As possíveis relaçÕes entre moralidade e violência nas escolas na visão dos professores



Baixar 192,06 Kb.
Página5/5
Encontro04.12.2019
Tamanho192,06 Kb.
1   2   3   4   5
ESCOLA A

ID

Idade

Sexo

Religião

Disciplina

Área do Conhecimento

Formação Universitária

Tempo como professor

P1

44 anos

F

Católica

Língua Portuguesa

Humanas

Pós-graduação

25 anos

P2

26 anos

F

Evangélica

Matemática

Exatas

Pós-graduação

5 anos

P3

35 anos

F

Católica

Ciências

Biológicas

Pós-graduação

5 anos

P4

49 anos

F

Católica

Língua Portuguesa

Humanas

Pós-graduação

7 anos

P5

49 anos

F

Evangélica

Inglês

Humanas

Graduação

15 anos

P6

46 anos

F

Sem religião

Geografia

Humanas

Graduação

17anos

P7

46 anos

F

Católica

Arte

Humanas

Graduação

20 anos

P8

33 anos

F

Católica

Educação Física

Biológicas

Pós-graduação

10 anos

P9

50 anos

F

Evangélica

Geografia

Humanas

Pós-graduação

23 anos

P10

67 anos

F

Católica

História e Ensino Religioso

Humanas

Graduação

42 anos

ESCOLA B

P1

40 anos

F

Católica

Arte

Humanas

Graduação

7anos

P2

35 anos

F

Católica

Matemática

Exatas

Graduação

12 anos




P3

46 anos

F

Católica

Língua Portuguesa

Humanas

Pós-graduação

21 anos

P4

35 anos

F

Evangélica

Educação Física

Biológicas

Graduação

7 anos

P5

36 anos

F

Evangélica

História e Ensino Religioso

Humanas

Graduação

13 anos

P6

30 anos

F

Católica

Ciências

Biológicas

Graduação

15 anos

P7

54 anos

F

Evangélica

Geografia

Humanas

Pós-graduação

15 anos

P8

39 anos

F

Católica

Português e Inglês

Humanas

Pós-graduação

15 anos

P9

25 anos

F

Católica

Matemática

Exatas

Pós-graduação

8 meses

Fonte: dados retirados das entrevistas semiestruturadas.


  1. Instrumentos para coleta de dados

Como instrumento para a coleta de dados utilizamos a entrevista semiestruturada.


As entrevistas foram realizadas no primeiro semestre de 2014, na escola do professor participante, em horário previamente agendado e em uma sala disponibilizada para este fim. Não houve interferência externa e o ambiente era propício para o desenvolvimento das entrevistas. A duração média de cada entrevista foi entre 30 e 40 minutos.

A entrevista que realizamos foram trabalhadas com as cinco questões geradoras que buscaram obter a concepção dos professores, por meio da experiência consciente, sobre a violência na escola e suas possíveis relações com a moralidade humana.

Para tanto, perguntamos: 1) Em sua opinião, o que significa violência na escola? Dê exemplos de situações dessa violência; 2) Você já vivenciou situações de violência nas escolas? Se sim, quais?; 3) Na sua opinião, quais as possíveis causas dessa violência?;
4) Para você, o que significa moralidade?; e 5) Na sua opinião, existe alguma relação entre moralidade e violência na escola? Se sim, qual(is)?

RESULTADOS E ANÁLISE DOS DADOS

Após a transcrição das entrevistas com os professores participantes, iniciamos as possíveis classificações de grupos e categorias, com o intuito de organizar os dados e proceder à análise.

Para realizar a análise, dividimos as respostas em três grupos: a) concepção de violência escolar (questões 01, 02 e 03); b) concepção de moralidade (questão 04); e
c) relações entre moralidade e violência na escola (questão 05).

Para cada um dos grupos, definimos categorias de acordo com as respostas dos entrevistados. Definir uma categoria significa encontrar núcleos comuns de sentido na exposição comunicativa do entrevistado, a fim de organizar o material para análise. Para Sanders (1982), a definição de categorias seria a localização das temáticas que emergem das entrevistas.

Na Tabela 1, descrevemos as categorias, o número de professores que encontramos em cada categoria e as respectivas frequências encontradas em cada um dos grupos. Vale ressaltar que, entre parênteses, está indicada a questão relacionada ao questionário proposto.


Tabela 1 - Grupos e categorias analisadas

Grupos

Categorias

N

F

01 - Concepção de violência escolar

Violência caracterizada por agressões físicas e psíquicas (questão 1).

10

52,6%

A violência escolar entendida como bullying (questão 1).

9

47,4%

As causas da violência relacionadas ao ambiente familiar (questão 2 e 3).

10

52,6%

Sistema escolar e valores da sociedade contemporânea como responsáveis pela violência (questão 2 e 3).

9

47,4%

02 - Concepção de moralidade

A moral entendida como valores advindos da tradição (questão 4).

6

31,5%

A moral e sua relação com o dever (questão 4).

2

10,5%

A moral e sua relação com a empatia (questão 4).

11

58%

03 - Relações entre violência e moralidade

Valores intrinsecamente ligados com a violência escolar (questão 5).

10

52,6%

A injustiça, ofensas e repressão como fatores responsáveis pela violência escolar (questão 5).

5

26,3%

A educação familiar e a falta de limites como fatores fundamentais para o comportamento violento dentro das escolas (questão 5).

4

21,1%

Legenda: N = número de professores ; F = Frequência (em porcentagem).

Fonte: Dados elaborados pelo autor a partir das entrevistas.


