realização de entrevistas.

Ao longo do convívio com os membros nas reuniões periódicas do grupo tudo parecia no seu devido lugar: a sala estava sempre organizada e na cabeceira de mesa (espaço físico demarcado como um lugar de fala e expressão dos alcoólicos que determina a dinâmica das reuniões), ao centro, as placas indicavam o coordenador e o secretário da reunião. Em cima da mesa encontravam-se livros sobre o A.A., cadernetas e uma campainha, que pontualmente sinalizava um minuto de silêncio para a oração e em seguida o início da reunião. E por fim, aconteciam os depoimentos.

Acompanhei este ritual ao longo de meses, e só me dei conta que o A.A. simbolizava muito mais do que reuniões pragmáticas, através das conversas com dois dos meus principais interlocutores: Dona Graça, dona de casa e membro de A.A. há 31 anos, e Seu José, gari e membro de A.A. há 36 anos. Foi no instante do olhar-se um ao outro que a fonte oral se revelou a mim como o principal caminho de aprendizagem de um campo extremamente fluído, permeado de sentidos diversos. O silêncio que a postura dos membros nas reuniões não dava conta, começou a ser traduzido em forma de diálogo.

O A.A. reforça seu significado na oralidade continuadamente produzida em seu espaço. Nada é mais substancial para a manutenção de um grupo formado em prol da troca de experiências do que o compartilhamento da fala. Isto é, por meio do inventário do passado, realizado na cabeceira de mesa, os membros recuperam suas trajetórias pessoais, atribuem um novo sentido para suas vidas e percebem as possibilidades futuras que somente a sobriedade oferece. Sendo assim, todas as razões que levavam homens e mulheres a estarem na sala de A.A. só puderam ser acessadas por mim através da fonte oral, do momento em que se despiam de toda dor e rancor, e davam forma à memória e à construção de biografias.

Enquanto pesquisadora pude complexificar esta produção de oralidade nos depoimentos de cabeceira de mesa entendendo-a como fonte oral. Por meio dessa abordagem, a fim de compreender melhor os significados produzidos e reproduzidos no A.A., analisei mais a fundo essa oralidade por outra ramificação da fonte oral, as entrevistas. Deste modo, a narrativa etnográfica aqui proposta tem por base um duplo movimento da fonte oral que compreende tanto os depoimentos quanto as entrevista propostas por mim.

A realização de entrevistas individuais com Dona Graça e Seu José possibilitaram esclarecer suas trajetórias pessoais e seus pontos de vista particulares sobre o A.A., ressaltando perspectivas que a observação estática das reuniões não me forneceriam. Deste modo, este recurso permitiu que meu objeto de estudo fosse recriado por intermédio da fala de dois interlocutores que viviam com maior intensidade e propriedade uma realidade que até então me era estranha. Neste sentido, a fonte oral, por meio das entrevistas que realizei evidenciou um outro ângulo do A.A., pois antes meu olhar atentava para o que era dito e representado pelo todo e sobre o todo, e por meio das entrevistas, meu olhar foi direcionado a somente uma parte desse todo. E neste caso, pude diferenciar, comparar e compreender as articulações entre o coletivo e o pessoal, o que me fez questionar a presença de dois tipos de percepções do mesmo espaço.

Isto me fez observar, ainda, a presença de duas ordens de memória sendo constituídas mutuamente – uma testemunhada na cabeceira de mesa para um coletivo e outra produzida e dita a mim no espaço da entrevista. O uso da palavra “produzida” não é por acaso. Sobretudo, pelo fato de que o interlocutor sabe o que o pesquisador quer ouvir, assim como tem autonomia para valorizar ou depreciar certas questões chave. Deste modo, estive mais interessada em como os fatos eram representados nos depoimentos e nas entrevistas e porquê e menos na sua possível veracidade.

