As imagens da Antropofagia nas cartas de Vespúcio



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PRIMEIRAS IMAGENS DA ANTROPOFAGIA DOS ÍNDIOS DO BRASIL NAS EDIÇÕES ILUSTRADAS DAS CARTAS DE AMÉRICO VESPÚCIO.

Yobenj Aucardo Chicangana-Bayona - UFF1

A primeira edição ilustrada da Mundus Novus2, carta atribuída a Américo Vespúcio, foi impressa em Augsburgo em 1505 e contém a primeira imagem sobre antropofagia do Novo Mundo e umas das primeiras imagens do índio do Brasil3. Esta xilogravura, cujo autor é Johan Froschauer ficou conhecida como Imagem do Novo Mundo (fig. 1).




1. Johann Froschauer. Imagem do Novo Mundo. Xilogravura aquarelada a mão. 22x33cm. Mundus Novus, Augsburgo, 1505.
Ela mostra um episódio cotidiano na vida dos aborígenes do Novo Mundo. Onze índios, dentre eles, cinco homens adultos, três mulheres, três crianças, todos estão reunidos em uma espécie de cabana perto da orla marítima. Aparentemente os índios aparecem em atividades domésticas: cuidando das crianças, falando, comendo e se beijando. Cenas comuns se não fosse o caso de estarem degustando uma perna e um braço humanos. De uma das vigas da construção pendem partes de um corpo retalhado que está sobre uma fogueira; ao longe, no mar, podem ser vistas dois caravelas com uma cruz desenhada nas velas. A xilogravura está acompanhada pelo seguinte texto:
...Essa imagem nos mostra o povo e a ilha descobertos pelo Rei Cristão de Portugal ou por seus súditos. Essas pessoas andam nuas, são bonitas e têm uma cor de pele acastanhada, sendo bem construídas de corpo. Cabeças, pescoços, braços, vergonhas e pés, tanto de homens quanto de mulheres, são enfeitados com penas. Os homens têm também no rosto e no peito muitas pedras preciosas. Ninguém é possuidor de coisa alguma, pois a propriedade é de todos. Os homens tomam por mulher a que mais lhes agrade, podendo ser sua mãe, irmã ou amiga, já fazem distinção. Guerreiam entre si e devoram uns aos outros, inclusive os que matam em combate, cujos corpos penduram para assar sobre fogueiras. Vivem 150 anos. E não possuem governo.4

O trecho que acompanha a xilogravura foi feito especificamente para comentar a imagem, não formando parte do texto original da Mundus Novus. A descrição está baseada na própria xilogravura, que, por sua vez está inspirada na carta. Como se pode deduzir pelo fragmento, existe uma contradição entre a imagem e o texto explicativo, “os aborígenes andam nus”, mas na imagem os enfeites de penas se convertem em roupas que cobrem seus corpos.

O texto ajuda a conduzir o olhar para descobrir o que tanto o editor como o artista queria destacar na imagem. Assim, percebe-se o cuidado e o apuro com os detalhes que Froschauer teve ao destacar a beleza dos corpos, os enfeites corporais de penas, a decoração com pedras preciosas nos rostos e peitos dos homens5, o corpo retalhado, pendurado assando e sendo devorado, os arcos6 para as guerras e o amor livre.

A Mundus Novus7 destaca a inferioridade dos ameríndios, sua falta de fé, de rei e de lei, descrevendo-os como libidinosos e antropófagos, com uma dieta gastronômica baseada em carne humana, elementos que serão constantes nas descrições e na iconografia das décadas seguintes.

O texto da Mundus Novus foi baseado na Carta de Lisboa8, documento tido por autêntico, escrito por Américo Vespúcio e enviado a Lorenzo Dei Medici Julho de 1502. Ao contrário das cartas apócrifas, a Carta de Lisboa oferece menos informações, mas também se refere à nudez dos índios, à crueldade das guerras e ao canibalismo.