A partir deste ponto, analisaremos cada grupo e as respectivas categorias encontradas.

Grupo 1 - A concepção de violência escolar apresentada pelos professores
Categoria 1: a violência caracterizada por agressões físicas e psíquicas
Para P.1.A, a violência na escola é: “quando as pessoas, os alunos começam a se agredir entre si, não só agressividade física, mas verbalmente também, ou certas atitudes que eles têm dentro da sala de aula...”. P.2.A também faz essa relação entre a violência ser distinguida entre a física e a verbal: “Tem a violência física, e tem a violência verbal. A violência verbal é o que a gente mais sofre...”. P.3.A também destaca essa mesma ideia quando perguntamos se ela já vivenciou situações de violência na escola: “Já, já vi violência física mesmo, de aluno batendo um no outro”.

P.4.A fala, de forma mais direta, o que seria a violência: “é aquilo que fere o outro aluno, na sua integridade física, ou emocional, ou psicológica. Isso pra mim é violência”. P.8.A nos relata o que considera como violência na escola: “violência na escola pra mim tá tudo ligada entre... Tanto na parte moral, física, mental, porque a agressão mesmo não é só física, às vezes como falar já agride a pessoa, então aí já vai ter uma complicação...”.

Segundo Guerra (2001), há vários tipos de violência que se manifestam no ambiente escolar, com destaque para a violência física, a psicológica, a verbal e a sexual. Dessa forma, observamos que é bem comum os professores já terem essa dimensão, na atualidade, das diversidades pelas quais a violência escolar se manifesta, como apontado por P.4A e P.8.A.

Já entre os professores do colégio B, a professora P.1.B destaca: “... Tem a violência física, e bem mais a violência moral...”. O professor P.2.B também enxerga os tipos de violência baseados na violência física e verbal: “Eu acho que a violência existe de várias formas: tem a violência verbal, a violência física e outras situações também...”. Para P.4.B, quando questionamos sobre o que significa violência na escola, ele respondeu: “Violência pode ser tanto física quanto verbal. Já vi muita agressão física, xingamentos, já fui agredida por aluno também, tanto fisicamente quanto verbalmente...”. Para P.6.B: “violência eu acho que está vinculada tanto com o aspecto verbal quando o físico, corporal”. Por último, a professora P.7.B é bem mais direta: “Violência? Pode ser violência verbal, tanto violência física quanto verbal, entre professores e alunos e entre os alunos”.

Assim, para P.4, P.6 e P.7 da escola B, a violência escolar pode ser caracterizada por dois tipos: violência física e verbal.

Aproximando a definição de violência dos professores supracitados com o ponto de vista de Guerra (2010), a violência física é bem complicada de ser definida e, por isso, é considerada complexa de ser caracterizada. Isso se dá, também, pelas novas descobertas em relação à violência, abrangendo desde as agressões intencionais como os danos sem intenção. Interessante ressaltar que muitos professores entrevistados foram vítimas também destas violências físicas e verbais, ou seja, esses comportamentos não se restringem apenas aos alunos.
Categoria 2: a violência escolar entendida como bullying
Nesta categoria, iremos discutir e analisar as respostas dos professores que relacionaram a violência escolar com o bullying.

Segundo P.5.A, quando perguntamos se ela já vivenciou situações de violência na escola, ela nos deu a seguinte resposta: “a violência também tem o bullying, também tem muitas coisas ligadas à discriminação...”. Já para P.6.A, o bullying pode ser caracterizado como a falta de consideração e importância com o outro, como ela mesma diz: “...Tem a questão também de um não se importar com o outro, que hoje em dia é chamado de bullying na escola, né? E isso gera também a violência”. Segundo P.7.A, quando perguntamos se ela vivenciou situações de violência na escola, obtivemos a seguinte resposta: “Sim. Sim, assim, diariamente ‘né?’, A questão que eu falei do falar, do verbo, o tal do bullying. Diariamente, nas salas de aula, é aluno que xinga o outro, que chama o outro de ‘burro’ ou ‘seu incompetente’ ou ‘que você não sabe nada....”

Quando perguntamos para P.9.A o que significa violência na escola, ela nos respondeu: “Violência? Ela está em todo lugar, mas na escola se concentra mais... Ela se concentra mais, tem maior número de pessoas, principalmente adolescentes, porque na idade deles assim, eles não se aceitam, começam a falar um do outro, e começa a surgir a violência. Colocam apelidos, e começa a virar violência, principalmente o bullying, né?, que acontece na escola”.

Para analisarmos os comentários, partiremos da colocação de Rossato (2013) sobre o bullying. Este autor explica que as práticas de bullying entre os adolescentes provocam uma desarmonia na relação com os outros, e distorcem e enfraquecem algumas virtudes fundamentais para a relação com o próximo. Desta forma, o respeito, a dignidade, a solidariedade, a empatia, vão perdendo seu sentido e abrindo as portas para a violência.

A última professora entrevistada do colégio “A”, P.10.A, também comenta sobre o bullying e, quando lhe perguntamos se já tinha vivenciado situações de violência na escola, ela respondeu: “A gente está trabalhando muito com o bullying agora, sempre trabalhando, combatendo, mas mesmo assim têm muitos problemas com isso, xingamentos, apelidos, até mesmo com nós professores”.

Cabe ressaltar que identificamos semelhanças entre as respostas obtidas dos docentes da escola A e da escola B, como indicaremos a seguir.