Voldman (2006) salienta que

“os depoimentos dos membros de grupos que construíram, no decorrer dos anos, com ou sem a ajuda de um suporte associativo, uma memória como história própria, têm uma coerência e uma estruturação rígidas, que demandam uma grande vigilância se quisermos superar seu aspecto reconstruído e estereotipado. Consciente de ter uma mensagem a comunicar, a testemunha fala apropriando-se do passado do grupo; ela seleciona conflitos internos da organização, diminuindo os oponentes ou então aumentando-a até a caricatura para justificar, por exemplo, afastamentos, partidas e exclusões.” (Voldman, 2006: 40)

Um bom exemplo disto é a fala de Dona Graça quando a questiono acerca do “Poder Superior”, uma denominação recorrente na fala dos membros. Ela me explica que a Irmandade não se alia a nenhuma seita ou religião e comenta:

O Poder Superior é o Deus que cada um concebe. Têm até pessoas que são ateias aqui e não acreditam em Deus. Nós temos um companheiro que ele é ateu. Quando ele chegou era 100% ateu. Até que hoje, ele já tem mais de 20 anos de A.A. e, às vezes, sem querer, pronuncia o nome de Deus. Mas é isso. Nós chamamos de Poder Superior para não entrar em controvérsia com as outras religiões.”

Além da percepção de que existe uma relação contraditória referente a religião no A.A., a entrevista com Dona Graça me evidenciou problemas administrativos e de sociabilidade entre os membros. Ela me disse:

Atualmente atravessamos muitas dificuldades porque nesses lugares sempre têm uma pessoa que quer mandar, e nós não podemos mandar. E também exigimos respeito, então eles têm que me respeitar. Mas eu não posso mandar, qualquer coisa que se faça aqui, se tiver que tirar essas duas lâmpadas nós temos que convocar todos para votar, levantar o dedo ou a mão para vê se aceita ou não. (...) Os problemas estão sempre aparecendo”.

O fato de Dona Graça ter se sentido a vontade para me relatar uma precipitação de dominação e hierarquização no grupo deve ser problematizado. Em primeira instância, considero importante a hipótese de que por se tratar de um grupo majoritariamente masculino, a figura de uma pesquisadora tenha facilitado esta confissão. Sobretudo porque é evidente em sua fala – “eles têm que me respeitar”- que se trata de um embate entre ela e uma parcela dos membros homens. Logo, muito dificilmente eu teria acesso a essas informações caso entrevistasse um homem, ou mesmo caso apenas ouvisse os depoimentos feitos a partir da cabeceira de mesa. Este episódio me fez compreender que ainda que o pesquisador se cerque de todos os instrumentos teóricos e metodológicos possíveis para acessar aquilo que há de mais próximo do real, não se pode romantizar um cenário que, por comportar a relação entre pessoas, sempre estará marcado por valores, ideologias pessoais e disputas sobre as quais só se fala em determinados espaços e interações.

O uso da fonte oral, como qualquer outra, apresenta algumas fraquezas. A mais desafiadora delas, ao meu ver, é a possibilidade da entrevista, uma entre tantas possibilidades de produção desta fonte, favorecer um cenário conflituoso entre o entrevistador, “aquele que sabe tudo”, ou, pretende saber, e o entrevistado, que diante dessa relação um pouco intimadora, procura ocupar um lugar de defensiva, mesmo tendo consciência que a “verdade” lhe pertence (VOLDMAN:2006)3. Diante deste dilema, optei por não desperdiçar a riqueza que a palavra enquanto fonte poderia me oferecer. E me precavi para não perder de vista que durante a entrevista duas subjetividades são colocadas em diálogo, a do pesquisador e a do interlocutor.

Durante a entrevista com Dona Graça ocorreu uma interrupção que acabou por me evidenciar sua consciência acerca da relação que estávamos prestes a estabelecer, assim como seu domínio sobre a minha posição de pesquisadora e o seu lugar de entrevistada. Enquanto conversávamos, um membro de A.A. entrou na sala e começou a falar em alto tom com outros companheiros. Neste momento, Dona Graça começou a ficar incomodada e me questionou acerca do gravador: “você desligou?”. Logo depois, quando o senhor se aproximou de nós, ela comentou: “Nós estamos aqui gravando uma entrevista”; e o homem retrucou: “uma o quê?”. Ela sem muita paciência, respondeu: “Uma entrevista! Você não colocou a sua ficha no facebook? Eu tô dando uma entrevista para ela.”. A ficha que Dona Graça menciona trata-se de um objeto simbólico, em formato de uma moeda, que dependendo da sua cor pode simbolizar tanto a entrada do membro no A.A como o número de anos que o mesmo está em recuperação.

Esta passagem é extremamente significativa para problematizarmos a ideia já mencionada acima de uma visão ingênua em relação aos interlocutores em situações de entrevista. No momento em que Dona Graça me questiona acerca do gravador, e a possível falha na qualidade da gravação por conta da interrupção do membro, ela evidencia ter consciência da utilidade daquele material para a minha pesquisa. E mais, quando enfatiza ao membro de que está me concedendo uma entrevista, demarca o seu lugar de fala, como portadora de um conhecimento que só ela poderia me ceder.