Não se sabe quase nada sobre o gravurista Froschauer, mas com toda certeza ele nunca esteve na América. Assim, quais seriam as fontes visuais em que ele se apoiou? E então caberia perguntar quais seriam os referenciais sobre antropofagia na iconografia medieval? Poderia a imagem de Johan Froschauer ter se inspirado nas gravuras da época sobre o paraíso, o homem selvagem das florestas e a Idade Dourada?

No caso das primeiras questões levantadas, a Imagem do Novo Mundo apoia seus elementos pictóricos especificamente nas imagens do paraíso9 e dos homens selvagens das florestas. Quais os argumentos que reforçam esta afirmação? Ao comparar os grupos de índios da imagem de Froschauer se percebe algumas diferenças entre os gêneros; já foi citada a diferença entre homens e mulheres a partir das pedras preciosas incrustadas nos rostos e peito dos primeiros. Mas as “roupas” e os enfeites que cobrem a nudez também marcam um diferencial entre os sexos.

Enquanto os homens exibem saias de penas mais lisas e longas, pode-se perceber que, no caso das mulheres, a roupa é diferente, pois parecem penas em diferentes sentidos. O mesmo estilo “desordenado” de “penas” encontra-se nas pequenas capas de alguns homens. Desse modo poderia ser levantada a hipótese de penas grudadas ao corpo como os Tupinambá costumavam usar10.

Estas saias de “penas” pictoricamente são muito próximas das saias de folhas das mulheres índias da xilogravura de Florença, que ilustrava a carta de Colombo 1493, que, coincidentemente, também apresentava homens barbudos11. Esta convenção de saias de folhas encontra-se comumente nas representações de Adão e Eva fugindo do paraíso e nas representações dos anacoretas do deserto12. Dessa forma, as “roupas” das mulheres na gravura de Froschauer seguem a convenção das saias de folhas, enquanto que na indumentária masculina o artista já executa algumas modificações e adaptações, convertendo as folhas em penas.

Não pode se negar o esforço do artista para apresentar a xilogravura como um retrato fidedigno e detalhado do relato sobre os habitantes das terras recém-descobertas por Vespúcio. Este esforço está evidente no texto, feito exclusivamente para acompanhar a imagem, e nos detalhes como pedras no rosto, armas, enfeites de penas, e também pela macabra presença dos membros humanos pendurados. Entretanto as origens das fontes que inspiraram a imagem de Froschauer não foram ‘apagadas’; detalhes como as barbas dos índios e as saias de folhas das mulheres traem a “etnografia” deste retrato de ameríndios.

Johan Froschauer apoia-se na iconografia difundida sobre o cotidiano do homem selvagem das florestas. Isto fica claro no episódio que está sendo apresentado na própria estampa. Na Imagem do Novo Mundo convivem duas visões opostas do selvagem: por um lado, a bondade natural, especificada no detalhe maternal da índia com seus três filhos e, ao lado deles, o homem que parece ser seu companheiro, resgata o mito do bom e nobre selvagem. Por outro lado, e contrastando fortemente a cena “familiar”, estão os restos humanos pendurados sendo cozinhados e os índios na prática do canibalismo, devorando um braço e uma perna, enquanto aflora a luxúria entre o homem que beija a mulher, a qual tem entre suas mão uma perna prestes a ser devorada13.

Na iconografia medieval dos séculos XV e XVI houve certa difusão das cenas quotidianas do homem selvagem das florestas realizando diferentes atividades domésticas, o que acabou criando toda uma etnografia imaginária14.

A essência do quotidiano e doméstico que as estampas transmitem sobreviveu na iconografia dos habitantes do Novo Mundo, porque os artistas tinham a pretensão de mostrar ao leitor o dia-dia desses povos “exóticos”. O mito medieval do homo silvestris estabeleceu o modelo de vida natural, o estereótipo do nobre selvagem15; por isso era freqüente encontrar nas iluminuras famílias formadas pelo casal de homens selvagens e seus filhos descansando tranqüilamente nas florestas, ou enquanto o homem desenvolvia alguma atividade doméstica a mulher amamentava e cuidava de seus filhos.