No momento que perguntamos se existe muita violência dos alunos dos sextos anos, P.3.B nos respondeu: “Muito. Muita violência, bullying, acontece muito nos sextos anos. Um agredindo o outro, mas verbalmente. Fazem brincadeiras, mas não deixam de ser uma agressão”. Para P.5.B, a violência pode ser variada: “Na minha opinião, tem algumas variações: a violência inclui a violência física, quando a agressão chega ao extremo, mas também entra a questão da violência verbal, xingamento, o próprio bullying, tem várias situações”.

P.8.B nos diz que a violência e o bullying têm uma relação muito próxima, quando perguntamos se ela tinha vivenciado situações de violência na escola, respondeu: “Já sim, principalmente quando o aluno sofre de bullying, né? Acho que a violência e o bullying tem uma relação muito próxima”. Por último, a professora P.9.B destaca bastante a discriminação pela prática de bullying: “Tem muitas agressões verbais como o bullying, discriminação pela pessoa ser gordinha, ser diferente...”.

Segundo a interpretação de Rossato (2013), as pessoas consideradas com aparências diferentes (magras, baixas, gordinhas, que usam óculos, entre outros) ou que apresentam comportamentos considerados distintos dos demais (mais quietos, os mais inteligentes, comportados, entre outros) são os tipos de vítimas que mais estão sujeitos ao bullying, enquanto os considerados mais rebeldes, agressivos, são os alunos que mais praticam o bullying contra os outros.
Categoria 3: as causas da violência relacionadas ao ambiente familiar
As análises referentes às respostas obtidas nessa categoria se pautam nas causas da violência que os professores acreditam estarem diretamente ligadas à estrutura familiar.

Ao perguntarmos para P.1.A sobre as possíveis causas da violência escolar, obtivemos a seguinte resposta: “Nós temos os casos da família, né? A situação familiar é bem complicada, e têm muitos alunos que são praticamente abandonados.” A professora P.2.A também estabelece a relação da família com a violência ao questionarmos sobre as causas da violência escolar: “A educação de casa, porque assim: se você chamar um pai, de um aluno ‘assim’, ele trata o pai quase da mesma maneira, então ele já vem com essa rotina da casa dele, daí só reproduz na escola o que aprende em casa”. P.4.A nos relata sobre a falta de educação em casa, a falta de orientação dos pais, como exemplos de causas de violência escolar: “A falta de educação em casa? A falta de orientação dos pais, no sentido de explicar o que é certo ou errado, o que a criança deve fazer, o que não deve, de coibir, isso é superimportante por que é... O instinto der ser agressivo, ele pode vir da criança, e isso tem que ser controlado pelos pais”. A professora P.5.A responde sobre as causas da violência da seguinte forma:


“As possíveis causas? Seria assim, olha: nós temos uma sala de aula, vou falar assim da sala de aula tá? Porque é minha prática, minha vivência. Temos uma sala de aula, e vem um aluno de cada família, cada um com uma determinada instrução familiar, uma criação. E eles chegam ali, e têm um embate, entendeu?”.

Segundo P.10.A, as causas da violência estão intrinsecamente ligadas à omissão dos pais, como podemos constatar em suas palavras: “Olha, eu acho que essa violência parte de uma formação de quem trabalha com adolescente. Então, eu acho que ele já traz essa violência da omissão dos pais..”.

A fala desses professores corrobora com os estudos de Santos (2002) sobre os estudantes que têm um contexto histórico contaminado pela negligência familiar, omissão dos pais, que não recebem a atenção devida, vítimas de uma família desestruturada, apresentarem, corriqueiramente, comportamentos agressivos e bem violentos.

No colégio B, a professora P.3.B nos fala sobre a falta de limites estabelecidos pelos pais como causa da agressividade dos alunos: “Eu acho que é falta de limite. Pelo que eu conheço desses alunos que dão mais trabalho é a falta de limite, que começa lá na família. Eles não conseguem seguir regras, eles não conseguem respeitar o espaço do outro, não percebem que estão invadindo o lugar do outro...”

P.5.B também comenta sobre a falta de limites como causadora da violência dos alunos nas escolas: “tem muitas, né? Falta de limites em casa, desestrutura familiar... O que a gente observa? Que têm muitas configurações familiares que nós observamos.”

P.7.B acredita que as causas da violência advêm da família também: “Acho que vem da família, vem muita coisa da casa... Na minha opinião vem de casa, é uma questão familiar, educação, aprender palavrões. Os pequenos trazem muita coisa de casa, então vem de casa mesmo essa questão de más condutas que geram a violência”.

Para P.8.B, as causas da violência vêm da família: “Difícil falar isso... Acredito que seja a família o motivo. Muitos pais, ainda mais de famílias carentes, não têm o hábito de ajudar e acompanhar os filhos na sua trajetória”. Por último, para P.9.B, as causas da violência decorrem da falta de valores transmitidos pela família: “Eu acho que a primeira é a família... Acho que se a família não ensinar seus valores, a sociedade vai te passar os valores dela... As amizades também influenciam muito, às vezes, um aluno bom anda com alunos bagunceiros, aí vira um círculo vicioso, uma coisa vai levando a outra”.

Analisando o que esses professores nos disseram, Hill e Taylor (2004) discorrem sobre a ideia de que muitos professores que são de classes sociais mais altas do que os de seus alunos tendem a julgá-los como incapazes e mais propensos à indisciplina, desinteresse pela aprendizagem e aos comportamentos considerados nocivos para a escola. Observamos que é muito comum os professores culparem os pais de classe mais baixa em relação ao desempenho dos seus filhos e aos seus comportamentos e, geralmente, quando as famílias são de uma classe social mais alta que os professores, estes últimos tendem a respeitar mais os alunos provenientes dessas famílias.