O mais curioso e, ao mesmo tempo, fascinante é que por mais que eu tenha me preparado e me resguardado de toda produção teórica possível, foi a Dona Graça quem me ensinou a dinâmica da entrevista. Sua consciência era tão plena de que eu estava ali para conseguir o máximo de material possível que me ajudasse a entender o A.A. e toda a sua complexidade, que em diversos momentos da entrevista, quando o silêncio pairava e eu dizia: “Então tá bom. Muito Obrigada!”, ela imediatamente respondia: “Mais o quê? Mais o que você quer saber? Pode perguntar!”. Foi com a Dona Graça que eu finalmente compreendi que a relação entre pesquisador e pesquisado é uma via de mão dupla, na qual ora um aprende ora um ensina, e vice-versa.

Outra questão que não deve ser negada quando se estuda um grupo de auto ajuda é o simbolismo da dor, do luto e, não raro, da morte. Estes são sentimentos que estarão sempre presentes nos relatos, seja para o coletivo ou seja para uma entrevista restrita. E lidar com a dor do outro é um campo minado, pois a tendência é que o lado mais humano do pesquisador fale mais alto, e, nesse caso, acabamos por incorporar esse sentimento e dar sentido à ele. É como bem salienta Pietro Clemente (1994), “é como se os pesquisadores que entram em diálogo com uma dor que a razão não consegue controlar ficassem contaminados por ela e precisassem começar a fazer sua própria elaboração dessa perda”. 4 Da minha experiência no A.A. compreendi que não se pode negar a dor com o intuito de prevenção. Pelo contrário, em muitos casos esse sentimento é central para a reconstrução da trajetória de vida de um membro e sua inserção no A.A. Portanto, ao longo da etnografia optei por não negar a dor dos meus interlocutores, entendendo a necessidade de narrar criticamente os sentimentos que me foram confiados. E apesar disto, sempre estive atenta para não assumir esta dor como minha, e ocupar um lugar de fala que não me pertence.

O princípio das trajetórias de vida dos membros de A.A. sempre remonta a transição de um passado em que o alcoolismo fazia estadia e com ele os episódios de dor, vergonha, humilhação para a harmonia de um tempo presente, reforçada dia após dia nas reuniões do grupo. Em função dos desequilíbrios que o álcool proporciona, desequilíbrios esses mencionados pelos próprios membros, parte da sociedade atribui aspectos depreciativos ao alcoólico. Segundo Erving Goffman, estas atribuições são as responsáveis por estigmatizar grupos.

“Assim, deixamos de considerá-lo criatura comum e total reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída. Tal característica é um estigma, especialmente quando o seu efeito de descrédito é muito grande- algumas vezes ele também é considerado um defeito, uma fraqueza, uma desvantagem (…)”. (Goffman, 2012: 12)

Os alcoólicos tornam-se alvo de um estigma justamente porque não são mais funcionais na manutenção da estabilidade social. A partir do momento em que esse grupo rompe com a harmonia social, ele se torna disfuncional. Logo que é identificado como disfuncional é impedido de participar de certos meios e rituais convencionais da sociedade. E este impedimento de partilha de uma vida social em comum destina o alcoólico para a zona da indiferença.

O sujeito alcoólico passa a ser interpretado como um ser desacreditado pois o uso abusivo da bebida alcoólica transborda em sinais corporais e físicos e não há mais dúvida do desequilíbrio que o álcool proporciona à vida do mesmo. Logo, resta ao sujeito desacreditado o lugar de isolamento, pois ele perde o controle de encobrimento da marca indesejada, o alcoolismo, e a manipulação da figura valorizada socialmente torna-se cada vez mais impossibilitada. Goffman esclarece:

“Uma possibilidade fundamental na vida da pessoa estigmatizada é a colaboração que presta aos normais no sentido de atuar como se a sua qualidade diferencial manifesta não tivesse importância nem merecesse atenção especial. Entretanto, quando a diferença não está imediatamente aparente e não se tem dela um conhecimento prévio (ou, pelo menos, ela não sabe que os outros a conhecem), quando, na verdade, ela é uma pessoa desacreditável, e não desacreditada, nesse momento é que aparece a segunda possibilidade fundamental em sua vida. A questão que se coloca não é a da manipulação de tensão gerada durante os contatos sociais e, sim, da manipulação de informação sobre o seu defeito.” (Goffman, 2012: 51).