Entretanto, a maior parte da iconografia sobre o homem selvagem das florestas enfatiza mais suas atitudes negativas e agressivas; capturando e raptando donzelas e lutando com cavaleiros e feras. Os selvagens das terras distantes e exóticas “emprestaram” as caraterísticas de malefício, antropofagia e ferocidade que identificavam o homem selvagem das florestas16.

Neste ponto é importante fazer uma ressalva: o fato dos artistas terem aproveitado e adaptado as matrizes em madeira sobre imagens dos selvagens das florestas para inspirar as estampas dos habitantes do Novo Mundo, não deve levar a pensar que o homem selvagem das florestas européias tenha sido transladado ao selvagem do Novo Mundo. Muito pelo contrário, ele continua claramente diferenciado. O mito do homem peludo e selvagem que vive nas florestas pertence ao interior da cultura européia17.

As fontes que inspirariam a cena de Johan Froschauer sobre o canibalismo devem ser procuradas nas ilustrações que acompanhavam os relatos sobre povos de terras longínquas, monstros e seres prodigiosos18.

É o caso precisamente de uma iluminura que acompanha o relato de Marco Pólo, que apresenta três selvagens peludos com chifres. Um ataca um veado, outro ataca uma cidade muralhada onde se resguardam três soldados amedrontados, enquanto que um terceiro devora um braço humano e ao seu lado uma caixa contém uma perna, provavelmente do mesmo dono.

Uma estampa da Esopi fabularum (1501) da autoria de Sebastião Brant, apresenta três homens selvagens com barbas, armados com uma clava e um pau que abateram um homem, que jaz com o ventre aberto e o corpo mutilado. Ao mesmo tempo, dois selvagens barbados comem um braço, uma perna e os intestinos da vítima, enquanto que o terceiro parece ameaçar com sua arma outros três homens ao seu lado, obrigando-os a manter distância.

Como na iluminura do livro de Marco Pólo a xilogravura de Sebastião Brant também apresenta membros retalhados sendo devorados, sempre um braço e uma perna. Acredito que seja por ser as formas que mais facilmente distinguem o corpo humano. Esta estampa de Brant seria usada por variados artistas para compor as imagens sobre práticas antropofágicas do Novo Mundo. A xilogravura de Froschauer é bastante próxima destas imagens que serão constantes na iconografia dos séculos XIV-XV.

Artistas, como Froschauer, e editores aproveitariam as imagens existentes como um ponto de partida, por serem próximas à temática do relato que ia ser ilustrado, frente à dificuldade de partir de zero para criar algo novo, que não foi presenciado e não era conhecido.

En 1509, Doesborch publicaria em Antuérpia uma imagem de um casal Tupinambá cozinhando partes humanas penduradas em uma árvore19. O índio está de pé segurando uma arma, similar a uma lança; ao lado direito, sua mulher sentada tem uma criança no colo, enquanto outra criança fica ao seu lado. Á esquerda do suposto Tupinambá aparecem membros decepados de um corpo, pendurado em uma árvore sendo cozinhados por um fogo aceso em sua base. (fig. 2)

A imagem de Doesborch (1509) é muito próxima da xilogravura de Froschauer (1505); três partes são similares: primeiro, o índio em pé, que agora possui uma lança ao invés de um arco; segundo, a mulher sentada com seus dois filhos; e terceiro as partes penduradas de um corpo (cabeça e perna).



Em sua xilogravura Doesborch passa também a sensação de um episódio doméstico de uma família de Tupinambás, um casal e seus dois filhos, da mesma forma que com a xilogravura Imagem do Novo Mundo. Ao comparar as duas xilogravuras, a estampa de Doesborch acaba dando mais ênfase ao familiar que a de Froschauer, por ter selecionado só o casal e seus dois filhos. A composição das xilogravuras é próxima a uma imagem francesa, feita em tinta anterior a 1500, que apresenta na entrada de uma caverna uma família de selvagens. Um homem selvagem e peludo de pé com um garrote na mão direita, ao seu lado uma mulher, também coberta de pilosidade, está sentada numa pedra com uma criança pequena no colo e outra um pouco mais velha perto dela, também em pé.




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