Categoria 4: sistema escolar e valores da sociedade contemporânea como responsáveis pela violência
Nesta categoria identificamos poucos professores que apontaram os reflexos da sociedade contemporânea ou o sistema escolar como causadores da violência escolar. Apontaremos alguns exemplos dessa subcategoria:

Para P.3.A, o significado de violência na escola pode ser explicado da seguinte forma: “Bom, é... Eu acho que, o sistema... é... O sistema da escola é um pouco violento, porque, de certa forma, ele... Ele... é... Tem um pouco de valores, de pré-conceitos de formas um pouco violentas, como, por exemplo, quando você não permite que os alunos se expressem. Para P.6.A, o reflexo social da atualidade seria a causa da violência escolar. Segue a explicação da mesma: “Eu acho que é o reflexo social da atualidade sabe? Não se tem muito controle, tem se dado uma liberdade de escolha total e muitas vezes isso não é muito bem colocado pra essas crianças. Então eles acham que eles podem tudo, eles não têm limites...”. Sobre a falta de uma relação do professor com o aluno pautada na aprendizagem, P.7.A faz o seguinte comentário: “violência na escola pra mim é tudo o que foge de uma relação normal, de cordialidade, de uma relação professor com aluno de aprendizagem”. Segundo P.8.A, as causas da violência estariam relacionadas à imaturidade e ao imediatismo dos alunos: “Eu acho que é... é a ignorância mesmo. Assim, a falta de informação, a falta de paciência a idade, né? Pré-adolescente, adolescente, porque pra eles... Eles não pensam no amanhã”. P.9.A nos aponta a falta de interesse pela escola como causa da violência escolar: “Primeiro porque eles não gostam de vir na escola. Eles vêm pra brincar, passear. Então, isso acaba gerando briga porque eles estão em um lugar que eles não querem estar.”

Avaliando o ponto de vista desses professores, mencionaremos Kehl (1996). Para a autora, o adolescente, na contemporaneidade, age como se tudo fosse divertimento, buscando sempre o prazer e o imediatismo, mesmo que para alcançar e satisfazer esses desejos almejados, correspondentes a uma cultura atual que alimenta essa ideia de “grandeza”, maltrate e humilhe pessoas próximas, usando como recursos a violência gratuita, o desrespeito com o próximo, a incivilidade, entre outros.

Quando se trata dos professores do colégio B, para P.1.B, a falta de conhecimento é uma das causas da violência: “Acho que é o conhecimento mesmo. Quando você desconhece você acaba cometendo coisas e você não sabe que está transgredindo uma norma ou coisa assim por falta de conhecimento”.

P.2.B acredita que as causas da violência escolar estariam ligadas à falta de esclarecimento dos alunos: “Eu acho que é a falta de respeito com os colegas, respeito com as pessoas, com os valores que estão ficando pra trás. Acho que seriam um pouco de falta de busca de esclarecimento, esclarecimentos de violência eles têm, eles sabem quando estão cometendo um ato de violência verbal, mas falta talvez um pouco de esclarecimento...”.

Por último, segundo P.4.B e P.6.B, as causas de violência escolar vêm da sociedade; segundo a fala de P.4.B: “Acho que tem relação com a questão social, né? Muitos alunos são de famílias carentes, desestruturadas, que não têm valor, ética, e eu acho que é isso que gera violência dentro das escolas”.

Analisando os comentários dos professores do colégio B sobre a violência escolar e a relação desta com a sociedade, encontramos respaldo em Santos (2004), que aponta que a contemporaneidade é marcada por relações cada vez mais sem sentido, vazias, em que se ausentam valores, regras, normas que conduzem e dão significado à vida de todas as pessoas, incluindo a juventude e a infância.

Grupo 2 - Concepção de moralidade

Categoria 1: a moral entendida como valores advindos da tradição
Nesta categoria buscaremos apresentar as respostas dos professores sobre o significado da moral e sua relação com os valores provenientes da família, dos costumes, da tradição e da sociedade.

Para P.1.A, o significado da moral pode ser entendido como: “Pra mim a moralidade é a questão dos próprios valores, né? Aquilo que você tem que estar trazendo da família, da escola e que acaba levando pra vida”. Segundo P.3.A, a moralidade é constituída por valores adquiridos de uma determinada época: “Acho que moralidade é uma questão de valores de uma época... Que ela impõe, né? Eu acho que quando muda as épocas, muda as moralidades, né? E aí o que acontece? Geralmente as pessoas seguem isso”. Quanto ao significado de moral, P.9.A acredita que: “Moral é, na realidade, as crianças... Hoje não tem educação de casa, maioria não tem. Ficam em casa sozinho, e acabam... Não sei, parece que eles não têm objetivo, não têm religião”.

P.6. B e P.8. B consideram os exemplos vindos da família como fundamentais para a pessoa ter bons valores morais. Para P.6.B: “Moral? Eu acho que o conceito de moralidade é... Eu acho que moral e ética caminham juntas, né? Então eu acho que se uma pessoa tem uma vivência, um exemplo de alguém em casa, ela vai ter uma moral”. Segundo P.8.B: “a moral vem da família, das tradições da casa...”.

Por último, para P.7.B, moral significa ter princípios que cada pessoa carrega na sua vida: “Deixa eu pensar... São princípios que vem sendo acumulados desde o nascimento da pessoa... Digamos que é um conjunto de princípios que a pessoa vem acumulando na sua história de vida”.