Por essa perspectiva, é possível inferir que alguns segmentos da sociedade apontam os alcoólicos como desviantes justamente por esses, quando sob efeito do álcool, não respeitarem um comportamento dito como apropriado. É muito comum na fala dos membros do A.A. a lembrança de situações vividas consideradas como degradantes e desmoralizantes. Em entrevista Seu José relatou: “Com todo respeito filhinha, mas dizem por aí que o álcool tira a impotência da pessoa. A minha não tirou, porque eu deixava a minha mulher limpa em casa para levantar mulher mendiga na rua para fazer sexo”. O fato é que os próprios alcoólicos percebem seus atos como desviantes, já que há uma auto-percepção de que o alcoolismo é uma situação que afasta as pessoas do “comportamento apropriado”, aceito pela sociedade como um todo. É devido a isso que Becker afirma: “Alcoólatras são muitas vezes ambivalentes, por vezes sentindo que aqueles que os julgam não os compreendem, outras vezes concordando que a bebida compulsiva é maléfica”. (BECKER, 2008:16)

Admitir esta impotência diante da bebida alcoólica é o primeiro passo para o ingresso do alcoólico no A.A. “Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”. Este primeiro passo em direção à recuperação já de antemão presume que algo se perdeu durante o período de entrega ao alcoolismo, mas que o A.A. ajudará a encontrar. O processo de reencontro de si e do outro que o álcool afastou é fundamentalmente construído a partir do quarto passo: “Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”. Neste caso, é chegado o momento do alcoólico mudar de posição, daquele que foi julgado nas ruas e/ou em casa para aquele que julgará seus próprios atos e comportamentos durante o alcoolismo. Sem o mínimo de reconhecimento das falhas cometidas no passado, o tratamento se esgota e perde sua função. A ideia principal é que antes de conseguir o perdão daqueles atingidos por ele, o membro reflita sobre o mau que ele causou a si mesmo.

Os alcoólicos membros de A.A. também aprendem a estabelecer um outro tipo de relação com o tempo. Durante a embriaguez não há perspectiva de futuro, o tempo presente é fugaz e o passado não é visitado. Esta dimensão vazia do tempo é esclarecida na fala de Seu José: “Eu todos os dias dizia à minha família: vou me despedir de vocês. Amanhã será o meu enterro”. Já quando ingressos na Irmandade, os alcoólicos revisitam a todo instante o passado, o presente é preservado como um tesouro que deve ser resguardado dia após dia – “Um dia de cada vez, hoje e sempre”- e o futuro é o tempo que simboliza o sentido de estar em tratamento. Ter de volta a possibilidade de planejar o futuro é, indubitavelmente, o ganho maior que o A.A. poderia oferecer aos membros. Seu José, por exemplo, em entrevista me disse: “Alcoólicos Anônimos não dá casa, não dá emprego, não dá casamento pra ninguém, mas dá sabedoria para viver e seguir adiante.”.

O elemento do anonimato é sugerido na décima segunda tradição, “O anonimato é o alicerce espiritual das nossas Tradições, lembrando-nos sempre de colocar os princípios acima das personalidades”, isto é, o que identifica os alcoólicos a partir do ingresso na Irmandade é a condição de anônimo antes mesmo do seu nome de registro. Em relação à supressão do nome pessoal do alcoólico, retomar a obra de Radcliffe-Brown (1965 [1952], p. 147), conforme sugere Fróis (2012), pode ser um importante canal de compreensão, Radcliffe-Brown nos diz:

“(...) evitar o nome pessoal é o reconhecimento simbólico do facto de que naquele momento a pessoa não está a ocupar a sua posição normal na vida social. Pode-se acrescentar que a pessoa cujo nome está temporariamente suspenso é considerada como tendo naquele momento um estatuto ritual anormal”.


O anonimato neste caso assume a função de suprimir o nome pessoal dos alcoólicos afim de lhes garantir controle de suas ações e das impressões que causam em outros indivíduos. Dona Graça esclarece:

A gente preza pelo anonimato porque se nós arranjarmos um emprego e falarmos que somos alcoólatras, não empregam porque não confiam. Não confiam na recuperação. Então é aconselhável que não se fale, mantenha o anonimato. A programação pode cair, a gente pode voltar a beber a qualquer momento, a qualquer hora (...) então, o que eles vão dizer? Os que desconhecem? Que é safadeza! Que é mal caráter, pouca vergonha, que é safado sem vergonha! É isso que falam! Então, a melhor coisa para nós é mantermos o nosso anonimato porque ninguém sabe o dia de amanhã.”



A partir desta fala, pude perceber que o anonimato, além de um princípio estruturante do A.A., é também uma artimanha conquistada pelos membros que os garante agência de suas ações. Apesar da situação de margem social (VELHO:1985) na qual os alcoólicos se percebem, tendo em vista a rotulação de desviantes que lhes é atribuída, não podem ser identificados como figuras passivas. Ainda que o alcoólico quando rotulado como tal seja representado por uma figura “doente”, “desintegrada” e “desajustada”, o grupo de A.A. representa diante deste cenário, uma minoria organizada que lhes garante controle de imagem e escolha de reprodução ou não da fronteira que os separa daqueles que não sofrem dos mesmos “problemas” com o álcool.

Em suma, a artimanha do anonimato está na possibilidade que este recurso oferece ao membro de A.A. de reconstruir sua história de vida (BOURDIEU:1986) tendo autonomia necessária para ser o próprio escritor de sua biografia. Neste relato autobiográfico, o alcoólico é o agente que dá sentido a sua vida podendo criar uma lógica retrospectiva e prospectiva de uma fase do alcoolismo que ficou no passado recente e que no presente está sendo cuidadosamente “tratada”.

O anonimato é, portanto, um recurso disponibilizado ao membro de A.A. que lhe permite gerir ou não informação sobre sua condição de alcoólico consoante o ambiente de interação em que se encontra. A capacidade do anonimato de tornar o alcoólico indistinguível (FRÓIS: 2012) não é trivial para um sujeito que em algum momento de sua vida perdeu o controle sobre suas ações.

Nesta perspectiva, o fator alcoolismo está para além do espaço e do tempo e só pode ser identificado a partir de uma confissão ou do que parece ser um comportamento expressivo, como uma recaída. Sendo assim, a fachada (GOFFMAN:1985) é a aparência de maior valor informativo para o alcoólico. Em uma entrevista de emprego, por exemplo, o membro de A.A. tende a se apresentar acionando, formas expressivas idealizadas que enfatizam uma fachada que transmita confiança, respeito e integridade.

Ainda sob o olhar conceitual de Goffman, é possível identificar a sala de A.A. como um espaço similar a um bastidor, no qual os membros são preparados para representar com auxílio do anonimato. O acesso a esse espaço é controlado conforme o consenso operacional pelo qual se evita que atitudes expressadas pelos membros nos bastidores, na ausência dos observadores, sejam transmitidas e julgadas de forma imprópria na região da fachada. Neste caso, a minha entrada nos bastidores enquanto pesquisadora é um fator que modificou a dinâmica nesse meio e que não pude ignorar. Em diversos momentos, ao contrário do que se imagina de um grupo que preza pelo anonimato, pude perceber a euforia entre os membros quando souberam que eu pretendia realizar entrevistas com alguns deles, mas não com todos. Por conta disto, aqueles que não foram ouvidos por mim, em momentos decisivos das reuniões soltavam informações polêmicas sobre o seu “passado de embriaguez” com a intenção de alguma forma prender a minha atenção para a sua trajetória específica no A.A.

Não deixo de me surpreender sempre que ouço o áudio das entrevistas com Dona Graça e Seu José e me questionar acerca da cordialidade com que aceitaram me ceder um tempo para narrar suas trajetórias de vidas e inserção no Alcoólico Anônimos. Assumir um passado com tantas “sujeiras”, como já me disse Dona Graça, não deve ser nada fácil. Então por que essas pessoas me aceitaram tão bem num espaço do qual eu não me identifico?

A primeira hipótese é que a minha presença significava o interesse de alguém que não compartilhava das mesmas experiências e lutas, e que poderia desmistificar a imagem do alcoólico difundida na sociedade como um todo. Esta teria sido a razão principal pela qual pude compartilhar durante três meses a batalha que esses membros traçam todos dos dias contra o álcool. Mas ouvir novamente a entrevista com Dona Graça e ela me dizendo: “Pergunte Mariana! Pergunte mais!” me despertou para perceber que testemunhar uma história de superação é como alimentar o orgulho próprio por vencer uma batalha que para muitos e até mesmo para si já estava perdida. E nesta batalha a artimanha do anonimato é decisiva.





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