P.9.A, P.6.B, P.7.B e P.8.B argumentam que a moral está diretamente relacionada com os valores adquiridos pela família que cada indivíduo obtém no seu desenvolvimento, e que a falta de transmissão desses valores desvirtua o sujeito. Analisando a postura desses professores, poderíamos usar como alicerce a teoria do desenvolvimento moral de Piaget. Segundo Puig (1996), Piaget explica que a moral não é algo inato do indivíduo, pelo contrário, a moralidade é fruto do desenvolvimento cognitivo do indivíduo e, principalmente, é resultado das relações estabelecidas pela criança com o meio social e familiar, seja com os adultos seja com outras crianças. Essas relações estabelecidas entre os diferentes grupos são fundamentais para o desenvolvimento de critérios básicos de moral e justiça.

Categoria 2: a moral e sua relação com o dever
Nesta categoria, delimitaremos as entrevistas em que os professores relacionaram a moral aos deveres e à disciplina.

Segundo P.2.A, a moral é como se fosse um dever, nas suas palavras: “Moralidade: não sei... Acho que um dever? Uma coisa que você faz que seja certa? Dentro dos padrões da sociedade? Eu acho que é isso”.

Por último, P.10.A define moral como algo sempre do nosso desenvolvimento, e que sempre estamos aprendendo: “Moral? Então, inclusive eu trabalhei esses dias o que é consciência moral. O que seria isso? É o desenvolvimento da pessoa. Tudo começa muito cedo, né? E eu acho que esses alunos estão em formação ainda, estão a caminho ainda. Eu acho que engloba tudo a moral: é o conhecimento, a disciplina, a formação religiosa”.

Avaliando o ponto de vista desses professores, poderíamos nos pautar na teoria do desenvolvimento moral de Piaget (1932/1994). Segundo o autor, o seu principal foco era pesquisar e comprovar que a moralidade é construída por meio de um processo contínuo de interações constantes com o meio social, que segue um caminho psicogenético que vai de uma tendência heterônoma para uma tendência autônoma.



Categoria 3: a moral e sua relação com a empatia e o respeito
Nessa categoria, buscaremos aproximar o conceito de moralidade dos professores com a empatia e o respeito.

Segundo P.4.A, a moralidade pode ser compreendida da seguinte maneira: “Moral ou moralidade? É a gente se comportar de uma forma que não fira, que não vai contra aquilo que a gente acredita como certo e aquilo que a gente aprendeu como certo ou errado.” Para P.5.A, a moral implica princípios, mas também o fato de respeitar o limite do outro: “Moral seria assim: tudo o que você traz do seu conceito de pessoa. Tudo que você traz desde que você é formado como pessoa, desde que você... é... Vem ao mundo”. P.6.A acredita que moral tem uma relação bem próxima com o respeito: “Moralidade? Muito importante. Porque eu acho que a moralidade, acima de tudo, não pode ser ligado a nenhum tipo de preconceito, você não tem que ter preconceito pelo estilo ou pela pessoa, ou pela uma escolha. Mas eu acho que a moralidade eu acho é que você tem que ter respeito”.

Para P.7.A e P.8.A, a moralidade caminha junto com a ética, e também está ligada ao respeito pelo próximo. Segue a fala de P.8.A: “Moralidade? Moralidade tem um pouquinho de tudo. Tem a questão de educação em casa, né?...”. De acordo com P.7.A: “Moral e ética andam juntos, se eu tenho moral eu tenho ética, se eu tenho ética eu tenho moral. É uma questão de respeito pelo próximo e não está tendo. Eles não têm... Eles não têm essa maturidade pra entender o que é moral e trabalhar o que é moral com outra pessoa”.

Analisando agora o que os professores relataram sobre moral, podemos retomar o conceito de moral ligada à questão de respeito ao próximo, como explicado por La Taille (2006). Para este autor, a moral está intrinsecamente ligada a regras e normas, e estas, por sua vez, servem para estabelecer um limite o qual eu não posso transgredir, e que o intuito é respeitar o próximo e respeitar o limite desse outro que é diferente de mim, e que também possui direitos e deveres como todos.

P.1.B, P.2.B e P.4B se aproximam muito nas ideias, dizendo que a moralidade é um conceito bem pessoal; o que pode ser moral para um pode não ser para outro.

Nas palavras de P.1.B: “O que é moral pra uns pode não ser pra mim, então eu acho isso bem complicado de falar o que é moral, como se trabalhar moral, ética, sabe?”. Segundo P.3.B, a moralidade pode ser entendida da seguinte forma: “Moralidade? Poxa vida, que coisa difícil hein? (risos). Não sei se faço uma confusão com moral e ética, que diferença tem, mas eu acho que tem uma relação com a conduta, com o respeito, com o espaço coletivo, com o outro, se pensando em aluno”. Para P.5.B, moral e ética não são muito diferentes, assim, apresenta a seguinte reflexão a esse respeito: “Como eu poderia definir? Moral seria... Não seria diferente muito de ética... Você se organizar dentro de uma sociedade em que você não faria com o outro aquilo que não gostaria que fizesse com você...”.

Analisando a explicação dos professores da escola “B” sobre moral e ética, parece-nos que essas professoras caracterizaram a moral como a fase heterônoma do desenvolvimento moral citado por Piaget (1932/1994), e a ética como a fase “autônoma”. Para o referido autor, a heteronomia é uma fase em que o indivíduo tende a se comportar respeitando as leis e normas impostas pelo adulto sobre as quais não se pode questionar: ela é pura e tem que ser respeitada. Já a autonomia surge quando o indivíduo começa a se preocupar com o coletivo e com a cooperação. Por último, P.9.B assim define moral: “Moral? Eu acho que... Não sei... Preciso pensar... é uma pessoa que não é violenta, que não faz com os outros o que ele não quer pra ela...”.

Grupo 3 - As relações entre moralidade e violência na escola segundo a concepção dos professores

Categoria 1: valores intrinsecamente ligados à violência escolar
Nesta categoria apontaremos algumas respostas dos professores que acreditam que a falta de valores justifica as atitudes violentas de alguns alunos nas escolas.

Ao questionarmos P.1.A sobre a existência de alguma relação entre violência e moral, obtivemos a seguinte resposta: “Eu acho que sim, né?... Existe porque é aquilo que eu estava comentando... A própria relação com a escola, com a família e com a sociedade..”. Segundo P.2.A, os alunos levam para a escola os valores aprendidos em casa, em suas palavras: “... Como eu defini moral como uma coisa certa de se fazer, uma regra, eu acho assim... Eles não têm isso em casa, e acaba não tendo isso aqui, porque você pega pais que até tentam passar alguma coisa, só que o pai faz o contrário, do tipo ‘faça o que eu digo’, e faz tudo errado, e aí como o filho vai ter exemplo?”.

A esse respeito, P.3.A comenta: “Acho que o aluno vem com aqueles valores morais de casa, e daí se choca com as diferenças, pois a escola é uma diversidade, propõe uma diversidade de pensamentos, de formas de vida, e às vezes alguma criança, algum adolescente, vem com uma formação moral muito forte e ele se choca, e pode ocasionar a violência”. Para P.5.A, a relação entre moral e violência escolar pode ser entendida da seguinte maneira: “Acredito assim que, se você não tem moral fora da escola, você não vai ter moral dentro da escola. Você já traz a violência entendeu? Pra escola. A pessoa que não é violenta, que tem uma formação, ela vai contra a violência, e não partir pra violência. Seria assim uma forma de cessar a violência, e não dar continuidade para a violência, como a gente vê em alguns casos”.

Observamos que tanto P.5.A como P.2.A seguem o mesmo exemplo de P.1.A, ou seja, apontam que muitos valores são aprendidos no lar, e se esses valores não forem transmitidos pelas figuras paternas, a escola tem que “abandonar” seu papel e tentar dar conta dessas crianças “problema”. Essa construção de valores morais nos faz pensar sobre as definições que Piaget (1932/1994) traz sobre a heteronomia. Parece-nos que esse adágio moral heterônomo ainda é predominante no pensamento escolar, em razão das crenças de alguns professores no inquestionável valor que a família tem que transmitir para seus filhos, que isto tem que vir exclusivamente de casa. A moralidade, no pensamento de alguns profissionais da escola, parece ser algo exclusivo da heteronomia, ou seja, tem que ser presa a leis e regras e não pode ser questionada e transgredida.

Quando perguntamos a P.10.A se existe uma relação entre moral e violência, obtivemos a seguinte resposta: “Pode até existir, né? Se ele não tem... De repente uma pessoa é muito... Pra fazer valer o assunto que ele fala... Por exemplo, a homossexualidade. Os mais antigos não aceitam isso, acha imoral, mas a televisão, alguns outros fatores tem mudado atualmente, e isso não é mais imoral. Mas, nesse sentido, tem muitas pessoas extremamente morais e elas podem ser violentas, até esse exemplo que eu te disse da homossexualidade”.

Para P.2.B, os valores de casa têm relação com a violência escolar: “...Dentro de casa, se o pai fala mal, fala um palavrão que acaba ofendendo as pessoas, provavelmente o filho na escola ou em qualquer lugar, na rua, vai fazer a mesma coisa e pra ele isso é normal, mas dentro da escola não é”.

P.2.B também nos parece resgatar a mesma ideia apontada por P.1.A, P.2.A e P.5.A, responsabilizando a família como os portadores exclusivos da transmissão de bons valores para as crianças, e que a falta, distorção ou a negligência destes costumes é que levam o indivíduo a ser violento. Para P.4.B, a falta de valores ocasiona a violência: “... se não tiver moral, no sentido de ter valores, ética, fica difícil não acontecer a violência. Se os professores conseguirem ser bons exemplos para os alunos, quem sabe a violência fica mais amena?”. P.5.B acredita que certas moralidades podem provocar a violência: “...com certos tipos de moralidade você pode acabar incitando a violência. Muitas vezes em vez de usar a moralidade para acabar com a violência, você pode usá-la para incentivar mais os alunos a ser violentos. Trata-se de que tipo de moralidade estamos falando? Então é bem complicado isso, porque a moral pode ser usada tanto pro bem quanto pro mal”.

Talvez possamos pensar na moral como La Taille (2009) nos aponta. Para o autor, trata-se de abordar o assunto sobre moral e falar sobre regras e normas que regem um determinado grupo, a fim de que estes convivam de forma harmoniosa em uma determinada sociedade.

Segundo P.8.B: “Se o aluno tiver respeito, valores, valorizar o professor, os funcionários da escola... Se realmente eles trouxessem esses valores de casa, pouco teria de violência na escola”. Por último, P.9.B acredita que pessoas sem valores próprios estão sujeitas a cometer práticas violentas: “Todas as pessoas que cometem violência, na maioria dos casos, são de pessoas amorais, que não têm valores próprios... Isso porque não teve quem auxiliasse essa criança na busca de valores, e como ela ficou entregue nos princípios que a sociedade impõe, ela se torna uma pessoa violenta”.

P.8.B e P.9.B também pensam a respeito da falta de transmissão de valores na infância como ocasionadores das más condutas e das práticas violentas em fases posteriores. Mas, enquanto P.8.B ressalta os valores advindos da família, P.9.B não deixa claro que esses valores devem vir de casa, contudo, aponta que os valores advindos da sociedade são ruins.

Categoria 2: a injustiça, as ofensas e a repressão como fatores responsáveis pela violência escolar
A relação entre moral e violência, segundo P.4.A, poderia ser explicada da seguinte forma: “Se a gente pensar, assim, que a moral tem a ver com o que a gente acha que é certo, acha o que é errado, comportamento e com a repressão, então tem”. Para P.6.A, existe uma relação entre moralidade e violência na escola, e ela justifica dizendo: “na minha opinião existe (relação entre moral e violência), porque isto é uma das questões que leva o indivíduo a perder o controle. Se ele se sentir ofendido moralmente, se sentir injustiçado, ele vai ter uma reação de violência. Muitas vezes não prevista, pode ser até uma coisa trágica”. Já para P.7.A, a relação entre moral e violência pode ser entendida da seguinte forma: “Existe sim uma relação entre a moral e a violência. A partir do momento que existem ofensas e desrespeito a violência acontece...”.

Por último, P.9.A nos aponta a falta de cultura e ignorância quando questionamos se, em sua opinião, existe alguma relação entre moralidade e violência nas escolas: “no Brasil é mais coisa cultural... não tem uma cultura, não tem esse hábito, não tem essa história, então a violência é gerada por causa disso, pela ignorância”.

Da escola B, somente P.6.B associa a ignorância com a violência escolar; bem parecido com o que P.9.A nos falou: “a violência ocorre por causa da ignorância dos alunos... Pela falta de informação...”.

Analisando essas colocações, Chauí (1999) nos explica como a sociedade brasileira tem tratado o assunto da violência. Para a autora, as explicações sobre esse fenômeno, no Brasil, estão cada vez mais banalizadas, e toda a complexidade acerca da compreensão da violência está sendo descartada. Desta forma, a mídia e outros meios de comunicação estão camuflando a realidade dos fatos, tornando problemas como a desigualdade, a injustiça e a violência como superficiais.



Categoria 3: a educação familiar e a falta de limites como fatores fundamentais para o comportamento violento dentro das escolas
Nesta categoria, ressaltaremos as respostas da última pergunta da entrevista que foca a falta de educação e a falta de limites como resultantes da violência escolar.

De acordo com P.8.A e P.1.B, a relação entre moral e violência depende muito da forma como o sujeito é educado, em outras palavras. Segundo P.1.B: “depende de como você é educado”. Já P.8.A faz o seguinte comentário: “eu acredito que isso vem da educação mesmo, que acarreta... Depende da forma como você educa, passa os conteúdos, se você exagera, delimita muitas coisas”. Segundo P.3.B e P.7.B, a relação entre moral e violência escolar pode ser entendida por dois pontos: a falta de respeito e a falta de limites familiares. Para P.3.B: “Se for pensar pelo lado de respeito é claro que tem (relação entre moral e violência). A questão de aprender os conceitos de moral, de respeito, de respeitar o espaço coletivo, do que é correto. Acredito que todo o aluno que não tem essa formação, que não entra só a escola, mas a família e outras instituições também, é claro que tem muita relação”.

P.7.B nos aponta a falta de limites familiares. Quando perguntamos sobre a sua crença a respeito da existência de uma relação entre a falta de informação e orientação com a agressividade, obtivemos a seguintes resposta de P.7.B: “Eu acho que é falta de limites. Pelo que conheço desses alunos que dão mais trabalho é a falta de limite, que começa lá na família. Eles não conseguem seguir regras, eles não conseguem respeitar o espaço do outro, não percebem que estão invadindo o lugar do outro”.

Analisando a fala de P.8.A, P.1.B, P.3.B e P.7.B, observamos que todos os entrevistados citam a questão da educação como peça fundamental no desenvolvimento moral dos jovens. As professoras destacam o respeito e o limite que cada indivíduo precisa ter para não invadir o espaço do outro.

A seguir, nas considerações finais deste trabalho, apresentaremos uma conclusão mais precisa sobre a leitura dos professores em relação à moral e à violência, bem como as possibilidades de contribuições da psicologia moral sobre o combate à violência escolar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das discussões geradas pelas perguntas propostas por este estudo, cujo grande foco foi evidenciar a perspectiva dos professores acerca da moral e a sua relação com a violência, podemos destacar alguns pontos referentes às respostas dos professores, a saber: a responsabilidade única e exclusiva da família pelo comportamento violento dos seus filhos na escola; as mudanças nos valores morais (visão tradicionalista versus moral contemporânea); os valores distorcidos da sociedade e a conduta e falta de exemplo dos professores como ocasionadores da violência dos alunos. O grande destaque nas entrevistas foi a postura de muitos professores pela unilateralidade na compreensão do fenômeno da violência escolar, em que muitos desses profissionais atribuíram exclusivamente aos pais a culpa pelas manifestações de violência dos alunos na escola.

Valendo-nos da discussão sobre a moral, em que os professores entrevistados acreditaram que existe uma relação direta com a violência, podemos gerar uma discussão não reducionista (família como a única responsável pela violência escolar) e amplificar essa análise discutindo a educação moral, os valores morais contemporâneos e a transmissão desses valores na atualidade. Acreditamos que, fazendo uma leitura mais abrangente acerca da moral e sua relação com a violência nestas considerações finais, seja uma forma de contribuirmos positivamente para uma reflexão mais profunda sobre o fenômeno da violência escolar, e criar possibilidades de pensarmos num combate mais eficaz contra essa realidade que faz parte do cotidiano de muitas escolas.

Dessa forma, como poderíamos discutir, dentro da perspectiva da psicologia moral, formas eficazes de se combater a violência escolar?

Para Goergen (2001), ainda se discute muito sobre a escola e os seus propósitos: será que é papel da escola tratar de assuntos sobre ética e moral? Uma educação moral pautada em pensamentos tradicionalistas de metodologias ainda é eficaz? O autor se encarrega de responder sim para a primeira e não para a segunda questão. Uma reflexão acerca da ética está em alta nas produções científicas atuais e, possivelmente, seria uma crise nos valores contemporâneos que levam o cultivo de conhecimento nessa área a conquistar grande terreno. Dessa forma, pensar em uma educação moral, na atualidade, é transcender ideias retrógradas e começar a compreender os fenômenos sociais contemporâneos para se pensar em possibilidades plausíveis de intervenção escolar.

Sendo assim, falar sobre educação moral não implica em pensar em uma transmissão de normas consideradas verdadeiras, ou melhor, regras classificadas como corretas, mas mais do que isso; a educação moral visa ensinar que essas normas, a moral e a ética servem como base de princípios básicos para a convivência mais harmoniosa entre os indivíduos, em que se destacam o respeito, a dignidade e a empatia; e orientam os alunos na utilização desses valores na realidade, na concretude da vida.

Valendo-nos, então, de uma crítica à própria execução das práticas metodológicas e abrindo espaços para novas discussões, partilhando deste “novo” conhecimento, este que transcende o retrocesso de se compreender a moral e abre espaço para novas leituras das virtudes, com todos os membros que fazem parte do campo escolar, como pais, professores, diretores, pedagogos, entre outros, em que todos são e devem ser responsáveis pelos seus alunos, acreditamos que este seja um começo para refletirmos e combatermos a tão temida e preocupante violência que invade nossas escolas.



Referências

CAMACHO, L. M. Y. Violência e indisciplina nas práticas escolares de adolescentes: um estudo das realidades de duas escolas semelhantes e diferentes entre si. 2000. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000.
CHAUÍ, M. Introdução à Filosofia. Porto Alegre: Bertand Brasil, 1999.
CONSTANTINI, A. Bullying, como combatê‑lo? Prevenir e enfrentar a violência entre jovens. São Paulo: Itália Nova, 2004.
FRAGA, P. D. Violência: forma de dilaceramento do ser social. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, ano 23, n. 70, p. 44-58, jul. 2002.
GOERGEN, P. Pós-modernidade, ética e educação. Campinas: Autores Associados, 2001.
GUERRA, V. N. de A. Violência de pais contra filhos: a tragédia revisitada. São Paulo: Cortez, 2001.
HILL, N. E.; TAYLOR, L. C. Parental school involvement and children’s academic achievement. Current Directions in Psychological Science, v. 13, n. 4, p. 161-164, ago. 2004.
KEHL, M. R. Psicanálise & Mídia: Você Decide... e Freud Explica. In: Chalhub, S. (Org.). Psicanálise e o Contemporâneo. São Paulo: Hacker Editores, Cespuc, 1996. p. 93-105.
LA TAILLE, Y. Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre: Artmed, 2006.
______. Moralidade e Violência: a questão da legitimação de atos violentos. Temas em Psicologia, São Paulo, v. 17, n. 2, p. 329-341, 2009.
LEVISKY, R. B. Projeto “Abrace Seu Bairro”: prevenção da violência no meio escolar e melhoria da qualidade de vida. Revista da SPAGESP, São Paulo, v. 10, n. 2, p. 41-48, jul./dez. 2009.
LUDKE, M; ANDRÈ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: E.P.E., 1986.
MICHAUD, Y. A violência. Tradução de L. Garcia. São Paulo: Ática, 1989.
MISSE, M. Malandros, marginais e vagabundos & a acumulação social da violência no Rio de Janeiro. 1999. Tese (Doutorado em Sociologia) – Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1999.
PIAGET, J. (1932). O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994.

PUIG, J. M. A construção da personalidade moral. São Paulo: Ática, 1996.


Rossato, G. Educando para a superação do Bullying escolar. São Paulo: Loyola, 2013.




SANTOS, J. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 2004.



SILVA, O. J. A Violência Escolar no Contexto de Privação de Liberdade. Psicologia Ciência e Profissão, Brasília, v. 30, n. 2, p. 232-247, 2010.


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5


©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
santa catarina
Prefeitura municipal
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
Processo seletivo
ensino fundamental
Conselho nacional
terapia intensiva
ensino médio
oficial prefeitura
Curriculum vitae
minas gerais
Boletim oficial
educaçÃo infantil
Concurso público
seletivo simplificado
saúde mental
Universidade estadual
direitos humanos
Centro universitário
Poder judiciário
saúde conselho
educaçÃo física
santa maria
Excelentíssimo senhor
assistência social
Conselho regional
Atividade estruturada
ciências humanas
políticas públicas
catarina prefeitura
ensino aprendizagem
outras providências
recursos humanos
Dispõe sobre
secretaria municipal
psicologia programa
Conselho municipal
Colégio estadual
consentimento livre
Corte interamericana
Relatório técnico
público federal
Serviço público
língua portuguesa